Arquivo da categoria: Violência

O parto de quem?

Médicos selfie

A foto é de inegável mau gosto, mas não acho que se pode ir muito além disso do ponto de vista médico. Não vejo risco para a criança. A foto é uma brincadeira, mas prefiro analisar o que existe por trás dela, que me parece muito mais revelador do que a simples imagem de médicos sorridentes e um bebê desconfortável.

Esta fotografia revela um conteúdo psicológico inconsciente bem claro: o parto foi “feito” por eles, os médicos. O bebê é um produto do seu trabalho, sua técnica e sua arte. A foto escancara a expropriação do nascimento, passando em poucas décadas das mãos das mulheres para as luvas estéreis dos cirurgiões. O nascimento humano deixou de ser um evento feminino para ser um processo controlado e dominado pela medicina, desconsiderando toda a construção histórica de sua adaptação.

A mulher, por certo, não cabe nessa foto. Ela é a inerme Bela Adormecida, dormindo o longo sono do patriarcado, objetualizada e imóvel. Para que ela possa existir é necessário que seja acordada (a cortada), mas não pela sua vontade e desejo, mas pelo beijo (bisturi) salvador de quem a resgata da crueldade de uma natureza madrasta.

A foto expõe de forma muito didática que o nascimento contemporâneo delegou a mulher a uma postura secundária e coadjuvante. O que outrora foi o maior e mais honrado desafio feminino hoje não passa de uma encenação na qual seu papel é cada vez menor.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto, Violência

Violência banalizada

Violencia obstetrica

Sobre a carta da jovem estudante de medicina:

O que foi descrito por ela, com indignação e horror, é o dia a dia de QUALQUER obstetra que trabalha em serviço público, em especial nos hospitais universitários. Infelizmente esta cena é extremamente comum em todos os serviços do país. É assim que acontece, e nosso espírito se endurece diante dessa violência. Hanna Arendt chamava de “banalização do mal”, que é quando a brutalidade e a desumanização passam a ser a forma natural de convivência entre as pessoas.

Muitos profissionais, quando confrontados com estas imagens não conseguem entender o quão agressivas elas, em verdade, são. “Como assim, vai negar a importância da oxitocina? O que, vai permitir que a paciente controle o seu trabalho? Sim, episiotomia; existem trabalhos na Escandinávia que justificam o uso. É lógico que rompi a bolsa; queria apressar o parto e ver a cor do líquido. Claro que usei o fórceps, mas foi para salvar a criança!! Queria que eu operasse? Não foi Kristeller, foi uma pequena pressão para ajudar a mãe; ela estava fazendo a força errada.”

A violência banalizada no parto se torna invisível. A arrogância profissional é o idioma natural em um clima de pressão e medo. Os profissionais largamente treinados na lógica médica da intervenção se tornam incapazes de enxergar a fisiologia de um nascimento.

A mirada etiocêntrica na qual fomos doutrinados e treinados, através das medidas intervencionistas “salvadoras”, por fim obscurecem a trilha milenar que nossa espécie trilhou para se adaptar aos múltiplos desafios a ela interpostos. A visão defectiva da mulher, e a ideia construída de sua incompetência essencial, nos oferecem a perfeita tela sobre a qual colocamos as tintas da violência. Afinal, “mãezinha”, é para o seu próprio bem. “Não vai querer prejudicar seu bebê, não é?”

A novidade no cenário do nascimento é que agora as pessoas começam a reconhecer tais atitudes e condutas como violência. Homens e mulheres conseguem perceber os abusos quando acontecem, não só na atenção ao parto como antes dele, nas indicações absurdas de cesarianas sem qualquer indicação clínica.

