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Futebol e masculinidade

Essa história do jogador e do abuso me afeta muito, não sei exatamente o porquê. Mas a sensação que eu tenho não é de raiva – não sou mulher para entender todas as dimensões dessa violência – mas de tristeza e decepção. É como quando ocorre um acidente entre dois carros com vítimas em ambos. Descobrir o culpado, apesar de ser essencial, não vai trazer de volta a vida de ninguém.

Então fica a tristeza pela dor imposta a uma menina e a destruição da vida do sujeito por atitudes absurdas e inconsequentes. Fico me perguntando: “com toda essa fama e dinheiro qual o sentido dessa barbárie, desse desrespeito e desse abuso?” Todos acabamos um pouco destruídos – inclusive a nossa esperança na humanidade – e não há nada que eu possa fazer a não ser aguardar que a justiça prevaleça.

Mas é tudo lamentável, triste e inaceitável, e a onda de ódio que sobrevém me deixa ainda mais deprimido.

Não gosto de chutar cachorro caído, mas concordo que o meio do futebol é violento e abusivo com as mulheres. Entre as razões para isso está que o futebol assume no imaginário social os valores atribuídos aos guerreiros de outrora. Nestes ambientes, nos quais uma criança entra aos 12 anos e só sai aos 35 – adolescência e juventude inteiras – existe um estímulo constante à hipersexualização, o desprezo por gays e por mulheres e a exaltação do herói mítico duro e inexorável.

O mesmo ocorre com policiais, no exército e nas Igrejas – com os padres. Um mundo masculino, cheirando a testosterona, onde ocorre sistematicamente a supressão de valores que são considerados femininos, como a cooperação, a solidariedade, a delicadeza, o perdão e a entrega. Nesses grupos impera a supremacia, a competição, a luta e a dureza como marcas de afirmação pessoal. Fugir deles é ver fechadas as portas de aceitação.

No futebol ocorre algo interessante. Apesar de ser um jogo de cooperação, onde todos jogam juntos e precisam dos companheiros, a progressão na carreira é solitária, numa luta do sujeito contra os demais, sendo violento e competitivo 24 horas por dia. O mesmo que acontece no exército, onde o estimulo ao companheirismo se alia a um individualismo brutal no enfrentamento da carreira. Um universo de Rambos onde a mulher não tem vez e muito menos importância.

Nestes lugares a brutalidade acaba virando a regra, na espera que algum dia seja modificado este padrão. Eu costumo dizer que até na medicina ocorre um mecanismo semelhante. Esta sempre foi uma área de homens, de energia, de força física e moral, de insensibilidade à dor e ao sofrimento. Não era admissível imaginar uma mulher – mãe e dedicada esposa – arrancando uma perna sem anestesia nos anos que antecederam a sua descoberta.

Todavia, no início do século passado a entrada das mulheres no mundo masculino da medicina não se deu sem um preço alto a pagar. Mulheres médicas eram – e ainda o são – cobradas por qualquer atitude que não seja medida pela regra da masculinidade. Precisam ser duras, fortes e insensíveis para receber o respeito de seus pares. É por isso que o ingresso das mulheres na seara da obstetrícia não surtiu a reforma que esperávamos. Numa estratégia de sobrevivência, as mulheres se associam mais aos homens e suas regras do que às mulheres e suas dores.

Há muito ainda a fazer para encontrar este equilíbrio. A entrada das mulheres no exército, futebol e medicina com o tempo vai impor uma nova perspectiva, e introduzir novos valores, determinando uma mudança significativa nestas funções sociais.

Oxalá seja breve…

PS: O que aconteceu ao jogador em questão é lamentável, mas sua adesão ao bolsonarismo é oportunista e planejada. Quis atrair a simpatia da face obscura do país, a mesma que venera a tosquice do presidente e suas falas “sinceras” e “diretas”, mas que apenas desvelam a pobreza de sua ética.

