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Medicina e Medo

”The Doctor”, 1891; Samuel Luke Fields (1844-1927), Óleo sobre tela, Galeria Tate – Londres. (*)

Qual a razão da crescente insatisfação de tantos pacientes com os abusos cometidos por uma medicina cada vez mais alienante, técnica, fria e desumana, onde a intervenção e o uso de drogas assumem a característica mais marcante dessa atuação? Hoje em dia a cena ancestral do médico compassivo, atencioso, dedicado e atento que, ao lado do leito, anota em silêncio as queixas e sinais dos enfermos, dá lugar aos exames, as cirurgias e as drogas, alienando progressivamente o paciente de sua própria cura.

Quando os médicos atuam de forma abusiva – em especial no parto, onde a intervenção se tornou a regra e a fisiologia ocorrência rara – assim o fazem para garantir a sua proteção, e não por serem pérfidos, interesseiros ou ignorantes. Se um médico resolve esperar diante de um impasse clínico e algo inadequado ocorre a culpa será invariavelmente considerada sua e, a partir de então, sua vida se tornará um inferno com os ataques que surgirão da própria corporação. Por outro lado, se ele intervém e o paciente – como resultado da intervenção – tem algum problema grave (ou mesmo vem a óbito) a responsabilidade se dilui, e a perspectiva que sobressai é de que o resultado funesto foi devido ao risco natural e inexorável de qualquer procedimento, o qual ocorreu apesar do tratamento médico adequado. Isso porque a tecnologia é um mito, e por isso não pode ser jamais questionada.

A isto costuma-se chamar de “imperativo tecnocrático”, que determina que a existência de tecnologia para tratar um determinado caso obriga a sua utilização, mesmo que os resultados desta intervenção não sejam comprovadamente melhores, e aqui a cesarianas ocupam um lugar de destaque como grande exemplo deste tipo de tendência. Muito mais do que evidências científicas, a profissão é levada a agir por defesa, aumentando gravemente os riscos para os pacientes – mesmo que os diminua para os médicos.

Ou seja, o uso de tecnologia vai sempre blindar o médico, dar-lhe segurança e oferecer a ele proteção profissional. Na obstetrícia, as cesarianas são “salvo condutos” para garantir segurança aos profissionais. Raríssimos médicos são processados por cesarianas abusivas mas qualquer um que ouse atender partos, mesmo quando dentro de parâmetros reconhecidos no mundo inteiro, incorre em sério risco profissional. A escolha pelo tratamento mais seguro para si é compreensível em qualquer profissão – médicos não são kamikazes – apesar de não ser justificável sob qualquer parâmetro ético; médicos atuam sob o signo do medo e sabem o quanto um mau resultado pode destruir uma carreira tão arduamente construída.

Desta forma, não são os médicos que precisam mudar; é a própria sociedade, seus valores, seu sistema jurídico, sua mídia, seu sistema de saúde e os próprios pacientes, que invariavelmente não vão titubear em deslocar a dor e a frustração de uma perda para a pessoa do médico, em especial quando a postura deste é contra-hegemônica e agride o modelo tecnocrático e intervencionista da medicina capitalista. Imaginar que a mudança na atenção é uma responsabilidade dos médicos é injusto e inútil; eles apenas fazem a Medicina que a sociedade lhes solicita e autoriza. Para mudar a atenção à saúde é necessário suplantar o capitalismo e transformar a Medicina, para que ela deixe de ser mercantilista e baseada no lucro das grandes corporações, e passe a ser um sistema de cuidados centrado na pessoa, e não nos ganhos obtidos com a doença.

Só então poderemos constatar que, quando a sociedade se transforma, os médicos (juízes, advogados, políticos, policiais, bombeiros, militares, etc) se transmutam como consequência. Porém, essa mudança é dialética, pois que o exemplo de alguns profissionais também vai moldar a forma como a sociedade enxerga os evento da atenção à saúde, gerando assim mais consciência, que por sua vez será agente de transformação. Não existe, portanto, justificativa para que os médicos não se mobilizem para que a sua ação médica seja impulsionadora da mudança.

