Então, a decisão para o galante cavalheiro foi pronunciada com severidade:
“Podes escolher entre estas opções, nobre senhor. Poderás ter a mais bela mulher de dia, para mostrar nas festas, para os visitantes, para os assuntos oficiais e para a corte. Por outro lado, terás uma mulher horrenda em tua cama, pegajosa e malevolente, por quem terás repulsa.
A outra opção também te será complexa: Poderás ter uma mulher horrenda e asquerosa durante o dia, que te envergonhará diante do reino inteiro, comportando-se como uma ogra nas festas, nas recepções e nos encontros com os signatários de outros reinos. Em compensação terás uma mulher linda, graciosa, meiga, sensual e carinhosa a compartilhar contigo os lençóis. Ela afagará teu cabelo, te dará conforto após as batalhas e pronunciará palavras de apoio diante de tuas angústias.
Agora tu tens o poder de escolher qual das duas faces desta maldição preferes: a mulher linda à luz do dia e perante os olhos de teus súditos, mas horrorosa quando o sol desaparece nas montanhas; ou aquela feia na luminosidade das horas mas delicada e desejável quando o véu da noite cobre a todos nós com seu breu.”
O nobre cavaleiro olhou para um ponto fixo no horizonte e depois de poucos instantes de reflexão respondeu:
“A mim não cabe decidir sobre a vida de outrem. Se ela será feia ou bonita, desejável ou repugnante é uma decisão que só pode estar nas suas próprias mãos de princesa. A mim cabe apenas o direito de querê-la ou não. Não posso modificá-la diante do meu desejo, minhas ideias e minhas escolhas.“
Respirou profundamente, olhou para aqueles que lhe dirigiram a palavra e completou: “Deixem que ela decida como a maldição se fará. Prefiro viver ao lado de uma princesa que seja capaz de decidir sobre sua própria vida.“
E quando lhe foi oferecida a oportunidade de escolher como desejava ser perante seu amante o feitiço que nela habitava sumiu. Sim, de forma instantânea ele se foi, pois esta era a chave que a libertaria: o direito restituído de escolher o próprio destino e ser protagonista da própria vida. Liberta das amarras milenares do poder obliterante de uma cultura machista ela agora podia escolher seu caminho, fazer o que bem desejasse, dizer o que lhe viesse à mente, abrir seus lábios e beijar a quem seu desejo apontasse e amar aquele que seu coração abraçasse. Assim, solta, pôde finalmente seguir seu desígnio humano de cumprir com os mais altos fins de sua existência.
Fechando o livro, o velho olhou para os olhos do seu netinho e completou: “E assim ela viveu, feliz para sempre, mas não tenho sequer a certeza de que tenha se casado com o príncipe que a libertou. É possível, claro, mas é igualmente razoável que tenha até ficado só. E digo isso por uma única razão: o que aconteceu depois de cair o feitiço só ocorreu porque ela assim escolheu”.
Max voltou-se para mim e, sem mover a mão que segurava o café, falou. – Eles não haviam sequer secado os pés no umbral das duas décadas. – Para que falar assim?, perguntei. – Como? – Assim, de forma empolada, obtusa. Bastava dizer que era um casal, e que ambos tinham por volta de 20 anos. Qual o sentido de complicar um conceito simples? – Qual a graça de falar que eram jovens de 20 anos? Mais interessante é poder fazer de uma sentença uma frase contundente. Nunca ouviu falar de poesia? – Já ouvi sim… e daí? Continue. O casal tinha 20 anos. Eu permitirei que você declame suas poesias depois.
Max deu uma risada e prosseguiu. Eu sabia que estas firulas discursivas eram pura provocação, só para me irritar mesmo.
– Sim, estavam no bar que fica em frente à Faculdade de Direito, ou “de direita“, como dizíamos nós, os vizinhos do prédio da Medicina. O olhar da menina era interrogativo. Seu corpo levemente projetado para a frente parecia querer encontrar uma resposta que o outro guardava. O jovem, por sua vez, estava na defensiva. Recostado sobre o espaldar da cadeira plástica do bar, tinha na mão a xícara ainda fumegante de café com leite. No rosto a barba rala combinava com o cabelo desgrenhado, no melhor estilo “Estudante de Ciências Sociais”. Os jeans surrados e o tênis “All Star” completavam o quadro. Na mochila, sobre a cadeira ao lado, os livros do rapaz dormiam solenemente até serem despertados pelas primeiras aulas da manhã.
A menina era linda em sua jovialidade ingênua. Trazia as mãos à frente sobre a mesa, igualmente plástica, ornada por uma tulipa de cerveja borbulhante. A camiseta branca básica era encoberta por um blusão verde escuro, cujas mangas ultrapassavam os punhos, o que lhe dava um aspecto ainda mais juvenil. A pouca pintura, os lábios finos, os olhos doces e as maneiras firmes me diziam que ela estudava biologia. Ou enfermagem. Não, as enfermeiras são mais bravas. Uma bióloga, interessada em animais marinhos, caracóis, protozoários. Quem sabe seu interesse era apenas pelos vermes, como o que estava sentado à sua frente. Pelo menos parecia ser essa a sua ideia do rapaz.
