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Elogio à alienação

Eu não tenho problema com o uso de vacinas. Se houver ciência de qualidade com fontes seguras e isentas e com resultados positivos, por que não? Entretanto, acho terrível – e inaceitável – a lógica frequentemente usada para defendê-las. Agora mesmo vi uma:

“Seu filho tomou 24 vacinas logo depois de nascer e só agora você resolveu perguntar do que esta última é feita? Confie na ciência!! Vacinas salvam vidas!!”

Quer dizer que agora – depois de anos ensinando as pessoas a pensarem por si mesmas e a tomarem decisões informadas sobre sua saúde e a dos seus filhos – estamos estimulando que não se façam mais perguntas e que nenhum questionamento incômodo seja feito? Querem nos convencer que é preciso acreditar cegamente nas drogas que nos indicam? Mais ainda, confundem prescrição de drogas com “ciência”, quando muitas vezes a ciência se expressa exatamente pelo combate ao mau uso das drogas!! Se Isso não é um retrocesso, não sei como chamar.

Pensem apenas o que se conquistou até agora na humanização do nascimento. Achariam justo dizer às mulheres para interromperem os questionamentos e passarem a ter fé nas decisões dos médicos?

“Nessa cidade milhares de pessoas vem ao mundo por cesariana e usamos cirurgias e internações para os bebês nascerem. Por que só agora você resolveu perguntar por qual razão queremos lhe operar?? Confie na ciência!! Confie nos médicos!! Cesarianas salvam vidas!!”

Se os médicos tem responsabilidade pelo descalabro das cesarianas no Brasil, por que deveríamos ter fé cega na decisão de um grupo de cientistas, em detrimento de outros? Qual o problema em perguntar os efeitos que as drogas potencialmente têm sobre as pessoas e, em especial, as crianças?

É para esse mundo que penaliza a autonomia e as perguntas indiscretas que estamos rumando?

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Cirurgia… de verdade

Uma lembrança que tive hoje de uma história antiga sobre as inúmeras hipocrisias na medicina.

Em um hospital de periferia no qual trabalhei logo após me formar em medicina diagnostiquei uma paciente com um tumor ovariano. Como era jovem e tinha características chamativas na ecografia (um ovário aumentado, com materiais densos como dente, osso, cabelo, etc) percebi que se tratava de um teratoma cístico benigno, tumor de células totipotenciais do ovário que produz este tipo de material. Nada grave, mas pelo tamanho valia a pena ser retirado.

Marquei a cirurgia para a semana seguinte. No dia marcado, solicitei que a paciente subisse ao centro cirúrgico para o preparo e fui me escovar. Ao entrar na sala encontrei a paciente em uma posição pouco usual (deitada de costas com as pernas afastadas) e perguntei à enfermeira do bloco a razão por terem deixado a paciente nesta posição.

– Ora, para a cirurgia doutor. Não vai manipular o colo?

– Não. Essa é uma ooforectomia (retirada de ovário) por teratoma. Olhe na grade de cirurgias. Vocês confundiram a paciente?

– Não doutor, claro que não!!! Sabemos que é uma cirurgia de “ovário”. Por isso a preparamos assim.

Disse isso e fez com os dedos das mãos curvados o sinal de aspas enquanto falava “ovário”.

Puxei a enfermeira para o lado enquanto o anestesista preparava seus equipamentos para anestesiar a paciente. Falei com um misto de espanto e rispidez, mas sussurrando para não causar desconforto na sala. A enfermeira, também surpresa, me explicou a situação.

– Desculpe doutor, eu não sabia que era uma cirurgia de ovário de verdade!! Por favor, me perdoe. Já vou arrumar a paciente na mesa como o senhor quiser.

– Ok, mas explique porque isso, por favor…

Ainda envergonhada ela explicou.

– Acontece que os médicos da cidade usam “cirurgia de ovários” para falsear os relatórios de ligadura tubária. Sempre que vemos essa cirurgia marcada na grade do bloco cirúrgico sabemos que se trata de outra coisa. Por isso preparamos a paciente para a ligadura, na forma como é usualmente feita.

