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Abraço, Fabrício…

Fabrício

Abraço, Fabrício…

Sabe o que é desumano?

É quando retiramos as qualidades humanas de um sujeito, sua unicidade e subjetividade, aquilo que o transforma em uma pessoa única. É quando ele deixa de ser alguém, e passa a ser uma “coisa”.

Ontem testemunhamos um fato raro no futebol. O jogador Fabrício do Inter, após ser vaiado por uma parte da torcida, investiu contra ela com gritos, insultos e gestos obscenos. Uma cena lamentável de violência e descontrole. Ato contínuo, foi expulso pelo juiz e tirou a camisa do seu clube. Arremessou-a ao solo e, mesmo sendo contido pelos colegas de profissão, rumou célere para a saída do campo, sinalizando com gestos que jamais voltaria. Boa parte da torcida colorada, em especial aquela que o estava vaiando, vibrou com a sua expulsão e a saída. O futebol, haja vista sua má fase, pouco perdeu. Mas e o nosso senso de humanidade?

Poucos dias atrás, uma outra desgraça, desta vez atingindo o (ex) todo poderoso José Dirceu, foi tratada com deboche e escárnio por centenas de internautas. Quando do anúncio de seu AVC (Acidente Vascular Cerebral) inúmeros comentários depreciativos surgiram nas redes sociais, fazendo troça com a doença do ex-ministro. Com os candidatos e a presidenta, o mesmo. O ministro Guido Mantega, em visita a um hospital, foi brutalmente hostilizado por pessoas na recepção. As figuras públicas perdem a sua condição de humanas, e passam a ser meros personagens, sem vida, história, subjetividade ou porvir.

Desumanizar é tirar do sujeito sua essência humana. É coisificá-lo para o nosso gozo, seja ele qual for. É olhar para uma mulher e reduzi-la a peitos e bunda, para um homem e torná-lo apenas força, poder e dinheiro. Um jogador de futebol vale apenas para o nosso gozo, sem que seus sofrimentos, sua vida, suas fragilidades e sua história sejam levadas em consideração.

O jogador Fabrício, soube-se hoje, tem um irmão que está preso, e outro que já morreu pelas mesmas razões: tráfico de drogas. Sofria pressão desumana de torcedores que achavam que ele não estava jogando o quanto devia. A pressão também chegava de uma “crônica esportiva” espetaculosa, insensível e grosseira, que ressalta ainda mais a objetualização dos jogadores, tornando-os marionetes de seus conceitos e alvos fáceis para suas piadas de gosto duvidoso. Por mais que se entenda que as gratificações monetárias para os jogadores são muito altas (para uma elite restrita e minúscula, como no caso do Fabrício) também é verdade que a tensão para cumprir metas, nunca errar, jamais falhar, lutar como um gladiador, oferecer o sangue, destruir a própria saúde em nome de uma bandeira é uma tarefa pesada demais para qualquer um, e mais ainda para meninos de origem pobre.

Não foram poucos os jogadores que pensaram em suicídio. Outro famoso jogador do Internacional, quando jogava no exterior, longe da família, sem falar o idioma local, sem amigos e sem referências, subiu no alto de um prédio e por pouco não se arrojou de lá, acabando com sua vida. Teve mais sorte do que Fabrício.

Fabrício explodiu, rompeu a corda. Diante de tanta tensão acumulada ele não aguentou a(s) pressão(ões). Não suportou o desprezo da torcida por quem se dedicava ao limite e jogou tudo para o ar. Todavia, quando o que ele mais precisa é de compreensão e de uma palavra amiga, ele recebe deboche, críticas, mais violência e desprezo. O objeto Fabrício passa a ser desimportante e, mais ainda, incômodo. “Joguem fora essa peça, ela já não nos serve mais.

Fabrício precisa de um abraço. Se serve o abraço de um gremista, aqui vai. Erga a cabeça, olhe para frente, pense na sua família, tente se acalmar. Existe um grande futuro ainda possível, se você puder ultrapassar este momento.

Vai passar, vai passar…

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Maioridade Penal

Criança presa 1

Existe uma “direita raivosa” (não me refiro a ninguém em especial) que pensa que a solução dos problemas da sociedade está numa visão moralizante, como se a humanidade se dividisse entre “bons” e “maus”. Uma espécie de moralismo fascista que acredita que eliminando os maus teríamos uma sociedade melhor. Isso gera uma série de atrocidades, principalmente porque nega a importância da própria estrutura social na geração de tais discrepâncias. Em verdade, os meliantes de hoje poderiam ser vistos como “resistentes” de uma guerra social, onde a maior parte dos recursos lhes é sonegada, e onde seu quinhão – a parte que lhes cabe neste latifúndio – nunca é entregue. Achar que seu extermínio ajudaria a sociedade é uma ingenuidade ou uma manobra interesseira.

Enquanto eles acreditarem que o sujeito é mau não vão perceber o quanto a sociedade é madrasta“.

Esta direita raivosa adora linchamentos e justiçamentos. Deve dar um prazer imenso ver um jovem de 16 anos apodrecendo numa prisão, enquanto a sociedade – fábrica de meliantes – mantém sua produção inalterada e a pleno vapor. Criar a injustiça e depois “limpar” os miseráveis da nossa vista é a maior prova de que nossa sociedade está doente.

Sempre que eu leio a historia desses meninos “bandidos” eu penso que provavelmente faria o mesmo que eles se minha vida tivesse sido regida pelas mesmas circunstâncias e contextos. Como Terêncio afirmo que “o que é humano não me é estranho“. Existe muito mais semelhanças entre um criminoso brutal e o filhinho de papai, bem alimentado, boa escola, pais presentes, afeto e necessidades supridas. Retire essa história dadivosa e sobrará apenas um humano desnudo, igual a todo outro, criminoso ou não. Dividir os humanos por uma essência “boa” ou “má” esquecendo-se da arquitetura social subjacente que os produziu é um crime contra a humanidade, uma perda de tempo e energias, que poderiam ser mais bem utilizadas na construção de uma sociedade justa e equânime.

Nas minhas peregrinações pelas redes sociais eu percebi que as mulheres eram majoritariamente  a favor da redução. Evidente que isso é apenas uma observação, e não tem valor científico. Mas sinto uma tristeza ao  constatar a queda desses mitos: o amor materno, o amor incondicional e a doçura essencial. Não… aparentemente elas amam os seus, acima de tudo. Os outros filhos, os deserdados da vida, os filhos das putas, esses que apodreçam nas cadeias infectas. Obrigado senhoras, por mais esta lição.

