Sonhei que minha mãe me dizia uma das suas expressões prediletas em francês. Chegou-se perto de mim e sussurrou ao meu ouvido – como só as mães sabem fazer.
– “Joie de vivre”…
Afastou-se um pouco e, olhando nos meus olhos, sorriu como se tivesse me contado o maior de todos segredos. Arregalou suas sobrancelhas finas como a dizer: “agora que sabes, o que vais fazer?” Minha mãe sempre teve como uma de suas marcas mais salientes a “alegria de viver”, que poderia ser traduzida como um encantamento pela oportunidade de estar aqui, viva, convivendo com todos, enxergando beleza em tudo e todos e não permitindo que os detalhes – grandes ou pequenos – a impedissem de ser agradecida pela dádiva da existência e do convívio. Era uma otimista irrecuperável, capaz de enxergar ensinamento tanto nos pequenos fatos cotidianos quanto nas grandes tragédias da humanidade. Ela carregava consigo esta marca, a inefável alegria de viver e de conviver. Ela sempre foi o melhor contrapondo ao caráter sério, sisudo e reservado do meu pai, mas apesar disso ela o adorava, como quem adora um ídolo do cinema. Esta é, aliás, uma marca que me conecta ao meu pai: somos ambos pouca areia para o caminhão que o destino nos ofereceu.
Herdei os traços da minha mãe e o caráter fechado e caramujístico do meu pai. Se fosse possível escolher gostaria de ter recebido dela o “joie de vivre”, a exaltação da beleza pura, a alegria de acordar cada manhã e saudar a oportunidade de compartilhar a vida em todo seu esplendor com quem nos acompanha. Uma pena não conseguir ser dela o espelho que gostaria.
Quando vejo elementos da direita apontando incoerência na esquerda que aplaude os ataques do STF a Bolsonaro, eu acho bom esclarecer qual a nossa postura.
O STF é uma instituição BURGUESA e CONSERVADORA. É composta de liberais que estão lá para proteger os privilégios das camadas superiores da burguesia e das elites financeiras. O STF, por covardia ou interesses escusos, foi responsável pela prisão injusta, covarde e cruel de Lula, mudando o resultado das eleições presidenciais de 2018. Não há como perdoar ou esquecer este fato.
Antes disso se calaram diante das ilegalidades do golpe contra Dilma. São responsáveis diretos pela tragédia bolsonarista de agora. São medrosos até a medula, e Lula disse isso com todas as letras durante a crise de 2016, que poderia ter outro resultado não fosse a atuação de oportunistas como Gilmar e Rosa Weber, entre outros.
A esquerda conhece muito bem a função do STF de proteger os capitalistas e a burguesia. Só os tolos se enganam com os acenos civilizatórios de Alexandre Morais. Ali o que funciona é o espírito de corpo, com o objetivo claro de salvar a si próprios, e não a nação ou a justiça.
Não há ilusão alguma com essa turma, valentes protetores do capitalismo e das elites. Mas… não há porque não comemorar que no esforço de protegerem a si mesmos eles resolvam jogar o crápula do presidente aos leões. Não há nenhum “esquecimento” do papel por eles prestado ao golpe . Temos vivo na memória o papel deplorável do STF na farsa do “impeachment” golpista e sem crime de responsabilidade contra Dilma e depois o impedimento de concorrer e a prisão espúria e criminosa de Lula. Tudo à margem da lei.
Sempre criticamos no passado e continuaremos a criticar agora. Não esqueçam que esse esperneio do Alexandre Morais é apenas porque ELE se sentiu ameaçado, e não porque teme pela constituição e a democracia que deveria proteger. Se esses ministros tivessem respeito à constituição Lula jamais seria preso porque está EXPRESSO na carta que ninguém pode perder a liberdade sem o trânsito em julgado.
Se alguém ainda tinha dúvida sobre prisão em segunda instância, pense no quanto isso pode ser usado para perseguições políticas. Lula está sendo inocentado de todas as suas acusações em instâncias superiores. Já foram 17 absolvições em acusações infundadas e oportunistas. Ficou preso por mais de 500 dias e deixou de comparecer ao enterro do irmão por causa de uma pena inventada por um juiz corrupto. Quem recupera agora este tempo? Quem paga pela liberdade que lhe foi tirada? Quem paga pelos seus 500 dias de prisão injusta????
