Arquivo da categoria: Violência

Pena Capital

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Estudos comprovam que esse chip não reduz estupro ou assassinato, principalmente porque insistem em colocá-lo apenas na cabeça de negros e pobres. Antes que possamos nos dar conta esta sociedade formadora de delinquentes rapidamente os substitui por outros. Portanto, colocar esse chip só se presta para o sadismo branco de classe media, e não para resolver o problemas que nossa sociedade doente cria.

Mas o que esse “chip” é capaz de resolver?

Resolve apenas nosso estúpido desejo de vingança. O Brasil é um dos países mais violentos do mundo, onde a pena de morte no mundo do tráfico existe desde sempre. No mundo do jogo do bicho também era assim, lembram? E qual o resultado? Paz entre as facções? Menos mortes?

Pelo contrário. A pena de morte nunca diminuiu crimes graves ou contra a vida. Pena capital é comprovadamente incapaz de fazer decrescerem estas cifras. Responder assassinatos ilegais com assassinatos legais nunca solucionou o problema da criminalidade. Essa prática só produz o efeito pessoal de vingança que muitos veneram. Pior… estimula uma espécie abjeta de sadismo regulamentado, vil e medieval

Afinal, que diferença faz se o assassino não for mais este e for outro? Que diferença faz para o morto ou para a sociedade QUEM matou? Precisamos estancar a hemorragia e não ficar fazendo curativos tolos e ineficazes. Entretanto, é sabido que só se interrompe a sangria com equidade social, justiça, inclusão, igualdade de gênero, respeito às minorias, distribuição de renda, acesso à escolas e Universidades, política de cotas etc…. essa agenda “comunista” que os conservadores detestam. Isso, como bem sabemos, é insuportável para a casta que se acostumou com a “paz entre as classes” e o preço baixo da mão de obra que mora na senzala e trabalha por comida.

Pois eu aviso, irmãos, que sem abrir mão de nossas vantagens brancas e de classe continuaremos sendo vítimas da criminalidade crescente e matando pobres indiscriminadamente, pois é injusto pedir que os miseráveis se conformem eternamente com sua condição e aceitem os privilégios que nós tentamos desesperadamente naturalizar.

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Apartheid

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Para alguns é difícil compreender a diferença entre racismo institucionalizado e racismo como excrescência cultural. É realmente difícil explicar isso para quem se nega a enxergar a potência de uma norma institucional. Para muitos a promulgação da Lei Áurea não precisava ter acontecido, e poderíamos ter banheiros, escolas, cinemas e ônibus separados para brancos e pretos, afinal… não faz diferença alguma se estiver na lei ou nos costumes, não é?

Para estes mesmos, a luta de Martin Luther King foi inútil porque a polícia americana continua matando mais negros do que brancos. Portanto, se o racismo existe, porque não regulamentá-lo? (entendam a ironia, pelo amor de Deus)

Mandela? Pffff… um inútil idiota. Afinal, para que toda a sua luta, que consumiu uma vida inteira, para acabar com o racismo se a economia ainda hoje continua na mão dos brancos africaners?

Muitos, municiados por estas falácias, se negam a enxergar a força simbólica das leis. Mudá-las, em direção à justiça social, é um motor poderoso na direção da paz e da equidade.

Eu fico espantado com o quanto existe de gente de bem que nunca percebeu que as leis discriminatórias produzem uma MARCA na sociedade, uma “mancha” que é muito mais grave do que a existência de uma cultura ainda discriminatória e injusta por força da inércia de seus preconceitos. Não perceber essa diferença é grave, pois produz uma equalização TOLA. “Ah, já que o Brasil é racista e os Estados Unidos também, qual o problema de criarmos leis que separam as raças?“. Ou então: “Ah, já que Israel tem Apartheid, qual o problema de fazermos isso também com nossos índios e aplicarmos um genocídio LEGAL aos povos nativos?

Não entender essa diferença é a faísca da selvageria e da brutalidade, a qual facilmente acende os piores instintos fascistas.

