Arquivo da categoria: Medicina

Nascer em Paz

“O nascimento em paz é uma força capaz de galvanizar energias transformadoras e produzir reverberações que atravessam gerações. Hoje já temos uma grande legião de pequenos que tiveram a oportunidade de vivenciar partos mais suaves e dignos e cuja vivência fará a diferença no futuro. Muito bom saber que existem obstetras, parteiras, doulas, pediatras e demais profissionais que conseguiram entender a amplitude e o significado dos primeiros instantes e dos primeiros anos para muito além da saúde física e do “silêncio dos órgãos”.

A estas pessoas – que ousaram olhar o parto com cuidado e delicadeza, rompendo a fronteira do “cuidado com as doenças” e olhando para cada gesto e cada palavra com responsabilidade – o meu profundo agradecimento. Estes profissionais estão ajudando na construção de uma nova humanidade, cujo imprint inicial será o do amor e do afeto, e não mais o da violência e do abandono.”

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Medicina Defensiva

A chamada “Medicina defensiva” não é necessariamente uma atitude antiética, mas, dependendo da situação (quando a autodefesa se sobrepõe ao cuidado) pode vir a ser. Fazer uma cesariana por ser mais segura para o médico, arriscando o bem estar de mães e bebês, é um exemplo clássico e fácil de entender. Medicina defensiva é apenas a doença da Medicina, uma forma de relação terapêutica em que cuidador e paciente não se conectam, não confiam um no outro, não se relacionam no nível pessoal – apenas técnico – e tem medo recíproco.

Essa relação é assentada sobre a desconfiança mútua, regida pelo signo do medo e fomentada pela indústria da judicialização. Diante da deterioração de uma relação tão antiga quanto a própria humanidade, e que deveria se fundar pela confiança e pelo afeto entre cuidadores e pacientes, não é de se admirar que ambos tentem se defender de possíveis agressões assumindo uma posição acuada, amedrontada e defensiva.

Ingrid Levine, “From Healer to Hell”, Ed Printemps, pág. 135

Ingrid Levine é um médico epidemiologista canadense, nascido em Ottawa em 1945. Escreve sobre relação médico-paciente, epidemiologia, saúde da mulher, medicina quaternária,

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Mais ecografias

Sobre o abuso cada vez mais descarado de ultrassonografias na gravidez:

Não existe NENHUMA base científica para justificar essa barbárie ultrassônica. Isso é uma mistura de capitalismo abusivo com ignorância ancorada na insegurança. Esta insegurança, por sua vez, é produzida pela cultura e amplificada pelo discurso médico, porque os médicos se fortalecem e empoderam quanto mais alienada e assustada estiver uma gestante.

Todos ganham: médicos, clínicas, especialistas, enfermeiras, hospitais, indústria farmacêutica e de equipamentos (a que mais lucra) e a medicina como biopoder. Só perdem mães, bebês e a sociedade. Justo, não lhes parece?

É um absurdo. Cada vez que um médico chefe ou um gestor estabelece esse protocolo insensato e sem embasamento o seu Toshiba e o seu Siemens abrem uma garrafa de Champagne Moet Chandon e caem na gargalhada.

Quando uma mulher chora ao ver seu bebê no aparelho de ultrassom ela quase sempre chora de alívio, e não de emoção. O trabalho de destruir sua autoconfiança como mulher e gestante a leva a depender das máquinas para construir uma segurança que a medicina e a cultura retiram dela.

Peço licença para fazer uma analogia: Se houvesse um leite que fosse absolutamente igual ao leite materno sem NENHUMA diferença entre as composições, acreditas que não faria diferença alguma entre essa variedade e a natural?

Existe muito mais do que um exame em qualquer exame. Um exame, assim como o ato de amamentar carregam significados que extrapolam sua operacionalidade. Eles agem no simbólico, ultrapassando os limites de sua ação física e funcional. Dar uma mamadeira e fazer ecografias simbolizam a defectividade essencial da mulher, que precisará dos recursos outros (a tecnologia) para dar conta de suas questões fisiológicas de gestar e maternar. Esses símbolos REFORÇAM a imagem diminutiva da mulher na cultura por colocá-la como essencialmente incompetente para dar contas, por si mesma, dos seus desafios de mulher.

