Abobados

A atual enchente de Porto Alegre é a maior da história já registrada, superando a enchente de 1941, que ficou tão famosa e ainda presente no nosso imaginário. Curiosamente as enchentes, distantes entre si por 83 anos, começaram nas mesmas datas, nas chuvas de final de abril. Estamos ainda tentando salvar vidas e abrigar famílias que perderam tudo. Amigos queridos tiveram suas casas invadidas pelas águas e nada puderam fazer. Sequer foi possível trazê-los para a Comuna, pois as vias estão interditadas.

Toda a solidariedade para que muito ou tudo perdeu. Toda a ajuda para quem está sem casa, sem suas roupas, sem comida. Para alguns só podemos dizer “que se vão os anéis e fiquem os dedos”, mas para outros nem isso. Esperamos que as águas venham a baixar para ser possível contabilizar o estrago e iniciar a reconstrução da cidade. Espero que esta seja a principal lição a aprender: a tese do Estado Mínimo defendida pelos reacionários da direita deste Estado provou-se uma tragédia. A defesa Civil descapitalizada, a falta de manutenção das bombas, a dificuldade de bombeiros e agentes da defesa Civil são consequências diretas de uma visão política que descapitaliza, enfraquece e empobrece o poder público.

Várias personalidades se ofereceram para ajudar. Jogadores de futebol até abrigaram atingidos pelas chuvas em suas mansões, mas isso – apesar de louvável – mostra a falha do Estado em oferecer estes serviços. Não cabe aos cidadãos comuns a realização destas tarefas; elas são responsabilidade do Estado, organizando e promovendo as ações para salvaguardar a vida de todos. Aqui, entretanto, é proibido apontar as falhas gritantes de financiamento da Defesa Civil e a falta de previsão para a catástrofe que há muito estava anunciada porque isso serviria para “politizar a tragédia”. Imaginem se o Lula e o PT estivessem à frente da prefeitura e do governo do Estado o quanto estariam batendo, mas como os mandatários são apoiadores do Bolsonaro estão sendo protegidos

Diz a lenda que em 1941 muitas mulheres grávidas ficaram ilhadas e sem condição de receber assistência no parto. Com isso teriam dado à luz crianças com problemas mentais, dando origem à uma expressão típica da nossa cidade: o “abobado da enchente“, usada quando queremos, jocosamente, criticar alguém que fez uma tolice. É evidente que o termo era usado para desqualificar as mulheres que tinham seus filhos sem o auxílio de médicos, assim como tratar a ação dos obstetras como “salvadora”. Bem sabemos o quanto isso está longe da verdade. Há uma outra versão que relaciona o termo ao surto de leptospirose, uma relação direta das enchentes e o contato com a espiroqueta dos dejetos de ratos, mas ainda acredito mais na primeira versão.

Porém, sobra uma verdade invertida nessa história. Na realidade, as enchentes não são capazes de produzir “abobados” como expresso no dito popular. Pelo contrário: por tudo que pudemos ver até agora, “são os abobados que produzem as enchentes”, conduzidos por uma ideologia fracassada que destrói a estrutura de serviços públicos em nome do fortalecimento da classe burguesa, cujo único objetivo é o lucro.

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Coco

Eu acredito que Coco (ou “A Vida é uma Festa”) é, disparado, o melhor filme da Disney/Pixar. Eu já assisti umas dez vezes com os meus netos. A história é toda lógica, bem construída, coerente e trata com leveza da questão da morte e da memória. Enfatiza a importância do perdão e o significado da família. Um filme maravilhoso.

Existem muitas formas de analisar este filme, e a mais natural é apreciar a linda homenagem feita ao México e a cultura deste país. Entretanto, eu gosto de analisar outro aspecto relevante: sua teleologia espiritual. O filme descreve basicamente dois planos: o plano físico onde Miguel vive com sua família e o plano dos mortos ou espiritual, onde vivem seus antepassados mais próximos e recentes. Porém, os antepassados mais antigos, aqueles dos quais ninguém mais se lembra (como o tataravô do seu bisavô), acabam “morrendo” no plano dos mortos e indo para um lugar “desconhecido”, aparentemente sem volta. O filme deixa essa dimensão última como uma pergunta sem resposta. Há um personagem que, muito enfraquecido e desenergizado, acaba falecendo no plano dos mortos e tornando-se apenas uma luminescência (como se um corpo etéreo fosse dissolvido e sobrasse apenas o princípio espiritual). Para a mitologia do filme, isso ocorreria quando ninguém mais no plano físico se recorda deles e a eles presta homenagem no “día de los muertos”. Para alguns essa “morte” poderia ser entendida, se assim o quisermos, como a volta ao plano físico, no processo de reencarnação, segundo as concepções espiritualistas. Seria uma perspectiva bem razoável.

