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Tchutchuca

Para mim, conforme já disse em outras oportunidades, o grande erro – que a própria imprensa ratifica de forma sistemática – é considerar o CFM como um órgão preocupado com a saúde da população ou com a cura de doenças. Isto é um equívoco. O CFM se preocupa com os médicos – seu valor social e sua importância – a Medicina e seu significado na cultura. NÃO É função do CFM proteger pacientes. Para isso outras instâncias precisam ser criadas. Sugiro a “Ordem dos Pacientes”.

É evidente a impropriedade de misturar saúde e lucros, e o absurdo de ainda termos sistemas de saúde e profissionais que lucram com a doença e/ou com a piora dos pacientes. Por outro lado, muitos ainda continuam acreditando que o CFM tem alguma responsabilidade com a saúde das pessoas ou mesmo com a boa prática médica. Não!!! Estes órgãos existem para proteger os médicos e a Medicina – os quais realmente precisam ser protegidos. Uma sociedade que não protege médicos e profissionais da saúde que atuam na fronteira entre morte e vida produz caos e ações defensivas. Todavia, cobrar dessa instituição que zele pela saúde dos pacientes é um erro que precisamos corrigir com a criação de uma CFP – Conselho Federal de Pacientes, órgão responsável para defender os pacientes contra práticas anacrônicas e prejudiciais, como o abuso de cesarianas, kristeller, episiotomias, circuncisão ritualística e outras práticas sem evidências em todas as áreas da medicina.

Limpar a barra da categoria vai levar muitos anos, porque o problema não é de agora. O que testemunhamos nesse momento é o problema escancarado; porém os médicos assumiram uma postura reacionária e contrária aos interesses nacionais desde a eleição do segundo mandato de Dilma. Foram os médicos que tomaram a frente dos ataques misóginos a ela. Estavam lá debochando do AVC de dona Marisa ou na morte do neto de Lula. Foram os médicos que se recusaram a atender crianças (!!!) filhos de pais de esquerda. Colaboraram com a desestabilização. Atuaram como frente de ataque ao PT assumindo como fala principal os discursos de extrema direita.

O CFM está lotado de bolsonaristas da pior espécie. O episódio da pandemia é apenas o coroamento de uma postura anti-SUS, antipovo, aristocrática, arrogante e perniciosa para a saúde da população. A solução para a Medicina só vai ocorrer quando houver uma transformação radical no sistema de ingresso, impedindo que ocorra o sequestro de uma profissão pelos filhos da classe abastada, que pouco entende e quase nada conhece da realidade da saúde brasileira. Infelizmente a Medicina brasileira é arrogante, alienada e autocentrada. Os professores são aristocratas sem vinculação com as populações marginalizadas.

Sei que é uma generalização e que existem exceções importantes e atuantes, mas são minoritárias. A face da medicina brasileira não é boa, e isso ficou muito claro com a deplorável atuação do CFM no desenrolar da crise sanitária.

Esse mesmo CFM que ataca médicos humanistas e promove perseguições covardes a eles e à enfermagem, é a instituição que jamais mexeu um dedo para questionar os médicos que promovem abusos de cesarianas. Já parou para pensar a razão dessa dupla moral? Ora… o CFM só ataca quem ameaça a supremacia médica ao questionar suas ferramentas de intervenção. Jamais quem as usa de forma abusiva e perigosa, colocando em risco a integridade de pacientes.

Ou, como se diz no popular…“Feroz com humanistas, tchutchuca com cesaristas”.

Veja mais aqui na matéria do El País

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Positivismo e Medicina

A ideia de uma medicina monolítica é anticientífica e totalitária

O positivismo defende a ideia de que o conhecimento científico é a única forma verdadeira de conhecimento verdadeiro, desconsiderando todas as outras formas de aquisição de conhecimento que não estejam subjugadas ao método aplicado pela ciência. Estes outros saberes serão, desta forma, considerados como domínio teológico-metafísico, que se caracteriza pelas crendices, mitos e superstições. Para o início do século XIX, estas ideias de Auguste Conte e John Stuart Mill seriam, por certo, muito avançadas. Todavia, com o surgimento do capitalismo transnacional e, em especial, a explosão da indústria químico-farmacêutica do pós guerra, as descobertas científicas no campo da medicina farmacológica adentraram o grande mercado dos lucros e das concorrências, fazendo com que as descobertas destas gigantes industriais sejam mais pautadas pelo seu sucesso em vendas do que pela real capacidade de tratar e curar doenças.