Não se trata de permitir ou não a realização de um exame. Nesse aspecto é igual ao abuso de cesarianas. É óbvio que existem malefícios nesses abusos e que precisam ser criticados à exaustão, mas ainda prefiro mulheres livres para tomar decisões erradas e tolas (na minha perspectiva e na da ciência). O texto não tangencia a questão de cercear escolhas, mas infere que essa “escolha” NUNCA é totalmente livre e sofre condicionamento da cultura e do médico enquanto significante. E este médico tem muito a lucrar com isso, por esta razão estas opções tem aspectos éticos relevantes.

Uma ultrassonografia expropria simbolicamente a gestação de uma mulher ao colocar esta relação intermediada por uma máquina. Tudo o que ocorre depois disso é marcado por essa intervenção invasiva, em maior ou menor grau.

O discurso médico é a tradução da visão de mundo da medicina ocidental contemporânea com a qual convivemos. Mesmo sendo diverso e plural não é difícil traçar uma linha que nos conduz à fala da Medicina na cultura. O mesmo e pode dizer do discurso jurídico ou político.

Dizer que não existe um discurso médico dominante – que é iatrocêntrico, etiocêntrico e tecnocrático – porque existem médicos que “respeitam pacientes e evidências” é o mesmo que negar a supremacia da visão alopática porque conhece alguns homeopatas; é o mesmo que negar o machismo porque alguns amigos lavam a louça…

Na obstetrícia a existência de hospitais com 90% de cesarianas sepulta essa discussão. Houvesse respeito pelos pacientes como DISCURSO HEGEMÔNICO e isso jamais seria admitido ou tolerado.

Eu entendo o cuidado para não afastar os bons médicos com essa perspectiva e esse conceito mas na minha opinião os bons profissionais são capazes de fazer mea culpa e exercitam a autocrítica. Nenhum bom médico que conheço nega a crise ética da medicina, que nada mais é do que um dos milhares de braços da crise do capitalismo mundial.

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Rituais mutilatórios

E quanto aos rituais…. eu sou DEFENSOR árduo dos rituais. Eles são fundamentais para a cultura. Natal, Páscoa, Pesach, ano novo (cristão, chinês, hebreu), bodas, aniversários, funerais, etc. A questão é que todos os rituais desnudam os valores culturais. Estudei por 30 anos os rituais de parto para me convencer que eles apontam para os valores do patriarcado e que se assentam sobre o mito da defectividade essencial da mulher. Esta é a questão central: os rituais nos mostram quem somos!! Fazem isso porque operam na sombra do inconsciente e não sob a luz da razão!

Por isso eles são poderosos e reveladores. Sob a luminosidade da razão eles murcham, secam e ….. se transmutam. Os rituais não são estanques e imóveis; eles caminham dois passos atrás do nosso conhecimento e dos valores sociais, e nos seguem de perto. Quando a razão impõe um novo entendimento da realidade, os rituais se modificam para se adaptar à novidade. Os rituais são eternos, mas não imóveis. Sua metamorfose adaptativa é o que lhes confere a imortalidade.

Acabar com as mutilações genitais tem o mesmo sentido de terminar com os sacrifícios sobre animais que fazíamos em um passado não muito distante. Pareciam ter sentido, mas aos poucos – calcinados pela luz da razão – foram desaparecendo. O mesmo precisa ocorrer com os rituais humilhantes ou violentos – como as mutilações.

Se as mutilações tinham alguma vantagem higiênica e identificatória há milhares de anos estas funções desapareceram. Ninguém pode admitir que sua proximidade com Deus se deve por ter a vulva deformada ou o prepúcio amputado. A ciência inclusive nos mostra o quanto perdemos de sensibilidade e prazer com estas perdas e cortes. A abolição destas mutilações em crianças é um marco civilizatório essencial.

Estabeleça-se que nenhuma criança pode ter seu corpo violado por práticas ritualísticas e mutilatórias e que qualquer adesão a estes grupos religiosos através dessas práticas só possa ocorra após a maioridade. Essa mudança nas práticas permitiria que as marcas, quaisquer que sejam, ocorram sob o controle de um sujeito livre para tomar decisões perenes sobre o seu próprio corpo.