Já o plano dos mortos – onde estão os parentes de Miguel – seria como um “purgatório” católico ou o “umbral” dos espíritas. Ou seja, um plano imediatamente adjacente a este mundo, próximo em seus valores e conexões. O filme descreve também a possibilidade de algumas pessoas entrarem em contato com os mortos, como fez Miguel ao tocar o violão de Ernesto de la Cruz (o famoso músico do enredo) no dia dos mortos. Isso ocorre em condições especiais – como o “channeling” ou a mediunidade, que permitiria o contato entre os planos.

Outro ponto importante do filme é o personagem Dante, o cãozinho que acompanha Miguel no mundo dos mortos. O filme mostra que estes cães trafegam com naturalidade entre os planos, como se fosse um só, mostrando como os animais domésticos têm uma sensibilidade apurada às energias sutis do plano extrafísico, como é comum escutarmos no universo de crenças populares. Dante é um cão da raça Xoloitzcuintli, mais conhecido como Xolo. Seu nome só pode ser em homenagem à Dante Alighieri, poeta, escritor e político florentino que viveu entre os séculos XIII e XIV e escreveu a Divina Comédia, livro onde descreve sua aventura após atravessar o Aqueronte e adentrar o mundo dos mortos. O filme é muito respeitoso com a cultura mexicana, passando por “Lucha Libre” (sou apaixonado), Frida Kahlo, os Mariachis, Diego Rivera, seus grandes músicos, artistas, cidades, arquitetura e até a turma do Chaves em alguns cameos que aparecem rapidamente.

Como todo grande país, as metrópoles mexicanas acabam se amalgamando à estética das grandes cidades mundiais. Eu achei o “DF” parecido em gigantismo com São Paulo, apesar das óbvias diferenças. Porém, é nas cidades menores, conversando na rua – no meu caso com parteiras tradicionais – que podemos perceber a riqueza cultural deste país, suas idiossincrasias, seus dramas, assim como os problemas estruturais daquela sociedade, que são em vários aspectos semelhantes aos problemas que enfrentamos no Brasil. Minha amiga Robbie, que fez o trajeto Austin – Laredo – Nuevo Laredo, atravessando de carro a fronteira entre Estados Unidos e México dezenas de vezes (inclusive comigo), sempre dizia que entrar no México pela fronteira texana é uma gigantesca experiência cultural. Dizia ela (que é gringa raiz): “De um lado tudo é limpo, organizado e visceralmente feio; você cruza a fronteira e tudo passa a ser desorganizado, sujo e lindo”. Nesse aspecto, o México é mesmo um país irmão do Brasil – tán lejos de Dios y tán cerca de los gringos – mas eles ainda carregam a cruz dessa fronteira física. Nós, pelo menos, estamos geograficamente mais distantes.

Há poucos dias eu falava para os meus netos mais velhos (de 11 e 8 anos) da nossa viagem ao México em 2019, quando eles ainda eram bem pequenos. Queria que eles nunca esquecessem essa experiência para poderem voltar um dia e reviver aquelas experiências. Oliver, o mais velho, lembra bem de Chichén itzá, de Koba, de San Miguel de Allende, de Tepoztlán (e do Tepozteco) e da Cidade do México. O menor lembra apenas dos cenotes e Isla Mujeres. Mas eu sei que o México, mesmo que ainda não o percebam, tocou suas almas. Acho que, apesar dos aspectos instigantes da teleologia espiritualista do filme, essa é a principal razão por eu gostar tanto de “Coco” da Pixar: o filme foi muito feliz em mostrar a vastidão da cultura mexicana. Quando somos obrigados a escutar um demagogo idiota como Trump desmerecer os imigrantes do México isso me dá uma profunda tristeza, em especial por perceber a decadência gritante do Império americano e sua cultura consumista e a ignorância constrangedora que esse tipo de desprezo demanda.

