Estigmas

“Ele não passa de um alcoólatra”.

A propósito, modernize-se. A palavra “alcoólatra” caiu em desuso nos anos 80, pois antes disso se considerava o vício em bebida como um problema moral. As palavras certas hoje em dia para descrever este transtorno são “alcoolista” e “alcoolismo”, porque esta adição é considerada pela OMS uma doença e desta forma deve ser encarada e tratada.

Mas, nao é à toa que esta ofensa ainda é usada, em especial contra sujeitos que emergem das classes populares. Chamar pobre de “bêbado” é uma atitude antiga das classes dominantes para criar um estigma de falha moral entre aqueles que surgem do proletariado.

Pobre é bêbado, vagabundo e relaxado. Lula é “alcoólatra”, “bebum” e está sempre sob o efeito de álcool. A burguesia repete essas ofensas para reforçar o estigma e deixá-lo colado à pobreza. Desta forma mantém-se a fantasia de que os proletários, os pobres e os operários jamais poderão conduzir uma nação já que são prisioneiros do vício na bebida.

Manter essas mentiras é um ato criminoso, tão grave quanto o racismo ou a corrupção. Elas só servem à narrativa racista de uma burguesia canalha que se locupleta mantendo o povo controlado por factoides e mentiras deslavadas.

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Drama feminino

Eu também acho que calcinhas e – principalmente – os famosos protetores de calcinha são profundamente danosos à ecologia íntima das vulvas. Em uma leitura superficial parece se tratar de uma simples questão de “higiene”, mas tal postura está claramente relacionada ao mito das vulvas dentadas, devoradoras de homens e perigosas. O próprio cheiro vulvar normal é tratado com piadas e de forma chistosa pelos homens – e até mesmo por mulheres. Mulheres são levadas a reclamar da menstruação e seu cheiro, mas também da menopausa e seus incômodos. Ser mulher é pagar o preço por um corpo mal feito e defectivo.

Digo isso porque concordo com algumas campanhas que estimulam mulheres a abandonarem o uso da calcinha em casa. Sou parceiro dessa ideia, principalmente porque um dos maiores problemas da saúde sexual feminina é o aparecimento de fungos. Ora…. fungos precisam de glicogênio, calor e umidade para se multiplicarem, e o abafamento das “preciosas” (aqui um epíteto do bem) só poderá produzir o ambiente ideal para a sua multiplicação. Permitir o pleno arejamento da região perineal é uma atitude correta, fisiologicamente falando.

Todavia… por trás do uso de protetores perfumados e calcinhas existe toda uma construção social demeritória e defectiva da mulher – isso sem falar de um comércio multimilionário de produtos de beleza e de “higiene íntima”. É por serem mulheres que seus odores são questionados – e combatidos. É por não serem homens – o padrão da correção fisiológica e anatômica – que a menopausa é chamada de “falência ovular”, e as menstruações tratadas como “escapes”, defeitos de um motor mal aparafusado. Não há como negar que toda a visão do corpo feminino é feita usando os homens como comparação, e o que elas tem de diferencial – menstruar, gestar, parir, amamentar, menopausar – é visto como doença e objeto de tratamento pela medicina – um braço de apoio e manutenção do patriarcado.

Por esta razão é que, ao contrário das mulheres, nenhum evento fisiológico masculino é tratado como enfermidade ou se tornou merecedor da atenção da medicina. É fácil imaginar que, em um mundo paralelo onde as mulheres tivessem barba e os homens não, esta condição seria tratada como uma doença, “hipertricose facial”, e seria evitada, para que não surgissem no rosto das mulheres estes “pelos nojentos, perigosos e desagradáveis a prejudicar a estética”. Haveria uma enorme quantidade de fotos em livros de medicina de mulheres que morreram de “foliculite seguindo-se sépsis” causada por esse distúrbio, “não tão raro quanto parece”.

A condição de “ser mulher” é que está como pano de fundo dessa inconformidade. A cultura, que sempre temeu o poder da sexualidade feminina, é pródiga em oferecer epítetos demeritórios aos órgãos sexuais femininos, com a exceção da infância – quando ainda são inofensivos. Extirpar a nomenclatura “suja” e diminutiva de todos os elementos relacionados à sexualidade feminina ocorrerá em sequência à emancipação plena das mulheres e o livre exercício da sua sexualidade. Para isso é preciso que o patriarcado deixe de ser o padrão de nossas civilizações, mas para que ele caia…. bem, aí é outra conversa.

