Dependências

Muito vi isso em meu consultório de psicologia. Em tantas histórias contadas se sobressaía um personagem, uma mentira ambulante atraindo como ímã alguém cuja carência a fazia acreditar em qualquer história, qualquer desculpa ou subterfúgio. Pior ainda: não havia forma de demovê-las do autoengano; inútil abrir-lhe os olhos à força. Só a dura, cruel e lenta confrontação com a realidade as fazia perceber, e por si mesmas, numa jornada solitária, triste e depressiva. Depois… a queda, o abismo, o vazio e a vergonha. E por quantas vezes somos obrigados a assistir o espetáculo grotesco da farsa sendo encenada bem à nossa frente, amordaçados pela ineficácia da razão diante da eclosão estupefaciente da paixão. Por certo que um pouco de nós sempre morre quando um amor nos trai. Os momentos de genuína parceria, as boas recordações, o companheirismo, os lamentos, as tristezas compartilhadas, as vitórias e as conquistas. Tudo se liquefaz, tornando-se um caldo de sentimentos confusos. Um gosto amargo de desesperança e culpa.

Gregoriański Banacek, “Uzależnienia afektywne okaleczenia duszy” (Dependências afetivas, mutilações da alma), ed. Vístula, pág. 135

Gregoriański Nicolai Banacek, é um psicoterapeuta polonês nascido na Breslávia em 1965, tendo estudado na Universidade Jaguelônica (Uniwersytet Jagielloński), na Cracóvia. Escreveu várias obras no início da carreira em uma perspectiva behaviorista e baseada no trabalho de John Broadus Watson (1878-1958), que foi considerado o pai do comportamentalismo. Todavia, já na maturidade, em 2006, fez uma importante guinada profissional ao abraçar as teses lacanianas e a psicanálise. Além de “Dependências afetivas, mutilações da alma”, que relata 12 casos de consultório analisados na perspectiva analítica, escreveu também o recente “Nódoas, nós e trincheiras – dilemas da escuta”, onde persegue a narrativa do jovem oficial do exército Fiódor Olensky, um paciente neurótico grave com paralisias motoras e fobia de gatos. Atualmente mora em Bratislava e dá aulas na Universidade Comenius. É casado com a professora de piano Bozena Banacek e tem dois filhos, Haskel e Anninka.

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Punhal

A dor é maior quando o punhal que nos fere saiu da mão daquele irmão cuja alma um dia nos tocou.

Ferrer de Castel-Mayor, “Cartas a Endrigo”, Ed Verrigó, pág. 135

Ferrer Alfonso de Castel-Mayor foi um poeta espanhol (em verdade basco), nascido na cidade de Vitória (em basco Gasteiz, a capital oficiosa da comunidade autônoma) em 1912. Foi combatente na Guerra Civil Espanhola. Depois da queda da Catalunha para os liderados por Francisco Franco entre 1938 e 1939, e tendo ocorrido o isolamento das grandes cidades de Barcelona e Madrid, a situação militar dos republicanos, fiéis ao governo tornou-se desesperadora, e teve como consequência a tomada destas cidades, que foram ocupadas rapidamente e sem resistência. Franco declarou a vitória e o seu regime foi reconhecido pelo Reino Unido e pela França. Todos aqueles que durante os conflitos tiveram ligações com os republicanos derrotados foram duramente perseguidos pelos nacionalistas. Milhares de espanhóis de esquerda, artistas e intelectuais como Ferrer de Castel-Mayor fugiram para campos de refugiados no sul da França. Foi lá, em Nice, que Ferrer escreveu “Cartas a Endrigo”, a história da paixão entre dois homens combatentes e parceiros de luta nas brigadas de resistência. Muito se diz que as cartas eram direcionadas a Federico Garcia Lorca, morto por fuzilamento a mando do regime fascista de Franco, e que Endrigo seria seu alter-ego. Todavia, o principal biógrafo de Ferrer coloca esta hipótese em dúvida, ao citar o Comandante Javier Etxebarria, que poderia ter sido o destino das cartas, pois existe a suspeita de que eles teriam sido amantes durante os anos de combate. De qualquer forma, “Cartas a Endrigo” se constitui uma das melhores obras de poesia da primeira metade do século XX em língua espanhola. Sua crueza arrebatadora sobre as vicissitudes da guerra mostra um cenário de desesperança e degradação humana, e descreve o desmonte das utopias socialistas da Espanha. Ferrer viveu exilado na França até sua morte em 1975, sem conseguir ver a morte de Franco e a restituição da monarquia. Escreveu vários livros de poesia, entre eles “Borboletas de Sangue”, “Amaya rubra” e “Fortalezas de Papel”.

