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Visita Íntima

Acho curiosas as justificativas de quem defende tratamento violento, agressões, privações, mortes e tortura para internos do sistema prisional. A lógica é sempre a mesma:

“Alguma coisa fizeram”,
“Se tivesse ido a igreja ao invés de assaltar…”,
“Não quer dormir na masmorra, comporte-se”,
“Tratamento humano? E a vítima teve?”,
“Direitos humanos para humanos direitos”,
“Bandido bom é bandido morto”,
“Leva pra casa”, etc…

Também é engraçado ver os defensores dos direitos humanos sendo acusados de “comunistas” e “defensores de bandidos”, quando na realidade estes avanços civilizatórios são conquistas liberais, na justa iniciativa de proteger o cidadão comum do poder imenso do Estado. Sem estas medidas, os Estados teriam poder ilimitado de destruir aqueles que se opõem aos seus interesses.

Os direitos humanos são assim chamados porque se referem à dignidade humana. Isto é: inobstante o delito que tenha sido realizado o Estado não pode agir abaixo da linha da dignidade inata que qualquer cidadão tem por pertencer a está espécie.

“Ahhh, mas o sujeito cometeu um crime bárbaro (estuprou, matou, cometeu genocídio) por quê deveria ser tratado com candura?”

Por uma razão simples: a ação do Estado precisa ser pedagógica. Da mesma forma, uma criança que chuta um adulto não pode receber outro chute como punição. E não é porque a criança é inimputável, mas por ser indigno do ser humano cometer coletivamente um erro que um sujeito solitariamente cometeu. Além disso, não se trata de absolver e sequer perdoar, nem mesmo tratar com carinho e doçura (o que seria bom e produziria benefícios para todos) mas garantir a mínima dignidade que qualquer ser humano merece.

Mais do que isso, e acima de tudo, as medidas violentas contra apenados do sistema fechado são inúteis, ineficazes, indignas e contraproducentes, além de servirem apenas como vingança cruel e estimular sentimentos baixos no povaréu, o mesmo grupo de linchadores que assistia bruxas e punguistas queimando nas fogueiras na idade média.

Penas de morte, prisões perpétuas, tortura, condições sub-humanas de presídios e privação da sexualidade tem o efeito OPOSTO ao que se espera. Ninguém deixa de cometer uma barbárie com medo da pena de morte. Se isso fosse verdade, a pena de morte que existe entre facções do crime organizado faria as chacinas desaparecerem, e o que vemos é o oposto, um ciclo infindável de mortes e vinganças.

É cientificamente comprovado que o distensionamento da sexualidade nos presídios diminui a violência interna e os estupros. Portanto, pedir a extinção desse DIREITO só pode partir de quem se compraz com motins, carnificina, assassinatos, estupros e violência disseminada.

Isto é…. cidadãos de bem.

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Punitivismo

Responda aí: quanto diminuiria de tráfico e consumo de drogas se traficantes fossem presos? Que diferença faz para a sociedade tirar a liberdade de alguém? Quanto diminuiria o consumo de drogas se todos os traficantes fossem para a cadeia?

A resposta é simples: NADA. O punitivismo não produz NENHUM resultado em médio e longo prazos, e existem comprovações claras disso, basta olhar para os Estados Unidos que tem o maior comércio de drogas do planeta e mais de 2 milhões de encarcerados (a maioria, como no Brasil, por delitos ligados às drogas).

No dia seguinte às prisões de todos os traficantes as vagas seriam imediatamente ocupadas por outros “empreendedores”, que é exatamente o que acontece em todas as prisões de chefões do tráfico. Muito cedo tudo se normaliza e o “02” ocupa o lugar do chefão. Nunca se comercializou tanta droga e nunca se prendeu tanto traficante.