A prática médica é a síntese dos valores da sociedade onde atua, não sua causa precípua. Sociedades violentas produzem uma medicina truculenta e intervencionista; nas sociedades baseadas na paz e na democracia a Medicina vai fomentar uma saúde centrada na pessoa e na responsabilidade compartilhada entre cuidador e paciente. Entretanto, sempre devemos cobrar dos médicos que compreendam a verdadeira amplitude de sua ação social, e não se permitam sucumbir às pressões desumanizantes a que são submetidos.

(*) O quadro nos remete a um momento dramático na vida do pintor Samuel Fields. Nele está retratada a morte de seu filho na noite de Natal do ano de 1877, mas também está expressa a homenagem ao médico, atento, circunspecto e prestativo, que assistiu seu filho até o derradeiro momento quando, por fim, a vida do menino evadiu-se do corpo. Na imagem podemos ver seu estúdio, os móveis, o ambiente lúgubre que aguardava o desfecho mórbido, o desespero da mãe e o olhar apático do pai – o próprio Samuel. Apesar de ser uma imagem que nos remete ao dramático e trágico da existência ela igualmente nos mostra que a função do médico não é “curar os doentes”, mas estar ao seu lado, aliviando as dores e sofrimentos, curando quando for possível, mas sendo sempre a mão fraterna a oferecer o cuidado – o elemento ancestral que nos transformou em humanos.

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Medicinas

Então está combinado: agora é o chá de ayahuasca que tem a potencialidade de curar dependência química e muitos outros distúrbios orgânicos. O programa Fantástico, da Rede Globo, fez uma extensa matéria sobre o tema, outras mídias igualmente falam constantemente das propriedades desta combinação de plantas há anos. Entretanto, agora parece que o chá está definitivamente na moda e muitos estão comentando.

Também a maconha exerce esse fascínio, muito pela sua relativa proibição (que comparte com a ayahuasca) e também por apresentar resultados positivos em algumas doenças – em especial transtornos neurológicos. Aliás, a Cannabis também é regulamentada, em muitos lugares do mundo. Entretanto, por tantos decênios de proibição ela carrega a aura de “erva proibida”. Sobre a ayahuasca também paira – de forma diversa – essa aparência de droga exótica e mágica, mas também proibida ao consumo geral. Existem, por certo, experts no seu uso medicinal que descrevem maravilhas sobre sua ação no organismo.

Não duvido do uso benéfico da ayahuasca (que usei e tive uma reação folclórica) e muito menos das ações da cannabis no organismo – que fumei uma vez e que me produziu uma crise irresistível de riso. Tão evidente é a ação da maconha que ela tem seus efeitos tabulados na Matéria Médica homeopática em suas duas versões: sativa e índica.

Todavia, apesar de confiar na ação farmacológica dessas medicações, creio que elas apontam para a mesma direção: a busca da cura das doenças através de um elemento exterior, que seja capaz de curar múltiplas doenças através de um elixir totipotencial. Na verdade o uso dessas plantas é uma vertente paralela à medicina alopática exógena, que entende que a cura surge de fora, pela adição de um elemento curativo, e não pela transformação interna do sujeito. Trata as doenças como elementos passíveis de conserto de “fora para dentro”, exatamente como o faz a biomedicina tecnológica contemporânea. É importante deixar claro que “medicina exógena” não tem valor negativo, é apenas a sua classificação na perspectiva antropológica. Tem a ver com a compreensão de um elemento de fora do corpo que o penetra para produzir ou devolver a saúde.

