Praia do Pinhal

Vó Vera

Minha sogra tinha casa no Pinhal, para onde ia todos os verões, carregando seus 7 filhos. Zeza era uma das 5 filhas. O filho mais velho, Carlos Fernando, faleceu um ano antes de eu começar a namorar com ela, num acidente que marcou muito nossa geração de amigos. Eu tinha 17 anos na época e íamos de “galere” para Pinhal nos feriadões e nas férias. Era muita zoeira. A casa ficava literalmente a 30 metros do mar. Um pequeno chalé de madeira, com dois quartos, que chegava a acomodar mais de 20 pessoas nos fins de semana. A regra era: mulheres nos quartos e nas camas, homens deitados em colchões improvisados no chão da sala.

Haja fossa séptica!!! Fim de tarde saíamos para caminhar na beira da praia e quando escurecia íamos ao “centro”, perto do “osso da baleia” para tomar sorvete de milho verde. Meus filhos ainda conseguiram pegar o final desse tempo mágico, mas o tempo já havia passado e a magia foi fenecendo. Pinhal é para mim uma maravilhosa lembrança de adolescência, mas para Zeza e seus irmãos é muito mais, pois toda a infância deles foi ali, na beira do mar.

Dona Vera, minha sogra era o centro de onde irradiava essa luz de congraçamento. Em torno dela gravitavam seus filhos e os “achegados”. Enquanto teve energia e desejo, foi o elo necessário para conectar a todos. Ela foi da última geração de donas de casa, dedicadas ao lar e à família, e ia para o Pinhal no fim de novembro (quando todos os filhos já haviam passado de ano) e voltava para Porto Alegre no fim de fevereiro.

Eram quase 3 meses de areia e sol. A vida deles cursou muito por lá. Pinhal é, portanto, o lugar mágico, idílico, onde é possível ser feliz. Se Freud está certo e a felicidade é reviver os momentos e as sensações de gozo da infância então para Zeza e seus irmãos o único lugar possível para essa alegria sublime é a praia do Pinhal….

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As diferenças

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“Enquanto o parto humanizado for opção apenas para uma casta seleta, uma parcela da classe média que possui dinheiro e informação, nosso trabalho será incompleto e insuficiente. A humanização do nascimento não é uma moda, uma “onda” ou um capricho de mulheres burguesas. Parto com dignidade é direito fundamental, e faz parte das lutas pela democracia e pela liberdade. Nossa paixão pelo parto digno deve atingir a mulher do campo e da cidade, as ricas e as pobres, sem qualquer distinção. “Para mudar o mundo é preciso mudar a forma de nascer“, e isso precisa ocorrer em todos os níveis.”

Faz parte do processo de transformação em curso os desafios que encontramos agora na atenção oferecida por enfermeiras durante o parto. Mulheres imitaram os homens no raiar do feminismo, achando que elas também podiam usufruir do poder e da glória que o falo inspira. Eu curti o tempo do “unissex”, que nada mais era do que mulheres imitando homens, inclusive – e principalmente – nos seus defeitos. Levou tempo para as mulheres perceberem a verdade na frase que pendurei há muitos anos na parede do meu consultório: “Uma mulher que pretende imitar os homens carece de imaginação“.

Agora as mulheres percebem que, SIM, são diferentes e celebram esta diferença com a valorização de seus corpos sinuosos, suas gestações e mamas que produzem leite. Com as parteiras – as profissionais, mas também as tradicionais – ocorreu o mesmo. Pareceu por um bom tempo que imitar a ilusória superioridade tecnológica dos médicos lhes garantiria maior reconhecimento profissional. Enluvaram-se, enrouparam-se de verde, cobriram o rosto com a mascara do anonimato, usaram o aço que corta e a gaze que seca. Chamaram as mulheres de “maezinhas” e “minha filha“, olhando-as de cima a baixo para mostrar, afinal, quem é que manda.

Só agora as enfermeiras obstetras e obstetrizes percebem que não são “doutoras castradas”, mas profissionais cujo maior diferencial é a especial conexão afetiva e espiritual que protagonizam junto às mulheres. Dessa diferença é que surgirá a parteria do século XXI, que vai aliar conhecimento formal e científico com a ancestral capacidade de cuidar que receberam da linhagem de parteiras que se perde na poeira do tempo.