Hoje em dia, em função da pervasividade dos medicamentos na cultura ocidental, temos a ideia de que as inovações medicamentosas e farmacêuticas são elementos propulsores do progresso, oferecendo a estas empresas uma confiança muito além do que seria justo. Entretanto, a história recente nos mostra que a “BigPharma” – conjunto de empresas multinacionais de drogas – é por certo um dos conglomerados mais corruptos já criados pelo capitalismo moderno. Mesmo assim, ainda confundimos remédios com tecnologia e ciência; pior ainda, acreditamos que a saúde é algo que se conquista com a adição de drogas.

As pessoas ainda não perceberam o preço que ainda vamos pagar por estas crenças, que mais se assemelham ao crédito que historicamente demos às religiões. Ao criar uma “medicina certa”, positivista, correta e acima de qualquer questionamento, perdemos de perspectiva a subjetividade, marca indelével da “nouvelle vague” das ciências humanas. A ideia de uma medicina monolítica me traz à mente a sombra do totalitarismo do século XX, e entender que a busca pela saúde estará na alienação que o sujeito sofre sobre seu corpo e sua alma, oferecendo esta tarefa às drogas, é um erro que pode ser mensurado indiretamente pela epidemia de opiáceos nos Estados Unidos ou pelo consumo absurdo de antibióticos e psicotrópicos pelas populações ocidentais.

Não me refiro apenas a estes tratamentos experimentais recentemente utilizados para doenças contemporâneas, mas sei exatamente que agora como nunca esta questão está à flor da pele. Afinal, qual a saída para a humanidade que paulatinamente se desvia da sua natureza mais íntima e ruma célere à mais absoluta “ciborguificação”, tendo a vida regulada por uma lógica protética e artificial? A ideia que por muitos anos foi dominante é de que existe uma forma certa, infalível e correta de tratar as pessoas – a biomedicina tecnológica e intervencionista – como se os pacientes se comportassem como gado – e aqui os veterinários me xingam, porque dizem que nem os ruminantes são todos iguais.

A ideia de tratar as doenças a despeito do sujeito parte de um biologicismo ultrapassado que despreza os efeitos do terreno mórbido na manifestação das enfermidades. Voltar ao século XIX não me parece significar qualquer avanço. O pior é que esta medicina hegemônica muitas vezes é apenas a face visível que emerge de disputas violentas pelo fatiamento de mercados e pela busca de lucros astronômicos no negócio da doença, e nós somos apenas a parte consumidora (e bovina) que baixa a cabeça diante do discurso das autoridades.

Criar este tipo de positivismo na medicina é um erro brutal, que leva consigo o risco de perder de perspectiva a subjetividade imanente de cada doente.

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Kits e cesarianas

Como o meu filho bem observou, a diretriz da prescrição dos “kit covid” é a proteção …. DO MÉDICO, e não necessariamente do paciente. Ele me alertou também para o fato de que a lógica utilizada pelo CFM é igual àquela que leva ao abuso das cesariana: na dúvida OPERE, para se proteger enquanto profissional.

Mesmo sem o saber, o representante da corporação médica defende o “imperativo tecnológico” do qual Robbie Davis-Floyd se ocupa, que diz que “se há tecnologia disponível ela deve ser usada, inobstante o fato de causar dano”. Muito mais do que evidências científicas, a profissão é levada a agir por defesa, aumentando gravemente os riscos para os pacientes – mesmo que os diminua para os médicos.

Assim, se algo ocorrer de grave pelo uso do kit covid – e o mesmo se pode dizer das cesarianas – sempre haverá a desculpa de que “fizemos tudo que estava ao nosso alcance”, e isso servirá como salvo conduto diante dos seus pares, pois quem julga os médicos nos conselhos de classe se beneficia do (ab)uso tecnológico em que a Medicina se sustenta e está envolta. Mas, é claro que falta também um judiciário que aprenda a julgar casos médicos desviando dos atalhos fáceis do “senso comum”.

Médicos acovardados e judiciário pusilânime levam ao abuso de intervenções, medicalização da vida cotidiana, custos aumentados e morbimortalidade crescente. Prevenir iatrogenia é função medica.

Veja aqui a matéria do Intercept sobre a posição do vice-presidente do CFM no que diz respeito à proteção dos médicos diante da Covid 19.

