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Ciência e Ideologia

Não é raro ver pessoas reclamando que o debate da ciência agora está politizado – e até partidarizado – exaltando ideologias em detrimento da “objetividade” da ciência positiva. Correntes filosóficas e perspectivas diversas estariam tomando o lugar outrora ocupado por experimentos, estudos, gráficos, números e estatísticas. Entretanto, a ideia de uma ciência isenta sempre me pareceu tão ingênua quanto um sistema judiciário ou um jornalismo que pudessem funcionar com isenção em suas específicas atividades. Creio ainda que, aqueles que acreditam numa suposta isenção da ciência apenas ignoram a influência do mundo, da cultura, dos contextos e das circunstâncias que influenciam os pesquisadores diante da tarefa de pensar e de analisar problemas científicos.

Para estes que proclamam uma perspectiva positivista para a ciência eu tenho uma pergunta honesta de alguém descrente das análises isentas e desapaixonadas: onde está a objetividade da ciência para o tratamento da tuberculose, que todos os anos mata milhões de pobres distribuídos pelos bolsões de miséria da África? Onde está a frieza científica quando milhões sucumbem à malária, à diarreia por desmame precoce, à fome endêmica, à pneumonia, à hipertensão? Mais ainda, onde está a força das verdades científicas para mudar o curso da epidemia de cesarianas? Por que não há para estas doenças a mesma mobilização que ora vemos para a Covid19, que matará muito menos do que estas nossas velhas conhecidas? Se aplicássemos um critério tão somente baseado em resultados – quantas vidas seriam salvas, quantos recursos alocados, qual a aplicabilidade e qual o impacto na saúde global – a ciência contemporânea estaria muito mais focada em água tratada, erradicação da fome, miséria absoluta, fontes de energia, tratamento de verminoses etc. e muito menos em medicamentos para queda de cabelo ou doenças raras – que não por acaso tem impacto desprezível, mas são áreas altamente rentáveis.

É preciso ver quem controla a ciência médica. Quem paga seus custos? Quem a financia? Hoje fica fácil perceber que basta uma doença ameaçar brancos e sujeitos da classe média dos países ocidentais para a nossa sociedade se erguer e exigir medidas tecnológicas imediatas, como vacinas e novas drogas, mobilizando recursos aos milhões nas pesquisas, logística e manufatura de medicamentos. Foi assim com a Aids e está sendo o mesmo agora com a Covid19. Nossa ciência não poderia se expressar fora do seu contexto histórico, e por isso ela reproduz os modelos de opressão e desequilíbrio vigentes no planeta.

Da mesma forma a tortura nos afeta: nos escandalizamos (e com justiça) pelas torturas cometidas pela ditadura militar contra políticos, jovens militantes, mulheres e professores, mas ainda temos dificuldade de nos mobilizar quando a vítima é preta e pobre e meliante. Essa escolha é ideológica. Na guerra da Ucrânia sentimos muito pelo sofrimento das crianças loiras de comercial de talco, mas não conseguimos nos identificar com a miséria causada pelas guerras coloniais e derivadas da ganância capitalista na África, quando as vítimas são esquálidas e desumanizadas.

A ciência é – e sempre foi – ideológica. A simples escolha do que será investigado já é uma opção mediada pelos valores nos quais estamos inseridos. A isenção que se pede à ciência é falsa ou mentirosa. Quando nos envolvemos com a pesquisa e a descoberta de tratamentos para uma doença – e desconsideramos centenas de outras – nossa escolha já está impregnada de ideologia, inobstante ser consciente ou não. E quem tiver o poder de tomar decisões o fará baseado nos valores que lhe afetam diretamente, e não necessariamente pelo que atinge e ameaça a maioria das pessoas.

Há muitos anos escutei de um conselheiro do CRM uma frase cuja tolice marcante nunca consegui esquecer. Dizia ele para uma plateia de iguais: “Não existe ideologia na medicina, apenas boas e más práticas”. Para dizer isso era preciso negar a realidade que nos atropela: “a isenção da ciência só seria possível se os cientistas deixassem de ser… humanos”. Ignorar o mar de significantes que nos envolve invocando uma objetividade ilusória é uma enfermidade que ataca muitos pseudocientistas. Freud já nos explicava há mais de um século: “Não existe sujeito sem cultura e nem cultura sem sujeito”, e isso demonstra que que a o circuito simbólico que nos enlaça acaba por pautar as decisões e o próprio pensamento. Assim, o oceano de conceitos à nossa volta escolhe por nós o que pesquisar e como tratar as doenças.