Os braços do rapaz cruzavam-se à frente, como lanças e espadas em “xis” protegendo o escudo do seu peito. Parecia ter dificuldades em explicar algo. Talvez fosse pior: antes de explicar precisava entender. Ela apenas o olhava agora. Séria, mas calma, perfurava-lhe o rosto com uma mirada penetrante, mas ainda suave. Subitamente, ela fala:
– Quem sabe então você diz a razão do … – Como? disse eu, desviando o olhar da cena mental que construíra em minha mente. O que ela disse? – Não sei, Ric. Eu estava caminhando na rua e passei pela cena. Meu olhar era cabisbaixo, minha atenção estava mais nos carros à minha frente, pois eu teria que atravessar a rua em seguida. Ela falou sobre ele explicar a razão de algo. Cobrava dele explicações, uma justificativa para um determinado ato. Precisava que ele dissesse a ela o porquê de ter agido daquela maneira. Infelizmente não consegui escutar o fim da frase da bela menina. – Ok, continue…
– Ela continuava com as mãos fechadas por sobre a mesa, e seus dedos delicados e finos seguravam a barra do blusão verde. Projetou seu corpo mais à frente, cobrando uma resposta. E ela veio.
– Pois você é quem pode me dizer, disse o rapaz do cabelo desgrenhado. Você provavelmente tem mais condições de responder a esta pergunta do que eu. Disse isso apontando com ambas as mãos o próprio peito. Suas sobrancelhas se ergueram e ele encarou o rosto da menina, que permanecia imóvel, sem piscar.
– Então? Qual era a angústia que tomava conta daquela conversa? Qual a explicação possível, a justificativa, a palavra que ofereceria a ambos o alívio da tensão, de desconfiança? perguntei eu, querendo saber o final da história.
Max sorriu, sorveu um gole derradeiro de café, e disse.
– Eu não sei, Ric. Não faço ideia. Como disse, estava passando ao lado deles. Captei um fragmento minúsculo de uma conversa, que tudo indicava era movida pela mais banal das razões. Ciúme? Provavelmente. Talvez ela quisesse saber o porquê de um olhar, uma conversa, um “torpedo”, uma “curtida” no Facebook. Como saber o que se passa no coração desconfiado de uma mulher? – E o rapaz? O que fez? perguntei, mas já sem esperanças de obter uma resposta. – Ora, ele se defendeu. Pior, pode ter se defendido de nada. Talvez nenhuma culpa tivesse, nenhum e-mail, torpedo ou observação no Facebook de alguém. Mas, como amainar o coração de uma mulher insegura? Talvez ela estivesse “jogando verde”, insinuando algo para ver a sua reação. Por isso a resposta: “Bem, você é quem pode responder a isso…”. Ele não podia, pois sequer sabia do que se tratava. – Sei. Posso entender. – Pois o que mais me chamou a atenção na cena foi algo muito além do que estava colocado nas palavras de ambos, continuou meu cabeludo amigo. O que eu vi foi a paixão, travestida com uma de suas mil faces. Por alguns instantes eu me senti naquela mesa, mal saindo da segunda década de vida, inseguro, angustiado, usando um tênis velho, tomando um café no bar em frente à faculdade. E também me vi olhando para os olhos brilhantes de uma linda menina, cheio de paixão e de medo; angústia e desejo. O fragmento de cena que eu presenciei abriu um buraco de tempo por onde escorri, e acabei caindo no mesmo lugar onde estava, mas algumas dezenas de anos atrás. Pude então sentir a mesma sensação inebriante e absolutamente cativante de ser jovem e apaixonar-se. Pode haver algo mais terno e belo do que a paixão, quando acontece?
John Kennell – Um dos maiores nomes da pediatria americana, e que abriu as portas para a ciência do afeto.
Hoje eu estava me lembrando de um fato ocorrido há mais de dez anos e que foi um importante marco na minha trajetória como obstetra humanista e divulgador de ideias: a primeira vez que fui convidado a fazer uma palestra em inglês na América.
A minha primeira palestra nos Estados Unidos foi na Case Western Reserve University, em Cleveland, a convite do Departamento de Antropologia. Minha palestra era sobre as doulas, e a experiência de uns 4 ou 5 anos que eu havia acumulado trabalhando com elas. O convite foi da antropóloga Robbie Davis-Floyd, que estava apaixonada pelo movimento de humanização do nascimento no Brasil e queria que os ativistas tivessem oportunidade de falar de suas experiências. Como professora do departamento de antropologia da Case, fez o convite para que eu mostrasse a humanização do nascimento com ênfase no “brazilian way”. Havia por volta de 100 pessoas no local, principalmente doulas, enfermeiras, ativistas, estudantes de antropologia e algumas mães. Faltando não mais do que cinco minutos para começar a palestra eu não conseguia nem dizer “good morning” em inglês, de tão ansioso. Eu estava com muito medo de errar. Sim, o medo ancestral, o medo mais primitivo.