Pessoalmente, não acredito em medicinas heroicas. Minha perspectiva é de que a cura da maioria das doenças se dará com elementos muito mais simples, como dietas saudáveis, exercício e a diminuição da angústia causada pelo modelo de vida produzido pelo nosso modelo econômico. Entretanto, é óbvio que estas ações são contrárias à roda da fortuna do capitalismo, não geram lucros e não vendem produtos. As doenças já são um negócio trilionário. Em nível planetário a indústria de drogas atingiu US$ 1,74 trilhões em vendas no ano de 2020. Já o mercado brasileiro movimentou R$ 76,98 bilhões no mesmo ano, com uma alta de 8,58% sobre o exercício anterior, representando 4,7 bilhões de unidades (caixas) vendidas.

A ayahuasca é uma substância química que produz alterações psíquicas. Portanto, é uma terapêutica exógena, um processo endorcista, de fora para dentro. É regulamentada hoje, mas depois de anos de luta para ser vista como elemento ritualístico de uma cerimônia de caráter espiritual, e não como psicotrópico. De resto concordo com você no que fiz respeito à responsabilidade e seu valor subjetivo.O modelo exógeno de tratamento das doenças (outside in) não começou com a biomedicina tecnológica atual, mas tem suas raízes na aurora da humanidade. Desde sempre desejamos (ou nos iludimos com) a panaceia, o elixir da juventude, a poção mágica, o espinafre do Popeye, os raios Gama do Hulk, o elixir do Asterix ou o amendoim do Super Pateta. A indústria trilionária de drogas apenas aproveita essa característica humana de encontrar fora de si mesmo a cura dos seus males. Cabe a nós entender que a maioria das doenças está nos vícios e maus hábitos e na estrutura perversa da sociedade capitalista, onde viceja o “homo homini lupus”.

Mesmo com aparência de “medicina natural” ou de possuir uma perspectiva inovadora, a entrada dessas terapêuticas segue o mesmo caminho das outras drogas no mercado: uma solução externa para dar conta de comida ruim e cancerígena, sedentarismo atrofiante e uma vida pautada na ansiedade e na competitividade destrutiva do nosso modelo econômico. Produzimos muletas químicas para os nossos desajustes sociais mais profundos, sem perceber o quanto eles são criados – e até estimulados – por essa mesma sociedade. Não resta dúvida que a ayahuasca e a cannabis serão em breve incorporadas pela farmacopeia das grandes multinacionais de drogas, para gerar indicações exageradas e lucros imensos.

Continuamos a oferecer soluções exógenas para dramas que a sociedade capitalista – que lucra com as doenças – impõe a todos nós. Ainda agimos como o médico do Posto de Saúde que repete prescrições de vermífugos para crianças infestadas de parasitas que vivem à beira do esgoto à céu aberto.

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Especialistas

Nossa ânsia por “especialistas” é uma das piores consequências da segmentação da medicina. Cada vez que uma pessoa com tosse me pedia que eu indicasse um “pneumologista” uma estrelinha no céu se apagava. Eu percebia, nesses pedidos, uma visão distorcida do papel que os especialistas desempenham no cuidado à saúde. Um especialista é um profissional que sabe muito de pouco, mas a imensa maioria dos pacientes precisa de alguém que saiba um pouco de quase tudo.

Os especialistas são isso: “experts” em partes ou funções do corpo, dedicados às questões mais infrequentes, minúsculas, que ocorrem raramente na população e que pela sua relevância merecem uma dedicação exclusiva. São profissionais com uma visão necessariamente limitada sobre a saúde, mas altamente focada em distúrbios específicos. Por isso mesmo, delegar a saúde ou o tratamento dos pacientes àqueles que carecem de uma perspectiva holística do sujeito é um erro. É uma perversão de sua função original.

Hipertensos consultando cardiologistas, gente com urticária consultando dermatologistas, pessoas com conjuntivite lotando consultórios de oftalmologistas, pacientes com prisão de ventre ou azia consultando gastroenterologistas etc, são exemplos de erros na escolha dos profissionais. Estas são alterações da saúde que seriam muito mais bem atendidas por médicos de família e clínicos gerais, num consultório ou posto de saúde. É facilmente comprovável que 80% destes casos são tratados e acompanhados por médicos de formação generalista, que terão muito mais facilidade para uma abordagem bio-psico-social de seus pacientes.

