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Kennedy

Teorias conspiratórias são, muitas vezes, aquelas teorias que os poderosos não querem que os outros saibam. Por vezes trazem verdades inconvenientes, que abalam as estruturas e os pilares que sustentam nossa sociedade, em especial o capitalismo. Mostrar a inadequação de algo que vende e dá lucro é um ato terrorista; não à toa, depois da descoberta da ligação do fumo com o câncer muitos anos foram necessários até que os médicos – cuja associação americana era financiada pela indústria do tabaco – admitissem a ação do cigarro na promoção do câncer, além de produzir enfisema e bronquite crônica.

Por certo que outras vezes – muito mais – estas teorias que poderiam produzir rupturas – como o terraplanismo – são apenas delírio, fruto de mentes perturbadas ou gananciosas que desejam lucrar com o engodo e a fantasia. Não há como negar isso.

Entretanto, muito do que se disse sobre o perigo das vacinas está cada vez mais evidente pelos estudos recentemente publicados. Além disso, a alternativa a Robert Kennedy Jr. seria colocar no controle da saúde dos Estados Unidos – cujas repercussões se espalham pelo mundo inteiro – os mesmos sujeitos ligados à indústria farmacêutica e às empresas de seguro saúde. Sua indicação para essa posição nos permite imaginar uma mudança importante na saúde americana, que tem o PIOR sistema de saúde entre todos os países industrializados.

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Justiceiros

Qual a religião você acha mais próxima de Deus? Aquela conduzida por pessoas “nobres e elevadas”, mas cujo caráter inexorável condena os pecadores ao fogo eterno, sem perdão, sem chance de recuperação e sem alívio para suas culpas? Ou você acredita na outra, comandada por escroques e bandidos fuleiros, fraudadores e pilantras, mas que abraça os condenados e lhes oferece a redenção pelo perdão e a chance de reconstruir suas vidas, inobstante o crime cometido?

Se a esquerda não conseguir compreender a sedução das religiões evangélicas no imaginário popular, jamais conseguirá ser um movimento verdadeiramente de massas. Quando vejo a luta feroz de membros da esquerda para manter na cadeia senhoras sexagenárias, jovens cujo crime foi bagunçar a sala dos ministros e de pedir um governo mais justo, e homens que quebraram objetos e levantaram a bandeira nacional, eu me pergunto se essa é a real postura da esquerda. Não estou me referindo aos militares golpistas, aos que planejaram o assassinato de autoridades ou aos financiadores, burgueses em suas fazendas e escritórios, que tentaram dar um golpe à direita. Falo do povão, das pessoas cansadas do capitalismo que expolia suas forças e seus ganhos, mas confundem isso com as questões morais – que são a pauta da direita.

O bordão “sem anistia” virou o mantra desta esquerda raivosa, sem entender que este grito de guerra vai acabar caindo sobre nossas cabeças, ao dobrarmos a esquina. E não apenas na política: setores identitários da esquerda condenam um treinador de futebol que cometeu um erro grave há 40 anos, não permitindo que ele tenha paz, atacando-o de forma violenta e incansável e negando a ele o direito a exercer sua profissão com dignidade. Para esses é fundamental atacar o sujeito, não seu crime!!! Admitem, para estes, a prisão perpétua, sem chance de recuperação. Enquanto isso, os evangélicos, mesmo que muitas vezes comandados pelos piores escroques, os mais contumazes pilantras e os mais abjetos mercadores da fé, abraçam mesmo os criminosos mais odiados – como o ator que matou a atriz – sem fazer perguntas, apenas pedindo o arrependimento e o compromisso de uma vida de regeneração.

O sujeito comum procuraria se abrigar naqueles que perdoam ou naqueles que condenam com ferocidade? Será que essa violência da esquerda, seu caráter inexorável, raivoso e punitivista, que quer colocar a todos na cadeia e que aplaude as ações abusivas de ministros do supremo, não está afastando o povo, o cidadão comum, o pecador, o sujeito falho e imperfeito, e jogando-os nos braços das religiões? Que projeto de pais é esse baseado na revolta e no ressentimento? Que esquerda é essa, que tanto quer sangue e vingança?