Quem viver, verá…

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Feministas Radicais

Latuf Feminazi

Bem… A charge do Latuff sobre as “radfems” é politicamente incorreta. Equivocada mesmo. Eu gosto do ativismo político do Latuff, em especial no que se refere à Palestina. Minha tese sobre o feminismo se mantém, e a crítica ao Latuff só a reforça: as mulheres são vítimas de uma sociedade onde o machismo ainda é brutal, mortal e cruel. Mesmo uma mulher que nunca sofreu na carne essa brutalidade já a sofreu no espírito. Temos uma sociedade marcada pela desigualdade e pelo arbítrio. A sofisticação da justiça e da democracia passa, inexoravelmente, pela “libertação” das mulheres. Assim, por reconhecer estas realidades, qualquer crítica ao grupo que é historicamente oprimido, mesmo quando sensata ou verdadeira, pode receber a marca da insensibilidade ou parecer um conluio com os opressores. Seria absurdo imaginar que muitas radicais feministas não cometem erros ou que não possuem ódios, rancores e feridas mal cicatrizadas. O mesmo com negros, nordestinos, homossexuais. Se estes sentimentos passam ao ato, e criam violência, deveriam ser criticados. Entretanto, a charge do Latuff extrapola e generaliza. O que seria uma parcela minoritária vira a imagem iconográfica de um grupo que prega a igualdade. Fez bem em se retratar. Ficou legal para ele e acho que as feministas radicais acabaram contempladas em suas justas reivindicações. Os sujeitos erram, mas reconsiderar é muito bonito.

Latuf Feminazi Retratação

Durante este período percorri os debates sobre o professor famoso aquele e sua conduta com as fãs e acabei descobrindo, um pouco espantado, a extrema diversidade do movimento feminista. Algumas dissidências internas parecem brigas de torcida organizada de futebol. Tem muito rancor, mágoa, visões díspares, mas nada além do normal para movimentos nascentes (um movimento é “nascente” se tiver menos de um século, no meu critério pessoal). O meu espanto maior foi meu desconhecimento da extrema diversidade entre tais grupos e os jargões que elas usam. Radfems, transfems, cis, queer, mascus, etc. me mostram a ignorância que tinha/tenho sobre isso. Outro ponto é a divergência, que por vezes se manifesta por repúdio explícito, à presença de homens, chamados de “feministos“. Continuo achando que, mesmo apoiando estes movimentos e os amplos direitos de igualdade pretendidos pelas mulheres, não me identifico com o discurso de várias correntes. Todavia, sigo firme no apoio às liberdades femininas de expressão de sua sexualidade, em especial no parto, que é parte da “vida sexual de toda mulher”.

Nos debates sobre o suposto machismo do famoso professor sobravam acusações de todos os lados entre as várias vertentes feministas. “Transfóbica” era um dos mais comuns. É curioso como elas chamavam os homossexuais masculinos de “viados” com o mesmo “tom” pejorativo que os heterossexuais usam. Mas, longe de mim querer rotular e achar que “isso aí é o feminismo”. Isso é tão tolo como ver uma prostituta e dizer “isso é o capitalismo” ou ver um homem-bomba e chamar de “islamismo”. Não, este movimento é rico exatamente por ser multifacetado e plural. Mesmo me assustando com a violência de alguns grupos é inegável a urgência e a propriedade das reivindicações.

Um exemplo famoso: nos anos 90, nos Estados Unidos, um marido violento, mulherengo e alcoolista chega em casa bêbado e tenta fazer sexo com sua mulher – uma imigrante da América Central – que o rechaça. Ele deita para dormir e a mulher, amargurada e humilhada, resolve se vingar amputando seu pênis com golpes de facão. Lembro que na época eu dizia que uma brutalidade como a que ela cometeu não se justificaria, mesmo que fosse possível entender suas razões. Mas qualquer crítica à ação de uma mulher duplamente oprimida, por ser mulher e imigrante, passava a ideia de que aceitávamos as OUTRAS violências que ela sofria, a do marido e a da sociedade preconceituosa onde estava inserida, estas crônicas e insidiosas.

Era complexo, e por vezes inútil, debater com as vítimas, ou seja, todas as mulheres que se identificavam com o sofrimento e humilhação da imigrante.