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Passientes

Passientes

A forma como chamamos as pessoas a quem atendemos sempre foi motivo de debates porque sabemos que a maneira como as nominamos carrega valores simbólicos que inevitavelmente levam a atitudes e modulam relacionamentos, mesmo que inconscientes.

Algumas pessoas da área psi os chamam de “analisandos”, que poderia ser usado por psicanalistas, mas não por médicos. Outras formas foram propostas, como “interagentes”, mas nenhuma me seduziu. Sempre que eu era criticado por continuar usando a palavra paciente – que remeterá à passividade deste – eu respondia com um “me ofereça uma alternativa”.

Outra proposta surgida há tempos foi o uso da palavra “clientes” que para mim soava muito pior, pois mercantilizava a relação. Colocava a relação médico-paciente no “código do consumidor”, com todos os parefeitos que isso possa ocasionar.

Desta forma, enquanto não me oferecerem uma palavra melhor ficarei com a tradicional, tentando oferecer-lhe novos conceitos e entendimentos, e com a consciência de que, se a sua origem um dia nos remeteu a um olhar de atividade sobre uma alma passiva, é tempo de  subverter está esta lógica e colocá-lo como condutor de seu destino e sua saúde, questionando sua passividade, o que deve ser o objetivo de um cuidador consciente.

Por outro lado, “paciente” sempre me ofereceu a conexão possível com outra palavra latina: “passion“, e esta forma de ver aquele que nos busca me interessou e cativou.

Afinal o que é um “paciente” senão aquele que nos encontra para trazer à tona suas paixões? Como um tesouro, ele as entrega à nossa visão com-passiva, esperando que as trataremos com a devida consideração, carinho respeito e atenção.

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À Esquerda

Existem, sim, muitos médicos de esquerda no Brasil, em especial na medicina social, medicina de família, epidemiologia e … paramos por aí­. Entretanto, a gigantesca maioria dos médicos do Brasil é direitista, conservador e – em alguns casos – claramente fascista – como o “dignidade medica” acabou trazendo à tona.

Porém, como poderíamos imaginar algo diferente? Em uma fala que apresentei em 3 países diferentes (Estados Unidos, Escócia e China) mostrei que o estudante de medicina médio brasileiro é branco (87%), mora com pais que ganham 30 salários mínimos mensais (30%), 40% tem irmão ou pai médico, 75% tem pai com curso superior e 65% tem a mãe com ensino superior completo. Como esperar que esses estudantes, egressos da elite brasileira, não reproduzissem as atitudes e os valores do estrato social que os acolheu desde o nascimento? Seria uma brutal ingenuidade esperar da corporação médica algo que atingisse em cheio seus valores mais profundos. Não virá daí­ a linha de frente das reformas que esperamos.

Por esta razão, para mudar a face da medicina brasileira (especializada, elitista, burguesa, branca e conservadora) é essencial mudar a forma de ingresso. É preciso criar cursos populares de medicina voltados aos estudantes pobres e da periferia, com currículo de primeiro mundo, especializado em saúde primária e nos 4 campos fundamentais: pediatria, gineco-obstetrícia, clínica médica e cirurgia para inundar o Brasil de clínicos gerais e médicos de família.

Esse é um dos caminhos – ou um dos mais desafiadores – para sepultar de vez uma medicina burguesa e que atende aos interesses das elites e dos grandes conglomerados hospitalares e farmacêuticos.

Ninguém duvida de que é importante ter um ensino médio de qualidade, mas por que devemos achar que apenas os alunos de periferia e mais pobres precisam disso para cursarem Medicina? Qual a relevância disso para universalizar o ensino da medicina? Minha tese é de que devemos democratizar o ensino para que tenhamos pessoas de todas as classes atendendo a população, e não apenas aqueles produzidas nas camadas mais abastadas e brancas da população.

