Como seria um mundo sem a bizarra acumulação de coisas que nos caracteriza? Pode parecer utópico, mas não inédito, basta pensar que mais de 95% do tempo em que vivemos na Terra esse foi nosso modo de convívio: pouco “cargo”, poucas posses, nada de supérfluo ou redundante e a ideia de possuir somente o indispensável que possa ser carregado de um lugar para outro.
Digo isso porque a mobilidade será uma força muito grande neste século. A facilidade de transporte e a possibilidade de trabalho remoto serão a tônica das próximas décadas. Talvez em um futuro não muito distante os empregos serão de dois tipos: aqueles em que a presença física e o “sedentarismo” (entendido como a obrigatoriedade de viver em um determinado lugar) continuarão indispensáveis, como a área da saúde, os políticos e funcionários públicos, e todos os outros, que poderão ser feitos à distância.
Para quem vive em movimento as “coisas” mais atrapalham que ajudam, como para os caçadores e coletores que perambulavam em um planeta pré agricultura.
Em um mundo sem fronteiras, mesmo nos empregos presenciais você poderia trabalhar como médico, enfermeira, engenheiro, advogado, artista, técnico de informática, agricultor, cozinheiro, etc nos serviços do mundo todo, viajando e conhecendo culturas diversas. Legislações internacionais garantiram esta rotatividade. Voltaríamos a ser “caçadores e coletores” em outro nível, acumulando apenas conhecimento, experiência e boas memórias, carregando e mantendo apenas o essencial.
Acredito que a ganância e a sanha acumuladora que ainda nos seduzem vão acabar desaparecendo pela própria necessidade das sociedades humanas diante da escassez crescente de recursos. Não há como um planeta sobreviver à destruição que estamos impondo. Um novo mundo surgirá com menos coisas para carregar e mais conteúdo imaterial para transmitir.
Um amigo próximo, que trabalha como professor universitário, certa vez me contou que estava em sua sala conversando com um colega de faculdade quando o telefone tocou. Era outro professor, mais antigo, que queria lhe pedir um favor.
– E aí, tudo bem? Preciso lhe avisar que hoje à tarde meu sobrinho fará entrevista para a vaga de residência e você estará lá para entrevistá-lo. Gostaria de lhe pedir uma atenção especial. Sabe como é, uma forcinha.
Meu amigo perguntou, de forma reflexa, o que ele entendia por “atenção especial” e “forcinha”.
– Ora, disse ele, você sabe muito bem ao que me refiro. Não “sacaneia” ele, só isso. A gente sabe o quanto estas avaliações são subjetivas. Não faça perguntas difíceis e nem o coloque contra a parede. Você sabe como funciona: uma mão lava a outra. Não esqueça que você mesmo precisou de ajuda para chegar onde está agora.
Meu amigo ficou sem saber o que dizer, mas lembrou ao seu colega que não havia recebido nenhuma ajuda para alcançar seu posto. Pelo contrário, não tinha parentes acadêmicos que pudessem interceder por ele nem mesmo para pedir uma “forcinha”. Foi admitido por seus méritos, concurso e um currículo construído com muito esforço.
Isso deixou o velho professor ainda mais indignado.
– Olha, eu não inventei as regras. Todo mundo sabe como estas coisas funcionam, desde que o mundo é mundo. Não estou lhe pedindo nada demais, apenas um favor pessoal, um cuidado especial com um sobrinho meu. Um dia poderemos estar em posições opostas e você poderá precisar de uma ajuda minha. Custa alguma coisa ter um pouco de coleguismo?
Meu amigo não sabia o que dizer. Despediu-se do velho professor com a promessa de não “pegar pesado” e comentou o caso com seu colega ao lado. Este, abriu a pasta dos candidatos, pegou a avaliação do pretendente à vaga, coçou a cabeça e disse, quase sussurrando:
– Bem, se a nota da entrevista for máxima, somando com o currículo e a nota da prova, daí…
Meu amigo interrompeu bruscamente a fala do seu colega e exclamou:
– Não tenho saúde para mais de uma decepção ética por dia. Não ouse insinuar isso, por favor.
Ele guardou as avaliações de volta na pasta e não mais falou desse caso. Meu amigo conta até hoje que por “sorte” as notas do rapaz eram fracas e nem mesmo uma nota excepcional e irreal faria o jovem se classificar. Entretanto, para esse amigo este dia ficou marcado como a primeira de uma série de frustrações em sua carreira acadêmica.