Tenho total concordância com o Fernando Schuler, em especial no que diz respeito à sua crítica aos identitários e sua “reivindicação do absoluto”, mas principalmente na defesa da “primeira emenda” perdida, ou o direito supremo de defender publicamente suas perspectivas de mundo, sejam elas cesarianas para todos, ivermectina, poliamor, cannabis, monogamia, Bolsonaro, vacinas, parto humanizado, Lula, esquerda, direita, Deus ou Abraxás.
Sim, há limites, como aparece muito claramente no paradoxo de Popper. Não podemos fazer da tolerância a nossa fragilidade e assim permitir que os intolerantes usem dela para impor a todos sua intolerância. A liberdade precisa de salvaguardas. Entretanto, eu não posso aceitar que ministros do STF ou juízes de plantão determinem se o que digo e escrevo é certo ou errado, se há estudos suficientes, se alguém ganha dinheiro com estas ideias, se influencio muitas pessoas ou se minha opinião ofende alguém. Não podem ser eles os avalistas de todas as verdades.
O risco de ofender é inerente à liberdade de expressão, e ninguém pode ser culpado por atingir elementos subjetivos de alguém, ou valores circunscritos a determinados grupos. É inadmissível que a justiça seja a “patrulha dos sentimentos feridos” e também por isso as decisões que ressuscitam – de forma dissimulada – a censura são preocupantes. Agora atingem fanáticos de extrema direita, mas amanhã poderão atingir qualquer sujeito que defenda teses contra-hegemônicas.
Uma sociedade plural precisa conviver com diferenças. Se um sujeito ou organização dissemina mentiras então que seja aberto um processo com a garantia de ampla defesa para avaliar a inverdade disseminada, seus impactos e – caso seja confirmada – a sua punição. Todavia, as justificativas apresentadas para o fechamento dos canais de direita não me parecem democráticas.
Para a esquerda eu digo: festejar estas atitudes do Alexandre Morais, do Bonner, de juízes comuns, do Facebook, do Google ou de instituições do Estado é como alimentar corvos; mais cedo ou mais tarde eles te comerão os olhos. A mesma mão que arbitrariamente bate na direita hoje amanhã atacará a esquerda por motivações puramente ideológicas. A história deveria ter nos ensinado melhor.
Ela deu, o cara “comeu”. Ela se entregou. O cara tá pegando. Ela deu mole. Ele ganhou a garota. Ela cedeu. Ela “perdeu” a virgindade. Ele faturou.
Dentro do patriarcado o sexo é sempre algo em que um toma do outro. Um mercado. Parte da ideia de que a mulher “dá” algo e não recebe nada em troca no sexo – só em valores secundários. Já o homem toma algo e nada oferece. Ele não “dá” e não é “possuído”.
Ainda imaginamos o sexo heterossexual como uma via de mão única, como se o desejo e o prazer femininos fossem inexistentes ou irrelevantes. Uma cultura verdadeiramente puritana e hipócrita que objetiva cercear a livre expressão da sexualidade e da cumplicidade de ambos. Por isso “vá se ph*der” continua sendo um xingamento, quando poderia ser tão somente um convite ao prazer, à alegria e ao contentamento para aqueles que queremos bem.
É curioso ver o quanto o humor é atacado nos tempos atuais, em especial porque em tempos de identitarismos e de cancelamentos os próprios humoristas tiveram que refrear sua propensão a fazer piadas sobre tudo e todos. A grande queixa é que o humor “pode ferir as pessoas” e os humoristas não deveriam fazer de sua arte uma arma para gerar sofrimento, exclusão, preconceito e divisões.
Parece justo, desde que se entenda a diferença entre piada e “humor bullying”. Existe entre elas uma diferença muito grande que poucas pessoas – até mesmo por oportunismo – se negam a ver. É possível – e eu diria, é necessário – fazer piada com QUALQUER coisa. Sim, inclusive mortes de crianças, câncer, tragédias e até abusos, desde que o texto do gracejo respeite o CONTEXTO. A piada não pode ser o veículo que carrega o preconceito. Ela não pode ser usada para que uma mensagem obtusa, excludente ou claramente ofensiva seja levada adiante sem pagar o preço de uma posição aberta e estampada. “Ah, relaxa, é só uma piada”, frequentemente é usado para esconder uma manifestação de puro racismo, sexismo, lgbtfobia, preconceito de classe, etc. O humor não deveria se prestar para isso, mas para quebrar a arrogância que cada um constrói sobre si mesmo ou o grupo ao qual pertence.