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Comércio

A bondade que espera recompensa é apenas comércio. Sinto isso quando alguém diz “Preciso fazer isto, pois devo a ele um favor”. Ora, se foi um “favor” então você não deve nada. Favor vem do latim “favere“, que significa “ajudar” ou “proteger”, o que – segundo muitos pensadores contemporâneos – são ações conectadas à própria origem e essência do que significa ser humano. Desta forma, se você se sente devedor, ou se Fulano vier a te cobrar por um favor prestado, então esse gesto jamais passou de um ato meramente mercantil, desde o princípio.

Beatrix Devries, “The Green Badge”, ed. Parliament, pág. 135

Beatrix Devries, é uma jornalista nascida em 1970, na cidade de Leeuwarden, na Frísia, parte norte da Holanda. Escreve para revistas sobre ecologia, feminismo e artes. Estudou jornalismo na Universidade de Utrecht e escreve para o semanário “De beste van de Week”. Seu livro “The Green Badge” é uma coletânea de textos publicados no “Week” e sobre seu tema predileto: ecologia e proteção animal.

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Garoto Neymar

Para além de ser um futebolista, o garoto Neymar é mais um ídolo negro desprezado pelas elites. Essa é a razão da disputa de narrativas que envolve há muito tempo a figura desse jogador e a controversa defesa que o PCO faz de sua representatividade no imaginário nacional.

Basta uma pesquisa simples para vermos que ninguém jamais se perguntou se Zico, Piquet, Fittipaldi ou Airton Senna sonegavam impostos, se tinham amantes, e muito menos a qualidade do seu caráter. Senna já morreu, mas os outros três são, a propósito, bolsonaristas. Mas é claro que não se pergunta isso para ídolos brancos. Por outro lado, Neymar não pode ter esse tipo de falha.

Eu pessoalmente acho o Neymar um chato; um bebê imaturo. Um Michael Jackson da bola, gênio desde os 11 anos, infantilizado e mimado. Ser tratado como Rei – ou Rainha – desde a mais tenra infância costuma destruir personalidades brancas de Hollywood, mas Neymar não tem esse direito, por ser negro. Ainda por cima é cercado de gente do pior tipo, como o seu pai trambiqueiro e sonegador. Mas só ele é julgado por ser assim, e essa é uma clara face do racismo e do ataque sistemático ao futebol brasileiro.

A chantagem que recebeu naquele caso de falso abuso sexual há alguns anos mostra que, ao colocar-se automaticamente ao lado da suposta vítima, estimulando um linchamento público, e antes que as evidências (ou a falta delas) viessem à tona, a imprensa fazia coro às tentativas de destruir um ídolo que ousa ser negro em uma sociedade fortemente racista.

Desta forma o PCO tem razão ao criticar quem tenta destruir a imagem do Neymar e do próprio futebol, tratando-os como fenômenos menores. Assim como fizemos com Pelé e as críticas à sua paternidade, Neymar é outro ídolo negro que precisa ser destruído – assim como o futebol brasileiro, um dos poucos fatores de integração do negro em nossa sociedade.

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Sommelier de Vacina

Por que nos ensinam a ler o rótulo da margarina e aprender sobre os tóxicos contidos nos alimentos embutidos mas passou a ser CRIME e ato de estupidez questionar-se sobre os elementos constitutivos de uma vacina? E veja: criticar as vacinas – produtos das indústrias mais criminosas do planeta – passou a ser visto como negacionismo. Fazer PERGUNTAS passou a ser um ato terrorista. No mundo inteiro milhares de pessoas relatam transtornos graves em relação ao uso de vacinas, pessoas estas absolutamente hígidas previamente ao seu uso. Por que seria inadequado questionar-se sobre isso?

Muitos dirão que essas fatalidades são matematicamente irrelevantes diante dos benefícios possíveis da vacina. Seria assim como os riscos normais da vida: andar de carro, de avião, atravessar uma rua, etc. Pode ser verdade, mas o que é questionável é a propaganda que tenta silenciar qualquer grupo ou pesquisador que pretenda investigar a fundo a efetividade e a segurança de tais drogas. Isso pode ser qualquer coisa, menos ciência.