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Censura

Hoje o debate no Facebook sobre riscos, eficiência, vantagens e benefícios de vacinas está banido. Canais no YouTube estão sendo excluídos e todas as vozes dissidentes estão sendo silenciadas. Censurados, em nome do bem geral, da saúde pública, para o “greater good”, decidido por algumas poucas pessoas que pensaram por nós, decidiram por nós, falaram por nós e apertaram o botão “delete” para milhões no mundo todo.

Não, este post não é sobre vacinas, é sobre a liberdade de debater e conhecer todas as faces da verdade.

Peço paciência para uma analogia. Fiz todo o meu transcurso pela escola médica e na época da residência em ginecologia escutando a exaltação das mamografias, Elas eram exames de baixíssima periculosidade, boa acuidade e poderiam fazer diagnósticos de tumores ainda abaixo da possibilidade de palpação e a tempo de se fazer uma cirurgia curativa. Quem poderia ser contrário a este tipo de milagre da tecnologia? Quem poderia questionar os resultados positivos de mulheres que foram operadas e recuperaram a saúde após a descoberta de um minúsculo tumor na mama?

Pois houve gente que, mesmo diante deste aparente sucesso, teve desconfianças e resolveu investigar a fundo o difícil campo dos riscos e benefícios de irradiar uma mama de forma rotineira e periodicamente para descobrir tumores escondidos nos tecidos mamários. O trabalho iconoclástico do meu herói pessoal, Peter Gotzsche, vai exatamente nesse sentido.

Suas conclusões foram impactantes. Para alguns este exame deveria ser banido. Para outros ele não deveria ser usado de forma rotineira e, muito menos, com tamanha frequência.

Agora imagine que há alguns poucos anos o debate sobre mamografias tivesse sido banido, por diminuir a taxa de pacientes submetidas a este escrutínio e, portanto, teoricamente aumentado o número de pacientes não diagnosticadas precocemente. Jamais teríamos descoberto que as vantagens das mamografias rotineiras nem de longe produzem o resultado que imaginávamos produzirem.

O que é “desinformação” hoje pode não ser amanhã. Existe muita pesquisa sendo feita para mostrar problemas relativos às vacinas, de boa, excelente e até de péssima qualidade. Banir todas elas com a desculpa de “proteger as pessoas” é uma atitude totalitária. Eu lembro da unanimidade em relação às mamografias há 20 anos, e a fúria contra qualquer médico que resolvesse questionar sua validade. Cesarianas a mesma coisa. Enteroviofórmio idem. Se alguém quisesse questionar o uso de raios X nos primeiros anos do século XX, seria tratado como um retrógrado, inimigo da ciência.

Poucos lugares do conhecimento merecem e necessitam tanto de iconoclastia como a medicina. Poucos são mais necessários do que aqueles que se contrapõem às posturas hegemônicas. Esses sujeitos – como Peter Gotzsche – são essenciais.

Bem sei o que a direita tem feito com essa questão, adicionando misticismos, mentiras e fraudes sobre achados científicos. Entretanto não se retiram os dedos por infecções nas unhas. Não há como ressuscitar a censura com a desculpa de “proteger pessoas”. Lembre que o macartismo se guiava por este mesmo norte. A liberdade de pesquisar e divulgar dissidências dos conhecimentos hegemônicos deve ser sempre garantido. Existe boa ciência entre aqueles que questionam vacinas e, como eu disse, muita bobagem, mas em qualquer campo existe algo parecido. Que às pessoas seja garantido o direito de decidir. E veja… aqueles que se contrapõem à avalanche de informações favoráveis às vacinas são ratinhos lidando contra elefantes, mas também o era Galileu ao dizer “eppur si muove”.

Outras coisa perigosa é “entre os pares”. O debate científico tem pressupostos rígidos do debate e da pesquisa, mas não são os cientistas que devem pautar a vida cotidiana. A propósito… que horror seria uma vida coordenada por cientistas!!! Portanto, esse debate DEVE obrigatoriamente verter para a discussão pública, para que as pessoas, os governos, as sociedades e os grupos possam decidir com os argumentos que as ciências lhes oferecem, e não pela IMPOSIÇÃO do debate secreto e fechado entre pares. É por isso que os cientistas divulgam seus achados na imprensa, para provar ou negar achados para gente comum, como nós.