De qualquer modo, não rolou. Santos rescindiu o contrato e sua carreira acabou. Não creio que arranje clube em lugar algum. Robinho é o gênio das pedaladas, o craque que não foi mas poderia ter sido.

“Ludopédio finis est”, little Robson

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Se não houver amor

O sertanejo bonitinho que curte vodca acordou em uma bela manhã e comunicou sua esposa: “acabou, não quero mais”. Assim, na lata, sem rodeios. Direto. Arrumou as malas e se foi. Na “lacrosfera” o clima é esse: “maldito mau caráter, abandonou uma mulher linda dessas (se fosse feia podia?), destruiu sua família e blá, blá bla…”

Não, não vou defender sertanejos bolsonaristas, mas peço que tenham cuidado ao fazer julgamentos morais sobre o término de relacionamentos de personagens midiáticos. Casamento nada tem a ver com caráter, mas com desejo. Muito pior seria continuar qualquer casamento sem essa matéria prima absolutamente essencial. E, por favor, não piorem o quadro exaltando as aspectos físicos da moça, repetindo a mesma tolice de comparar Camila Parker Bowles com Diana. Acreditem; o desejo tem suas artimanhas, e enxerga suas conexões de forma curiosa e pessoal.

Nesse tipo de caso apenas lamente que sua fantasia não tem mais como se alimentar da paixão alheia. Criar culpados – ou pior – o personagem bom e o mau, a vítima e o algoz, não faz nenhum sentido. Se ele não a deseja mais, o que se pode exigir? Pensem bem; se ela acordasse e dissesse para ele “acabou, não quero mais você”, estaria errada? Seria ela uma megera egoísta? Seria justo criticar sua desistência em nome do amor que ela percebeu que se foi? Pois eu creio que não.

E lembrem… “Se não houver amor, não te demores“.

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Abobado da enchente

Esquina Rua da Ladeira x Rua da Praia – Porto Alegre (1941)

Nesta foto aparece uma charmosa esquina de Porto Alegre durante a famosa enchente de 1941 – Ladeira com Rua da Praia. Esse fato dramático produziu a coisa mais feia da história dessa cidade: o muro da Mauá, que separou o centro de Porto Alegre do seu rio.

Conta-se que nessa enchente algumas grávidas ficaram ilhadas pela alta das águas do Guaíba e, assim incapacitadas de chegar aos hospitais durante o trabalho de parto, tiveram seus filhos sem assistência. Daí surgiu a expressão tipicamente porto-alegrense “abobadinho da enchente”, que homenageia as crianças nascidas durante o período em que o Guaíba invadiu a cidade. Sabemos hoje o preconceito que essa expressão carrega: mulheres sem assistência de médicos (homens) não conseguem parir bebês saudáveis. O tempo mostrou que é esta assistência que, quando abusiva e despregada das evidências, resulta em violência institucional e riscos aumentados para mães e bebês.

Hoje, os “abobados da enchente” são aqueles que negam as evidências e se mantém numa prática violenta e misógina, contrariando os preceitos de uma atenção centrada na mulher e no bebê. Curiosamente, depois da construção do muro nunca mais tivemos uma enchente das proporções daquela de 1941.

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Ilustre desconhecido

Desapareça, para sobreviver…

Ontem uma moça me chamou no Messenger porque estava interessada em promover um curso de homeopatia para profissionais do parto. Disse ser doula, ativista, apaixonada por partos e que mora em uma cidade no interior do Brasil. No meio da conversa, e das tratativas sobre o futuro curso, perguntou quem eu era e qual a minha formação, pois não me conhecia, apenas viu uma mensagem que me ligava a cursos de homeopatia na gestação e no parto.

A existência de uma doula neste país que nunca ouviu falar de mim é algo que me deixa extremamente… feliz!! Pensem que há alguns poucos anos isso era impossível; éramos tão poucos e centralizados que era impossível não conhecer os poucos profissionais da atenção ao parto que acolhiam, capacitavam e trabalhavam com doulas. Seu desconhecimento da minha existência prova, de forma inequívoca, que eu não sou tão importante como imaginava, e que a disseminação da mensagem das doulas pode prosseguir sem a minha contribuição ou mesmo existência.