Não digo que ações coercitivas não devem ser usadas, mas a crença arraigada de que medidas duras – de prisões a granel às penas de morte – produzem algum benefício não tem respaldo científico e geram barbárie, apartheid social e genocídio, e jamais ordem e/ou desenvolvimento

A ideia de que traficantes presos produziriam alguma vantagem para nós é uma fraude, uma mentira e um engodo. Punir, botar na cadeia, mandar matar são ações INÓCUAS. Nenhuma sociedade se transformou punindo meliantes e marginais. Todas que tiveram esse sucesso civilizatório combateram o crime na fonte, ao criar emprego e oportunidades, através do princípio da justiça social. Enquanto houver iniquidade, miséria e desejo de consumir droga este comércio vai vicejar.

E lembre: consumo de drogas é sintoma de uma sociedade doente e não a causa do seu desequilíbrio. Essa doença é o capitalismo

sou – e sempre serei – contrário ao punitivismo, contra a ideia de que botar gente na cadeia soluciona alguma coisa. Prender o preto e o pobre não funciona tanto quanto não funciona prender o rico; É INÚTIL. Todavia, não resta dúvida que nossa justiça é racista e classista, mas de nada adianta cometer os mesmos erros com os grandes traficantes, quando o certo seria não cometê-los contra ninguém.

Em geral quando debatemos a impunidade do “colarinho branco” existem DOIS problemas que podem estar misturados. Um deles é o punitivismo, a ideia sem embasamento científico algum que uma sociedade que pune, prende e manda matar é uma sociedade mais justa ou equilibrada. Nada poderia ser mais distante da verdade. O outro problema é a seletividade da justiça, o racismo e o apartheid social que aparecem de forma clara nos julgamentos e prisões brasileiras. Confundir isso é um ERRO.

Sim é DUPLAMENTE errado ser racista e ser punitivista, mas não é porque pretos e pobres são presos que devemos estender esse erro para TODA a população, com a falsa ideia de que dois erros produzem um acerto.

Abolicionismo penal JÁ!!

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Corretivos

Eu sei que é piada. Sei que “psicólogos” poderia ser colocado entre aspas. Não quero ser o “problematizador das piadas”. Sei também que entre as pessoas da minha idade é raro ver alguém que não tenha sido submetido a surras ou ao menos umas palmadas, em especial os meninos, já que a cultura dizia que “não se bate em meninas“. (Até nesse aspecto é interessante combater o patriarcado: nesse modelo são os meninos as principais vítimas das sevícias parentais).

Entretanto, não acho mais aceitável a glamorização do espancamento de crianças com a desculpa de que isso produz bons cidadãos, com adequada “castração” e “leais respeitadores das leis”.

O que me deixa abismado é ver a enorme aceitação desse tipo de “pedagogia da violência” entre as pessoas da minha geração. No fórum onde essa imagem foi apresentada a aceitação foi quase unânime. A exceção foi de algumas poucas mulheres que disseram “não apanhei, mas meus irmãos, muito“, e eu.

Crianças que passaram por estas torturas cresceram traumatizados, marcados pela dor, inseguros, raivosos e carregando uma ferida profunda e inconsciente, até porque a fonte de seus males inconfessos é a mesma dos seus amores mais profundos e primitivos, produzindo uma insuportável dicotomia em suas almas.

Crianças que foram surradas por seus pais não são adultos saudáveis; são sobreviventes da dor, cheios de cicatrizes que são obrigados a carregar por toda sua vida. Não há nenhuma razão para se romantizar espancamento infantil, e não é verdade que estes recursos produziram “cidadãos de bem”; sua única função foi criar uma geração de ressentidos que acreditam na violência como solução dos problemas.

Muitas dessas crianças hoje fazem o sinal da arminha ou carregam cruzes flamejantes.

Hoje tenho filhos adultos e netos. E se querem saber, dei palmadas nos meus filhos, mas aprendi que bater em crianças é sinal de fracasso, não ensina nada além de medo, e não produz cidadãos saudáveis e produtivos. Não condeno quem bateu, até porque eu também apanhei; condeno a ideologia da violência banalizada contra os pequenos, como se fosse algo inócuo ou parte do desenvolvimento normal das crianças.