Minha ingenuidade me fez perguntar se não havia como denunciar, ao que ele sorriu e explicou que isso significaria dar adeus à sua vida na Academia. Ninguém acreditaria em sua palavra contra a versão de um velho catedrático e sua denúncia seria inútil.
Lembrei da negativa de atendimento à uma urgência obstétrica feita por uma anestesista e concordei pois, também nesse caso, a única pessoa que poderia ser punida por denunciar seria eu mesmo.
Resta a tristeza e a impotência de ver que estas condutas ainda estão longe de serem consideradas “coisas do passado”
Baruch (Benedictus, depois da excomunhão judaica) Espinosa foi um pensador holandês do século XVII de extrema relevância, fazendo parte do grupo dos grandes racionalistas, onde constam Leibniz e René Descartes. Ocupou-se da teologia e da política, tendo abordado ambos os temas em seu grande livro “Ética”.
Espinosa, entretanto, morreu aos 44 anos de idade, vítima de tuberculose. Homem simples, sobrevivia como relojoeiro e polidor de vidros. Renunciou aos prazeres da vida em nome das virtudes do conhecimento, em especial depois de sua trágica e injusta excomunhão da vida judaica.
Eu ainda me lembro muito bem dos meus 44 anos, e nem faz tanto tempo. Entretanto, não recordo dessa idade com saudade, pois percebo o quanto minha mente amadureceu nos últimos 15 anos. Quando penso em sua partida prematura, às vezes me pergunto o que Espinosa teria escrito aos 60 ou 70 anos. Se aos 44 conseguiu deixar sua marca de excelência no mundo do pensamento, o que mais poderia ter feito se mais tempo estivesse entre nós?
Normalmente a obra “Interpretação de Sonhos”, de Sigmund Freud, escrita em 1900, é reconhecida e apontada como o divisor de águas de um período pré-psicanalítico anterior à sua obra centrada na psicanálise. Quando a escreveu Freud tinha…. 44 anos.
Assim, toda a construção da teoria psicanalítica, feita por um dos maiores gênios da humanidade, surgiu após sua maturidade, alcançada depois dos 44 anos, idade com a qual outro gênio, algumas centenas de anos antes, nos abandonava.
O que teria escrito um velho Espinosa? Nunca saberemos, mas certamente seria ainda mais profundo e maduro.
Pegou o papel grosso e amarelado em suas mãos e olhou com viva atenção para os detalhes, deixando aberto o livro de onde o retirou. O cabelo, o rosto liso, os olhos castanhos sem anteparos. Na face limpa um brilho denunciava o visgo da juventude. A expressão séria e o paletó bem alinhado. A gravata combinando com a camisa clara. Era evidente a familiaridade no semblante.
– Que bonito. É você vovô? Não pode ser, pois eu acho que você sempre teve barba, desde que nasceu.
O velho segurou nas mãos a antiga fotografia e sorriu.
– Não sou eu, não. Imagina. Esse deve ser um artista de cinema americano, um caubói bonitão de filmes de faroeste. Acho até que já vi alguns filmes dele.
A menina sorriu da história, mas reconheceu na foto os traços do próprio pai.
– Meu pai vai ficar como você, de óculos e cabelos brancos, mas daí eu já estarei muito grande e já vou estar trabalhando como dentista pela manhã e mecânica de carros à tarde.
Enquanto a menina continuava a vasculhar o caleidoscópio de cores, distribuídas erraticamente pelas lombadas de livros da prateleira, o velho sorriu ao escutar seus planos. Todavia, não se furtou de olhar mais uma vez e demoradamente para a foto desgastada. Não, certamente não era ele na imagem. Aquela era a foto de um jovem que não mais existia. Era a imagem de uma alma forjada na ilusão da onipotência, na crença da imortalidade, nas certezas e na esperança. Um garoto cheio de arrogância que saía para a vida sem guarda-chuva, desprezando as tormentas que inexoravelmente cairiam sobre si. Um espectro para o qual olhava com um certo assombro, mas seguramente com alívio. Afinal, se podia vê-lo é porque, apesar dos erros e tropeços, conseguiu sobreviver a ponto de se reencontrarem.