Não vejo também qualquer problema em treinar alunos em universidades públicas, privadas ou populares para a realização de procedimentos de alta complexidade? Porém, tenhamos em mente que “cirurgias robóticas” ou o uso de tecnologias caras e sofisticadas tem impacto zero na saúde da população; é uma estratégia para auxiliar um número extremamente restrito de pacientes. Pensemos do ponto de vista do incremento de saúde após a introdução de uma técnica médica qualquer (Rx, ultrassom, aspirina, cirurgia robótica, antibióticos, tomografias, quimioterápicos, etc…) e entenderemos que adicionar açúcar a uma solução salina tem muito mais impacto na saúde das populações do que tecnologias sofisticadas e caras como ecografia, MRI e tantas outras.

Estas atitudes – muitas vezes simples e baratas – melhoraram a vida de milhões de pessoas, e não apenas de alguns poucos. Muito mais importante, para qualquer país do mundo – desenvolvido ou não – é uma excelente atenção básica à saúde, com recursos adequados e de forma preventiva e não intervencionista. O que precisamos deixar para trás é um paradigma médico ultrapassado e mercantil, baseada na sofisticação, no dinheiro, no mercado e para a atenção de pouquíssimas pessoas, quando o que precisamos é de uma visão de medicina que seja útil e adequada para todos.

Falta Ivan Illich nas faculdades de Medicina…

“Vidros nas janelas e cuecas limpas fizeram mais pela saúde do mundo do que todos os remédios jamais produzidos pela indústria”

Ivan Illich

Podemos ainda aceitar que o paradigma americano é adequado para o mundo? Pois tenhamos em mente que os Estados Unidos é o 50o país em mortalidade materna e o 52o em mortalidade neonatal, e tem resultados piores do que qualquer país europeu – incluindo aí Albânia, Grécia e Ucrânia. Os Estados Unidos é um dos poucos países (5 apenas) em que a mortalidade materna aumenta!! É o mesmo país onde se pode fazer “cirurgias robóticas”, mas a assistência é restrita a quem pode pagar, pois não é um direito básico. Além disso, são cirurgias “espetaculares”, geram encantamento e deslumbramento, mas na prática não são capazes de modificar o perfil de saúde de nenhuma população. Aqui, onde estou, só a classe média abastada consegue ter médicos na família, pois os custos são estratosféricos. Esse é um dos piores modelos de saúde do mundo e está desmoronando (leiam as notícias daqui!). É possível acreditar que ele pode ser paradigma para alguma coisa apenas porque tem sofisticação tecnológica para poucos, mesmo quando fica claro que não soluciona os problemas de saúde da  gigantesca maioria da população??

Pensemos bem; precisamos romper o preconceito sobre os alunos de periferia que ingressam na universidade, principalmente fazer uma crítica aos argumentos que batem na velha tecla do “perfil de entrada“, a mesma queixa que se mostrou falha na questão das cotas. Os alunos cotistas pobres tem desempenho igual ou superior ao dos outros alunos, e isso é uma realidade já bem conhecida. O que os argumentos anti-cotistas insinuam é que alunos pobres ou de periferia não teriam condições de exercer uma medicina sofisticada, o que é muito arriscado de dizer, já que todas as evidências apontam para a direção oposta.

Quanto à qualidade de vida, alguém ainda acredita que isso é conseguido com cirurgias de alta complexidade? Não, esta é uma visão que está redondamente equivocada. Isso se consegue com educação para a saúde. Comida, emprego, qualidade de relacionamentos, medicamentos simples e saneamento básico. São os engenheiros e os políticos que geram saúde, não os médicos. Somos muito bons para tratar doenças, mas pouco sabemos sobre promover saúde. Aliás… saúde não dá dinheiro, só doenças dão. Essas cirurgias e intervenções dispendiosas, por mais que tenham, SIM, espaço na medicina contemporânea, não são a solução para a saúde da população, mas apenas para poucos casos selecionados. Por certo que devemos ter médicos preparados para seu uso, mas jamais acreditar que é a utilização dessas técnicas que fará a diferença na qualidade de vida de todos.