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Espetáculo mórbido

Claro que é possível analisar o caso de uma mulher, uma conhecida e rica influencer, que mostra o embrião recém-expelido para as câmeras, numa postagem que se tornou viral nas redes sociais e propiciou debates. Podemos olhar este caso pela ótica da mulher, e se perguntar qual o quinhão de sofrimento que uma mulher experimenta diante deste tipo de perda. É verdade que apenas quem passou por essa dor tem plena capacidade de entendê-la. A perda de um embrião é muito mais do que uma gestação interrompida: é o fracasso de um projeto, a perda de uma esperança, um soco na autoestima e a desconfiança em suas capacidades de gestar e parir com segurança.

Um fato como esse abala a vida de uma mulher, e disso fui testemunha em centenas de pacientes. Além disso, este fato tem repercussões para toda a vida; a gestação que se segue é sempre muito delicada, cheia de medos, desconfianças, angústia e ansiedade. Muitas vezes terminam pela alternativa cirúrgica, pois a falha no pré-natal faz com que elas acabem depositando mais confiança na tecnologia do que na sua própria fisiologia, que lhes parece indigna de confiança. Uma gestação após perda – gravidez arco-íris – sempre é delicada, precisando de um suporte psicológico muito consistente. Ou, no mínimo, que esta gestação seja atendida por um cuidador paciente, consciencioso e atento às questões emocionais e espirituais envolvidas.

Entretanto, neste caso de agora a questão mais relevante não recai sobre as repercussões na vida da mulher e da família diante de uma perda que, apesar de potencialmente devastadora, é muito mais comum do que parece. O que acho digno de debater, pois que é o fato incomum e mais chamativo, é que um influencer usa um embrião recém-saído do corpo de sua mulher para capitalizar nas redes sociais, para conquistar seguidores e, desta forma, ganhar ainda mais dinheiro. O que deveria ser debatido é o limite da exposição; deveríamos questionar a fronteira desta busca insana por notoriedade e avaliar com o devido rigor a necessidade de espetacularizar a própria vida, tornando até fatos tristes – como a perda de uma gestação – em uma oportunidade de faturar, explorando de forma mórbida a intimidade de quem passa por tais dramas.

Por certo que estas pessoas têm o direito de fazer o que bem entendem, desde que se mantenham dentro da lei. Não se trata de criminalizar o exibicionismo macabro, até porque isso seria impossível. Todavia, creio ser importante questionar o tipo de sociedade que valoriza e aplaude tais atitudes. O resultado direto postagem mórbida do casal foi o aumento do número de seguidores – a nova moeda do mundo cibernético – que se seguiu à exposição do embrião. Ou seja: do ponto de vista do sujeito que ganha a vida vendendo cursos de como ficar rico e que, poucos dias antes, havia prometido que seu filho se aposentaria antes dos 18 anos, o resultado foi ótimo. Nesta lógica, sempre vale a pena se o desfecho é financeiramente positivo.

Para aqueles que acreditam que esta foi uma oportunidade de dar voz a uma mulher que, de outra forma, ficaria com sua dor presa no peito e incapacitada de manifestar sua dor, eu digo que existem milhares de maneiras de fazer isso sem expor seu embrião à exposição pública e dando vazão à curiosidade das massas. Para isso existem grupos de mulheres, como o Grupo Transformação, que escutam mulheres e famílias que passaram por perdas gestacionais e/ou neonatais, e que tantas mulheres já auxiliaram. Quem já passou por isso – inclusive pessoas da família – sabe o valor de ser escutada e acolhida quando estão atordoadas pela tristeza.

