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Roupa suja

A não ser que seja apenas uma jogada puramente comercial – e não seria nenhuma novidade – desdenhar do seu ex amor, atacá-lo publicamente, desprezar sua nova paixão e expor em praça pública sua ferida de amor próprio, como fez a famosa Xá-Quira na música em que fala de Piqué e sua nova namorada, lembra o famoso bordão do futebol da Globo:

– Galvão!!!
– Fala Tino…
– Sentiu…

A melhor tradução para uma mulher que deu a “volta por cima”, recuperando sua autoestima após a perda de uma paixão foi escrita de forma magistral por Chico Buarque:

“Quando você me deixou meu bem
Me disse pra ser feliz, e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume…
… obedeci.”


E eu não duvido que por trás de toda essa novela não exista um gigantesco golpe publicitário em que ambos acabem ganhando. No mundo do capitalismo e do espetáculo nada é impossível. E, antes que me acusem de pautar as reações das mulheres, isso vale tanto para os homens quanto para elas. Shakira pode fazer o que bem desejar, mas isso não garante a ela a prerrogativa de acertar. Neste caso em especial, expor-se e aos seus filhos não me parece uma saída nobre.

Essa humilhação dela vale o lucro que aparentemente fez com a música de desforra que lançou no mercado? Dinheiro? É só isso que alimenta sua alma? Tipo, Silvio Santos “Topa Tudo por Dinheiro”. Vale a pena essa exposição? Vale a pena desnudar sua ferida narcísica para milhões? Se o dinheiro é a medida, é provável que sim; caso contrário, lamentável. Ainda acredito que chorar é infinitamente mais nobre, pois significa exercer o luto de uma perda. Como diz o Chico “morrer de ciúme, quase enlouquecer“, mas depois virar a página e ressurgir.

Será mesmo que o Piqué está preocupado com a música dela? Sério? E os filhos deles, como ficam nessa batalha?

Humilhar-se publicamente, imaginando atingir seu amor é triste e degradante. Acreditar que esse desprezo vai atingir seu ex-marido é como tomar veneno e esperar que o outro morra. “O ódio é um ácido que corrói o próprio frasco que o contém”. A melhor resposta a alguém que lhe abandona é ser feliz e provar a si mesmo(a) que a vida continua depois do fim de um amor. Meu pai sempre me dizia: “Quer ficar livre de alguém? Passe a gostar dele; enquanto o estiver odiando será eternamente seu escravo”

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Vovô

Um debate curioso: mulheres de mais de 60 anos que se ofendem quando chamadas de (ou descritas como) “vovós”. Posso entender que isso pode ser ofensivo quando a mulher não tem filhos (portanto, em geral, sem netos), mas para mim é estranho que alguém se ofenda por ser chamado pelo nome que descreve o mais vitorioso de todos os sujeitos no critério “reprodução”, e na categoria “manutenção dos genes no pool planetário”.

Portanto, talvez antes de questionar a inadequação de chamar as pessoas mais velhas dessa forma seria interessante analisar porque nos dias de hoje isso é considerado ofensivo. Eu pergunto: por quê? Qual o demérito em ser vovô? Antes disso eu igualmente nunca tive problema algum em ser chamado de “tio”, e me orgulho dos meus 30 sobrinhos. Por que ser “vovô” parece ser visto por alguns como um defeito?

Assim, mantenho a pergunta: qual o problema em ser vovó ou vovô? Por que seria demeritório ser chamado dessa forma? No meu caso, a partir do dia que nasceu meu primeiro neto eu assumi a persona “Vovô Ric”, sem nenhum pudor (e eu tinha apenas 52 anos!), até porque o meu grande sonho na vida sempre foi ser avô. Igualmente quando eu me tornei pai não achava ofensivo ser chamado de “papai”.

Essa manifestação de desprezo aos vovôs não seria o real ageísmo?

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Pedestal

Slavoj Zizek diz que o pior tipo de racismo se expressa através da exaltação da visão estereotipada e idealizada das qualidades do outro, como se este fosse incapaz das atrocidades que nos caracterizam. É quando dizemos maravilhas das culturas negras, indígenas e asiáticas, descrevendo sociedades puras, sem contradições e “originais” em contraposição à depravação e decadência das sociedades ocidentais.