O médico mais apropriado para a vasta maioria da população é o generalista, ou o Médico de Família e Comunidade, que desde 1975 organizou seus primeiros programas de residência médica, mesmo usando denominações diversas. No ano de 1981 passou a ser chamada de Medicina Geral Comunitária por meio de Resolução da Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM); e em 2001, passou a receber o nome de Medicina de Família e Comunidade, reconhecida pela CNRM e pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) (resoluções CFM 1232/86 e 1634/2002). Esta área da Medicina recebeu um incremento muito grande de profissionais, apesar de ainda estarmos muito aquém de nossas necessidades.

A Declaração de Alma-Ata, que foi formulada no Cazaquistão em 1978, foi um pacto relacionado à saúde de um modo geral e assinado por 134 países participantes. No que diz respeito à Atenção Básica à Saúde, defendeu estes cuidados nos seguintes termos:

“Os cuidados primários de saúde são cuidados essenciais de saúde baseados em métodos e tecnologias práticas, cientificamente bem fundamentadas e socialmente aceitáveis, colocadas ao alcance universal de indivíduos e famílias da comunidade, mediante sua plena participação e a um custo que a comunidade e o país possam manter em cada fase de seu desenvolvimento, no espírito de autoconfiança e autodeterminação. Fazem parte integrante tanto do sistema de saúde do país, do qual constituem a função central e o foco principal, quanto do desenvolvimento social e econômico global da comunidade. Representam o primeiro nível de contato dos indivíduos, da família e da comunidade com o sistema nacional de saúde, pelo qual os cuidados de saúde são levados o mais proximamente possível aos lugares onde pessoas vivem e trabalham, e constituem o primeiro elemento de um continuado processo de assistência à saúde. (Opas/OMS, 1978)”

Para além das vantagens para os pacientes existem inequívocos benefícios econômicos para os sistemas de saúde que investem em uma medicina generalista e na ABS (Atenção Básica à Saúde). Dados epidemiológicos de estudos da revisão sistemática da literatura sobre os riscos de internação associadas por condições sensíveis à Atenção Primária, nos mostram que a melhoria de acesso ao sistema de saúde apontam para a diminuição de internações por “condições sensíveis à ABS”, que são problemas de saúde evitáveis, atendidos por ações típicas no nível mais primário e local de atenção e cuja evolução, na falta de atenção oportuna e efetiva, pode determinar hospitalização desnecessária, como pneumonias bacterianas, complicações da diabete e da hipertensão, asma, entre outros. Tais hospitalizações excessivas produzem um custo muito alto para o Sistema de Saúde além de aumentarem os riscos para os pacientes pelas intervenções em cascata que são realizadas no ambiente hospitalar, levando a problemas de complexidade crescente.

Desta forma fica claro que apenas os quadros não resolvidos pela abordagem clínica simples deveriam ser encaminhadas aos profissionais especializados. É nesse contexto – das doenças mais raras e refratárias aos tratamentos mais simples – que eles são extremamente necessários. É para essa parcela pequena da população, que precisamos do trabalho e da dedicação destes profissionais na medicina. Já para o conjunto da população precisamos de generalistas, médicos capacitados e compassivos, capazes de enxergar por detrás dos véus das doenças evidentes, para perceber o arcabouço psíquico e social que se esconde por trás de qualquer quadro de adoecimento.

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Gênios e Médicos

Um portal de notícias do Brasil publicou há alguns dias que um garoto superdotado de 14 anos havia passado nos vestibulares para medicina e também para aeronáutica. O texto da matéria estava centrado nas capacidades especiais do menino, que tão cedo em sua vida já tinha sua capacidade fora do comum comprovada pelas aprovações em cursos de difícil acesso. Eu todavia, olhei para outra perspectiva do caso. Escrevi abaixo da notícia que esperava que sua escolha de curso fosse direcionada para a aeronáutica. Expliquei que sua “genialidade” se aplicava muito mais às ciências exatas, e muito menos às demandas múltiplas e complexas que produzem um bom médico.