Em verdade, assim como ocorre nas rupturas de relacionamento amorosos, quanto mais exposição pública dos fatos relacionados ao desenlace, mais claro fica que não houve um rompimento maduro e saudável. É falsa a ideia de que a solução para os problemas é a vulgarização escandalosa de nossas dores; a maturidade se expressa por vias muito mais sutis. Não se trata, muito menos, de exaltar o sofrimento silencioso, mas de entender que a monetização da vida privada – em especial nossos dramas e dores – é um sinal de falência dos valores, desintegrados pelo capitalismo decadente.

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Umbanda

A Umbanda é uma religião afro-brasileira criada no início do século XX, no Rio de Janeiro, a partir da associação de crenças e ritos do candomblé, o catolicismo e o espiritismo. A palavra “umbanda” tem origem no idioma Bantu e significa “lugar de culto” ou “sacerdote”. Umbanda é, portanto, uma religião cristã, criada do sincretismo entre tradições africanas (como o Candomblé) e o cristianismo, numa das mais bonitas mesclas entre as iconografias cristã e africana, fazendo uso também do mediunismo como expressão, elemento característico da herança africana.

Eu sou espírita laico, portanto não tenho e não sigo nenhuma religião. Entretanto, quando analisamos as manifestações culturais de um país gigante como o Brasil é forçoso reconhecer a Umbanda é uma das mais bonitas páginas da cultura religiosa brasileira, com seus ritos, suas vestimentas, seus orixás, seu sincretismo, sua música e a mistura criativa entre África e Ocidente. Além disso, a Umbanda é a religião mais respeitosa com o universo LGBT, e uma das que mais concentra – junto com o Candomblé – pretos e pobres do Brasil, a classe de trabalhadores explorados que levarão adiante a nossa revolução proletária. A Umbanda tem um valor cultural imenso para o Brasil e, assim como as outras religiões surgidas dos mitos africanos, é um maravilhoso patrimônio cultural desse planeta.

Por certo que existem pessoas que usam das religiões para enganar e ludibriar pessoas em necessidade, mas isso ocorre em todas as religiões. É comum ver “médiuns” querendo ganhar dinheiro explorando a crendice e o misticismo de gente crédula ou desesperada. Ao mesmo tempo está cheio de “sensitivos” que recebe mensagem falsa dos mortos, desonestos que usam a Cabala, picaretas do xintoísmo, dos ciganos, do espiritismo, dos exorcistas católicos, etc. Ou seja, esse não é um problema da Umbanda, mas dos humanos. Porém, o fato de mesclar tradições de África com santos católicos não é uma falha ou fraqueza de suas tradições; em verdade é a magia do sincretismo. Não é à bossa nova o sincretismo do jazz com o samba? Não é o blues a mistura da tristeza e da musicalidade negra com os ritmos ocidentais? Não seria o Rock o filho parido de tantas mães? Não seria a própria humanização do nascimento uma espécie de sincretismo entre o “free birth” e as práticas tecnocráticas de assistência ao parto, alimentando-se de ambas as experiências para produzir uma síntese que tende a melhorar a experiência e a segurança do parto? Desta forma, para “não morrer” tudo precisa se transformar e se adaptar. Seria justo dizer para os passarinhos que eles são “pobres dinossauros fracassados, que precisaram diminuir para não acabar”? Ou que o seu sucesso surgiu de sua adaptabilidade a um mundo em transformação?

A música “Banda Um” do genial do Gilberto Gil é uma ode ao sincretismo, uma elegia ao pote de raças e culturas que se produziu no Brasil como uma de suas maiores riquezas. A Umbanda é a melhor síntese de brasilidade!! Viva a Umbanda, a religião mais brasileira e mais revolucionária das Américas!!!

