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Felicidade em Cápsulas

A tese do Peter Gotzsche é de que os psicotrópicos usados da forma como o são fazem muito mais mal do que bem. Eu creio que há espaço para as drogas no psiquiatria, mas tenho certeza do que o abuso de prescrições de medicamentos dessa área produz na civilização. Eu diria o mesmo da medicina aplicada ao nascimento humano: por certo que há espaço para a intervenção, mas o abuso é tão marcante que é difícil dizer o quanto de malefício ele já fez e faz para a fisiologia do parto.

O resultado, no que diz respeito ao parto, é que perdemos totalmente o contato com a realidade do nascimento. Perdemos seu odor, seu clima, sua temperatura e gosto. Nós, médicos, só conhecemos a sua representação, seu simulacro, sua imagem refletida na parede da tecnocracia. Continuando o raciocínio do articulista Dino Felluga, no seu artigo “Matrix: Paradigma do pós modernismo ou pretensão intelectual?”, “fizemos um roteiro tão assemelhado com a verdade que aquele se justapôs a esta. Hoje em dia, a realidade é que se desfaz por entre as linhas riscadas do mapa”. Mentimos o parto, falseando a natureza. Mais ainda: ao encobrir a realidade com as múltiplas capas da tecnocracia, fizemos desaparecer do horizonte a pureza da manifestação natural de um fenômeno corriqueiro que, de tão artificializado, que agora é o normal que causa estranheza.

Peter Gotzsche fala, em verdade, de uma indústria farmacêutica inserida no capitalismo que perdeu completamente os limites éticos. Os psicotrópicos se tornaram os “chá de Melissa” da pós modernidade, com a diferença que seus efeitos deletérios são muito mais graves e permanentes. Como eu disse, em mãos muito ciosas e cuidadosas podem oferecer benefício; entretanto, com o bombardeio de propaganda que vincula essas drogas à “felicidade encapsulada”, não basta apenas médicos conscientes, senão que nos fazem falta pacientes que tenham a proteção adequada para enfrentar o canto da sereia da BigPharma.

O problema não está na psiquiatra, na doença mental e sequer na droga: a crítica se concentra no uso abusivo das drogas psicotrópicas e seu efeito deletério em milhões de pessoas pelo mundo. Está muito clara a queixa no livro do Peter Gotzsche, o qual eu recomendaria, assim como recomendo igualmente o da Márcia Angell sobre a falta de critérios para a liberação de medicamentos e os estudos de baixíssima qualidade que os sustentam. Para muitos pesquisadores o problema é tão grave que a completa proibição de qualquer droga psiquiátrica produziria mais benefício do que malefício, tamanho é o estrago que podem causar em mãos pouco hábeis.

Não se trata de criminalizar a psiquiatria ou de estigmatizar a doença mental, mas olhar com cuidado especial a “drogadição legal” e a medicalização extremada da sociedade. O uso de Ritalina por colegiais americanos deveria nos servir de alerta de que há muitos anos ultrapassamos os limites do aceitável. Debater abuso de drogas prescritas é um dever de quem trata pacientes com o uso de medicamentos. Sei do cuidado que muitos médicos conscientes têm com essa questão e entendo a preocupação com os rótulos, mas isso não impede que o uso abusivo de drogas psicotrópicas tenha atingido níveis epidêmicos. Propaganda e uso descriterioso são as principais fontes desse problema.

Não é justo e nem necessário colocar o psiquiatra como “cruel” ou “abusador”. Pelo contrário: ambos, médicos e pacientes, são reféns de uma indústria gigantesca, poderosa, antiética e voraz. Em verdade, Peter Gotzsche também encampa esta minha tese: somos todos – pacientes e médicos – vítimas do capitalismo aplicado à saúde, com suas inquestionáveis consequências nefastas.

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Drama feminino

Eu também acho que calcinhas e – principalmente – os famosos protetores de calcinha são profundamente danosos à ecologia íntima das vulvas. Em uma leitura superficial parece se tratar de uma simples questão de “higiene”, mas tal postura está claramente relacionada ao mito das vulvas dentadas, devoradoras de homens e perigosas. O próprio cheiro vulvar normal é tratado com piadas e de forma chistosa pelos homens – e até mesmo por mulheres. Mulheres são levadas a reclamar da menstruação e seu cheiro, mas também da menopausa e seus incômodos. Ser mulher é pagar o preço por um corpo mal feito e defectivo.

Digo isso porque concordo com algumas campanhas que estimulam mulheres a abandonarem o uso da calcinha em casa. Sou parceiro dessa ideia, principalmente porque um dos maiores problemas da saúde sexual feminina é o aparecimento de fungos. Ora…. fungos precisam de glicogênio, calor e umidade para se multiplicarem, e o abafamento das “preciosas” (aqui um epíteto do bem) só poderá produzir o ambiente ideal para a sua multiplicação. Permitir o pleno arejamento da região perineal é uma atitude correta, fisiologicamente falando.