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Impressões

Esses dias alguém me mostrou a foto de um antigo colega de faculdade, uma pessoa a quem não vejo há mais de 35 anos. Quando vi sua imagem lembrei de imediato de duas situações em que estivemos envolvidos nas quais ele não foi muito legal comigo. Uma das ocasiões foi nas reuniões de preparação para a cerimônia de formatura e outra ocorreu durante o atendimento de um parto, já na residência. Minha reação inicial foi um pensamento ao estilo “Não gosto desse cara, ele é arrogante e prepotente”.

Logo depois de pensar isso me dei conta que esse tipo de julgamento é brutalmente injusto. Não é concebível tratar uma pessoa – mesmo em pensamento – como se ela tivesse um caráter estanque, imutável, congelado há quase 40 anos. Não seria correto imaginar que uma fotografia distante no tempo pudesse ser a definição mais acabada do caráter de alguém. Como acreditar que a vida que teve não o jogou para lugares distantes, perspectivas diferentes, novos valores e posturas? Por que deveria ser aquela a imagem que o definiria? Ato contínuo, lembrei de uma atitude estúpida que tive com uma colega na mesma época – entre a formatura e o início da residência – e senti vergonha de pensar que ela poderia ter cristalizado essa ideia de mim, julgando-me um grande idiota, da mesma forma como fiz com meu colega de aula.

Somos muito dissimulados em nossas ações cotidianas, e temos máscaras muito bem construídas. A impressão que deixamos em nossos encontros fugazes como regra é enganosa, tanto para o bem quanto para o mal. O verdadeiro eu não pode ser vislumbrado à vista desarmada, e se o fosse não seria uma vista agradável. O simples fragmento de um encontro não é capaz de mostrar senão uma foto imperfeita e embaçada da nossa alma. Qualquer análise de um sujeito por esta breve percepção seria tão injusta quanto avaliar a beleza de uma sinfonia por uma nota isolada, aleatoriamente escolhida.

Em verdade, estes julgamentos falam muito mais de nós mesmos do que destes personagens passageiros da nossa linha do tempo. Eles, a mais das vezes, aparecem em nossa vida apenas para ressaltar as nossas próprias falhas, medos, dificuldades e limitações.

Por esta singela razão eu tenho grande admiração por aqueles que falam coisas boas de quaisquer pessoas que tenham cruzado sua trajetória. Mesmo sem o saber, esta visão positiva, compreensiva e condescendente com as falhas alheias deixa transparecer a própria luz de suas almas. Como dizia minha mãe “a boca fala do que o coração está cheio”, e o que dizemos daqueles ao nosso redor é o melhor espelho do que, em verdade, somos.

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Aos velhos

Meu conselho aos idosos:

Você está ficando velho como qualquer mortal; aceite numa boa. Não procure fingir, todo mundo está notando (até aqueles que dizem “mentira que já tens tudo isso!!”) Velhos são sobreviventes, portanto vencedores. Lembre que no longo prazo todos estaremos mortos e o importante da vida é viver o que há para ser vivido – seja bom ou não. Não estamos aqui pela felicidade, mas pela experiência. Sinta todos os sabores, aproveite todas as dores e não deixe escapar sequer as frustrações.

Faça dessa jornada a aventura que você merece viver. Em pouco tempo seu fulgurante vigor – que por tanto tempo lhe pareceu interminável – terá desaparecido. Um pouquinho mais e você será um nome numa lápide. Faça do tempo que lhe resta o melhor para todos à sua volta; esta é a melhor forma de imortalidade.

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Put the candle…. back!!

Em 1974 eu era um adolescente que gostava de cinema e de comédia. Fui ao cinema sozinho – o que eu costumava fazer naquela época – para assistir um filme sobre um famoso monstro da literatura, um sujeito formado por partes de distintos cadáveres costurados. Sim, eu não sabia que se tratava de uma comédia, e só no decorrer do filme me dei conta que não se tratava de um filme de terror, o que ocorreu já nos primeiros minutos, na cena da aula de neurologia. Esta surpresa deixou a experiência ainda mais interessante. O filme que fui assistir era “Jovem Frankenstein“, de Mel Brooks.