“Banda um que toca um balanço
parecendo polka
Banda um que toca um balanço
parecendo rumba
Banda um que é África,
que é báltica, que é céltica
UmBanda América do Sul
Banda um que evoca
um bailado de todo planeta

Banda pra tocar por aí
No Zanzibar
Pro negro zanzibárbaro dançar
Pra agitar o Baixo Leblon
O Cariri
Pra loura blumenáutica dançar
Banda um que soa um barato
pra qualquer pessoa
UmBanda pessoa afins
Banda um que voa,
uma asa delta sobre o mundo
UmBanda sobre patins
Banda um surfística
nas ondas da manhã nascente
UmBanda, banda feliz
Banda um que ecoa
uma cachoeira desabando
UmBandaum, bandas mis”

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Tempo

Esta é uma verdade cristalina. Nas cinco gerações que tive contato, desde os meus avós até os meus netos, o envolvimento dos pais (homens) na gestação, parto, educação, tarefas, aconselhamento etc. é muito maior agora do que já foi outrora. Meu pai jamais pensou em auxiliar no parto dos filhos, nunca conferia boletins da escola e tinha um contato conosco muito mais restrito. Sua função era de provedor e, na velhice, conselheiro. Eu já fui um pai um pouco mais presente, mas com um papel muito menor do que meu filho e meu genro desempenham na vida dos meus netos. Por certo que falo de um recorte de classe média mas, guardadas as proporções, não há porque essa novidade não se expressar também nas classes baixas e altas. Esse é um fenômeno muito novo na cultura, mas uma tendência sem volta.

Meu pai costumava achar engraçado quando eu falava que os casais iam juntos à consulta de pré-Natal. Para ele isso era uma novidade chocante. “O que um homem tem a ver com essas coisas?”. dizia. Para ele a presença do pai nas consultas e no parto só poderia atrapalhar. Ele me contou que só se preocupava que o seu carro (um DKW) tivesse gasolina suficiente para ir ao hospital quando chegassem as dores. O cuidado com os filhos não era uma tarefa dos homens; eles não poderiam deixar de lado a missão de construir e controlar a civilização para cuidar, alimentar e educar de gente miúda. Já os homens de hoje são muito mais presentes e participativos nas tarefas domésticas e no cuidado de crianças, mesmo as muito pequenas. Fui testemunha disso nas histórias contadas dos pacientes mas também com o que vivenciei na minha casa, comparando com o que testemunhei nas gerações passadas. Por certo que o envolvimento masculino de hoje não é o ideal – até porque jamais será o suficiente, como bem o sabemos – mas não se pode comparar o nível de atuação dos pais atuais ao lado dos filhos com o papel da paternagem que vi a partir dos anos 60.

A realidade contemporânea que hoje temos, quando pela primeira vez vemos os pais (homens) sendo uma fonte de afeto (e não apenas recursos e limites) para seus filhos, é uma novidade no mundo ocidental e, na minha modesta opinião, eles estão se saindo muito bem nesta nova tarefa, mesmo sabendo da dificuldade que a nova distribuição de funções imprime na dinâmica social. Isso se expressa inclusive no número cada vez maior de filhos que optam em morar com o pai depois de uma separação, algo que não existia na minha infância. De qualquer forma é um período de grande aprendizado para os novos pais, e de grandes transformações para o nosso conceito de paternidade.

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Ainda reclamamos aqui

Tenho visto nas redes sociais que os argumentos que criticam o filme “Ainda estou aqui” são equivocados em sua maioria, apesar de estarem corretos em um certo sentido. Isso ocorre em especial entre o pessoal da esquerda, que faz críticas injustas ao filme, muitas vezes usando chavões identitários. O que o Chavoso da USP (ativista de esquerda) argumenta em sua crítica, que assumiu certa notoriedade no YouTube, é que o filme não contemplou as camadas pobres da população, e só mostrou as dores de brancos e pequenos burgueses da sociedade de classe média carioca. Segundo ele, o que a família de Rubens Paiva sofreu nos anos 70 é o que os pobres sofrem, ainda hoje e cotidianamente, nas mãos da polícia. Os abusos denunciados no filme tomam relevância pela classe social dos protagonistas e pela cor de sua pele, enquanto os pretos e pobres continuam a receber o mesmo tipo de violência, mas sem a glamorização oferecida pelo filme.