Agora pensem… apesar de ser doloroso ter que aguentar posições que agridem nossas convicções mais profundas a censura é uma tragédia para o conhecimento, a liberdade e o próprio avanço das ciências. A facilidade como as pessoas aceitam este tipo de proibições (em especial na esquerda festeira identitária) é uma tragédia social. Parece que vamos precisar reinventar os princípios básicos da civilização, baseados na liberdade de expressão, novamente, partindo do zero. Nunca as palavras de Evelyn Beatrice Hall, erroneamente atribuídas a Voltaire, fizeram tanto sentido: “Discordo do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”.

Ainda haverá no mundo paixão suficiente para a defesa destes princípios?

Veja AQUI o trabalho de Peter Gotzsche publicado no Lancet.

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Pensamento monolítico

Sabe qual era um dos grandes slogans da minha juventude na luta contra a ditadura militar dos anos 60-80?

“ABAIXO A CENSURA”

Pois há alguns dias o YouTube CENSUROU milhares de páginas e canais que traziam uma visão crítica, alternativa, questionadora ou explicitamente contrária às vacinas. Assim, falar de vacinas fora da linha OFICIAL passa a ser algo passível de bloqueio e censura. Uma espécie de MacCartismo da indústria farmacêutica, que visa impedir o choque de perspectivas. Vi gente da área da ciência e da Academia aplaudindo…

A política de censura não tem nada de progressista, nada de avançada e nada a favor da saúde pública. Trata-se de criar um pensamento MONOLÍTICO, e que não vem de agora, pois iniciou-se lá atrás com a censura ao Trump, mas quando ocorreu todo mundo comemorou ou deu risadinhas debochadas. Pois agora as BigTechs decidem que um tema científico como vacinação não pode aceitar visões conflitantes, e a desculpa que usam para reavivar a censura são as MESMAS utilizadas pelos macartistas nos Estados Unidos para perseguir comunistas: é necessário em nome da segurança do povo, perigo eminente, disseminação de mentiras, etc.

Os meios de comunicação estabelecem, assim, uma DITADURA DAS COMUNICAÇÕES, e vendem estas atitudes como sendo ações para derrubar o “negacionismo” e a favor da “ciência”. Peço apenas que lembrem que proibições e visões únicas não combinam com ciência, a qual se baseia em choques e contraditórios. Não há produção científica sem conflito de ideias e disputas sobre pontos de vista.

A censura acaba com qualquer debate, e apenas denuncia que os grandes conglomerados de informação internacional – Google, Facebook, Twitter, YouTube – associados às grandes indústrias farmacêuticas podem fazer o que bem entenderem, inclusive ressuscitar a censura no mundo – e ainda fazer muita gente acreditar que é para o bem de todos.

Não quero debater validade das vacinas, mas esta censura provavelmente vai produzir um efeito oposto em médio prazo. No início o silêncio, mas depois muita gente vai se interessar por um tema que foi proibido pelos grandes conglomerados capitalistas do mundo.

Será que dentro de poucos anos teremos que voltar a exigir o fim da censura? Hoje é a vacina, amanhã será o comunismo, o socialismo, a liberação das drogas, o aborto livre etc. Vamos aceitar estas imposições e continuar quietos?

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Medicina e Lucro

Logo após me formar fui trabalhar como médico no hospital da Aeronáutica. Lá implantei um sistema de redução de cesarianas muito simples e prático e que deu muito certo no tempo em que lá trabalhei. Descrevi isso no livro da Robbie – “Birth Models that Work”. Ok, mas isso é outra história. Pois, como eu estava dizendo, eu trabalhava apenas meio turno no hospital da Aeronáutica e, por esta razão, comecei a atender em uma Policlínica, que aqui nós apelidávamos de “trambiclínicas“.

Estas são (ou eram) clínicas privadas que fazem contrato com empresas para oferecer assistência aos seus funcionários em atendimentos de ambulatório e hospital. A regra era a mesma de qualquer negócio: minimizar despesas e maximizar lucros. O pagamento aos médicos era ridículo; só recém formados se dignavam a atender lá, como forma de adquirir experiência e ajudar a pagar a prestação do fusca. A rotatividade era alta; quase nunca as pacientes completavam um tratamento com o mesmo profissional.