No início dos anos 90 as ligaduras eram proibidas ou seguiam uma burocracia muito difícil de ser alcançada. Boa parte delas era realizada secretamente durante as cesarianas. Quem não se atrevia a engravidar apenas para “desligar” acabava engrossando a estatística de tumores ovarianos. Até hoje lembro do espanto da enfermeira quando lhe expliquei que a cirurgia era mesmo no ovário. Sim, de verdade. Juro…

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Não olhe para…. o Japão

Eu (ainda) não vi o filme “Não Olhe para Cima”, por razões pessoais, mas a principal por me dizerem que é um filme oficialista, e se há algo que deploro é a versão oficial, a do grande capital, a que pede a todos que apenas acreditem no que os poderosos dizem, que solicitam submissão ao óbvio – que sempre se trata de uma ideologia muito bem construída e mantida por muito dinheiro.

Nesse debate sobre o sentido último da ciência eu creio que o erro se estabelece sempre quando alguém diz estar “do lado da ciência” como se fosse possível estabelecer uma linha entre “lá e cá”. Como se existisse apenas uma forma de ciência, uma linha de razão, uma forma científica de ler o mundo. Como se o que você chama de “ciência” fosse apenas a forma com a qual o capitalismo reconhece como tal, da mesma forma como o poder determina o que é arte.

“Ah, mas a ciência é objetiva e positiva”.… sério que alguém ainda acredita nisso? Provavelmente os mesmos que acreditam que o Jornal Nacional apenas relata os fatos, sem viés algum, de forma objetiva e crua. Nada poderia ser mais ingênuo, em especial se levarmos em consideração que a Pfizer lucrou 33 bilhões de dólares com a sua vacina – e isso apenas em 2021.

É importante mostrar a verdades contraditórias de qualquer tratamento médico, mas eu acredito que diante da propaganda massiva e brutalizante – e o estímulo ao pânico, elemento necessário para controlar grandes massas – pouca gente vai levar a sério o que a própria ciência diz. Em verdade eu acho mesmo desafiante pedir que as pessoas pensem cientificamente e convivam com dúvidas, refutações, estatísticas e incertezas, quando é sempre muito mais fácil lidar com verdades absolutas, certezas e posturas maniqueístas. Afinal, lidar com o incerto e com verdades parciais, incompletas e vicariantes é algo muito novo na história do pensamento humano. Por isso até hoje as religiões e seus códigos de conduta dogmáticos vigoram com relativo sucesso. Por que lidar com o complexo e o incerto se há formas mais simples e certeiras – e erradas – de compreender os fenômenos?

Assim, dizer que existe uma facção contra a ciência e outra a favor dela é a mais profunda ingenuidade. Existem em verdade múltiplas formas de interpretar os dados dessa pandemia e suas infinitas variações. Quer uma curiosidade? Por que o Japão viu seus casos de Covid despencarem de forma dramática – chegando quase a zero – enquanto a Coreia do Sul (ao lado e com altíssimas taxas de vacinação) continua crescendo de forma assustadora?

Não se observa a ciência na Coreia do Sul? O Japão descobriu algo que ninguém sabe? Ou foi a liberação da Ivermectina, que coincidiu com as quedas? Não, isso é coincidência, porque essa droga foi riscada do mapa. Que foi então?

Leia mais aqui sobre o mistério da Covid no Japão…

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Antissistema

É curioso como – sou forçado a reconhecer – é a extrema direita quem está alertando sobre os perigos de abrir mão das liberdades individuais em nome de uma “tecno-pharma-medical tirany“. A ideia de confinamentos, guetos, passaportes e acusações sobre grupos específicos é um grave alerta para as consequências óbvias da radicalização de posições.

Os resultados desse tipo de estratégia – que promete salvar vidas – é o aprofundamento acelerado da miséria, do neoliberalismo, da concentração de riqueza e de inúmeros paraefeitos (inclusive depressão e suicídio) causados pelo “novo padrão de distanciamento” imposto às populações do mundo inteiro pelas novas regras da Covid.

Ao invés de percebermos que o Sistema – aqui incluída a própria ciência capitalista – é a fonte primária do distúrbio planetário e sistêmico acreditamos que o culpado é o nosso vizinho, um velho chato que teima em não aceitar o que as autoridades “isentas” determinam para nós.