Todavia… por trás do uso de protetores perfumados e calcinhas existe toda uma construção social demeritória e defectiva da mulher – isso sem falar de um comércio multimilionário de produtos de beleza e de “higiene íntima”. É por serem mulheres que seus odores são questionados – e combatidos. É por não serem homens – o padrão da correção fisiológica e anatômica – que a menopausa é chamada de “falência ovular”, e as menstruações tratadas como “escapes”, defeitos de um motor mal aparafusado. Não há como negar que toda a visão do corpo feminino é feita usando os homens como comparação, e o que elas tem de diferencial – menstruar, gestar, parir, amamentar, menopausar – é visto como doença e objeto de tratamento pela medicina – um braço de apoio e manutenção do patriarcado.

Por esta razão é que, ao contrário das mulheres, nenhum evento fisiológico masculino é tratado como enfermidade ou se tornou merecedor da atenção da medicina. É fácil imaginar que, em um mundo paralelo onde as mulheres tivessem barba e os homens não, esta condição seria tratada como uma doença, “hipertricose facial”, e seria evitada, para que não surgissem no rosto das mulheres estes “pelos nojentos, perigosos e desagradáveis a prejudicar a estética”. Haveria uma enorme quantidade de fotos em livros de medicina de mulheres que morreram de “foliculite seguindo-se sépsis” causada por esse distúrbio, “não tão raro quanto parece”.

A condição de “ser mulher” é que está como pano de fundo dessa inconformidade. A cultura, que sempre temeu o poder da sexualidade feminina, é pródiga em oferecer epítetos demeritórios aos órgãos sexuais femininos, com a exceção da infância – quando ainda são inofensivos. Extirpar a nomenclatura “suja” e diminutiva de todos os elementos relacionados à sexualidade feminina ocorrerá em sequência à emancipação plena das mulheres e o livre exercício da sua sexualidade. Para isso é preciso que o patriarcado deixe de ser o padrão de nossas civilizações, mas para que ele caia…. bem, aí é outra conversa.

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Sommelier de Vacina

Por que nos ensinam a ler o rótulo da margarina e aprender sobre os tóxicos contidos nos alimentos embutidos mas passou a ser CRIME e ato de estupidez questionar-se sobre os elementos constitutivos de uma vacina? E veja: criticar as vacinas – produtos das indústrias mais criminosas do planeta – passou a ser visto como negacionismo. Fazer PERGUNTAS passou a ser um ato terrorista. No mundo inteiro milhares de pessoas relatam transtornos graves em relação ao uso de vacinas, pessoas estas absolutamente hígidas previamente ao seu uso. Por que seria inadequado questionar-se sobre isso?

Muitos dirão que essas fatalidades são matematicamente irrelevantes diante dos benefícios possíveis da vacina. Seria assim como os riscos normais da vida: andar de carro, de avião, atravessar uma rua, etc. Pode ser verdade, mas o que é questionável é a propaganda que tenta silenciar qualquer grupo ou pesquisador que pretenda investigar a fundo a efetividade e a segurança de tais drogas. Isso pode ser qualquer coisa, menos ciência.

Minha postura sempre foi claramente crítica à indústria farmacêutica. Sigo a linha de grandes personalidades como Marcia Angell e Peter Gotzsche que denunciam estas indústrias como “máfias” e “indústrias da morte”. Não tenho uma posição antivacinista (aliás, até já me vacinei), mas exijo que os mesmos critérios de segurança e efetividade que foram usados para riscar do “mapa da boa conduta” drogas como Hidroxicloroquina e Ivermectina (até aqui consideradas ineficazes por diversas instituições importantes) sejam utilizados para avaliar a segurança e a efetividade de drogas usadas em pessoas sãs – como são as vacinas aplicadas nessas epidemia.

Percebam que as tecnologias usadas nas distintas vacinas são completamente diferentes entre si, e por isso mesmo as pessoas PRECISAM ser informadas dos riscos e benefício que a ciência produziu sobre qualquer uma delas. Não é pedagógico tratar os pacientes como “Sommelier de vacina” apenas porque – finalmente!!! – resolveram tomar para si mesmos a conduta de avaliar prós e contras de cada uma das medicações a eles oferecidas.

Chamamos por acaso as gestantes de “Sommelier de Parto” quando elas e seus companheiros decidem – baseados em suas crenças e valores – escolher o tipo de parto que mais se adapta às suas crenças e visões de mundo? Tratamos de maneira jocosa as pessoas que escolhem um estilo de vida mais natural no campo e próximos à natureza como “Sommelier de Oxigênio”?

Então é hora de pararmos com as críticas ao protagonismo das pessoas em relação à sua própria saúde e faz-se necessário que sejamos mais conscientes da propaganda que se espalha descaradamente pelas empresas farmacêuticas, ávidas para que tenhamos uma fé cega e acrítica em seus produtos.