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Barbárie

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A barbárie não está na criminalidade em alta, nem na corrupção alastrada. Não está no golpe midiático-jurídico que ora sofremos, perpetrado pelos mesmos agentes políticos que historicamente espoliam o Brasil desde a Velha República.

A barbárie não está no Mal, já que ele é da natureza egoística humana, resquício instintual da luta pela sobrevivência. A barbárie não está nas guerras libertárias ou nas lutas e marchas pela indignação explosiva. Ela não está sequer no abuso das polícias.

De nada adianta procurá-la onde ela não está. A barbárie está dentro de cada um de nós. Ela é a complacência com o Mal, a preguiça diante do sofrimento alheio, a postura egocêntrica, o silêncio diante do arbítrio e da violência. O que é “bárbaro” é calar-se quando a selva se abate sobre nós, imaginando que nossa mudez nos trará alguma vantagem. Pior ainda é usar a voz para saudar a selvageria como se ela tivesse o poder de nos salvar.

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Crime e Castigo

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Quando vejo o ódio de algumas pessoas contra supostos corruptos, clamando por prisão para os que – ao menos aparentemente – cometeram crimes, eu lembro de uma famosa conferência de Malcolm Gladwell sobre este tema. Em sua palestra ele aborda as razões que levam um sujeito a cometer – ou não – um crime, seja uma simples sonegação de um item no imposto de renda ou mesmo um assassinato. A solução desse enigma poderá solucionar muitos problemas do convívio social e melhorar as relações do sujeito com a sociedade onde está inserido.

Por muito tempo fomos levados a acreditar que nosso barreira para cometer crimes se baseava na punibilidade. Isto é: se o risco de ser punido fosse alto isso inibiria nossa propensão a cometer crimes. Pelo contrário, se o risco fosse baixo – o que bem conhecemos como impunidade – temos um estímulo para o cometimento de delitos. Desta forma, para acabar com a criminalidade teríamos que criar mecanismos sofisticados de punição, e com isso inibir sua prática.

Com base nesse princípio foi criada, em 1993, uma lei na Califórnia chamada de “Lei das 3 etapas”. Ela previa punições crescentes para sujeitos que reincidiam em seus crimes, e na terceira etapa ocorria a prisão por no mínimo 25 anos de detenção.  Para tanto criou-se um aparato gigantesco jurídico e carcerário, consumindo milhões em impostos, objetivando exterminar a impunidade no estado mais rico da federação. Por um período específico da sua história a Califórnia teve 7 vezes mais prisioneiros do que outros estados americanos e qualquer país europeu. Nessa época um sujeito podia ser condenado a 10 anos de prisão por roubar uma fatia de pizza – e, acreditem, esse é um fato real.

O bem estar social tem seu preço, e para acabar com o crime é preciso ser duro,  certo? Com essa alta punição o resultado seria que o cidadão médio, diante do risco de ser preso, não cometeria mais delitos. Esse seria o fim da impunidade, pela mão pesada da lei. Cadeia, punição, severidade levando ao fim da impunidade.

Certo?

Errado. A “Lei das 3 etapas” foi um retumbante fracasso. O declínio da criminalidade na Califórnia observou o mesmo declínio de outras unidades federativas dos Estados Unidos que não fizeram absolutamente nada para aumentar a punibilidade dos crimes. Milhões foram gastos em prisões, polícia, juízes, advogados e todo o aparato burocrático para não se observar nenhuma diferença com os lugares que nada fizeram, isso sem mencionar as vidas que foram destruídas por punições aplicadas com demasiada severidade diante de delitos insignificantes.

A tese do “crime causado pela impunidade” caía por terra. Não é o medo de ser punido o principal fator que nos impede de cometer delitos. Existe algo bem mais significativo.

A resposta está na “Legitimidade”.

O fracasso do modelo punitivo foi uma grande lição para nossa ciência criminal. O aumento – absurdo – das penas não diminuiu a propensão ao crime como se esperava. Se pode funcionar para alguns indivíduos não vale como regra geral a ponto de produzir estatísticas que comprovem sua validade. Foi um erro que custou milhões ao cofres americanos e  impôs um sofrimento inaceitável a muitos cidadãos.