A policlínica nem existe mais. Aliás, quase todas elas foram tragadas pelos convênios médicos. Afinal, por que pagar pelas instalações de uma clínica se você pode usar o consultório do próprio médico para realizar as consultas? Ele que arque com as despesas para mantê-lo – secretária, impostos, água, luz, etc. Bingo!! Uma forma de terceirizar despesas e manter os ganhos. Nessa empresa a fonte principal de recursos era a Pirelli, empresa de pneus de uma cidade próxima. Era esse o contrato que sustentava a clínica, e por isso todo o cuidado era dado a ele.

Certa vez atendi uma paciente por esta policlínica que acabou fazendo uma cesariana. No dia seguinte ao nascimento do bebê recebi uma mensagem no BIP (sim, sou velho nesse nível) pedindo para ligar para a direção da policlínica. Liguei e fui atendido pela secretária do “chefe” que, justiça seja feita, não era médico, mas administrador de empresas.

– Dr. Fulano disse para o senhor dar alta para a paciente.

Pedi para repetir porque não entendi direito a mensagem e ela voltou a dizer exatamente a mesma frase. Perguntei a razão e ela explicou que “esse convênio da Pirelli custa muito caro para a policlínica, e não tem como ficar mais de dois dias”. Expliquei que uma alta é responsabilidade apenas do médico que presta o atendimento e que um administrador não pode determinar isso por conta de fatores econômicos. Ela insistiu e disse que eram “ordens do chefe”.

Eu disse a ela, então, que ele próprio me ligasse ou viesse me falar isso pessoalmente. Ela desligou o telefone e ele jamais veio tratar do assunto comigo. A paciente teve alta no dia correto e eu pedi demissão na semana seguinte. O caso da Prevent Senior (os kits de Covid distribuídos sem o consentimento de pacientes) só causa surpresa em quem não conhece a tragédia que é transformar saúde e acesso à medicina em um negócio lucrativo. Não tenho nenhuma dúvida que histórias banais como esta estão na memória de muitos médicos que transitaram por estes caminhos. Medicina e lucro são coisas que jamais deveriam se misturar. Saúde é um direito humano, não algo que pode – ou não – ser comprado por quem padece por uma doença.

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Informações perigosas

Minha tese a respeito das investigações é simples, e tem a ver com os estados psíquicos induzidos pelas informações. Para mim, a comunicação – em especial tudo o que dizemos aos pacientes – também contém riscos. Uma informação inútil pode se tornar algo extremamente perigoso. Por exemplo: quantas vezes atendi partos em que a única avaliação do tamanho do bebê havia ocorrido pela palpação, ou por uma ecografia bem precoce. No dia do parto… tóóóóin, nascia um bebezão de 4.400g. Pois eu pergunto: como se comportariam TODAS as pessoas envolvidas no parto – incluindo mãe, família e equipe – na presença de uma ecografia apontando um bebê de 4800g (imaginando que a ultrassonografia erre por 10%)? Que tipo de resiliência a uma parada de progressão haveria no transcurso do trabalho de parto? Que tipo de paciência haveria diante de um período expulsivo prolongado? Quanto sobraria de confiança a esta mulher e seu companheiro diante da sentença “fatídica” de um bebê “enorme”?

Pois agora respondam o que aconteceria a uma mulher cujas mamas foram “avaliadas” pela sua possível capacidade (ou não) de produzir leite ANTES de estar efetivamente amamentando. Que mulher investiria na continuidade da amamentação diante de uma avaliação “preocupante”? Quem insistiria em um projeto de amamentar com um rótulo grudado no peito dizendo “mamas incompetentes”? Quem se manteria firme ao ver surgir a primeira fissura ou ao ver que seu bebê que não entra na curva de crescimento da pediatra?

Façam o seguinte: avaliem meninos de 15 anos de idade para saber seu o pênis deles vai funcionar adequadamente quando tiverem relações sexuais. Não precisa nem dar nota, basta olhar, examinar e depois coçar o queixo dizendo: “hum, não sei não. Acho que está bom, mas vamos ver”. O que acham que ocorreria?

Eu digo: uma explosão no diagnóstico de impotência. Ou… um aumento vertiginoso nas vendas de Viagra ou até mesmo de tratamentos para aumento de pênis. E talvez UM em 100.00 tivesse realmente um problema verdadeiro relacionado à sua capacidade de ter relações sexuais satisfatórias relacionada ao seu pênis. Desta forma, essas avaliações são semeaduras de insegurança, mas que nenhuma vantagem produzem.