O que precisamos não é da ilusão de uma “ciência isenta”, mas sim de uma ciência democrática, onde as escolhas da ciência sejam tomadas em benefício da maioria e não para proteger o capital e quem o controla. É necessário que a ciência não mais esteja a reboque das forças do capital, mas que esteja nas mãos do povo para que ele possa decidir as prioridades de forma livre, e não pela imposição do lucro e do poder.

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Partos e lucros

Há mais de 20 anos eu estava atendendo um parto em um grande hospital de classe média da minha cidade quando, no meio do atendimento, a enfermeira chefe me chamou para fora da sala dizendo que uma funcionária do hospital precisava falar comigo. Fui até a porta do Centro Obstétrico onde encontrei uma bela jovem que me aguardava, segurando uma pilha de papéis em suas mãos.

– Olá doutor, eu me chamo fulana e sou do setor de contas. Estamos fechando a contabilidade do mês e estou com dificuldade para fechar estes casos. Creio que foram atendidos pelo senhor.

Destacou do meio da sua pilha de documentos algum em especial e o ofereceu a mim.

– Esse aqui é um deles, porém temos mais uns. Queria que o senhor desse uma olhada na descrição de materiais usados porque preciso mandar para a cobrança do convênio. É urgente.

Olhei rapidamente o papel à minha frente e percebi que a coluna de material estava em realmente em branco. Voltei a atenção para o cabeçalho do documento e vi o nome de uma paciente que havia atendido algumas poucas semanas atrás. Lembrei rapidamente do parto, até porque estava fresco em minha memória.

– Sim, fui eu quem atendeu este parto, mas qual o problema?

– O senhor esqueceu de listar o material usado, doutor. Aqui não consta o soro, nem equipo, as medicações injetáveis, os analgésicos pós parto, o tipo de fio de sutura, o material da episiotomia, o creme para as mamas pós parto e…

Interrompi a fala da menina com um sorriso.

– Mocinha, nada disso foi usado!!! Este foi um parto natural, sem cortes, sem suturas, sem drogas, sem intervenções. Aliás, via de regra, nenhuma dessas intervenções deveria ser usada de rotina. O nome disso é “parto humanizado”.

Ela ficou desconcertada olhando para a folha de papel à sua frente e me mostrou mais dois atendimentos que já havia selecionado. Expliquei a ela que, efetivamente, em todos aqueles casos nenhum tipo de medicação ou equipamento havia sido utilizado.

– Mas como vou fazer para cobrar?

Só então me dei conta que eu estava sendo tratado como um intermediário entre o atendimento de uma paciente e a necessidades financeiras de um hospital. Minha atuação médica precisava gerar lucro para a instituição, e a qualidade do atendimento – por mais que fosse importante – era secundária à necessidade que o hospital tinha de produzir uma entrada de recursos que surgiriam através do meu atendimento.

Esta foi a primeira vez que eu me vi na posição de agente passivo do capitalismo em sua relação com a saúde. Por certo que o fato de me contrapor à ordem obstétrica alienante e objetualizante era o suficiente para gerar desconforto e ressentimento por parte do hospital e dos colegas, mas foi a primeira vez que percebi o quanto meu exemplo era ruim para as finanças das instituições privadas. Nesse tive consciência de que os profissionais que usavam alta tecnologia, equipamentos caros, cirurgias complexas, múltiplos profissionais, muitos dias de internação, uso de UTI eram mais admirados do que alguém que demonstrava um aparente “desprezo” pelo uso ostensivo de tecnologia em seu trabalho.

A partir de então passei a observar a diferença de tratamento oferecida aos médicos daquele e de outros hospitais cuja ação trazia dividendos para a instituição. O quanto eram bajulados, bem tratados, exaltados e elogiados, mesmo que – do ponto de vista estritamente científico e pragmático – suas ações pudessem ser confrontadas quanto à eficácia e valor. Havia algo muito mais significativo na relação do hospital com esses profissionais do que o reconhecimento da sua excelência e de seu trabalho.

Estas percepções foram moldando uma visão pessoal absolutamente negativa da relação entre saúde e capitalismo. Eu percebia que a mistura desses conceitos produzia um resultado ruim, e o melhor exemplo possível era a saúde americana, que apesar do alto grau de avanço tecnológico – o melhor que o dinheiro pode comprar – tem os piores resultados entre todas as nações desenvolvidas do mundo – em especial no parto e no nascimento. Também ficou clara a sedução que estas mensagens subliminares operam na atuação dos médicos. Quem não gosta de ser bajulado no local onde exerce sua função? Quem não gosta de ser tratado com distinção pelos colegas e pelo local que acolhe seu trabalho? Quem não acha maravilhoso ser bem remunerado em seu ofício?