No caso do negro acorrentado a um poste via-se o mesmo. As vítimas somos todos nós, reféns de uma sociedade desigual e onde o crime é impune. Qualquer um que defendesse o jovem negro, criticando a indignidade cometida contra um ser humano, recebia uma saraivada de críticas ferozes dos justiceiros, e as mais brandas eram “então leva pra casa”.

Tentar criar uma terceira via, onde NENHUMA violência seria aceitável, sempre recebe críticas daqueles que por anos (ou séculos) sofrem nas mãos dos opressores. Mas eu acredito que esta é a única solução duradoura.

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Consolo

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“O grande consolo que nos resta é, quando a escuridão se faz silêncio e nenhuma luz desponta no horizonte, olhar para trás e perceber que sua trajetória não foi em vão, e os que vierem depois de ti saberão o caminho acompanhando tuas pegadas.”

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Humanizar é…

Parteira Tradicional

Existe, inequivocamente, um crescente desconforto dos médicos quando se trata da palavra (ou do tema) humanização. Há alguns dias vi um médico fazer uma defesa apaixonada da medicina, quase às lágrimas, reclamando do uso da palavra humanização. Dizia ele que salvar pessoas, fazer cirurgias, aplicar o tratamento adequado, dar o remédio correto, dedicar-se ao estudo e atender seus pacientes com respeito e carinho era a VERDADEIRA humanização. Infelizmente esta é ainda a reação de muitas pessoas, mas este desconforto se baseia na incapacidade dos profissionais que trabalham com o parto de compreender a essência da humanização do nascimento. Essa dificuldade é notória em especial nos médicos, e muito menos presente nos profissionais das outras áreas (antropólogos, sociólogos, psicólogos, psicanalistas, etc.). O “black spot” da humanização se refere à incapacidade de reconhecer o paciente como SUJEITO, mantendo-se atrelado a uma postura que o considera como um objeto da nossa ação.

A postura que alguns médicos assumem diante dos pacientes muitas vezes me parece com aquela dos escravagistas, e com o mesmo tipo de surpresa honesta diante das queixas. “Como assim desumanos? Nós tiramos estes negros da África, onde estavam passando fome, e lhes demos roupas, comida, casa, um nome, um país e segurança. Como podem estar reclamando? O que mais podem querer?” Outro comportamento que me lembra esta situação é a queixa do marido dos anos 40 quando sua mulher lhe dizia que pretendia deixá-lo: “Mas porquê? Eu trago tudo para dentro de casa, não bato em você e não bebo! O que mais pode querer?“. Jamais passaria pela cabeça dessas pessoas (escravagistas conscientes e maridos) que eles – escravos e mulheres – pudessem desejar algo a mais do que aquilo que lhes era oferecido. Tal fato pode ser entendido porque a relação com tais personagens era objetual. Nunca se perguntava a um negro o quê desejava, o que almejava para sua vida e quais os seus valores. Para uma mulher os critérios eram sempre os masculinos, enquanto ela pudesse servi-lo, mas sem questionar suas aspirações e desejos.

Os pacientes são igualmente jogados neste lugar: patologias que precisam ser curadas, tumores a serem extirpados, bebês conduzidos à vida pela melhor via e remédios para todos males, mas através de uma visão que não leva em consideração o sujeito doente ou, no caso do parto, a mulher que está em sua travessia para o universo da maternidade.

Qualquer preocupação a respeito dos limites da autonomia de uma mulher é respeitável e compreensível. Entretanto, a tendência mundial é sempre permitir que as pessoas possam fazer escolhas baseadas em seus valores, sua visão de mundo e seus desejos. Essas histórias de “mulher que não quis deixar o médico fazer X ou Y“, questionando a autoridade médica, existem por aí, mas normalmente são um pouco diferentes do que se propaga. De qualquer maneira a existência de “radicais” nos deveria fazer pensar no tipo de atendimento que oferecemos em que uma mulher prefere parir SEM assistência do que com aquela que nós oferecemos. Um exemplo típico eu testemunhei em uma recente visita à Bulgária, quando conheci seu sistema de atenção ao parto. O movimento de humanização de lá precisa lidar com um número preocupante de mulheres que preferem parir escondidas com o auxílio de amigas do que enfrentar o sistema público (o único existente) de atenção ao parto, que obedece o modelo autoritário, punitivo e violento da medicina comunista. Mais do que criticá-las (e podemos fazer isso, sem problema) é preciso saber porque elas fogem da assistência oferecida. Assim sendo, nunca é demais repetir: se nós tivéssemos Casas de Parto e hospitais que respeitassem a autonomia e a autodeterminação das mulheres o número de gestantes optando por parto domiciliar cairia imediatamente, talvez para menos da metade, pois que boa parte delas quer um parto digno e sem violência, o que é difícil de encontrar na atualidade.