Pois para piorar a situação, quando eu estava me dirigindo ao palco, Robbie me puxa pelo braço e diz: “Esse senhor aqui quer te conhecer, e veio assistir a tua palestra“. Era um senhor de uns 80 anos, mas eu não o reconheci. Robbie então me apresentou a ele: “Este é o Dr. Ric, do Brasil. Ele é obstetra“. O velhinho me olhou nos olhos e, com uma espécie de ternura, me disse: “Ah, do Brasil. Você, por acaso, conhece o Dr Moysés Paciornik?” Sorri para ele e disse: “Claro. Ele e o seu filho Cláudio são meus amigos“. “Ah – respondeu o senhor de cabelos prateados, ele é o maior obstetra do mundo!“. Fiquei orgulhoso da menção elogiosa que aquele ancião americano fez sobre um ídolo meu. Coisa boa ver um brasileiro ser citado numa universidade americana. Então Robbie arrematou: “Esse senhor é seu colega, Ric, e o nome dele é John Kennell“.
Quando ela disse o nome da pessoa que amavelmente apertava minha mão o resto de sangue que eu tinha no corpo se esvaiu. Acho que fiquei pálido como uma folha de papel. Minhas pernas fraquejaram e minha voz desapareceu. Creio ter dito algo como “Uau, ergh, well, humm, that’s an honor!” e nada mais. Sorri e lhe cumprimentei efusivamente. Pela primeira vez eu faria uma palestra em inglês (isso já tem mais de dez anos) e de um assunto novo para mim: o trabalho das doulas. Aí aparece na plateia nada mais do que o CRIADOR das doulas, o pediatra americano que revolucionou o conceito de “vínculo” e que descobriu a importância do suporte psicológico, afetivo, emocional e físico de uma pessoa compassiva ao lado da parturiente, e que acabou por ser batizada de “doula”, a partir do livro “Breastfeeding, the Tender Gift” da antropóloga Dana Raphael.
Que pânico! Seria a mesma coisa que um “nerd” dos anos 80, que recém se deixou tocar por uma nova concepção gráfica para computadores – o Windows, ser chamado a palestrar sobre essa novidade e perceber que um senhor ruivo, de óculos e sardento chamado Bill Gates estava sentado na audiência. “Mas o que posso dizer diante de Deus, o criador de todas as coisas que cabem num computador?” pensaria o pobre menino. Pois foi exatamente como me senti: falando de uma concepção nova, uma nova formatação da assistência ao parto, diante daquele que, juntamente com Marshall e Phyllis Klauss, havia presenteado a cultura com tal descoberta.
Pois eu resolvi ficar em silêncio por alguns instantes antes da apresentação e me focar naquilo que poderia ser interessante para todos. Isto é: como um médico brasileiro interessado em melhorar o seu atendimento e focado numa perspectiva humanista poderia capacitar-se através da incorporação das doulas ao seu trabalho. Que trajetória eu havia percorrido, quais suas dificuldades e contratempos, e como esta experiência poderia ser disseminada para outros profissionais igualmente desejosos de uma mudança.
Foi o que fiz. Pensei com os meus botões “Ora, estou aqui. Estas pessoas querem que eu conte a minha história. Não há nada de errado em engasgar, em trocar palavras, pedir ajuda, ou mesmo cometer um equívoco. Seja o que Deus quiser.”
Falei por uma hora. Mostrei imagens de partos, falei de histórias engraçadas, contei dos meus temores, a minha curiosa entrada no mundo das doulas, o início do trabalho interdisciplinar, a entrada da enfermeira obstetra, os primeiros casos, as tristezas, os sucessos e a semente plantada para outros colegas no Brasil que se interessaram pelo tema e pela abordagem.
Claro que eu errei muito. Faltou vocabulário, mas sobrou cara de pau. “Azar, pensava eu. Que posso eu fazer? Ficar tímido, me esconder?” Essas não eram opções viáveis. Resolvi falar, e falar, e falar, como eu sempre faço. Contar coisas curiosas, mostrar a dificuldade inexorável de romper barreiras e ser o precursor de um modelo, mas ao mesmo tempo a perspectiva espetacular de fazer um trabalho novo, desafiador e gratificante.
Houve apenas um momento claro de tensão. Depois da palestra eu abri um tempo para perguntas e depoimentos. A maioria das perguntas era óbvia e muitas até previsíveis: “Como você foi recebido pelos seus colegas“, “O que os hospitais dizem a respeito?“, “Que resultados pôde observar?“, etc… Entretanto, houve uma pergunta – formulada por uma doula – que me fez pensar mais e me obrigou a responder com vagar e ponderação: “Como deve se comportar uma doula diante de uma indicação claramente errada de cesariana, ou diante de procedimentos equivocados do obstetra? Deve erguer a voz e defender sua paciente? Deve calar-se diante de um abuso? Como deve se comportar?“
Minha resposta foi simples, direta e clara: “Doulas devem centrar seus esforços no conforto da mãe. Qualquer esclarecimento sobre procedimentos pertence ao ativismo, e este não pode ser exercido no momento do parto. A psicosfera do nascimento deve ser límpida, e a cena do parto não pode se transformar numa batalha”.