O que  penso ser relevante observar é que, de quem eu mais esperava sentimentos nobres e amorosos foi de onde vieram os comentários mais violentos. Quanto à ideia de diminuir a idade penal em si pouco resta a dizer. Mas as teses moralistas de uma parte da direita nacional – a mais raivosa – ficam evidentes. A ideia moralista e ingênua (minha opinião) é de um essencialismo pueril e preconceituoso: a divisão da sociedade entre “bons” e “maus”. Para completar a proposta de que, eliminando-se aqueles “maus”, sobrariam apenas os bons, ignorando a produção de criminalidade pela própria injustiça social. Esta tese nos obriga a acreditar que na Suécia os presídios estão sendo fechados por falta de prisioneiros porque os “suecos são bons em essência”, sem olhar para a distribuição adequada de renda e a dignificação do trabalho como fator civilizatório. Estamos colocando adolescentes para apodrecer na cadeia por esta visão estupidificante e tacanha da sociedade. E as mães, que na minha visão infantil seriam as guardiãs do amor e da compreensão, são as que mais aplaudem iniciativas que visam encarcerar meninos e adolescentes.

Mas não há nada a temer, senhoras; já sabemos que só pretos e pobres irão para lá. A senhora pode ficar tranquila: vamos limpar a sua rua dessa sujeira.

Veja o que acontece quando essa visão é levada às últimas consequências:

Criança presa nos Estados Unidos

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Moderação no Discurso

Algumas mulheres poderiam – em nome do respeito, da racionalidade e da boa convivência – aprender que discordar das suas opiniões NÃO significa desconsiderá-las, silenciá-las ou desmerecê-las. Debater com alguém demanda reconhecer visões de mundo diferentes e possibilidades diversas de olhar para o mesmo fenômeno. Escutar dignamente uma opinião diversa, sem adjetivos, ofensas ou criticas “ad hominem”, são condições indispensáveis ao debate.

Infelizmente nas redes sociais qualquer discordância significa malquerência. Uma mulher ofender um homem que ousou discordar dos detalhes de uma argumentação (mesmos tendo concordado com a conclusão) é muito triste de ver, pois determina o fim de qualquer possibilidade de interlocução.

E isso é sempre uma perda…

Debater é fundamental, mas entendo como o mundo virtual pode transformar uma conversa frugal em uma briga. Ontem fui discutir uma piada machista sobre a bunda da Yoko Ono e fui xingado, mesmo concordando com a tese principal e condenando o machismo explícito do chiste. Entretanto a pessoa dizia que Yoko era mais do que uma bunda, a qual “só serve para eliminar fezes“.

Aí eu discordei. “Peraí. Uma bunda é muito mais do que isso, e por seu valor simbólico e erótico ela é tão valorizada. Uma bunda é o quadril, as ancas, e por ali passam bebês. Passam dores e passam desejos. Ali está o sexo com suas reentrâncias e mistérios. Uma bunda tem valor simbólico, muito mais do que operacional. Para criticar uma piada machista não é necessário biologizar a bunda, ou o corpo da mulher“.

Por dizer isso e discordar da visão diminutiva de um fetiche (adorado em todos os povos, tanto quanto os seios fartos), fui agredido virtualmente, mesmo reconhecendo que a Yoko não merecia esta desconsideração de caráter objetual e machista.

Ok, “mea culpa“…

Eu já falei sobre isso, e a culpa é minha. Trata-se do “debate com as vítimas“. Quando um dos sujeitos do debate É vitima (como as mulheres são) qualquer “adversário” (pois sou colocado nessa posição) está inexoravelmente perdido. Ele não tem perdão por incorporar em sua fala, mesmo sem o desejar, o agressor. Se eu disser, em forma de conselho, que “as mulheres deveriam…” isso é transformado – antes mesmo de atingir a retina – em uma ordem indevida, e tratado de forma injusta como se uma violência fosse. Quando o debate fica assim e literalmente TODAS as palavras precisam ser vigiadas é por que o diálogo já acabou ha muito tempo e só o que resta é um enfrentamento de solilóquios.

Por outro lado é interessante notar como algumas mulheres chamam homens de “machistas” com total liberalidade. Creio que as que fazem isso não se dão conta como isso é ofensivo. Pior: não oferecem sequer uma defesa possível. Vou contar um segredo. Toda a vez que eu escuto uma mulher me acusar de machista, apenas por discordar dela sobre palavras ou detalhes de percepção, eu me sinto como uma mulher que, ao debater com um homem, é chamada de “mal amada”. Pense nisso antes de chamar um amigo seu de “machista”, principalmente quando o seu amigo simplesmente discordou de você.

Meu pedido é que debatam e dialoguem sem ofender, sem rotular ou adjetivar. E o meu “mimimi” não é gratuito. É uma tristeza de ver gente que não tem consideração pelo interlocutor. Que ofende apenas porque discorda. Que agride e fere, mas que reclama das (verdadeiras) agressões sistemáticas que sofre. Como eu disse anteriormente, quando as palavras precisam ser medidas para não serem usadas contra quem as proferiu é porque o desejo de debater deu lugar há muito tempo para sentimentos menos nobres.

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Invasões

Apesar da minha promessa de início de ano, baseada em inúmeros erros do passado, voltei a cometer o mesmo equívoco lamentável de tantos anos: debater com as vítimas.

Ainda hoje vi a notícia do assassinato de uma mulher (servidora pública da guarda civil) dentro do seu automóvel enquanto aguardava a chegada de sua filha de 7 anos. Uma morte estúpida, inaceitável e dolorosa, pois atinge todo aquele que vive em uma cidade. A morte de Ana Paola é um pouco a morte de todos nós.

O pior, como sempre, são os comentários, mas isso pode ser entendido como a explosão de sentimentos advindos da identificação dessas pessoas com a mulher que foi vítima, ou com seus familiares enlutados. O problema é que a dor e a indignação de muitos acaba se transformando numa explosão de ressentimento e ódio, sem que haja qualquer tipo de anteparo civilizatório, pelo menos em tempo de debate cibernético. Qualquer forma de linchamento é válida; julgamentos sumários são propostos e a vingança contra o meliante passa a ser muito mais importante do que a solução de um problema – a violência urbana – que existe há séculos e que se incrementou nas últimas décadas. Pior: qualquer tentativa de estabelecer um diálogo, ou mesmo um pedido de que haja ponderação acarreta o rechaço imediato dos vingadores e justiceiros. A frase clichê nessas circunstâncias é: “Ah, está com pena? Então leve para casa.” Pedir que as pessoas entendam que um crime não justifica outro parece, aos ouvidos das vitimas, o mesmo que defender a prática criminosa. Dizer que o assassinato dessa moça não significa que temos que baixar a idade penal para 10 anos (sim, isso foi proposto), ou que a pena de morte deveria ser instituída, é o mesmo que dizer que essa morte não representa nada e que o criminoso é inocente.