O caso Adelir traduz esta inabilidade nas suas últimas consequências. As doutoras que a atenderam até hoje acreditam piamente que fizeram o que era melhor, mas jamais pensaram na possibilidade de garantir à mulher o poder de decidir sobre como seu filho viria a nascer. Mesmo com todos os papéis e documentos assinados à gestante jamais foi oferecido o direito de decidir sobre seu parto.

“Humanizar o nascimento é garantir o protagonismo à mulher. Sem isso teremos apenas tutela, a mesma que oferecemos às crianças e aos incapazes“.

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Toques

Toque

O toque vaginal de rotina durante as consultas de pré-natal cabe na definição de ritual que Robbie Davis-Floyd nos ofereceu. “Repetitivo, padronizado e simbólico, carregado de valor cultural“. Mas, com este viés da ritualística aplicada na atenção à saúde, qual o sentido inconsciente (é bom deixar claro) existente na rotina do toque que se realiza como parte da consulta?

Na minha opinião trata-se da submissão do outro ao seu saber. “Eu sei de algo sobre seu corpo que nem você mesma sabe“.

Um sujeito assim autorizado sente-se empoderado com a força que lhe é instituída a partir de um conhecimento superior, e isso aumenta sua distância com relação ao sujeito-paciente. É pela potência inconsciente dessas ações que elas permanecem vivas e fortes, mesmo com as evidências apontando para a direção oposta.

O exame de toque pode ser útil em várias circunstâncias, no pré-natal e no trabalho de parto. O que é preciso dizer é que realizá-lo de forma protocolar ou rotineira é um erro e não tem embasamento científico, caindo na definição de ritual. Além disso este é um ritual desagradável e possivelmente doloroso e constrangedor. Para ser realizado de forma adequada precisa ser explicado, e realizado apenas com consentimento explícito.

Somos movidos por um fluxo poderoso de emoções, onde nossa razão é muitas vezes um frágil barquinho de papel tentando navegar contra a corrente.

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Natal é Parto

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Não se esqueçam que o Natal nada mais é que a celebração de um parto.
Sim, um parto que pôde oferecer o começo de uma história, que plasmou no imaginário de tantos um modelo de sociedade centrado na fraternidade. Foi a partir deste ato que surgiu o “amarás ao próximo como a ti mesmo”.

Todavia, foi um parto, cheio de mistérios e nuances.

Mas fica a constatação de que o nascimento em si é apagado da narrativa. Depois de longa caminhada para realizar o recenseamento José e Maria, já estafados pela peregrinação, refugiam-se em uma estrebaria. Ali, na companhia dos animais e do seu marido, ela sente suas dores.

Fade out… a imagem obscurece e, quando volta a aparecer, o menino Jesus já está deitado na manjedoura, sob o olhar plácido dos bichos e a proteção de José. Em algumas imagens da cena primitiva do nascimento de Cristo ele ainda se mantém no berço improvisado, envolto no feno; em outros está já no colo de sua mãe, mas qualquer referência à amamentação também é sonegada.

Uma mãe virgem, que não gritou para parir e cujos seios se mantiveram cobertos para toda a eternidade. A cena do nascimento do Senhor estará sempre envolta em moralismo e sob a égide do patriarcado.

O trabalho de parto de Maria, com seu grito primal, seu suor e seu esforço, suas dores e contrações, além da força e a passagem que roubaria dela a virgindade, foi subtraído da imagem que se imortalizou no presépio natalino. Ficamos com o resultado, o produto oferecido pela ação do Espírito Santo, mas o trabalho genuinamente feminino e transformador de Maria se mantém esquecido.