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Chatos

Tenho grande admiração pelas pessoas que seguem seus projetos e suas convicções mesmo depois da desaprovação da maioria. Esse tipo de persistência – cuja diferença da teimosia se descobre apenas a posteriori – é uma das mais importantes forças motrizes da criatividade e do crescimento.

Por trás de todo ato de genialidade humana encontramos um chato de comportamento obsessivo. Minhas homenagens a todos os inconvenientes e cabeças-duras que mudaram a história do planeta.

Quanto mais os homens ou suas relações parecem perfeitas no exterior e à vista desarmada mais garantido é que demônios habitam em seu interior. Desconfie da perfeição e da excelência, em especial aquelas autoproclamadas. A qualidade é humilde, a sabedoria silenciosa. Quando perceberes um compulsão insuperável ao autoelogio saiba que se trata apenas dos pequenos demônios de dentro querendo se expressar.

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Boneca de Porcelana

O jovem cavalheiro adentrou a loja e pigarreou discretamente anunciando sua presença. Vestia-se de forma simples e discreta, porém demonstrava asseio e cuidado. Tinha o cabelo curto e bem apartado, e suas unhas eram cortadas bem curtas. Na cabeça, o indefectível chapéu “Fedora”, última moda na capital, um artefato que leva o nome da peça teatral de Victorien Sardou, com Sarah Bernhardt.

A jovem Irma captou sua chegada com o canto dos olhos e manteve-se arrumando as flores e as samambaias da floricultura, como se a entrada do rapaz fosse um fato trivial. Todavia, ela sabia que a sua presença significava mais do que uma simples visita. Arrumou-se discretamente, mas manteve o olhar distante. Sabia o que sua entrada trazia e sabia também que hoje era o dia para definir o futuro desses encontros.

Ele passeava com os olhos pelo multicolorido das flores e as vezes acariciava com a ponta dos dedos as orquídeas, os jasmins, as rosas, as camélias, begônias, orquídeas, bromélias, ninfeias, ciclames, grevíleas, prímulas e os chefleur que se misturavam nas prateleiras. Dissimulava um vivo interesse, mas tanto ele quanto Irma sabiam se tratar de uma falsa curiosidade pelo mundo da botânica. Seu interesse era mesmo a jovem atendente, com seu vestido cinza e seus cabelos curtos.

Depois de ziguezaguear por entre as plantas da floricultura encontrou Irma no balcão anotando os pedidos para o fim da tarde. Quando colocou a mão sobre o balcão ela fingiu graciosamente uma surpresa, fechou seu bloco de anotações e sorriu timidamente.

– Como vai Irma? Estava passando aqui pela Barros Cassal e resolvi comprar umas flores para minha mãe. Você está bem?

Ela sorriu novamente e respondeu de forma mais fria do que ele esperava.

– Eu estou bem. Quer ajuda para escolher as flores? Temos lindos cravos e crisântemos que acabaram de chegar.

O jovem sorriu mas não se deu por vencido.

– Em verdade, as flores podem ficar para depois. Gostaria agora de saber sua resposta. Meu coração precisa de um repouso. Não posso mais viver nessa dúvida. Olhe, eu trouxe algo para você.

Colocou a mão em uma sacola que trazia consigo e retirou de lá uma pequena caixinha de papelão atado com fita azul. Como ela titubeasse para segurar o presente com suas mãos de dedos finos ele mesmo desatou a fita e tirou a tampa.

– Achei parecida com você. Linda, delicada, recatada e tímida. Quero que fique com ela, pois ela representa o sentimento que tenho por você.

Irma não sabia o que dizer, mas segurou a pequena figura de porcelana e vestido longo que o jovem colocou em suas mãos. A boneca tinha um rosto delicado e pálido, com bochechas vermelhas e cabelos curtos e loiros.

– Irma, você sabe o quanto gosto de você e eu sei que seu coração ainda não é meu. Entretanto, tenho paciência e posso esperar até que você esteja pronta. Além disso eu…

Irma interrompeu sua fala com a mão espalmada à frente.