Para a vítima, movida pela intensa emocionalidade do momento, não existe ponderação ou razoabilidade, apenas paixão e dor. Nestes casos somos TODOS vítimas, e a manifestação popular é a síntese dessa sensação de medo e insegurança.

Resolvi que nada deveria dizer, além de um breve comentário:

Os comentários fascistas acima são tão tristes quanto a notícia. Os defensores do linchamento são apenas criminosos que ainda não tiveram sua oportunidade ou circunstância para delinquir. É muito triste ver do que é feita a “opinião pública” do nosso povo. Assassinos em potencial.

Escrevi e me retirei.

Podia ter ficado quieto, até que uma ativista da humanização escreveu um texto dizendo que o parto não é lugar para “doulos”, pois este espaço é feminino e deve ser assim preservado. Imediatamente reconheci nesse texto uma forma característica de sexismo com sinal trocado: a imposição externa de uma “cartilha”, feita para que as mulheres sigam um comportamento de acordo com o ideário feminista, mas sem levar em consideração o que aquela específica mulher entende como sendo sua necessidade ou desejo. Tentei explicar que nós homens fomos obrigados a testemunhar a invasão feminina de espaços historicamente destinados aos homens e que esta ocupação de funções e posições ocorreu pela luta por igualdade e equidade que as mulheres empreenderam. A entrada das mulheres na medicina, no direito, na administração e na política – mesmo estando ainda longe do ideal – foi um movimento especial na história da cultura ocidental, que ainda está atrasada no oriente. Minha posição, entretanto, é que, assim como as mulheres puderam empreender esta benfazeja invasão, também os homens poderia ocupar os espaços que historicamente as mulheres detinham.

Entre eles o cuidado de gestantes.

Se achamos que a equidade deve ser buscada e incentivada ela certamente é uma via de duas mãos. Se desejamos ocupar espaços antigamente determinados como fixos para o sexo masculino (lutas, guerras, cirurgia, futebol, mecânica, etc.) porque não admitir o parto como um território livre para a escolha das mulheres? Porque criar uma “reserva de mercado” para a ação feminina, quando nenhuma destas reservas se admite para os homens?

Pareceria até um argumento razoável, mas lembrei que numa sociedade machista como a nossa, ainda dominada pelo patriarcado, as mulheres são todas vítimas. Pressionadas e constrangidas por uma sociedade injusta podem debater da posição subjetiva de vítimas, usando de forma liberal a emocionalidade e a violência verbal que jamais é adequada em um debate racional, principalmente se considerarmos que os debatedores eram amigos.

Erro grosseiro da minha parte. Fui criticado e ofendido de forma desnecessária, em agressões “ad hominen”, por pessoas que deveriam estar do mesmo lado na luta pelas mulheres. Meu engano foi, mais uma vez, tentar tratar de forma racional temas que são extremamente doloridos para algumas mulheres. Mostrar as contradições do discurso de algumas feministas é, para elas, o mesmo que queimar parteiras e bruxas.

Não há meio termo: ou você participa do linchamento ou é um “mascus” asqueroso enganador de mulheres

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Algumas explicações necessárias

Inquisição

Para pensar:

“E se…
Ao invés de usar tanta energia para destruir os adversários de nossas convicções nós a usássemos para melhorar nosso conhecimento e combater apenas as ideias, e não as pessoas? Quando vejo ódio lançado contra os ideólogos em qualquer questão eu sempre penso que tais ataques denunciam, entre outras coisas, uma fragilidade argumentativa. Duas alternativas: ou o sujeito não consegue aclarar seu pensamento para elaborar bons argumentos ou pior: ele não acredita no que diz.

É assim em qualquer lugar e em qualquer movimento. Eu, pessoalmente, sempre achei que isso inevitavelmente ocorreria. Eu nunca consegui ser domado, e o meu pai ainda no último domingo me dizia isso: Ele me botava de castigo e eu saía, dava uma palmada e eu saía, gritava comigo e nada de eu obedecer. Lá pelas tantas ele desistia e ficava pensando em uma alternativa que não incluísse a morte por eletrocussão ou afogamento. Mas meu temperamento não aceita que minha natural espontaneidade sofra censura ou cerceamento. Eu disse uma série de coisas que mantenho, pois não são ofensivas a ninguém e estão em plena sintonia com meu pensamento de combate ao patriarcado e ao machismo. Algumas pessoas não entenderam assim. Eu me senti a “desquitada” convidada a se retirar do clube tradicional porque “não fica bem uma mulher solta demais entre tantas senhoras de família”.

Neste caso minhas palavras ofenderam as feministas mais aguerridas. Sinto muito se meus conceitos mostram demais as pernas, ou minha posição expõe demais o decote. Neste caso específico eu me afastei de qualquer adjetivação e qualquer ataque pessoal a qualquer uma delas, que continuo acreditando serem pessoas do mais alto valor moral, e ativistas da melhor qualidade. Apenas não aceitam que minhas palavras sejam ditas perto delas.

 “Um sujeito que na vida só teve amigos ou é bobo ou não fez nada. Cultivar algumas inimizades é fundamental e, para alguns temperamentos, inevitável.”

O link que gerou a discórdia é um texto meu chamado “Machismo” que pode ser encontrado neste blog.  Meu crime foi dizer que o patriarcado não é a mesma coisa que o machismo; são coisas bem diversas, apesar de estarem relacionadas. Porém, na origem são diversos. O primeiro é um sistema de poderes artificialmente criado no mundo inteiro para resolver problemas circunstanciais, principalmente pela mudança do modelo nômade para o agrário. O segundo é uma “naturalização” de algo que é artificial. Um machista acredita que a superioridade masculina na cultura, que ainda se vê hoje em dia, não é obra da cultura, mas da natureza. Isto é: os homens são superiores porque são “melhores”.

Por outro lado, tanto o machismo quanto o patriarcado podem e devem ser combatidos agora. Não apenas o modelo de poderes pode ser mudado (se houver paz) como todos os preconceitos devem cair por terra. Entretanto, a simples menção do patriarcado como uma construção social ofendeu algumas mulheres, que acham que o patriarcado foi criado por “ódio às mulheres“. Ora, nem o racismo é feito por ódio, mas por interesses políticos e econômicos.

Mas… essas ideias simples foram mal recebidas, e a minha expulsão por expor “ideias machistas” foi solicitada. Antes que alguém propusesse um debate sobre isso eu pedi para me expulsarem. Mas reitero: as pessoas que pediram a minha expulsão são excelentes pessoas e mães maravilhosas, além de profissionais da mais alta qualidade. Houve uma discordância comigo e uma posição de revolta contra as minhas ideias, o que eu respeito. Se minha presença é insuportável ou desagradável cabe a mim sair, sem dramas.