O HUMOR É SAGRADO e eu não acho que existam etnias, gêneros, comportamentos ou orientações sexuais que possam exigir isenção à acidez natural e benéfica de uma piada. Um chiste humaniza a todos nós, mostrando nossas quedas, falhas, desacertos e aspectos ridículos. Nos reinos antigos o Menestrel tinha pleno direito de fazer gracejos com o Rei e sua família, porque assim humanizado o povo se sentia mais próximo dele – e assim podia ser mais facilmente manipulado e roubado.
Portanto, creio ser importante garantir o direito à piada, ao gracejo e ao humor… sobre QUALQUER coisa, sem limites (a não ser os legais, se houver) e sem censura. Como diria um famoso piadista americano quando perguntado se era possível fazer piada com “câncer infantil”, sua resposta foi excelente: “Claro que pode, mas é melhor que seja muito boa”. Ele dizia que tocar em um ponto tão delicado como este para fazer humor é possível, mas é importante que a qualidade da piada e seu contexto sejam tão bons a ponto de romper a barreira que naturalmente usamos para nos defender destes temas.
Aliás, para mim um dos piores tipos de exclusão em um grupo é saber que meus iguais se negam a fazer gracejos a meu respeito apenas porque acham que minha condição – seja ela qual for – me impediria de rir de mim mesmo.
Creio que está certo; o amor romântico é tão somente um aspecto do amor, a sua face mais dramática, pois dele depende a manutenção da espécie. Mas ainda creio que os amores são todos derivados de um único ato primordial: o amor de uma mãe pelo seu filho, de onde todos os outros são derivados. Qualquer um deles pode ser traçado retrospectivamente até chegar nos momentos que se seguem nossa expulsão do útero onde, perdidos e desamparados, somos acolhidos pelas duas estrelas brilhantes dos olhos de nossa mãe. Ali surge toda a transcendência e toda a tragédia humana.
Philippe Adriel, “The unknown Realm of Love”, ed Priscas, pág 135
Philippe Adriel é um psicólogo belga, nascido em Bruges. em 1970. Escreveu vários livros sobre amor, sexualidade, relacionamentos e separações. Seu livro “A crise Monogâmica” vendeu mais de 1 milhão de cópias e foi traduzido para várias línguas. Outros títulos de sua autoria são “Perdendo tudo, inclusive o Medo”, “Pais separados”, “Fora do Mercado – guia para adultos divorciados”, “Cabo de Guerra – guarda compartilhada e criação de filhos” entre outros. Mora em Bruxelas com sua parceira Amy e seus filhos Marcel e Antoine.
Eu acho que o ódio às esquerdas (leia-se ódio à justiça social) é uma patologia digna de figurar no DSM – o código internacional de doenças. Claramente se manifesta pelo rechaço a tudo que é popular, que parte do povo, que tem cheiro de gente e que procura escutar o país como num todo, e não apenas os desejos de sua faixa média burguesa. Entre os sintomas dessa patologia está a classificação de todo líder emergente das faixas “inferiores” como “líder populista”, que seria um mentiroso, dissimulador, falso, mercenário e com uma agenda escusa de vantagens pessoais e corrupção. Um exemplo disso é a placa encontrada numa manifestação de direita onde se lia: “País sem corrupção é país onde rico manda, pois quem é rico não precisa roubar”. Claramente a ideia é de que um candidato do povo só poderia estar no poder para roubar…
Um sintoma dessa rejeição é a narrativa atual de que todos os que defendem Lula são “fanáticos”. Afinal, se ele é “ladrão”, só o fanatismo poderia nos fazer entender esse apoio. Entretanto, essa parcela da pequena burguesia hoje sente vergonha do profundo desastre ocorrido no governo Bolsonaro em todos os níveis: econômico, jurídico, ético e na imagem internacional do país. Em função disso, não aceitam Lula e seu odor de povo e também não querem se ligar ao horror anti civilizatório de Bolsonaro-Guedes.
É desse caldo que nasce o “nem Lula, nem Bolsonaro”, que nada mais é do que a “terceira via”, ou a viabilização de um candidato que burle essa dualidade não mudando nada na estrutura racista e classista da nação. Por isso a procura desesperada por um candidato que seja a cara do Centrão: homem, branco, burguês, rico e que guarde equidistância com PT e Bolsonaro, mas que seja bem visto pela elite exploradora e os militares oportunistas.