Nessa guerra a esquerda saiu às ruas vestindo a camiseta da Pfizer, da Moderna, da BigPharma e do grande capital internacional, tratando notórios bandidos como Koch, Soros, Buffet, Bezos, Bill Gates e Fauci como se fossem arautos da Verdade Celestial. Porém, em verdade, em verdade vos digo… mais fácil um camelo passar por um buraco de agulha do que qualquer desses pulhas chegar ao Reino dos Céus.

Nessa disputa de narrativas a esquerda é a voz do sistema capitalista internacional, enquanto a extrema direita – mesmo chamando isso tolamente de “comunismo” – adota uma postura antissistema. E depois acham estranhas as vitórias de Trump e Bozo, sem se dar conta de que foram eleitos com um discurso que prometia acabar com “tudissdaí, taokey?”

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Fé cega

É impressionante a confiança que as pessoas depositam na indústria farmacêutica. Essa fé cega se mantém mesmo depois de tantos escândalos que vem à tona diariamente, mostrando a forma como esta indústria manipula consciências, suborna autoridades da área de fiscalização e controle, falseia estudos, esconde resultados negativos e hipnotiza a comunidade médica com propagandas e propinas para que receitem suas drogas, tratamentos e maquinário diagnóstico. Ainda mais chocante é ver entre os defensores dessa máquina gigantesca pessoas que se consideram de esquerda, as quais deveriam cultivar um saudável ceticismo e uma postura crítica diante dessas empresas. Basta uma simples pesquisa sobre o relacionamento da “BigPharma” com as agências reguladoras – em especial no centro do Império, como o FDA e o CDC – para perceber a promiscuidade escandalosa entre o grande capital e as instituições ligadas ao Estado que deveriam proteger a saúde dos cidadãos. É um absurdo sem precedentes, um escárnio com os preceitos éticos e, por essa razão, pessoas como Márcia Angell (New England Journal of Medicine) e Peter Gotzsche (Biblioteca Cochrane) declaram não ter qualquer confiança nessas empresas, as quais eles chamam impiedosamente de “máfia das drogas”.

“Percebi que nossas drogas prescritas são a 3ª causa de morte – após doenças do coração e câncer. Tais drogas matam 200 MIL pessoas nos EUA a cada ano, e metade dessas mortes ocorre em pessoas que fizeram exatamente o que os médicos pediram a elas. A outra metade morre por causa de erros . [Médicos] dão aos pacientes drogas que não deviam ser dadas. Muito do que a indústria farmacêutica faz preenche os critérios para crime organizado nos EUA. Eles se comportam, de muitas maneiras, como a Máfia. A Indústria Farmacêutica compra primeiro os professores, depois os chefes de departamento, e então outros médicos chefes e assim por diante. Nossos cidadãos estariam muito melhores se todas as drogas psicotrópicas fossem retiradas do mercado, exatamente porque os médicos são incapazes de lidar com elas. É inevitável que a sua disponibilidade produz mais mal do que bem.” (Peter Gotzsche – Cochrane Collaboration)

A ciência aqui, desgraçadamente até na esquerda, se expressa como um culto, uma fé, e seus prepostos se apresentam como intermediários da sua verdade. Ter fé na ciência é o oposto do que ela própria apregoa, e tratar como hereges aqueles que ousam fazer perguntas é exatamente o que se espera de uma religião fundamentalista. É da essência da ciência que ela seja questionada, desafiada, pressionada e jamais tomada como verdade. É absurdo o clamor popular que diz “Eu creio na Ciência”, mas talvez esta expressão seja mais reveladora do que pensamos; nossa conexão com ela é muito mais mística e afetiva do que fria e isenta. A forma apaixonada como nos relacionamos com as vacinas da última epidemia é pedagógica: muito mais do que uma análise fria e objetiva sobre resultados, eficiência, eficácia, impacto, efeitos nocivos, custos etc. criamos uma linha divisória entre “cientistas” e “negacionistas”, obrigando os profissionais a escolher um lado onde se situar muito mais pelo julgamento dos seus pares do que pelas evidências que são capazes de avaliar.