O patriarcado foi tão necessário que nenhum lugar do mundo ousou desprezá-lo. A opressão das mulheres foi um subproduto, mas o objetivo era proteger os núcleos que surgiam com a agricultura. Os vassalos e suseranos também eram oprimidos pelo senhor feudal, mas a proximidade do reino lhes conferia segurança, e por esta razão o feudalismo foi tão bem sucedido. Tentar colocar a simples opressão como objetivo me parece ingenuidade. Não é assim que o mundo constrói suas rotas.

Nunca houve nenhuma sociedade matriarcal no mundo que tenha perdurado mais do que alguns poucos anos. Rainhas Elizabeth ou Vitórias foram sociedades MARCADAMENTE patriarcais. O mundo vitoriano era machista e o pudor era sua marca. A era Vitoriana foi a época em que Freud estudou a histeria, que nada mais é do que a marca no sujeito de um campo simbólico fortemente patriarcal e obliterativo sobre a livre expressão sexual da mulher.

Matriarcado é um mito; só existe nas fantasias de Amazonas e Xena. E, ao meu ver, ele nunca existirá. Não precisaremos ter uma opressão feminina para chegarmos à equidade. Nem Malinowski, que se equivocou de forma dramática em várias interpretações de comportamentos nativos (como o não reconhecimento da mãe como corresponsável pela carga genética filial), acreditaria em sociedades matriarcais. Uma sociedade assim, se existiu, fracassou pela sua fragilidade. Não haveria como, no passado, as mulheres terem poder político num contexto de guerras e invasões. Esse é meu ponto de vista, que é bem simples. Pode ser questionado ou combatido, mas as agressões que eu recebi falam muito mais de uma aversão a minha pessoa e o que eu represento (um homem falando dos direitos das mulheres) do que a legítima discordância de uma tese.

Não. .. o que se precisava eliminar é a possibilidade de alguém pensar diferente. Por isso minhas palavras (“invasão“, por exemplo) foram distorcidas de forma covarde e interesseira. A tese em si era pouco: seria preciso me pintar como um monstro machista que acredita que os lugares na sociedade são fixos e determinados por Deus. Isso foi o que deixou clara a raiva contida contra mim. A criação do “espantalho” denuncia a fragilidade das motivações expressas, e a existência de razões inconfessas.

Não sou feminista. Digo isso porque sempre fui excluído do debate feminista. Não sou feminista em respeito ao feminismo, porque não me sinto em condições de debater com pessoas que não suportam que eu tenha ideias sobre esse tema. Sou aliado às principais teses do feminismo, e faço isso sem pertencer a nenhum “clube de mulheres” há mais de 30 anos. Entretanto não me filio e não me submeto a este movimento. Sou um livre pensador e isso é insuportável para muitas pessoas. Meu combate feroz ao machismo e ao patriarcado não precisa demonizar os homens e nem calar a sua voz, como eu vi e questionei.

Entenda: esse foi o meu crime: não concordar com a tese essencialista que coloca o patriarcado como uma invenção do “mal”. Quando faço uma leitura histórica (ela pode ser lida em Engels) do patriarcado como construção social eu não nego seus efeitos perversos para as mulheres, mas não preciso desconsiderar seu significado complexo e dinâmico. Posso ler o patriarcado da mesma forma como leio as ditaduras, tentando entender e contextualizá-las, sem a necessidade de criar justificar para sua aparição. Portanto, quem quer pregar a guerra de gêneros nunca terá em mim um aliado, e o cabresto que algumas mulheres quiseram me colocar nunca serviu.

Simone de Beauvoir entendeu a razão dessa construção, e percebeu também que o combate ao patriarcado não se dá demonizando-o (como as ditaduras) mas compreendendo seus contextos e suas características. Só entendendo as razões do nascimento e declínio do patriarcado é que poderemos planejar sua morte.

Vou repetir o que já falei anteriormente: as pessoas que se desentenderam comigo são grandes ativistas e mulheres inteligentes, e aqui não há nem um mísero grão de poeira de ironia. São mesmo pessoas muito especiais e vou continuar desejando o melhor para elas e seus trabalhos. Infelizmente as suas posições e, acima de tudo os seus desejos, não permitem que eu seja aceito, e não conseguiram tolerar minhas ideias a respeito da dinâmica de poderes nas relações de gênero. Fui muito claro e continuarei sendo: não há o que se desculpar. Mantenho minhas palavras e não retiro uma vírgula sequer, pois ainda acredito que elas estão corretas, salvo se argumentos suficientemente fortes me mostrarem o contrário.

Por outro lado, respeito o modo de ver de minhas “adversárias” (apenas neste debate). É assim que caminham as ideias ou, como dizia a minha mãe, “é nas quedas que o rio ganha energia”. Vou mais além: no dizer de Joseph Campbell “Where You Stumble Is Where Your Treasure Lies” (onde você tropeça, ali está seu tesouro). A humanização do nascimento se encontra em uma criativa encruzilhada, onde o ativismo feminista se encontra com as aspirações que enxergam o parto para além de um evento médico e para além de uma questão feminista, mas que opera para toda a humanidade. O debate, que poderia ser profícuo se houvesse mais compreensão e menos ataques pessoais, foi interrompido, mas será inevitavelmente reiniciado quando surgir um interlocutor mais hábil para trazer à discussão os temas que abordei. Como sempre eu disse algo que feriu pessoas e que as incomodou, mas penso no ditado japonês “Kokoro no sutemi” que fala de um “espírito de sacrifício” em que se deixa de lado a segurança e a estabilidade em nome de uma experiência com a unicidade.

É mais ou menos isso que sempre tentei oferecer: temas complexos ao debate das ideias, para que as arestas aos poucos pudessem ser aparadas em nome do crescimento de uma ideia em comum: o combate a um patriarcado cada dia mais anacrônico, a luta contra o machismo e outros sexismos, o empoderamento da mulher, seus direitos, suas conquistas e sua função de trazer os bebês ao mundo.

Sheila Kitzinger me disse uma vez do erro que ocorreu na Inglaterra quando Janet Balaskas foi convidada a se retirar de um grupo (agora não me lembro qual) a propósito de suas posições radicais (se não estou enganado algo a respeito de sua vinculação visceral com a liberdade de posição no parto). Sua saída acabou acarretando um atraso no debate da humanização do nascimento, e uma divisão desnecessária de um movimento nascente que apenas prejudicou a velocidade das transformações.

