Garotos e garotas, eu entendo o humor e creio mesmo que ele é sempre sagrado. Entendo a necessidade de fazer troça com tudo que ocorre ao redor: a pouca idade demanda. Peço apenas que contenham o “furor postandis” que as leva a expor compulsivamente nas redes sociais todas as gracinhas e piadas que porventura passem por suas cabeças. Entendam: elas não tem graça para quem escuta fora do contexto e, pior ainda, podem gerar muita dor de cabeça e constrangimento. Antes de publicar qualquer coisa usem a mesma lógica de segurança das estradas, “Na dúvida, não publique”.
E sobre os velhos na escola, eu mesmo tive um colega de faculdade, o saudoso Ernestino, que se formou em Medicina com 63 anos de idade. Nós, seus colegas de escola, tínhamos menos idade do que os seus próprios filhos. Pode parecer bem estranho, e certamente será mais difícil se “enturmar” com os coroas, quando mais de uma geração se interpõem entre nós. Entretanto, ter um colega (bem) mais velho tem inúmeras vantagens, entre elas a possibilidade de receber conselhos de vida de alguém que já casou, teve filhos, ganhou e perdeu na vida, sofreu e se divertiu. E também é valioso para adquirir um pouco de cultura geral.
Certa vez, no bandejão do Hospital de Clínicas, eu conversava durante o almoço com Ernestino, que era meu colega no estágio. No meio da conversa surgiu o assunto de um trabalho que nosso grupo faria em conjunto. Combinei de entregar minha parte, já feita, na sua casa, e por isso perguntei o endereço.
– Moro aqui do outro lado da Avenida Protásio Alves, na Rua Giordano Bruno, conhece?
Respondi que não conhecia… a rua, ao que ele respondeu:
– Cara, como não conhecer Giordano Bruno? Giordano Bruno nasceu no século XVI, na Itália. Foi um dos pioneiros do heliocentrismo e suas ideias estavam em sintonia com os postulados de Copérnico. Como frade dominicano foi perseguido por questionar dogmas da Igreja e até mesmo propor a existência de vida em outros planetas. Por suas crenças foi julgado e condenado. Uma semana antes de sua execução foi oferecido a ele renegar suas crenças e ser perdoado. Rejeitou a oferta e foi por isso queimado vivo na fogueira pela inquisição.
– Ahhh, claro. Giordano Bruno, sem dúvida. Mas onde fica mesmo?
Agradeço aos colegas mais velhos e experientes que nos ajudam na árdua tarefa de crescer e de diminuir o imenso fardo de ignorância que teimamos em carregar.
Eu não vejo grandes dramas com o fato de uma menina – que atende pelo sugestivo nome de Mc Pipokinha – rebolar em bailes funk e até mesmo ficar rica com essa profissão. O mesmo raciocínio uso com quem faz olifãs – ou mesmo prostituição por livre escolha – por uma razão bem simples: há quem pague e existe quem queira vender. Minha única reclamação é pelo fato de uma menina dessas escarnecer de um professor achando que o trabalho de mostrar seu corpo e rebolar de forma provocativa é “mais valioso” que o ofício de uma professora apenas porque seu contorcionismo erótico paga mais.
O dinheiro é, quase sempre, um péssimo método para avaliar qualidade ou importância social de uma ideia ou um trabalho. Apesar de sua inquestionável importância através da história os professores são depreciados e mal pagos no capitalismo. Mesmo diante desse desprestígio não deixam de ser indispensáveis. Nunca é tarde para lembrar que Beethoven fez muito menos sucesso que Justin Bieber ou Madonna.
Uma cultura sobrevive sem pipokinhas, mas não sem mestres.
