Arquivo da categoria: Política

Cloroquina, a droga da direita

Entrei em uma conversa numa página que criticava o uso da Cloroquina com a tese de que não há evidências de que esta droga produza benefícios, além de existirem suspeitas fortes de que seus efeitos colaterais suplantariam seus possíveis efeitos benéficos. Nada a discordar deste tipo de postura, por certo.

Resolvi, entretanto, responder dizendo que o mesmo comportamento de desconfiança com a Cloroquina deveria nos nortear em relação às vacinas – que estão sendo produzidas às pressas, nas coxas, e sem qualquer garantia de eficácia “in vivo” ou de que seus efeitos colaterais suplantam seus possíveis benefícios. Para mim é fundamental cultivar a coerência diante destas soluções exógenas criadas para tratar um desequilíbrio que – ao meu ver – tem relação com nossa ação destrutiva com o meio ambiente.

Sem surpresa fui atacado por pessoas desta página porque (ahhh, a velha falta de interpretação de texto!!) acreditaram que meu comportamento cioso com relação às vacinas (que estão para ser colocadas no mercado a “toque de caixa”), significava uma defesa da Cloroquina. Em verdade, era apenas um pedido de coerência. Se ainda guardamos na memória os desastres que já aconteceram com o uso insensato de drogas, deveríamos multiplicar nosso cuidado com uma vacina sem garantias. Não esqueçam da Talidomina, dietilbestrol, Vioxx, Rx na gestação, etc…

Porém, o que mais me chama a atenção nessas manifestações é a equação simplificadora presente nas mentes mais ingênuas. Para estes – que são até da esquerda!!! – a Cloroquina é uma droga de “direita”, pois o Bolsonaro e o Trump a defendem (ok, esquecem que Maduro, o cruel comunista, também). Por seu turno, as vacinas são de “esquerda”, porque são feitas por “cientistas”, que usam a ciência como ferramenta, sendo esta filha da razão, que é claramente de “esquerda”, em contraposição ao “misticismo” e ao “obscurantismo” que são de “direita”.

Se é importante combater a chaga do negacionismo – na história, na política e nas ciências – também é essencial entender como esta colocação de antípodas é absurda. A ciência NÃO é de esquerda, e nem de direita. Ela é apenas uma ferramenta para solucionar problemas. As vacinas, por exemplo, são medicamentos produzidos pelas indústrias mais poderosas do mundo capitalista, tanto do ponto de vista do imaginário popular quanto dos poderes sobre os governos. Achar que as vacinas – ou qualquer outra droga – representam a “Ciência” é uma conclusão tosca, em especial num planeta em que o sistema capitalista é dominante. Vacinas são drogas como quaisquer outras e sobre elas devemos ter a mesma exigência de segurança e eficácia.

A retórica das esquerdas precisa se aprimorar. A Cloroquina não é uma droga do “mal”, ou “conservadora”. Ela apenas é inútil para o uso nesta pandemia, pelo menos até onde os estudos recentes comprovam – o que pode até mudar. Para as vacinas, o mesmo raciocínio isento e equilibrado deve ser utilizado: tudo bem, desde que sejam adequadamente testadas e comprovadamente eficientes para oferecer proteção à população (tarefa que dura muitos anos para se alcançar), mas enquanto isso teremos apenas um remédio “mágico”, sem comprovação – como a Cloroquina.

Deixe um comentário

Arquivado em Medicina, Política

O Corona e os direitos humanos – edição bilíngue

Quando eu iniciei a atender partos, há 37 anos, a presença do pai – ou de qualquer acompanhante – era uma concessão do “chefe de plantão”, aquele médico que, por antiguidade ou posição formal, determinava as regras dentro do centro obstétrico. Não havia a compreensão de que, a entrada no recinto do centro obstétrico ao lado de seu marido ou de uma pessoa de sua confiança, era um direito das mulheres. Entretanto, no nascimento dos meus filhos eu fui agraciado com a possibilidade de estar presente, mas apenas por ser estudante de medicina no mesmo hospital onde eles nasceram. Essa experiência acabou moldando minha escolha posterior pela ginecologia e, em especial, pela obstetrícia.