O mesmo fenômeno se repete agora. Uma questão que poderia ser tratada com uma conversa franca e sem emocionalismos acabou provocando um “manifesto” mal escrito e com uma série de inverdades, que mais revelam as mágoas e rancores de algumas ativistas do que um claro descontentamento com as ideias. Isso é ruim ao extremo, porque abafa a natural rebeldia das pessoas, mantém um pensamento monolítico e oficialista, não permite a criatividade e o livre fluir das ideias, e apressa a morte dos espaços de troca. Uma lástima, pois poderia ter sido evitado se o conflito se mantivesse no terreno das ideias. Sheila Kitzinger fala desse assunto em “The Politics of Birth“, um livro que deveria ser lido por “todxs xs ativistas” do parto e nascimento, para entender como agir diante de adversidades como esta. Sua postura de ativista do parto e feminista fica bem clara, e mostra como os radicalismos e as exclusões apenas atrasam o debate.

Meus escritos objetivavam fazer esta leitura: uma vivisecção (porque não haveria como fazer uma autopsia em um corpo que, mesmo envelhecido, ainda vive e respira) do patriarcado para entender sua existência desde o nascimento. Lembro dois fatos marcantes e que suscitaram o mesmo tipo de análise dolorida e marcante: o colaboracionismo francês sob o governo de Vichy na segunda guerra mundial e a ditadura no Brasil. Foi necessário entender os erros das esquerdas, as cegueiras dos resistentes assim como a docilidade francesa com a invasão teutônica hitlerista para poder banir a ditadura, o totalitarismo e o antissemitismo. Para acabar com o modelo patriarcal há que entendê-lo, mostrar porque esta escolha foi tão universal, tão forte, tão intensa e tão atual! Sem isso, e elegendo inimigos sem entender suas motivações e manobras defensivas, não poderemos prosseguir com avanços.

Outro ponto: Acho também que não devemos hiperdimensionar este fato. Existe uma linha ideológica que agora ficou bem evidente no “Vila”. É um portal de feministas que trabalham com o parto, o que é algo absolutamente respeitável (eu diria desejável). Entretanto, eu não sou feminista (pelas razões que já expliquei) apesar de defender há 30 anos com unhas e dentes todos os pressupostos feministas importantes e significativos aplicados ao nascimento. Como não suporto e não aceito cerceamento de ideias e obliteração de pensamento eu aceitei tranquilamente a minha expulsão. Sem traumas e sem dramas. Como podem ver pelo tamanho das minhas postagens, a minha vontade de escrever continua intacta, e espero que as meninas do Portal, livres do constrangimento gerado pela minha presença, possam continuar o trabalho junto às mães que sempre realizaram. É isso que eu honestamente desejo.

A resposta da sociedade nunca pode ser da mesma intensidade que aquela do sujeito. A primeira deve zelar pela civilidade. Já o sujeito, se incorre no crime, deve ser punido, mas a lei não pode ser tão ou mais violenta do que ele. Quando combatemos o modelo patriarcal e o machismo dominantes no cenário obstétrico não podemos responder com a mesma violência que testemunhamos na assistência ao parto. Como dizia Max sobre as falésias de Fortaleza:

Na costa desse recanto maravilhoso do litoral nordestino, erguem-se belíssimas e multicoloridas falésias, de onde se extrai a areia que é usada no artesanato local. Ao avistar as belas e altivas construções que embelezam o litoral, não pudemos deixar de imaginar por quantos milênios essas íngremes escarpas suportam a agressão continuada do poderoso oceano aos seus pés. Consegui, então, entender que, assim como elas, o processo de humanização do nascimento sofre com a violência daqueles que, por se negarem a enxergar a relatividade e a temporalidade de seus paradigmas, agridem o processo milenar do parto, acreditando serem as mulheres intrinsecamente incompetentes para conduzi-lo. Entretanto, não apenas o brio e a nobreza das falésias milenares nos trouxeram aprendizado. As coloridas encostas respondiam aos golpes do mar hostil colorindo de rosa as ondas que as agrediam. Da mesma forma deve proceder a humanização do nascimento, respondendo aos ataques do tecnicismo desmedido com a brandura das evidências e a suavidade de suas condutas.

(Entre as Orelhas – A Falésia do Parto Humanizado)

Assim deveria ser a nossa conduta: diante da violência desmedida modificar o paradigma e responder com suavidade e compreensão.Sim, mas como eu acho que a liberdade é o bem mais valioso, continuo fazendo a sua defesa e a da autonomia, em especial para as decisões das mulheres em relação aos seus partos. Foi pela minha defesa irrestrita disso, e pela minha particular visão do patriarcado, que fui expulso. Sim… eu fui convidado a me retirar, por pressão de outras meninas que lá escrevem. Portanto, sem meias palavras: expulsão é isso mesmo.

Não é fácil, para as pessoas movidas pela paixão do ativismo, se deparar com a decepção por alguém que não compactua com a visão dominante sobre um determinado tema. Isso é visto como uma traição, e a reação violenta que recebi foi por conta disso. As minhas falas eram vistas como um reforço de crenças alheias, e que deviam dar conta das expectativas destas pessoas, mas quando resolvi expressar uma opinião diversa do “mainstream” do feminismo – que para se fortalecer elege “inimigos” claros e fáceis de perseguir – eu fui jogado na fogueira e atacado com ferocidade por muitas ativistas. Num modelo muito emocional como este – eu circulo por diversos ativismos há décadas, do HIV, passando pela homeopatia, Palestina e Parto Humanizado – qualquer posição que relativize as bandeiras de luta é vista como uma heresia, uma deserção. Foi isso o que fiz para muitas delas: eu desertei da luta DELAS por tentar entender o patriarcado e o machismo sem as tintas que elas usam. Mas é claro: eu sou homem, branco, médico… nada pode ser pior que isso.

Essas “notas de esclarecimento” (foi publicada uma no blog do “Vila”) são documentos políticos. Não são a tradução exata do que ocorreu. Duas meninas que são articulistas do Vila pressionaram a K* pela minha saída. Outras pessoas, leitoras do portal (feministas e ativistas), também o fizeram. Ela me ligou tarde da noite muito constrangida se dizendo pressionada, e eu não tenho razões pra desconfiar disso. Para facilitar sua vida eu disse “faça o que achar melhor“. Ela então começou a explicar como funciona a “migração de conteúdo” e então eu saquei na hora que ela já há via tomado uma decisão, mas se pensava que eu me desculpar ia por pensar diferente estava enganada. Ela estava triste, mas desejava/gostaria que eu saísse. Eu apenas não dificultei nada para ela. Entendi seu sofrimento e compreendi sua dor, até porque sempre tivemos um bom relacionamento. Eu não faria o que ela fez, claro, mas não posso julgá-la.