O meu ponto de argumentação é que a medicina não precisa de gênios; ela precisa de sujeitos dedicados e compassivos. A medicina necessita pessoas capazes de produzir – ou estimular e manter – a saúde através de um talento muito especial, que dificilmente pode ser medido por provas ou testes de QI.

Um gênio atuando na Medicina tende a reproduzir um “Dr. House”, tão genial quanto péssimo médico; cruel, desrespeitoso, insensível e desumano…. porém, com diagnósticos brilhantes. Todavia, a medicina não é a arte de “descobrir mistérios”, “tatuar diagnósticos” na testa dos pacientes ou “estabelecer prognósticos” baseados em estatísticas frias. Não, a medicina é “L’art de guérir”, “Ars Curandi”, a arte de curar. A medicina é uma prática complexa que demanda inúmeros talentos e que faz uso das outras ciências – como a bioquímica, a biologia, a anatomia, a fisiologia, a patologia, etc – para se expressar.

Da mesma forma que um pintor se utiliza de técnicas e até de seus conhecimentos de química para a elaboração das tintas, a sua ação é artística por excelência por congregar uma série de talentos e habilidades e, acima de tudo, uma específica percepção da realidade que se expressa através de suas obras.

Também os médicos precisam congregar seus conhecimentos sobre o corpo e seu funcionamento com a capacidade de captar os sinais de desequilíbrio que são manifestos nos limites da sutileza. Talvez, usando o raciocínio de Lacan, a maior virtude de um médico seja a idade, visto que só com o tempo e a experiência é possível afinar essa sensibilidade e apreender os signos necessários para a compreensão holística do sujeito.

Quando todas as tecnologias forem usadas e todas as máquinas calcularem sua saúde e seus riscos, ainda assim desejaremos que a receita nos seja entregue por alguém tão humano quanto nós, capaz de entender o sofrimento alheio olhando no fundo dos olhos de quem lhe procura. Somente o conhecimento da nossa própria finitude pode nos oferecer a entendimento da morte que se acerca dos outros. Desta forma, a medicina não é para os gênios que gabaritam provas ou que se alfabetizam aos três anos de idade. Medicina é ofício artístico, é dedicação, é a capacidade de sentir em si a dor do outro que sofre; é oferecer a mão a quem precisa de uma esperança. A medicina pressupõe a empatia como elemento essencial. Ela não se adapta às exatidões, mas essa é exatamente a sua tarefa mais sublime: cuidar do sujeito como ser único e especial.

Para os gênios sobra a especial tarefa de trabalhar na pesquisa, na compreensão última do que nos adoece e nas formas de intervir nas doenças. Estes serão sempre um ótimo suporte para os médicos, aqueles que, na ponta da atenção, amparam os enfermos e aqueles que sentem as dores no corpo e na alma.

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Sobre Sombras e Nódoas

Num dia um assassinato estúpido na frente da família numa festa de aniversário. No outro, um caso de abuso sexual por parte de um médico. Ambos, inquestionavelmente, produzidos por cidadãos de bem. Em comum nos dois casos a simpatia pelo presidente que se dizia a favor da tortura e que tinha como livro de cabeceira a biografia de um monstruoso torturador.

No caso da morte em Foz do Iguaçu é difícil dizer algo sobre a estupidez em forma bruta, que ceifou a vida de um pai de família cujo crime foi homenagear seu candidato na festa de aniversário. Muito ainda vai se falar sobre esse assassinato brutal, motivado por intolerância criminosa, e incentivado pelo próprio mandatário principal da nação. Entretanto, eu gostaria de me debruçar sobre o caso de abuso sexual ocorrido em uma maternidade do Rio de Janeiro. Por ter trabalhado em maternidades por mais de três décadas da minha vida eu lamento profundamente pelas pacientes atingidas por estes crimes, mas também penso mais além, nas repercussões que essa ação produzirá sobre toda a profissão médica – que depende de forma muito intensa da confiança que os pacientes depositam nos profissionais.