Numa época anterior à internet não havia muitas informações dos filmes, além do cartaz na frente do cinema e dos comentários nas colunas do jornal. Inicialmente acreditei se tratar de uma biografia ficcional do médico Victor Frankenstein quando jovem, e as razões pelas quais ele tentou recriar vida a partir de tecidos mortos. Eu não estava muito longe da verdade; a história era sobre Frederick “Fronkonstin“, neto do famoso médico, que foi instado a voltar ao castelo do avô para receber sua parte na herança. Esse neto – o genial Gene Wilder, cocriador do roteiro junto com Mel Brooks – renegava a memória do avô, a quem considerava um maluco sem qualquer credibilidade. Seu retorno à Transilvânia o faz reconhecer a veracidade e a correção dos estudos do seu antepassado. Estimulado pela descoberta, decide seguir seus passos e criar um novo monstro.

A história clássica, escrita há mais de 200 anos, está centrada no mito dos zumbis – ou a fantasia de recriar algo que, depois de morto, voltaria a viver. Ao contrário da criação dos zumbis, onde a feitiçaria ocorre por maldições, poções mágicas ou encantamentos, no romance do século XVIII a bruxaria se dá pela ciência, abusada e arrogante, que decide desrespeitar a “ordem natural das coisas”. O resultado só poderia ser uma monstruosidade. As múltiplas interpretações para a obra de Mary Wollstonecraft Shelley vão desde as relações de trabalho na Inglaterra no conturbado período da revolução industrial até os conflitos intrapsíquicos que insistem em manter vivas relações afetivas que há muito deveriam ter sido sepultadas.

A criação do romance se deu através de um desafio: contar uma história de terror durante uma noite chuvosa na casa do Lord Byron, onde também estava seu futuro marido Percy Bysshe Shelley. Pois foi em uma madrugada regada à vinho e com o barulho entorpecente da chuva como sinfonia que, em 16 de junho de 1816, Mary teve a ideia de contar a epopeia de um jovem estudante de medicina costurando membros que havia roubado de uma sepultura para fazer a carne morta retornar à vida. Desta forma, a garota de apenas 18 anos criou o clássico Frankenstein. A ideia virou um conto e depois, estimulada pelos amigos, tornou-se um romance cujo sucesso já ultrapassa dois séculos.

Certo, sem spoilers. Toda a trama do filme de Mel Brooks de 1974 é sobre a recriação do monstro. Entretanto, há razões para esta ser considerada o maior filme de maior comédia de todos os tempos. Os atores são incríveis: Gene Wilder, como Frederick; Clóris Leechman, como Frau Blücher (dá para escutar o relinchar dos cavalos ao pronunciar seu nome); Marty Feldman como Igor; Madeleine Kahn como Elizabeth e Peter Boyle como o monstro são espetaculares em suas performances, sem falar de Teri Garr, como a estonteante assistente Inga. E tem até uma pontinha do Gene Hackman como o cego que abriga o monstro. O roteiro é lindamente costurado, as gags são maravilhosas, as situações criadas no enredo são hilariantes.

O filme foi todo filmado em preto e branco, uma exigência de Gene Wilder para recriar a estética lúgubre do filme “noir” de Frankenstein com Bela Lugosi de 1943 (Frankenstein meets Wolfman). Essa característica adicionou um enorme impacto estético ao filme. Eu saí do cinema profundamente comovido, e fiquei com a música tema do filme durante anos na minha cabeça (um solo dolorido de violino composto especialmente para o filme pelo maestro John Morris). Infelizmente eu seria obrigado a esperar mais de 10 anos pela oportunidade de assistir novamente esta comédia. Nos anos 70 as únicas possibilidades de rever um filme eram passar de novo no cinema (improvável), uma apresentação com debate na faculdade (porque uma comédia, e não Godard?) ou assistir de madrugada no “Corujão” da Globo (raríssimas vezes o filme era um clássico). O vídeo cassete só se tornou viável no fim dos anos 80. Hoje em dia o filme está disponível a um simples clique do mouse.