A terceira via, pela clara polarização e o clima de guerra que Bolsonaro sempre apostou como modus operandi da sua gestão, acabou por se inviabilizar e finalmente morrer de inanição. Não há como – agora – oferecer uma alternativa que impeça a eleição plebiscitária que teremos à frente. A terceira via morreu no primeiro dia do governo Bolsonaro, quando ele avisou que seu governo seria baseado no confronto, mas ainda há aqueles que tentam revivê-la gritando e chorando ao lado do seu corpo em decomposição.
Na minha perspectiva ocidental Xador, Amira e Hijab são praticamente iguais, mas depois aprendi que o Xador cobre o corpo inteiro, e a Amira não permite aparecer nenhuma parte do cabelo. Já o Hijab permite que se veja um pouco do cabelo frontal. Existe diferenças no formato para além da cor apresentada na imagem acima. Entre os mais conservadores a Arábia Saudita wahabista e (minha surpresa) o Paquistão.
Nesses países muçulmanos apenas 4% das mulheres não usam véu – mas no Líbano metade das mulheres já não o usam. Quase metade usarão Amira, mas a burca (tão condenada por nossas bandas) não passa de 2% das mulheres, e mesmo na Arábia Saudita mal passa de 10% de uso. Entretanto, recheamos nossas críticas ao mundo islâmico com esses estereótipos que estão longe de mostrar a diversidade do Oriente.
Às vezes – guardadas as proporções – vejo críticas ao islã que partem de generalizações miseráveis. Quando dizem que nos países muçulmanos as “mulheres são obrigadas a usar burca” eu imediatamente imagino um iraquiano olhando uma foto do Rio Grande do Sul e comentando “Pobres brasileiros, obrigados a usar bombacha. Deve ser horrível vestir isso na floresta amazônica”.
No passado recente – e com marcas até hoje em dia – a expectativa era que as mulheres se mantivessem casadas para garantir a estrutura da família (célula máter e blá, blá, blá) e o patrimônio. Não eram corajosas ou guerreiras, eram apenas vítimas de um silêncio (auto)imposto pela estrutura patriarcal da sociedade. Casamentos longos são fetiches dessa cultura, ligados ao mito do amor romântico.
Não vejo vantagem alguma em manter-se um casamento – ou qualquer outra sociedade – apenas para dar conta dessa união para a sociedade; se não houver mais nada de positivo a unir o casal, que se separem.
Talvez a única coisa que a taxa de divórcios pode mostrar em uma determinada cultura é a maior ou menor liberdade dos sujeitos para tomar decisões sobre a sua sexualidade.
Os botões coloridos na parede ao lado das portas de aço se apagaram, sinalizando a chegada do elevador. Apertei o 12, que era o meu andar, enquanto cantarolava mentalmente uma música que havia me contaminado desde a manhã ao acordar. Depois de um dia intenso de trabalho esperava chegar ao meu quarto de hotel, ligar para casa, tomar um banho e dormir o quanto fosse possível. Minha apresentação seria à tarde, mas queria assistir o trabalho dos colegas desde cedo. Segundos antes da porta metálica se fechar, minha colega Kathleen entrou mantendo a porta aberta com a mão esquerda, enquanto com a direita carregava a pasta da conferência.
– Olá, Kathy. Tudo preparado? Que pensa desse seminário? Acha que será bom?
– Creio que sim, mas não é o que me preocupa agora
Kathleen era uma mulher grande, corpulenta, sensual e sempre fez um estilo sedutora, “femme fatale”. Na minha imaginação era “Jessica Rabbit”, capaz de deixar alguns homens tontos com sua presença. Não há como negar que desde que os conhecemos eu também senti atração por ela… quem não? Não apenas pelas suas curvas voluptuosas, mas por sua inteligência e sua imposição diante dos debates da nossa área. Física quântica não é um campo em que mulheres são frequentemente vistas como diretoras de institutos, muito menos como articulistas, escritoras e palestrantes reconhecidas. Por certo que a mistura de sua competência específica em nossa área e a presença física impositiva e voluptuosa mexiam com a imaginação de qualquer um de nós.