Muitos anos depois recebi pelo celular uma mensagem do anestesista que durante quase 30 anos atendeu as minhas cesarianas, sempre da melhor maneira possível. Nunca tive nenhuma queixa sobre a qualidade do seu trabalho, muito menos da rapidez com que chegava ao hospital ou a agilidade com a qual conduzia suas anestesias. A mensagem, resumidamente, dizia:

– Caro amigo. A partir de hoje não atenderei mais partos para você. Nada pessoal, mas você não traz para mim o suficiente retorno financeiro. Através de você ganho por volta de 1500 reais mensais, o que é muito pouco para a atividade que exerço. Sucesso e boa sorte.

Sim, eu havia sido “demitido” porque o chamava poucas vezes para atender cesarianas enquanto meus colegas o chamavam inúmeras vezes mais, e assim eram considerados muito mais valiosos. A validade das cesarianas dos colegas era absolutamente irrelevante para o cálculo que fizera. A luta insana que eu travava contra o abuso de indicações cirúrgicas era do conhecimento dele, mas não fez a menor diferença para avaliar o valor do seu trabalho. Eu me lembro desta cena até hoje, a minha face atônita olhando para a tela brilhante do celular enquanto pensava: “Mas, espere, não vá, quem sabe se eu…”

Durante uma fração de segundos eu – por me sentir desamparado para atender partos sem o suporte de um anestesista – acreditei que poderia haver algo errado com a minha atitude e talvez não devesse ser tão “radical”. Mas, tão logo passou esse fragmento de instante, eu me dei conta que não havia como fazer qualquer tipo de concessão para um modelo falido, que enxerga os ganhos acima da atenção das gestantes, e que coloca a excelência do atendimento à reboque dos ganhos financeiros dos profissionais, das instituições e das indústrias de insumos médicos.

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Amamentação e Capitalismo

Na foto a pequena Ava e sua mãe Bebel, amamentando contra o capitalismo….

A resistência da pediatria enquanto corporação em abraçar a amamentação como elemento essencial do cuidado neonatal sempre me intrigou. Depois que conheci por dentro esse modelo de medicina amparada por – e disseminadora de – valores capitalistas, tudo fez sentido. A amamentação é gratuita, não gera lucros para a indústria da doença, não aumenta a procura por hospitais, drogas, mamadeiras, fórmulas e médicos. A amamentação e o parto normal nadam contra a corrente, e não empurram a “roda da fortuna” capitalista.

Mais ainda: amamentação produz amor e conexão, elementos que não podem ser quantificáveis ou vendidos em promoção no Black Friday.

A amamentação atua contra tudo que essa indústria precisa: consumidores. Além disso, ela faz parte do arcabouço fisiológico pulsional que cada mãe possui em latência desde o nascimento como elemento transgeracional.

Por outro lado, enquanto a capacidade de parir e a capacidade para amamentar estão inscritas nas habilidades inatas de cada mulher, sua expressão necessita AMPARO SOCIAL, a exata ferramenta que nos acompanhou durante 99% da nossa jornada planetária. Na ausência desse amparo parto e amamentação caem nas redes da Medicina, e são vistos – e tratados – pelo filtro da patologia.

Não é coincidência que parto livre e amamentação fisiológica foram – e ainda são – brutalmente atacados pela cultura do último século, e sua sobrevivência depende de poucos heróis da resistência. Lutar pelo parto normal e livre e pela amamentação alargada são elementos contraculturais poderosos. Uma mulher parindo e outra amamentando nas barbas da sociedade patriarcal são dois liquidificadores ligados de madrugada no condomínio dos caretas.

A plena recuperação da amamentação livre só vai ocorrer com uma reformulação da medicina, seus valores e suas metas, mas esta só vai acontecer com a transformação da própria sociedade onde ela está inserida, deixando para trás o capitalismo e a vida humana baseada no lucro.

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Antivaxx

Acima de 90% das pessoas que vejo expressarem posturas críticas às vacinas – ou à própria vacinação – são vacinadas e não são contrárias às vacinas. Vejo nelas uma genuína preocupação com a segurança e com os direitos humanos. Percebo nas suas manifestações uma saudável postura de confrontação e o desejo de não sucumbir ao pânico estimulado pela mídia com o objetivo de impedir que perguntas importantes sejam feitas.

