Música ao estilo “sertanejo universitário” (o nome mais malandro inventado na história da música) que é onipresente na cultura e toca nas rádios toda hora, fala de 4 assuntos básicos: mulheres que chutam homens que não lhes dão o valor que julgam merecer, baladas, sofrência de corno e bebedeiras. A cafonice das letras é de arrepiar, mas hoje em dia elas estão presentes em todos os ambientes. É quase impossível não escutar. Aqui na cafeteria estou há 15 minutos escutando o DVD do Luan Santanna, que agora definitivamente está assumindo um estilo “melaqüeca“.
Eu não aceito falar em termos de “no meu tempo era melhor”, mas gostaria de escutar alguém que entenda de música me dizer o que aconteceu com o refinamento, a delicadeza, a profundidade das letras, e a sofisticação de melodias nos últimos 30 anos.
Veja só, quando eu era adolescente Chico Buarque era POPULAR. Não precisava ligar a Rádio Cultura para ouvir. Ele ia no programa do Chacrinha e o povo cantava em uníssono suas canções. Caetano, Gil, Tim, Betânia eram artistas do povo, e suas letras estavam na cabeça de todos nós.
O que aconteceu para chegarmos até “Meu pau te ama” e “Eguinha Pocotó”?
O papa Francisco disse esta semana que “As mulheres são a harmonia do mundo”.
Se reclamam de Freud pelos seus erros a respeito do feminino o que dizer de um homem que passou a vida rodeado de outros homens e que jamais foi íntimo o suficiente das mulheres a ponto de arranhar a superfície de seus segredos e histórias? Como cobrar profundidade sobre os limites e a essência femininas trazendo como mapa um livro que é a essência do patriarcado e o roteiro da submissão das mulheres em um mundo de homens?
As mulheres não merecem ser descritas assim. Não existe NADA de harmonia nas mulheres. Elas são puro desequilíbrio e pura energia. Não existe NADA de calmaria nos maremotos da alma de uma mulher. Elas são a fonte de toda desordem e toda a convulsão; estão na origem de todas as guerras e conflitos. São todas Helenas, são muitas Marias. As mulheres desprezam a harmonia e a ordem; sua presença produz desejos e ardores, disputas e ódios. Mais ainda, delas é a invenção do amor. “Se amor existe ele é o sentimento de uma mãe por seu filho, e todos os outros amores são dele derivados“
O desejo não é masculino ou feminino. O desejo não é de um homem por uma mulher. O princípio do desejo está na mulher, pelo menos enquanto todos nascermos de uma. E não acho que idealizo as mulheres; pelo contrário. Reclamo da idealização do Papa sobre elas, tratando-as como “harmoniosas”, ou produtoras de harmonia.
Se amor existe, e sobre isso há controvérsias, ele se origina dessa fissura aberrante na ordem cósmica, quando um ser incompleto se uniu à sua mãe. Esta visão das mulheres não tem nada de calma ou harmoniosa, só enxerga turbulência e desejo. E isso se aplica ao amor, obra e graça das mulheres, mas nada tem a ver com a orientação sexual, pois o amor vale para qualquer uma.
Que fique claro aos apressados que por desequilíbrio não me refiro à “loucura” ou à insanidade. Para mim o desequilíbrio trata da energia que torna possível o movimento. Para cada passo que damos é necessário, primeiramente, se desequilibrar. Harmonia, para mim é estagnação; desequilíbrio, por sua vez, é entropia.
Definitivamente, as mulheres não são a harmonia do mundo; elas são apenas o núcleo de onde se origina todo o desejo. Em verdade elas são a origem do mundo.
Se você puder entender a ruptura do aneurisma de Dona Marisa como o epílogo de um processo de violência psicológica, forte pressão emocional e o consequente sofrimento pessoal pela perseguição insana a ela, seu marido e seus filhos então poderá aceitar que Marisa Letícia sofreu tortura e morreu como consequência indireta dos ataques desonestos e cruéis que sofreu.
Curioso como é mais fácil entender o bullying psicológico que leva ao suicídio jovens homossexuais nos Estados Unidos mas relutamos em aceitar que a mesma pressão tenha ocasionado a ruptura de um aneurisma. Parece simples aceitar que uma mulher sofre por assédio moral de um marido violento ou de um patrão sem escrúpulos, mas não queremos aceitar que Marisa pode ter sucumbido a este mesmo tipo de agressão, insidiosa, contumaz e renitente.
Quando ocorre com nossos inimigos todos os indícios desaparecem. Quando ocorre conosco, mesmo a agressão mais diáfana e a mais impalpável fantasia torna-se fato e realidade inquestionável.