Minha atuação como obstetra se iniciou exatamente nessa virada de ciclo. Em meados dos anos 80 já chegavam a nós matérias jornalísticas dos Estados Unidos e da Europa em que o marido aparecia ladeando sua esposa no momento do nascimento. Essas imagens mostravam homens se desmanchando em pranto e emoção diante da maravilha do nascimento, novamente revelado aos olhos masculinos depois de centenas de anos escondidas – seja no ambiente doméstico exclusivo das mulheres, seja dentro dos hospitais sob os cuidados dos profissionais de saúde. Para mim, essa pequena revolução na estética dos partos foi um dos mais importantes fatos ocorridos durante a minha formação.

Assim, após ter passado pelos partos dos meus filhos como acompanhante, se tornou impossível impedir a presença de outros pais nesse momento. Todavia, eu esbarrava muitas vezes nos protocolos rígidos e nas rotinas dos hospitais onde trabalhei, desde a mais simples proibição determinada pelo diretor da maternidade, até o impedimento de amigas, mãe ou companheira, com a desculpa de que apenas o marido poderia ser admitido. Fui obrigado – desde cedo – a enfrentar o conservadorismo da obstetrícia para garantir a estas mulheres a presença apaziguadora de um olhar amigo, e para os maridos uma experiência transformadora. Nunca foi bem aceito pelos meus pares, fui atacado e tratado com escárnio, porque viam nessa iniciativa uma interferência no seu trabalho e, acima de tudo, uma ameaça aos poderes instituídos na atenção ao parto.

Foi com muita luta que estabeleci um protocolo pessoal que incluía o marido na sala de parto. Foi necessário romper as barreiras do preconceito, os mitos da “fragilidade dos homens com o sangue” e a falsa ideia de que os acompanhantes “tocam” em material estéril nas salas de parto e, assim, colocam em risco biológico – tanto as mães quanto os bebês. Nada disso era baseado em evidências científicas; não havia qualquer prova de que acompanhantes prejudicavam o atendimento, mas todos sabiam – por um saber inconfesso – que esta presença ameaçava diretamente a onipotência do profissional médico, cujas ações seriam agora testemunhadas por pessoas da família.

Não foi fácil estabelecer esta norma, mas foi necessário fazer uso da lei para que esta medida, que pode ser facilmente entendida como um direito humano natural e óbvio, fosse cumprida na íntegra. No Brasil, no ano de 2005, por iniciativa de ReHuNa – Rede pela Humanização do Parto e Nascimento – foi assinada a “lei do Acompanhante”, que garantia às mulheres do sistema público e privado a presença de um acompanhante de livre escolha para todas as gestantes atendidas em hospitais de todo o país. Foi uma grande vitória da humanização do nascimento pela autonomia das mulheres sobre seus corpos.

A crise do Corona vírus agora nos apresenta um novo desafio. As conquistas de décadas de luta podem ser colocadas de lado em nome da segurança biológica. Certamente que não podemos colocar a vida das pacientes em risco, mas isso não nos permite retirar delas direitos humanos duramente conquistados. Segundo as palavras do colega obstetra brasileiro Edson Souza a “Conferência de Siracusa estabeleceu uma categoria de direitos humanos que jamais são derrogáveis, não importa o quanto o estado de emergência ou calamidade ameacem a vida de uma nação. São aqueles que garantem o direito à vida e à dignidade humana, ou seja, uma vida livre de tratamento desumano, cruel ou degradante. Assim sendo, a exclusão do acompanhante durante o trabalho de parto poderá se associar a sentimentos de medo, desconforto, solidão, ansiedade e stress pela parturiente, e tem sido interpretada como uma forma de tratamento desumano, degradante e violento”.

O momento é delicado e especial. Uma pandemia associada ao modo de vida capitalista produz uma encruzilhada. Podemos reforçar os laços que desde a mais remota ancestralidade foram essenciais para o sucesso de nossa empreitada humana, como a comunicação, a fraternidade e a solidariedade. Temos a chance de estreitar os laços que nos fazem humanos e criar uma nova humanidade a partir dessa experiência. Podemos, entretanto, manter a rota destrutiva do egoísmo, da iniquidade, da exploração e do afastamento entre os seres humanos. Essa escolha é nossa. Cada ser que entra neste mundo será marcado por nossas escolhas. Mas é certo dizer que aqueles que entram pelo carinho da família, do aconchego e da presença amorosa terão uma chance muito maior de se tornarem verdadeiros cidadãos.

Não esqueçam que “Para mudar o mundo é necessário mudar a forma de nascer”, como diria Michel Odent.