Talidomida e Vioxx mandam lembranças.

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Cyborg

Imagine-se chegando em uma cidade e perceber, já no aeroporto, que a maioria das pessoas anda em cadeiras de rodas. Faz uma rápida conta mental e contabiliza mais da metade como incapazes de caminhar com as próprias pernas. Mais ainda: quando chega ao banheiro nota uma fila de homens aguardando para colocar uma sonda urinária, já que não conseguem urinar por si mesmos. Quando sai à rua, se dá conta que uma quantidade enorme de pessoas usa bolsa de colostomia anexada aos seus ventres, porque seus intestinos já não funcionam adequadamente. Não seria este um choque brutal? Não caberia perguntar o que houve nessa localidade capaz de produzir uma epidemia de incapacidades? Não seria justo e necessário investigar as origens de tamanha tragédia?

Mas, não será essa ficção apenas uma caricatura do que já estamos vivendo hoje, como vaticinou Donna Haraway em seu “Cyborg Manifesto”?

Dentaduras de sorrisos perfeitos, olhos com cristalinos artificiais, quadris de titânio, rostos com botox e fios de ouro fazem do humano uma pálida lembrança do que outrora fomos. Como o “Homem de 6 milhões de dólares” almejamos a transcendência dos limites tímidos do nosso corpo, exigindo da tecnologia que suplante nossas imperfeições através dos recursos técnicos artificiais.

Quanto mais “avançamos” enquanto sociedade mais nos percebemos trocando funções fisiológicas orgânicas – e seus milhões de anos de aperfeiçoamento – por versões artificiais “top de linha”, como novos-ricos ciborgues exibindo nossas ereções quimicamente estimuladas, nossas perucas rejuvenescedoras, pontes de safena e válvulas cardíacas como preciosos objetos de consumo.

Diante de tamanho esplendor tecnocrático, por que deveríamos nos assombrar com o fato de que 57.5% das mulheres brasileiras são levadas a uma cesariana, alijadas da vivência fisiológica e natural dos seus partos – fato que acompanhou a humanidade desde seu alvorecer? Por que deveria nos causar espanto que quase 60% das mulheres são incapazes de dar conta de algo que suas bisavós entendiam como tarefa natural da feminilidade?

Se há um corpo que se presta ao (ab)uso da tecnologia, este será o das mulheres. Afinal, sua incompetência, fragilidade e defectividade são exaltadas pela cultura e pela própria estrutura do modelo patriarcal. A expropriação de sua inata capacidade de gestar e parir não é nada além de um capítulo a mais na sua larga história de intromissões e invasões.

Hoje a verdadeira revolução não está mais em descobrir o próximo “gadget” precioso que vais tornar nossa vida mais tranquila e segura, mas em questionar o quanto de humanidade restará em nós quando a nenhuma criança mais for dado o direito de nascer do ventre de uma mulher.

ENGLISH VERSION

Imagine yourself arriving in a city and realizing, already at the airport, that most people in that place are in wheelchairs. You do a quick mental count and notice that more than half is unable to walk on their own legs. Even more: When you go to the bathroom, you notice a line of men waiting to put in a urinary tube, as they cannot urinate by themselves. When you leave the premises, you realize that a huge number of people use a colostomy bag attached to their bellies, because their intestines are no longer functioning properly. Wouldn’t this be a brutal shock? It would not be appropriate to ask what happened in this locality so terrible as to produce an epidemic of disabilities? Would it not be fair and necessary to investigate the origins of such a tragedy?

However, isn’t this fiction just a caricature of what we are already experiencing today, as predicted by Donna Haraway in her “Cyborg Manifesto”?

Dentures with perfect smiles, eyes with artificial lenses, titanium hips, faces filled with botox and gold threads which make the human a pale reminder of what we once were. As the “Million Dollar Man” we aim to transcend the timid limits of our bodies, demanding from technology that it overcomes our imperfections through artificial technical resources.

The more we “advance” as a society, the more we find ourselves trading organic physiological functions – and their millions of years of improvement – ​​for “top-of-the-line” artificial versions, like cyborg nouveaux riches showing off our chemically stimulated erections, our rejuvenating wigs, heart bypass grafts and heart valves as precious consumer items.

Faced with such technocratic splendor, why should one we be amazed at the fact that 57.5% of Brazilian women are taken to a caesarean section, denied of the physiological and natural experience of their births – a fact that has accompanied humanity since its dawn? Why should it surprise us that nearly 60% of women are unable to cope with something their great-grandmothers saw as the natural task of femininity?

If there is a body that lends itself to the (ab)use of technology, it will be that of a woman. After all, its incompetence, fragility and defectiveness are exalted by the culture and by the very structure of the patriarchal model. The expropriation of her innate ability to gestate and give birth is just another chapter in her long history of intrusions and invasions.