Infelizmente esse conhecimento ainda não foi plenamente disseminado para ser incorporado como uma verdade social. A “Guerra ao Terror” e as ações de retaliação contra grupos extremistas, como forma de punir atos “terroristas”, jamais produziram o resultado desejado e adicionaram lenha e combustível à frágil geopolítica do Oriente Médio.

Mas o que nos faz deter a criminalidade? O que pode nos oferecer uma esperança de sair à rua sem correr o risco de sermos roubados ou mesmo mortos? Certamente que punir os crimes não pode ser negligenciado, mas acreditar que essa é a resposta mostrou-se um sonoro equívoco.

A possível solução para esta questão está no sentimento de legitimidade. A legitimidade se divide em 3 aspectos: Respeito, Justiça e Confiança.

Respeito é quando o sistema que lhe julga escuta suas explicações  e respeita  seu ponto de vista. Você vai ser levado em consideração e será ouvido como pessoa e cidadão.

O segundo elemento, a Justiça, é quando você percebe que o sistema que lhe julga é justo, e que você será julgado como qualquer outra pessoa, mesmo sendo pobre, negro, imigrante, homossexual, ativista do parto humanizado ou participante de qualquer outra minoria social.

O terceiro aspecto é a Confiança. Ela aparece quando o sistema inspira segurança e você tem a certeza de que as leis não vão mudar da noite para o dia, quando uma “pedalada” passará a ser crime – mas somente agora – quando um sítio de meia pataca vale mais do que um apartamento em Paris, quando os seus erros são mais importantes e graves do que os mesmos que são cometidos por outros. Sem a confiança na imparcialidade do sistema ele jamais será legítimo.

Agora pensem no conceito de legitimidade composto por Respeito, Justiça e Confiança e adaptem para o cidadão da nossa sociedade contemporânea cruel e desigual. Como um negro oriundo de uma favela se sente diante desse modelo social? Ele enxerga Respeito?  Acredita que será ouvido por quem o julgar? Ele acredita que a Justiça será feita, sabendo das fundações racistas e elitistas de nossa sociedade e nossas leis? E sobre a Confiança? Confiará que as leis são aplicadas de forma igual para todos? Um jovem negro de periferia, ao saber que 70% da massa carcerária é composta de negros e pardos irá confiar na imparcialidade do sistema judiciário? Um médico que vê a perseguição aos que lutam contra o abuso de cesarianas pode confiar num sistema que somente beneficia os que exageram no bisturi?

A resposta provável é …. não.

Somente a LEGITIMIDADE das instituições poderá fazer uma sociedade menos violenta. Isso vale para o a sociedade em geral,  mas também para a solução de conflitos como aqueles do Oriente Médio. A busca de legitimidade é uma construção social lenta e custosa, mas é a única forma consistente de criar um sistema justo e coerente para todos nós. Só obedecemos as leis quando elas nos parecem legítimas: respeitosas, justas e confiáveis.

Punir já se mostrou inadequado com as crianças, então por que deveria ser o modelo pedagógico social por excelência para os adultos?

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Os Estupros

Violence victim

Fiquei sabendo agora de um “estupro coletivo” no Rio de Janeiro que, não bastasse a violência absurda e desumana, ainda serviu como objeto de espetacularização pelas redes sociais. Não por acaso, numa sincronicidade diabólica, Alexandre Frota faz uma visita ao Ministro da Educação levando a ele propostas para o ensino no Brasil. Lembrem que o “muso do impeachment” é também responsável por uma performance num programa de TV (de Rafinha Bastos, o mesmo que “comeria ela e o bebê”) em que relata um estupro a uma mulher Mãe de Santo que o estava atendendo. Depois disse que se tratava de um número de Stand Up, mas isso é irrelevante diante da gravidade de tratar estupro como brincadeira, banalizando a violência.