Espanhol

Cuando comencé a asistir a partos hace 37 años, la presencia del padre, o de cualquier compañero, era una concesión del “jefe de la guardia”, ese médico que por antigüedad o posición formal determinaba las reglas dentro del centro obstétrico. No se entendía el derecho de las mujeres a ingresar al recinto del centro obstétrico junto a su esposo o una persona de su confianza. Cuando nacieron mis hijos, tuve la oportunidad de estar presente, pero solo por ser estudiante de medicina en el mismo hospital donde nacieron. Esta experiencia terminó dando forma a mi elección posterior para la ginecología y, especialmente, para la obstetricia.

Mi trabajo como obstetra comenzó exactamente en este giro del ciclo. A mediados de la década de 1980, nos llegaron artículos periodísticos de Estados Unidos y Europa cuando por primera vez el esposo apareció junto a su esposa en el momento del nacimiento. Estas imágenes mostraban a los hombres rompiendo en llanto y emoción ante la maravilla del nacimiento, nuevamente revelados a los ojos masculinos después de cientos de años ocultos, ya sea en el exclusivo entorno familiar de las mujeres o en hospitales bajo el cuidado de profesionales de la salud. Para mí, esta pequeña revolución en la estética del parto fue uno de los eventos más importantes que ocurrieron durante mi entrenamiento.

Para mí, después de pasar por los nacimientos de mis hijos como acompañante, era imposible evitar la presencia de otros padres en ese momento, pero a menudo me topé con los protocolos y las rutinas de los hospitales donde trabajaba. Desde la prohibición más simple determinada por el director de maternidad, hasta el impedimento de amigos, madre o pareja, ya que sólo el esposo podría ser admitido. Desde muy temprana edad, me vi obligado a enfrentar el conservadurismo de la obstetricia para garantizar a estas mujeres una presencia calmante y para sus esposos una experiencia transformadora. Nunca fue bien aceptado por mis compañeros, quienes vieron en esta iniciativa una interferencia en su trabajo y, sobre todo, una amenaza para los poderes instituidos en el cuidado del parto.

Con mucha lucha establecí un protocolo personal que incluía al esposo en la sala de partos. Era necesario romper las barreras del prejuicio, los mitos de la “fragilidad de los hombres con sangre”, la falsa idea de que los compañeros “tocan” material estéril en las salas de partos y, por lo tanto, ponen a las madres y a los bebés en riesgo biológico. Nada de esto se basó en evidencia científica, nunca hubo demostración de que los compañeros perjudicaran el servicio, pero todos sabían, por un conocimiento incierto, que esta presencia amenazaba directamente la omnipotencia del profesional médico, cuyas acciones ahora serían presenciadas por miembros de la familia.

No fue fácil establecer esta regla, pero fue necesario hacer uso de la ley para que esta medida, que puede entenderse fácilmente como un derecho humano natural y obvio, se cumpla por completo. En Brasil, en 2005, firmamos la “Ley de Acompañantes” que garantiza a las mujeres en el sistema público y privado la presencia de un compañero de libre elección para todas las mujeres atendidas en hospitales del país. Fue una gran victoria para la humanización del nacimiento y la autonomía de las mujeres sobre sus cuerpos.

La crisis del virus Corona ahora nos presenta un nuevo desafío. Los logros de décadas de lucha pueden dejarse de lado en nombre de la seguridad biológica. Seguramente no podemos poner en riesgo la vida de los pacientes, pero eso no nos permite quitarles los derechos humanos que tanto les costó ganar. En palabras del colega obstetra brasileño Edson Souza, la “Conferencia de Syracuse estableció una categoría de derechos humanos que nunca son derogables, sin importar cuánto amenace el estado de emergencia o la calamidad a la vida de una nación. Son aquellos que garantizan el derecho a la vida y la dignidad humana, es decir, una vida libre de tratos inhumanos, crueles o degradantes. Por lo tanto, la exclusión de un compañero durante el trabajo de parto puede estar asociada con sentimientos de miedo, incomodidad, soledad, ansiedad y estrés por parte de la parturienta, y ha sido interpretada como una forma de trato inhumano, degradante y violento”.