Esta semana o clássico de Mel Brooks e Gene Wilder completou meio século de existência, e por isso resolvi contar a importância desse filme na minha juventude. Pedi que meus filhos vissem ainda pequenos, e eles adoraram. Mostrei aos meus netos há poucas semanas e eles também acharam muito engraçado, e por isso acho que se trata de um filme eterno. Ele continua engraçado transpondo gerações. Eu me sinto muito orgulhoso de apertar minha cara na porta de casa e ouvi-los dizendo:

“Put…. the candle…. BACK!!!”

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A liberdade de palpitar

Um dos grandes problemas contemporâneos das redes sociais é oferecer palanque para que um especialista em dinossauros se sinta a vontade para falar do conflito na Palestina, sobre psicanálise ou sobre medicina. O mesmo ocorre quando um astrofísico se acha capaz de fazer críticas ao comunismo, religiões e geopolítica, como se a sua audiência e pervasividade na Internet lhe garantisse autoridade para tratar de assuntos que ignora por completo.

E vejam, eu entendo a pressão que estas pessoas sofrem. Imagine criar um canal para tratar, por exemplo, de humanização do nascimento. Existem muitos temas, várias perspectivas, sem dúvida; há material para muito debate. Todavia, depois de 2, 3, ou mais meses de matérias diárias sendo veiculadas, os temas e seus viéses começam a minguar; os assuntos são muitos mas não são infinitos. Surgem então duas claras alternativas: tornar-se repetitivo, tratando novamente dos mesmos assuntos, ou começar a abordar outros temas, mas sem a mesma profundidade e “expertise” do foco inicial. Boa parte dos influenciadores escolhem a segunda opção e passam a falar de temas que ignoram, mas com a mesma postura professoral com que tratam das matérias das quais são especialistas.

Esse tipo de postura acaba produzindo cenas que se equilibram na fina lamina que separa o ridículo da mais pura irresponsabilidade. Especialistas numa fração minúscula do conhecimento são flagrados falando sobre assuntos muito distantes da sua área, escorados apenas na sua fama, seu carisma, sua inesgotável autoconfiança e na autoridade midiática conquistada. Muitas vezes as opiniões emitidas seriam terriveis até mesmo para uma mesa de bar, mas quando vemos que milhares de pessoas a assistiram isso se torna até perigoso.

Eu costumava dizer que as duas frases mais difíceis de escutar dos médicos eram “eu não sei” e “não faça nada”. Pois dos “coaches” youtubers de hoje o mais difícil de escutar é “eu não sei” ou “sobre este assunto nada falarei”. Falta bom senso e noção de limites para estes que falam sobre coisas das quais conhecem apenas as orelhas do livro.

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Super humanas

Quando vejo estas ideias de “medidor de dores” em sempre lembro que a dor não é um processo objetivo como a taxa de glicose no sangue ou a graduação de um hormônio circulante. Dores são percepções e elas são inexoravelmente subjetivas. A sensação de dor vai variar enormemente entre os sujeitos na dependência de inúmeros fatores. Por que, então, ainda insistem nessas “unidades de dor”? Qualquer pessoa percebe que isso é ridículo. “O ser humano só aguenta 45 unidades de dor mas as mulheres durante o parto aguentam 57 dessas unidades”. Isso significa exatamente o quê? Que as mulheres não são humanas? Serão elas sobre-humanas? Isso tem um nome: “desumanização”. Ou seja: as mulheres não precisam ser tratadas ou consideradas como humanas pois são seres divinos – ou, quando assim interessar, diabólicas e bruxas; não fazem parte dessa espécie.

Lembro quando um político populista do meu estado resolveu, durante uma palestra no hospital de clínicas, chamar as enfermeiras de “anjos de branco”. Nem terminou de falar e tomou uma vaia sonora do público, majoritariamente constituído por… enfermeiras. A razão dessa discordância é que chamar enfermeiras de “anjos” sempre cumpriu a função de desprofissionalizar, tratá-las como “religiosas”, espíritos impolutos que cuidam dos enfermos. Pois o que as enfermeiras mais desejavam era perder essa aura de abnegação e serem valorizadas em suas profissões, fugindo do estigma de “seres superiores” ou “luzes a iluminar as trevas da doença”. Não é adequado ou justo desumanizar as enfermeiras quando elas têm necessidades tão humanas quanto reconhecimento, respeito, atenção valorização e pagamento justo. No lugar dessa exaltação, paguem um bom salário, ora…