Minha postura sempre foi claramente crítica à indústria farmacêutica. Sigo a linha de grandes personalidades como Marcia Angell e Peter Gotzsche que denunciam estas indústrias como “máfias” e “indústrias da morte”. Não tenho uma posição antivacinista (aliás, até já me vacinei), mas exijo que os mesmos critérios de segurança e efetividade que foram usados para riscar do “mapa da boa conduta” drogas como Hidroxicloroquina e Ivermectina (até aqui consideradas ineficazes por diversas instituições importantes) sejam utilizados para avaliar a segurança e a efetividade de drogas usadas em pessoas sãs – como são as vacinas aplicadas nessas epidemia.

Percebam que as tecnologias usadas nas distintas vacinas são completamente diferentes entre si, e por isso mesmo as pessoas PRECISAM ser informadas dos riscos e benefício que a ciência produziu sobre qualquer uma delas. Não é pedagógico tratar os pacientes como “Sommelier de vacina” apenas porque – finalmente!!! – resolveram tomar para si mesmos a conduta de avaliar prós e contras de cada uma das medicações a eles oferecidas.

Chamamos por acaso as gestantes de “Sommelier de Parto” quando elas e seus companheiros decidem – baseados em suas crenças e valores – escolher o tipo de parto que mais se adapta às suas crenças e visões de mundo? Tratamos de maneira jocosa as pessoas que escolhem um estilo de vida mais natural no campo e próximos à natureza como “Sommelier de Oxigênio”?

Então é hora de pararmos com as críticas ao protagonismo das pessoas em relação à sua própria saúde e faz-se necessário que sejamos mais conscientes da propaganda que se espalha descaradamente pelas empresas farmacêuticas, ávidas para que tenhamos uma fé cega e acrítica em seus produtos.

Talidomida e Vioxx mandam lembranças.

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Fumacinhas

Meu pai era o mestre das palavras, um grande conversador e contador de histórias. Todavia, tinha preguiça de escrever. Para ele a escrita era um exercício muito difícil; enfadonho e até torturante. Culpou sempre seu perfeccionismo virginiano por sua aversão em colocar sua visão de mundo em livros.

Como Cristo e Sócrates, o que sabemos dele – e de suas ideias – vem através dos contatos diretos. Conversas, encontros, bate-papos, palestras e pequenas intervenções. Apesar disso, suas posições e ideias ficaram conhecidas em diversas partes do país e até fora dele. Tinha um tal magnetismo ao falar que todos lembram até dos pequenos detalhes dessas conversas.

Eu sou o oposto disso. Por saber que não tenho a doçura, a simpatia e o encanto do meu pai, eu escrevo tudo. Acordo de madrugada e escrevo o sonho que tive. Lembro de um fato engraçado que aconteceu há muitos anos no consultório e coloco tudo no papel. Se recordo de um acontecimento – no qual percebo um significado escondido que só agora me ocorreu – tenho de cair imediatamente de cabeça no texto.

Escrevo em todos os lugares. Filas de supermercado, no banheiro, olhando futebol na TV, na cama, na hora do almoço. Qualquer hora. E não tem nada a ver com qualidade, só o desejo compulsivo de transformar fatos e ideias em texto…

Tenho medo de esquecer uma história. Como elas só existem pela minha perspectiva, vivem solitárias em minha mente. Escrever sobre elas é libertá-las, deixar que ganhem vida. Meu pânico é ver a morte que se aproxima e pensar que algumas histórias morrerão comigo. Como um velho que vem a falecer sem revelar onde escondeu o dinheiro que guardou…

No final da vida, como é comum aos velhos, meu pai contava, como se fossem novas, histórias bem antigas e que eu já ouvira dezenas de vezes. Eu dava risadas e me mostrava interessado, como se fosse a primeira vez a escutá-las. Sei que eu também, em pouco tempo, me surpreenderei escrevendo de novo sobre fatos que já coloquei no papel, mas será apenas por medo de que algo se perca.

Desenvolvi essa compulsão há 20 anos, mas hoje fico pensando que deveria ter começado aos 7 anos de idade. Triste saber que, por certo, nesse tempo todo muitas histórias enjauladas na minha mente já definharam e jamais puderam ver a luz do dia, o que é lamentável.

Pelo menos esta aqui coloquei para fora antes que virasse fumacinha.