El momento es delicado y especial. Una pandemia asociada con el estilo de vida capitalista produce una encrucijada. Podemos reforzar los lazos que fueran esenciales para el éxito de nuestro esfuerzo humano, como la comunicación, la fraternidad y la solidaridad. Tenemos la oportunidad de fortalecer los vínculos que nos hacen humanos y crear una nueva humanidad a partir de esa experiencia. Sin embargo, podemos mantener el camino destructivo del egoísmo, la iniquidad, la explotación y la distancia entre los seres humanos. Esa elección es nuestra. Cada ser que entre en este mundo estará marcado por nuestras elecciones. Sin embargo, es posible decir que aquellos que ingresen en este mudo través el cuidado de la familia, el calor y la presencia amorosa tendrán muchas más posibilidades de convertirse en verdaderos ciudadanos.

No se olviden qué, “Para cambiar el mundo es necesario cambiar la forma de nacer”, como dice Michel Odent.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto, Política

Algo precisa ser feito

Então, diante da incompetência inconteste de um governo de perversidades alguém se ergue e, movido por genuína indignação, questiona aos gritos…

“Precisamos fazer algo!! Onde estão as esquerdas para reagir?”

Quando me defronto com estas questões eu respondo:

“Quantas unidades de infantaria o sr já conta para sua investida? Sim, porque sua proposta é de golpe, mesmo que a intenção seja de salvar o país. Pelas vias democráticas e republicanas NÃO há (pelo menos ainda) maioria no congresso para a ação extrema de sacar um presidente. Pela via judiciária menos ainda, pois o judiciário brasileiro é vil, covarde, corporativista e corrompido por vaidades, privilégios e interesses.”

Cobrar da esquerda o quê? Sair às ruas? Se unir? Mas nem a união de todas as esquerdas conseguiria tirar um presidente com 30% de aprovação dada pelos fanáticos que seguem o atual mandatário, alguém que se comporta como um líder religioso, e não como chefe de uma nação.

É justo pedir Impeachment para depois pagarmos mico como aconteceu com Trump?

Estamos encurralados. Não há via simples. Bolsonaro continua dizendo o que seus seguidores querem ouvir, e por isso não perdeu apoio significativo com a saída de Moro.

Não se trata de republicanismo. Digo mais: para mim FODA-SE a institucionalidade quando temos cadáveres se acumulando nos hospitais e nas casas. Todavia, para romper a situação FORA da institucionalidade, com quantos tanques poderíamos contar? Quantas unidades de infantaria? E, se a proposta ainda se encontra dentro das leis, quais congressistas do “centrão” (a direita de banho tomado) estariam interessados em mudar de lado? Quais ministros do STF tem REAL compromisso com a constituição a ponto de “matar no peito” uma ação firme contra Bolsonaro?

Além disso, qual setor do exército aceitaria um compromisso com as INSTITUIÇÕES e a salvação do Brasil arriscando-se a colocar um “comunista” de novo no poder? Para um golpe é preciso muito mais do que indignação e prova de crimes; é necessário conhecer o terreno dos poderosos…

Sim, estamos encurralados por um presidente que mantém – apesar da defecção do Moro – seus 20% de fiéis. Nenhum presidente sofre um impeachment com uma avaliação de 30% de bom e ótimo e, portanto, não se trata de um “clamor popular”.

Isso não significa um chamado à imobilidade ou ao conformismo, mas o reconhecimento de que gritar “alguém precisa fazer alguma coisa” é inútil e não nos ajuda.

Vejam a entrevista do Roberto Jefferson sobre os bombeiros, a polícia civil, o exército e todo o aparato de força do Brasil e respondam minha simples pergunta: fora das instituições, qual a proposta?

Enquanto esta proposta não aparece ainda prefiro me espelhar no comportamento reservado de Lula, um conhecedor da podridão do congresso e que entende as fragilidades e os suportes que (ainda) garantem esse governo.

Deixe um comentário

Arquivado em Política

Moro e o espetáculo sobre nada

Talvez Moro tenha calculado tudo isso que agora acontece com ele. Pode ser, mas subestimar a inteligência dessa gente (Moro, Bolsonaro e seus seguidores verde-amarelistas) é tão errado quanto superestimá-la.

Talvez Moro seja mesmo um jeca subletrado interiorano e arrogante como parece ser. Pode ser mesmo um sujeito levado a uma posição de destaque por ser o “idiota necessário” naquele momento histórico. O ex juiz traiu a confiança do presidente e mostra que durante todo esse tempo o espionava. Agora apresenta “evidências”, que ao mesmo tempo o incriminam. Depois do espetáculo (que superou o ridículo das “provas” que Collor apresentou contra Sarney) constrangedor do seu depoimento na Polícia federal, resta a Moro pedir para ser esquecido, o melhor que poderia fazer com o que resta de sua figura pública.