– Por favor, não insista. Já conversamos sobre isso. Meu coração pertence ao meu noivo, Olintho. O simples fato de falar com você já me parece pecaminoso. Sou uma mulher comprometida e faria muito bem a nós dois que você não viesse mais a esta loja.

O jovem ainda ensaiou uma nova frase, mas foi interrompido com um “não”, seco e definitivo. A ele não restou nada além de levantar a aba do Fedora num gesto de despedida, saindo para nunca mais voltar.

Irma sentiu o peso da culpa saindo de suas costas. Foi até a ponta da loja e serviu-se de um copo d’água do filtro de barro. Ainda tremia de nervosa, mas sabia que fizera a única coisa certa. Respirou fundo, aguardou uns instantes e voltou ao balcão para finalizar a lista do dia.

Só depois de alguns minutos percebeu que a boneca permanecia sobre a mesa. Correu até a porta, olhou por toda a extensão da Avenida Independência, até onde seus olhos podiam alcançar, mas ele não estava mais lá.

Pensou em devolver, pois sabia seu endereço, mas isso a obrigaria encontrá-lo, o que não desejava. Esse encontro definitivo já havia sido por demais angustiante. Por outro lado, jogar fora uma linda boneca de porcelana lhe pareceu um crime, mas sabia que mantê-la consigo seria uma espécie de traição.

A solução veio simples. À noite, ao voltar para casa, deu de presente a boneca de porcelana para sua irmã Erna, que a guardou como a um tesouro por toda sua vida. Por nunca ter se casado sua irmã presenteou a boneca, já no fim da vida, à sua sobrinha Miriam Elisabete, que a guarda até hoje. Um século já nos separa da história de um amor frustrado, uma boneca de porcelana e uma bela moça comprometida que, alguns anos depois, estaria me segurando nos braços e a quem eu chamaria de “vovó Irma”.

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Romance

Sempre me perguntei se haveria alguma razão para que eu fosse um sujeito romântico. Aqui vou conceituar “romântico” como alguém que acredita no amor entre duas pessoas, que pensa que uma relação assim pode gerar filhos e que constituir uma família pode ser um dos objetivos mais nobres da vida. Não se trata do romantismo de gestos externos como flores, bombons, declarações grandiloquentes ou, modernamente, carro de som na porta da casa – substituindo as serenatas. Não… apenas a crença no amor entre duas pessoas.

E vejam, coloco a crença no amor romântico apenas como mais um fetiche humano, tão válido quanto qualquer outro – cintas-liga, poliamor ou roupas de couro incluídas. É uma conexão afetiva de ordem irracional, portanto infensa às análises racionalistas e objetivas. Não acho que alguém se torna “superior” por se dedicar a essa fantasia, mas reconheço que os românticos assim definidos se tornam sujeitos mais fáceis para manter relacionamentos duradouros.

Escrevo isso porque arrumando livros antigos dos meus pais encontrei uma singela pista para o meu acanhado romantismo: uma carta que minha mãe escreveu ao meu pai uma semana antes de ganhar seu primeiro filho, meu irmão mais velho. A carta é um primor de romantismo, como não se encontra mais na literatura, mas também explica porque as mulheres nos anos 50-60 tinham muito mais facilidade para parir. O estado se espírito da minha mãe poucos antes do “grande dia” era de pura excitação com o que estava para ocorrer. Não havia uma linha sequer de angústia, preocupação ou temor, apenas uma viva ansiedade para ter seu filho nos braços…. e uma alegria imensa em poder cumprir aquilo que o “destino” havia legado a ela. Outros tempos, por certo…

Achei invasivo mostrar a carta inteira escrita por ela, mesmo que ambos já tenham partido, mas creio que a última frase é um primor de amor romântico e retrata bem as mulheres de sua época, que apostavam sua felicidade no amor profundo por seu companheiro e por seus filhos, dedicando-se uma vida inteira para que eles fossem felizes.

Lendo a derradeira frase daquela simpática missiva parece que estou assistindo uma novela escrita pela cubana radicada no Brasil Glória Magadan…

“My romance doesn’t need a castle rising in Spain
Nor a dance to a constantly surprising refrain
Wide awake I can make my most fantastic dreams come true
My romance doesn’t need a thing… but you”

Carly Simon – My Romance

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Mentiras em 3D

Ultrassom 3D ou 4D(?) se refere a estas imagens que parecem moldes de cera com formato de feto dentro do útero, e são uma produção virtual cibernética e criativa que brota desse imenso campo das fantasias humanas.