Deteve-se por um tempo a olhar para si mesmo no passado, e o fez de maneira tão intensa que subitamente seu olhar se despregou do rosto e saltou para a foto à sua frente. Agora, era o jovem que encarava o velho, e sua mente juvenil se surpreendeu com as marcas do tempo esculpidas na imagem à sua frente. Percebeu nela as tristezas, as alegrias, as decepções e também as marcas da injustiça e da saudade. Imaginou as agruras e experiências que preencheram este lapso de tempo. Tentou sorrir do futuro que o aguardava, mas sua imagem imóvel apenas manteve o olhar fixo nas expressão de nostalgia do velho. Mais alguns instantes e sentiu a luz se apagando. Escutou um barulho surdo e voltou a dormir no escuro labirinto, prensado entre as paredes feitas de letras nas páginas do livro.
– Guarde no lugar de onde tirou, meu amor. Vovô pode precisar desse livro e tenho que saber onde ele está.
A menina colocou o volume na estante abarrotada e saiu correndo para o jardim, mal sabendo que a vida inteira cabe num flash.
Alberto de Sá, “Crónicas Selectas”, ed. Vale D’Ouro, pág 135.
Alberto Malheiros de Sá é um jornalista, escritor, cronista, ensaísta e roteirista português nascido em Beja, no Alentejo, em 1960. Trabalhou durante muitos anos no Correio da Manhã em Lisboa como jornalista do setor de política enquanto escrevia contos, ensaios e roteiros. Sua peça “Altivos e cobardes” ganhou o prêmio Revelação Teatral Ageas Teatro Nacional Dona Maria II e o tornou conhecido nacionalmente. Escreveu mais de 10 peças e adaptou espetáculos de Shakeaspeare a Beckett. Como produtor foi o responsável por “Abismo de Culpas”, estrelado por sua esposa, Maria do Céu de Souza Alves, e grande elenco. Vive na cidade do Porto e tem dois filhos e 3 netos.
Acha mesmo que as pessoas fogem do “comunismo”? Explique porque o tetra campeão Olímpico de luta Greco-romana por Cuba não o fez. Você acredita mesmo que apenas o luxo e os valores materiais movem os desígnios da humanidade? Não acredita que a solidariedade possa ser um valor a moldar nossa ação em sociedade?
Explique porque as pessoas fogem do capitalismo brasileiro para ir aos Estados Unidos. Se o capitalismo já havia aqui, qual a razão da troca? Explique porque durante décadas as pessoas saíam do Brasil capitalista em direção à…. Europa capitalista, mas no século XIX o fluxo era o inverso. Explique porque pessoas fogem do Haiti “capitalista de livre mercado” para os Estados Unidos. Explique porque na União Soviética comunista havia milhares de imigrantes turcos e asiáticos, vindo de países capitalistas.
As pessoas não fogem do comunismo, fogem da pobreza e procuram melhores condições, e para isso vão para a sede do Império. Para muitos bolsonaristas os Estados Unidos são bons e Cuba é ruim, mas você certamente não assistiu “Breaking Bad”, uma série que só poderia ser feita tendo como pano de fundo o descalabro do sistema médico americano. Também não assistiu “Sicko”.
É justo viver na opulência sabendo que sua vida saborosa e doce precisa do amargor e do sofrimento de milhões que a sustentam? Muitos curtem os Estados Unidos porque não estão em Skid Row, em Los Angeles, dormindo na rua e mijando em canteiros. São estes mesmo que não se importam em viver numa sociedade desnivelada onde gente miserável morre sem atendimento médico – como nos Estados Unidos – para que uma burguesia hedonista possa se entupir de Iphones, carros novos e passeios de astronauta às custas da exploração do resto do mundo.
Lembre: para manter a dominação e o controle do trabalho de suas colônias o Império precisa que pessoas comuns acreditem que o capitalismo é bom e justo e que a fome, a opressão e a miséria que ele inexoravelmente produz são causados pela “preguiça” ou falta de “empenho” – nada mais do que mentiras criadas para manter a hipnose da subserviência.
Acho chocante quando algumas pessoas tentam atacar a medicina cubana usando velhos chavões imperialistas, apenas pela incapacidade de enxergarem a medicina por uma perspectiva mais abrangente. Colocam os “médicos” cubanos entre aspas como se fossem profissionais de segunda classe. Nada poderia ser mais equivocado.