Como sempre cabe uma ressalva, para não municiar os que desejam olhar para trás e manter o parto como uma violência institucional que não pode ser questionada. Existe espaço, sim, para as intervenções em medicina, sem as quais seríamos meros objetos dos caprichos da natureza. Nossa crítica é apenas contra os ABUSOS e as práticas defasadas e, principalmente, quando as mulheres não tem o direito de escolha sobre qualquer procedimento no seu corpo

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Violência

Estupro

20160113_22_37_39

Um tema delicado: o estupro.

Há uma ideia arraigada de que as lésbicas são uma espécie de “troféu” masculino, ao estilo “vou fazer ela gostar de homem depois que me conhecer”. Existe um documentário muito bom – apesar de brutal – sobre estupros no exército americano. Seu nome é “Invisible War“, do diretor Kirby Dick, e ele revela dados assombrosos e impressionantes: tomando como base apenas o ano de 2009, cerca de 16.150 mulheres foram violentadas sexualmente durante o serviço militar nos Estados Unidos. Ao longo dos anos são mais de MEIO MILHÃO de casos de estupro, o que equivale a quase metade do total de jovens que já serviram.

É claro que existem muitas mulheres que procuram as forças armadas por serem homossexuais e se identificarem com as atividades mais tradicionalmente masculinas que lá se realizam. Essas mulheres são o alvo principal dos abusadores. Em situação de confinamento, como bases militares distantes e isoladas, muitas delas são violentamente abusadas, não apenas por serem mulheres e estarem “à disposição”, mas também pela sua orientação sexual, que para muitos homens é vista como um desaforamento (como assim não se interessa por homem?) ou como desafio (depois que eu te pegar vais passar a gostar).

O resultado é catastrófico por duas razões: a violência em si e a total impunidade dos agressores, por se tratar de uma organização fechada como o exército americano, onde uma acusação de abuso contra um oficial vira um caso de segurança nacional.

As violações na famigerada prisão de Abu Ghraib no Iraque só vieram a público quando era impossível esconder as torturas e os abusos (um soldado fotografou e as fotos vazaram), e na torrente de acusações de violações graves de direitos humanos que se seguiram apareceram vários relatos de estupro de soldadas cometidos por oficiais em comando. Por aí se pode avaliar como funciona o sistema opressor contra as mulheres nas forças armadas e a total incapacidade do sistema em dar conta das acusações, em especial pelo machismo arraigado destas instituições, talvez o último bastião do patriarcado.

No fim, tudo vira pizza…

Deixe um comentário

Arquivado em Violência

Holocaustos

É inacreditável o que está acontecendo na Cisjordânia. Colonos sionistas celebrando um casamento com cartazes mostrando um bebê queimado vivo em um ataque a uma vila palestina. Mas não foi um vídeo secreto que “vazou” para a Internet; foram imagens divulgadas abertamente pelos sionistas, orgulhando-se de suas ações assassinas.

Sempre tive essa curiosidade quando via filmes sobre o holocausto judeu na Alemanha nazista. Lembro de perguntar ao meu pai que, mesmo sendo um adolescente na época da guerra, foi contemporâneo das atrocidades na Europa. Ele me dizia que aqui não se sabia o que estava acontecendo com os judeus. Tudo que estava acontecendo nos campos de batalha foi conhecido muito tempo depois.

“Mas lá eles sabiam. Por que nada fizeram? Por que não impediram Hitler quando estava clara a sua perseguição a um povo?” perguntava eu, ingenuamente.

Eu tive que viver meio século para saber a resposta. O mesmo ocorre agora em Israel com relação aos palestinos, onde a população palestina é massacrada por fanáticos sionistas, e o mundo inteiro cruza os braços diante da barbárie.