Vou usar uma comparação tosca, mas que poderá servir de analogia.

Uma vez uma paciente me contou de um acidente terrível de automóvel que resultou na morte de uma criança de sua família. Depois de alguns meses a família enlutada procurou uma sensitiva, uma médium, que poderia trazer a palavra da criança já no plano espiritual. A paciente contou então do alívio provocado pela narrativa, ao saberem que a criança estava bem e que sua estada na terra foi abreviada um função de dívidas emocionais contraídas em outras encarnações. Estava feliz e tinha já encontrado o tio X, a vó Z e estava se recuperando do trauma de sua partida inesperada.

Não me cabe discutir a veracidade desse relato, e nem tem relevância aqui, mas apenas entender do que se constitui a mensagem da médium.

Diante do encontro com essa criança desencanada os fatos narrados por ela poderiam ser de dois tipos básicos: ela poderia contar uma história de superação, de otimismo, de positividade e de esperança, como de fato foi o relato que ela reproduziu à família. Por outro lado haveria outra possibilidade: ela poderia ter falado do seu sofrimento, da raiva, do ódio que ainda sentia e do ressentimento de ter sido expulsa dessa vida de forma tão abrupta. Poderia estar no “umbral”, sofrendo, consumida pelo ódio e pelo rancor, em especial contra as pessoas que não a protegeram ou que causaram sua partida precoce.

Pergunto: tendo diante de si uma família pesarosa, culposa, arrasada emocionalmente e destruída afetivamente quem diante desse quadro contaria a verdade, caso tivesse escutado da alma da criança a segunda versão? Conseguiria ser plenamente verdadeiro e fiel às palavras da menina ou mentiria, sabendo que esta mentira acalmaria seus corações e lhes traria a paz tão desejada, enquanto a verdade dura jogaria mais profundamente a todos no abismo de suas dores?

Eu acho que, inobstante a veracidade desses relatos, os videntes “mentem” (ou adocicam a dureza da verdade) para satisfazer aqueles que os procuram, pois sabem exatamente o que eles desejam – ou precisam – ouvir. É preciso ser movido por uma enorme crueldade para ser honesto e verdadeiro diante de tanta dor.

Nas ultrassonografias o programa “mente”, suaviza as bordas, preenche de forma automática as lacunas e falhas que o ultrassom não capta, acrescenta um colorido que os sons não reconhecem, oferecendo uma mentira que a todos agrada e satisfaz, além de aliviar as angústias e fantasias dos pais. Criamos um método baseado no falseamento das formas e na homogeneização dos contornos, mas curtimos essa mentira na medida que ela nos alivia a alma e diminui o peso das nossas ansiedades.

E nós todos caímos, claro, porque a angústia do desconhecido é mais poderosa do que as evidências e a própria verdade.

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Religiões e conflitos

As religiões unificam perspectivas de mundo e de produzem forte fator de coesão e identidade. São modelos de compreensão da realidade sobre aspectos onde a ciência não tem acesso, como o sentido da vida e os significados transcendentais. Acima de tudo, uma religião não é algo que produz ideias e conceitos, mas onde colocamos nossa visão de mundo e nossas perspectivas. Religião é onde colocamos algo de nós, e não de onde retiramos. Culpar as religiões pelas mazelas do mundo – como há muito fazem os new-atheists – é uma tarefa simples, mas para isso é preciso ignorar o sentido último das religiões negando o fato de que de qualquer religião se retira o que se quer, basta procurar, interpretar e divulgar fora do contexto histórico. .

Durante anos testemunhei a tentativa de criar uma visão demeritória das religiões, mas aplicando um viés distorcido da real essência delas. No atual conflito entre os colonizadores sionistas e o povo palestino no oriente médio ainda é comum ver analistas tratando os bombardeios como uma disputa entre “judeus x muçulmanos”, como se a questão não fosse o colonialismo brutal, os massacres, o apartheid e a limpeza étnica, mas sim um choque de crenças religiosas. Usando este mesmo critério dissimulador as Cruzadas perdem todo o sentido comercial e objetivo, pela conquista de um ponto geopolítico essencial para o comércio primitivo no Mediterrâneo, para se tornarem apenas incursões militares movidas pela crenças distintas. Aliás, o mesmo truque foi usado para chamar a guerra de libertação da Irlanda como “católicos x protestantes”, apagando os séculos de colonialismo britânico na ilha.