Uma pesquisa recente na Finlândia mostrou que as crianças violentas ou vitimadas pela violência têm uma probabilidade muito maior de se tornarem adultos desajustados e violentos. O primeiro grupo é formado por crianças e adolescentes que foram “saco de pancada” na infância, em especial na escola, aqueles que sofreram bullying, que foram maltratados por serem gordinhos, pequenos, fracos ou pouco “inteligentes”. O outro grupo era o dos seus abusadores, os espancadores, os “bullies“, os “malvadões“, os opressores. Este estudo descortina que tanto os agressores quanto as vítimas de bullying tinham um risco aumentado para crimes violentos, quando comparados às demais. Bullying é um assunto de extrema importância, até do ponto de vista da economia dos países industrializados. No Reino Unido, 16.000 crianças entre 11 e 15 anos faltam à escola pelos maus tratos dos colegas, e 78.000 faltam quando o bullying é uma entre outras razões.
Ambos os grupos são marcados pelas duas pontas da violência, seja aplicando-a ou sendo vítima dela; imagina-se que a violência seja replicada nos espancadores pelo gozo continuado de oprimir e nas suas vítimas pela necessidade de vingança, para reverter as humilhações do passado.
Todavia, estas ainda são marcas da infância, do tempo da escola ou do início da socialização. Eu me questiono quais marcas ainda mais profundas – que os psicólogos contemporâneos chamam de “imprints” – são produzidas quando a violência ocorre na primeira infância, no período pré-verbal e sendo perpetradas por aqueles que mais confiamos e dependemos, como nossas mães e nossos pais? É lícito imaginar que as cicatrizes dessas experiências precoces são ainda mais profundas e mais facilmente produzem comportamentos violentos, produto das inúmeras dores recalcadas. Uma pesquisa de 2021 mostrava que 35 mil crianças e adolescentes foram mortos de forma violenta no Brasil, segundo levantamento do Fundo Internacional de Emergência das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. No subgrupo de crianças de 0 a 4 anos ocorreu aumento de 27% nos casos. Em 90% dos casos o agressor é da família. Mas, e os sobreviventes? Que tipo de visão de mundo terá uma criança que sofreu agressões durante o período mais frágil de sua vida e ainda por intermédio das pessoas que mais deveriam cuidá-la e protegê-la? Isso sem falar das agressões tão precoces que são capazes de transformar a chegada a este mundo em um trauma poderoso – as violências no parto.
Apesar disso, em uma pesquisa de 2020 realizada com 7038 cuidadores de crianças de 0 a 5 anos residentes em 16 municípios cearenses, incluindo a capital, Fortaleza 84% dos pais acreditam que os castigos físicos e gritos (ou ambos) são importantes e necessários para a educação de crianças. Uma fração enorme dos pais e cuidadores de crianças desta região acreditam na violência como método pedagógico necessário para colocar as crianças no caminho. Acreditam mesmo que a violência, por produzir resultados imediatos como o silêncio e a obediência, seriam capazes de moldar o caráter das crianças, quando, na verdade, apenas desenvolvem personalidades cujo medo é o sentimento preponderante e a violência sua reação mais natural. Resta-nos questionar como se contrapor a essa proposta, tão arraigada em nossa cultura, que conecta educação e caráter com violência física e psicológica em crianças.
Os resultados de uma sociedade baseada na violência podem ser vistos no nosso cotidiano. Homens e mulheres de 60-70 anos, que certamente foram educados com a severidade das surras, das humilhações e dos castigos, hoje afirmam impávidos nas redes sociais: “apanhei muito, mas não virei marginal”. A resposta talvez esteja nesta violência muito precoce que sofreram ou impuseram, que ao criar este “imprint” na tessitura maleável da alma infantil, faz desabrochar na maturidade a opção pela violência física e moral.
Tenho uma curiosidade sobre a “decadência do amor romântico” e gostaria de saber a opinião das pessoas sobre essa ideia. Por que tantos acreditam que o amor romântico “não funciona” e precisa ser eliminado? Qual a alternativa a ele? Se o amor romântico não funciona a alternativa seria a construção de uma cultura hedonista, baseada em múltiplos encontros sexuais e amorosos fugazes, superficiais e “operacionais”, tipo, objetivando apenas a reprodução? Poliamor seria a resposta para o desejo? Relacionamentos abertos? E as crianças? Tribos, comunidades, comunas? Como podemos imaginar as sociedades, as famílias, as crianças e a velhice num mundo pós amor romântico?