Eu ouso pensar que o estupro cometido tem a ver com o profundo mal que o golpe produziu no imaginário do país. A sensação que tenho é que as pessoas perderam a confiança na justiça e no judiciário. A mesma justiça que perde meses (e milhões) investigando barquinhos de lata e negligencia investigar a fundo um helicóptero cheio de pasta de cocaína não pode exigir que confiemos nela. O STF foi acusado de participação EFETIVA e DIRETA no complô para a derrubada do governo. As gravações comprometendo Jucá, Renan e Sarney estavam em sua posse desde março; foram escondidas para permitir o golpe. O juiz Moro mostrou dureza e inexorabilidade seletiva, e apenas contra o PT, durante todo o curso da Lava Jato, e quando da queda de Dilma pediu o “desarmamento dos espíritos”.

Quando o povo se dá conta que os magistrados são indignos de confiança percebem que não há valor algum em se comportar dentro da lei. Por isso a sensação de impunidade de quem comete atos hediondos. “Se o Alexandre Frota pode contar isso na TV como brincadeira, por que não podemos também?”

As mulheres, foco do desejo masculino e signo de poder para quem as possui, sempre serão as primeiras sacrificadas em um mundo sem lei. No livro “Ensaio sobre a Cegueira” do escritor português José Saramago, a primeira coisa que ocorre quando se instala o caos de um mundo às escuras e sem controle foi o domínio sobre as mulheres, que leva naturalmente à violência e ao estupro.

Quando se destroça a força simbólica da lei os mais frágeis são os primeiros a sucumbir.

Não, eu me nego a ver como coincidências estes eventos. Quando a LEI se apaga e a justiça não parece se fazer, surge em todos o espírito da selva, onde a ordem é matar ou morrer.

Os estragos sociais de uma quebra jurídica abjeta e criminosa como a que testemunhamos vão se estabelecer em todos os níveis das relações pessoais, pois que os valores que foram desrespeitados são da ordem básica das relações sociais.

Triste dia em que apologistas do estupro tem voz na educação de um país. O resultado é a banalização do crime mais antigo, mas ainda presente na comunidade humana.

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Polícia, para quê polícia…

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“Sempre que a resposta das forças públicas se aproxima da selvageria que tenta combater é o momento de questionar se, para confrontar bandidos, não estamos ficando parecidos demais com eles.”

Com essa lógica do “bandido bom é bandido morto” não é possível debater. Mas o resultado óbvio desse das ações brutais de uma polícia que JULGA quem merece ou não viver é que um criminoso não terá nenhuma razão para se entregar daqui para diante. Se for oferecida a ele uma chance de desistência ele vai negar, e combaterá até a morte, pois sabe que os policiais não são dignos de confiança.

O mesmo aconteceu no ônibus 174 no Rio: uma execução de alguém desarmado e indefeso. “Ah, mas ele sequestrou pessoas”. Não importa, não cabe à policia julgar. Aqui em Porto Alegre houve o “Caso do Homem Errado”, também executado pela polícia, ou o menino que levou um tiro de um brigadiano em Novo Hamburgo. E o caso Amarildo no Rio?

Casos assim vai aos poucos deixando a polícia com cara de bandida. Mas tudo bem… são bandidos que estão do nosso lado, certo? Errado… quando esse poder não tem limites na lei o resultado é o autoritarismo e por eles todos pagam. Mais cedo ou mais tarde.

Hoje mesmo muitas associações saíram em defesa dos policiais envolvidos, e fiquei sabendo que foram inclusive homenageados (o que em outro país seria absurdo). Eu também defendo os policiais militares porque reconheço a bravura e a coragem que eles tem para defender a sociedade, mas acho extremamente perigoso quando pessoas acham uma execução a coisa mais normal do mundo. Ninguém quer morrer por bandidos, e ninguém defende que policiais não reajam, mas para isso existem regras e protocolos a serem seguidos. Atirar num sujeito desarmado, à queima roupa, com as mãos atrás da cabeça ultrapassa todos os limites de civilidade. Creio que a sociedade deveria se questionar sobre os limites da ação da polícia, sob pena de criar uma policia “acima da lei”.