O movimento se espalhou de uma forma e com tal velocidade que os dinossauros aos poucos vão caindo no esquecimento e isso, ao contrário do que parece, deve ser celebrado. Qualquer movimento que se assenta sobre personalidades – ao invés de se apoiar em propostas e ideias – está fadado ao fracasso e ao desaparecimento.

O movimento de doulas no Brasil se tornou extremamente descentralizado, abrindo novas fronteiras de debate e trabalho todos os dias. É notável a capacidade de multiplicação dessa ideia e uma das formas de medir este impacto está na resistência – por vezes agressiva e desleal – dos sistemas de poder instituídos contra a organização e ação das doulas nos hospitais. Também é uma medida de poder dessa proposta a resiliência corajosa das doulas de continuarem existindo apesar de todas as violências cometidas contra elas e seu trabalho.

De minha parte, esta sempre foi a minha maneira de enxergar um projeto de sucesso: trabalhar pela própria desaparição, crescente e insidiosa, para dar lugar a ideias novas, personagens mais capazes e por propostas mais radicais.

Apesar do enorme amor que temos por nosso próprio ego, reconhecer a importância de sair de cena é um dos principais elementos para dar sentido ao trabalho de uma vida inteira.

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Espiritismo e cristolatria

Jesus foi um ativista político, um revisionista da religião judaica. Basicamente um judeu falando de judaísmo para outros judeus. Toda a construção do Jesus mitológico, que o trata por “Espírito de luz”, “Deus encarnado”, “Salvador da humanidade”, “aquele que morreu por nossos pecados” etc, parte de construções humanas, históricas, geopolíticas e pouco têm a ver com o Jesus histórico da Palestina. Em verdade a própria existência desse personagem é contestada por inúmeros pesquisadores e estudiosos do tema. Vejo hoje a necessidade de parar de contar pequenas e grandes mentiras usando como desculpa a ideia de que os espíritas são “imaturos demais para entender a verdade”.

Creio que o espiritismo foi criado para adultos, sujeitos maduros, que não necessitam mais histórias de Jesus “espírito de luz”, “pátria do evangelho”, “arquitetos do planeta”, ou quaisquer outros misticismos que se estabelecem sobre fantasias. Jesus foi uma pessoa absolutamente comum, como eu ou você, que pretendia ser o libertador da Palestina do jugo romano. Provavelmente um “Messias” pouco importante diante dos mais de 400 auto proclamados libertadores do povo hebreu que surgiram naquela época. Já a figura de Cristo foi construída após sua morte e não tem nada a ver com o judeu que pregou sobre sua religião. Qualquer coisa além disso é pura imaginação; é criar uma figura mítica desconectada daquilo que a história nos oferece dele.

Eu entendo quando não se desfaz a ilusão do Papai Noel ou do “Jesus Filho de Deus” para crianças sem aguardar que estejam prontas para a mudança de entendimento sobre estas figuras, mas manter essas visões infantilizantes nas bordas da adolescência é inútil e desrespeitoso, pois não é justo tratamos adultos como seres incompetentes para encarar a verdade. A ideia de um velhinho que – por bondade e amor – traz os presentes a todas as crianças no Natal é por demais sedutora e satisfaz as necessidades de aceitação das crianças. Todavia, se você insistir com a visão fantasiosa do “bom velhinho” depois de uma certa idade ela vai desconfiar de suas intenções e se ofender com sua atitude.

É hora dos espíritas abandonarem o cristianismo. Ele é sectário, branco, eurocêntrico, ocidental e não contempla a diversidade e a abrangência que precisamos num mundo globalizado. Cada vez que eu escuto falar de Jesus como o “filho dileto do criador” eu lembro dos meus irmãos chineses e seus milhões de compatriotas que não tem necessidade alguma de suas palavras, sua mensagem e sua existência – mítica ou histórica. Por que insistimos nesse mito medieval???