Para finalizar, a ideia de que há uma necessidade para que a medicina se mantenha com o perfil aristocrático e elitista que eu apontei precisa ser criticada. Não acredito que avançaremos com médicos tão divorciados da realidade brasileira, onde o fosso que os separa da população é tão grande a ponto de não reconhecerem seus idiomas. Os estudantes de medicina oriundos das classes populares deverão ter seus custos pagos pelo Estados e terão o compromisso de dedicação exclusiva aos seus estudos. As necessidades sociais que eles tem não podem ser usadas contra eles, mas como um desafio que a sociedade como um todo precisa transpor.

Além disso, as universidades que preparam estes médicos aos poucos deverão se preparar para a medicina do século XXI, que não vai apostar na sofisticação tecnológica e no mercantilismo, mas na racionalidade dos recursos (leia sobre “slow medicine“, a nova onda, e sobre Saúde Baseada em Evidências!!!) para a atenção da população. Isso sim vai gerar uma onda positiva de saúde, e não apenas o enriquecimento perverso das máquinas de doença geradas pela busca insana de lucro através do sofrimento.

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Proletários

O Sindicato dos Médicos do Ceará em uma nota oficial (vide abaixo) avisa que não participará da GREVE GERAL marcada para o dia 28 de abril como forma de combater o desmanche da CLT e as reformas da Previdência danosas aos trabalhadores.

Primeiramente, vamos deixar claro que a nota é natural e não deveria causar nenhuma surpresa. O contrário sim seria digno de espanto: médicos descerem do seu pedestal de barro admitindo que são trabalhadores como quaisquer outros. Infelizmente os médicos do Brasil ainda “comem galinha e arrotam peru“. O tempo do médico filho de latifundiário, que vivia de clínica privada e doava uma tarde por semana aos miseráveis da Santa Casa já acabou há 30-40 anos. É preciso acordar desse sonho de grandeza aristocrática que ficou no passado.

Médico é proletário, estuda pra concurso, é funcionário público e ganha salário achatado. Continuar com essa arrogância tola e falsa é uma estupidez suicida. Manter-se fora da classe trabalhadora, desprezando-a de forma pedante é uma atitude estúpida e retrógrada. Melhor seria assumir sua posição como trabalhador e aderir a um movimento cuja proposta é garantir direitos conquistados que atingem a todos, inclusive os próprios médicos.

Mas essa humildade talvez seja inalcançável para uma categoria que esteve aliada ao golpe desde o primeiro instante. Triste reconhecer que a classe médica no Brasil é a vanguarda do atraso e da exclusão social.

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Evidências

Revisando os antigos manuscritos de Robbie para a preparação de sua “Antologia”, que deverá ser publicada em breve, me deparo com uma frase que pode explicar de maneira muito clara as dificuldades de entender a falta de racionalidade e embasamento de muitas das intervenções médicas obstétricas contemporâneas, em especial a episiotomia. Foi isso que a Dra. Melania Amorim trouxe à discussão através do seu originalíssimo ECR.

“E ainda assim, os significados culturais e simbólicos desses procedimentos são profundos, indicando cada vez mais que os protocolos hospitalares para a atenção ao parto não fazem sentido numa perspectiva científica, mas permanecem por estarem repletos de sentido cultural”.

Assim sendo, uma episiotomia, um Kristeller ou uma cesariana não precisam ter embasamento científico para serem dominantes na cultura obstétrica contemporânea. Para que sejam preponderantes basta que possuam “sentido cultural“, isto é, que estejam adaptados a uma visão cultural subjacente e silenciosa (uma ideologia) que desmerece a mulher e suas capacidades reprodutivas, e que coloca a tecnologia e o saber racional como válidos e autoritativos, desta forma desvalorizando a fisiologia feminina, em especial no momento do parto e nascimento.  

Quando ouço críticas a alguns procedimentos relacionados com o termo “humanização” – como parto extra-hospitalar, posições alternativas à litotomia, doulas, períneo íntegro, acompanhantes, livre deambulação, etc – e vejo colegas exigindo as “comprovações científicas” de tais condutas (que existem em abundância) eu acho engraçado e curioso o desejo insano de que tais procedimentos tenham a devida e justa comprovação quando praticamente nada do que é feito rotineiramente num atendimento ao parto tem qualquer embasamento científico – apesar de se conformar às normas culturais que colocam a intervenção como “salvadora” e a fisiologia feminina como “perigosa”.  