No excelente documentário “(dis)Honesty, the truth about lies” – (des)Honestidade, a verdade sobre as mentiras – o ponto alto e engraçado ocorre quando uma senhora da plateia pergunta ao pesquisador se nas suas investigações constatou-se diferença entre homens e mulheres no que diz respeito à honestidade. Sua resposta foi excelente:
– Sim, existem enormes diferenças, e a grande diferença observada é que apenas as mulheres fazem essa pergunta. Mas… nos testes realizados nunca se observou o fato de um gênero mentir mais do que outro.
Pensei agora que praticamente todas as virtudes, qualidades, vícios e defeitos humanos teriam o mesmo resultado, incluindo a agressividade. Por isso me irritam tanto as análises essencialistas, que dizem que as “mulheres são menos isso do que os homens” e vice versa. Talvez existam alterações hormonais que determinem comportamentos diferentes entre os sexos (o fator testosterona, por exemplo), mas não acredito em NENHUMA qualidade MORAL que sobre em um e esteja faltando no outro.
Acabei de descobrir, em uma postagem do prof Luis Felipe Miguel, que a frase “Quem gosta de miséria é intelectual” não é de Joãozinho 30, mas do jornalista Elio Gaspari, que a colocou na boca de Joãozinho em uma entrevista fabricada. Esta era uma estratégia do velho jornalismo: criar fábulas, entrevistas inexistentes (mesmo que baseadas na verdade) e depois apresentar aos entrevistados para que concordassem. É claro que nem todos os jornalistas agiam desta forma, mas a esperteza destes velhos jornalistas me chamou a atenção.
Por outro lado eu lembro de uma história (ou lenda) de que um dos primeiros empregos do Woody Allen foi criar frases inteligentes e espirituosas para serem proferidas – com falsa originalidade – por atores de Hollywood, celebridades emergentes e políticos americanos. É provável que muitas reputações na época tenham sido forjadas por este artifício. É possível também que muitos “grandes” jornalistas do passado usavam estratégias deste tipo; talvez fosse mais usual do que imaginamos. Imensas entrevistas prontas eram entregues ao “entrevistado” apenas para conferência. Mentiras que se eternizaram pela criatividade de quem tinha a atribuição de (d)escrever a história.
E as biografias históricas de personagens do passado distante, escritas pelos colunistas sociais da época? Que verdades podemos retirar de tais textos? Quantos canalhas perversos recebem estatuto de santidade hoje em dia por histórias fabricadas dessa forma? Quantos sujeitos íntegros foram destruídos em vida, e após ela, por estas artimanhas?
Eu também não sabia da real autoria da frase sobre os intelectuais e a miséria e jurava que a frase era de Joãozinho 30.
A propósito de Woody Allen, ele escreveu um conto em que o presidente dos Estados Unidos diz a um assessor direto:
– Quando estivermos em reunião mais tarde pergunte-me “Qual o tamanho ideal das pernas de um homem”. Entendeu?
– Mas por que essa pergunta, senhor, indagou o assessor surpreso.
– Ora, porque tenho uma ótima resposta: “Ideal para que alcancem o chão”. Não é maravilhoso?
Eu sempre interpretei essa piada do Woody Allen como um resquício do tempo em que ele fazia exatamente isso para políticos, celebridades e atores. Entregava uma piada pronta, ou uma observação espirituosa, e pedia para alguém servir de “escada” para que fosse dita em público.
Isso não é a história sendo descrita ou contada; é a história sendo fabricada.
Sobre a citação de Foucault abaixo, que algumas pessoas comentaram, eu ousaria acrescentar:
“Lattes, pau“.
Diploma é como cash, dinheiro. Se você olhar com atenção e crítica poderá perceber que aquele objeto não passa de papel e tinta colorida, ainda que com a cara estampada de um antigo opressor. Entretanto é preciso que todos ao seu redor acreditem que ele tem valor. Esse é o pacto: eu lhe dou esse papel colorido e você me dá uma vaca.
O diploma também é (apenas) um papel pendurado na parede que é feito para garantir autoridade externa – e indireta – ao que dizemos e fazemos. Vale para quem não o tem, mas só quem o conquista sabe o quanto ele é valorizado acima do que merece. Por isso concordo plenamente com as palavras de Michel Foucault abaixo: o diploma não vale pela presença, vale pela ausência. Ele é feito para ser valorizado por quem não o tem, e não para ser admirado por quem o possui.