Ora, não há como negar que a crítica é justa… mas não ao filme!!! A crítica poderia ser feita com propriedade à cinematografia nacional que não faz mais filmes para denunciar a barbárie aplicada sobre pretos e pobres que sofreram nas mãos da ditadura (e hoje nas mãos da polícia), mas não para um sujeito que pretende contar o sofrimento da sua mãe e sua família por conta do golpe militar que ocorreu no Brasil. Não cabe a um cineasta – ou um compositor, pintor, escritor – cobrir todos os aspectos possíveis de um drama qualquer. “Ora, o Rubens Paiva era carioca, e os gaúchos como eu, que sofreram nas mãos da ditadura, não serão representados? Ahhh, e ele era homem, e as mulheres presas e torturadas pela ditadura? E os gays, e os negros?

Poderia ficar horas citando todos os setores da sociedade e todas as camadas não contemplados pelo filme, mas sei o quanto isso é desonestidade intelectual. Um filme deve ser cobrado pelo que faz e diz e não pelo que não mostra – a menos que o filme sirva para esconder algo, ou ocultar a verdade por meio de uma perspectiva falsa. Digo isso porque nenhum filme ou obra artística tem a capacidade de dar conta de todas as perspectivas da realidade. Portanto, é possível que a crítica do Chavoso (entre outros) seja adequada sobre a produção do cinema nacional, pela importância do resgate da memória nacional do segmento mais pobre e sem voz do país, mas injusta ao criticar o filme por não mostrar tudo o que desejava ver.

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Avós

Vi em uma postagem sobre a terceira idade uma pesquisa controversa sobre as “atividades de lazer” dos velhos. Muitos poderiam pensar que “cuidar e conviver com netos” estivesse nos primeiros lugares, mas esse não foi o caso. Em primeiro lugar estava “ler” (acho difícil que esta pesquisa tenha sido feita no Brasil) em 4⁰ lugar estava viajar. E cuidar dos netos, qual a posição nesta pesquisa? Pois estava em 18⁰ lugar.

Claro que estes resultados só podem ser levados em consideração ao conhecer a pesquisa e saber como as perguntas foram feitas. “Cuidar de netos” é uma tarefa, jamais um hobby. Conviver mais com esta geração pode ser fonte de prazer para os velhos, e também uma tremenda sobrecarga, e a diferença vai estar na materialidade das condições econômicas. É muito diferente cuidar de netos por um tempo determinado – e com espaço, tempo livre e condições – do que ter a obrigação de vesti-los, educá-los e alimentá-los diariamente porque os pais estão trabalhando. Além disso, quando se trata de questionar o desejo de ter filhos e, depois deles, os netos, é importante atentar para o fato que estes temas estão ancorados nas camadas mais primitivas do inconsciente. Não se trata de uma questão racional e objetiva, que pode ser decidida analisando uma planilha, mas algo que nos obriga a questionar valores, e estes são subjetivos por definição. Desejar ter filhos e netos é uma questão que não é passível de discussão, a não ser para, por meio de uma análise profunda, procurar entender as razões para desejá-los ou não. A ninguém cabe discutir o peso da paternidade ou da maternidade para o outro, muito menos o prazer de conviver com os netos.

Entretanto, hoje em dia já existem dados objetivos sobre o tema. É sabido que a convivência com os netos aumenta a saúde, o bem-estar e a longevidade dos velhos. O convívio com a geração mais jovem oferece aos idosos sentido, direção e motivo para continuar vivendo – e bem. Muito disso foi estudado no “Efeito Vila” (Village Affect) quando os fatores que levam à longevidade foram analisados em comunidades onde existem muitas pessoas centenárias. Descobriu-se que dar aos velhos convivência com pessoas da mesma idade e relevância na sua condição de “sábios” orientadores das crianças, aumentava seu prazer de viver e, portanto, seu tempo de vida. Por esta razão, ao lado dos valores subjetivos da nossa relação com a maternidade, a paternidade e a “avosidade”, existem elementos demonstrando que a proximidade entre estas gerações é positiva para os jovens – que adquirem experiência e uma percepção mais alargada de mundo – e para os idosos – que recebem dos netos o estímulo para uma vida mais longa e produtiva.