Com as gestantes o mesmo. Insistem na balela de que as dores do parto são horríveis mas as mulheres, por serem “seres superiores”, são capazes de suportá-las acima dos limites humanos. Pura bobagem!! O parto é tão mais doloroso quanto mais ignorados são seus princípios básicos de segurança, privacidade e intimidade. Todavia, a dor inerente ao processo é suportável por pessoas comuns, por mulheres absolutamente humanas. A ideia de tratar as mulheres de forma diferente não as ajuda e sacraliza a ideia de excepcionalidade.

Lembro da história que um professor de psicanálise me contou durante uma viagem entre Blumenau e Florianópolis que fizemos de carro. Dizia ele da história de uma mãe com problemas para alimentar seu filho com síndrome de Down – o mais novo de 4 filhos e o único com este diagnóstico. Ele costumava brincar com a comida, esmagar com as mãos e jogar longe, o que a irritava profundamente. Logo ao escutar o relato meu amigo já estava se apressando a dizer o quanto é natural esta conduta lúdica com o alimento entre as crianças pequenas quando decidiu perguntar: “Mas me conte, como você agiu com os outros filhos?”, ao que ela respondeu “Ah, com todos eles eu ralhava!!”. Ao escutar essa resposta ele disse: “Pois com este menino faça o mesmo!!”

Diante da minha surpresa, ele respondeu: “Muito pior do que não entender a questão das brincadeiras com a comida é iniciar desde cedo um tratamento diferenciado, excluindo o menor do tratamento que sempre foi dado aos outros irmãos, apenas porque ele é “especial”. Isso reforçaria nele a ideia de que não pertence àquele grupo, que não é tão humano quanto seus irmãos e só por isso não é tratado da mesma forma”.

Com as mulheres penso da mesma forma. Trate-as sempre com a mesma humanidade com que trata os homens, nem mais nem menos. Criar a ideia de que elas suportam mais as dores é tão discriminatório quanto achar que não podem exercer as mesmas funções dos homens. Lembrem apenas que muito do que se sabe sobre o assoalho pélvico feminino foi descoberto por um ginecologista americano chamado James Marion Simms abusando dessa perspectiva. No seculo XIX ele realizou pesquisas com cirurgias para fístulas urinárias sem anestesia e usava mulheres negras em seus experimentos dizendo serem elas “muito fortes para a dor”, portanto capazes de aguentar as dores dos procedimentos cirúrgicos criados por ele.

Ou seja: desumanização, mesmo quando o desejo é exaltar, nunca é algo justo e bom. Trate as mulheres, inclusive e principalmente durante o parto, como gostaria que todo ser humano fosse tratado. Nada mais, nada menos.

Veja o vídeo aqui

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Nutellas

Não são alunos “Nutellas”; o crime deles é serem pessoas normais…. ainda. A reação dos alunos iniciantes ao sangue, aos cortes, à brutalidade e à crueza das cirurgias é porque eles olham para os corpos dotados de alma. Os cirurgiões, por seu turno, conseguem – através de um longo treinamento – produzir um isolamento que lhes possibilita analisar o corpo “real” constituído tão somente de artérias, veias, ligamentos, ossos e tecido conjuntivo.

Fica evidente, pelas imagens, que se trata de alunos do primeiro ano. Minha experiência diz que praticamente ninguém fica impassível ao ver uma cirurgia pela primeira vez; não há como separar a carne cortada da alma que sofre. A dissociação que produz a percepção do “corpo real” do paciente, em contraposição ao “corpo erotizado” com o qual lidamos no cotidiano, é fruto de um lento processo de adaptação, o que leva a um estado de relativa insensibilidade à dor e ao sofrimento alheio. Este mecanismo é fundamental para proteger o psiquismo dos profissionais e permitir uma tomada de decisão mais racional, mas tem como parefeito a conhecida “frieza” dos cirurgiões. Entretanto, sem este tipo de isolamento afetivo toda a ação dos profissionais de saúde seria praticamente impossível, pois que seria danosa para eles.