O que me deixa mais envergonhado é saber do apoio dos grandes grupos evangélicos, os sionistas cristãos, a esse crime contra a humanidade. Edir Macedo e seu exército de seguidores idiotizados também são responsáveis pelas mortes e torturas. Os governos americanos, grandes financiadores de Israel, são os maiores culpados, mas o silêncio de cada cidadão do mundo é responsável pela destruição sistemática e insidiosa da Palestina.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Palestina, Violência

Abelhas

mulher-chata1

Não acho justo que pessoas se acomodem aos seus velhos conceitos e depositem placidamente suas bundas em zonas de conforto. Eu não tenho medo de abelhas, portanto não fujo dos abelheiros. Acho importante estimular pensamento crítico e o respeito pelo contraditório, caso contrário seremos apenas depósitos ambulantes de clichês e preconceitos. Toda a minha formação médica foi recheada de tabus. Não se critica HIV, vacinas, remédios, hierarquia médica, etc. Ao meu redor eu via uma tendência a não questionar o socialismo, o mercado, a família, Jesus e o feminismo. Nunca aceitei e estou velho demais para me tornar um “concordino“.

Minhas críticas são, entretanto, no profícuo terreno das ideias. Não combato pessoas e sim propostas, modelos, sistemas e paradigmas. Tanto quanto os homens não são o problema do machismo (apesar de estarem nele envolvidos) também os médicos não são o problema na obstetrícia. Ambos são vítimas de SISTEMAS de poder, nominalmente o patriarcado e a tecnocracia, mas a mudança desses sistemas de forças não se dará tolamente eliminando (ou acusando de forma leviana) médicos e homens, mas mudando de tal forma a cultura que esses modelos serão rejeitados por não satisfazerem mais as aspirações de todos.

Para que isso possa ocorrer é preciso que alguns levem adiante essas propostas, mas exercendo sem tréguas uma autocrítica severa, sob pena de trocarmos um sistema envelhecido e anacrônico por outro, apenas com roupagem diversa.

Sobre essa questão li o texto de uma feminista que escreve na “Folha de São Paulo”, a qual é vista por algumas feministas como uma voz moderada, enquanto outras a enxergam como traidora. Aliás, nada mais natural que isso ocorra…

“Um colega escritor premiado e respeitado se desesperou ao saber que, após um texto seu falando sobre admirar uma mulher bonita, sua filha sofreu bullying das coleguinhas, “seu pai é misógino”. Outro amigo, que trabalha em um prédio na Faria Lima, ficou segurando a porta do elevador, esperando uma colega de trabalho. Ela fechou o tempo com ele: “Ah, sim, porque eu não sei chamar o elevador sozinha e preciso MESMO de um homem pra me ajudar, não é?!”. Daqui a pouco “Garota de Ipanema” vai ser proibida de tocar no rádio.” (Tati Bernardi)

Há alguns anos escrevi um texto em que elogiava as pernas lindas de uma moça (sem nome ou descrição) que passou ao meu lado no aeroporto. O texto brincava com uma evidência: a crueldade divina de nos manter desejantes quando não somos mais desejáveis. A mim cabia apenas admirar e suspirar. A experiência e o tempo, senhores da existência, se agora me sonegavam a proximidade, pelo menos me permitiam a contemplação quase religiosa dos corpos travestidos de desejo.

Entretanto, a simples confissão do impacto que a morena de pernas bonitas produziu nas memórias do velho senhor acabou desencadeando um efeito destruidor por parte de muitas feministas que outrora acompanhavam meus escritos. Nutriam elas a esperança de ver em mim um “macho domesticado” que estaria ao seu dispor eternamente para ratificar sua cruzada religiosa contra o falo opressor. A cruel confissão ao reconhecer minha admiração pela beleza, pela graça e pelo inefável encanto das mulheres foi o tiro de misericórdia. Passei a ser “intragável”, “misógino” e “machista”, e mais alguns impropérios semelhantes aos que a articulista Tati Bernardi foi obrigada a suportar.

Meu crime: amar e admirar as mulheres e deixar explícita minha devoção à sua maravilhosa capacidade de nos encantar e, com isso, manter a vida florescendo.