Perguntas como… funcionam mesmo? Tem provas? Qual a eficácia? O que há nelas? Existem testes que garantem a segurança? Quão eficientes são? São seguras? Quais os riscos? O que dizer desses efeitos colaterais que apareceram? Eram conhecidos? Se não eram, quais novas surpresas podem aparecer? Qual o risco se eu não tomar a vacina? Se eu decidir não tomar isso coloca outras pessoas em risco? Por quê?

Em contrapartida vejo os entusiastas das vacinas adotando uma atitude alienante, dizendo coisas como “não quero saber o que elas contêm”, “não sou sommelier de vacina”, “vacinas salvam vidas”, “tomo quantas vezes me mandarem”, “tomei outras vacinas e nunca perguntei o que tinham”, expressando uma confiança cega nas promessas das empresas mais bandidas desse planeta, responsáveis por escândalos onde as mentiras, o encobrimento de mortes, o suborno e a fraude em estudos foram onipresentes. (para mais informações veja aqui)

Em uma pandemia não deveríamos permitir que as ações guiadas pelo pânico ditassem as condutas. Se é comprovado que as vacinas reduzem mortes e danos, faz sentido estimular que as pessoas façam uso delas. Entretanto, quando vejo pessoas fazendo perguntas incômodas sendo tratadas como “antivaxx” ou “terraplanistas” eu percebo que existe a intenção de destruir qualquer contraposição à “verdade oficial”. Isso parece mostrar que, exatamente por assentar-se sobre premissas frágeis, a defesa dos passaportes Gulags, exclusões e vacinações mandatórias não suporta contestação.

Na idade média as perguntas sobre geocentrismo, a virgindade de Maria ou a natureza do Espírito eram tratadas da mesma forma: como heresia, exatamente porque não havia respostas adequadas a dar. Do crente era exigido apenas fé e obediência. A pena para uma atitude contestatória naquela época poderia ser a morte na fogueira; hoje em dia aplicamos a sentença de humilhação pública e cancelamento.

O mesmo eu vi durante 35 anos atendendo partos. Quem ousasse questionar a atenção medicocentrada e hospitalar ao parto seria tratado como herege e traidor, e seria perseguido pelo crime de fazer perguntas incômodas.

É tempo de aceitar o ceticismo das pessoas como uma atitude saudável, necessária, justa e compreensível. Ofender os adversários por cometerem o crime de perguntar não vai ajudar ninguém a sair dessa pandemia.

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Mamas?

Aqui está outro debate que coloca algumas ideias culturalmente disseminadas contra a parede e exige delas coerência. A primeira ideia que surgiu como comentário na matéria acima foi a condenação da “amamentação do marido” porque “a sociedade erotiza os seios e a própria amamentação”. Outra crítica que retirei da seção de comentários da revista é que as mamas tem uma função nutricional, e que seu uso para além dessa tarefa seria uma “profanação” e uma “perversão”. A terceira crítica curiosa foi “podem fazer, mas longe da minha visão. Que o façam entre 4 paredes, não precisa esse exibicionismo”. Lembra alguma coisa?

Meu corpo minhas regras, não? Cada um é responsável pelo seu prazer, certo? Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que se é, ok? Entre quatro paredes tudo é válido enquanto consensual e feito entre adultos, combinado?

Coloquei uma penca de clichês sobre corpo, sexo e amor consensual. Faltou algum?

Creio que o mito da “amamentação angelical” precisa ser questionado e desafiado na mente das pessoas, em especial das mulheres. Aliás, as críticas a este relato foram todas colhidas de mulheres, que me pareciam fazer uma espécie de defesa através da denegação. Assim, se já temos maturidade suficiente para entender que “parto faz parte da vida sexual normal de uma mulher”, por que insistimos em retirar a amamentação dessa categoria? Por que esterilizamos o ato de amamentar, retirando dele seus óbvios componentes eróticos? Por que insistimos em negar para as mamas e para a amamentação seus óbvias conexões com o prazer? Se as mamas não fossem eróticas, não seriam tão bem escondidas do nosso olhar…