A questão proposta é apenas esta: se o amor romântico como o entendemos não tem mais sentido, como seria a estrutura social do futuro? Amores líquidos, meteóricos? Prazeres descompromissados? Surubas cibernéticas? Sexo casual? Filhos comunitários? Admirável Mundo Novo?
Para ser mais explícito, não é sobre apaixonamento, tesão ou outros tipos de amores que estamos falando. “A crise do amor das relações surgiu no horizonte como um impacto muito forte, com as separações tanto das relações mais formais como as informais. O casamento oficializado entra em crise.” (Edson Fernando Oliveira). A crise está na ideia de que precisamos nos relacionar por amor, pelo desejo de formar parcerias longas, “até que a morte os separe”, uma vida conjunta envelhecendo em parceria, ao lado de filhos, netos e bisnetos. É sobre esse “contrato social” de pessoas que estão juntas e decidem se manter assim porque se amam. Não é sobre paixão e desejo, mas a forma de acomodá-los, criando uma dualidade afetiva duradoura.
Acho importante citar que existem experiências de organizações sociais que diferem do casamento monogâmico e do próprio “amor romântico”. Todavia, é importante entender as condições para o aparecimento desse tipo de organização social e as razões por jamais ter se disseminado. Uma forma de pensar como seria uma sociedade sem amor romântico é conhecer a comunidade Mosuo no sul da China, numa das zonas mais isoladas e pobres do país. Acho um equívoco tratar esse modelo como “matriarcado”, que eu acredito ser um mito, mas a estrutura social aplicada para dar conta das famílias, dos filhos e da sexualidade parece ser extremamente interessante, em especial no que tange os “casamentos caminhantes”. Nessa comunidade – repito, pobre e isolada, e isso ao meu ver é muito significativo – após completarem 13 anos de idade, as meninas podem ter seu próprio quarto na “casa das flores”, uma casa onde as avós detêm o controle político e moral. Nesse seu quarto elas pode convidar os meninos que desejarem para visitá-las (por isso casamentos caminhantes), tendo uma vida sexual livre e sem cobranças. Num determinado momento elas escolhem quando desejam se tornar mães – ou o “destino” escolhe por elas, como acontece entre nós. Ficam grávidas do pai biológico de seu filho, mas este nunca terá funções paternas sobre aquele.
A sociedade não é matriarcal; isso é um mito. A liberdade sexual das mulheres não significa diretamente poder político. A sociedade é matrilinear e matrilocal, mas o conceito de “arkhé”, poder político, não está implicado nessa sociedade. Em uma cultura patriarcal, o homem assume a responsabilidade e a autoridade política, moral e religiosa sobre as mulheres e os filhos confiados à sua proteção, e as mulheres nessa sociedade isolada chinesa não têm estas atribuições. Ou seja, não é o espelho invertido da sociedade patriarcal, mas uma sociedade onde as famílias se organizam em torno das mulheres e de suas casas, e onde usufruem de uma curiosa (e eu diria merecida) liberdade sexual. Na sociedade Mosuo quem assume a função paterna das crianças é o irmão mais velho da mãe, que será o “pai” dos seus sobrinhos, mas não dos seus filhos biológicos. Portanto, a função desse homem é muito importante na formação das crianças, mas não adquire uma conexão biológica/genética. Como a sociedade é matrilocal, os homens vivem nas casas das “matriarcas” e as crianças nascidas vivem sempre sob a tutela desse núcleo familiar, o qual não obedece uma característica patrilocal, sequer patronímica. Entretanto, é importante entender que esse costume aos poucos vai morrendo, e as novas gerações vão adotando o modelo patriarcal monogâmico do resto da China, adaptando-se ao “amor romântico”.