O texto desabafo de Tati é uma espécie de lenitivo para uma ferida que eu custava a curar. Por causa de minha atitude francamente aberta em defesa do feminino (na minha concepção, passível de crítica) cometi mais de 200 bloqueios de homens e mulheres que usaram as redes sociais para me ofender e agredir, entendendo que esse assunto só pertence a uma vertente de pensamento e que qualquer elogio à mulher feito por um homem pressupõe o anúncio público e explícito de um estupro.

Agora, ao perceber que algumas mulheres (e feministas) concordam com minha tese, passo a me sentir mais tranquilo por ter clareado minha rede social de pessoas que apostam no ódio e na discórdia como modelo de conexão com o outro.

Obrigado, Tati, por dizer o que eu não poderia dizer…

Aqui está o texto original dela: Tati Bernardi: Respeite as Mulheres, sua vaca.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Violência

Palavras e Palestina

Palestinas

Minha proposta é mudar as palavras e a forma de nos reportarmos aos problemas entre israelenses e palestinos, e isso pode ser um bom começo. NÃO EXISTE “conflito” entre esses dois polos em disputa, da mesma forma como não havia conflito entre nazistas e judeus na Alemanha de Hitler. Para que haja um conflito é necessário que ocorra uma paridade relativa de forças, o que evidentemente não havia no Holocausto e também não ocorria na vigência do Apartheid na África do Sul. Os nazistas massacraram os judeus neste período negro da história, assim como a população branca sul-africana oprimiu por décadas os negros que lá viviam. A mesma situação de disparidade de forças ocorre no Oriente Médio onde um povo sem exército, sem armamento, e sem condições mínimas de vida é subjugado há 70 anos por um grupo invasor que se apossou de suas terras e tem um dos exércitos mais poderosos do mundo. Desta mesma forma, a ocupação da Palestina e o aprisionamento a céu aberto dos Palestinos em Gaza e Cisjordânia não podem se configurar “conflitos”, mas sistemas claros de opressão contra uma sociedade e um povo.

“Segundo Norberto Bobbio, pode-se definir conflito a partir de seus componentes. “Existe um acordo sobre o fato de que o conflito é uma forma de interação entre indivíduos, grupos, organizações e coletividades que implica choques para o acesso e a distribuição de recursos escassos. No caso da guerra, fala-se não do conflito pessoal, mas do conflito social.

O conflito, em algumas escolas da sociologia, é enxergado como o desequilíbrio de forças do sistema social que deveria estar em repouso, isto é equilibrado, quanto à forças que o compõe. Segundo essa teoria, não se enxerga mais o grupo como uma relação harmônica entre órgãos, não suscetíveis de interferência externa.”

O conflito pode ser compreendido como “um despertar simultâneo de dois ou mais motivos que sejam incompatíveis” (R. Minadeo) e está associado a “situações onde a capacidade da sociedade em resolvê-lo por meio de mecanismos reguladores, tais como tribunais ou estruturas sociais (por exemplo, clãs) fracassou, e as partes envolvidas no mesmo recorrem à violência.”

Veja mais aqui sobre conflitos…

Deixe um comentário

Arquivado em Violência

Grosserias perigosas

Médico brabo

Sobre as grosserias em ambientes de trabalho, em especial nos hospitais, e que colocam em risco o resultado das intervenções e a própria saúde dos pacientes…

Eu sou do tempo em que a violência e a grosseria eram o padrão dentro de blocos cirúrgicos. Tais atitudes era “elogiáveis” e bem vistas pelos estudantes, que acreditavam na sua necessidade para manter claras e transparentes as hierarquias solidamente construídas na assistência aos doentes.