Today the real revolution is no longer discovering the next precious “gadget” that will give our lives more pleasure and connection, but rather questioning how much humanity will be left in us when no more child will be given the right to be naturally born from a woman´s womb.

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Escafandristas

Durante muitos anos eu me perguntei as razões pelas quais uma das carreiras mais instigantes e criativas, que se encontra na linha de frente da saúde e das crises mais importantes e decisivas da vida, é conduzida pela camada mais reacionária, conservadora e politicamente atrasada da sociedade, e porque esta categoria profissional jamais oferece qualquer visão revolucionária para a condução da saúde. Pelo contrário; sempre que uma perspectiva mais libertária aparece – como a humanização do nascimento – estes sempre se comportam como o principal obstáculo a ser vencido para que as propostas alcancem sucesso. São, basicamente, o muro a ser ultrapassado para que um avanço estrutural aconteça.

Apesar de entender a complexidade desta resposta ainda creio que ela deverá estar próxima do específico processo de seleção dos novos médicos, e também guarda relação com a camada da população que recorre a estas carreiras, as oligarquias médicas, o vestibular que seleciona aqueles que tem tempo e dinheiro para uma preparação adequada, etc…

Mais intrigante ainda é o fato de que os raros casos de jovens pobres e da classe proletária que conseguem ingressar na carreira médica imediatamente se comportam como se fossem garotos quatrocentões, escondendo seu passado de pobreza e assumindo naturalmente os valores, os gostos, a visão de mundo e o estilo de vida dos seus colegas burgueses. Assumem com plena naturalidade o discurso e a postura daqueles que, outrora, viam como opressores.

Não deveria causar espanto que os elementos da pequena burguesia que ascendem à carreira médica reproduzam em seu discurso e na sua ação pública uma postura de reforço de suas prerrogativas e privilégios, desprezando as iniciativas de democratização do acesso à saúde e uma visão mais holística da questão da atenção médica. Em verdade, a visão desses profissionais – em sua grande maioria – é completamente caolha, pois que em sua experiência de vida jamais tiveram contato íntimo e continuado com os dilemas, dramas, tragédias, escolhas e dificuldades cotidianas das populações pobres e que vivem em situação de risco. Muitos sequer entendem o significado real e físico da fome, o problema da violência endêmica, o risco de um temporal ou enchente e o consequente desespero do desteto. Olham para estes fatos com distanciamento e por vezes espanto, sem se dar conta de que são eles próprios a exceção na sociedade, e não a norma.

Todavia, muitos deles são obrigados, quando no serviço público, a atender estas camadas da população, mas o fazem como escafandristas que, isolados em sua bolha de classe média, vasculham as dores e feridas de seus pacientes sem jamais respirar o mesmo ar que os circunda.

Mundos diferentes, valores distintos, roupas e idiomas meramente semelhantes. Médicos são elementos de uma classe que pouco ou nenhum contato estabelece com a imensa maioria das pessoas a quem atendem. Essa distância de histórias e perspectivas está na gênese de muitos desencontros e dificuldades na atenção médica. Para que a Medicina cumpra sua função primordial de acolher e cuidar do sofrimento humano esse abismo precisa ser vencido e, para isso, uma visão completamente diversa do que seja cuidar da saúde deverá emergir das profundezas do nosso Apartheid social.

Escrevi outro texto sobre o tema, que pode ser visto aqui

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Medicina do Futuro

Já nos anos 90 eu dizia que “nos tornamos especialistas em tratar os desarranjos da saúde criados por um sistema médico caótico e desintegrado que é o resultado de uma Medicina inserida na ideologia capitalista”. Agora volto a assistir médicos debatendo os rumos da medicina, em especial a partir da ideia de que, investindo em medicina primária, mudaríamos toda a estrutura da medicina moderna.

Não há como discordar disso, entretanto é algo que eu mesmo digo há 25 anos; mesmo sabendo que poucas pessoas estão interessadas em debater medicina a partir dessa perspectiva.

Para mim a Medicina se comporta como uma terapia distópica, tapando os buracos que ela mesma cria por suas intervenções intempestivas. Nos anos 90 eu falava ainda algo mais catastrófico: “Fosse a Medicina realmente baseada em evidências científicas produzidas por estudos bem conduzidos sua expressão cotidiana seria tão diferente do que hoje conhecemos que ela seria praticamente irreconhecível”.

Não há dúvida que esta medicina seria chocante para nós. Imagine-se como um viajante do tempo que encontrasse um amigo no futuro e ele lhe dissesse: “quer me acompanhar na visita ao médico?” e ambos fossem cantar em um grupo de canto coral.

Como assim?“, diria você. Pois talvez, se as evidências se confirmarem, pintar, dançar, cantar, cuidar do jardim e brincar com filhos e netos tenha muito mais a ver com saúde humana do que todas as drogas até hoje produzidas. É bem provável que a busca pela saúde pouco tenha a ver com as múltiplas intervenções externas e mecânicas, e muito mais com o equilíbrio interno, a organização social, o convívio, o prazer, a alegria e a natureza.