“Simplesmente não é mais possível acreditar em muito do que é publicado pelas pesquisas clínicas, nem acreditar no julgamento de médicos confiáveis ou em protocolos médicos autoritativos. Não tenho prazer nenhum nesta conclusão, a qual alcancei de forma lenta e relutante após duas décadas como editora do “New England Journal of Medicine”. (Martha Angell)

Os psicólogos reconhecem que nossa fixação na utilização de drogas – cada vez mais sofisticadas e caras – é baseada em nossa tendência a inferir causalidade onde não existe, uma espécie de “ilusão de controle”. Na medicina, pode ser chamada de “ilusão terapêutica” Quando os médicos acreditam que suas ações ou ferramentas são mais eficazes do que realmente são, através da propaganda incessante por parte dos laboratórios multinacionais, os resultados podem ser cuidados desnecessários e dispendiosos”. Citando Marco Bobbio, um dos principais pensadores da corrente médica “Slow Medicine”, trata-se de “desperdício, inadequação, conflitos de interesse e modelos que induzem profissionais e pacientes a consumir mais e mais serviços de saúde na ilusão de que é sempre melhor fazer mais para melhorar a saúde”.

Enquanto o capitalismo lucrar com a doença – ou mesmo a mera possibilidade de adoecimento – das pessoas, nunca haverá um atendimento à saúde verdadeiramente livre de pressões. Muitos ainda acham que devemos aceitar cegamente o que essa “ciência” determina, como se a pesquisa médica inserida no capitalismo fosse um saber puro derivado de pesquisas isentas, controlada por querubins e serafins. Quando vejo os anúncios do FDA sobre efetividade e segurança de novas (e caríssimas) drogas eu lembro da expressão inglesa “gardyloo“, derivada da fala francesa usada quando excrementos eram jogados na calçada: “Regardez l’eau!!!”.

No latim clássico seria: “Cuidado c’a bosta!!!!”

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Ciência e Ideologia

Não é raro ver pessoas reclamando que o debate da ciência agora está politizado – e até partidarizado – exaltando ideologias em detrimento da “objetividade” da ciência positiva. Correntes filosóficas e perspectivas diversas estariam tomando o lugar outrora ocupado por experimentos, estudos, gráficos, números e estatísticas. Entretanto, a ideia de uma ciência isenta sempre me pareceu tão ingênua quanto um sistema judiciário ou um jornalismo que pudessem funcionar com isenção em suas específicas atividades. Creio ainda que, aqueles que acreditam numa suposta isenção da ciência apenas ignoram a influência do mundo, da cultura, dos contextos e das circunstâncias que influenciam os pesquisadores diante da tarefa de pensar e de analisar problemas científicos.

Para estes que proclamam uma perspectiva positivista para a ciência eu tenho uma pergunta honesta de alguém descrente das análises isentas e desapaixonadas: onde está a objetividade da ciência para o tratamento da tuberculose, que todos os anos mata milhões de pobres distribuídos pelos bolsões de miséria da África? Onde está a frieza científica quando milhões sucumbem à malária, à diarreia por desmame precoce, à fome endêmica, à pneumonia, à hipertensão? Mais ainda, onde está a força das verdades científicas para mudar o curso da epidemia de cesarianas? Por que não há para estas doenças a mesma mobilização que ora vemos para a Covid19, que matará muito menos do que estas nossas velhas conhecidas? Se aplicássemos um critério tão somente baseado em resultados – quantas vidas seriam salvas, quantos recursos alocados, qual a aplicabilidade e qual o impacto na saúde global – a ciência contemporânea estaria muito mais focada em água tratada, erradicação da fome, miséria absoluta, fontes de energia, tratamento de verminoses etc. e muito menos em medicamentos para queda de cabelo ou doenças raras – que não por acaso tem impacto desprezível, mas são áreas altamente rentáveis.

É preciso ver quem controla a ciência médica. Quem paga seus custos? Quem a financia? Hoje fica fácil perceber que basta uma doença ameaçar brancos e sujeitos da classe média dos países ocidentais para a nossa sociedade se erguer e exigir medidas tecnológicas imediatas, como vacinas e novas drogas, mobilizando recursos aos milhões nas pesquisas, logística e manufatura de medicamentos. Foi assim com a Aids e está sendo o mesmo agora com a Covid19. Nossa ciência não poderia se expressar fora do seu contexto histórico, e por isso ela reproduz os modelos de opressão e desequilíbrio vigentes no planeta.