Quanto aos aspectos nutricionais Freud já esclarecia que uma criança não procura leite nas mamas, mas afeto, e se surpreende com a delicia e a maravilha do leite materno. Os experimentos de Harlow (onde os macaquinhos desprezavam a mãe de arame com leite e procuravam a mãe fofinha com água – mesmos às custas da desnutrição) nos ensinaram isso há mais de meio século. Portanto, o seio é o grande objeto erótico da fase oral, mas por certo que os resíduos dessa impregnação sexual nos acompanham por toda a vida. Quanto ao uso “pervertido das mamas”, lembro que toda a construção sexual humana tem estrutura perversa (vide abaixo, Zizek) e que, se a boca fosse feita “somente para comer”, muito do nosso arsenal erótico se desmancharia no ar…

Quanto a “não expor publicamente” isso me remete aos discursos ainda existentes sobre o comportamento dos gays. “Podem ser gays, mas vão se beijar em casa”. Pois eu achei muito pertinente que este casal tenha deixado clara uma fantasia que deve ser compartilhada por mais gente do que pensamos. Por que tanto medo ao ouvir a confissão de uma fantasia alheia?

Porém, acima de tudo, acredito que uma fantasia sexual entre adultos não deveria receber tantas condenações de ordem moral, em especial por parte das mulheres que tão bravamente lutaram pela liberdade de usufruir do prazer que podem obter de seus corpos. Chega de dedos apontados às mulheres. Mamas são eróticas, amamentar faz parte da vida sexual normal de uma mulher. Casais adultos podem explorar sua sexualidade como desejarem. Moralismos são anacrônicos e abusivos. Sexo é legal e quanto mais livre melhor.

E fora Bolsonaro…

Clique aqui para ver a matéria completa.

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Tchutchuca

Para mim, conforme já disse em outras oportunidades, o grande erro – que a própria imprensa ratifica de forma sistemática – é considerar o CFM como um órgão preocupado com a saúde da população ou com a cura de doenças. Isto é um equívoco. O CFM se preocupa com os médicos – seu valor social e sua importância – a Medicina e seu significado na cultura. NÃO É função do CFM proteger pacientes. Para isso outras instâncias precisam ser criadas. Sugiro a “Ordem dos Pacientes”.

É evidente a impropriedade de misturar saúde e lucros, e o absurdo de ainda termos sistemas de saúde e profissionais que lucram com a doença e/ou com a piora dos pacientes. Por outro lado, muitos ainda continuam acreditando que o CFM tem alguma responsabilidade com a saúde das pessoas ou mesmo com a boa prática médica. Não!!! Estes órgãos existem para proteger os médicos e a Medicina – os quais realmente precisam ser protegidos. Uma sociedade que não protege médicos e profissionais da saúde que atuam na fronteira entre morte e vida produz caos e ações defensivas. Todavia, cobrar dessa instituição que zele pela saúde dos pacientes é um erro que precisamos corrigir com a criação de uma CFP – Conselho Federal de Pacientes, órgão responsável para defender os pacientes contra práticas anacrônicas e prejudiciais, como o abuso de cesarianas, kristeller, episiotomias, circuncisão ritualística e outras práticas sem evidências em todas as áreas da medicina.

Limpar a barra da categoria vai levar muitos anos, porque o problema não é de agora. O que testemunhamos nesse momento é o problema escancarado; porém os médicos assumiram uma postura reacionária e contrária aos interesses nacionais desde a eleição do segundo mandato de Dilma. Foram os médicos que tomaram a frente dos ataques misóginos a ela. Estavam lá debochando do AVC de dona Marisa ou na morte do neto de Lula. Foram os médicos que se recusaram a atender crianças (!!!) filhos de pais de esquerda. Colaboraram com a desestabilização. Atuaram como frente de ataque ao PT assumindo como fala principal os discursos de extrema direita.

O CFM está lotado de bolsonaristas da pior espécie. O episódio da pandemia é apenas o coroamento de uma postura anti-SUS, antipovo, aristocrática, arrogante e perniciosa para a saúde da população. A solução para a Medicina só vai ocorrer quando houver uma transformação radical no sistema de ingresso, impedindo que ocorra o sequestro de uma profissão pelos filhos da classe abastada, que pouco entende e quase nada conhece da realidade da saúde brasileira. Infelizmente a Medicina brasileira é arrogante, alienada e autocentrada. Os professores são aristocratas sem vinculação com as populações marginalizadas.

Sei que é uma generalização e que existem exceções importantes e atuantes, mas são minoritárias. A face da medicina brasileira não é boa, e isso ficou muito claro com a deplorável atuação do CFM no desenrolar da crise sanitária.