Outra questão importante é o turismo sexual que se criou para esta localidade, pois se acreditava que as mulheres Mosuo eram “fáceis”, que tinham relações com qualquer visitante. Houve até campanhas na China para afastar estes turistas indesejados que não compreendiam o costume e o tratavam como uma variante da “libertinagem”. Porém cabe uma pergunta: por que esta sociedade é uma exceção? Pode haver várias respostas, mas a minha é esta: por ser uma sociedade isolada, pequena e insignificante. São populações que vivem nas montanhas e sem contato com vizinhos ameaçadores; esta é, afinal, uma das regiões mais pobres da China, onde a vida é muito dura. Essas sociedade são militarmente frágeis, mas apenas por que as ameaças inexistem. Foi pela necessidade de proteção que o planeta inteiro adotou o patriarcado, que produz sociedades mais fortes e protegidas. Mas o que aconteceria com uma sociedade que não sofresse ameaças externas? Talvez exatamente isso: uma sociedade sem a necessidade do patriarcado como força protetiva. Por isso algumas feministas perceberam que a única forma de produzir real igualdade social – e sexual – entre os gêneros seja pela conquista da paz.
Como a sociedade é “matrilocal”, as meninas Mosuo permanecem morando na casa das mulheres após o nascimento dos bebês e quem fará a função paterna será o irmão mais velho. O pai biológico do seu filho poderá fazer essa função na sua casa e com os filhos e filhas de suas irmãs. Poderá também participar, se assim o quiser, dos cuidados do seu filho biológico, mas está não será sua obrigação primordial. Esse modelo é, por certo, uma exceção no mundo atual e, para existir, precisa de circunstâncias muito especiais, entre elas a paz e uma característica não belicosa da sociedade. Creio que esse é o ponto nevrálgico. Todas as sociedades que, de uma forma ou de outra, se sentiram ameaçadas por inimigos externos acabaram adotando o modelo patriarcal, muito mais forte, determinado e capacitado para o enfrentamento.
Existem muitos documentários sobre os Mosuo (vide abaixo) em especial por concepções errôneas e preconceituosas sobre a organização sexual das mulheres nesta cultura. Em um desses documentários, a matriarca diz que o modelo Mosuo “é o mais avançado do mundo, e deveria ser exportado para todo as culturas”. Ela rechaça a ideia de que seja promíscuo, mas ressalta que nesse modelo (ou nessa experiência) as mulheres fazem um trabalho muito pesado na agricultura de subsistência e no cuidado com os animais domésticos, produzindo uma sociedade de ampla autossuficiência. Entretanto…. se pensarmos bem, não temos uma variante desse modelo em alguns subgrupos sociais? Pensem em alguns bolsões de pobreza, onde as meninas adolescentes engravidam de garotos igualmente muito jovens. A menina e seu filho estabelecem-se (por necessidade) na casa da mãe, que passa a cuidar do neto, muitas vezes assumindo o cuidado materno. O pai biológico desaparece, evade, vai cuidar de suas necessidades, e a função paterna acaba sendo executada pelos irmãos mais velhos ou pelo avô do bebê (quando houver). Não é parecido?
Primeiramente é importante deixar claro este conceito. Amor romântico não é isso que muitas das pessoas imaginam; aliás, quase todos confundem esse conceito quando se trata das formas de constituir uma sociedade. Amor romântico é casar (ou qualquer relação semelhante que objetiva constituir uma família) por amor, e não por qualquer outro interesse. Essa criação social é relativamente jovem na história da humanidade, e ainda hoje existem milhões de casamentos que não ocorrem por amor, fora do esquema que temos aqui, e que ocorrem por contrato de divisão de terras, divisão de poder, por escolha dos pais, para fazer filhos, por interesses jurídicos (green card, por exemplo), por rituais familiares, etc.
O Japão possui uma longa história de casamentos arranjados, chamados “omiai”. Este país mudou bastante a partir da 2a guerra mundial e a forçosa ocidentalização que se obrigou pela invasão americana e hoje em dia muitas pessoas estão escolhendo parceiros que conhecem e amam. Há não menos de 20 anos o total de casamentos Omiai era de 20%, mas hoje estima-se que cerca de 5% a 6% dos japoneses ainda usam o modelo do casamento arranjado e aceitam ter seus parceiros escolhidos por outras pessoas. Os casamentos arranjados ainda são a norma na Índia, mas há uma tendência crescente de algumas mulheres escolherem seus próprios parceiros, ou simplesmente não se casarem. Ou seja: o casamento romântico que parece morrer aqui, lá na Índia está recém nascendo e florescendo, e se tornando – só agora – a norma.