Disse isso e fiquei em silêncio. Ninguém arrematou. Não sabia se havia uma discordância absoluta e constrangedora, ou uma silenciosa aquiescência. Olhei para Robbie que, simpaticamente, me sorria. Passeei o olhar por todos os rostos presentes, até que parei do lado direito da plateia e vi a mão do Prof. John Kennell timidamente se erguer.
Suei gelado, e minhas pernas tremeram: “Agora ele vai me destruir, pensei. Vai dizer que meus conceitos estão equivocados, que as doulas precisam se posicionar com firmeza, que estamos numa cruzada para eliminar más condutas de hospitais e que eu não deveria condenar doulas ao silêncio e à conivência com as práticas sem embasamento. Vou me jogar no lago Erie hoje à tarde, e meu corpo será resgatado daqui uns anos, em um cubo de gelo boiante, na costa do Canadá”.
Mas o prof. John, do alto de sua delicadeza e suavidade apenas disse: “Meu colega, o Dr. Ric, está coberto de razão. A entrada das doulas no cenário do parto é muito recente e deve ser levada com o máximo de cuidado e delicadeza. Não podemos sacrificar um modelo de sucesso comprovado por causa de lutas com as autoridades estabelecidas. Mesmo que a doula esteja certa, isso não será suficiente. Precisamos pensar em todas as outras doulas e os milhares de pacientes que podem ser prejudicadas se uma falsa ideia de intromissão por parte delas for disseminada. Doulas devem ser anjos silenciosos, e nunca devem fazer de sua ação um enfrentamento”.
Terminou sua manifestação e sentou-se calmamente. Depois, sorriu para mim e meu coração, como por encanto, voltou a bater.
Essa foi minha primeira experiência como palestrante fora do país. Muito mais do que a grandeza de conhecimentos, a abrangência cultural ou as qualidades de oratória – qualidades estas que não possuo – minha única virtude foi a coragem aliada à grandiosidade da mensagem. Sempre me envergonhei do fato de que um projeto tão desafiador e bonito como a humanização do nascimento precisasse de pessoas tão limitadas quanto eu. Entretanto, se minhas limitações eram tão evidentes, que o fossem também meu entusiasmo e minha coragem diante dos desafios.
No início deste milênio eu estava em Florianópolis num seminário internacional promovido pela ReHuNa com a Prof. Robbie Davis-Floyd. Enquanto aguardávamos pelas próximas palestras, no saguão do Centro de Conferências, uma jovem jornalista se aproximou do pequeno grupo que envolvia Robbie e lhe fazia perguntas sobre as origens e significados da humanização do nascimento. Aguardou o término das perguntas e fez a ela a seguinte indagação: “Ok professora Robbie, pelo que eu entendi de suas palavras a humanização do nascimento é um conjunto de técnicas, um protocolo diferenciado, um grupo de rotinas ou um método que visa um parto normal e a satisfação das necessidades das mulheres e seus bebês, certo?”
Olhei para Robbie com curiosidade, pois, assim como Robbie, também percebi que esta pergunta se inseria em um contexto muito maior. Sabia da enorme polêmica surgida a partir do que ficou conhecido como “método Leboyer” de partos “naturais”. Robbie conhecia a repulsa que o mestre francês teve, durante toda sua vida, com a ideia de que seus ensinamentos poderiam sem encapsulados e circunscritos como um “método”. Como sabemos, um método é um procedimento, técnica ou meio de fazer alguma coisa de acordo com um plano preestabelecido, um processo organizado, lógico e sistemático de pesquisa, instrução, investigação, apresentação etc. Humanizar o nascimento poderia ter um “método” que pudesse ser aplicado a todas as mulheres? Poderíamos ter planos preestabelecidos para atender o nascimento?
Robbie sabia que havia um truque que se escondia por trás da pergunta. Percebeu que a ideia era retirar a humanização do nascimento da esfera pessoal do médico e sacramentá-la na lei, nas paredes de um hospital, em manuais e nos livros textos. A ideia era olhar para esse movimento e criar mandamentos rígidos e imutáveis, gravados em “tábuas da lei”, que sobrevivessem aos milênios.
Robbie sorriu com aquele jeito de menina e, diante do inteligente questionamento da jornalista, respondeu: “Não, a humanização do nascimento vai além das normas escritas e afixadas em uma parede de hospital. Ela não pode ser burocratizada e reduzida a frios protocolos e rotinas, como se fosse algo dissociado das pessoas e alheio aos cuidadores do nascimento. Humanização do Nascimento, em verdade, é uma atitude, uma postura pessoal, subjetiva, emocional diante do evento do parto, mesmo quando as bases que a sustentam sejam racionais e científicas. É algo para além dos modelos de atenção, e que atinge a essência da relação entre cuidadores e gestantes, assim como de suas famílias e da comunidade.