Lembro agora das reuniões de Pré Natal em Pithiviers dirigidas por Michel Odent, quando ele trazia uma professora de piano e estimulava o canto, a música, as piadas, a presença de crianças, etc. Quem ousaria negar que isso é muito mais efetivo para o estímulo à saúde do que sentar à frente de um doutor forrado de arrogância e ideologia etiocentrada?

Como dizia um filósofo conhecido: “Não, não é depressão. É capitalismo mesmo”.

Portanto, não há mais dúvidas quanto a necessidade de repensar a medicina e centrar nosso foco em atenção primária. Quero apenas dizer que esse discurso é antigo, que de tempos em tempos veste roupagens diferentes, mas é sempre bom vê-lo sendo repaginado. Todavia, minha tese é que jamais existirá uma mudança radical na saúde sem que haja uma transformação no sistema econômico. Enquanto a doença for algo economicamente incentivado nada de profundo vai mudar.

Pense no dilema do cesarista; que tipo de pressão ele tem para promover a saúde dos seus pacientes? Se você perguntar a ele porque não segue os estudos e a Medicina Baseada em Evidências ele lhe dirá, do alto de sua sinceridade racionalista: “Por que diabos eu faria isso? Ganho muito mais dinheiro, tranquilidade e tempo sendo assim, e nenhuma paciente reclama. Mais ainda: recebo total apoio dos meus pares; jamais serei incomodado pelo CFM por passar bisturi em todo mundo”.

Houve uma época que até eu acreditei que “educar médicos” seria a solução, mas abandonei essa ideia há mais de 25 anos, porque não se trata de uma questão de educação ou de informação, mas de paradigmas centrados no poder das corporações e no lucro. Hoje cultivo um ceticismo esperançoso, aguardando que as radicalidades de outrora sejam cada dia mais próximas da centralidade do poder autoritário.

Essa minha postura pode ser traduzida como o eterno embate idealismo X materialismo. Eu sei que o certo seria uma revolução proletária comunista mas ninguém está preparado para isso, então a gente acredita nas promessas de “domesticação dos escorpiões” imaginando que confinados e bem educados eles deixariam de picar as pessoas. É só por isso que a gente continua acreditando no revisionismo das esquerdas que prometem civilizar o capital. Da mesma forma, acredito que ações parciais em direção à autonomia e à prevenção de transtornos podem ser positivas, mesmo sabendo que nenhuma mudança radical poderá ocorrer enquanto tivermos uma medicina centrada no capitalismo.

English version

Back in the 90s I used to say that “we have become specialists in treating health disorders created by a chaotic and disintegrated medical system that is the result of a Medicine inserted in the capitalist ideology”. Now I witness again doctors debating the trends of medicine in the 21st century, especially from the idea that, investing in primary medicine, we would change the entire structure of modern medicine.

There is no way to disagree with that, however it is something I have been saying myself for 25 years; even though few people are interested in debating medicine from this perspective.

For me, Medicine behaves like a dystopian therapy, filling the holes that it creates by its untimely interventions. In the 90’s I said something even more catastrophic: “Were Medicine really based on scientific evidence produced by well-conducted studies, its everyday expression would be so different from what we know today that it would be practically unrecognizable”. There is no doubt that this medicine would be shocking to us. Imagine yourself as a time traveler who met a friend in the future and he says to you: “Will you accompany me to the doctor’s visit?” and both end up going a choral singing group.

“How so?”, you would say. Perhaps, if the evidence confirms, painting, dancing, singing, taking care of the garden and playing with children and grandchildren have much more to do with human health than all the drugs produced so far. It is likely that the search for health has little to do with multiple external and mechanical interventions, and much more to do with internal balance, social organization, conviviality, pleasure, joy and nature.

I remember the prenatal meetings in Pithiviers led by Michel Odent, when he brought a piano teacher and encouraged singing, music, jokes, the presence of children, etc. Who can deny that this is much more effective in boosting health than sitting in front of a doctor infused with arrogance and etiocentric ideology?

As a well-known philosopher used to say: “No, it’s not depression. It is just capitalism”.

Therefore, there is no longer any doubt about the need to rethink medicine and the necessary focus on primary care. Indeed, I know that this speech is old, which – from time to time – wears different clothes, but it’s always nice to see it being reworked. However, my thesis is that there will never be a radical change in healthcare without a transformation in the economic system. As long as the disease is something economically encouraged, nothing profound will change.

Think on the diehard C-section apologist´s dilemma; what kind of pressure does he have to promote the health of his patients? If you ask him why he does not follow studies and Evidence-Based Medicine he will say, from the height of his rationalistic sincerity: “Why the hell would I do that? I earn a lot more money, I have peace of mind, time for my family and no patient complains. What’s more: I get full support from my peers; I will never be bothered by the medical board for using a scalpel over all patients”.