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Miúdos

Tenho sete descendentes, dois filhos e seis netos, dos quais um partiu muito cedo para o outro plano. Fui testemunha do desenvolvimento de todos eles. O engatinhar, os primeiros passos, as primeiras palavras e frases. Eu estive junto de todos eles quando nasceram e no lento processo de se ajustarem à vida. Constatei as dificuldades, as quedas, os tropeços, as vitórias e as lutas constantes, assim como as tristezas inerentes à condição humana. Com isso, acumulei uma razoável base de dados oriunda da observação do intrincado processo de crescimento infantil.

Apesar dessa experiência, sou forçado a reconhecer que pouco entendo da vida e seus enigmas. Tudo isso é ainda para mim um profundo mistério. Todavia, longe de ser um defeito, usufruo dessa incompetência com especial deleite. Cada dia no convívio com os miúdos reserva uma surpresa e uma novidade. Percebi que os conhecimentos adquiridos pela criação de várias crianças – direta ou indiretamente – não me capacitam a entender aqueles que agora percorrem o caminho que os outros já trilharam há tempos. Cada um carrega o fardo e a delícia da existência dentro do seu tempo e a partir de suas curiosidades. Nenhum deles engatinhou do mesmo jeito, falou com a mesma idade ou sorriu pelas mesmas caretas e piadas. Todos são almas distintas, com uma perspectiva especial do mundo.

Digo isso apenas porque sempre vi muitas mães e pais descrevendo seus filhos e pedindo conselhos sobre o que fazer para que a criança desenvolvesse determinadas habilidades. Minha resposta era que elas precisam, cada uma a seu jeito, de amor e atenção, além do alimento para o corpo e a proteção contra as agruras do mundo; o resto elas descobrem por si. Meus filhos e netos são fontes inesgotáveis de ensinamentos e oportunizam a redescoberta diária dos encantos da vida. As crianças são a expressão máxima da maravilha que se criou nesse pequeno e pálido ponto azul, perdido na infinita tessitura do universo.

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Celebridades

Para Roma com Amor

Creio ser curiosa, mas não surpreendente, a exaltação de uma moça que, por obra do destino, foi levada à ribalta das redes sociais por não ceder seu lugar no avião a uma criança que chorava pedindo acesso à janela. Diante da celeuma criada, ela foi o foco dos debates na Internet por alguns dias. Fotos suas de biquíni circularam pelos portais, foi comparada com a “fogueteira” do Maracanã (quem lembra?), deu entrevistas, debateu com a mãe da criança, fez declarações ao estilo “quem me conhece sabe” e viu multiplicar a grande moeda dos tempos atuais: o número de seguidores. Em outros tempos já teria em mãos um contrato da Playboy, as fotos seriam feitas num simulacro de avião e a manchete seria algo como “Viaje com ela na janelinha e veja o que ninguém viu”.

E tudo isso por quê? Ora, porque ela esteve em evidência, foi comentada, seu rosto foi visto, suas atitudes reverteram em visualizações – inobstante não haver boas razões para isso. Numa sociedade voltada ao espetáculo, é claro que aqueles que se destacam têm vantagem. As razões do destaque são desimportantes, e funcionam apenas como alavanca para o que é realmente significante: sobressair-se em meio à multidão de iguais.

O mesmo fenômeno ocorre na música. Quando um nome chega a ganhar notoriedade, muito se fala da trajetória da menina pobre até o estrelato, da sua fama, da fortuna, das novas rotinas e do número inacreditável de seguidores adquiridos nas redes sociais. Pouco ou quase nada se fala de sua arte, restrita à análise de poucos especialistas que procuram situar sua música em alguma corrente e dar a ela algum sentido e valor. Para a maioria, a identificação vai ocorrer por sua história, o caminho que precisou percorrer, a vida que tinha, os luxos da vida atual, seu coração simples, os amigos de outrora e a família.