“O diploma serve apenas para constituir uma espécie de valor mercantil do saber. Isso permite também que os não possuidores de diploma acreditem não ter direito de saber. Todas as pessoas que adquirem um diploma sabem que ele não lhes serve, não tem conteúdo, é vazio. Em contrapartida, os que não tem diploma dão-lhes um sentido pleno. Acho que o diploma foi feito precisamente para os que não tem.” (Michel Foucault)
Uma amiga foi visitar pela primeira vez o Carnaval da Bahia e resolveu comprar um abadá – uniforme especial do Carnaval baiano – que permite a ela brincar dentro do encordoamento que separa os que pagam (bastante) para ficar próximos ao trio elétrico dos “pipocas”, que por nada pagarem seguem a folia do lado de fora. Não saiu barato, mas suas economias do ano anterior foram suficientes para garantir essa extravagância colorida de verde e amarelo.
A festa corria solta e animada até que algo inesperado aconteceu. Quando o trio elétrico se aproximava da Praça Castro Alves, e a banda começava a cantar a música de Caetano em sua homenagem, todos os cordeiros (seguranças que controlam as cordas de separação) foram acionados para conter uma confusão próxima, e com isso muitos “pipocas” invadiram a parte exclusiva da turma do abadá. Como a invasão foi muito abrupta, rapidamente a área reservada se viu pintada de muitas cores, em especial a dos soteropolitanos mais pobres e escuros que se misturaram aos sulistas e aos turistas estrangeiros de pele avermelhada pelo sol da Bahia. A banda torpedeava “A Praça Castro Alves é do povo, como o céu é do avião” enquanto uma súbita democracia de raças, credos e castas tomou conta da rabeira do trio elétrico. Enquanto o povo se divertia na mistura inesperada a cantora abria o grito, alheia ao que estava acontecendo.
Aos poucos a alegria genuinamente popular que ocorreu com a invasão deu lugar a um crescente desconforto. A entrada do povo na parte restrita às elites começou a desagradar aqueles que se sentiam invadidos. Não que estivessem perdendo algo (já haviam pago mesmo), até porque nada lhes foi retirado. Sequer era espaço o que lhes faltava, pois antes já estava bastante lotado. Não, a inconformidade se dava pela invasão de um espaço que consideravam seu, o qual estava sendo usurpado por aquelas pessoas mais pobres. Não era nenhuma perda objetiva, mas a sensação desagradável e subjetiva de dividir espaço com aqueles a quem não julgavam como iguais. Afinal, tinham pago; portanto, tinham mérito. Tinham, por esta razão, direito a um lugar exclusivo.
A nenhum deles ocorreu, no meio da folia, das músicas, dos beijos roubados, da dança frenética e dos goles de cerveja questionar porque uma festa popular dividia o povo entre os que podem mais e os que podem menos. Muito menos ocorreu a qualquer um dos que vestiam abadá se perguntar as razões e as circunstâncias profundas que lhe permitiram estar do lado de cá da corda. Não, não havia clima para estas perguntas incômodas. A solução encontrada foi uma chamada conjunta de todos que vestiam o abadá verde-amarelo para que os seguranças jogassem todos os penetras para fora. “Voltem para o seu lugar”, gritavam. “Eu tenho o direito de estar aqui, você não”, diziam outros. “Eu paguei, não tenho culpa se você é pobre”.
Em alguns minutos, após a intervenção violenta dos seguranças, a ordem foi restaurada e mais uma vez só havia abadás verde-amarelos entre as cordas. “Eles que façam um carnaval só para eles”, disse o alemão barrigudo que segurava a mulata pela cintura. “Esse aqui é nosso”, completou. O trio elétrico parado na Praça chacoalhava os vidros dos sobrados centenários de Salvador e fazia as ondas do mar próximo quebrarem no ritmo dos atabaques. No centro da praça, impávido e pétreo, Castro Alves recitava em solilóquio alguns versos que surgiram em seu pensamento. Talvez – como saber? – fosse uma lembrança que, sem perceber a razão, lhe ocorreu naquele exato instante de euforia máxima e frenesi apoteótico.
“Existe um povo que a bandeira empresta Prá cobrir tanta infâmia e cobardia!… E deixa-a transformar-se nessa festa Em manto impuro de bacante fria!… Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, Que impudente na gávea tripudia? Silêncio. Musa… chora, e chora tanto Que o pavilhão se lave no teu pranto! …”
A “doutrina da segurança”, que protege a vida e o patrimônio de pessoas brancas e bem nascidas, é um dos mais vívidos resquício da escravidão. Os seus defensores são a prova de que a luta contra a exclusão e o racismo precisa ser levada a sério e como uma política de estado. A emergência de fascistas no cenário político internacional e nacional deve nos alertar sobre os perigos que estas ideologias racistas e excludentes representam à própria sobrevivência do planeta.