O mesmo digo em relação aos gêneros. Pouca coisa me irrita mais do que a idealização biscoiteira sobre as mulheres, perspectiva que procura confundir sua condição no patriarcado como uma vantagem de ordem moral, que muito lembra a tentativa de colocá-las num pedestal para assim serem mais facilmente manipuladas. Por certo que há diferenças, mas não a ponto de suprimir a capacidade que todo ser humano carrega de fazer merda. O que me parece necessário extirpar é a idealização e a “culpa branca”.

A melhor forma de estabelecer equidade é aceitar que os gêneros, etnias, orientações sexuais e identidades distintas compartilham a mesma capacidade – essencialmente humana – de produzir todo e qualquer tipo de perversão.

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Russel

Não se pode imaginar que ações racionais surjam de premissas puramente emocionais. Esta é uma regra dourada em qualquer arena de debates. A fé, jamais a razão, produz respostas grosseiras, deseducadas, ofensivas e violentas, tanto no mundo real quanto no universo virtual. Por isso que temas como a moral – e não a matemática – são propensas a tantas brigas e enfrentamentos. Quanto mais diáfanas forem as bases de um determinado assunto maior será a possibilidade de que ele se perca em conflitos estéreis.

Infelizmente Russel acreditava que as diferenças religiosas levam à guerra, o que é um erro típico daqueles que se deixam seduzir pelas aparências. As guerras são enfrentamentos brutais de origem econômica e geopolítica, para a busca de recursos materiais, mas que muitas vezes usam a religião como mera máscara identitária, seduzindo os combatentes do nosso lado a identificarem o outro como a ameaça, os infiéis e os impuros.

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Bêbado e equilibrista

A questão do surto opiniático da sociedade contemporânea é equilibrar-se sobre a fina lâmina que separa a compulsão pelas opiniões e a mais improdutiva alienação. Colocar-se de forma equidistante entre estes dois polos é tarefa complexa e, invariavelmente, pendemos para um dos lados.

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Caritas

A palavra “caridade” tem origem no latim, “caritas” – significando um tipo de amor incondicional, que por seu turno deriva do grego “cháris”, que significa graça, a mesma origem de “caro”, ou seja, aquilo que possui valor.

Como tive uma formação espírita escutei muitas vezes a frase de Kardec que exaltava assim a caridade: “Fora da caridade não há salvação“. Esta é uma das frases mais icônicas do espiritismo, mas acredito ser importante entendê-la em seu contexto; é preciso colocar a sentença do pedagogo francês em seu tempo e sua circunstância histórica.

Um dos axiomas mais celebrados pelos estudiosos da Igreja é “fora da Igreja não há salvação”, ou seja, “extra Ecclesiam nulla salus“, que se pode encontrar nas manifestações de vários Padres e teólogos medievais, modernos e contemporâneos. O próprio magistério da Igreja já a usou inúmeras vezes e em contextos distintos.

Desta forma, a expressão usada por Kardec pretendia fazer um contraponto à expressão “Fora da Igreja não há salvação”, a qual estabelece que a condição precípua e inescapável para a salvação do espírito após a morte seria a crença em Jesus como seu salvador e sua fidelidade à Igreja fundada por Pedro. Para salvar-se do Inferno era fundamental aderir a Cristo. Assim, Kardec tão somente retirou a primazia da fé e colocou na prática da fraternidade o caminho indispensável para a evolução – já que “salvação” é um conceito desprezado pelo espiritismo. Nesse contexto, Kardec se contrapunha à Igreja e sua exclusividade salvacionista.

Também se faz necessário compreender que a “caridade” como nós a concebemos hoje é a ajuda aos mais necessitados, aos famintos, aos descamisados e destituídos, aos pobres, miseráveis e marginais, todos aqueles que surgem como resultado da aplicação dos modelos econômicos excludentes que se baseiam na estrutura das classes sociais, desde o feudalismo, passando pela aristocracia e desembocando no capitalismo, todos eles sistemas econômico-sociais que se sustentam na exploração do trabalho, criando classes distintas de oprimidos e proprietários, onde a miséria e o desemprego são peças essenciais para o funcionamento da máquina.

A caridade seria a válvula de escape das tensões sociais, uma forma sutil de apaziguamento das culpas derivadas da pobreza instituída pelo modelo de divisão das riquezas do planeta. Quando a simples caridade realizada como propaganda – a entrega de pequenas quantidades de valor para os despossuídos – não é suficiente, a ação das forças de repressão se faz necessária. Assim, a caridade é o espelho da desigualdade social; onde existe caridade prolifera a injustiça, a exploração e a opressão sobre enormes contingentes da população. Caridade é a humilhação que o pobre aceita em nome da sobrevivência – própria e dos seus.