Como confiar nos médicos agora, se por trás de um sorriso ou um simples exame físico pairar o espectro da desconfiança? Como deixar as pacientes seguras de que por trás de pedidos e avaliações simples não se escondem intenções malévolas? Toda a ação médica se baseia no processo transferencial, a confiança em um suposto saber do profissional sobre o nosso corpo, nossa doença, nosso organismo e as razões pelas quais adoecemos e como podemos nos curar. Nesse processo ocorre uma entrega: oferecemos ao médico nossa intimidade mais profunda: nossas histórias, sentimentos, emoções, medos fragilidades e o nosso corpo.

O respeito por parte dos profissionais a esta oferta que vem dos pacientes é a pedra angular sobre a qual se constrói o vínculo, sem o qual nenhuma cura profunda é possível. Como diria o psicanalista húngaro Michael Balint, “o melhor remédio que um médico pode oferecer ao seu paciente é ele mesmo”. pois curador é o mais significativo remédio que se pode oferecer. Quando essa confiança se quebra, as conquistas para a saúde são apenas superficiais, incapazes de atingir o processo profundo de cura – que depende de uma modificação das rotas patológicas do sujeito.

Demonstrações públicas de desrespeito a esses limites, maculando a sacralidade desse encontro, tem efeitos devastadores. Garotos recém formados, com as calças arriadas e fazendo gestos que imitam vaginas, demonstram a falta de seriedade com que estes jovens profissionais encaram o compromisso com a profissão que têm pela frente. É preciso encarar esse problema com a gravidade que demanda. O ensino excessivamente técnico da medicina, a falta de embasamento humanístico, a objetualização dos corpos, o afastamento afetivo dos clientes e o distanciamento emocional com sua dor são subprodutos de uma medicina desvinculada da alma, a porção do sujeito que nos transforma de amontoados de células, nervos, ossos e matéria… em seres humanos.

Portanto, é essencial que o ensino médico seja, desde o princípio, carregado de conteúdo das ciências humanas, como psicologia, sociologia, antropologia, psicanálise e filosofia. Sem essa base sobre os sentidos fundamentais da “arte de curar”, e o constante reforço destes pontos durante toda a carreira médica, não formaremos nada mais do torneiros mecânicos de luxo, que tudo sabem sobre as partes danificadas e nada sobre o conjunto curioso de elementos que nos torna gente.

Os fatos que se somam nos mostram uma lenta e insidiosa degenerescência da arte de tratar os sujeitos nas sociedades contemporâneas. As ações da corporação médica, que aderiu em massa ao discurso bolsonarista e ao ideário da extrema direita, produzem um divórcio desta parcela da sociedade com seus propósitos mais profundos. É impossível pensar na saúde de um povo sem questionar as razões estruturais que nos fazem adoecer. É inconcebível que os médicos da atualidade virem as costas às necessidades essenciais da população e se coloquem ao lado da classe burguesa, tratando a grande massa da população como estorvo. Fatos escandalosos como estes são muito tristes, e afetam a todos nós.

Todavia, há que se entender que esses fatos não se expressam num vácuo conceitual. Existe uma sombra gigantesca que paira sobre o país, e que nos mostra a necessidade de depurar essa doença que nos consome. Para buscar esta cura faz-se necessário extirpar a nódoa que corrói o coração do Brasil.

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Cirurgias e hegemonias

A Episiotomia (corte perineal para alargamento da vagina no parto), pelo seu significado histórico na medicina, será sempre defendida muito mais pelo que representa para a prática médica e menos pelo que promete fazer de benefício para a mãe e para o bebê. A moderna obstetrícia deve muito a essa cirurgia, que produziu o golpe de misericórdia na ação das parteiras do início do século passado e serviu como esteio ideológico para a supremacia médica na assistência ao parto.