There was a time when even I believed that “educating doctors” would be the solution, but I abandoned this idea more than 25 years ago, because it is not a question of education or information, but about a paradigm centered on corporate power and profit . Today I cultivate a hopeful skepticism, hoping that the radicalisms that we shared many years ago are each day closer to the centrality of authoritative power.

This posture can be translated as the eternal clash between idealism and materialism. I know that the right thing would be a communist proletarian revolution but nobody is prepared for that, so we believe in the promises of “scorpion´s domestication”, imagining that confined and well educated they would stop biting people. This is the only reason why people continue to believe in the revisionism of the left that promises to civilize capital, even thou they know it goes against the essence of capital. Likewise, I believe these partial actions towards autonomy and the prevention of disorders can be positive, even knowing that no radical change can occur as long as we have a medicine centered on capitalism.

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Indústrias Mortais

Repito: o major problema desse embate Hidroxicloroquina X Vacinas” é que, em nome da ciência e contra o obscurantismo, acabamos colocando em evidência e tratando como vestais as indústrias mais poderosas, imperialistas, mafiosas e criminosas do mundo. É como se, para nos livrarmos de uma invasão estrangeira, fosse necessário se ajoelhar aos milicianos e pedir ajuda aos jagunços que agem para os latifundiários.

Digo isto porque está circulando um texto ingênuo que, a pretexto de combater o negacionismo científico, exalta empresas como a Pfizer, com larga história de crimes contra a saúde pública.

Deve haver uma solução mais profunda para estas pandemias. Devemos analisar esta atual crise sanitária mundial como a ponta do iceberg porque as razões de seu aparecimento – a continuada agressão ao meio ambiente – não estão sendo combatidas pelas grandes nações industrializadas.

Talvez a forma para exterminar o risco de pandemias seja mesmo através do extermínio do capitalismo e sua lógica predatória. Mas para isso será preciso acordar as massas de sua letargia.

Veja o que nos diz Dr. Peter Gotzsche, fundador da Biblioteca Cochrane:

“Some pharmaceutical companies have been caught and fined for their activities. For example, Gøtzsche details how during 2007–12, in the USA, Abbott, AstraZeneca, Eli Lilly, GlaxoSmithKline, Johnson and Johnson, Merck, Novartis, Pfizer, and Sanofi-Aventis were fined from $95 million to $3 billion for illegal marketing of drugs, misrepresentation of research findings, hiding data about the harms of the drugs, Medicaid fraud, or Medicare fraud. However, some companies seem not to be deterred and apparently regard fines as marketing expenses.

“Fundamentally, I think capitalism and health care go very poorly together”, Gøtzsche told The Lancet. In his book, he recommends several reforms to address this issue. He claims that, like tobacco marketing, drug marketing is harmful and should be banned. Gøtzsche also stresses the need to remove the for-profit model and to radically reform the currently impotent or too-permissive drug regulation. His unequivocal opinion is that the pharmaceutical industry should not be allowed to do trials of its own drugs because being both the judge and defendant is a conflict of interest. Ideally, non-profit enterprises should invent, develop, and bring new drugs to market.

Removal of the link between the costs of research plus development and the price of drugs would, Gøtzsche believes, address the unaffordability and unsuitability of the current medical innovation model, and reduce the incentives for the development of me-too products (ie, variations of known substances) and marketing and promotion of drugs that might not be used rationally or are no better than the existing alternatives.”


Veja aqui a matéria completa publicada no Lancet.

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Saúde Universal

Eu sempre disse para a minha mulher não se separar de mim porque qualquer coisa que venha depois da excelência gera frustração. “Nothing compares to me”.

Ok, mas essa introdução desnecessária era apenas para a gente no Brasil entender que ter um sistema universal de saúde como o SUS nos faz perder a perspectiva do que seja morar em um pais onde a saúde é um negócio, regido pelas leis de mercado, e não um direito humano básico e universal. Isto é: só depois da gente conhecer a insegurança e o risco de viver sem saúde garantida é que damos o real valor ao que temos em casa.

A destruição do SUS serve aos interesses dos tubarões do mercado da saúde, aos planos privados e às empresas que lucram com a doença, mas será um desastre para a população, em especial na base da pirâmide. Triste é saber que aqueles que decidem sobre o SUS tem dinheiro suficiente para pagar planos privados, que não passam de barreiras de classe que expõem nosso Apartheid social.

Em um país decente o trabalhador mais humilde se trata no mesmo hospital – e com os mesmos profissionais – que o presidente da República, até porque a vida dele não vale menos do que a de ninguém.

Defender o SUS e combater seus desvios é defender a democracia, a equidade e a justiça social. Atacar o SUS é ameaçar nossa soberania.

Como é a vida sem o SUS?