Esses casamentos arranjados, que foram o padrão da humanidade por séculos, costumam ser uma instituição muito mais sólida, firme, forte e permanente. Como dizia Contardo Calligaris, “o casamento é uma instituição sólida, a única coisa que o enfraquece e ameaça é o amor”. Todos nós percebemos o quanto o casamento de nossos avós eram bem mais duradouros que os atuais, mas também muitos se espantam (ou ficam horrorizados) ao descobrir que muitos destes nossos antepassados… jamais se amaram.
Enquanto isso, o casamento por amor romântico é uma novidade recente onde o sentimento afetivo (amor) é o principal elemento de união, não havendo outras amarras explícitas para o contrato. Não são escolhas parentais e não são valores materiais os objetivos dos que escolhem o parceiro, o objetivo não é monetário e não há interesses escusos.
Algumas pessoas dizem que este tipo de união é fracassada, tendo em vista que na idade madura mais da metade das pessoas já estão separadas desse amor. Pois foi esse meu interesse ao perguntar: se não for esse o modelo de casamento – por amor – qual seria? Voltar a ter casamentos por dinheiro, escolhidos pelos pais? Pessoas fazendo filhos sem se conhecer? Máquinas de gestação extra corpórea? Relações fugazes? Longos namoros sem coabitação? Filhos criados por comunidades de mulheres? Paternidade dispersa? Pessoas vivendo sozinhas e se encontrando apenas por sexo (como ocorre em parte da juventude de hoje)?.
Claro que qualquer um pode escolher o seu modelo, mas isso não se configura um padrão social, apenas uma forma de resolver sua vida erótica, e sobre essa questão social se apoia a pergunta inicial. Alguns perguntaram “para que precisamos modelos?”, que é uma pergunta válida para o sujeito, mas se vamos tentar entender as tendências sociais é importante questionar as razões pelas quais escolhemos formas de guiar as práticas de união social – em especial aquelas que vão produzir filhos e manter nossa espécie.
Portanto, não estou falando de “amor verdadeiro”, “amor eterno”,“amor real e sincero” e muito menos do conceito de “romantismo”, ou seja, “práticas externas e explícitas de demonstração de afeto e paixão por uma pessoa”. Isso é outro assunto. O amor romântico pode ser silencioso e discreto, basta ser movido tão somente…. por amor.
“And a stone of stumbling, and a rock of offence, even to them which stumble at the word, being disobedient: whereunto also they were appointed”.
Eu acho que Cristo estava certo ao dizer “pedra de tropeço e rocha que causa a queda; porquanto, aqueles que não creem tropeçam na Palavra, por serem desobedientes, todavia, para isso também foram destinados.”
Minha interpretação é de que os acontecimentos ruins que nos fazem tropeçar precisam ser utilizados como ferramenta de elevação. A sua “destinação” – e aqui serve apenas como alegoria – é a pedagogia do caminho justo. O escândalo do trabalho escravo precisa servir de alavanca para uma profunda reflexão, e uma posterior transformação nas relações trabalhistas. Sabemos também que os casos de trabalho análogo à escravidão acontecem há muito tempo, e que muitas queixas já haviam acontecido, mas a imprensa e o MP nunca deram a devida importância. Não é novidade alguma o que aconteceu, mas o ambiente político pós era Bolsonaro, as declarações infelizes do vereador bolsonarista, a publicidade que foi dada acabaram produzindo a necessidade de enfrentar este caso de uma forma diferente. É preciso que a sociedade brasileira aproveite a oportunidade que o escândalo do trabalho escravo nos ofereceu, que ele venha a nos envergonhar, para que esta vexame seja a peça essencial para uma nova consciência.