Neste Natal, pensem um pouco em Maria e seus desafios. Melhor ainda, pensem em todas as Marias que ainda hoje lutam para que seus partos sejam dignos e respeitosos. Tenham na mente a imagem da mais famosa de todas elas, aquela que se dedicou para que seu filho pudesse nascer bem, no melhor lugar possível: onde ela se sentiu segura e amparada, com seu companheiro ao lado, e tendo silenciosos e compassivos animais como doulas.

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Epifanias

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A gente sempre tenta estabelecer uma data, um marco, um linha divisória entre dois momentos da nossa vida. Falar do momento exato em que acordamos para uma realidade pode ser difícil, e as vezes impossível. Eu costumo citar o nascimento dos meus filhos como este momento definitivo, mas por certo que quando eles nasceram não havia nenhuma noção clara de humanização do nascimento em minha mente. Sobrou apenas uma espécie de indignação e dor pelo que poderia ter sido. Quando atendi uma paciente no chão da sala de exames do hospital esta indignação tomou a forma de uma vergonha. Não era apenas um mal que existia; era uma mal que dependia de mim para existir.

Todavia, esses eventos são artificialmente construídos, e o são sempre a posteriori. Na verdade o que te leva a mudar de paradigma é um sequência de minúsculos fatos, muitos deles insignificantes quando vistos de forma isolada, mas que adquirem sentido quando formam um conjunto coerente. Essas mudanças estão frequentemente escondidas de nossa percepção mais grosseira mas as epifanias as expõe pelo intenso afluxo emocional que propiciam.

Nossas mudanças são determinadas pelo trabalho diário e subterrâneo da lava incandescente de nossas experiências cotidianas. Uma pequena fissura na crosta das convicções é capaz de fazer uma erupção transformadora em nossas vidas.

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A Real Necessidade

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A visão objetual do paciente, a persistente consideração de cada pessoa com objeto da ação da medicina – e não como sujeitos competentes para realizar escolhas informadas – são a REAL necessidade de humanizar o nascimento.Não, isso seria incompleto; uma transformação da forma, mas mantendo intacta a essência. Sem considerar cada mulher como legítima condutora do processo teremos apenas uma parcial mudança, insuficiente para a verdadeira revolução que pretendemos. Humanizar o nascimento é garantir o protagonismo à mulher.

Ainda haverá muito tempo até que os profissionais da saúde entendam o que a “humanização do nascimento” tem a dizer. Ainda há confusão e ranger de dentes, porque alguns recusam-se a compreender os aspectos ÉTICOS relacionados com esta atitude, e se mantém fixados aos aspectos técnicos da atenção. Fazer uma cesariana com uma mulher com duas cesarianas prévias e um bebê pélvico (sentado) pode ser uma indicação compreensível. Todavia, o que é inadmissível é ameaçá-la, constrangê-la, amedrontá-la e considerá-la um objeto “inanimado”, sem vontade e sem autonomia. A humanização vem colocar a MULHER no centro dessas decisões, oferecendo aos profissionais que a auxiliam a honrosa posição de consultores e orientadores.

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O Silêncio

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Encontrei no “Bazar Mães à Obra” o lendário obstetra Alberto Abeche, o qual tive a honra de contar no nascimento do meu filho Lucas. O Alberto faz parte de um seleto grupo de obstetras que tenho orgulho de reconhecer como colegas. Alberto é um sujeito sensível e espiritualizado como poucos. Nos minutos que conversamos, rodeados por barrigudas e bebês, ele me perguntou o que achava ser a parte mais bonita de um parto. Eu respondi que o apagamento neocortical, o mergulho na “Partolândia”, era o aspecto mais encantador e misterioso de tudo o que cerca a chegada de um bebê. O transe químico, o “barato” do parto, a zonzeira, a perda dos referenciais eram os fatos que mais me marcaram durante 30 anos atendendo partos e seus desafios.

– E você, Alberto? O que te encanta mais no nascimento?, perguntei eu.

Ele sorriu e respondeu

– O silêncio, Ricardo. O silêncio de respeito e reverência logo após o nascimento. Quando, depois do grito primal, o diálogo de lágrimas e gemidos é o único som que tem permissão de ser ouvido. É quando ficamos mudos e imóveis assistindo o milagre à nossa frente. O silêncio, Ricardo, o mais eloquente dos ruídos.

Obrigado, Alberto, pelo seu exemplo, sensibilidade e coragem.

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