Moro já perdeu a magistratura, perdeu qualquer admiração dos juristas, perdeu respeitabilidade internacional, perdeu a indicação sonhada ao STF, perdeu o Ministério da Justiça, perdeu a confiança do chefe e perdeu boa parte dos políticos que o apoiavam. Quem teria coragem de abrigar Moro em um partido sabendo que terá suas conversas gravadas e que o ex ministro joga somente para si? Quem se atreve a confiar em alguém que trai seus pares quando se sente acuado?

Terá Moro uma carta na manga para usar até 2022? Será o conluio frutífero com a Globo seu pulo do gato? E a Vênus Platinada se manterá fiel ao seu funcionário ou teme ser delatada também por ele?

Deixe um comentário

Arquivado em Política

Deixem o Lula…

Deixem Lula em paz…

Todo texto que começa esculachando o Lula para forjar credibilidade é no mínimo isentão. Lula é um perseguido político, como foram Mandela e Luther King. Vocês podem concordar ou discordar, mas desprezar e odiar é fazer o jogo do opressor. Atacar o Lula para se sentir autorizado a questionar psicopatas como Moro ou Bolsonaro é seguir a trilha marcada no chão pela elite perversa que criamos no Brasil, que tenta de todas as formas sufocar as lideranças populares.

Além disso, colocar Lula e Bolsonaro na mesma frase é uma ofensa para um líder reconhecido no mundo inteiro por seu combate à iniquidade e por sua luta contra a fome. Ninguém jamais diminuiu tanto as distâncias que separam os brasileiros como ele – mesmo sendo pouco diante do que precisa ser feito. Comparar políticos tão díspares é um desaforo e uma injustiça contra alguém que saiu da presidência com 87% de aprovação (um recorde mundial entre as democracias) e fez o maior governo da história da república.

Ahhh, e não sou petista nem lulista. Estou à esquerda de Lula. Sou anticapitalista, abolicionista penal, humanista, ecosocialista, marxista e comuna. Lula é um social democrata de centro esquerda.

Deixe um comentário

Arquivado em Política

Inveja

Vadzê que você não morre de inveja de alguém que ultrapassa os limites todos os dias e cada vez que o faz se sente mais poderoso? Imagine se você pudesse mentir indefinidamente e ninguém pudesse lhe contestar. Pense o gozo espetacular de ofender, atacar, burlar, manipular, perseguir seus desafetos, sabendo que os que possuem a competência de lhe vigiar se limitam a fazer muxoxos ou escrever notas de repúdio. E se todos os seus adversários se acovardam diante dos cães que lhe circundam?

Deve ser uma sensação especial poder fazer tudo o que quiser, cometer dezenas de crimes de responsabilidade, além de vários crimes comuns e nada lhe acontecer, porque você tem os guardas ao seu lado.

Para um poder extremo uma tensão igualmente intensa. O poder extremado enlouquece e mata. Gore Vidal no seu livro sobre os césares – os homens com maior concentração de poder da nossa civilização – mostrou que dos doze que assumiram o poder em Roma apenas dois não sucumbiram à loucura e à perversão.

Assim como ocorreu com outros tiranos e inimigos da vida, esse que ora nos aflige um dia passará. Assim como Hitler, Mussolini e Pol Pot este também verá que o abuso de poder cobra um preço bem alto.

Eu aposto como ainda veremos nossos projetos de ditador virados de cabeça para baixo….

Deixe um comentário

Arquivado em Política

Humanidade

Quando dona Marisa morreu, o ministro todo-poderoso do STF Gilmar Mendes ligou para Lula e chorou ao falar com ele. Foi nesse momento que Gilmar se deu conta do grande erro que havia cometido. No enterro da esposa de Lula estavam presentes todos os oponentes políticos do ex-presidente, de Sarney a FHC. A morte nos iguala e, de uma certa forma, nos humaniza. A tristeza por uma grande perda nos une e congrega.