Humanizar a assistência ao parto se expressa na forma como nos posicionamos diante da vida e do cuidado, como entendemos as grávidas e como as traduzimos, diante da complexidade infinita de um evento subjetivo e único que ocorre na intimidade do seu organismo. Isto, e não uma lista de procedimentos a fazer ou serem evitados, é a Humanização do Nascimento”.
At the beginning of this millennium I was in Florianópolis at an international seminar promoted by ReHuNa with Prof. Robbie Davis-Floyd. While we waited for the next lectures, in the lobby of the Conference Center, a young journalist approached the small group that involved Robbie asking her questions about the origins and meanings of the humanization of childbirth. She waited for the questions to finish and asked her the following question: “Ok, Professor Robbie, from what I understand from your words, the humanization of childbirth is a set of techniques, a differentiated protocol, a group of routines or a method that aims at vaginal and normal births, meeting the needs of women and their babies, right?”
I looked at Robbie curiously because, like Robbie, I also realized that this question was part of a much larger context. She knew about the huge controversy that arose from what became known as the “Leboyer method” of “natural” births. Robbie knew the repulsion that the French master had, throughout his life, with the idea that his teachings could be encapsulated and circumscribed as a “method”. As we know, a method is a procedure, technique or means of doing something according to a pre-established plan, an organized, logical and systematic process of research, instruction, investigation, presentation, etc. Could humanizing birth have a “method” that could be applied to all women? Could we have pre-established plans to attend birth?
Robbie knew there was a trick behind the question. She realized that the idea was to remove the humanization of birth from the personal sphere of the doctor and make it sacred in the law, on the walls of a hospital, in manuals and textbooks. The idea was to look at this movement and create rigid and immutable commandments, engraved on “tablets of the law”, that would survive the millennia.
Robbie smiled in that girlish way and, faced with the journalist’s intelligent questioning, replied: “No, the humanization of birth goes beyond written norms and posted on a hospital wall. It cannot be bureaucratized and reduced to cold protocols and routines, as if it were something dissociated from people and alien to birth caregivers. Humanization of Birth, in fact, is an attitude, a personal, subjective, emotional posture in the event of childbirth, even when the bases that support it are rational and scientific. It is something beyond the models of care, and which reaches the essence of the relationship between caregivers and pregnant women, as well as their families and the community.
Humanizing childbirth care expresses itself in the way we position ourselves in the face of life and care, how we understand pregnant women and how we translate them, in view of the infinite complexity of a subjective and unique event that occurs in the intimacy of their organism. This, and not a list of procedures to be done or to be avoided, is the Humanization of Birth”.
Antes de continuar é importante explicar que quando falo das parteiras estou explicitamente me referindo às profissões que atendem partos. Estas estão englobadas no conceito de “skilled attendants” da OMS. Minha ideia ao falar em parteira(o) é debater esta questão por cima das divisões corporativas que, aliás, apenas atrasam as discussões sobre o nascimento humano.
Eu não gosto do termo “obstetriz”. Quando fui, há alguns anos, convidado a falar no curso de obstetrícia da USP (EACH) dei um especial destaque a este tema para os alunos, apesar de não ser algo que pareceu muito importante para eles naquele momento. Segundo Robbie, sempre que uma mulher que atende partos se nomeia PARTEIRA ela está se conectando – de forma inconsciente, mas consistente – com os milênios de cultura e aprendizado de atuação junto às mulheres no momento de parir. Elas trazem consigo a alma das parteiras, a conexão feminina do “estar ao lado”, o respeito à fisiologia, o culto à paciência e o desejo de ajudar as mulheres a suplantarem seus desafios.
Por outro lado, sempre que estas profissionais insistem no termo “obstetriz” elas procuram, igualmente de forma inconsciente, se conectar ao modelo de atenção dos profissionais médicos, que surgiram muito depois, e acabam fazendo deles o paradigma de suas ações. Portanto, estas últimas tendem a ser mais intervencionistas, menos pacientes, mais técnicas e mais próximas do discurso médico. Também acredito que o termo adequado para descrever a ação das parteiras é a parteria, que tem o mesmo significado de midwifery.
Eu mesmo, desde há muitos anos, me descrevo como “parteiro”, quase numa provocação, pois este termo agora é utilizado de forma pejorativa pelos meus colegas. A arte de partejar, de atender partos normais e de respeitar a rota de fisiologia foi perdendo considerável terreno nos últimos anos. Passamos de uma espécie de “orgulho” de parteiro, no passado não muito distante, para um desprezo explícito a estas capacidades, na modernidade. E tal mudança tem a ver com o domínio total de vertente médica de atenção ao parto, que se tornou absolutamente hegemônica exatamente quando a última geração de profissionais que haviam aprendido a partejar com parteiras se aposentou. Hoje em dia, os alunos das escolas médicas aprendem obstetrícia com profissionais que nunca viram o trabalho de uma parteira, e isso é muito triste, mas explica de forma muito clara a atual situação.
Lembro um fato, ocorrido no hospital de periferia em que realizei meu treinamento enquanto estudante de medicina, e que me ofereceu uma imagem muito clara do que seriam os modelos de atenção ao parto vistos através distintos vieses.