Uma história parecida: Nos anos 70 os anestesistas eram escassos no Brasil. Era comum que um anestesista cuidasse de várias salas cirúrgicas ao mesmo tempo, ocupando-se de vários pacientes, dividindo sua atenção entre muitos teatros operatórios. Então aconteceu o acidente de Clara Nunes durante uma cirurgia, e este fato oportunizou – pela via da dor – um novo padrão de atenção, através do escândalo de uma morte que poderia ter sido evitada. Não se sabe com exatidão se esse foi o caso que ocorreu com a cantora, mas foi uma das versões que percorreram o noticiário da época. A solução surgiu a partir da vergonha, causada pela pedra de tropeço de uma tragédia. O Conselho Regional de Medicina da Bahia, informou que causa mortis apresentada no atestado de óbito da cantora foi “hipersensibilidade ao halotano”, gás administrado durante a cirurgia como anestésico. Pela avaliação da corporação os depoimentos apontaram que, tanto do ponto de vista técnico quanto humano, não houve falhas. Os médicos não teriam se ausentado, os equipamentos não falharam por falta de manutenção e a clínica São Vicente onde ocorreu o fato foi inocentada. De qualquer maneira, a partir dessa data, houve uma vigilância severa sobre a atuação dos profissionais em salas de cirurgia.
Nesta caso que agora nos espanta pela sua crueldade e violência protagonizada pelos empresários e por membros do Estado, é preciso ter uma visão prospectiva, que não pode se esgotar no punitivismo. Espero que a partir de agora a indignidade, a violência, o abuso, os maus tratos e o cerceamento da liberdade sejam vistos como crimes contra cada um de nós. Que sejamos atingidos pela vergonha de considerar cidadãos trabalhadores como sub-humanos, indignos de justo tratamento. Que tenhamos a sabedoria para fazer um bom uso desse lamentável acontecimento.
Se a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar opressor, como já dizia Paulo Freire. Se a gente não combate o abuso em si, mais cedo ou mais tarde todos iremos exigir nosso quinhão de opressão no mercado da violência. Se a luta contra o arbítrio só nos inflama quando toca nossos interesses – ou nossas feridas – então não é paixão pela mudança, é apenas oportunismo.
O movimento de humanização do nascimento não se produz num vácuo conceitual mas, pelo contrário, surge no bojo das profundas transformações do pós guerra no que diz respeito à distribuição dos gêneros no mercado de trabalho, nos costumes, nos direitos sobre o corpo e nas questões relativas à sexualidade – incluindo aí a contracepção e o ciclo gravídico-puerperal. Nos anos 70-80 pela primeira vez se tornou possível mensurar de uma forma metódica e abrangente o resultado da invasão tecnológica sobre o parto ao confrontarmos os resultados obtidos pela institucionalização do parto com sua versão artesanal e domiciliar que foi o modelo hegemônico por toda a história da humanidade. Por esta razão nesta época apareceram no nosso horizonte os primeiros contrapontos ao modelo vigente.
No que diz respeito ao terreno das ideias, a partir desse período era possível beber em diversas fontes. Entre as principais referências estavam na Inglaterra o obstetra Grantly Dick-Read, que tratou da ambiência do parto e suas repercussões (em especial o ciclo medo-tensão-dor) e o parto como fato social; na França surgiu Fernand Lamaze que falava dos domínios do consciente sobre o parto. Mais uma vez na França surgiu a questão da violência na atenção ao parto, e Frederick Leboyer surgiu com a perspectiva do recém-nascido e o conceito de “imprint”. Ainda na França, Michel Odent abriu um portal no entendimento do parto ao falar desse evento como fenômeno “mamífero”, com seus estudos da etologia e os efeitos da ocitocina para o rtabalho de parto e o psiquismo materno. Finalmente, nos Estados Unidos surge o trabalho da antropóloga e Robbie Davis-Floyd que nos apresenta a perspectiva ritualística do parto, e os elementos simbólicos das rotinas obstétricas. Estes foram personagens e ideias que produziram o arcabouço ideológico que fomentou nossa perspectiva teleológica do processo de nascimento. O modelo humanista, surgido do caldo de ideias desses pensadores, ocorre em contraposição à crescente alienação das mulheres no ato de parir e o domínio da tecnologia sobre seus corpos. Certamente que a tarefa de desconstrução sobre o modelo tecnocrático de atenção ao parto só poderia ocorrer de forma conflituosa, porque sobre o corpo das mulheres existem claras demarcações, zonas de domínio, que são próprias da estruturação do modelo patriarcal. Desta forma, o movimento de humanização passou por etapas cujo reconhecimento é extremamente essencial para sua continuidade. Também é importante entender que, como todo fenômeno social, estas etapas não são estanques e são intercambiáveis no tempo e no espaço.