Esse mesmo CFM que ataca médicos humanistas e promove perseguições covardes a eles e à enfermagem, é a instituição que jamais mexeu um dedo para questionar os médicos que promovem abusos de cesarianas. Já parou para pensar a razão dessa dupla moral? Ora… o CFM só ataca quem ameaça a supremacia médica ao questionar suas ferramentas de intervenção. Jamais quem as usa de forma abusiva e perigosa, colocando em risco a integridade de pacientes.

Ou, como se diz no popular…“Feroz com humanistas, tchutchuca com cesaristas”.

Veja mais aqui na matéria do El País

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Positivismo e Medicina

A ideia de uma medicina monolítica é anticientífica e totalitária

O positivismo defende a ideia de que o conhecimento científico é a única forma verdadeira de conhecimento verdadeiro, desconsiderando todas as outras formas de aquisição de conhecimento que não estejam subjugadas ao método aplicado pela ciência. Estes outros saberes serão, desta forma, considerados como domínio teológico-metafísico, que se caracteriza pelas crendices, mitos e superstições. Para o início do século XIX, estas ideias de Auguste Conte e John Stuart Mill seriam, por certo, muito avançadas. Todavia, com o surgimento do capitalismo transnacional e, em especial, a explosão da indústria químico-farmacêutica do pós guerra, as descobertas científicas no campo da medicina farmacológica adentraram o grande mercado dos lucros e das concorrências, fazendo com que as descobertas destas gigantes industriais sejam mais pautadas pelo seu sucesso em vendas do que pela real capacidade de tratar e curar doenças.

Hoje em dia, em função da pervasividade dos medicamentos na cultura ocidental, temos a ideia de que as inovações medicamentosas e farmacêuticas são elementos propulsores do progresso, oferecendo a estas empresas uma confiança muito além do que seria justo. Entretanto, a história recente nos mostra que a “BigPharma” – conjunto de empresas multinacionais de drogas – é por certo um dos conglomerados mais corruptos já criados pelo capitalismo moderno. Mesmo assim, ainda confundimos remédios com tecnologia e ciência; pior ainda, acreditamos que a saúde é algo que se conquista com a adição de drogas.

As pessoas ainda não perceberam o preço que ainda vamos pagar por estas crenças, que mais se assemelham ao crédito que historicamente demos às religiões. Ao criar uma “medicina certa”, positivista, correta e acima de qualquer questionamento, perdemos de perspectiva a subjetividade, marca indelével da “nouvelle vague” das ciências humanas. A ideia de uma medicina monolítica me traz à mente a sombra do totalitarismo do século XX, e entender que a busca pela saúde estará na alienação que o sujeito sofre sobre seu corpo e sua alma, oferecendo esta tarefa às drogas, é um erro que pode ser mensurado indiretamente pela epidemia de opiáceos nos Estados Unidos ou pelo consumo absurdo de antibióticos e psicotrópicos pelas populações ocidentais.

Não me refiro apenas a estes tratamentos experimentais recentemente utilizados para doenças contemporâneas, mas sei exatamente que agora como nunca esta questão está à flor da pele. Afinal, qual a saída para a humanidade que paulatinamente se desvia da sua natureza mais íntima e ruma célere à mais absoluta “ciborguificação”, tendo a vida regulada por uma lógica protética e artificial? A ideia que por muitos anos foi dominante é de que existe uma forma certa, infalível e correta de tratar as pessoas – a biomedicina tecnológica e intervencionista – como se os pacientes se comportassem como gado – e aqui os veterinários me xingam, porque dizem que nem os ruminantes são todos iguais.

A ideia de tratar as doenças a despeito do sujeito parte de um biologicismo ultrapassado que despreza os efeitos do terreno mórbido na manifestação das enfermidades. Voltar ao século XIX não me parece significar qualquer avanço. O pior é que esta medicina hegemônica muitas vezes é apenas a face visível que emerge de disputas violentas pelo fatiamento de mercados e pela busca de lucros astronômicos no negócio da doença, e nós somos apenas a parte consumidora (e bovina) que baixa a cabeça diante do discurso das autoridades.

Criar este tipo de positivismo na medicina é um erro brutal, que leva consigo o risco de perder de perspectiva a subjetividade imanente de cada doente.

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Kits e cesarianas

Como o meu filho bem observou, a diretriz da prescrição dos “kit covid” é a proteção …. DO MÉDICO, e não necessariamente do paciente. Ele me alertou também para o fato de que a lógica utilizada pelo CFM é igual àquela que leva ao abuso das cesariana: na dúvida OPERE, para se proteger enquanto profissional.