A conexão do espiritismo com a figura de Jesus teve um efeito paradoxal. Se por um lado nos alia a uma parcela do planeta – europeia e ocidental – em sua visão teleológica e moral, por outro lado nos afasta de todo o resto do mundo que poderia se beneficiar de uma filosofia e ciência que se dedica a estudar a manutenção do princípio espiritual para além do momento da morte física. Entretanto, foi exatamente esta amálgama entre a ciência do espírito e a religião que lhe conferiu a popularidade que hoje desfruta em um país como o Brasil. Aquilo que hoje tanto me incomoda – a persistente cristolatria – é o que manteve as ideias de Kardec vivas em boa parte do mundo.

Por outro lado, é óbvio que o espiritismo não precisa de uma visão “moral”, “cristã” e “religiosa” da mesma forma como a lei da gravidade de Newton não precisa de um culto místico ou de um ser espiritual diretamente conectado com Deus para que as pessoas aceitem a gravitação como uma lei importante para o entendimento do universo. O espiritismo é a ciência do espírito, mas o que encontramos nas casas espíritas é uma exaltação dos valores morais ocidentais, da contenção da sexualidade e sua domesticação (as obras de Chico e Divaldo são gigantescos tratados sobre sexualidade reprimida) e de identidade cultural. No meu modesto ver, o espiritismo muito ganharia se desprendendo dessas amarras religiosas e dessa vinculação com os mitos cristão, assim como a própria figura do Cristo.

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No meu tempo é que era bom…

Frequento grupos onde pessoas da minha idade celebram fatos da nossa infância e adolescência, que coincidiu com a ditadura militar, o surgimento da TV e a transformação social que o mundo experimentou pela guerra fria.

Vez por outra aparece um texto saudosista, falando de um tempo sem “frescuras” e sem “mimimi“, dizendo que na época atual damos valor demais aos direitos e menos aos deveres, que somos uma geração “floco de neve” e que criamos discussões sem propósito sobre temas irrelevantes.

Não há dúvidas que há exageros. Afinal, “como impedir que o vento bata portas mal fechadas”, como dizia Pablo Milanez, fazendo estrondo com os gritos represados? Como evitar a volúpia que se segue à contenção?

Exaltar acriticamente um passado idílico com nossas lentes seletivas só pode resultar em uma salada de frutas de racismo, misoginia, lgbtfobia misturados com o culto do “tempo perdido”, do passado perfeito e da destruição da cultura atual pelo “excesso de direitos”.

Minha adolescência foi maravilhosa, e não há porque negar isso, mas exatamente porque eu era branco, heterossexual e de classe média. Seria absurdo – ou má fé – julgar a sociedade onde eu vivia apenas pela minha estreita perspectiva. Não é justo avaliar nenhuma cultura pelos relatos dos cronistas sociais que observam o mundo ao seu redor dentro de sua bolha de privilégios.

Sim, era permitido chamar de “viado” e de “negão”, e talvez seja verdade que muitos negros e homossexuais sequer se sentissem ofendidos. É possível que muitas meninas não se importassem em ser tratadas e consideradas apenas pela sua aparência. Todavia, é impossível saber quantos realmente levavam as brincadeiras com humor e quais eram os que apenas engoliam a humilhação para não serem excluídos do grupo. Escutar hoje como eles se sentiam naquela época talvez possa nos surpreender.

Minha geração era muito cruel com os diferentes, e não há nada a lamentar que esse tempo tenha passado. Também nossos hábitos eram terríveis, no aspecto da saúde. Sim, sobrevivemos ao “Fleet”, à bala Soft, carros sem cinto de segurança e às tintas com chumbo mas muitos dos amigos que hoje morrem de câncer começaram sua contaminação cumulativa naqueles tempos. Muitos dos que morreram cedo pelos acidentes de trânsito também não estão aqui para deixar seu depoimento. Não há o que celebrar.