Censurar alguém em nome de uma “pureza doutrinária”, ou como alguém falou, “podia ter escrito em outro lugar, mas não lá” me mostrou que as pessoas entendem a humanização do nascimento de forma fechada, dogmática e religiosa. Existem tabus, preconceitos e temas proibidos, que só podem ser tratados a portas fechadas. Então percebi que nunca deveria ter entrado em um portal com tal ordenamento; meu temperamento livre é avesso a isso. Deveria ter ficado quietinho e silencioso na minha caverna no “blogspot“.

Mas houve a pedra de tropeço e caímos. Resta agora levantar e seguir jornada porque, ao menos em tese, todos vamos para o mesmo lado.Eu prefiro olhar este episódio em perspectiva, e por isso eu acho que não é necessário que se dê tanta importância a isso. Essas crises sempre existem, em qualquer movimento de transformação. Se você for perguntar para qualquer uma das pessoas que me ofenderam qual a verdadeira razão para me atacar vai perceber que muitas delas nem sabem, ou pensam que é outra coisa. Portanto, sequer o debate foi “real”; ele foi uma espécie de catarse onde as pessoas fizeram discursos surdos, quase solilóquios, falando especificamente para o “Grande Outro” lacaniano, apenas para escutar em voz alta os seus próprios conceitos e a sua vinculação apaixonada com uma ideia. Na verdade nem era para mim que elas falavam, até porque eu concordava com 99% do que elas estavam dizendo (o problema do patriarcado, o machismo doentio da nossa sociedade, o parto sob o jugo de ambos, o machismo mortal e a importância de combater estes sistemas de opressão). Praticamente TUDO era concordância. Então porque as ofensas e o linchamento virtual?

Ora, porque não eram as ideias, era…. eu.

Eu hoje falei para uma menina inbox no Facebook que algumas manifestações de ativistas que são minhas queridas amigas eu as considero absolutamente reprováveis e contraproducentes. E porque não saio atacando ou batendo, chamando-as de “assassinas” ou “bandidas“, ou qualquer coisa assim? Bem, porque não é verdade, e também porque eu gosto dessas pessoas, mesmo que discorde. O problema não são as diferenças ideológicas, mas a rejeição à figura que represento.

No meu caso era o contrário: mesmo que eu estivesse 100% ao lado destas pessoas seria possível, torcendo uma palavra aqui (invasão) ou falseando um conceito ali (uma inexistente complacência com o machismo) e pronto: o inimigo está vestido para o jantar. Assim se cria o inimigo “espantalho” que desejamos, que fala o que não disse e nega o que em verdade disse existir. Quando eu disse que o patriarcado foi um “sucesso” (e isso é evidente, basta olhar qualquer sociedade no mundo) uma ex-amiga ativista interpretou viciosa e maldosamente esta frase como se eu estivesse exaltando o patriarcado e dizendo que as mulheres mortas pela violência que o patriarcado tolera eram coisas boas. Pessoas que usam este tipo de argumento cruel e mentiroso tem o coração cheio de ódio.

Esse foi o tipo de linchamento injusto e cruel que recebi, de pessoas absolutamente cegas pelas paixões e suas bandeiras, que se tornam mais importantes que as pessoas, mais importantes que as mulheres, mais importantes que o parto normal, mais importantes que bebês, da mesma forma que os fanáticos religiosos jogam bombas, pois seu fanatismo é mais intenso que o amor ao próximo que a própria religião ensina. A desautorização da fala dos homens no cenário do parto (quando ele é tomado pelo viés feminista, que é um dos olhares legítimos deste debate) normalmente é violento e cruel com qualquer homem que queira falar. E se ele discordar dos dogmas (como eu sempre fiz) é coberto com uma chuva de clichês machistas. Esse é o problema: não aceitar a interlocução e não respeitar o contraditório.  

Sabe… quando a Laura Gutman falou sobre os “abusos” eu não gostei à primeira vista, mas depois que eu li um psicólogo fazendo um ataque violento a ela percebi que era uma raiva pelo que ela é, e uma leitura viciosa do que ela disse. Quando o Michel falou contra o pai na sala de parto eu não gostei, mas depois vi que ele tinha uma ligação com a etologia que o empurrava para este tipo de visão do parto. Mas, em nenhum momento eu, nem mesmo por um segundo, duvidei das boas intenções e da idoneidade e integridade intelectual de ambos. Poderia discordar (com o Michel muitas vezes) mas continuar admirando e reconhecendo a grandeza do seu trabalho. Com a Laura, que eu conheço pouco, o linchamento que eu comecei a ver tinha muito mais a ver com os traumas de algumas mulheres do que com os conceitos que ela trouxe à discussão (que são questionáveis, mas passíveis de debate). Comigo o linchamento tem a ver com algumas feministas que passaram a me odiar no passado por uma discussão com uma subcelebridade da área.

Foi neste momento eu percebi que nada do que eu dissesse teria valor para elas. Nada mesmo, porque por enfrentar o poder monolítico de um discurso de exclusão masculina eu estava condenado eternamente. Portanto, o linchamento virtual – e até a defesa dele que eu testemunhei – não me surpreendem. Mas alguém tem que dizer que o Rei está nu, e que a agressão sistemática aos homens que participam do debate sobre o parto não ajuda ninguém. Vocês, por exemplo, acham mesmo que a discussão que iniciou toda esta celeuma era realmente sobre um “doulo“? Não, mas agora todos sabemos que não era… 

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Despedida

Bye bye

A partir de amanhã não faço mais parte do Portal “V. Mamífera”. Durante o tempo em que lá estive pude exercitar minha vontade de escrever, conjugada com uma necessidade praticamente insana de exorcizar pensamentos e ideias. Em função da minha inabilidade com as limitações políticas da escrita, e o desejo de dizer abertamente e sem anteparos a verdade de minha mente, acabei ferindo suscetibilidades de algumas parceiras do Portal que se sentem incomodadas com a minha presença, a ponto de exigir a minha expulsão. Meu pensamento, livre de amarras ideológicas e aberto para o embate no terreno das ideias, deixou algumas companheiras decepcionadas, o que acho respeitável e compreensível. É provável que na posição delas eu sentisse o mesmo. Entretanto, há alguns meses eu escrevi que faz parte de uma trajetória séria o cultivo de algumas decepções. Mais ainda, disse que “a não gostância dói, mas a unanimidade maltrata ainda mais“. Ser colocado numa posição de expectativa oblitera a liberdade de expressão, e é um castigo que não mereço.