No caso das mamas, se houver uma (raríssima) incapacidade de produzir leite, que diferença faz saber durante o pré-natal? O que esse diagnóstico presuntivo ajudaria esta mãe? O mesmo eu digo das ecografias invasivas e suas informações inúteis, que quase só disseminam pânico, e nenhum benefício. As vantagens para os profissionais e o sistema capitalista nós já sabemos, mas qual a vantagem para os pacientes?

Tetas erradas = bacias erradas. Fazer diagnóstico de ambas “de olhada” é um erro. E esse erro vai transmitir à mulher (mais) uma mensagem de sua longa lista de defectividades culturalmente determinadas. Também vai dar a ela uma excelente oportunidade para desistir na primeira dificuldade. “Afinal, não tenho mesmo passagem, ou minhas tetas são atrofiadas. Para que insistir?”

E mais… “Toda mãe sabe parir e todo bebê saber nascer”. Sim, mas nem todos sabem interpretar essa frase, porque parimos e nascemos antes de termos qualquer consciência disso. Portanto, parir e nascer são coisas que “sabemos” muito antes de termos condições de racionalmente “saber”.

As falhas não ocorrem por falta de “saber”, mas talvez pelo oposto: criar expectativas e racionalizar sobre um fato pulsional e automático, sobre o qual quanto menos a mulher racionalizar, melhor ocorrerá. Uma breve história: conheci um paciente de quase 70 anos no estágio de urologia da residência médica, o qual veio ao hospital para operar uma hipospádia. Isto é; a uretra saía no meio do pênis, para baixo, e não na ponta. Com isso ele urinava para o chão e tinha um pênis muito encurtado.

Enquanto fazíamos a avaliação pré-operatória, meu colega (ingênuo e desatento) lhe perguntou: “Por que o senhor não veio antes? Digo, há muitos anos mesmo. Poderíamos consertar isso e o senhor teria uma vida normal, com filhos e tudo”. Quando ouviu isso o “colono” acostumado com a lida da roça respondeu com o sotaque alemão característico e de forma rude:

“Filhos? Pois eu tenho 6, com 3 mulheres diferentes. E não estou pensando em parar”.

Se alguém tivesse lhe dito que não podia, ou que era insuficiente, talvez não fosse tão fértil. Oferecer ajuda é diferente de induzir anomalias onde ainda não existe nenhum problema real.

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A Verdade

Já era do conhecimento de todos que o bebê carregava uma doença genética grave, o que provavelmente o levaria ao óbito em algumas semanas. Apesar do preparo emocional que se empreendeu durante a gestação, o cenário era de desolação e pesar. Agora, pouco havia o que fazer além de oferecer aos pais a solidariedade e ao recém-nascido o conforto e o carinho que lhe era devido em sua curta travessia. O casal, consternado e abatido, tentava se apegar a qualquer esperança, qualquer sinal de que algo poderia subverter o diagnóstico cruel e inexorável.

A mãe, envolta na bruma de sua tristeza, me conta que, durante a visita ao berçário, e por detrás dos fios, tubos, esparadrapos e acrílicos que a separavam do filho, pode perceber no seu bebê um sutil e tímido sorriso, que foi despertado pelo toque de sua mão.

– Ele sorriu para mim, Ric. Ele sentiu a energia quando encostei minha mão na sua pele. Ele percebeu que eu estava conectada a ele. Eu não tenho nenhuma dúvida de que ele é um guerreiro, um bravo e que deseja muito estar aqui ao meu lado.

Seu marido a abraçou e ambos choraram.

À minha frente a pediatra não permitiu sequer que um suspiro desse fim àquelas lágrimas.

– Na verdade não é um sorriso. São contraturas reflexas da musculatura. Os recém nascidos não conseguem sorrir, algo que só se desenvolve bem mais tarde.

Fiquei em silêncio. A mãe me sorriu timidamente, mas seus olhos pediam para mim a cumplicidade que precisavam. Em seu olhar ela me dizia: “Eu estava lá e vi o sorriso. Senti na ponta dos dedos a energia que nos uniu. Não há como tirar de mim a fé, o pouco que me resta de esperança”.

Por instantes me mantive fixado no olhar severo da pediatra. É bem provável que ela estivesse certa e o sorriso do pequeno não fosse nada além de filetes de miosina deslizando uns sobre os outros no seu rostinho emagrecido. Um movimento automático, reflexo, em nada relacionado à sua vontade ou aos seus sentimentos primitivos. Uma travessura da deusa Álea, a divindade dos fatos aleatórios e fortuitos. Seria tão somente o acaso se manifestando.