Da mesma forma a tortura nos afeta: nos escandalizamos (e com justiça) pelas torturas cometidas pela ditadura militar contra políticos, jovens militantes, mulheres e professores, mas ainda temos dificuldade de nos mobilizar quando a vítima é preta e pobre e meliante. Essa escolha é ideológica. Na guerra da Ucrânia sentimos muito pelo sofrimento das crianças loiras de comercial de talco, mas não conseguimos nos identificar com a miséria causada pelas guerras coloniais e derivadas da ganância capitalista na África, quando as vítimas são esquálidas e desumanizadas.

A ciência é – e sempre foi – ideológica. A simples escolha do que será investigado já é uma opção mediada pelos valores nos quais estamos inseridos. A isenção que se pede à ciência é falsa ou mentirosa. Quando nos envolvemos com a pesquisa e a descoberta de tratamentos para uma doença – e desconsideramos centenas de outras – nossa escolha já está impregnada de ideologia, inobstante ser consciente ou não. E quem tiver o poder de tomar decisões o fará baseado nos valores que lhe afetam diretamente, e não necessariamente pelo que atinge e ameaça a maioria das pessoas.

Há muitos anos escutei de um conselheiro do CRM uma frase cuja tolice marcante nunca consegui esquecer. Dizia ele para uma plateia de iguais: “Não existe ideologia na medicina, apenas boas e más práticas”. Para dizer isso era preciso negar a realidade que nos atropela: “a isenção da ciência só seria possível se os cientistas deixassem de ser… humanos”. Ignorar o mar de significantes que nos envolve invocando uma objetividade ilusória é uma enfermidade que ataca muitos pseudocientistas. Freud já nos explicava há mais de um século: “Não existe sujeito sem cultura e nem cultura sem sujeito”, e isso demonstra que que a o circuito simbólico que nos enlaça acaba por pautar as decisões e o próprio pensamento. Assim, o oceano de conceitos à nossa volta escolhe por nós o que pesquisar e como tratar as doenças.

O que precisamos não é da ilusão de uma “ciência isenta”, mas sim de uma ciência democrática, onde as escolhas da ciência sejam tomadas em benefício da maioria e não para proteger o capital e quem o controla. É necessário que a ciência não mais esteja a reboque das forças do capital, mas que esteja nas mãos do povo para que ele possa decidir as prioridades de forma livre, e não pela imposição do lucro e do poder.

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Partos e lucros

Há mais de 20 anos eu estava atendendo um parto em um grande hospital de classe média da minha cidade quando, no meio do atendimento, a enfermeira chefe me chamou para fora da sala dizendo que uma funcionária do hospital precisava falar comigo. Fui até a porta do Centro Obstétrico onde encontrei uma bela jovem que me aguardava, segurando uma pilha de papéis em suas mãos.

– Olá doutor, eu me chamo fulana e sou do setor de contas. Estamos fechando a contabilidade do mês e estou com dificuldade para fechar estes casos. Creio que foram atendidos pelo senhor.

Destacou do meio da sua pilha de documentos algum em especial e o ofereceu a mim.

– Esse aqui é um deles, porém temos mais uns. Queria que o senhor desse uma olhada na descrição de materiais usados porque preciso mandar para a cobrança do convênio. É urgente.

Olhei rapidamente o papel à minha frente e percebi que a coluna de material estava em realmente em branco. Voltei a atenção para o cabeçalho do documento e vi o nome de uma paciente que havia atendido algumas poucas semanas atrás. Lembrei rapidamente do parto, até porque estava fresco em minha memória.

– Sim, fui eu quem atendeu este parto, mas qual o problema?

– O senhor esqueceu de listar o material usado, doutor. Aqui não consta o soro, nem equipo, as medicações injetáveis, os analgésicos pós parto, o tipo de fio de sutura, o material da episiotomia, o creme para as mamas pós parto e…

Interrompi a fala da menina com um sorriso.

– Mocinha, nada disso foi usado!!! Este foi um parto natural, sem cortes, sem suturas, sem drogas, sem intervenções. Aliás, via de regra, nenhuma dessas intervenções deveria ser usada de rotina. O nome disso é “parto humanizado”.