Lembro agora da confraternização de Natal entre os soldados ingleses e alemães emergindo das trincheiras lamacentas para celebrar a esperança no fim da guerra. Naqueles momentos eles se sentiam todos iguais, a despeito de suas fardas, suas armas, suas diferenças e suas visões de mundo. Ali, em meio à barbárie, brotava a flor tímida da humanidade, em meio aos escombros de uma guerra brutal.

Quando ocorreu o desastre da Boate Kiss, Dilma chorou, abandonou às pressas um encontro no exterior e foi oferecer sua solidariedade às vítimas. Também chorou na tragédia de Realengo, assim como tantos outros estadistas hoje igualmente choram ao anunciar as mortes pela pandemia do Corona. Bolsonaro limita-se a produzir risadas histriônicas de sua claque ao dizer “E daí?”.

Bolsonaro disse que Dilma deveria sair, “de câncer, de infarto, de qualquer forma”. Sequer o seu sofrimento como sobrevivente de um câncer, ou o seu martírio como torturada pela ditadura, produziram nele uma simples atitude de respeito. Pior ainda; exaltou o torturador responsável pelas atrocidades cometidas contra ela. Agora, em nenhum momento surgiu deste homem qualquer sinal de compaixão diante das mortes pelo Covid19. Nem mesmo uma palavra de conforto ou de empatia; apenas desprezo e escárnio.

Não se trata de acreditar que Bolsonaro é “direto”, “grosso”, “verdadeiro” ou “sincero”. Não, ele é apenas a negação da vida, a rejeição aos valores humanos e a exaltação do fanatismo mitômano.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Política

Forbes

Mas… o que significa ser “bem-sucedida”? Ser rica e merecer estar no Panteão da Forbes significa sucesso? É assim que se mede o valor de um ser humano? O dinheiro continua sendo nossa medida?

Os homens que mudaram a história do mundo não estiveram na capa dessa revista. Quanto à Emma Watson, não sei se deveria estar na Playboy, mas certamente não na Forbes. Talvez seria melhor não ser de nenhuma delas. A capa da Forbes está cheia de capitalistas escrotos que estão se lixando para o planeta. Exploradores do trabalho, insensíveis e dinheiristas. Mulheres fariam melhor traçando um caminho diverso do caminho errado que os homens percorreram. Ou então… qual a vantagem trocar um capitalista destruidor do planeta por uma mulher que comete os mesmos erros?

Se o futuro é para ser feminino, que se afaste dos erros que o masculino cometeu.

“A revolução será feminina ou não será”. Posso ser criticado por acreditar no que as próprias mulheres disseram?

Para quem ama o capitalismo e a miséria que ele dissemina a imagem de mulheres milionárias na capa de uma revista de magnatas estará absolutamente certa e coerente. Entretanto, estarão errados e frustrados todos os que creditaram que as mulheres – representantes do feminino – teriam algo de novo a apresentar. Não… o que está capa propõe é a continuidade da miséria, da iniquidade, da concentração de riqueza, da destruição da natureza, da segregação social, das castas estanques e do egoísmo que a Forbes representa. Nesse contexto, colocar uma mulher na Forbes é garantir o direito a uma mulher de pilotar o avião que está caindo.

Repetindo: “A revolução será feminina ou não será”, não era essa a tese? Margareth Thatcher representou um avanço nas propostas de renovação do planeta? Ou ela apenas colocou saias num projeto neoliberal que os homens – como Reagan e Pinochet – levavam adiante?

Minha tese é simples: se o feminino representa o “novo” no cenário do planeta, então deveria fugir dos velhos modelos masculinos de poder, afastar-se da expressão fálica de opressão e construir algo realmente transformador. Colocar mulheres na capa da Forbes significa a “troca das moscas”, mais charmosas e delicadas – por certo – mas circulando sobre a mesma merda de iniquidade, violência, opressão e exploração que foi a face no nosso planeta nos últimos milênios.

* a foto é da atriz Emma Watson, de “Harry Potter”… ela não deveria ser capa da Forbes.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Política

Monstros

É claro que não gostei da indicação do novo Ministro da Saúde, o Dr. Nelson Teich, e tenho várias queixas à sua postura ética diante dos dilemas da medicina. Entretanto, a publicação de uma entrevista com a filha de uma ex paciente sua – que faleceu de câncer – chamando-o de “monstro” é a pior forma de jornalismo que existe. Oportunista, desonesta e sensacionalista. A imprensa independente deveria ser o exemplo de ética jornalística e não repetir o erros do jornalismo corporativo.