O ocaso da história gloriosa das episiotomias, e o reconhecimento da fisiologia do parto como suficiente, representará um golpe duro na dominação hegemônica da narrativa médica sobre o processo do nascimento, e um reforço das perspectivas mais suaves, menos invasivas e baseadas em evidências clínicas consistentes.

Há mais de 30 anos sabemos da inutilidade das episiotomias como protetores do períneo feminino ou garantidores do bem estar de bebês. Defender a episiotomia, como ainda o fazem representantes da corporação médica, nada mais é do que um esforço para manter essa hegemonia intacta, pois que está vinculada ao próprio poder médico de discriminar sobre o corpo da mulher, sua vida, seu destino e sua sexualidade.

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Cura

Existem coisas que só aprendemos com o passar dos (muitos) anos e uma delas é a dura tarefa de entender o papel do curador. Lacan, em uma famosa manifestação, dizia que “A Medicina a única forma terapêutica que trata o sujeito a despeito do seu desejo“. Isso ficou marcado para mim durante muito tempo, pois eu percebia que agir no tratamento de doenças sem questionar o desejo do sujeito, sem contextualizar seu sofrimento, sem observar de perto as escolhas que fez no processo de adoecimento e sem analisar os caminhos tortuosos que o trouxeram a uma consulta, estaríamos apenas exercendo uma espécie de violência, negando ao outro a oportunidade de curar-se através do próprio mal que o aflige.

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Maconha

Não, a maconha não gera quadros psicóticos. Escuto essa tese há muitos anos e não vejo sentido. Psicose é “loucura”, e como diria Freud, “não é louco quem quer, só quem pode”. Canabidiol não é capaz de produzir esse tipo de transtorno, mas acredito que possa despertar surtos em sujeitos previamente psicóticos, dependendo da circunstância, mas também o álcool, a tristeza, o medo ou qualquer outro disparador terá essa potencialidade. Vamos impedir que os psicóticos “fumem” estas emoções durante a vida?

Maconha também não causa depressão, mas é claro que pode aprofundar um caso depressivo, assim como o isolamento, as más notícias, os desamores, as brigas, a perda de emprego etc. Podemos evitar aos depressivos o acesso a essas circunstâncias da vida?

Colocar a maconha como “causadora” desses processos não faz sentido algum. Os sofrimentos são inerentes ao ser humano. Jogar a culpa em qualquer das drogas contemporâneas é desviar a atenção dos fatores sociais que fazem da miséria humana uma endemia e o sofrimento o padrão da humanidade.

Prove me wrong…

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Conhecimento autoritativo

Um dos mais importantes conceitos nas ciências sociais aplicados ao parto e nascimento é o de “conhecimento autoritativo”, noção extremamente importante quando encontramos a interface entre a medicina moderna e sua ação sobre o parto e o nascimento e seu choque com os saberes ancestrais que lidaram com os desafios do ciclo gravido-puerperal desde o início da humanidade. O conhecimento autoritativo define o domínio de um determinado saber que é socialmente reconhecido. Um exemplo fácil de entender para quem atua na atenção ao parto em zonas mais afastadas dos grandes centros: um residente de medicina com 25 anos de idade e com 20 partos atendidos em seu possui tem conhecimento autoritativo, que o capacita para dar atenção às pacientes, enquanto uma parteira com 30 anos de experiência e 500 partos atendidos em sua larga história como cuidadora não o tem.

Assim, o conhecimento autoritativo é aquele que efetivamente faz, aquele que tem suporte das instituições, configurando-se em um saber autorizado socialmente. As parteiras acumulam conhecimento empírico autoritativo em suas comunidades, mas de caráter não autoritativo quando se deslocam de sua base de influência cultural. Uma parteira tradicional quando vai à cidade “perde seus poderes”, passa à clandestinidade, deixa de ter suas habilidades reconhecidas.