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Serra

José Serra deveria ser preso se comprovado que cometeu crimes?

Se José Serra cometeu os crimes pelos quais é suspeito, que se estabeleça algum tipo de reparação. Combater o primitivismo no judiciário e na cultura não significa aceitar a impunidade, mas imaginar que a retirada da liberdade de alguém deveria ser revestida de uma extrema excepcionalidade, reservada para casos de risco iminente à vida das pessoas.

Todavia, prisão para idosos é pura crueldade e não é solução para nada. Pelo menos no Brasil não é, mas desafio que me apresentem algum país desenvolvido que acredita em encarceramento como remédio adequado para a criminalidade – e que não seja o catastrófico exemplo da sede do Império.

Vou mais adiante: se Serra fosse preso sairíamos todos perdendo. O país, por ter que arcar com acomodações e cuidados médicos de um sujeito depauperado dentro de um sistema penitenciário sem recursos e falido e o criminoso por ser exposto a um tratamento cruel e desumano dentro dos nossos presídios superlotados. Também é digno de nota que este sujeito em especial já é prisioneiro de sua condição de saúde frágil.

Aliás, não esqueçam que não há nada mais à direita no espectro politico – e até fascista – do que desejar que seus adversários sejam presos. Quem é de esquerda é abolicionista penal, recusa o encarceramento como punição padrão para os crimes, tanto quanto é contrário à uma policia militarizada, cruel e genocida. Quem gosta de sair gritando “prendam”, “que apodreçam na cadeia” está infectado por uma ideologia punitivista arcaica, derivada da contaminação por filmes americanos, onde se anda de pistola na cintura, exaltam-se justiceiros e o ícone máximo é a cadeira elétrica.

É preciso amassar esses velhos conceitos e jogá-los na lata de lixo da história.

Por uma questão de justiça eu gostaria apenas de complementar dizendo que, a despeito de erros que porventura tenha cometido, José Serra fez uma excelente administração no Ministério da Saúde, onde plantou as sementes para programas importantes até nos governos do PT, em especial no que diz respeito às políticas de saúde para a mulher e as bases da humanização do nascimento.

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Realidade em preto e branco

Copacabana, anos 70

Mais uma imagem que mostra o apartheid do Rio de Janeiro, e de resto o que ocorria em todo o Brasil. O Rio é uma cidade mestiça, com muitos negros e mestiços, mas a praia sempre foi de exclusividade dos brancos. Os negros e pardos aparecem nestas imagens apenas como serviçais, empregados, trabalhando onde os outros descansam e/ou se divertem.

Para aqueles que diziam não haver racismo nesta época eu apenas lembro que a expressão deste problema social só ocorre quando existe algum tipo de tensão e conflito. Nessa época havia a “paz do silêncio”, quando a questão racial era escamoteada e escondida. Até mesmo os negros sobreviviam se adaptando a uma sociedade que não foi construída para eles, de mulatas do Sargentelli a jogadores de futebol.

Cada um olha para essas imagens e extrai delas o que deseja. Eu não posso evitar o choque de ver a construção racista do nosso país. Não quero abrir polêmica, apenas lembrar do racismo em que vivíamos ao mesmo tempo que sofríamos a repressão de um regime brutal. As imagens concordam comigo.

Mas… sim, como era bom ser branco e de classe média no Rio dos anos 70.

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Educar sem telas

Para mim o debate “educar sem telas” é semelhante ao debate “educar sem violência” com o qual convivemos nas duas últimas décadas, pelo menos. Quando este assunto surgiu no nosso meio as reações eram muito semelhantes. Achava-se inviável; argumentava-se que as pessoas não conseguiriam impor “respeito”, prevenir “erros” ou evitar “mau caminho” sem que fosse usada a força e – mais do que isso – a violência, que é a força usada para submissão. Há 30 anos acreditava-se que sem as palmadas seria impossível educar e colocar as crianças nos “eixos”.