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Hegemonia das Ruas

Essa foi a manifestação do professor Luis Felipe Miguel da UnB, sociólogo da esquerda liberal: “Há setores da esquerda que são presas de um tipo de machismo discursivo que equivale “violência” e “revolução”. Os neostalinistas ficam nas palavras, o PCO vai às vias de fato. Mas não tem nada de revolucionário nesta violência. É só uma compensação psicanalítica vulgar pela própria impotência.”

Desta vez estou em pleno desacordo.

O PCO – um partido diminuto e marxista – ganhou as manchetes do Brasil inteiro por fazer o que deveria ter sido feito em 2013: expulsar a direita das manifestações. Precisou ser feito por um grupo de corajosos que não se deixaram seduzir pela ideia de “frente ampla”. Existe uma confusão bem clara aqui: tirar a direita golpista das manifestações NÃO É o mesmo que afastá-la institucionalmente dos debates no congresso e no senado.

Que os líderes do PSDB se juntem nas votações pelo impeachment, tudo bem, mas não podemos permitir que eles sejam a VOZ DAS RUAS. O que estava em jogo era a HEGEMONIA das passeatas, e a infiltração da direita foi claramente planejada. Basta ver que foram às ruas fazendo provocações apenas grupos LGBT do PSDB, para colocar na esquerda a pecha de “homofóbicos”.

E mais: quanto tempo ainda vamos cair na falcatrua dos “black blocks”. Algumas fotos mostram claramente a incompetência dos farsantes de mimetizar um ativista. Usando botas da polícia e incapazes de fazer um simples símbolo de anarquia? Sério que vamos insistir em dar palanque para este tipo de armação velha, antiquada e espertinha, que visa apenas insuflar o terror no povo mais ignorante para colocá-los contra os movimentos de esquerda?

Acreditar que vamos fazer DE NOVO a mesma conciliação de 2013 e esperar resultados diferentes é ridículo. Pensem como seriam recebidos os grupos de direita nas manifestações do Chile ou da Colômbia. O PSDB é a fonte de onde surgiu o golpismo do Brasil, ou esquecemos todos do emblemático discurso de Aécio Neves negando a possibilidade de Dilma governar? Tudo começou com o PSDB, e ainda hoje eles apoiaram 92% das pautas apresentadas por Bolsonaro!!!! Como podemos aceitar a BASE DE APOIO de Bolsonaro como protagonista deste tipo de manifestação?????

Quem pode aceitar que o movimento das RUAS permita a infiltração de golpistas – que só estão lá para que esqueçamos a sua participação nos golpes e para posarem de “moderninhos” e democratas? Acha mesmo que é possível dialogar com os mesmos fascistas que espancam estudantes, professores, alunos e que roubam o dinheiro da merenda? Que tipo de civilidade subserviente é essa? Quantos tapas na cara é preciso que a gente tome até se dar conta que pedir para que parem não basta? Sim, precisamos ser “estratégicos e racionais” e retirar das ruas os grupos que tentam roubar o protagonismo das manifestações. Precisamos expulsar das manifestações os grupos que querem excluir o nome de Lula e levar o verde e amarelo dos conservadores para manchar a hegemonia vermelha. Precisamos retirar de nossas marchas os grupos que querem passar pano para as votações de desmonte do Estado que protagonizam no Congresso. Este sim é o exemplo mais claro de ENERGIA e RACIONALIDADE na construção de um movimento de rua forte e coeso.

Agora a esquerda liberal decide que temos que “juntas esforços” para derrubar Bolsonaro, como se ele fosse o problema!!! Bolsonaro é o SINTOMA de um golpe da direita para o desmonte do estado brasileiro e a manutenção do país como quintal do império. A infiltração da direita nos movimentos lhes garantiria legitimidade para colocar-se contra Bolsonaro e poder impulsionar o fascistinha do Leite, Dória, Huck ou mesmo Moro. E isso sendo feito pela nossa covardia em delimitar territórios.

Sobre a frase usada pelo cientista político Luis Felipe Miguel chamando as manifestações do PCO de “compensação psicanalítica vulgar sobre a própria impotência”…. talvez fosse mais justo dizer que os discursos que tentam normalizar e justificar a impotência e/ou a inação sejam, em verdade, a compensação discursiva e psicológica da covardia e da incapacidade de agir.