Sociedades desenvolvidas não admitem a caridade, já que ela sempre sinaliza desequilíbrio. “A suprema caridade é o desaparecimento de toda e qualquer ação caridosa“. Todavia, se quisermos entender a caridade como “expressão da fraternidade”, poderemos incorporá-la, já que a fraternidade nada mais é do que a forma mais elevada e desenvolvida de relação entre os homens.

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Escrever

Eu as vezes leio artigos escritos por jornalistas, escritores, acadêmicos e simples escrevinhadores como eu e me surpreendo com a qualidade da escrita, seja pelo estilo, pela organização das ideias, pela capacidade de síntese, pela clareza, pela profundidade, pela relevância e pela erudição. Sou possuído pela sensação bastante comum de “puxa, gostaria de escrever assim!“.

Eu não aprendi a escrever direito, mas depois de passar 25 anos escrevendo num ritmo diário eu cheguei à conclusão que a única forma consistente de aprender esse ofício e essa arte é… escrever sempre, verter a vida em letras, condensar as ideias em tinta, massacrar o papel com os sulcos do pensamentos.

Como em muitas outras áreas, o exercício da escrita se faz na experiência diária da transmutação das ideias embaralhadas, na revivescência de lembranças enoveladas e nas propostas misturadas para a linearidade do texto, permitindo ao leitor que capte o fio do seu pensar e o utilize como assim o desejar.

Se pudesse dar a mim mesmo um conselho diria para ter escrito minhas histórias desde a adolescência, porque isso teria sido muito mais útil do que se pode imaginar.

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Vida e Arte

Claro que é possível separá-las, e assim o fazemos cotidianamente, basta ver a forma distinta como nós analisamos as falhas e defeitos de nossos ídolos. Nossa indignação é seletiva; não é justa, isenta ou desprovida de paixões.

Criamos uma enorme celeuma com o caso Pelé-Sandra, e o simples fato de ter sido tão explorado deveria nos ensinar algo. Por outro lado, também há mulheres e homens que realizaram grandes obras em favor da humanidade cujas vidas privadas foram repletas de problemas éticos extremamente graves. Nossa capacidade de exaltar alguns defeitos e esquecer outros nos mostra que, para o nosso juízo, mais importante que o delito é o sujeito que o comete, e isso expõe o quanto estes problemas alheios se relacionam com as nossas questões pessoais. Ao mesmo tempo que vejo justiceiros atacando o Rei do Futebol nunca vi ninguém atacando a memória de Simone de Beauvoir – ícone feminista – por suas ligações com a pedofilia e outras práticas condenáveis (como seduzir suas alunas). Também nunca vi alguém cancelando Marie Curie – grande mulher cientista – pelo caso amoroso que teve, já viúva, com seu auxiliar de laboratório, homem mais jovem e casado, fato que levou à dissolução do seu casamento. Apesar de ser muito maltratada pela sociedade parisiense em sua época, este fato hoje em dia é quase desconhecido, eclipsado pelos seus dois prêmios Nobel em duas áreas distintas. Também não vejo ataques sistemáticos a Rachel de Queiroz por ter sido uma árdua defensora da ditadura militar que massacrou o Brasil por duas décadas. Leiam sobre o genial poeta Pablo Neruda e vejam como foi sua terrível relação com a parentalidade.

Poderia passar horas citando outros personagens cujos erros receberam um claro perdão, comparando esse tratamento com as fogueiras montadas para outros, cujos crimes foram iguais ou até de menor importância e consequência. Assim, parece claro que oferecemos o benefício do esquecimento aos erros de alguns, enquanto tentamos nos lembrar diariamente dos defeitos de outros.

E vejam: tenho convicção de que os erros dessas personagens são do seu tempo, falhas humanas, e isso não diminui a importância e o valor de suas obras para a sociologia, a ciência e a literatura, produções essenciais para toda a humanidade.

E porque fazemos essa análise enviesada, com pesos e medidas diferentes para delitos semelhantes?

Agimos assim porque alguns “defeitos” observados nos outros não são suportáveis, e alguns são mesmo inconfessáveis. Por exemplo: ser um Deus negro em um país que nunca cortou plenamente os laços com o racismo. Também o crime de ser homem numa sociedade pós moderna que condena a masculinidade, tratando-a como “tóxica”, e que julga com estrema severidade um ídolo por não amar sua filha da forma como nós exigimos que esse amor se estabeleça.