Colocar a culpa nas religiões como elementos divisionistas na história das sociedades é um erro, mas que ainda faz muito sucesso, inclusive entre intelectuais. A religião não é o bem e muito menos o mal. Uma religião não é mais do que um conjunto de símbolos e metáforas para expressar o inexpressável – assim como o mito o é para aquilo para o qual não há verbo. As religiões são construções puramente humanas que se expressam como um idioma, uma língua a conectar através do mesmo poço a água que corre por debaixo da terra. Os diversos poços criados para saciar nossa sede por respostas são as infinitas religiões, mas a água da fé – aqui entendida como a busca por respostas – é a mesma.

É possível então argumentar – contrapondo-se à onda dos novos ateus – que as religiões são o espelho das aspirações, desejos e valores humanos, e não a fonte de onde surgem. As religiões, em verdade, são criadas exatamente para dar conta dessa necessidade, e desta maneira nós não seguimos as religiões; são elas que nos seguem. Para entender melhor o que está no âmago das religiões existem inúmeros estudiosos – como Reza Aslan – que procuram oferecer às religiões o lugar que elas merecem.

Não existe dúvida que católicos e os protestantes não guerrearam por causa de religião na Irlanda e nem mesmo na Guerra dos Cem anos, mas por questões políticas, dinheiro, comércio, influências regionais, etc., pela mesma razão que os judeus e muçulmanos lutam até hoje por terra na Palestina, e não por discordâncias em suas escrituras. Em verdade católicos e protestantes da Irlanda lutaram durante muitos anos pela independência da Irlanda tendo de um lado os nacionalistas católicos e do outro os ingleses protestantes invasores, da mesma forma que as guerras pela Palestina são travadas entre colonos europeus e a população nativa. As religiões são falsamente colocadas como origem dos conflitos, mas elas são falsamente colocadas nesta posição apenas para deslocar o debate das verdadeiras questões.

Para as pessoas que carecem de uma compreensão mais profunda das causas dos conflitos é muito fácil moralizar as guerras, e para isso usamos artifícios como chamar de “infiéis”, “corruptos”, “fanáticos” ou “terroristas” todos os nossos adversários, desreconhecendo suas razões e desumanizando seus combatentes. Para entender melhor veja como as elites financeiras no mundo inteiro – e agora de forma bem marcante no Brasil – colocam a corrupção como seu cavalo de batalha, mas os governos que elas administram são tão ou mais corruptos do que os governos que combatiam, e para isso os adjetivavam de forma derrogatória todos os adversários, chamando-os de “corruptos“. Então por quê? Ora, porque os liberais são fixados na questão moral (como a religião), pois que ela desvia a atenção das pessoas e produz identificação com um dos lados, mas afasta as razões verdadeiras do radar de cada um de nós. No caso da Palestina o colonialismo brutal, o genocídio, o apartheid, os crimes de guerra, etc. Mas todo aquele que se contrapõe à barbárie sionista agora pode ser chamado de “apoiador de terroristas“.

Veja mais sobre o tema aqui, na entrevista com Karen Armstrong.

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Corrupção à granel

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Eu afirmo que comparada à corrupção LEGAL e corriqueira da sonegação de tributos, a corrupção de agentes do governo – seja de onde for – é café pequeno; totalmente desimportante quando comparada à grande corrupção do sistema capitalista. Basta olhar os números. Isso não significa que ela não deve ser combatida, mas apenas que deve ser vista em perspectiva, para que não seja usada eternamente como cavalo de batalha dos grupos de direita. Aliás, os escândalos mostrados na CPI da Pandemia e da família Bolsonaro mostram que essa retórica da direita é pura encenação. Era falso com Adolf, com a Ditadura Militar, com Collor, com Bolsonaro e com tantos outros.

“Somadas, as mil empresas que possuem as maiores dívidas ativas com a União sonegaram R$ 754,7 bilhões aos cofres públicos. Se esse valor fosse quitado pelos empresários, o Brasil poderia pagar 14 meses de auxílio emergencial aos trabalhadores informais, autônomos e desempregados. De acordo com o Ministério da Economia, cada mês do benefício custa R$ 51 bilhões.”