No gráfico abaixo vemos o número de pessoas que vão à falência TODOS os anos em razão de suas contas hospitalares e gastos com a saúde – tratamentos crônicos, medicamentos, acidentes, etc. No Brasil suspeito que o número também seja zero…

É para esse modelo que vamos trocar por causa de um Chicago Boy pinochetista?

Já aqui abaixo podemos lembrar da famosa conta para uma picada de Cascavel na gringolândia. Em dinheiro tupiniquim são R$ 820 mil golpitos, o preço de um maravilhoso apartamento em uma capital do país. Não há picadura que valha isso tudo (desculpem). No SUS o tratamento seria “gratuito” – em verdade sabemos que qualquer custo no Sistema Único de Saúde é pago pela nossa contribuição mensal ao sistema.

É para um sistema desumano e mercantilista que vamos migrar? Defender o SUS é defender a solidariedade como marco ético para o país.

Aqui temos outra famosa conta hospitalar gringa de um parto onde o ato de colocar o bebê em contato pele-a-pele com a mãe teve uma cobrança de 36 doletas. Quando uma ação simples, humana e banal – alcançar um bebê para sua mãe segurar – pode ser contabilizado, então não há limites para a mercantilização da própria vida.

É isso que desejamos para o Brasil?

Quando a “mão invisível do mercado” regula o preço dos medicamentos e dos procedimentos médicos sem qualquer interferência da população, podemos testemunhar a ganância e o desejo de lucro sobrepujarem os valores humanos e a fraternidade. É exatamente isso o que assistimos nos países onde a atenção à saúde é um comércio como a venda de celulares ou de bananas. O lucro estará acima dos valores essenciais de solidariedade e do amor ao próximo.

É esse o país que queremos deixar para os nossos filhos?

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Paradoxo humano

Imagem: Maurits Cornelis Escher

Existe um fato perturbador, do qual muitos estudiosos se debruçaram: a participação ativa da vítima em uma relação abusiva. Este achado é sempre inquietante, pois tal evidência nos obriga a reconhecer que existem instâncias para além da consciência que determinam nossas ações, o que é uma ofensa à nossa arrogância racionalista.

É sempre mais fácil acreditar nos modelos banais, até porque para todo problema complexo existe uma resposta simples – e errada. Toda vez que testemunhamos uma relação abusiva e opressiva imediatamente nos identificamos com o(s) oprimido(s) e tentamos resgatá-lo(s) da situação injusta e cruel. Entretanto, muitas vezes percebemos que na relação entre estes polos ocorre um circuito de gozo, no qual o próprio oprimido é figura ativa. Nossas tentativas de trazer à razão tais sujeitos submetidos à violência esbarram no fato de que elementos irracionais – e muito mais poderosos – operam em sentido oposto, impedindo o fim da relação.

Por certo que nos angustia ver tais comportamentos, mas eles são tão reais quanto paradoxais.

Estas situações existem para além do cenário das relações amorosas. É claro que, na configuração contemporânea, existem muito mais homens abusivos e mulheres submetidas à violência doméstica, mas não é muito difícil reconhecer abusos no sentido oposto: homens vítimas de mulheres violentas, cuja expressão da crueldade se situa muito mais na esfera moral do que física – e bem sabemos o quanto aquelas podem ser tão dolorosas quanto estas. A participação ativa dos parceiros nestes enlaces continua a ser chocante para quem observa de fora, mas também é clara demais para ser negada. Por certo que há nestas relações uma participação ativa dos parceiros vitimizados, mas que uma abordagem superficial e descuidada (ou preconceituosa) é incapaz de desfazer.

Também no ambiente da atenção médica fica fácil perceber estas relações contraditórias que desafiam nosso entendimento. Lembro de uma paciente que me procurou porque tinha uma indicação de histerectomia. Quando lhe perguntei porque lhe haviam indicado esta cirurgia ela me mostrou uma ultrassonografia (solicitada de rotina) onde aparecia um mioma sub-seroso minúsculo, de menos de 2 cm. Disse ela que o médico afirmou que aquele pequeno tumor poderia virar uma “coisa ruim” e que era melhor retirar o útero o quanto antes, visto que ela já estava na menopausa e que este órgão “só serve para quem deseja ter filhos”.

Passei mais de uma hora explicando as razões pelas quais era absurda e desnecessária a retirada de um útero pela simples existência de um mioma inofensivo. Para todas as explicações ela oferecia mais perguntas, sempre me colocando no limite, ao estilo: “mas você pode garantir?”, “você tem certeza absoluta?”, “mas, e se a coisa ruim aparecer?”, demonstrando que havia por trás de suas palavras um desejo inconsciente – e inconfesso – de aceitar a determinação amputativa do outro profissional.