Certamente que para estes críticos o paradigma de Medicina evoluída se aproximaria da “estética médica americana”, que confunde tecnologia, sofisticação, drogas e intervenção com qualidade na atenção, o que é um erro comum, tendo em vista a avalanche de programas americanos de TV sobre médicos e hospitais que sempre investiram nessa imagem. Marcus Welby MD, Dr. Kildare, ER, Plantão Médico, The Good Doctor, Grays Anatomy, Dr. House e até Breaking Bad exploram uma visão mercantil e tecnocrática da medicina inserida no capitalismo. É compreensível que a visão do que seja um médico entre nós seja tão distorcida ou, no mínimo, enviesada, desreconhecendo outras formas e perspectivas de diagnóstico e tratamento.
Eu costumo dizer que a aplicação estrita e meticulosa da MBE – Medicina Baseada em Evidências – tornaria a prática médica no ocidente tão diferente do que a conhecemos que ela seria vista com desconfiança por um observador desavisado. Um médico que pratica pura ciência médica não seria reconhecido facilmente, tão distante ele estaria da imagem que a propaganda criou sobre como fala, o que diz, o que veste, sua classe social e sua postura.
Pois essa medicina tecnológica, inserida no paradigma da tecnocracia, do patriarcado e do capitalismo tem seu maior exemplo na medicina americana, essa mesma que é vendida como padrão para o planeta inteiro. E não por acaso, essa é a de pior resultado entre todas as nações do primeiro mundo. Como exemplo cito o fato de que os Estados Unidos estão em 50o lugar em mortalidade materna e 52o lugar em mortalidade neonatal, MUITO atrás de Cuba, para vergonha dos meus amigos gringos. E a mortalidade materna americana, ao contrário do resto do mundo, cresce ao invés de cair.
Se há uma medicina que merecia estar entre aspas é a nossa, cópia mal acabada de um modelo ruim, caro e ineficiente. A medicina cubana, ao se mostrar integrativa, pessoal, afetiva, preventiva e holística causa irritação em quem se acostumou a ver uma prática médica exógena, invasiva e endorcista. Ao contrário da cubana, a nossa obtém mais lucros quanto mais doente o paciente fica.
Por estarmos ainda carregados de uma visão etnocêntrica nos tornamos incapazes de ver formas alternativas de assistência e abordagem. Por isso esse triste preconceito.
A tese do Peter Gotzsche é de que os psicotrópicos usados da forma como o são fazem muito mais mal do que bem. Eu creio que há espaço para as drogas no psiquiatria, mas tenho certeza do que o abuso de prescrições de medicamentos dessa área produz na civilização. Eu diria o mesmo da medicina aplicada ao nascimento humano: por certo que há espaço para a intervenção, mas o abuso é tão marcante que é difícil dizer o quanto de malefício ele já fez e faz para a fisiologia do parto.
O resultado, no que diz respeito ao parto, é que perdemos totalmente o contato com a realidade do nascimento. Perdemos seu odor, seu clima, sua temperatura e gosto. Nós, médicos, só conhecemos a sua representação, seu simulacro, sua imagem refletida na parede da tecnocracia. Continuando o raciocínio do articulista Dino Felluga, no seu artigo “Matrix: Paradigma do pós modernismo ou pretensão intelectual?”, “fizemos um roteiro tão assemelhado com a verdade que aquele se justapôs a esta. Hoje em dia, a realidade é que se desfaz por entre as linhas riscadas do mapa”. Mentimos o parto, falseando a natureza. Mais ainda: ao encobrir a realidade com as múltiplas capas da tecnocracia, fizemos desaparecer do horizonte a pureza da manifestação natural de um fenômeno corriqueiro que, de tão artificializado, que agora é o normal que causa estranheza.
Peter Gotzsche fala, em verdade, de uma indústria farmacêutica inserida no capitalismo que perdeu completamente os limites éticos. Os psicotrópicos se tornaram os “chá de Melissa” da pós modernidade, com a diferença que seus efeitos deletérios são muito mais graves e permanentes. Como eu disse, em mãos muito ciosas e cuidadosas podem oferecer benefício; entretanto, com o bombardeio de propaganda que vincula essas drogas à “felicidade encapsulada”, não basta apenas médicos conscientes, senão que nos fazem falta pacientes que tenham a proteção adequada para enfrentar o canto da sereia da BigPharma.