“Cria cuervos y ellos te comen los ojos”

Por isso eu acho que as ações policiais, mesmo quando são praticadas para nos defender e tem sucesso, não podem extrapolar os limites legais. Não podemos nos associar à barbárie. Duvido que um comandante de qualquer polícia discorde do que eu disse. Pode até não agir assim, mas concorda. Discordar disso é oferecer às forças policiais a autoridade para julgar quem deve e quem não deve sobreviver aos confrontos. E isso é inaceitável em uma democracia.

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Esquerda caviar

Marx

Critica interessante: “Golpe é a CUT usar dinheiro dos trabalhadores para fazer manifestações, enquanto a esquerda caviar não se importa com o golpe que o governo atual deu nos pobres”

Mas então eu pergunto: a CUT deveria usar o dinheiro de QUEM para defender os trabalhadores?????? Quem são os que acusa de serem “esquerda caviar”? Talvez esteja se referindo às pessoas de classe média (como eu) que pensam além do próprio umbigo e lutam para que TODOS tenham uma vida digna, e não apenas seu pequeno círculo de amigos ou sua corporação. Além disso, o governo pode ter cometido erros (mas duvido que saiba apontá-los e oferecer-lhes alternativa), porém não serão resolvidos com um golpe de estado promovido por notórios corruptos.

Admita: nunca foi a corrupção e lhe mobilizar a indignação. O que lhe dói, machuca e indigna é o fato de que sua sensação de riqueza e superioridade de classe se desmancha quando os pobres dividem uma fila de aeroporto ou a sala de classe de uma Universidade. Como disse Danuza Leão “Paris perdeu a graça quando o porteiro do meu prédio também viajou para lá”, e o fim dessa exclusividade de classe é percebida como uma perda.

Não, não é a corrupção que os escandaliza. É a própria democracia e sua incipiente conquista de equidade o que tanto horroriza uma classe média que se julga superior.

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O parto de quem?

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A foto é de inegável mau gosto, mas não acho que se pode ir muito além disso do ponto de vista médico. Não vejo risco para a criança. A foto é uma brincadeira, mas prefiro analisar o que existe por trás dela, que me parece muito mais revelador do que a simples imagem de médicos sorridentes e um bebê desconfortável.

Esta fotografia revela um conteúdo psicológico inconsciente bem claro: o parto foi “feito” por eles, os médicos. O bebê é um produto do seu trabalho, sua técnica e sua arte. A foto escancara a expropriação do nascimento, passando em poucas décadas das mãos das mulheres para as luvas estéreis dos cirurgiões. O nascimento humano deixou de ser um evento feminino para ser um processo controlado e dominado pela medicina, desconsiderando toda a construção histórica de sua adaptação.

A mulher, por certo, não cabe nessa foto. Ela é a inerme Bela Adormecida, dormindo o longo sono do patriarcado, objetualizada e imóvel. Para que ela possa existir é necessário que seja acordada (a cortada), mas não pela sua vontade e desejo, mas pelo beijo (bisturi) salvador de quem a resgata da crueldade de uma natureza madrasta.

A foto expõe de forma muito didática que o nascimento contemporâneo delegou a mulher a uma postura secundária e coadjuvante. O que outrora foi o maior e mais honrado desafio feminino hoje não passa de uma encenação na qual seu papel é cada vez menor.

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Violência banalizada

Violencia obstetrica

Sobre a carta da jovem estudante de medicina:

O que foi descrito por ela, com indignação e horror, é o dia a dia de QUALQUER obstetra que trabalha em serviço público, em especial nos hospitais universitários. Infelizmente esta cena é extremamente comum em todos os serviços do país. É assim que acontece, e nosso espírito se endurece diante dessa violência. Hanna Arendt chamava de “banalização do mal”, que é quando a brutalidade e a desumanização passam a ser a forma natural de convivência entre as pessoas.