Sabemos que o capitalismo e sua estrutura de classes precisa de um exército de homens que se submetam docilmente a um sistema injusto e abusivo. Por esta razão, causa desconforto vermos um homem negro ser a figura mais emblemática do povo brasileiro. Isso fere nossas aspirações de “nação branca” e escancara nossa origem mestiça.

Pelé cometeu erros humanos, mas que tocam na ferida exposta de muitas pessoas em sua relação com a figura paterna. Por isso, pela projeção que fazem da relação de Pelé com esta filha, colocam Pelé como o “paradigma do pai ausente”, nem que para isso precisem comprar uma história maniqueísta, cheia de furos e lapsos, demonizando o jogador e colocando sua filha e genro num pedestal. Toda narrativa assim construida tem como objetivo moldar a história para criar vilões e mocinhos, sem contradições, sem nuances, sem complexidades, apenas o confronto entre o “bem” e o “mal”, a vítima e o algoz.

Aceitar a falibilidade humana – o que inclui a história dos nossos heróis – é importante para humanizar tais personagens. Além disso, fazer linchamento morais de alguns e passar pano para outros apenas demonstra que sob as capas de erros e virtudes que todos nós carregamos existem essências que nos incomodam e agridem, enquanto outras nos causam empatia e compaixão. Não são os erros, mas quem os comete. Alguns sujeitos podem errar; outros não tem o direito às falhas humanas. Nosso julgamento – condescendente ou inexorável – diz muito mais de nós do que dos pecadores sobre quem jogamos as pedras.

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Máscaras

Quantos monstros morreram sem ter sua monstruosidade descoberta? Quantos degenerados são ainda hoje reverenciados apenas porque suas maldades foram eficientemente escondidas? Quantos perversos são estátuas, nomes de rua e retratos nas paredes dos parlamentos, apenas porque seus seguidores não permitiram que suas perversões e crueldades fossem expostas publicamente?

Quantos de nós já se espantaram ao conhecer a verdadeira essência cruel de alguém que outrora achávamos perfeito e impoluto? E quantos tiveram a oportunidade de olhar a alma do criminoso embrutecido e colher dali, dentre tantas tragédias e dores, sensibilidade e virtude?

Ainda assim, quantos heróis anônimos mudaram o curso da humanidade inteira sem que jamais tivessem seus nomes conhecidos? Quantas mulheres e homens comuns morreram sem terem recebido o reconhecimento pelo seu valor enquanto monstros da pior espécie são tratados por nós, mesmo na atualidade, como heróis e até santos?

A notoriedade nos faz destacar da multidão, e por essa posição muitos de nós pagam qualquer quantia. Entretanto, a idolatria a estes personagens é sempre arriscada; nunca sabemos o que há por detrás da máscara pública que esconde a essência do verdadeiro sujeito.

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Patrulheiros

Na foto um policial multa uma banhista em uma praia da Itália em 1957.

Há algum tempo li nas redes sociais os ataques a um músico, um garoto de 20 anos, negro e de periferia, que ganhava a vida compondo músicas de funk. Depois que ficou famoso, e passou a ter notoriedade e dinheiro, descobriram em seu twitter várias manifestações questionáveis.

Eram piadas inocentes, apesar de serem claramente homofóbicas e misóginas, cheias de deboche e humor adolescente. Por causa disso, ele passou a ser duramente atacado pelos identitários e suas patrulhas morais de cancelamento. Continuei a leitura e li que as manifestações eram antigas, feitas ao redor de 6 anos antes da data do cancelamento.

Ou seja, ele escreveu os posts (brincadeiras de mau gosto) quando não tinha mais que 14 anos de idade, o que explicava o tipo de humor infantil utilizado. Fiquei lembrando das coisas tolas e até desrespeitosas (para os padrões atuais) que eu dizia na infância e as piadas que eu contava aos 14 anos de idade e me dei conta do quão violentas e brutais são essas patrulhas.

Imediatamente me veio à mente as patrulhas de costumes do Irã e as polícias que multavam mulheres pela ousadia dos seus biquínis em meados dos anos 50 do século passado. Qual das ofensas é mais perigosa: a nudez do corpo ou aquela da alma?

Punir um garoto recém entrando na vida adulta por piadas bobas que contou durante a puberdade é a suprema injustiça. Mais ainda… quantas dessas pessoas de dedos apontados também não foram preconceituosos nessa fase da vida?

Quando é que vamos superar este tipo de controle moralista, reacionário e religioso sobre o comportamento? Não existe nada de progressista nesse retrocesso das relações, e muito menos humanista e de esquerda.

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