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Representatividade

Pergunto: de que adianta para a comunidade LGBT ter um governador gay? O que adianta para a comunidade negra de São Paulo ter um Holiday vereador? Que uso pode ter um Tammy Gretchen para a comunidade de trans da mesma cidade? De que vale ter mulheres como Janaína e Joyce para levar adiante a pauta das mulheres? Infelizmente nos deixamos seduzir pela forma e o aspecto externo, e muito menos pelo conteúdo e a consistência das propostas.

Como diria Chico Mendes, “Ecologia sem luta de classes é jardinagem”. Pois eu digo que “Representatividade negra, LGBT e Trans sem luta de classes é apenas a fantasia vazia e colorida da diversidade”. As vidas das pessoas dos grupos oprimidos não se modificarão substancialmente com a manutenção de pautas conservadoras, mesmo quando trazidas por sujeitos destes grupos, a não ser que sejam capazes de compreender as raízes profundas que sustentam estas lutas.

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Sinceridade

Aliás, Cabiria, eu sempre desconfio de gente que começa suas falas dizendo “Olha, eu sou bem sincera(o); digo mesmo, na cara.” Muitas vezes não há nada de sinceridade na fala dessas pessoas, mas tão somente um passe livre para a grosseria; uma liberação para a expressão da maldade e do ódio.

A sinceridade não precisa ser amarrada à brutalidade das palavras. É claramente possível ser justo enquanto amável, honesto e ainda assim ser doce. Mesmo diante de uma sentença dura e inexorável é possível reconhecer o crime, entender a necessidade da punição e ainda assim tratar o criminoso como alguém não muito diferente de nós, apenas inserido em um contexto doentio e vicioso que lhe deu muito poucas opções para agir na direção oposta ao seu destino.

A grosseria travestida de “verdade dura” nada mais é do que a licença que a verdade lhe oferece para deixar escapar seus verdadeiros sentimentos de desprezo, ressentimento e mágoa diante de algo ou alguém. Usar um fato verdadeiro para deixar que escapem seus piores sentimentos é prostituir sua verdadeira missão.

James Wilbur “Echoes of Cabiria”, ed. Patrus, pág. 135

James Wilbur é um jornalista canadense, nascido em Saskatoon, Saskatchewan. Escreveu vários romances, em especial romances históricos sobre a colonização do Canadá e a relação dos primeiros imigrantes com os habitantes originais, também chamados de “first nation”. Em “Ecos de Cabiria” James Wilbur presta sua homenagem ao grande diretor Federico Fellini em sua magistral obra de 1957 “Noites de Cabiria”. Neste filme, uma prostituta chamada Cabiria sonha encontrar o verdadeiro amor e uma vida plena, mas o choque com a realidade dura a faz sofrer desilusões e decepções. No romance de James Wilbur, Cabiria é uma transexual que cometeu um homicídio passional, mas é nebulosa a noção de que tenha ocorrido por legítima defesa. Na trama ela acaba se apaixonando pelo detetive que tenta investigá-la. A chocante descoberta da transexualidade de Cabiria – que de início respondeu aos seus avanços – fez com que o detetive McArthur questionasse seus sentimentos, sua própria sexualidade e, mais grave ainda, sua ética profissional. A história se desenrola através de um caleidoscópio de remorso, paixão e desejo, onde a lâmina fina da culpa aguarda qualquer mínimo desvio para cortar sem piedade.

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Maturidade

Sim, maturidade é apagar um parágrafo inteiro e dar como resposta apenas “ok”.

Faço isso literalmente todo santo dia. Escrevo uma enorme resposta e depois penso que não vale a pena. A maioria das vezes é porque acho que a pessoa na outra ponta tem suas razões e minha resposta pode estar sendo exagerada. Algumas vezes penso que o outro não vai conseguir entender meu ponto de vista. Outras vezes penso que estou fazendo tempestade em copo d’água. “Não é para tanto”, penso eu.

Outras vezes eu simplesmente suspeito que estou sendo vítima de um “bait”, uma armadilha, por alguém que quer trazer à baila uma discussão que interessa apenas a si próprio. Em outras situações eu vejo melhor o que a pessoa falou e penso que ela tem razão, e eu estava “torcendo a interpretação” por puro preconceito. O errado era eu.

Em todas as vezes o “ok” ficou bem melhor do que a minha resposta original.

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