O problema não está na psiquiatra, na doença mental e sequer na droga: a crítica se concentra no uso abusivo das drogas psicotrópicas e seu efeito deletério em milhões de pessoas pelo mundo. Está muito clara a queixa no livro do Peter Gotzsche, o qual eu recomendaria, assim como recomendo igualmente o da Márcia Angell sobre a falta de critérios para a liberação de medicamentos e os estudos de baixíssima qualidade que os sustentam. Para muitos pesquisadores o problema é tão grave que a completa proibição de qualquer droga psiquiátrica produziria mais benefício do que malefício, tamanho é o estrago que podem causar em mãos pouco hábeis.
Não se trata de criminalizar a psiquiatria ou de estigmatizar a doença mental, mas olhar com cuidado especial a “drogadição legal” e a medicalização extremada da sociedade. O uso de Ritalina por colegiais americanos deveria nos servir de alerta de que há muitos anos ultrapassamos os limites do aceitável. Debater abuso de drogas prescritas é um dever de quem trata pacientes com o uso de medicamentos. Sei do cuidado que muitos médicos conscientes têm com essa questão e entendo a preocupação com os rótulos, mas isso não impede que o uso abusivo de drogas psicotrópicas tenha atingido níveis epidêmicos. Propaganda e uso descriterioso são as principais fontes desse problema.
Não é justo e nem necessário colocar o psiquiatra como “cruel” ou “abusador”. Pelo contrário: ambos, médicos e pacientes, são reféns de uma indústria gigantesca, poderosa, antiética e voraz. Em verdade, Peter Gotzsche também encampa esta minha tese: somos todos – pacientes e médicos – vítimas do capitalismo aplicado à saúde, com suas inquestionáveis consequências nefastas.
Seja franco, mas não abra mão de ser objetivo e honesto. Não permita que sua franqueza se transforme em grosseria, e nem permita que aquela seja escudo desta. Responder a uma pergunta dizendo “porque eu quis” não ajuda em nada e desvela uma insegurança travestida de empáfia.
Essa réplica não explica suas razões de ter feito algo, mas apenas expressa seu direito de fazê-lo. Assim, “por que você saiu?” não cabe ser respondido com “porque eu quis“, mas deve incluir o motivo que o levou a tomar esta atitude. Poderá ser “porque resolvi dar uma volta”, “porque estava quente”, “porque precisava de ar”, etc. Dizer “porque eu quis” apenas afronta e irrita quem questiona, pois é uma resposta que não tem nada a ver com o que foi perguntado.
Já responder com um simples “não estou a fim” diante de um pedido pode ser dito assim mesmo – pois expressa sua falta de motivação – mas também pode ser explícito e incluir a verdadeira razão. “Não estou a fim porque o programa não parece bom”. “Não estou a fim porque não vale a pena o esforço” ou “Não estou a fim porque quero dormir agora”.
Ser objetivo e sincero é sempre mais difícil, mas ainda é o melhor caminho.
Não romantizem demais o skate. Não acreditem que a “cultura do skate” é diferente das demais. Ora, não haveria porque ser assim. A nossa medalha de prata foi ganha por uma criança de 13 anos. O que ela diz é porque ela é uma garota pré adolescente, não por que o skate é “solidário”, “não competitivo” ou diferente dos outros esportes. O que hoje se diz do skate ontem era dito do surf, mas o tempo mostrou que não há uma “cultura” diferente quando existem disputas, vitórias, prêmios, fama, medalhas, glória… e dinheiro.
Olhem para o lado e vejam que entre os homens esse mesmo esporte se comporta como qualquer outra modalidade tradicional de competição. Isto é, brigas, tretas com publicidade, luta por espaço e exposição, favorecimentos, ressentimentos etc. Quando esses elementos todos se misturam a pureza toda se desbota e aparece a face menos fantasiosa do esporte.
E se eu lhe pedisse para virar uma cambalhota, você viraria?