Um colega recém-formado adentrou o espaço do refeitório enquanto tomávamos o lanche da tarde. Ele estivera ocupado no centro obstétrico atendendo um parto, e chegou atrasado ao nosso encontro vespertino para o café. Sentado na ponta da mesa eu era o estudante de medicina que vivia “peruando” plantões, perguntando coisas, investigando palavras, discursos, atitudes e olhares. Enquanto acercava-se da mesa simples coberta por uma capa plástica de estampa floral, meu colega exclamou:
– Vocês perderam uma maravilhosa aula de aplicação de fórceps de Kielland agora mesmo.
Sentou-se ao nosso lado na mesa e comeu seu sanduíche ainda orgulhoso de suas confessas habilidades. Para ele, a capacidade “positiva” de indicar um procedimento, produzir uma ação, aplicar uma técnica, usar uma ferramenta e conseguir um resultado eram o ápice do proceder médico. Eu conseguia perceber com clareza as razões para a felicidade e o orgulho que ele ostentava. Estava claro para mim, menino de 23 anos que cursava a escola médica, que o desiderato máximo da nossa profissão passava por essa sucessão clara de ações: diagnosticar, propor, intervir e reparar.
Mas a alegria do meu colega me provocou uma consideração um pouco mais profunda. Fiquei pensando que este discurso médico se assentava sobre um paradigma interventivo, masculino, racional e objetivo. Poderia, sem dúvida, produzir resultados muito bons nas inúmeras patologias que encontramos na experiência diária com o tratamento de pacientes. Entretanto, com o parto – a feminilidade em sua mais intensa radicalidade – a abordagem precisava ser diversa, pois existia uma formatação original, “de fábrica”, implantada em toda a mulher desde seu nascimento, que a conduzia para a realização do parto, sem que a ação interventiva humana fosse necessária. A maneira de enxergar o evento precisaria ser obrigatoriamente diversa e passaria longe do modelo de intervenção. Não há, via de regra, algo a ser consertado, ajustado ou corrigido. Assim deveria ser, a não ser que…
A não ser que considerássemos todo nascimento como uma patologia, um erro, um equívoco perigoso. Para entender o parto como um ato disfuncional seria necessário enxergar a própria mulher como essencialmente defectiva. Assim, a ideia de uma mulher “malfeita” produziu a necessária autorização social para a intervenção extemporânea ou intempestiva, mas que com o passar dos anos tornou-se a norma.
Minha brincadeira mental mais engraçada é imaginar a cena do meu colega em um universo paralelo, no mesmo refeitório do hospital de periferia, os mesmos pães na cestinha, o queijo fatiado em retângulos irregulares, o presunto magro, a térmica de café e as xícaras velhinhas com as bordas lascadas. Pela mesma porta entra uma parteira com um sorriso largo, os dentes brancos enfileirados e felizes, os olhos brilhando, os cabelos revoltos pelo gorro recém tirado, os olhos ainda vermelhos pela emoção que acabara de passar.
– Vocês perderam uma maravilhosa aula de parteria avançada agora mesmo, meninos.
Diz sem tirar o sorriso do rosto, enquanto pega nas mãos o pãozinho que aguardava sua vez de ser devorado.
– E o que você fez? pergunto eu, entre curioso e afoito para ouvir sua história.
The hands, not hers, clasped in the lap, while teardrops roll down the pale face. The pain she feels in a body not her own, the words she speaks that shine in the darkness of doubts, opening a glimmer of hope in this night of the flesh. The fatigue that feels like hers, the same questions she once made for herself. The need to scream—an imperative in her own opened mouth, and the lament that groans in the looks she gets. Time that passes slowly, like a little ship on the horizon approaching the harbor with the slowness of centuries. The sneaky time hiding behind the clock, sly and pretending to be paralyzed. And the sound of herself, that silences in her throat yet is audible in every pain, every wave and every move.
She looks, watches, weeps, nurtures, and enjoys a joy that is not hers, a pain that she builds for herself, draining it from the sister by her side, who moves, transmutes, leaves the cocoon and emerges.
“Yes, she thinks. If anything I can give, may it be my silence. May my presence be diaphanous for you. If I have something to offer, may it be with my hope and my love. If I can ask for something, may I ask for the privilege of remaining with you now while, through your pains, you build the miracle of everyday life being made.“
Quando da visita do papa em 1980 ao Rio Grande do Sul, mais exatamente na minha cidade – Porto Alegre – foi realizada uma grande festa de recepção a ele. Nessa oportunidade houve uma gigantesca mobilização da população da província para a chegada do sumo pontífice em terras gaúchas. Entre as manifestações mais curiosas todos se lembram daquela, na frente da Praça da Matriz, quando o público em uníssono bradou com fé e paixão: “Ucho, ucho, ucho, o Papa é gaúcho!”
Quando buscaram encontrar a origem de tamanha explosão de criatividade e poesia ufanista, encontraram um menino mirrado, cabelos escorridos, carinha de anjo rebelde, com as mãos carregadas de panfletos mostrando o rosto sisudo e sereno do “Papa do Povo”. Ao pé do palanque armado com canos e madeirame, com os olhos brilhando e o coração disparado de pura alegria infantil, o menino que havia criado o refrão não contava mais do que 14 anos e repetia a frase, mesmo quando ela já se havia extinguido na boca única da multidão que se aglomerava na frente da Catedral Metropolitana.