O que a antropóloga americana Robbie Davis-Floyd nos diz é que os conhecimentos e saberes não autoritativos não devem ser descartados como sendo “anacrônicos”, “ultrapassados”, “sem valor” ou “inadequados” mas incorporados e observados através do método adequado, para oferecer uma diversidade maior de abordagens, adequação cultural e respeito aos conhecimentos sedimentados por milhares de anos de experimentação.

Desta forma, conhecimento autoritativo (como o nome diz) está relacionado ao poder e à autoridade no controle da narrativa cultural. Todavia, isso não significa que os saberes autoritativos são necessariamente “científicos”. Não, eles são tão somente “respaldados” pela cultura e pelas forças que a regulam. Um exemplo clássico: médicos frequentemente promovem cesarianas em excesso e desmame precoce de bebês e possuem conhecimento autoritativo sobre os temas do parto e da amamentação, apesar destas ações não possuírem base científica. Pelo contrário; o abuso de intervenções – em especial a cesariana – e o desmame prematuro são problemas de saúde pública causados pela própria medicina, e precisam ser entendidos dessa forma: ações “iatrogênicas” (causadas pelo médico). Por outro lado, parteiras e avós podem apoiar o parto fisiológico e a amamentação alicerçadas em seus valores culturais, porém possuem um saber não autoritativo. Elas não tem força ou poder para mudar condutas, mas nestes casos específicos suas condutas e posturas têm total respaldo científico.

Portanto, o “conhecimento autoritativo” não necessariamente significa “conhecimento acadêmico”, apesar de que ele normalmente está relacionado ao respaldo oferecido pela academia.

Por exemplo: numa guerra existem os oficiais que vieram da Academia, e os sargentos que estão lutando lá há algum tempo no front de conflito. Muitas vezes o jovem oficial dá uma ordem e os soldados olham para o “sargentão” para saber se devem mesmo cumpri-la, uma vez que na guerra a experiência – mais do que o academicismo – tem mais valor autoritativo. Nesse contexto o sargento tem poder autoritativo e o “tenentinho” recém saído da Academia, não.

Quem é mais velho lembra do “Recruta Zero” e o personagem “Tenente Escovinha”, ambos do desenhista americano Mart Walker, que ironizava a organização militar do exército do Império americano. Pois o tenente Escovinha era tratado como um oficial a quem ninguém dava bola por ser muito novo e sem experiência. Enquanto isso, o “Sargento Tainha” era o sujeito com voz autoritativa para o grupo de recrutas, entre eles o engraçadíssimo e fanfarrão “Beatle Bailey”- o Recruta Zero.

Conhecimento autoritativo é aquele efetivamente reconhecido como capaz de agir e produzir em determinada circunstância. Na nossa sociedade ele é frequentemente associado àquele adquirido na Academia, mas nem sempre.

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Corrupção médica

Eu acho impressionante a fé (não há outra palavra) que move tantos médicos em torno do comércio de drogas. Não só médicos, mas até enfermeiras e outras profissionais das áreas da saúde. Acreditam de forma acrítica nos resultados publicados, sem perceber que a ciência que tanto valorizam nada mais é do que a manifestação de inúmeros interesses econômicos e geopolíticos, travestidos de “isenção científica”.

Será que entre os experts brasileiros que gritam “em favor da ciência e contra o obscurantismo” também não há esse nível de vinculação com a indústria farmacêutica?

Destaco este trecho…

“Médico no Hospital Pulido Valente, o pneumologista Filipe *** – que lidera também o Gabinete de Crise da Ordem dos Médicos para a Covid-19 – é um dos clínicos portugueses com maiores ligações à indústria farmacêutica. Tendo arrecadado mais de 380 mil euros deste sector desde 2013 – com destaque para a Pfizer (134,5 mil euros), Merck Sharp & Dohme (85,5 mil euros) e BIAL (47,3 mil euros) –, a Gilead não poderia deixar de estar no seu radar. Facturou 13.480 euros em 2020 e 2021 desta farmacêutica.”

A matéria completa – que trata do Redemsivir – está aqui

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