Kathleen era uma mulher grande, corpulenta, sensual e sempre fez um estilo sedutor, “femme fatale”. Na minha imaginação era “Jessica Rabbit”, capaz de deixar alguns homens tontos com sua presença. Não há como negar que desde que a conhecemos eu também senti atração por ela… quem não? Não apenas pelas suas curvas voluptuosas, mas por sua inteligência e sua imposição diante dos debates da nossa área. Física quântica não é um campo em que mulheres são frequentemente vistas como diretoras de institutos, muito menos como articulistas, escritoras e palestrantes reconhecidas. Por certo que a mistura de sua competência específica em nossa área e a presença física impositiva e voluptuosa mexiam com a imaginação de qualquer um de nós.
Kathleen acabara se tornando minha amiga quando da publicação do meu primeiro livro “A Física Tal Qual a Imaginamos”, que recebeu boas críticas dos colegas e uma indicação para o “Quantum Awards”. Por esta época acabamos nos tornando correspondentes e trocamos muitas ideias sobre o decaimento radioativo, as quais acabaram sendo um enorme estímulo para a publicação do meu segundo livro “Afinal, qual é a do elétron?”, baseado nos trabalhos de Werner Heisenberg e Paul Dirac, dois gênios da física quântica que desenvolveram suas próprias estratégias para compreender o comportamento do elétron. Minha abordagem era, a exemplo deles, totalmente diferente daquela de Schrödinger, que apostava tudo na centralidade das ondas para descrever o comportamento do elétron, enquanto Heisenberg e Dirac buscavam uma formulação mais abstrata, prescindindo de uma imagem ondulatória visualizável — mesmo fornecendo resultados igualmente exatos. Por essa amizade e conexão que surgiu de nossas mútuas concordâncias profissionais, eu solicitei a ela que escrevesse a orelha do meu último livro, o que ela fez combinando uma espetacular capacidade de síntese com a sensualidade que expressava em cada palavra que saía de sua boca, inexoravelmente emoldurada por um batom carmim.
“Para vocês, que sempre desejaram dar uma voltinha à bordo de um elétron, embarquem nessa viagem emocionante ao lado de Ray Olson, e eu garanto que a travessia será excitante e absolutamente inesquecível.”
Para muitos, a frase da orelha do livro seria suficiente para fechar a questão. “Ela está a fim de você, garoto. Não seja tolo”, muitos (e muitas) me disseram. Não nego que, nas conversas no meio da madrugada – enquanto eu escrevia textos e corrigia provas, e ela preparava seminários para seus alunos na Faculdade de Física – rolou sedução nas conversas, mas de uma forma quase juvenil. Não há dúvida que, para um homem mais velho, ser elogiado por uma colega mais jovem e brilhante é sempre algo capaz de envaidecer. Entretanto, essas coisas para mim têm um limite bem claro; não me aventuro a procurar o fim do buraco do coelho exatamente porque reconheço que não terei como achar o caminho de volta. E, por certo, meu casamento com Jill tinha finalmente encontrado um platô de serenidade após vários anos. Depois de turbulências e desencontros, muito em função da morte de Laura, nossa filha recém-nascida, finalmente havíamos encontrado um pouco de tranquilidade a ponto de até nos aventurarmos a reencontrar uma intimidade quase perdida. Mas, inobstante estes sentimentos, houve durante esse tempo de conversas a curiosidade de saber se a admiração de Kathy estava restrita aos aspectos intelectuais ou se, por baixo daquele cabelo comprido e das unhas vermelhas, havia um corpo com algum interesse erótico em mim.
– E qual seria essa sua preocupação? perguntei, enquanto a porta do elevador lentamente se fechava.
Sua resposta foi seguida de um movimento brusco em minha direção.
– Você…
Dizendo isso, segurou minha cabeça com a mão e beijou meus lábios com força, e os percebi serem abertos com a voracidade de sua língua quente e ágil. Sem saber o que dizer — como se fosse possível — cedi momentaneamente aos seus avanços até perceber que eu estava na posição da donzela surpreendida pelos avanços do homem vigoroso de atos impulsivos. Essa reversão de papéis me chocou de forma imediata, mas com surpresa me senti na pele de milhares de mulheres cujos beijos foram roubados, distâncias foram rompidas com energia e cujos corpos foram envolvidos por mãos ávidas e sorrateiras.