Não há dúvida que a palmada funciona. Sua eficiência é incontestável. Uma criança que apanha aprende a se calar diante da força bruta, baixar a cabeça e obedecer. Criamos gerações de homens e mulheres ensinados a ver no uso da violência uma solução para dilemas e embates. O resultado vemos agora.

Todavia, cabe perguntar: o que conseguimos com isso? Resposta: uma sociedade que reproduz estas ideias.

Sobre as telas, apesar de serem agressões diversas, a mesma lógica pode ser aplicada. É inegável que um celular e um tablet com jogos e músicas hipnótica “funcionam”, assim como a TV igualmente funcionou para a minha geração. As crianças entorpecidas pelas cores, imagens e sons param de observar o mundo ao redor e focalizam no jogo. Entretanto, cabe mais uma vez perguntar: a que custo? As mesmas perguntas sobre o uso abusivo de TV agora recaem sobre os pequenos computadores de mão.

Pesquisas já mostram inúmeros malefícios com seu uso em termos de cognição, aprendizagem e questões afetivas. Por certo que a limitação do uso é um grande desafio, em especial porque não temos mais as mães do passado que devotavam toda a sua vida a cuidar dos filhos. Hoje são mulheres ativas com múltiplas funções e tanto elas quanto os pais sofrem a sedução cotidiana de oferecerem uma tela aos filhos como “tempo de descanso” para quem os cuida.

Esta é, por certo, uma decisão extremamente complexa, mas não há mais como – a exemplo das palmadas – questionar os malefícios da exposição superlativa. Organizar a melhor forma de disciplinar o (inevitável) contato é a grande decisão a ser tomada.

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Cadeia

A camiseta dessa moça é a grande ironia, que ninguém imaginava que viesse ocorrer. A diferença é que o presidente não vai usar uma camiseta “Sara está presa”, muito provavelmente porque – é possível e eu acredito – os mais de 500 dias de Lula na prisão o ensinaram sobre o erro gigantesco de sua gestão carcerária. Lula, por certo, não acredita mais no encarceramento como solução para as tensões sociais e a criminalidade. O aumento da massa carcerária nos governos Lula e Dilma (imitando o mesmo fenômeno nos governos “liberais” dos Clinton) é uma mácula que os próximos governos progressistas precisam eliminar.

Encarceramento = racismo.

Sara Winter não deveria ser presa. Deveríamos estabelecer medidas sérias e bem controladas de reparação social. Cadeia e perda da liberdade apenas para assassinos e perversos, gente cuja presença na sociedade é uma ameaça REAL à vida de outras pessoas. A prisão de Sara apenas reforça o punitivismo tacanho que caracteriza o nosso judiciário.

Sara provavelmente tem problemas mentais e emocionais graves, como fica claro em sua biografia, mas é apenas uma bufona, não representa um real perigo com seu exército Brancaleone. A sua prisão tem um interesse midiático, para reforçar a autoridade de um STF acovardado e pusilânime, mas foi quase um pedido explícito de Sara. Ao ver seu projeto de milícia fracassar, só lhe restava a imolação pública como propaganda final. Queria ser heroína, e para alguns será…

As esquerdas deveriam desconfiar sempre que sua alegria está vinculada a uma decisão do judiciário politizado e partidário que temos. Lembro (faz pouco tempo) de figuras das artes com cartazes de apoio a Bretas, ou de artistas da Globo dando suporte a Moro. Nosso judiciário tem lado, e não é o das esquerdas. Festejar suas decisões apenas por diversão é um erro estratégico. A prisão espetaculosa de Sara pode ser amanhã a de um líder do MTST ou do MST, bastando para isso que um juiz do STF acorde de mau-humor.