Abandonar paulatinamente o machismo, a violência contra a mulher, o racismo estrutural, os agrotóxicos, a educação pela violência e a segregação racial é algo a ser comemorado, mesmo que seja necessário reconhecer que muito ainda precisamos trilhar. Acreditar que o seu tempo era “o melhor” apenas denuncia falta de perspectiva e incapacidade de se adaptar ao mundo de transformações.

Acredite… o mundo hoje é melhor do que já foi, apesar dos nossos erros

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Castigos

Castigos

Uma oportunidade que a avozeridade (relativo a avô, assim como paternidade é para pai) me ofereceu foi a possibilidade de estabelecer um comparativo intergeracional. Vejo com surpresa e encantamento o desenvolvimento psíquico e emocional dos meus netos com muita atenção – que eu não tinha aos vinte e poucos anos quando fui pai.

Um aspecto muito chamativo nessa observação é o fato de que eles são a primeira das cinco gerações que acompanhei (dos meus avós até aqui) em que não existe a perspectiva de castigos físicos. Não importa qual a travessura ou a “maldade” produzida, a violência não é uma expectativa que eles têm. Eles agem sabendo que, na pior das hipóteses, serão retirados do local para uma “pausa de reflexão”, mas jamais receberão ataques físicos como punição.

Por certo que entre eles a violência é um assunto diário. Brigam entre si todos os dias e com todos os requintes de crueldade, tanto física quanto psíquica. É assim o amor entre irmãos e primos: “entre tapas e beijos”. Também com os animais domésticos existe algum grau de violência, mas é natural que eles percebam os limites da sua expressão através destes experimentos. Quando os cachorros da casa mordem os pequenos em defesa própria é o momento de ensinar que a violência sempre tem um preço.

Por outro lado, a dimensão do “outro poderoso”, sem as tintas da violência explícita, é uma grande novidade para mim. Cresci com a ideia de que, dependendo da travessura ou da blasfêmia proferida, umas boas palmadas poderiam ser a consequência natural. Agora esta instância “pedagógica” foi eliminada. Acredito que há razões de sobra para comemorar.

Percebi na experiência de convívio com meus netos o que muitos já haviam descrito: do ponto de vista educacional os castigos físicos não fazem a menor diferença positiva. São inúteis para produzir a necessária castração simbólica e servem tão somente como válvulas de escape para as frustrações parentais. Mantém o círculo de opressão e violência e comunicam às crianças o valor da agressão como potencial solucionador de impasses.

Criar sem violência física é uma lição que pude aprender com esta espetacular oportunidade que a vida oferece a quem ficou velho o suficiente para merecer ser avô.

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Sobre encontros sexuais

Um assunto onde é importante lucidez por ser um terreno onde sobram ofensas e dedos apontados.

Minha tese é simples e pode ser resumida em um adágio: “vitimizar-se é o contrário de ser protagonista”. Colocar-se eternamente na posiçao de vítima do sexo ruim que recebem dos parceiros mantém a sexualidade (e os homens) como protagonistas do sexo e da sexualidade, controladores da narrativa que produz os encontros. Agir assim é tratar a sexualidade como se fosse um produto que os homens entregam às mulheres – bom ou ruim – e a elas caberia apenas avaliar, reclamar e criticar – ou aprovar.

Eu discordo dessa visão. Sexo é uma busca que ambos empreendem. É um “embate” de fantasias, desejos, limites e buscas onde os dois se responsabilizam. Um bom sexo é uma procura compartilhada.

Outra coisa: onde houver respeito à integridade fisica e aos desejos do outro não há fantasia errada, justa, moralmente correta ou “suja”. Deixemos as lutas de gênero longe das fantasias. O ex diretor do FBI John Edgar Hoover foi um dos mais cruéis perseguidores de comunistas da America, mas era gay, gostava de se vestir de mulher e ser submisso em suas fantasias, o que não o deixou menos violento e abusivo.