Havia dois elementos preponderantes nas condutas agressivas dos médicos: o viés de gênero e o de classe social, ou “casta”. Os médicos – em especial os cirurgiões – faziam de sua prática um festival de grosserias com subalternos (estudantes, enfermeiras, auxiliares de enfermagem e limpeza) e um exercício explícito de sexismo e misoginia. Eram comuns os “chiliques” do doutor quando havia um problema qualquer durante os momentos tensos de uma cirurgia. Tesouras, pinças e afastadores voavam pela sala, assim como gritos eram disparados contra indefesas instrumentadoras e circulantes. A humilhação era conduta banalizada. As funcionárias, via de regra, se resignavam, pois qualquer reclamação era vista como insubordinação. Eu fui testemunha de suspensões e punições de técnicas de enfermagem que reclamaram quando a grosseria atingiu a sua própria honra, mas a cena comum e previsível era o choro solitário no vestiário e o silêncio mortificante.

A misoginia dos ambientes hospitalares sempre foi uma marca característica, semelhante demais com outros ambientes de confinamento social (como exército, igrejas e presídios) para não a entendermos como um elemento fundamental na criação de hierarquias rígidas e sistemas de poder baseados no gênero.

Alguns médicos mais antigos (lembrem que falo de uma realidade de três décadas atrás) justificavam sua crueldade e comportamento violento justificando que era essencial que “cada um soubesse seu lugar” ou ainda que “se elas tiverem medo de mim vão cuidar para não cometer erros“. Essa “tática de terror” sabidamente funciona em curtíssimo prazo, mas é uma tragédia quando se torna padrão de atitudes, pois fatalmente gera medo, seguido de raiva, ressentimento, rancor e mágoa. E isso pode ser trágico para o trabalho a ser realizado.

Cultivar um ambiente limpo de sentimentos negativos é tarefa muito difícil, mas as pesquisas comprovam que ele se associa a resultados melhores. Hoje em dia não vejo mais tais violências em hospital, mesmo sabendo que elas ainda existem, e fico esperançoso ao perceber que as mulheres que trabalham junto aos cirurgiões não precisam mais se esconder para chorar no escuro e podem usar de outros instrumentos para exigir o merecido respeito e consideração.

Com o tempo vamos limpando os ranços machistas e preconceituosos do trabalho sagrado de cuidar de quem sofre.

Deixe um comentário

Arquivado em Medicina, Violência

Tire o teu

tiroteio

“Muda-se a forma, mantém-se o conteúdo. As manifestações da exploração do homem pelo homem se transmutam e fantasiam, exatamente para manter sua essência intocada. O homem se disfarça, muda seus rostos e jeitos, para continuar sendo o lobo do homem”. (Max)

No meio de um cochilo aguardando minha paciente chegar acordo com uma salva de estampidos. Em alguns minutos a confirmação: tiroteio no estacionamento do hospital. Um assaltante morto e dois feridos presos. Da janela basculante envidraçada que enxerga o Guaíba consigo ver o burburinho e a ação dos policiais.

Confusão, correria, curiosidade mórbida e múltiplas versões do mesmo fato. Mas o pior são os comentários. Os da Internet eu ainda posso não ler, mas os que passam ao meu lado não posso evitar de ouvir.

Da janela do centro obstétrico podemos ver o corpo estendido no chão. “Menos um” diz um passante. “Só falta a emergência atender”, indigna-se outra, negando aos feridos qualquer migalha de comiseração. Por que será que as pessoas se amarguraram tanto nos últimos tempos? A morte de um menino é realmente algo a se comemorar?

Eu me resigno e fico quieto. Se resolver questionar as comemorações pelo óbito do qual somos todos testemunhas e cúmplices, posso acabar sendo a próxima vítima.

Tristes tempos…

PS: E depois do tiroteio nasceu Beatriz… Que venha em paz. Que não se contamine com a psicosfera carregada que hoje se abateu sobre esse lugar. Siga seu caminho cheio de luz e fuja das trevas que teimam em nos perseguir.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Violência

Uzomi

cultura-machista

Uma feminista, claramente indignada com a saída da menina do Master Chef, escreveu há algumas horas a seguinte frase: “Uzomi venceram”….