O elevador fez um clique ao passar pelo segundo andar. Por um instante absurdo, pensei em nós dois como um sistema fechado e indeterminado, os dois estados possíveis — ceder, recusar — coexistindo com a mesma amplitude, sem que nada no universo tivesse ainda decidido qual deles seria real. Foi então que vi, com o canto do olho, a bolinha vermelha subindo devagar no painel ao lado da porta. Uma câmera. Bastou a possibilidade de estar sendo observado para que a superposição desabasse: não existe sistema quântico, por mais delicado, que sobreviva ao olhar de um instrumento de medição. Minhas mãos afastaram Kathy de mim antes que eu decidisse afastá-la — o colapso veio primeiro, a vontade depois, como sempre acontece quando alguém mede alguma coisa que preferiria continuar indefinida.
– Desculpe, Kathy, mas eu creio que você está confundindo as coisas. Eu…
Imediatamente a frase ecoou em minha cabeça, e nas suas várias versões que a escutei só o que apareceu foi o mais manjado dos clichês sexuais da história da humanidade. Pior: por quantas vezes eu não pensei que esta frase poderia servir tão somente como um aperitivo para o que estava para acontecer, um anteparo momentâneo, tão falso quanto convidativo, para o mergulho nas dimensões mais desabridas da luxúria. Entretanto, essa era a verdade do que eu sentia, e ninguém melhor do que eu para pressentir que seguir com aquela cena poderia me levar a um lugar conhecido chamado “pesadelo”.
O elevador fez um novo clique e percebi que havíamos passado pelo quinto andar. Kathy me olhou nos olhos, ainda sorrindo, sem se dar por vencida — como se soubesse, melhor do que eu, que um colapso pode ser revertido, que basta preparar o sistema de novo para que ele volte a se abrir em possibilidades.
– Você não pode negar que também quer. Tem o mesmo “problema” que eu. Não pode esconder que pensou em mim e que naquelas madrugadas fantasiou, como eu, este encontro. Não minta para você mesmo.
Não, eu não podia negar. Entretanto eu sabia que a vida não pode ser vivida como a simples realização de fantasias. Talvez não exista caminho mais seguro para a loucura do que a possibilidade de levar adiante todas as que criamos. Elas, por mais convidativas e prazerosas que sejam, esbarram na realidade, no outro, nos limites, no interdito. Romper essa rede de obstáculos pode ser — e frequentemente é — o primeiro passo para grandes tragédias.
– Não se trata disso Kathy. Eu, eu… entenda, não faz sentido. Somos colegas e amigos. E além disso…
Eu ia falar de Jill, mas tive medo do que Kathy diria. Talvez ela usasse uma estratégia que conheço bem pela voz dos homens, que nada mais propõe do que minimizar os significados culposos da cena, “seguir o fluxo”, “permitir-se”, “viver o momento”, “aproveitar o clima” e curtir as oportunidades que o destino graciosamente nos oferece. Nada dessa conversa era novidade, mas causava estranhamento porque a equação, desde o princípio, estava com o sinal trocado. Os olhos de Kathy diziam isso, e por mais que eu tentasse, não conseguia imaginar o que ela enxergava enquanto me olhava.
O elevador anunciou a passagem pelo nono andar, e outra vez senti aquela sensação estranha de estar sendo recalculado a cada piso, como se o próprio prédio insistisse em me medir de novo, sem nunca aceitar o resultado anterior como definitivo. Sei bem que, de minha parte, não era falta de vontade. Seu corpo por muitas vezes estivera presente em devaneios, sonhos e fantasias. Kathy era uma mulher bonita, madura, livre e provocante, mas a posição de “objeto de desejo” em que ela me colocou foi demasiado brutal para os meus preconceitos patriarcais. Confesso que eu estava despreparado para a reversão das expectativas e fiquei sem saber o que fazer ou dizer. A perfeita imagem de um garoto sem chão.
O elevador bateu no 12º andar, a porta se abriu, e o sistema, dessa vez, colapsou para fora de mim: Kathy saiu primeiro, e eu apenas a segui, já sem amplitude alguma sobrando para qualquer outro estado possível.
Por instantes desejei que seu quarto estivesse em um corredor diferente, mas ela parecia ir para o mesmo lado que eu. Enquanto caminhava, ela parecia ter certeza que era questão de tempo a minha rendição. Fiquei em absoluto silêncio enquanto permitia que suas nádegas me guiassem pelo corredor escuro do hotel. Seus saltos batiam no chão em sincronia com as batidas do meu coração e era possível sentir o perfume que ela exalava ao passar. Finalmente, ao chegar na porta do seu quarto, ela parou e deu meia volta, ainda com um sorriso confiante no rosto. Seu quarto era exatamente em frente ao meu e, por instantes, ela ficou em silêncio me olhando, com um sorriso enigmático nos olhos e segurando a maçaneta do quarto com a mão.