Esse cara “ruim de cama” ou “pinto pequeno” desprezado por uma mulher pode ser o principe encantado de outra; o mesmo com a mulher tachada de “fria”. Não há sexo ruim: há encontros errados, onde os parceiros estão na mesma festa do desejo, mas um quer a alegria e o molejo de um “samba” e o outro deseja dançar a sutileza de uma “valsa”. Não estão errados; estão desencontrados.

Portanto, é tanto a tarefa das mulheres virar esse jogo e exigirem ser escutadas, quanto é tarefa dos homens estabelecer para si um sexo que seja pleno e satisfatório.

Culpar o outro (ou os outros, os homens e as mulheres) é sempre muito mais fácil do que olhar para dentro de si para descobrir suas falhas e vazios.

Eu prefiro não culpar pessoas, por isso descobri o Feng Shui e agora só culpo os móveis. 😂 😂

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Gurus

Qualquer grupo religioso onde se destaca a figura de um “guru”, um mestre cujas palavras assumem aspectos de “revelação” ou “verdade” corre o risco de se decepcionar com a práticas de abusos – morais e sexuais. Acontece com os padres (escândalos imensos), os evangélicos (todos os dias), os mestres espiritualistas (como João de Deus), os orientalistas (como Prem baba) e certamente ocorreria entre os praticantes da Ayahuasca.

O que se faz necessário nestas circunstâncias é orientar as pessoas desde muito cedo a não acreditarem em pessoas que tem “A Mensagem”, entregue diretamente a eles por “Deus”, ou pelos “espíritos de Luz”. TODAS são seres humanos, alguns deles perversos e abusadores cruéis, mas é impossível que seus egos não se deixem inflar pela veneração que seu carisma recebe como resposta. Eu procuro orientar a todos para que SEMPRE desconfiem de qualquer misticismo e qualquer encenação de “pureza e espiritualidade”.

Mesmo vestindo o mais alvo dos mantos por baixo dele existe apenas um ser humano deslumbrado com sua influência sobre mentes frágeis e carentes.

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Paulo Freire 99

Essa frase de Paulo Freire sempre me perseguiu, e durante muitos anos. Infelizmente, não somos dados a conhecer saberes alheios, visões diferentes e encarar paradigmas desafiadores. Muito é perdido quando nosso conhecimento impõe viseiras que nos impedem de olhar para fora da nossa caixa de conhecimentos.

Para mim, um dos mais vibrantes ensinamentos foi o contato com as parteiras tradicionais mexicanas, convidado por Robbie a conhecê-las em suas viagens por Temixco, Tepostlán, Cuernavacca, San Miguel de Allende, Oaxaca, San Cristóbal de las Casas e o “DF”, a Cidade do México. Com elas pude ver que era possível enxergar o parto de uma forma “diferente”, nem pior e nem melhor, mas diversa daquela que eu havia aprendido na escola médica.

Curiosamente, mas não de forma surpreendente, muitas destas parteiras olhavam para mim como “el doctor“, aquele que trazia o “conhecimento autoritativo“, que seria superior ao saber acumulado em décadas por elas, com suas “sobadas“, o uso de ervas, do rebozo mexicano e, em especial, a abordagem emocional do parto e as divisões sutis e quase diáfanas entre os ambientes privados e públicos no seu trabalho.

Jã na minha perspectiva elas eram professoras e eu apenas um médico inseguro cuja única virtude era saber que havia outras formas de traduzir o nascimento para além do que eu havia aprendido.

Paulo Freire nasceu há quase 100 anos e, seja pelos seus ensinamentos diretos seja pelas mensagens e ideias que ficaram, ele é um grande marco na educação e na pedagogia para o mundo todo. Eu espero que a ideia democrática de respeito aos saberes, de forma livre de hierarquias, siga como um farol a iluminar sua obra.

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