Pensem bem, onde estão as evidências que sustentam os seguintes procedimentos que ocorrem em praticamente todos os hospitais brasileiros de forma rotineira:  

– Trocar a roupa ao chegar
– Tomar banho
– Soro de rotina
– Ocitocina para apressar o parto
– Raspagem de pelos
– Enema glicerinado
– Restrição ao leito
– NPO (jejum forçado)
– Afastar a família e/ou acompanhante
– Monitorização eletrônica de rotina
– Parto em posição de Litotomia (deitada de costas)
– Episiotomia de rotina – Kristeller
– Afastamento do RN para rotinas
– Perda da “hora dourada” da amamentação
– Cesarianas (88% no setor privado e convênios)
– Cesarianas (43% no SUS e 55% no geral)

Não estão em nenhum lugar, não é? Se elas não existem, por que continuam sendo feitas inclusive em hospitais universitários, que deveriam zelar pela atualização e adequação de seus protocolos?

Ora, porque a Medicina é um sistema hierárquico e totêmico. Ela não se expressa primordialmente como ciência, mas como poder. Só isso explica que os procedimentos não se adaptem à ciência, mas a uma determinada cultura que coloca os profissionais médicos acima de seus pacientes e acima da própria ciência. As realidades científicas serão sempre bem vindas quando se adaptarem à norma cultural (cesariana, episiotomia, parto hospitalar, etc..) e serão sempre rechaçadas com extrema violência quando afrontarem os valores culturais dominantes (parto domiciliar, atenção por enfermeiras, casas de Parto, presença de acompanhantes/doulas, etc…).

A Medicina é a fiel guardiã disseminadora dos valores profundos do patriarcado.

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Médico ideal

(…sobre a produção do “médico ideal”)

Desde a época da escola médica recebemos daqueles que nos orientam a ideia de que envolver-se com os pacientes é uma atitude “fraca”, “débil”, que demonstra uma labilidade emocional e afetiva, a qual aponta para uma falha formativa. O subtexto dessa formação é que o “médico perfeito”, na concepção platônica, deveria ser como o juiz: frio, duro, imparcial e sem qualquer esboço de emoção. Ou como o Dr. House: insensível, técnico, bruto, estúpido, grosseiro e genial.

Talvez esta visão de médico tenha uma conexão atávica com os antigos operadores de casaca curta, os “cirurgiões barbeiros”, que não carregavam nenhum sangue nas veias e se mantinham de pé sustentados por seus nervos graníticos, que arrancavam pernas, cálculos da bexiga e braços sem anestesia, olhando a dor, a agonia e até a morte dos pobres enfermos sem sequer mover as sobrancelhas.

Mark Lipmann, “Doctors from the Heart”, ed. Volare, pag. 135

Mark Weinstein Lipmann é um pediatra americano nascido em Houston – Texas em 1954. Foi criador e diretor do Centro de Pediatria de Pasadena, cidade para onde se mudou após terminar a residência em pediatria e neonatologia. Desde muito cedo começou a questionar o modelo tecnocrático de atenção à saúde, com intervenções exageradas e potencialmente perigosas, em especial na sua área – a pediatria. Desta forma, começou a militar nos movimentos de apoio à amamentação, sendo membro integrante da conhecida “La Leche League”. Escreveu inúmeros artigos sobre amamentação e inclusive a importância do parto normal e fisiológico para a introdução imediata da amamentação, assim como a importância da ausência de drogas no leite materno para um processo de aleitamento mais tranquilo e efetivo. Foi perseguido pela corporação médica de sua cidade por sua militância pelo parto e pela amamentação, e seguiu lutando a despeito das agressões e sanções. No livro “Doctors from the Heart” enumera suas convicções e o arcabouço teórico e filosófico do suporte à amamentação livre e ao parto normal. Foi aclamado pela crítica como “um libelo a favor da natureza humana e pelo resgate de uma vida mais simples e saudável” por sua postura firme, embasada e concisa sobre a importância de resgatar a fisiologia perdida pelo capitalismo e a tecnocracia.