Assim sendo me despeço dos colegas que cultivei e peço desculpas àqueles que decepcionei. Continuarei meus escritos solitários em meu futuro blog onde as pessoas poderão entrar se desejarem ler o que eu escrevo. Peço perdão se minhas palavras feriram alguém, mas no embate das ideias isso pode ocorrer a qualquer momento. É inevitável que o atrito gere calor, que para muitos é insuportável. Minha saída objetiva, acima de tudo, manter ativo um portal que foi construído com muito carinho pela doula Kalu Brum com o desejo de estimular o debate sobre partos e nascimentos no Brasil.

Sobre a fonte da discórdia, não retiro nada do que disse, porque mantenho minhas posições ainda hoje, mesmo admitindo que um dia argumentos melhores possam fazer que sejam alteradas. Continuarei na minha luta, cada vez mais pessoal e isolada, pelo pleno protagonismo da mulher nos seus momentos sagrados de gestar, parir e amamentar. Vou me manter fiel à LIVRE escolha, sem constrangimentos, das pessoas que ELA decide como acompanhantes. Continuarei escrevendo sobre a beleza de um nascimento protegido pela aura sublime da paz, que se conquista passo a passo em cada parto atendido com dedicação e envolvimento. Por outro lado, não me calarei diante dos exageros, da insensatez, da violência, da censura, e da tentativa de cercear a liberdade de pensamento em nome de ideários sectários. Não é calando a boca de alguém que se estimula o debate, e nada se constrói sem o choque dos contraditórios, que energizam o caminho e as conquistas.

Afastar os homens do cenário do nascimento pela constante desconsideração de suas vozes, criando um ambiente negativo e violento, só pode produzir a fragmentação de um movimento, o que atrasa seu progresso. Os opositores, os que fazem parte do “mainstream” do parto cirúrgico, sempre se divertem com essas brigas intestinas. Para os amigos que entenderam minhas posições, principalmente no que tange às diferenças entre “machismo” e “patriarcado“, eu espero que compreendam a atitude de minhas colegas. Para elas, absorvidas na luta diária por um mundo com mais equidade, minhas palavras parecem se contrapor ao que pensam. Não é o que eu disse, e muito menos o que eu penso, mas entendo que no seu ativismo uma voz dissonante (e não discordante) possa desestabilizar as suas lutas.

Obrigado pelo tempo em que pude compartilhar este espaço.

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Trashing

saturno

O artigo anexado – escrito em 1976, quando a honra de alguém levava mais tempo para virar cinzas – nos mostra o significado do “trashing”, ou como se destroem reputações e se joga na lama antigos parceiros que ousam pensar diferente e que vocalizam suas ideias de forma aberta e clara. Sempre que o “movimento”, a “causa”, a “irmandade” são maiores do que as pessoas que os compõem (ou combatem) teremos o que se chama “pensamento totalitário“. Quando Stálin mandava matar centenas de “tavarish” com um simples e prosaico golpe de caneta, em nome da “grande mãe Rússia”, ele também não se importava com o camponês que tinha 4 filhos, era casado com Olga e se chamava Vladimir. Não, o sujeito perdia sua face e sua história diante da “causa maior”. Entretanto, sem o respeito à cada uma das pessoas que vivem nesse planeta como portadoras de um elemento sagrado – sua individualidade – só o que teremos é o terror e o desprezo como elementos de controle social.

A expressão que mais se repetiu no recente episódio da perseguição contra mim (que ousei diferenciar patriarcado de machismo), curiosamente dita por doulas e ativistas dos direitos da mulher, foi “não passará“, uma provável alusão ao “Senhor dos Anéis”, quando Gandalf, o mago, grita da beira de um penhasco para um ser diabólico que tenta alcançá-lo em uma ponte. “You shall not pass!” diz ele levantando seu cajado ameaçadoramente. Pois a frase parece ser plena de sentido nos recentes acontecimentos. Para que a causa tenha sucesso os debatedores contrários aos dogmas do “movimento” são reduzidos a demônios maléficos, imbecis e uma série de outros adjetivos facilmente encontrados quando se procura desonrar um adversário. Para estes seres do mal nenhuma pena é pouca ou suficientemente dura.

Afinal, aquele que trai os nossos sonhos não merece menos do que a destruição de sua reputação.

O movimento feminista é, em alguns aspectos, igual a todos os movimentos de libertação do mundo, como o LGBT ou dos negros, mas em alguns aspectos é único em suas particularidades. Não vou falar o que as feministas devem fazer, mas ouso dizer que esmigalhar publicamente defensores da causa ou destruir reputações de irmãs do movimento jamais serão meios adequados de se alcançar justiça e equidade de gênero. A visão histórica (marxista) dos eventos sempre nos coloca face a face com os nossos dilemas e fragilidades. Não gostamos de falar disso. Não curtimos olhar para as falhas do passado e preferimos glamorizá-lo ou inventá-lo. Mas qualquer movimento que não se critica cristaliza e morre.

Nunca um artigo veio tanto a calhar no atual debate sobre o feminismo X humanização do nascimento. Sei que tê-lo publicado vai fazer incrementar o “trashing” pois os personagens descritos nele se parecem com algumas militantes mais violentas que conheci. O desabafo de muitas das vítimas deste tipo de perseguição poderia ter sido escrito por mim, e a dor e desesperança deles se parecem muito com as minhas. Espero que todos possam assimilar os ensinamentos contidos no episódio para que as ativistas não sejam obrigadas a castrar sua natural criatividade por medo da destruição subsequente de sua honra e imagem social.

Veja o brilhante texto “Trashing – O Lado Sombrio da Sororidade” aqui.

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Ultrapassando a linha

Florbela Espanca

Quando vejo pessoas defendendo o parto normal e/ou humanizado para além do que considero justo ou conveniente eu lembro das palavras de Robbie, a quem considero uma grande feminista: “Não podemos permitir que nosso fervor humanista transforme este movimento na Gestapo do parto normal”.

Por entender que o parto humanizado está abaixo do protagonismo restituído às mulheres é que a defesa das nossas teses não pode ser mais um modelo de opressão contra elas. Nossa defesa deve focar na mulher e suas escolhas. Nenhum modelo é superior a isso.

Fanatismo é o “império da paixão“. É ruim, mas impossível iniciar qualquer projeto se a paixão não nos tomar por inteiro. Seja no amor ou na construção de qualquer empreendimento humano. Por isso que, ao mesmo tempo que o critico, vejo o “fanatismo” como um elemento primordial de nossas ações, que apenas necessita, tal qual um garanhão indômito, ser amansado pela razão.

Eu acho que um certo “fanatismo” (quem não?) faz parte do processo inicial de qualquer grande ideia. Somos tomados pelo discurso revolucionário e olhamos o mundo pela ótica estreita de nossas paixões. Todo mundo já passou por isso, pelo menos aqueles que ousaram amar – pessoas ou ideias.

Fanatismo, como evitar?