Ela ficou desconcertada olhando para a folha de papel à sua frente e me mostrou mais dois atendimentos que já havia selecionado. Expliquei a ela que, efetivamente, em todos aqueles casos nenhum tipo de medicação ou equipamento havia sido utilizado.

– Mas como vou fazer para cobrar?

Só então me dei conta que eu estava sendo tratado como um intermediário entre o atendimento de uma paciente e a necessidades financeiras de um hospital. Minha atuação médica precisava gerar lucro para a instituição, e a qualidade do atendimento – por mais que fosse importante – era secundária à necessidade que o hospital tinha de produzir uma entrada de recursos que surgiriam através do meu atendimento.

Esta foi a primeira vez que eu me vi na posição de agente passivo do capitalismo em sua relação com a saúde. Por certo que o fato de me contrapor à ordem obstétrica alienante e objetualizante era o suficiente para gerar desconforto e ressentimento por parte do hospital e dos colegas, mas foi a primeira vez que percebi o quanto meu exemplo era ruim para as finanças das instituições privadas. Nesse tive consciência de que os profissionais que usavam alta tecnologia, equipamentos caros, cirurgias complexas, múltiplos profissionais, muitos dias de internação, uso de UTI eram mais admirados do que alguém que demonstrava um aparente “desprezo” pelo uso ostensivo de tecnologia em seu trabalho.

A partir de então passei a observar a diferença de tratamento oferecida aos médicos daquele e de outros hospitais cuja ação trazia dividendos para a instituição. O quanto eram bajulados, bem tratados, exaltados e elogiados, mesmo que – do ponto de vista estritamente científico e pragmático – suas ações pudessem ser confrontadas quanto à eficácia e valor. Havia algo muito mais significativo na relação do hospital com esses profissionais do que o reconhecimento da sua excelência e de seu trabalho.

Estas percepções foram moldando uma visão pessoal absolutamente negativa da relação entre saúde e capitalismo. Eu percebia que a mistura desses conceitos produzia um resultado ruim, e o melhor exemplo possível era a saúde americana, que apesar do alto grau de avanço tecnológico – o melhor que o dinheiro pode comprar – tem os piores resultados entre todas as nações desenvolvidas do mundo – em especial no parto e no nascimento. Também ficou clara a sedução que estas mensagens subliminares operam na atuação dos médicos. Quem não gosta de ser bajulado no local onde exerce sua função? Quem não gosta de ser tratado com distinção pelos colegas e pelo local que acolhe seu trabalho? Quem não acha maravilhoso ser bem remunerado em seu ofício?

Muitos anos depois recebi pelo celular uma mensagem do anestesista que durante quase 30 anos atendeu as minhas cesarianas, sempre da melhor maneira possível. Nunca tive nenhuma queixa sobre a qualidade do seu trabalho, muito menos da rapidez com que chegava ao hospital ou a agilidade com a qual conduzia suas anestesias. A mensagem, resumidamente, dizia:

– Caro amigo. A partir de hoje não atenderei mais partos para você. Nada pessoal, mas você não traz para mim o suficiente retorno financeiro. Através de você ganho por volta de 1500 reais mensais, o que é muito pouco para a atividade que exerço. Sucesso e boa sorte.

Sim, eu havia sido “demitido” porque o chamava poucas vezes para atender cesarianas enquanto meus colegas o chamavam inúmeras vezes mais, e assim eram considerados muito mais valiosos. A validade das cesarianas dos colegas era absolutamente irrelevante para o cálculo que fizera. A luta insana que eu travava contra o abuso de indicações cirúrgicas era do conhecimento dele, mas não fez a menor diferença para avaliar o valor do seu trabalho. Eu me lembro desta cena até hoje, a minha face atônita olhando para a tela brilhante do celular enquanto pensava: “Mas, espere, não vá, quem sabe se eu…”

Durante uma fração de segundos eu – por me sentir desamparado para atender partos sem o suporte de um anestesista – acreditei que poderia haver algo errado com a minha atitude e talvez não devesse ser tão “radical”. Mas, tão logo passou esse fragmento de instante, eu me dei conta que não havia como fazer qualquer tipo de concessão para um modelo falido, que enxerga os ganhos acima da atenção das gestantes, e que coloca a excelência do atendimento à reboque dos ganhos financeiros dos profissionais, das instituições e das indústrias de insumos médicos.