Uma página do site do hospital que proíbe doulas mostrava uma criança negra, linda por sinal, e uma pergunta abaixo da imagem: “Minha filha tem os cabelos excessivamente crespos. Com que idade posso fazer alisamento”? Muitas pessoas se indignaram com a pergunta (fictícia ou não) dessa mãe, por entenderem que se tratava de racismo, além de estimular vaidade em crianças muito pequenas. Depois da chuva de protestos contra a proibição absurda e grosseira da presença de doulas, a página que continha essa pergunta sobre cabelos de bebês também saiu do ar. Tenho uma história que pode lançar uma luz sobre isso. Claro, entendam como uma história que ocorreu há 30 anos, em um hospital da minha cidade, no sul do Brasil.
Estava na fila do hospital para o almoço. Era residente do primeiro ano do Hospital e meu irmão residente de segundo ano. Conversávamos sobre tratamentos clínicos, interações entre pediatras e obstetras (meu irmão estava terminando a residência em pediatria aquele ano) quando um casal com um bebê se aproximou. Era um casal de negros. O homem um sujeito de estatura média, cabelos raspados ao estilo “afro”. A mulher era uma negra, com o tom da pele bem mais “café com leite”, uma cor, aliás, bem brasileira, que dificilmente se vê nos Estados Unidos, pois que os puritanos americanos a achavam degradante.
Nosso “cadinho de raças” tem, para muitos estudiosos, esta raiz cultural. Somos um país mulato, misturado e, como diria o nosso ex-presidente Fernando Henrique, “só é racista quem não conhece sua árvore genealógica”. Eu, por exemplo: nome inglês, cara de branquelo, pai pernambucano, avós ingleses, bisavós espanhóis e portugueses do Alentejo. Do Alentejo uma pele mais escura, da “mouraria”. Dos mouros para a África, e de lá venho eu. Mas, voltando à história, o pai do bebê chamou meu irmão, que estava na fila, e pediu para falar-lhe. Marcus afastou-se da fila e por alguns minutos falou com o casal, que mostrava para ele uma ficha verde, para onde apontavam com insistência. Alguns minutos depois meu irmão volta para a fila com um ar assustado.
– Que houve, perguntei. – Não vais acreditar o que eles estavam solicitando. Eu fui o pediatra que atendeu o nascimento daquele bebê há dois dias. O papel que eles me mostravam era a ficha pediátrica. Nela estavam escritos os dados principais do nascimento do menino: peso, comprimento, apgar, e … cor. Evidentemente eu coloquei a cor como sendo “negra”. Pois o pai estava solicitando para que eu mudasse a cor do bebê na ficha. Sim, ele queria que seu filho fosse oficialmente… “branco”. – Mas… como assim?, disse eu. Eu vi o casal, o pai era preto, a mãe mulata. E também vi a criança. Você por acaso não esqueceu de fazer o… – Sim, ele disse… claro que eu fiz o “teste do saquinho”. É preto, cara, claro que é… – Mas por quê? Qual a razão para isso? perguntei – Só um mundo ainda racista pode explicar isso, disse meu irmão desanimado…
Uma sociedade que criminaliza a cor da pele, que desvaloriza o ser humano pela etnia e afasta seres humanos por graus variáveis de melanina acaba produzindo cenas como essa. O pai dessa criança estava apenas tentando tirar do seu filho a penalização social de ser negro em uma sociedade dominada e controlada pelos brancos. Eliminar a negritude de seu filho parecia o melhor a fazer, pois tal ação poderia livrá-lo de um fardo pesado que carregaria por toda a sua vida. Ser negro, nos anos 80, era muito pior do sê-lo hoje em dia. Agora temos o sistema de cotas, que de uma forma rápida tenta equalizar o fosso que que a cultura escravagista cavou nesse país, separando negros e brancos pelas diferenças de oportunidade. Somente agora estamos vivendo em uma sociedade mais respeitosa, e ainda assim alguns abusos são encontrados.
Entretanto, muito ainda há a fazer para se construir uma sociedade justa e digna para todos. Eliminar o racismo é uma dessas tarefas que precisamos tratar com urgência. A mãe que quer livrar a filha dos cabelos crespos não está fazendo algo semelhante ao que este pai desejava para seu filho, há 30 anos?
Lembrei de uma história que eu acho muito emblemática dessa situação e que aconteceu no segundo parto de uma paciente minha que teve 3 filhos, sendo o último um parto em casa (que fez com que ela mudasse totalmente os planos para a sua vida, e decidisse ser doula e, agora, enfermeira obstétrica). Quando se encontrava nos momentos finais de seu segundo parto seu médico a colocou naquela conhecida posição de “litotomia” (também conhecida como posição de frango assado). Além disso, ele fazia coro com a sonorização mântrica habitual de “comandar” o parto, com gritos, frases feitas, etc…
– Força comprida, não para, não para. Prenda a respiração e empurre sem parar !!