Eu sei que “uzomi” é um termo usado para identificar machistas. Sei disso… Entretanto quando um médico diz “eu fiz o parto da fulana” a gente tenta corrigir explicando que quem faz o parto é a mulher, e que essa frase carrega escondida entre as palavras uma clara expropriação de um evento sagrado como o parto por parte de quem deveria apenas garantir a sua segurança e acompanhá-lo. Pelas mesmas razões, usar “os homens” para se referir a machistas, abusadores e pedófilos nos dá a entender que a luta não é contra aqueles que naturalizam sistemas de poder e usam da força física e política para oprimir as mulheres, mas que é contra todos os homens – pelo simples fato de serem homens.

Minha crítica não tem NADA a ver com a saída dessa menina do programa, até porque eu me afasto desse assunto (abusos, pedofilia, agressões), pois me causa tristeza e raiva. A ÚNICA ressalva que faço é a generalização ofensiva com os homens, como se todos nós fôssemos parceiros de pedófilos e abusadores. Pior, como se essa fosse uma luta dos homens contra as mulheres. Isso é um erro brutal e uma suprema injustiça, que só afasta os homens que poderiam se associar nessa luta.

Se cobramos dos profissionais que parem de expropriar partos e garantam o protagonismo deste evento às mulheres, também é justo pedir a algumas feministas (não todas… as que estão ao meu redor concordaram que este termo não deve ser usado) que parem de utilizar termos ofensivos contra os homens quando, em verdade, querem se referir a um grupo extremamente minoritário de pessoas que acreditam em uma pretensa superioridade masculina ou que o corpo da mulher é um objeto que pode ser usado apenas para satisfazer seus desejos.

Se queremos um mundo livre de sexismos precisamos vigiar TODAS as falas, sob pena de perdermos cada dia mais homens interessados nessa luta e que são tratados como inimigos, pela simples razão de serem homens.

Não se trata de desmerecer as lutas feministas, mas pedir que não generalizem para fazer valer seus pontos e nem apontem suas armas contra os inimigos errados: os homens. Não somos nós os inimigos: o inimigo é o machismo e o modelo que nós todos construímos na sociedade. Ele sim deve ser trocado por algo melhor e mais justo. Essas expressões afastam aqueles que gostariam de se aproximar mas se sentem imediatamente rechaçados.

Para fazer com que uma ideia seja aceita por todos o confronto nem sempre é a melhor solução. Muitas vezes a palavra doce e a compaixão – procurando sempre entender o ponto de visto do outro – são mais efetivos, mesmo que durem mais tempo. Se as mulheres desejam uma sociedade mais justa, abandonem os termos ofensivos e agressivos que aprenderam a usar com os machistas. “Uzomi” ofende quem não merece ofensa, e afasta quem desejava se aproximar.

PS: A bem da verdade, essa moça – que se identifica como uma feminista que não tem ódio de homens – corrigiu sua expressão e escreveu “os machistas venceram“. Eu me senti satisfeito.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Violência

Carandiru e o Escafandrista

Carandiru

Eu li faz muitos anos, entre 15 e 20 anos, mas certamente quando ainda vivia a minha vida anterior, no milênio passado. Eu o vi nas mãos de uma estudante de direito que trabalhava no hospital onde eu atuava e resolvi investigar.

Quando o li, gostei.

Gostei porque contava histórias de pessoas, de dores, tragédias e infortúnios. Sempre me senti atraído por histórias assim e gosto de contá-las também. Gostei também porque mostrava um mundo desconhecido para mim, o mundo dos “pecadores”, o “Inferno na Terra”. Um mundo que não era para os da minha espécie, os “cidadãos de bem”

O livro de Dráuzio Varella trazia uma descrição entre pitoresca e trágica da vida nesse universo. O estado repressor, as pressões internas, os sistemas de poder, os grupos, a violência crua, o confinamento, a sexualidade. O livro me fez pensar na “Vida Sexual dos Selvagens”, do Malinowski, uma leitura das diferenças culturais. Mas esse mergulho numa realidade e cultura diferentes é que me sinalizou que havia algo na obra que me causava desconforto.