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Amamentação e Capitalismo

Na foto a pequena Ava e sua mãe Bebel, amamentando contra o capitalismo….

A resistência da pediatria enquanto corporação em abraçar a amamentação como elemento essencial do cuidado neonatal sempre me intrigou. Depois que conheci por dentro esse modelo de medicina amparada por – e disseminadora de – valores capitalistas, tudo fez sentido. A amamentação é gratuita, não gera lucros para a indústria da doença, não aumenta a procura por hospitais, drogas, mamadeiras, fórmulas e médicos. A amamentação e o parto normal nadam contra a corrente, e não empurram a “roda da fortuna” capitalista.

Mais ainda: amamentação produz amor e conexão, elementos que não podem ser quantificáveis ou vendidos em promoção no Black Friday.

A amamentação atua contra tudo que essa indústria precisa: consumidores. Além disso, ela faz parte do arcabouço fisiológico pulsional que cada mãe possui em latência desde o nascimento como elemento transgeracional.

Por outro lado, enquanto a capacidade de parir e a capacidade para amamentar estão inscritas nas habilidades inatas de cada mulher, sua expressão necessita AMPARO SOCIAL, a exata ferramenta que nos acompanhou durante 99% da nossa jornada planetária. Na ausência desse amparo parto e amamentação caem nas redes da Medicina, e são vistos – e tratados – pelo filtro da patologia.

Não é coincidência que parto livre e amamentação fisiológica foram – e ainda são – brutalmente atacados pela cultura do último século, e sua sobrevivência depende de poucos heróis da resistência. Lutar pelo parto normal e livre e pela amamentação alargada são elementos contraculturais poderosos. Uma mulher parindo e outra amamentando nas barbas da sociedade patriarcal são dois liquidificadores ligados de madrugada no condomínio dos caretas.

A plena recuperação da amamentação livre só vai ocorrer com uma reformulação da medicina, seus valores e suas metas, mas esta só vai acontecer com a transformação da própria sociedade onde ela está inserida, deixando para trás o capitalismo e a vida humana baseada no lucro.

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Antivaxx

Acima de 90% das pessoas que vejo expressarem posturas críticas às vacinas – ou à própria vacinação – são vacinadas e não são contrárias às vacinas. Vejo nelas uma genuína preocupação com a segurança e com os direitos humanos. Percebo nas suas manifestações uma saudável postura de confrontação e o desejo de não sucumbir ao pânico estimulado pela mídia com o objetivo de impedir que perguntas importantes sejam feitas.

Perguntas como… funcionam mesmo? Tem provas? Qual a eficácia? O que há nelas? Existem testes que garantem a segurança? Quão eficientes são? São seguras? Quais os riscos? O que dizer desses efeitos colaterais que apareceram? Eram conhecidos? Se não eram, quais novas surpresas podem aparecer? Qual o risco se eu não tomar a vacina? Se eu decidir não tomar isso coloca outras pessoas em risco? Por quê?

Em contrapartida vejo os entusiastas das vacinas adotando uma atitude alienante, dizendo coisas como “não quero saber o que elas contêm”, “não sou sommelier de vacina”, “vacinas salvam vidas”, “tomo quantas vezes me mandarem”, “tomei outras vacinas e nunca perguntei o que tinham”, expressando uma confiança cega nas promessas das empresas mais bandidas desse planeta, responsáveis por escândalos onde as mentiras, o encobrimento de mortes, o suborno e a fraude em estudos foram onipresentes. (para mais informações veja aqui)

Em uma pandemia não deveríamos permitir que as ações guiadas pelo pânico ditassem as condutas. Se é comprovado que as vacinas reduzem mortes e danos, faz sentido estimular que as pessoas façam uso delas. Entretanto, quando vejo pessoas fazendo perguntas incômodas sendo tratadas como “antivaxx” ou “terraplanistas” eu percebo que existe a intenção de destruir qualquer contraposição à “verdade oficial”. Isso parece mostrar que, exatamente por assentar-se sobre premissas frágeis, a defesa dos passaportes Gulags, exclusões e vacinações mandatórias não suporta contestação.