Havia (creio até que já faleceu) em minha cidade um obstetra bastante famoso e conhecido. Apesar de não ser da Academia – um passo importante para a notoriedade – ele atendia pessoas da alta classe, assim como artistas e pessoas da mídia. Era por certo um obstetra tradicional: tinha mais de 80% de cesarianas, fazia todas as intervenções da moda, preferia cesarianas aos partos normais e quando os realizava fazia uso do pacote completo das intervenções sem embasamento. Usava da mitologia do “imperativo tecnológico” mas era muito bom para lidar com a imprensa e para convencer suas pacientes a lhe escolherem como profissional. Uma vez indicou a cesariana de uma artista da TV dizendo que teve que fazê-lo porque o bebê estava “embolado de um lado só da barriga”, o que demonstra como ele usava de factoides para explicar suas intervenções. Porém, estas são histórias corriqueiras de profissionais inseridos no paradigma intervencionista, que enxergam no nascimento um “ato médico” e que – mesmo sem o saber ou dizer – não acreditam na capacidade das mulheres de parir e gestar com segurança.
O que eu achava curioso e didático desse médico em especial é algo que duas pacientes me contaram a respeito de seu atendimento. Quando a gestação se aproximava do final, ou seja, quando as contrações poderiam ocorrer a qualquer momento, ele se sentava à frente da paciente e lhe fazia a seguinte pergunta:
– Diga-me uma coisa; se durante sua internação no hospital eu pedir que você vire uma cambalhota, o que fará?
As pacientes eram surpreendidas com sua pergunta e algumas retrucavam “Mas por que o senhor me pediria tal coisa”, ao que ele respondia que não importava a razão para isso, apenas queria saber o que fariam em resposta ao pedido. Por certo que a maioria respondia “O senhor é o meu médico e a pessoa em quem confio para fazer o meu parto. Apesar de estranho, se realmente houvesse esse pedido eu viraria uma cambalhota”.
Diante dessa resposta ele sorria e deixava claro “Então você pode ser minha paciente”.
Percebi que ele fazia essa pergunta para muitas – senão todas – pacientes porque duas delas (que não se conheciam) me disseram que a ouviram durante uma consulta. Ambas responderam “não” e a partir dessa negativa ele se mostrou rígido e insatisfeito. Elas preferiram não voltar mais lá.
Todavia, essa pergunta sempre me inquietou pelos seus significados mais profundos. Em verdade, o que ela busca é uma adesão visceral e irracional dos pacientes para com a autoridade médica. Ela me faz lembrar a frase do grande tribuno cartaginês Tertuliano:
“Natus est dei filius; non pudet quia pudendum est; et mortuus est dei filius; prosurs credibile est, quia ineptum est: et sepultus resurrexit; certum est, quia impossibile.” (Creio porque é impossível – ou absurdo. Morreu o filho de Deus, isto é perfeitamente crível, porque é absurdo. E, sepultado, ressuscitou; isto é certo porque é impossível.)
O que o médico exigia de suas pacientes era nada menos do que uma declaração de fé ao nível da irracionalidade. “Creio em si, mestre, porque é absurdo. Uma gestante virar uma cambalhota isto é perfeitamente crível, porque é absurdo”. A intenção era determinar o absoluto apoderamento do desejo alheio, a demanda por uma completa rendição à vontade do mestre, a ponto de que uma ação absurda se tornasse plena de sentido. É a mais vibrante demonstração da alienação e da expropriação da autonomia de um sujeito que eu já presenciei, mesmo que pelas palavras de quem a testemunhou. A obediência cega aos comandos se tornava válida e poderosa exatamente por ser um pedido absurdo, o que demandaria uma fé tão poderosa a ponto de fazer a própria lucidez e a noção de ridículo serem deixadas de lado.
A frase do médico em verdade ficou marcada na minha memória não pela originalidade da intenção, mas tão somente por ser demonstrá-la de forma explícita. A arte médica, durante milênios, se caracterizou por este tipo de proposta. “Creia em mim, eu sei o que estou fazendo. Não tenha medo”, Ou então, diante da mais sutil desconfiança das ordens de um médico, este retrucaria: “Eu sou um médico, não um charlatão”, parafraseando o Dr. Valcourt, na novela “O Preço de uma Vida” de 1965.
Por isso é que a proposta de garantir o protagonismo aos pacientes – em especial às mulheres – encontra tanta resistência. É necessário romper uma prática milenar calcada na objetualização dos doentes e na expropriação de sua autonomia tão intensa que quase se confunde com o próprio exercício da medicina. Imaginar uma medicina igualitária e não autoritária – mesmo em se observando a essencial transferência – demanda esforço de imaginação, pois que dificilmente ela se expressa assim. Não poderia haver surpresa que médicos ainda se sustentem pelo antigo paradigma.