O discurso tão usado do “bota na cadeia” é um apanágio da direita. As pessoas que usam estas expressões por certo que não fazem ideia do que seja uma penitenciária no Brasil. Nunca se deram ao trabalho de ver a foto de uma cela superlotada e nunca estudaram o terror que é sobreviver nas condições desumanas de uma prisão de terceiro mundo. Jamais questionaram o preceito básico do direito penal que afirma que “nenhuma pena pode ser pior que o crime cometido”. Mas… o que pode ser pior que o inferno? Aliás, foi um general ignorante e racista, truculento e boçal, quem imortalizou a brutalidade da ditadura militar no Brasil, exclamando: “eu prendo… e arrebento”.

Prender, colocar na cadeia, aprisionar e encarcerar sempre foi a narrativa da direita, em especial da extrema-direita e do fascismo. Sei também que os totalitarismos da cortina de ferro também usaram desse artifício. São estes tiranos que exaltam o poder coercitivo do Estado para estraçalhar as dissidências na busca por um pensamento único. Todavia, eu esperaria da esquerda um passo adiante, rompendo o ciclo nefasto do “vigiar e punir” e acabando com a arbitrariedade das prisões determinadas pelos interesses ou pelo ódio do juiz, como assistimos na Lava Jato.

Entretanto, nosso rancor (compreensível) ainda vai manter o enredo. Agora é nossa vez de sair às ruas gritando “Sara está presa”, dando risadas do seu infortúnio e fazendo chacota, sem perceber que mantemos o círculo do ódio girando, só esperando a vez de nos atacar mais uma vez. Tolamente, colocamos nas mãos de juízes e promotores venais o poder discricionário de quem sofrerá a humilhação e o horror de adentrar os calabouços deste país. E, vale sempre a pena lembrar, a pena pesa sempre muito mais se você for de esquerda, preto e pobre.

Valha-me Valois…
Salve-nos Kenarik…
Nos ajude Igor Leone.

Abolicionismo penal já!!!

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Tragédias cotidianas

Não quero ler sobre esse fato do menino que faleceu aqui no Estado. Escutar os relatos me causa dor e angústia. Parece muito com aquela outra historia, igualmente brutal, do menino do Norte do estado, cujo pai é um cirurgião. Muito triste, muito desesperador.

Pior ainda é o fato de que a gente acaba se revoltando, sentindo raiva e indignação, mas o ódio é um ácido que corrói o próprio frasco que o contêm. Odiar é destrutivo, envelhece o corpo e calcifica a alma.

O que se segue a esses crimes é quase tão ruim quanto a morte em si: uma onda de identificações, ódio, ressentimentos eruptivos, raiva incontida e sentimentos de vingança. Esse clima é horrível. Eu lembrei agora imediatamente do julgamento dos Nardoni quando pessoas saiam de suas casas e iam para a frente do fórum com cartazes de “assassinos”, “pena de morte”, etc. Eu pensava: “O que move essas pessoas? Sãoo pessoas comuns, que souberam do caso pela TV!! Que gozo condenatório é esse?“. Depois eu pensava na turba ensandecida que gozava vendo os leões comendo criminosos no Circus Romano ou gargalhava olhando as bruxas sendo queimadas pela inquisição e penso que tais personagens continuam a existir nos dias de hoje, com cartazes no lugar de archotes, mas com a mesma raiva doentia a escorrer pelo canto da boca.

Pelo menos agora vejo pessoas se perguntando “o que leva uma mulher a cometer um ato de tamanha violência?“. Pois esta pergunta, que nos impele à empatia, é o que nos livra dos dedos apontados, da dureza, da inexorabilidade. Tentar se colocar nos sapatos de um criminoso e perceber o mundo através de seus olhos é uma tarefa tão difícil quanto sublime.

Espero apenas que esse menino tenha paz e essa mãe a justiça.

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Argumentos sobre o abraço

De todos os argumentos para defender a atitude de Dráuzio existem dois com os quais não concordo, mas que são usados por gente da esquerda amiúde.