1-Indignação e Acolhimento
A primeira etapa é o que eu chamo de “Acolhimento“. O acolhimento vai ocorrer quando um sujeito, vítima real de uma situação ou contexto, procura a ajuda de pessoas que possam lhe escutar e entender suas feridas e traumas. Os primórdios da humanização do nascimento, desde o início das “list servers” sobre parto humanizado, eram recheados de histórias e relatos de partos onde a dignidade e a autonomia das mulheres e bebês foi claramente ofendida. Era tarefa dessa comunidade acolher as vítimas de um modelo de atenção que lhes parecia violento e insensível. O problema é que o ser humano tem mecanismos de satisfação que lhe permitem obter vantagens pela sua condição de vítima, seja por benefícios ou privilégios. Essa atitude é muito primitiva em nós, bastando para isso ver uma criança que chora copiosamente ao cair, sabendo que isso significará um ação acolhedora da mãe. Com o tempo esta atitude pode se tornar padrão de comportamento, criando uma criança manhosa, que percebe na sua condição real (ou fantasiosa) de vítima uma chance de receber o prêmio do carinho que deseja. Na atenção ao parto muitas mulheres se recolhem na condição de vítimas do sistema e o movimento de humanização às acolhe, gerando um circuito que oferece a elas um gozo pela sua condição.
É evidente que esta ação não pode perdurar porque uma regra básica das relações humanas é que a pessoa que se encontra na condição de vítima não pode ser protagonista, uma condição antagônica a esta posição. Desta forma o padrão maternal acolherá a criança ou o adulto vítima e lhe dará o cuidado necessário para sua proteção e recuperação, mas manterá o sujeito preso a um vínculo de dependência. Somente a posição paternal subsequente poderá livrar o sujeito dessa condição, obrigando-o a uma posição proativa. É importante notar que posições maternais e paternais se referem às funções e não aos personagens mãe e pai e muito menos às identidades de mulher e homem.
2-Punição
Essa condição de vítima é geradora de ressentimentos e o ressentimento vai produzir o segundo passo neste processo que é o “Punitivismo“. Esta foi uma tendência marcada nos primeiros anos do movimento de humanização. Se conhecíamos as vítimas de uma atenção inadequada por certo que haveria aqueles a quem culpar, em especial os que detém mais poder e conhecimento autoritativo. Nessa etapa muito se discutia sobre as punições devidas aos médicos e hospitais que utilizavam de forma exagerada e insensata os recursos tecnológicos. Da mesma forma como o enxergamos nos problemas sociais, o punitivismo na obstetrícia se baseia na crença que o aumento ou alargamento das punições sobre médicos e hospitais poderia garantir uma maior qualidade da atenção, pela simples eliminação da impunidade. Décadas de observação e inúmeras experiências nos mostram que esta é uma estratégia equivocada e de resultados pífios. Se punir quem vendia álcool na lei seca não diminuiu seu consumo, porque a punição aos médicos poderia trazer qualquer benefício, em especial quando sabemos que eles são igualmente reféns do “imperativo tecnológico” que os mantém prisioneiros de um modelo tecnocrático e intervencionista, mesmo quando têm pleno conhecimento de que não é o mais adequado.