Muitos profissionais, quando confrontados com estas imagens não conseguem entender o quão agressivas elas, em verdade, são. “Como assim, vai negar a importância da oxitocina? O que, vai permitir que a paciente controle o seu trabalho? Sim, episiotomia; existem trabalhos na Escandinávia que justificam o uso. É lógico que rompi a bolsa; queria apressar o parto e ver a cor do líquido. Claro que usei o fórceps, mas foi para salvar a criança!! Queria que eu operasse? Não foi Kristeller, foi uma pequena pressão para ajudar a mãe; ela estava fazendo a força errada.”

A violência banalizada no parto se torna invisível. A arrogância profissional é o idioma natural em um clima de pressão e medo. Os profissionais largamente treinados na lógica médica da intervenção se tornam incapazes de enxergar a fisiologia de um nascimento.

A mirada etiocêntrica na qual fomos doutrinados e treinados, através das medidas intervencionistas “salvadoras”, por fim obscurecem a trilha milenar que nossa espécie trilhou para se adaptar aos múltiplos desafios a ela interpostos. A visão defectiva da mulher, e a ideia construída de sua incompetência essencial, nos oferecem a perfeita tela sobre a qual colocamos as tintas da violência. Afinal, “mãezinha”, é para o seu próprio bem. “Não vai querer prejudicar seu bebê, não é?”

A novidade no cenário do nascimento é que agora as pessoas começam a reconhecer tais atitudes e condutas como violência. Homens e mulheres conseguem perceber os abusos quando acontecem, não só na atenção ao parto como antes dele, nas indicações absurdas de cesarianas sem qualquer indicação clínica.

Como sempre cabe uma ressalva, para não municiar os que desejam olhar para trás e manter o parto como uma violência institucional que não pode ser questionada. Existe espaço, sim, para as intervenções em medicina, sem as quais seríamos meros objetos dos caprichos da natureza. Nossa crítica é apenas contra os ABUSOS e as práticas defasadas e, principalmente, quando as mulheres não tem o direito de escolha sobre qualquer procedimento no seu corpo

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Estupro

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Um tema delicado: o estupro.

Há uma ideia arraigada de que as lésbicas são uma espécie de “troféu” masculino, ao estilo “vou fazer ela gostar de homem depois que me conhecer”. Existe um documentário muito bom – apesar de brutal – sobre estupros no exército americano. Seu nome é “Invisible War“, do diretor Kirby Dick, e ele revela dados assombrosos e impressionantes: tomando como base apenas o ano de 2009, cerca de 16.150 mulheres foram violentadas sexualmente durante o serviço militar nos Estados Unidos. Ao longo dos anos são mais de MEIO MILHÃO de casos de estupro, o que equivale a quase metade do total de jovens que já serviram.

É claro que existem muitas mulheres que procuram as forças armadas por serem homossexuais e se identificarem com as atividades mais tradicionalmente masculinas que lá se realizam. Essas mulheres são o alvo principal dos abusadores. Em situação de confinamento, como bases militares distantes e isoladas, muitas delas são violentamente abusadas, não apenas por serem mulheres e estarem “à disposição”, mas também pela sua orientação sexual, que para muitos homens é vista como um desaforamento (como assim não se interessa por homem?) ou como desafio (depois que eu te pegar vais passar a gostar).

O resultado é catastrófico por duas razões: a violência em si e a total impunidade dos agressores, por se tratar de uma organização fechada como o exército americano, onde uma acusação de abuso contra um oficial vira um caso de segurança nacional.

As violações na famigerada prisão de Abu Ghraib no Iraque só vieram a público quando era impossível esconder as torturas e os abusos (um soldado fotografou e as fotos vazaram), e na torrente de acusações de violações graves de direitos humanos que se seguiram apareceram vários relatos de estupro de soldadas cometidos por oficiais em comando. Por aí se pode avaliar como funciona o sistema opressor contra as mulheres nas forças armadas e a total incapacidade do sistema em dar conta das acusações, em especial pelo machismo arraigado destas instituições, talvez o último bastião do patriarcado.

No fim, tudo vira pizza…

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