O primeiro se refere à ideia de que Dráuzio não sabia o crime cometido por Suzy – no que eu acredito. Entretanto, as pessoas afirmam que, caso soubesse, não deveria fazer a matéria. Pois eu discordo. É exatamente nos extremos da perversidade onde encontramos a face mais terrível do ser humano. E o que mais nos causa horror é que nesse recanto sombrio da alma humana sempre encontramos um espelho. Se Dráuzio se negasse a abraçar por saber do crime, estaria sendo o juiz que insistiu em não ser.

Em segundo lugar vejo as pessoas dizendo que Dráuzio estava ali como médico. Ora, é evidente que não. Dráuzio é médico, mas sua ação NÃO foi médica, foi jornalística. Sua atitude como funcionário da Globo foi realizar uma reportagem, não uma ação profissional médica. Uma consulta médica não se propõe a ser espetacular e pública. Também não se presta a ser “Fantástica”, mas procura garantir intimidade, profundidade e – essencial!! – privacidade. O objetivo da entrevista não era semiótica, no sentido de descobrir causas e auxiliar um paciente em suas dificuldades, mas procurava expor um problema comum de prisioneiras trans. Dráuzio foi jornalista – como tantas vezes foi – mas não o médico de Suzy naqueles momentos em que ocorreu a matéria.

Pode-se arguir que ele se portou como “cientista e pesquisador”, mas mesmo neste caso ele falhou terrivelmente ao expor seu entrevistado ao risco. Mesmo nas entrevistas de pesquisa os colaboradores precisam ser protegidos através do anonimato. Suzy agora corre riscos na penitenciária por ter seu passado exposto. Cientistas pesquisadores sequer precisam ser médicos para coletar dados.

O abraço de Dráuzio não foi uma ação de um médico; foi um ato humano de empatia, compaixão e afeto. Não julgar não é uma virtude médica, mas uma ação humana digna de elogios.

Eu tenho facilidade em desenvolver empatia com todos esses bandidos cujos rostos são estampados nos telejornais para o gozo do ódio coletivo. A razão para isso é porque – sem dúvida alguma – eu não me considero muito diferente deles. O que nos difere – a mim e aos criminosos – é uma série de pequenos e grandes privilégios, alguns evidentes e outros escondidos nos detalhes de uma vida. Um pai existente, um teto, água corrente, energia eletrica, uma mãe amorosa, irmãos, ética, livros, bons exemplos, escola, comida… enfim, detalhes que só nos ocorrem quando os perdemos.

Quando eu vejo essas pessoas, os deserdados, os párias, os feios, sujos e malvados, honestamente não consigo enxergar nada de tão distante do que sou em essência, apenas diferenças nas rotas que seguimos guiados pelas circunstâncias e pelos contextos.

Acho que o ódio ao criminoso fala muito mais das nossas fraquezas e fragilidades do que das perversões que ele cometeu.

Continuarei achando sua atitude humana, correta, justa, afetuosa e compassiva. Entretanto, ele não a fez por ser um profissional médico, mas por ser um bom ser humano.

Claro que Suzy é TAMBÉM vitima!!!! Que maniqueísmo insensato!! Parece pergunta pra casal que se separa: “de quem foi a culpa?”.

Ora, todos somos vítimas e algozes de muitas coisas na vida. Um casal, via de regra, se separa por uma miríade de fatores, onde as posições subjetivas se alternam entre a vítima e o opressor, atuando com mudos silêncios, raivas, decepções e solidão que ambos compartilham. Um crime horroroso também tem suas origens, muitas vezes recheada com fatos obscuros e inconscientes.

Suzy é vítima do preconceito por ser trans, gay, pobre, negra e marginal. Mas ao mesmo tempo é CRIMINOSA por ter cometido um crime hediondo que a muitos chocou. Vítima e criminosa, qual a dificuldade de entender que somos seres com múltiplas facetas?