Minh´alma de sonhar anda perdida
Meus olhos ficam cegos de te ver
Não és sequer a razão do meu viver
Pois que tu és já toda a minha vida

(Florbela Espanca)

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Pena de Morte

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Para além das questões éticas e humanas, a pena de morte é burra e estúpida. O assassínio patrocinado pelo estado é absolutamente ineficiente para educar ou coibir. Se a pena de morte funcionasse teríamos uma diminuição significativa de crimes e assassinatos nos lugares onde ela existe, mesmo no Brasil. Sim, porque a pena capital existe no nosso país, apenas não é legalizada. Nas favelas, comunidades e bolsões de pobreza impera esta pena entre as facções do tráfico. Matam-se uns aos outros por penas impostas por eles mesmos. Fosse a morte decretada um anteparo ao crime e reinaria a paz nos domínios do tráfico. Não é o que se vê. Uma porcentagem significativa das mortes em nosso meio são decorrentes da ilegalidade oportunista deste comércio. Sair matando bandidos nunca ofereceu qualquer vantagem e jamais nos conferiu mais segurança.

A morte é IGUAL para quem morreu, tenha sido este assassinato cometido pelo governo ou por outros grupos. Portanto, do ponto de vista de quem teme, ser morto pelo Estado ou pela facção rival dá no mesmo. Pior: a morte pelos grupos paralelos tem julgamento sumário e você não tem defesa, e isso deveria te causar muito mais medo e muito mais cuidado. Pois não ocorre nada disso, e as agressões entre os grupos em disputa por pontos continuam, como se a própria morte fosse apenas um detalhe. Por isso mesmo que a pena de morte não faz diferença alguma para coibir o crime. Os bandidões do velho oeste já diziam isso no tempo do Jake Grandão: “Posso matar quantos eu quiser, mas só conseguem me matar uma vez“.

O Estado precisa ser o condutor da civilidade. Não se admite que ele esteja não animalizado quanto às pessoas a quem procura educar e proteger. Um Estado matador é medieval e inaceitável, sem falar que os sujeitos que caem nas garras desse governo vingativo são os mesmos grupos de sempre: pretos, pobres, miseráveis, inimigos políticos, etc…

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Violências e gênero

Violencia Mulher

A violência contra as mulheres é uma ferida aberta em nossa sociedade. Ponto. Não há como negar esta realidade e nem é possível colocar panos quentes em uma tragédia cotidiana que tira a vida de centenas de mulheres todos os anos por um machismo violento e desmedido. Por outro lado, eu creio ser possível complexificar a questão, mesmo sabendo que qualquer sujeito que fale da violenta perpetrada PELA mulher será sempre julgado como “machista”, insensível, ou que vê o cisco e não enxerga a trave diante de seus olhos. Porém, quando uma mulher inteligente, aparentemente madura, com curso superior e bom emprego te conta que há 5 ou mais anos apanha sistematicamente do seu parceiro(a) fica a dúvida até que ponto existe uma violência doentia por parte do parceiro e quando, associado a isso, há uma patologia da relação que faz aparecer nela um gozo (não confundir com prazer ou vontade) de apanhar. Estudar este gozo é fundamental para que esta mulher desfaça um sistema de violência que se retroalimenta. Acontece muito com alcoolistas: uma menina testemunha as violências aplicadas na mãe pelo pai durante toda sua infância e quando mais tarde se casa, adivinha quem é o marido? Um alcoolista violento. Ela repete a cena infantil em sua relação adulta.

Dizer que uma mulher participa inconscientemente de um jogo erótico patológico destrutivo NÃO é a mesma coisa que dizer que “ela pediu“, ou que “ela merece“, e muito menos que o parceiro dela está desculpado, perdoado ou é inocente. Significa apenas que ela também precisa ser ajudada para que possa fugir do padrão. Caso contrário ela corre o risco de se separar desse sujeito perturbado e encontrar outro drogadito violento, por nunca ser capaz de entender o que a levara a procurar relações em que sofre e é violentada. Existe um campo de estudo e pesquisa da psicologia (e da criminologia) chamado “vitimismo” que estuda as relações patológicas de pessoas que sempre são vítimas de relações ou situações deste tipo, mostrando haver um determinismo psicológico inconsciente que as leva a se colocar neste modelo de relação. Eu mesmo conheci uma mulher, minha paciente, que namorou três sujeitos na vida, e todos eles acabaram se mostrando no transcorrer da relação como homossexuais, o que pôs fim aos relacionamentos. Ela ficava muito decepcionada e não acreditava como podia ser tão azarada. Nunca acreditei na tese que ela mesmo trazia do azar, mas o caso dela parecia provar um tropismo por trejeitos e manifestações sutis que ela identificava como atrativos, e a surpresa pela descoberta da homossexualidade operava na ordem do inconsciente, ao invés de conscientemente percebido.

A violência das mulheres só é mais branda porque elas são fisicamente e politicamente mais frágeis. No filme  “O Senhor das Moscas” este tipo de ilusão é desfeito não com relação às mulheres, mas com os pequenos. Nós temos a ilusão de que as crianças são “do bem“, anjinhos inocentes e carentes, apenas porque NÃO conseguem fazer muito mal, pela sua fragilidade. Esse filme desmistifica a “candura” das crianças, assim como Freud desmistificou as relações eróticas que elas estabelecem com suas mães.

As mulheres não batem em maridos – ou os agridem com a mesma intensidade e frequência – apenas por serem frágeis e não por serem virtuosas. Esse essencialismo “mulheres do bem, homens truculentos e violentos” é tosco e tolo. Basta até você acompanhar os relatos de violência doméstica para perceber que, em muitos casos, a mulher foi vítima apenas porque era a mais fraca e não porque era moralmente superior, mais calma, ponderada, ou uma vítima silenciosa. Não é justo tratar os homens desta forma estereotipada, porque isso não ajuda a causa das mulheres. Temos que combater a violência contra a mulher sem romantizar estas relações e entendê-las como uma interação patológica de gozos destrutivos, em que ambos tem responsabilidade, mas que uma parte – a mais fraca – corre sério risco de vida.

Quando falamos de minorias como as mulheres (são maioria, mas politicamente e socialmente podem ser consideradas uma minoria) qualquer menção às perversidades femininas – inclusive em uma relação violenta por parte do parceiro – será julgada como “acusar a vítima“, quando na verdade muitas vezes se usa para que fique claro que uma relação é SEMPRE uma dualidade feita da interação de sujeitos, amalgamados e entrelaçados em seus fantasma. Se não é justo absolver os homens das violências e mortes praticadas, também é certo entender que nessa junção de almas existem parcelas de responsabilidade em ambos os sujeitos.

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