Nossos heróis atuais não são aqueles que fazem algo, nem os que perseguem objetivos claros na ciência, na arte, na política, no esporte ou na literatura, mas pessoas tocadas pela graça de uma oportunidade fortuita. Um foguete no estádio, uma briga pela janelinha, uma roupa ousada na faculdade, uma participação no BBB já seriam suficientes para alçar o sujeito ao Olimpo da nossa atenção e admiração.

Woody Allen brinca com essa ideia no filme de 2012 “Para Roma com Amor” em que Roberto Benigni é agraciado com uma fama súbita por ser confundido com um ator famoso. Com isso é alçado à condição de celebridade por um tempo e passa a desfrutar de suas benesses, mesmo sem tem noção das razões que levaram a isso. No entanto, sua trajetória pela fama foi fugaz, pois logo depois outro cidadão desconhecido foi eleito para esta posição. Seu personagem encarna os milhões de celebridades instantâneas e fugazes da pós-modernidade, cuja fama sequer pode ser explicada.

Esta característica dos tempos atuais – a exaltação das individualidades – é uma marca dessa era de valores escorregadios, caracterizada pelo hiper individualismo que coloca o êxito pessoal – e a fama decorrente – como o ápice das aspirações humanas. O sucesso é algo que está no destaque recebido pelo sujeito, e não em suas obras e feitos. Entretanto, como tudo nesse mundo cíclico, esse modelo deverá um dia atingir seu desgaste e seu fim. Com o tempo veremos valor nos sujeitos cujas obras sejam em benefício de todos, em qualquer campo do conhecimento, e não na valorização de personagens vazios, meros produtos da indústria do entretenimento.

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Contexto

A verdade de uma fala estará sempre na dependência do contexto onde foi dita. Sem isso não há como avaliar seu sentido, pois muitas vezes ela pode querer dizer exatamente o oposto do que está enunciado. Não quero com isso invalidar frases racistas, misóginas e homofóbicas, mas afirmo que é essencial que cada fala seja analisada em seu contexto para, só depois disso, fazermos um juízo. Como diria meu amigo Max, sem o contexto em nossas falas não somos mais que máquinas que falam, criaturas cujas palavras carecem de alma e simbolismo. Sem a linguagem nossas palavras viram meros símbolos operacionais, que apenas nos permitem comunicar como abelhas sinalizando o lugar das flores. Quer um exemplo?

– Quer tomar um sorvete?
– Capaz.

Digam: ela aceitou ou não? Quem é do Rio Grande do Sul sabe que não há como saber. Nosso falar sempre vai depender do contexto, o que inclui a entoação, o olhar e o jeito de dizer. Para formar um juízo sobre uma afirmação qualquer é fundamental saber onde ela está inserida. Vou dar como exemplo uma antiga fala do meu pai, sobre a qual escrevi um texto há mais de dez anos, na qual ele discorria sobre um técnico de futebol. Dizia ele:

– Ele é um excelente técnico, mas pesa contra ele o fato de ser negro.

Então? Essa fala é racista? Seria se o contexto fosse “negros não sabem comandar jogadores e não entendem de tática”. Todavia, o que meu pai estava dizendo era o oposto disso: sua intenção era afirmar que as críticas seriam sempre mais pesadas devido à sua cor. “O fato de ser negro vai fazer com que sofra preconceitos, e seu brilhantismo será eclipsado pela visão racista e retrógrada de parte da sociedade” Como eu sei a verdadeira interpretação? Pelo contexto, por estar presente e por conhecer a fundo o interlocutor. Portanto, uma frase que poderia ser interpretada como racista se fosse recortada e retirada de sua fala era, em verdade, uma crítica à falta de oportunidades para técnicos negros e uma queixa às injustiças com o trabalho das pessoas negras que ocupam estes cargos.

Espero ter sido claro…. (opss!)

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