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Abusos

Estive circulando na medicina por 39 anos e as atitudes desrespeitosas e abusivas dos estudantes, residentes, preceptores e professores sempre ocorreram. Não acredito que exista uma “crise” real surgida há poucas semanas ou meses, mas apenas uma publicidade maior para um problema centenário. Não há nada que me faça pensar que na minha época de estudante a atitude dos alunos em relação a pacientes e familiares era melhor. Em verdade, lembro de alguns episódios que seriam impensáveis nos dias de hoje, tamanho o desrespeito e o desprezo com as mulheres, em especial.

O que temos agora são mecanismos mais rápidos e eficientes de disseminar a informação e uma cultura mais madura para denunciar abusos, mas o comportamento dos estudantes e médicos continua o mesmo das últimas 4 décadas. O problema pode ser melhorado com a vigilância sobre a formação e o reforço de conteúdos éticos na faculdade (nada a ver com ética médica, que tem muito mais a ver com Maçonaria e lealdade corporativa), mas nada vai mudar de verdade sem questionarmos quem são os brancos (87%) classe média alta (80%), filhos ou irmãos de médicos (40%) que constituem o corpo discente da maioria das faculdades de medicina do país.

Esse perfil de entrada é a base para entendermos o brutal fosso de valores, ideias, visões de mundo, perspectivas e posturas que separa os médicos do universo de pacientes que são por eles atendidos. Sem que essa distância seja encurtada toda e qualquer transformação será apenas parcial e/ou paliativa.

Não basta aumentar a carga horária da disciplina de deontologia médica para “passar uma cal branca sobre a casa rachada“. Não é com este tipo de atitude que vamos fazer uma revolução paradigmática. Precisamos debater que médicos queremos e quem estamos formando. Como bem sabemos, os médicos chegam à faculdade egressos de um estrato social completamente diverso dos pacientes que virão a atender, mas a escola médica, ao invés de tentar consertar este desvio e esta perversão ainda reforça os preconceitos, assim como a visão classista e excludente dos alunos. Os exemplos vem de cima; o preconceito é uma cátedra sem professor titular, mas que todos os alunos conhecem desde o primeiro dia do curso. É por isso que as pessoas que já conviveram dentro de uma faculdade de medicina não se espantam com o relato de doutores recém formados (ou não) desprezando enfermeiras, doulas e funcionárias(os) ou tendo atitudes absolutamente machistas e abusivas com os pacientes, os mesmos a quem juraram proteger e curar. Esse ainda é o padrão de uma corporação que insiste em se manter na Casa Grande.

Minha sugestão – e desde já deixo claro que ainda utópica e sonhadora – é a criação de uma instituição que existe em outros países, salvo engano, a França: a “Ordem dos Pacientes” ou o “Conselho Federal dos Pacientes” que se ocuparia de receber as queixas de pacientes e estaria a serviço da sua proteção contra erros e equívocos de hospitais e profissionais de saúde. Pedir que os médicos façam o controle de seu próprio trabalho é ingenuidade. Os conselhos servem para proteger a medicina e os médicos, e isso não é uma acusação aos conselhos diante dessa importante e essencial função, mas o reconhecimento de que ela não é eficiente para auxiliar os pacientes. O “caso Adelir” é um bom exemplo. Para mim seria importante criar uma instância extrajudicial que pudesse fazer essa mediação antes de que os casos fossem enviados aos tribunais, diminuindo as demandas e fortalecendo as negociações, sem ser movida por um caráter primordialmente punitivo.

Não parece interessante? Eu, por conhecer os tribunais e seus conselheiros, percebo o quanto é ingênuo imaginar que os conselhos  de medicina possam deliberar contra si mesmos, cortar na própria carne e agir contra os poderes estabelecidos, os quais sempre beneficiam a categoria. Não faz sentido. Quando sou confrontado com esta minha desconfiança eu sempre pergunto aos amigos: “Na última eleição para o Conselho de Medicina, em quem você votou?“. Claro que as pessoas sempre respondem que só médicos votam nessa eleição. Então eu respondo: “E por que você acha que os conselheiros médicos favoreceriam os pacientes ao invés dos seus próprios eleitores?

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