Todavia, eu imediatamente questionei em pensamentos qual seria o sentido em oferecer a frieza congelante de uma verdade crua para a alma de uma mãe destroçada pela tristeza? Se existe algum valor na verdade, seria este superior à característica tão humana de manter a esperança de quem sofre? Seria lícito usar cegamente a verdade e fazer dela um instrumento de dor? Seria justo deixar a pretensa correção técnica de uma informação médica substituir o afeto e a empatia necessários em um momento de pesar?

Olhei para minha paciente e devolvi o sorriso que ela havia me lançado. Mesmo sem dizer nada queria transmitir a ela uma mensagem. Meu rosto lhe dizia que eu acreditava no sorriso que testemunhara, e que ele se formou na energia do encontro dessas almas. Que ela mantivesse a fé pois, se mais não fosse, o breve passeio do seu filho pelo mundo seria de profundos ensinamentos para todos nós. “Eu acredito em você”

A verdade precisa ter um caráter construtivo. Usá-la acreditando que possui valor em si é desprezar o impacto que pode ter nos sentimentos. Jogar suas sementes ao vento, sem cuidar do terreno onde irão cair, não produzirá frutos, e muitas vezes será apenas razão para mais dor.

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Guerra ao câncer e o ufanismo médico

Essa era a guerra contra o Câncer que foi iniciada pelo governo Nixon nos anos 70. Nesta época toda a pesquisa era direcionada pela ideia de que os tumores tinham origem viral. Houve uma euforia desmedida com a possibilidade de encontrar um elemento exógeno – os vírus – que estariam na gênese dos tumores. A Revista Realidade, uma publicação importante daquela época, deu destaque a esta luta contra uma doença que parecia insuperável. Foi daí que o governo americano supriu de verbas e estímulos as pesquisas sobre os vírus. Também nessa época surgiu no cenário da medicina americana uma figura que depois ficaria famosa e controversa (para o bem e para o mal): o virologista Robert Gallo. Foi ele o deflagrador da “guerra à Aids”, e sobre ele muito foi escrito e debatido.

Assim como a “guerra às drogas”, a “guerra ao terror” e a “guerra ao crime”, a “guerra ao câncer” foi um retumbante fracasso, mesmo que alguma avanços tenham sido conquistados. A doença continua a ser principal causa de morte no primeiro mundo. E não há nada no horizonte a nos mostrar que ela está para desaparecer. Pelo contrário: seus números continuam a crescer de forma assustadora. A estratégia tipicamente americana de tratar estas questões como enfrentamentos maniqueístas ao estilo “bem contra o mal” e usando vocabulário de guerra (inimigo, armas, defesas, etc.) esbarra no fato de que câncer, drogas, criminalidade e terror são produções humanas multifatoriais, e não são males em si, mas consequências quase óbvias de desajustes orgânicos e sociais que a humanidade produz.

Enquanto não for aceito que a abordagem sistêmica (o fim do capitalismo e o respeito ao meio ambiente) é a única solução para estes dilemas continuaremos a colecionar fracassos como estes.

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Sociedade drogada

Para consideração…

Na minha época de infância, antes dos remédios serem a maior indústria do planeta, existiam os “moscões”, sujeitos desatentos e lerdos, e as crianças hiperativas, falantes, inquietas e com “bicho carp’inteiro”, mas ambas as pontas do espectro eram vistas como formas de se comportar dentro dos limites da normalidade. Era o “jeitinho” da criança.

Foi a indústria farmacêutica que induziu a medicina a tornar patológicas as características individuais. Assim como fez com a tristeza e o pesar, assim como medicalizou o nascer e o morrer, criminalizando-os e controlando-os, tornou a adaptação escolar forçada como distúrbio. Nada poderia ser mais errado. Aliás, penso que a patologia está exatamente no oposto: qualquer sujeito que se adapta muito bem às prisões, hospitais e escolas deveria ser investigado.

Tenho exemplos na minha família de gente que, por sorte, não foi medicado em função das suas condições “diferentes”. Tivesse sido e hoje por certo não seria quem é, pois teria perdido a maior parte do que aprendeu com o seu jeito especial de ser.

Não digo que os medicamentos para as crianças são inúteis, assim como nunca disse isso das cesarianas, mas apenas que o ABUSO de tais intervenções é um grave problema de saúde pública derivado da influência do capitalismo na assistência médica.

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