Já o punitivismo do judiciário é sua máscara autoritária e tem suas raízes num entendimento ultrapassado sobre os perigos da impunidade. Os modelos punitivos aplicados no mundo real, como os “Three Strikes” usados na “Guerra contra o Crime” nos Estados Unidos foram uma tragédia sem precedentes no ocidente, que multiplicaram os custos do encarceramento, criaram 2,3 milhões de prisioneiros e não produziram nenhuma mudança substancial na segurança pública ou na obediência às leis.
É preciso avançar o debate e reconhecer que a obediência ao pacto social ocorre apenas na vigência de uma sensação de confiança na legitimidade do sistema, e não no temor de ser punido. Isso não significa a ausência de punição ou mesmo de reclusão – mesmo sabendo de sua ineficiência em recuperar delinquentes – mas o abandono da ideia ingênua de que esta é a solução do problema.
Quando o crime avança em todo o país como causa direta da ruptura das instituições democráticas, pela inquestionável falta de confiança de todos nós na polícia, nos políticos, nos empresários e na mídia, os governantes acenam com …. a construção de novos presídios!! Isso não significa que eles não sejam uma necessidade – assim como, na velha piada, o sofá também poderia necessitar reparos – mas acreditar que a solução é MAIS encarceramento é um retrocesso injustificável e que terá resultados pífios, como sempre ocorreu onde essa ideologia foi aplicada.
Sem criar confiança na legitimidade das leis e regras sociais, nenhuma punição poderá criar um estado de respeito e convivência pacífica em uma sociedade – ou mesmo no planeta.
Na minha infância e juventude a parte dos filmes que mais me assustava era quando se revelava que o policial – algumas vezes o juiz – era uma figura corrupta e maligna. Manipulava com seu poder pessoas e circunstâncias durante toda a trama, e nunca era possível pegá-lo; afinal, ele era o poder. Ver pessoas com tal nível de poder abusarem de sua autoridade em benefício próprio – seja por dinheiro ou vaidade – me oferecia uma sensação aterrorizante de fragilidade. As figuras de poder que corrompem a sagrada função de nos proteger, por razões mesquinhas e egoísticas, desafiam até nossa capacidade de perdoar, tamanha a violência psicológica de burlar nossa confiança.
Escrevo isso porque a mesma sensação tenho quando vejo médicos escrevendo textos violentos, agressivos, desrespeitosos, homofóbicos, sexistas ou simplesmente cruéis nas redes sociais. A mesma sensação de fragilidade diante dos poderosos e a tristeza de ver uma função social tão delicada sendo deturpada. Como admitir que os profissionais que nos acolhem nos momentos mais delicados, de dor e sofrimento – mas também de alegria e júbilo – possam expressar tanto preconceito e arrogância, distribuindo julgamentos sem nenhum constrangimento? Pior, sem sequer tentar entender os contextos e circunstâncias que levaram pessoas tomar atitude e fazer escolhas sobre sua saúde.
Médicos, juízes, policiais e políticos precisariam estudar filosofia e psicologia desde muito cedo em sua formação, muito antes de aprender as leis ou a anatomia humana. Sem estes conhecimentos fundamentais, e a atitude ética que se produz a partir deles, podemos criar monstros e algozes brutais.
Alguns deles já são facilmente encontráveis em nossas redes sociais.
Eu sempre soube que tinha uma mente infantil, mas Freud me ensinou que não devo me culpar (muito) por isso. Quando viajo, em especial, relaciono coisas, lugares e objetos com pessoas. Acho que é a solidão, mas até quando viajo acompanhado tenho essa mania. As pessoas ao meu lado não tem a obrigação de se encantar com as mesmas coisas que eu, fazer as mesmas associações ou se ater àquele específico aspecto de um fato ou acontecimento que atraiu minha atenção. Não há como pedir a elas que se adaptem ao meu giro mental ou emocional.
Por isso penso em pessoas. Vejo algo e penso: “Fulano gostaria de ver isso e tenho certeza que ele teria uma ótima observação a fazer“. “Fulana gosta desse escritor, a adoraria mostrar esse livro para ela“. “Sicrana gosta de sentar diante de uma paisagem assim e simplesmente contemplar enquanto fuma um cigarro. Gostaria que ela estivesse aqui“. (essa última é Robbie)
Isso me faz pensar que nenhuma experiência para mim tem valor absoluto, por si só. Ela precisa ser contada, descrita, desenrolada como um sonho, que se constrói e organiza na medida em que se conta, usando o material onírico bruto e disforme que sobrou em nossa mente.
Agora mesmo, sozinho num banco de metal em frente ao Starbucks já passaram à minha frente mais de uma dúzia de amigos com quem gostaria de dividir um comentário ou fazer uma pergunta.
Ou somente olhar para as árvores em volta sem dizer coisa alguma. Ou dizer bobagens; também serve