O erro infantil de uma parte vingativa da direita bolsonarista é imaginar que sua condição de vítima a desculparia dos erros cometidos. Que tolice!! Apenas mostra que erros – mesmo os mais brutais – podem ser a culminância de uma corrente gigantesca de circunstâncias, contextos, traumas, dores, ressentimentos, violência e dramas terríveis, dos quais a nossa vidinha de classe média não nos permite sequer imaginar.

O fato de ela também ser vítima de inúmeros crimes cometidos contra si não a inocenta de nada, mas a humaniza.

O problema do crime da Suzy e sua questão central, como sempre… é o perdão. A imensa maioria das pessoas acredita que perdoar alguém é o mesmo que inocentá-lo dos seus crimes. Errado; perdoar não significa negar crimes ou minimizar sua gravidade. Perdoar é um ATO SOLITÁRIO e subjetivo. Para além disso, o ato de perdoar é uma demonstração de liberdade em relação ao criminoso.

Quem perdoa de verdade está simplesmente dizendo: “Eu lhe entendo. O que há de humano em mim compreende o que há de humano em você”. Isso jamais significaria negar a violência de um crime, muito menos a reparação que tais crimes demandam. Significa apenas que a distância humana que separa qualquer um de nós do mais doentio dos criminosos pode ser colocada em perspectiva. Somos muito mais parecidos entre nós do que imaginamos. Assumir posturas duras e inexoráveis é criar a ficção arrogante de que jamais faríamos o que um criminoso faz – ou um dia fez.

Mentira. Se cada um tivesse andado mil quilômetros calçando as sapatilhas desses meninos sem pai, sem paz, sem proteção contra os abusos, sem amor, sem afeto, sem condições econômicas mínimas e ainda envoltos em uma sociedade que premia o sucesso e despreza o fracasso, jamais teria coragem de apontar tantos dedos para quem sucumbiu ao crime e ao delito.

Portanto, o perdão é o reconhecimento humilde da proximidade que temos com os que caíram no abismo do crime. Abraçar um estuprador ou assassino significa mais do que dizer da nossa solidariedade com sua solidão e sua dor; significa também aceitar a fragilidade das diferenças entre nós e o detento, entre as “pessoas de bem” e os criminosos.

A recusa em entender isso significa não apenas a dificuldade em compreender o que leva alguém a delinquir, mas também a incapacidade de reconhecer a proximidade humana que todos temos com quem erra.

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Vacinas à jato

Está todo mundo comemorando um remédio produzido às pressas, sem controle, sem avaliação de segurança, sem padrões mínimos de efetividade garantida e após uma onda de desinformação e pânico mundiais que foi no mínimo “estranha”? Isso me lembra o Tamiflu, que gerou milhões de dólares para a empresa farmacêutica do Donald Rumsfeld, e que agora sabemos tinha a mesma eficácia do AAS…

Não acham que estão comemorando um “negócio da China”, mas não para nós? Quem vai lucrar com o nosso medo, mais uma vez?

Lembram da pílula do Câncer que foi detonada até no Fantástico por não seguir as normas e os tempos determinados pela boa pesquisa médica para um uso seguro e uma eficiência comprovada? Pois agora, os mesmos que detonaram seu uso saúdam quando em poucos DIAS uma empresa israelense avisa que tem uma vacina para o corona vírus.

Coerência, Senhor, coerência.

Parece que o que vale mesmo são os zilhões de dólares de lucro pela venda de uma droga sem eficácia ou segurança comprovadas que chega ao imaginário popular após uma “campanha” muito consistente de pânico mortal pelos inimigos invisíveis de sempre. Primeiro instala -se o pânico; depois vende-se a cura sem nenhuma comprovação, apenas premidos pela urgência. Antes foi o Tamiflu a enriquecer muita gente, agora serão vacinas feitas nas coxas.

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