Robbie Davis-Floyd se ocupou deste tema ao escrever sobre a escola médica como um “rito de passagem”, onde sujeitos comuns (como os garotos e garotas da imagem) se transformam em médicos. Este processo percorre toda a faculdade de medicina, e possui etapas bem conhecidas. A reação deles nada tem a ver com coragem ou com a qualidade dos profissionais que vão se tornar. Existem médicos clínicos, formados há anos, que desmaiam diante de cirurgias, pois nunca se acostumaram (adaptaram) a este contexto invasivo.

Para ser sincero, gostaria que estes alunos tivessem essa reação ao saber dos abusos de cesarianas no seu país, que sacrificam mulheres e crianças para proteger e beneficiar a máfia que controla estas cirurgias.

Veja o vídeo aqui

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Miragem

Esta foto do Mark Zuckerberg e sua digníssima esposa fazendo uma trilha em Kauai’s Awaawapuhi foi apresentada em vários jornais do mundo todo alguns anos atrás. Ela se referia a uma viagem que ele fez com sua esposa Priscilla Chan e tem todas as características de propaganda. Todos aqueles que entendem de semiótica percebem de pronto como estas fotos são usadas com objetivos bem claros. Atentem para os detalhes constitutivos da foto: as roupas são simples, o boné básico, o programa (um passeio na montanha) é de gente comum que ama a natureza, o enquadramento é de quem está fazendo um programa de casal de classe média e a foto é de baixa qualidade, como se tivesse sido tirada por um velho celular da Motorola. Tudo nessa foto é feito para criar uma conexão de Mark & Priscilla com os bilhões de humanos que consomem seus produtos. Entretanto, tudo que há nessa imagem é pura miragem.

Essa foto diz tanto da humildade do dono do Facebook quanto aquelas outras fotos que ficaram famosas durante o governo Bolsonaro que mostravam o presidente devorando um pão com margarina no Palácio do Planalto ou comendo galinha feito um troglodita, todo lambuzado e sujo de farofa. São produções de pura propaganda, criadas para estabelecer empatia entre o povão (todos nós) e os megapoderosos, os donos do mundo, com a clara intenção de esfumaçar a realidade e nos fazer crer que eles são “gente como a gente”. Tentam criar uma imagem de simplicidade e frugalidade par0a pessoas que possuem somas obscenas de riqueza e poder.

Eles não são como nós; eles são políticos corruptos, empresários, herdeiros, gangsters ou donos dos meios de produção. São burgueses, no caso do dono do Facebook; são políticos fascistas, no caso do Bolsonaro e são empresários gananciosos no caso do véio da Havan ou do Leman. Eles não compartem o mesmo estrato social que nós; estão na cobertura de um edifício que não somos sequer autorizados a entrar. Somos proletários, trabalhadores, servidores públicos, profissionais liberais e pequenos comerciantes, mesmo que para alguns ainda sobre um pouco de renda, o que possibilita a compra de um carro ou da casa própria.

Acreditar nessas fantasias é fazer o jogo dos ricos, das elites financeiras e dos poderosos. Cabe a nós desenvolvermos o que estes personagens da burguesia já têm: consciência de classe. Eles sabem o quanto têm de poder e dinheiro; também sabem e exaltam o quanto são diferentes de nós em termos de posses, gostos, status e posição social. Enquanto isso, somos iludimos por artifícios de publicidade e, por falta de consciência, acabamos acreditando que somos semelhantes a eles.

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Os Homens e o Cuidado

A primeira grande briga que tive contra o identitarismo na pauta da humanização do nascimento foi quando afirmei que os homens também poderiam atuar como doulas, desde que a gestante assim o quisesse e aceitasse. Por causa dessa simples afirmação, movida por um desejo de equilíbrio entre os gêneros, fui atacado e cancelado sem dó, acusado de “machismo”. Justificavam este cancelamento afirmando que os “homens estavam invadindo um espaço feminino”. Respondi explicando que nos últimos 50 anos tudo o que vi na sociedade foram mulheres invadindo “espaços masculinos” em todas as áreas da atividade humana, desde médicas até juízas de futebol, passando por pilotos de avião e presidentes da República – o que deveria ser saudado por todos. Não seria justo que os homens também pudessem se aventurar na seara do cuidado? A luta contra o essencialismo não deveria ser uma via de duas mãos – ou uma faca de dois “legumes”?