O obstetra continuou assim por um bom tempo, enquanto a pequenina coroava lentamente, dentro do seu próprio tempo, apesar de prejudicada pela ambiência, os gritos e a posição desfavorável. Passados alguns poucos minutos ele resolveu escutar os batimentos cardíacos do bebê, o que é uma conduta adequada e baseada em evidências. Entretanto, provavelmente por causa da posição muito baixa de um bebê que já estava coroando, ele não conseguiu escutar os batimentos. Talvez – esta a hipótese mais provável – o coraçãozinho do bebê estivesse atrás do púbis e o meu colega, no afã de se acalmar com o som dos batimentos, não teve paciência para procurar com mais vagar. Diante da ausência de som tranquilizador brotando do sonar ele ficou apavorado, o que é muito comum entre os profissionais que, por formação, desconfiam das mulheres e dos mecanismos de parto, acreditando que toda a mulher é uma bomba relógio prestes a explodir. Com um bebê coroando e sem saber o que fazer, ele falou para a sua paciente, com a voz entrecortada de pânico:
– Bem, seu bebê tem que nascer, agora você vai precisar me ajudar…
Logo depois o bebê nasceu. É claro, um parto com “kit intervenção completo”: Kristeller, episiotomia, etc… O Apgar foi excelente, o bebê logo chorou e foi levado pelos pediatras. Tudo bem, como normalmente acontece, apesar das condutas equivocadas e/ou exageradas. Entretanto nunca esqueci o que minha paciente falou. A frase do seu obstetra é, para mim, emblemática da “couvade” da obstetrícia, a expropriação furiosa da medicina ocidental sobre o fenômeno do parto.
“Bem, seu bebê tem que nascer, agora você vai precisar me ajudar…”Como assim? Para parir uma mulher tem que “ajudar” o médico? Não seria o contrário, o médico ajudar a mulher, principalmente evitando gritos e procedimentos desnecessários e abusivos? Mas, no mundo contemporâneo o parto não pertence mais às mulheres. O nascimento nos dias atuais é algo que médicos e hospitais fazem, e as mulheres são meras ajudantes. Pior ainda é o fato de elas serem consideradas como um “obstáculo” à boa condução de um procedimento médico, totalmente incapazes de favorecer um nascimento, de forma que ele ocorra com segurança e a “necessária” rapidez. Para transformar esse quadro, só se mudarmos a maneira como as mulheres enxergam a si mesmas.
Uma pergunta, para estimular a reflexão: Quando a gente dá um presente, que tipo de mecanismo psicológico se produz, qual o processo mental que ocorre e quem verdadeiramente recebe o benefício? Digo isso porque vejo muitos avós dando presentes para os netos (mas não apenas avós; tias, mães, etc…), mas o verdadeiro presenteado me parece ser quem efetivamente DÁ, e não quem recebe. As descrições que elas me fazem deixam muito claro que o presente funciona (inconscientemente, é claro) como uma forma de pagamento para o verdadeiro produto: o agradecimento que o segue. Quando uma criança recebe um brinquedo (que ela joga fora logo depois) e agradece dizendo “Obrigado vovó, eu te amo!” eu me questiono quem realmente recebeu e quem ofereceu. O problema é que muitas pessoas usam presentes exatamente com o intuito de receber afeto de volta, criando nas crianças a noção de que existem mediadores nas demonstrações de afeição e carinho. Isso eu acredito ser profundamente deletério para o desenvolvimento dos pequeninos.
Max sempre me disse: “As coisas verdadeiramente importantes na vida são absolutamente gratuitas“. Eu não compro presentes para os meus filhos desde que eles eram pequenos. E fazia de propósito. Natal na minha casa era com chazinho, bolo, avós, tias, e sem presentes. Eu me negava a entrar no círculo vicioso dos presentes. Não há como fugir dessa troca de favores regulado pelo dinheiro, a não ser com uma atitude drástica. Quando meus filhos eram pequenos a Zeza, reuniu os avós e algumas tias e disse: “Não quero presentes para os meus filhos. Natal não é para isso. Não quero criar uma mentalidade consumista em crianças pequenas.” E eu apoiei inteiramente.
Eu creio que dar presentes para crianças pode ter um efeito deletério, inadequado e também pode produzir efeitos ruins em longo prazo. Mas é claro que não é o presente em si que é ruim, mas a carga afetiva que o acompanha. Criar uma mentalidade consumista em crianças, onde o dinheiro media carinho e amor, pode destruir a ideia central de que a afeição deve se bastar por si, e não ser comprada. É claro que comprei presentes para meus filhos durante vida deles, mas também me perguntei quem é que estava ganhando alguma coisa, e me questionei sobre o “preço” verdadeiro que estava sendo pago. Dar presentes mascara, muitas vezes, necessidades afetivas de quem presenteia. E não estou generalizando, mas (como disse na primeira linha) provocando uma reflexão sobre o verdadeiro valor dos presentes, dados e recebidos.