Mesmo sem o saber, o representante da corporação médica defende o “imperativo tecnológico” do qual Robbie Davis-Floyd se ocupa, que diz que “se há tecnologia disponível ela deve ser usada, inobstante o fato de causar dano”. Muito mais do que evidências científicas, a profissão é levada a agir por defesa, aumentando gravemente os riscos para os pacientes – mesmo que os diminua para os médicos.

Assim, se algo ocorrer de grave pelo uso do kit covid – e o mesmo se pode dizer das cesarianas – sempre haverá a desculpa de que “fizemos tudo que estava ao nosso alcance”, e isso servirá como salvo conduto diante dos seus pares, pois quem julga os médicos nos conselhos de classe se beneficia do (ab)uso tecnológico em que a Medicina se sustenta e está envolta. Mas, é claro que falta também um judiciário que aprenda a julgar casos médicos desviando dos atalhos fáceis do “senso comum”.

Médicos acovardados e judiciário pusilânime levam ao abuso de intervenções, medicalização da vida cotidiana, custos aumentados e morbimortalidade crescente. Prevenir iatrogenia é função medica.

Veja aqui a matéria do Intercept sobre a posição do vice-presidente do CFM no que diz respeito à proteção dos médicos diante da Covid 19.

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Censura

Hoje o debate no Facebook sobre riscos, eficiência, vantagens e benefícios de vacinas está banido. Canais no YouTube estão sendo excluídos e todas as vozes dissidentes estão sendo silenciadas. Censurados, em nome do bem geral, da saúde pública, para o “greater good”, decidido por algumas poucas pessoas que pensaram por nós, decidiram por nós, falaram por nós e apertaram o botão “delete” para milhões no mundo todo.

Não, este post não é sobre vacinas, é sobre a liberdade de debater e conhecer todas as faces da verdade.

Peço paciência para uma analogia. Fiz todo o meu transcurso pela escola médica e na época da residência em ginecologia escutando a exaltação das mamografias, Elas eram exames de baixíssima periculosidade, boa acuidade e poderiam fazer diagnósticos de tumores ainda abaixo da possibilidade de palpação e a tempo de se fazer uma cirurgia curativa. Quem poderia ser contrário a este tipo de milagre da tecnologia? Quem poderia questionar os resultados positivos de mulheres que foram operadas e recuperaram a saúde após a descoberta de um minúsculo tumor na mama?

Pois houve gente que, mesmo diante deste aparente sucesso, teve desconfianças e resolveu investigar a fundo o difícil campo dos riscos e benefícios de irradiar uma mama de forma rotineira e periodicamente para descobrir tumores escondidos nos tecidos mamários. O trabalho iconoclástico do meu herói pessoal, Peter Gotzsche, vai exatamente nesse sentido.

Suas conclusões foram impactantes. Para alguns este exame deveria ser banido. Para outros ele não deveria ser usado de forma rotineira e, muito menos, com tamanha frequência.

Agora imagine que há alguns poucos anos o debate sobre mamografias tivesse sido banido, por diminuir a taxa de pacientes submetidas a este escrutínio e, portanto, teoricamente aumentado o número de pacientes não diagnosticadas precocemente. Jamais teríamos descoberto que as vantagens das mamografias rotineiras nem de longe produzem o resultado que imaginávamos produzirem.

O que é “desinformação” hoje pode não ser amanhã. Existe muita pesquisa sendo feita para mostrar problemas relativos às vacinas, de boa, excelente e até de péssima qualidade. Banir todas elas com a desculpa de “proteger as pessoas” é uma atitude totalitária. Eu lembro da unanimidade em relação às mamografias há 20 anos, e a fúria contra qualquer médico que resolvesse questionar sua validade. Cesarianas a mesma coisa. Enteroviofórmio idem. Se alguém quisesse questionar o uso de raios X nos primeiros anos do século XX, seria tratado como um retrógrado, inimigo da ciência.

Poucos lugares do conhecimento merecem e necessitam tanto de iconoclastia como a medicina. Poucos são mais necessários do que aqueles que se contrapõem às posturas hegemônicas. Esses sujeitos – como Peter Gotzsche – são essenciais.