De nada adiantou minha resposta; fui xingado, ofendido e cancelado. “Como ousa?“, diziam algumas mais furiosas. Pois se há algo que me constitui é a ousadia. Não tenho problema algum em regar inimizades em nome da defesa de ideias honestas e sinceras – mesmo correndo o risco de estar errado. Não levo estas coisas para o terreno pessoal, mas já passados quase 20 anos ainda acho que minha proposta continua correta. A tese contrária à minha era de que “as mulheres foram desconsideradas por milênios, impedidas de fazer tarefas reservadas aos homens. Não seria justo que as poucas coisas reservadas a elas – como o cuidado – fossem agora divididas com quem já controlava quase tudo”.

Respeitosamente discordei. Acredito na lei biológica que diz ser o hibridismo uma característica que fortalece as espécies. Da mesma forma, sociedades com diversidade de gênero nas tarefas comuns aprendem com a diferença de perspectivas que homens e mulheres podem oferecer. A paralaxe que se produz aumenta nossa capacidade de entendimento dos fenômenos e auxilia na resolução de dilemas. Uma mulher que atua em áreas outrora dominadas por homens oferece mais qualidade a este trabalho e ao mesmo tempo aprende com esta nova função. Homens que atuam no cuidado – de doentes, crianças, velhos, gestantes – também cooperam com uma maior diversidade de compreensão do trabalho enquanto se nutrem com o aprendizado que recebem em seu labor.

Quando estive na China havia uma propaganda na TV sobre novas iniciativas de saúde governo. Uma delas era a incorporação de obstetras do gênero masculino na atenção pública ao parto. Na propaganda um marido avançava para atacar um médico quando ele se aproximava para examinar sua mulher. Uma enfermeira intervém e explica que ele é um obstetra, e que não teria nada a temer. Para aquela cultura, a ideia de um homem examinando as partes íntimas de uma mulher era tão estranha quanto o era para o ocidente no final do século XIX. Hoje parece estranho e bizarro um “doulo”, mas talvez sejam barreiras que o tempo vai desfazer. Como saber?

Eu sou testemunha direta desse processo. Vivo ao lado de 5 netos que são constantemente cuidados pelos seus pais homens. As tarefas de cuidado na Comuna são divididas de forma muito equânime, excetuando-se a amamentação. Posso constatar a qualidade de amor paterno que os meus netos recebem e o quanto isso é fundamental na formação ética que recebem. Para um velho, como eu, que foi criado em uma divisão sacrossanta de tarefas domésticas esta foi uma grande revelação. Ver a pequena revolução do cuidado foi um grande presente que a vida me deu. Por outro lado, existem resistências muito fortes, como esta da qual fui vítima. A psicanalista Vera Iaconelli, em um recente artigo, fala da dificuldade de garantir aos homens esta posição:

“A tarefa do cuidado é desprestigiada porque é a menos remunerada, a menos valorizada da nossa sociedade, mas ao mesmo tempo ela serve, paradoxalmente, como um lugar de prestígio para as mulheres, já que se supõe que só elas sabem fazer”, diz.(…) Então a gente tem uma contradição, que faz com que elas sofram nessa posição de exclusividade, mas, ao mesmo tempo, tenham medo de abrir mão de um dos poucos lugares de reconhecimento.”

Para que a sociedade esteja legitimamente no caminho da equidade é fundamental reconhecer esta angústia feminina – e por vezes um rechaço explícito – em relação ao cuidado feito pelos homens com a mesma seriedade que entendemos a relutância destes em assumir a posição de cuidadores, onde será necessário muito mais do que habilidades técnicas e força física – que por milênios foram exaltadas como superiores – mas o desenvolvimento de novas aptidões como paciência, delicadeza, afeto, docilidade, compreensão dos limites, carinho e amor incondicional.

Sim, homens podem ser doulas; mais ainda: podem exercer as funções de cuidado com seus filhos, netos e avós; com os doentes, os acamados, os bebês e todo aquele que necessite da “fraternidade instrumentalizada”. Por mais que a ciência tenha adentrado no âmago das células ela jamais foi capaz de afirmar que o gene do amor se situa apenas no cromossomo X.

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