– Olhe Kathy, eu gostaria de lhe explicar que…
Ela sorriu enquanto pressionava a maçaneta para baixo abrindo a porta dos aposentos.
– Não precisa dizer nada, Ray. Eu já entendi tudo. Tenha uma boa noite.
Entrei no meu quarto ainda com o coração apressado. Tomei um banho rápido e me deitei. Liguei para casa e falei com Jill sobre banalidades, a conta do gás, o homem da TV a cabo, a escola das crianças e que horas ela me buscaria no aeroporto. Fiquei olhando programas tolos na televisão até pegar no sono. Pela manhã cheguei ao restaurante do hotel e lá estava Kathy sozinha em uma mesa. Sentei com ela e tentei iniciar uma conversa sobre o que havia acontecido. Ela me interrompeu educadamente e disse apenas “não se preocupe, eu entendi tudo”. Deixou sua xícara manchada de batom com café pela metade e despediu-se dizendo que precisava preparar sua conferência.
Na hora de sua palestra eu estava lá, na primeira fila. Com a desenvoltura habitual, e os slides confusos como marca registrada, ela discorreu sobre o seu – o nosso – tema de forma fluida e correta. Mas não pude deixar de notar que no último quadro de sua apresentação mostrou um gráfico retirado do meu livro, onde meu nome apareceu com a grafia incorreta. Parecia ali um sinal, o aviso de que um vaso delicado havia trincado e que não haveria mais como consertá-lo.
Alguns anos depois, envolveu-se comigo em um debate sobre tunelamento quântico em um canal para pesquisadores sênior. Tratou-me a princípio com absoluta frieza, como um mero desconhecido e, à medida que as posições se tornavam mais claras e mais radicais, colocou-se no polo contrário ao meu, apesar do fato de que já havíamos discutido esse aspecto da teoria e estivéramos de acordo com a proposta de que “qualquer lugar em que a função de onda tenha alguma amplitude será aí um lugar onde o elétron poderá estar”. Portanto, nada mais óbvio que seu posicionamento de agora só poderia ser uma resposta rancorosa, vingativa e puramente emocional. Para piorar, não havia nada que eu pudesse fazer ou dizer, até porque não existem argumentos racionais capazes de abalar uma posição construída de forma irracional. No dia seguinte, ela me bloqueou nas redes sociais. Meses depois, escreveu um texto violento – mesmo sem citar meu nome – dizendo que não pretendia voltar a conversar com pessoas que defendiam posturas tão retrógradas e que, acima de tudo, não eram eticamente confiáveis. Por certo que não respondi, apenas deixei que as páginas da vida encerrassem esse capítulo.
Até hoje me pergunto o que teria acontecido se eu tivesse feito outra escolha — se em algum outro ramo da função de onda do universo, um mundo que se separou do meu naquele elevador, um outro eu ainda estivesse com ela. Poderia ter deixado o vento me levar para onde ele estava soprando, mas respondi com medo e pudor. Agora colho apenas os frutos do desprezo, e talvez seja esse, afinal, o único estado que me restou depois que a amplitude de todos os outros desapareceu.
Gregor O´Sullivan, “O Ensaio”, ed. Parkland, pág 135
Gregor O´Sullivan é um cronista, jornalista, escritor e crítico literário, nascido em Belfast na Irlanda em 1954. Completou seus estudos de jornalismo em sua cidade natal e posteriormente fez carreira em Londres. Atualmente se dedica a escrever no “Daily Mail” em uma coluna semanal sobre política Irlandesa. “The Essay” (O Ensaio) é seu único livro de ficção, onde descreve as desventuras de um homem em crise de meia idade chamado Ray Olson e sua trajetória na Academia nos meses que antecederam sua indicação prêmio Nobel de física. O pai de Gregor foi Seamus O´Sullivan, um renomado estudioso da física que escreveu vários livros sobre o tema, tendo participado do círculo de grandes nomes da química e da física ocidentais como Ernest Rutherford e Erwin Schrödinger. O personagem é baseado na história e na perspectiva de mundo do seu pai. Mora em Londres com sua esposa Saoirse e seu gato…. Schrödinger.