Na idade média as perguntas sobre geocentrismo, a virgindade de Maria ou a natureza do Espírito eram tratadas da mesma forma: como heresia, exatamente porque não havia respostas adequadas a dar. Do crente era exigido apenas fé e obediência. A pena para uma atitude contestatória naquela época poderia ser a morte na fogueira; hoje em dia aplicamos a sentença de humilhação pública e cancelamento.

O mesmo eu vi durante 35 anos atendendo partos. Quem ousasse questionar a atenção medicocentrada e hospitalar ao parto seria tratado como herege e traidor, e seria perseguido pelo crime de fazer perguntas incômodas.

É tempo de aceitar o ceticismo das pessoas como uma atitude saudável, necessária, justa e compreensível. Ofender os adversários por cometerem o crime de perguntar não vai ajudar ninguém a sair dessa pandemia.

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Mamas?

Aqui está outro debate que coloca algumas ideias culturalmente disseminadas contra a parede e exige delas coerência. A primeira ideia que surgiu como comentário na matéria acima foi a condenação da “amamentação do marido” porque “a sociedade erotiza os seios e a própria amamentação”. Outra crítica que retirei da seção de comentários da revista é que as mamas tem uma função nutricional, e que seu uso para além dessa tarefa seria uma “profanação” e uma “perversão”. A terceira crítica curiosa foi “podem fazer, mas longe da minha visão. Que o façam entre 4 paredes, não precisa esse exibicionismo”. Lembra alguma coisa?

Meu corpo minhas regras, não? Cada um é responsável pelo seu prazer, certo? Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que se é, ok? Entre quatro paredes tudo é válido enquanto consensual e feito entre adultos, combinado?

Coloquei uma penca de clichês sobre corpo, sexo e amor consensual. Faltou algum?

Creio que o mito da “amamentação angelical” precisa ser questionado e desafiado na mente das pessoas, em especial das mulheres. Aliás, as críticas a este relato foram todas colhidas de mulheres, que me pareciam fazer uma espécie de defesa através da denegação. Assim, se já temos maturidade suficiente para entender que “parto faz parte da vida sexual normal de uma mulher”, por que insistimos em retirar a amamentação dessa categoria? Por que esterilizamos o ato de amamentar, retirando dele seus óbvios componentes eróticos? Por que insistimos em negar para as mamas e para a amamentação seus óbvias conexões com o prazer? Se as mamas não fossem eróticas, não seriam tão bem escondidas do nosso olhar…

Quanto aos aspectos nutricionais Freud já esclarecia que uma criança não procura leite nas mamas, mas afeto, e se surpreende com a delicia e a maravilha do leite materno. Os experimentos de Harlow (onde os macaquinhos desprezavam a mãe de arame com leite e procuravam a mãe fofinha com água – mesmos às custas da desnutrição) nos ensinaram isso há mais de meio século. Portanto, o seio é o grande objeto erótico da fase oral, mas por certo que os resíduos dessa impregnação sexual nos acompanham por toda a vida. Quanto ao uso “pervertido das mamas”, lembro que toda a construção sexual humana tem estrutura perversa (vide abaixo, Zizek) e que, se a boca fosse feita “somente para comer”, muito do nosso arsenal erótico se desmancharia no ar…

Quanto a “não expor publicamente” isso me remete aos discursos ainda existentes sobre o comportamento dos gays. “Podem ser gays, mas vão se beijar em casa”. Pois eu achei muito pertinente que este casal tenha deixado clara uma fantasia que deve ser compartilhada por mais gente do que pensamos. Por que tanto medo ao ouvir a confissão de uma fantasia alheia?

Porém, acima de tudo, acredito que uma fantasia sexual entre adultos não deveria receber tantas condenações de ordem moral, em especial por parte das mulheres que tão bravamente lutaram pela liberdade de usufruir do prazer que podem obter de seus corpos. Chega de dedos apontados às mulheres. Mamas são eróticas, amamentar faz parte da vida sexual normal de uma mulher. Casais adultos podem explorar sua sexualidade como desejarem. Moralismos são anacrônicos e abusivos. Sexo é legal e quanto mais livre melhor.

E fora Bolsonaro…

Clique aqui para ver a matéria completa.

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