Bem sei o que a direita tem feito com essa questão, adicionando misticismos, mentiras e fraudes sobre achados científicos. Entretanto não se retiram os dedos por infecções nas unhas. Não há como ressuscitar a censura com a desculpa de “proteger pessoas”. Lembre que o macartismo se guiava por este mesmo norte. A liberdade de pesquisar e divulgar dissidências dos conhecimentos hegemônicos deve ser sempre garantido. Existe boa ciência entre aqueles que questionam vacinas e, como eu disse, muita bobagem, mas em qualquer campo existe algo parecido. Que às pessoas seja garantido o direito de decidir. E veja… aqueles que se contrapõem à avalanche de informações favoráveis às vacinas são ratinhos lidando contra elefantes, mas também o era Galileu ao dizer “eppur si muove”.

Outras coisa perigosa é “entre os pares”. O debate científico tem pressupostos rígidos do debate e da pesquisa, mas não são os cientistas que devem pautar a vida cotidiana. A propósito… que horror seria uma vida coordenada por cientistas!!! Portanto, esse debate DEVE obrigatoriamente verter para a discussão pública, para que as pessoas, os governos, as sociedades e os grupos possam decidir com os argumentos que as ciências lhes oferecem, e não pela IMPOSIÇÃO do debate secreto e fechado entre pares. É por isso que os cientistas divulgam seus achados na imprensa, para provar ou negar achados para gente comum, como nós.

Agora pensem… apesar de ser doloroso ter que aguentar posições que agridem nossas convicções mais profundas a censura é uma tragédia para o conhecimento, a liberdade e o próprio avanço das ciências. A facilidade como as pessoas aceitam este tipo de proibições (em especial na esquerda festeira identitária) é uma tragédia social. Parece que vamos precisar reinventar os princípios básicos da civilização, baseados na liberdade de expressão, novamente, partindo do zero. Nunca as palavras de Evelyn Beatrice Hall, erroneamente atribuídas a Voltaire, fizeram tanto sentido: “Discordo do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”.

Ainda haverá no mundo paixão suficiente para a defesa destes princípios?

Veja AQUI o trabalho de Peter Gotzsche publicado no Lancet.

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Pensamento monolítico

Sabe qual era um dos grandes slogans da minha juventude na luta contra a ditadura militar dos anos 60-80?

“ABAIXO A CENSURA”

Pois há alguns dias o YouTube CENSUROU milhares de páginas e canais que traziam uma visão crítica, alternativa, questionadora ou explicitamente contrária às vacinas. Assim, falar de vacinas fora da linha OFICIAL passa a ser algo passível de bloqueio e censura. Uma espécie de MacCartismo da indústria farmacêutica, que visa impedir o choque de perspectivas. Vi gente da área da ciência e da Academia aplaudindo…

A política de censura não tem nada de progressista, nada de avançada e nada a favor da saúde pública. Trata-se de criar um pensamento MONOLÍTICO, e que não vem de agora, pois iniciou-se lá atrás com a censura ao Trump, mas quando ocorreu todo mundo comemorou ou deu risadinhas debochadas. Pois agora as BigTechs decidem que um tema científico como vacinação não pode aceitar visões conflitantes, e a desculpa que usam para reavivar a censura são as MESMAS utilizadas pelos macartistas nos Estados Unidos para perseguir comunistas: é necessário em nome da segurança do povo, perigo eminente, disseminação de mentiras, etc.

Os meios de comunicação estabelecem, assim, uma DITADURA DAS COMUNICAÇÕES, e vendem estas atitudes como sendo ações para derrubar o “negacionismo” e a favor da “ciência”. Peço apenas que lembrem que proibições e visões únicas não combinam com ciência, a qual se baseia em choques e contraditórios. Não há produção científica sem conflito de ideias e disputas sobre pontos de vista.

A censura acaba com qualquer debate, e apenas denuncia que os grandes conglomerados de informação internacional – Google, Facebook, Twitter, YouTube – associados às grandes indústrias farmacêuticas podem fazer o que bem entenderem, inclusive ressuscitar a censura no mundo – e ainda fazer muita gente acreditar que é para o bem de todos.

Não quero debater validade das vacinas, mas esta censura provavelmente vai produzir um efeito oposto em médio prazo. No início o silêncio, mas depois muita gente vai se interessar por um tema que foi proibido pelos grandes conglomerados capitalistas do mundo.

Será que dentro de poucos anos teremos que voltar a exigir o fim da censura? Hoje é a vacina, amanhã será o comunismo, o socialismo, a liberação das drogas, o aborto livre etc. Vamos aceitar estas imposições e continuar quietos?

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