Esse tipo de entrevista com familiares de pacientes terminais é pura desonestidade. A morte de um ente querido – e as emoções que a envolvem – nos fazem perder a noção adequada da realidade. Os médicos que lidam com essas situações – em especial os oncologistas e médicos de UTI – jamais dirão as palavras que os pacientes querem ouvir. Se ele for positivo e otimista será acusado de “enganar a família com falsas esperanças”. Se ele disser o que está ocorrendo com frieza e realismo será chamado de “monstro insensível”. Minha experiência com essa questão é de que não há saída. O médico pode controlar o que vai falar em uma situação trágica como a morte de um paciente, mas jamais poderá controlar como o familiar recebe a mensagem e nem como vai reagir diante de seus próprios sentimentos diante dessa perda.

Em momentos de dor o sentimento preponderante é a culpa. Culpa por não ter sido bom marido, bom filho, boa esposa, bom amigo, etc. Observe: as pessoas mais agressivas e fora de controle num enterro são os parentes mais distantes e com a relação mais conflituosa com o falecido. São essas pessoas que frequentemente desviam suas culpas – reais ou imaginárias – para a figura do médico, imaginando assim diminuir a sua carga. Por essa razão as declarações de parentes de pacientes são envolvidas em paixões e carecem de racionalidade e valor absoluto. Não há dúvidas que existem falhas, por vezes grosseiras, por parte dos médicos atendentes, mas essa culpa jamais será estabelecida escutando apenas a voz de uma familiar diretamente envolvida.

Publicar esses depoimento carregados de mágoa é desonesto, um ataque baixo e que demonstra uma falha ética do veículo de imprensa.

Deixe um comentário

Arquivado em Política

A Paixão de Cristo

A sexta feira é da PAIXÃO!!!

Sim, da paixão, essa chama indócil que nos arremessa para destino incerto, mas sempre em direção à vida. A força motriz de toda realização humana, o motor de nossas ações, das mais nobres às mais brutais, mas que “desacata a gente, que é revelia“. A paixão que nos mostra o que, em verdade, é ser humano.

“Paixão” deriva de passus, particípio passado de patī “sofrer”, é um termo que designa um sentimento muito forte de atração por uma pessoa, objeto ou tema. A paixão é intensa, envolvente, um entusiasmo ou um desejo forte por qualquer coisa. Mas para entender a “sexta feira da paixão” é preciso aceitar que a paixão de Cristo ultrapassava os limites do mero objeto de desejo, e se espalhava por todo o seu povo, na sua busca por igualdade, justiça social e autonomia.

O Jesus que eu conheço é o Messias, o ungido, o escolhido para liderar seu povo para a liberdade. O Cristo que enfrentava os senhores da lei, o mesmo que chicoteou os vendilhões do templo e aquele que deixou claro que veio trazer a espada, não a paz. O Jesus ativista, líder dos explorados. O Mestre corajoso, que entregou-se com bravura aos seus algozes por amor aos seus ideais. Um Jesus de coragem, fibra, destemor e LUTA.

Esse Messias é agora esquecido, em nome de um líder cheio de amor e paz. Um Jesus domado, constrangido, bonzinho, que coloca criancinhas no colo. Um Messias para os opressores, loiro e de olhos azuis. Um Jesus que se mesclou com os poderosos para ser aceito, a ponto de perder sua face revolucionária. Um Cristo para o paladar dos conservadores. Vendido por Paulo aos romanos, virou a imagem da docilidade, da submissão, do amor incondicional e da bondade, mas sua origem miserável, rodeado por analfabetos, pescadores, prostitutas e ladrões nos mostra que ele era do povo, da luta, da navalha e do confronto. Sua paixão era pela liberdade.

Que a nossa paixão seja pela mudança, pelo enfrentamento e pela consciência de classe. Não podemos permitir que o legado de um marceneiro negro, oprimido pelo poder absoluto e despótico de Roma seja transformado na imagem do cordeirinho loiro e bonzinho que aceita a iniquidade, as injustiças, o racismo e a violência sem reclamar e sem esboçar reação

Não esqueçamos que não é hora de chorar.

“Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.”

(Ijuca pirama – Gonçalves Dias)

Era a poesia que minha mãe recitava quando eu era menino…

FELIZ SEXTA FEIRA DA PAIXÃO…

Deixe um comentário

Arquivado em Política