51 bilhões POR MÊS!!

Enquanto isso, a maior força tarefa para o combate à corrupção – a Lava Jato – de triste memória, arrecadou tão somente 4.3 bilhões, o que é menos de 10% do que poderia ser pago de auxílio a cada mês. É ÓBVIO que esse “combate à corrupção” promovido pelos governos de direita é uma cortina de fumaça, alienante e moralista, para não enxergarmos a verdadeira corrupção, o enorme furo que esse modelo produz nas contas.

Entretanto, apesar da disparidade desses números a corrupção é vendida desde sempre pela extrema direita como “o grande mal a ser combatido”. Por isso permitimos que surjam bilionários como o velho da Havan, o Bezos e o Elon Musk, cuja fortuna é produzida pela incapacidade do Estado em produzir justiça social.

O combate à corrupção deve ser feito dentro dessa perspectiva. Feche-se o megaducto da sonegação atacadista primeiro, para depois fechar a torneira dos corruptos à granel.

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Rin tin tin

A respeito das reivindicações dos povos nativos, vitimizados pelas invasões colonialistas.

As séries de TV dos anos 60-70 eram carregadas dos valores daquela época. Refletiam a euforia do capitalismo americano do pós guerra, a pujança e a opulência de sua classe média e o esplendoroso “American Way of Life”. Entretanto, pela perspectiva de hoje, passavam pano para o genocídio das populações indígenas, um massacre sem precedente na história das Américas.

Além de Rin Tin Tin – um garoto órfão cujos pais foram mortos (que surpresa!!) num ataque dos nativos e criado pelos soldados no “Forte Apache” – havia também “Daniel Boone” (e o mito do índio bom x índio ruim) e “Os Pioneiros” (o cristianismo e a família, contra a degradação pagã), que igualmente fizeram forte propaganda colonialista. Milhões de mortos foram esquecidos e uma parte importante da história americana foi apagada com esses programas que incentivavam a vilificação dos nativos enquanto produziam a exaltação do branco, cristão e “civilizado” que matava, destruía, destroçava e invadia as terras dos nativos.

Sim, enterrem o meu coração na curva do rio. Para a gente brincar de Forte Apache antes a limpeza étnica precisou rolar solta e sem freio.

O fato de aceitarmos estas propagandas descaradas naquela época, como quase todos nós (inclusive eu), não significa que precisamos continuar acreditando nesta perspectiva da história sem questioná-la de forma vigorosa. O mesmo se aplica a outros fatos da vida, em especial a falta de respeito com negros e homossexuais – algo corriqueiro na minha infância – mas que hoje não tem mais espaço na cultura. Se é possível contextualizar e entender que o “mundo era outro” também podemos reconhecer que estas séries eram propaganda explícita de supremacia branca, de movimentos racistas, colonialistas e imperialistas, e que hoje merecem uma avaliação mais apurada.

Mesmo de tendo acreditado nas mensagens supremacistas do passado, e sabendo o quanto nos divertimos com as histórias de aventura na juventude, isso não nos obriga a continuar repetindo tamanhas aberrações.

Todo mundo algum dia já acreditou em Papai Noel e não deveria se envergonhar de nenhuma festa de Natal que participou. Por outro lado, manter-se acreditando nesta fantasia hoje seria um atestado de alienação inaceitável. Continuar olhando propaganda racista sem uma necessária crítica significa aceitar seus pressupostos e sua perspectiva de mundo.

Para conhecer mais sobre o tema, veja aqui no post Enterrem o meu coração e Forte Apache.

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Velho raiz

Sinal de velho:

Não, não é a roupa que prima pelo conforto e não pela moda. Não são as expressões “boko moko” e “na crista da onda”. Não são as músicas ou os programas do meu tempo, e nem ficar dizendo toda hora “eu vi Pelé jogar”. Também não é lembrar das marcas de carro do tempo antigo, como Éroílis, Simca Chambór, Opalão, Decavê, Galaxi, Dogechárger, etc…

Velho mesmo, idoso raiz, quando encontra alguém do seu tempo on line, fica trocando foto de neto e dizendo “meu Deus, como está grande!!“, ou “essa tua neta está uma mocinha!!!”.

Se você já chegou nesse ponto, relaxe e solte os braços, pois daqui pra frente é só descida….

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