Saiu da consulta dizendo que havia entendido minhas explicações e que não faria a operação no seu útero. Todavia, poucos meses depois fiquei sabendo, por uma amiga em comum, que voltou a consultar com o médico e realizou a tal cirurgia. Por certo que minha reação inicial foi a indignação, mas rapidamente me dei conta de que esta era uma batalha perdida: é inútil tentar desfazer racionalmente uma decisão sustentada na mais pura irracionalidade. Havia elementos claros de formulações inconscientes sobre seu útero e – por certo – sobre sua própria sexualidade, que ela mesma jamais teria acesso de forma consciente, pois que tais razões estavam escondidas de forma cuidadosa de si mesma.

Na minha experiência o curto circuito acontece quando nos deparamos com o gozo paradoxal da vítima. Aí perdemos o chão, mas pelo menos este achado nos oferece uma pista para a pergunta fatal: “Como foi possível a ele(a) suportar tudo isso????” Ora, porque também era participante – mesmo que de forma inconsciente – do circuito doentio que sustentava a trama, e obtinha algum tipo de gozo nos espancamentos, na tortura, na submissão, na dor….

Diante da ligação nefasta entre um homem abusivo e uma mulher que se sujeita a ele é fácil acreditar que ela estava sendo enganada e ludibriada – o que também ocorre com muita frequência. Difícil é aceitar que dentro dela havia elementos perversos que não apenas suportavam os abusos, mas que deles retiravam uma importante fonte de gozo autodestrutivo. Reconhecer o paradoxo das ações cotidianas é um desafio terrível, mas que nos oferece a possibilidade de uma compreensão mais abrangente da alma humana. Essa é uma discussão mais ampla: continuamos a apontar os dedos para os abusadores (com razão) mas esquecemos que questionar porque tantas vítimas continuam acreditando em “mentiras encobridoras” – como as promessas, os arrependimentos, o romantismo, os presentes, etc. – e continuam se submetendo aos suplícios com sua capacidade crítica abafada ou tolhida.

Por certo que reconhecer o papel desempenhado pela vítima em tais composições em NADA absolve os sujeitos envolvidos em crimes horrendos, mas nos ajuda a entender o fluxo de emoções e pulsões de morte envolvido nas tramas da vida humana.

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Homenagens

Olha, não quero polemizar (mentira), mas hoje a maior empresa de comunicação do Rio Grande do Sul convocou a população para uma homenagem aos profissionais da saúde que estão lutando heroicamente na linha de frente contra a pandemia da Covid19.

Ok, nada contra homenagear categorias profissionais que cumprem com sua obrigação e ajudam a salvar vidas. Não vou sequer reclamar do fato de que outras categorias da linha de frente como as técnicas de enfermagem, o pessoal da segurança, a turma da limpeza, etc… via de regra não são lembradas. Todavia, desconfio muito destas iniciativas. Minha experiência diz que as homenagens são frequentemente usadas como “pagamento alternativo” para que os profissionais não reclamem da sua situação profissional.

Eu estava no Hospital de Clínicas quando um político da cidade tentou homenagear as enfermeiras chamando-as de “anjos de branco”, e recebeu como resposta uma sonora vaia das enfermeiras presentes – que inclusive o deixou perplexo. As enfermeiras sabiam que essa ideia de “anjos” – seres assexuados e que trabalham apenas por amor – servia ao propósito de desprofissionalizar uma categoria historicamente tratada com desprezo pelo capitalismo, com salários baixos, horários cruéis, excesso de trabalho, assédios, abusos, etc. Elas sabiam muito bem que esse tipo de “homenagem” servia aos interesses dos hospitais e dos sistema de saúde, mas não a elas.

Nos Estados Unidos são muito frequentes as homenagens aos soldados que estão lutando nas inúmeras guerras fora do seu território. É inclusive comum aplicarem uma salva de palmas em aeroportos quando um grupo de soldados passa uniformizado. Para mim é o mesmo princípio: vamos fazer homenagens explícitas para que eles não percebam que são usados como “buchas de canhão” para os interesses imperialistas de expandir lucros às custas de guerras estúpidas, cruéis, injustas e destrutivas. Depois, quando retornam, são vistos nas esquinas das autopistas americanas pedindo dinheiro para comer e comprar remédios. Tratados como lixo e descartáveis, são grandes vítimas de suicídio e abuso de drogas.

Homenagear os profissionais de saúde do Brasil com palmas e palavras bonitas serve também para mascarar as péssimas condições de trabalho a que estão submetidos e o pagamento ridículo que enfermeiras, técnicas de enfermagem, médicos e profissionais de limpeza e segurança recebem para enfrentar sem nenhuma garantia e proteção uma pandemia da qual ainda pouco sabemos. Por isso mesmo acho que a homenagem justa é o reconhecimento do trabalho que fazem oferecendo melhores condições e salários mais adequados para o serviço essencial que estão realizando.

Não vou bater palmas; ao invés disso vou continuar reclamando da forma como este e outros governos tratam os profissionais da linha de frente da saúde. Essa é a única reverência que acho justa e correta no cenário atual.

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