É necessário haver distanciamento para produzir a análise de uma cultura. Para Malinowski os Trobiantes eram alheios ao seu código valorativo. Era possível a um europeu analisá-los por serem eles suficientemente diferentes para causar estranhamento. Eram aborígenes, e não reconheciam as mães como participantes na formação fetal, como erradamente supôs. Poderia, assim, analisá-los de um ponto distante, longínquo e sem influências.

Dráuzio, ao adentrar os muros da prisão como um cidadão, fez o mesmo mergulho numa cultura alienígena, vestindo o escafandro para manter intactos seus valores e referenciais. Mas para isso era necessário tornar os “bandidos” diferentes de si mesmo, cuja essência diversa o afastava inexoravelmente daqueles a quem observou. Dráuzio nunca reconheceu-se naqueles a quem descreveu.

Alguns anos se passaram e o livro fez sucesso, assim como o autor. Entrevistas, reportagens e um programa no Fantástico. Ok, ele era casado com uma atriz da Globo, mas isso por si só não explicaria a importância que se dava às suas palavras. Ele dizia algo – talvez uma voz messiânica portando a boa nova da tecnologia – que desejávamos ouvir. Não há como negar: ele falava algo que nossos ouvidos aceitavam de bom grado.

Drauzio Pumba

Em uma dessas entrevistas Dráuzio disse, em alto e bom tom: “Eu não gosto de bandido!”. Essa sua frase, e os posteriores comentários demeritórios sobre o parto clarificaram a ideia que vim a formar sobre esse personagem.

No livro Dráuzio deixa claro que a sua entrada no presídio foi para tratar prisioneiros com AIDs. Achava ele – e nos anos 80 isso fazia sentido epidemiológico – que a prisão poderia ser um foco de disseminação da doença que, a partir daí verteria para a sociedade “outra”, a nossa, a dos “não-bandidos”. Desta forma fazia sentido estar lá e mesmo assim declarar não gostar de ladrões e falsários; seu objetivo claro era salvaguardar a parte “boa” da sociedade do mal que a parte “ruim” poderia produzir.

Minha frustração com a obra Carandiru foi esperar dela um estudo sociológico, e ter encontrado uma etnografia bem escrita de uma tribo alienígena: os “meliantes“. Esses seres, que Dráuzio deixou claro não ter simpatia alguma, guardam diferenças quase imperceptíveis conosco.

Dráuzio submergiu no universo prisional sem nunca se aprofundar o suficiente para ver o quanto de nós eles possuem e, mais aterrador, o quanto deles habita em cada um de nós. Sua distância segura da essência do bandido lhe garantia a tranquilidade para atendê-los sem jamais se identificar com suas dores e dramas, conflitos e angústias. Ao mesmo tempo que tal afastamento nos garante um alívio (“isso jamais aconteceria comigo“) também impede que entendamos a dimensão humana do prisioneiro. Ele, assim coisificado e catalogado, deixa de ser uma ameaça para nós. O mesmo fenômeno ocorreu com os homossexuais: quando eram “doentes”, diferentes em essência – ou geneticamente – de nós, jamais nos ameaçaram. Quando os trouxemos para a normalidade sua semelhança conosco tornou-se maligna e perigosa. Era preciso exorcizá-la, e a homofobia contemporânea serviu a esses propósitos.

O escafandrista nunca sente na pele o sal do mar que o envolve. Dráuzio, que poderia enxergar-se nos dramas humanos de cada um daqueles detentos, preferiu descreve-los de uma distância segura.

Afinal, se muito perto chegasse, como evitar que, desavisadamente, viesse a se afeiçoar – e até admirar – um ser que nada mais é do que um “bandido”?

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Violência