3-Idealismo
A etapa seguinte eu chamo de “Idealismo”. Esta etapa ocorre quando vemos o florescimento de uma enorme quantidade de ideias e propostas relacionadas à atenção ao parto. Começamos a nortear nossas ações centrados nos trabalhos, pesquisas e estudos de ideólogos e pesquisadores que produziram um olhar desafiador sobre o parto. Assim, o “parto Leboyer” surgiu como uma prática – repleta de variantes – a partir das ideias do obstetra francês Frederick Leboyer. Alguns anos após, outro francês, Michel Odent, nos convidava a refletir sobre nossa ancestralidade e as reais necessidades de uma gestante em seu momento de parir. A partir deles, muitos outros vieram, entretanto, como pode ser facilmente observado, “nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam”. O livro de Robbie “Birth as an American Rite of Passage” foi publicado há mais de 30 anos, e nessas três décadas o cenário do nascimento humano no mundo ocidental apenas piorou no que diz respeito à autonomia das mulheres, mesmo com grande acúmulo de perspectivas inovadoras e estudos que as embasam. As taxas de cesariana no Brasil chegaram a um platô que se situava entre 55 e 57% e não conseguem descer abaixo disso – em verdade os últimos relatórios falam de uma taxa de 59.7% de cesarianas e 82% no setor privado – inobstante as boas iniciativas de algumas instituições e poucos profissionais. As Intervenções continuam em alta, apesar de inúmeras publicações demonstrando sua inutilidade e mesmo seu efeito deletério para o binômio mãe-bebê
Fica evidente que as ideias são incapazes – por si só – de promover mudanças. Por mais que os médicos saibam da inutilidade da episiotomia, da alta taxa de cesarianas, dos enemas e da posição de litotomia, o simples reconhecimento desses erros não os leva a mudanças significativas em suas atitudes. Esse tipo de pensamento idealista nos levou a fazer “caravanas” pela humanização do nascimento no início do século, baseados na ilusão de que a simples confrontação com a verdade das pesquisas seria capaz de imprimir novas condutas médicas. Ledo engano; não houve nenhuma mudança significativa; nenhum índice de intervenção se tornou melhor pela demonstração prática de sua inadequação. Mesmo o programa “Parto Adequado” que foi utilizado em hospitais privados – o ponto nevrálgico das intervenções desmedidas – teve um “sucesso” inicial de diminuir em 1% as intervenções de nascimentos cirúrgicos, mas os valores voltaram a crescer algum tempo depois. A “educação médica” não parece surtir efeito, pois parte de uma perspectiva que não reconhece a dinâmica de poder que permeia a atenção à saúde.
4-Reformismo
A próxima etapa é derivada do idealismo e se refere a um movimento que ainda é hegemônico entre os obstetras “liberais”, aqueles simpatizantes do parto normal (também conhecidos como “vaginalistas”) e entre muitos profissionais das correntes da humanização do nascimento. Ela se chama “Reformismo“, que consiste na ideia de que é possível transformar a atenção ao parto se houver uma educação ampla, reforma no ensino da medicina, contratação de médicos alinhados com os projetos de humanização e estímulo à contratação de enfermeiras obstetras pelos centros de atenção ao parto. Essa proposta acredita que é possível “moralizar” a atenção apostando no sujeito, nos “bons profissionais” (os “good guys”) na suavização de suas práticas, na eliminação de intervenções desnecessárias, na educação e na informação científica atualizada – mas não na mudança do sistema no qual estes profissionais estão inseridos.
Existem inúmeros hospitais de caráter reformista na atualidade, alguns por acreditarem nessa proposta, enquanto outros por entenderem que se trata de um modelo intermediário para uma verdadeira mudança que só ocorrerá num futuro distante. No último congresso internacional da ReHuNa houve um momento profundamente revelador dessa proposta: o convite para que o presidente da Febrasgo (Federação das Associações de Ginecologia e Obstetrícia do Brasil) tivesse uma fala. Nesta ocasião ele se mostrou educado, afável e compreensivo com as reivindicações dos seus entrevistadores. Para muitos um ato de reconhecimento de nossa relevância. Todavia, deveria ter ficado evidente para todos os presentes em sua palestra que a sua concordância – ou não – com as nossas propostas é absolutamente irrelevante para uma real transformação. O mesmo acontece com uma mesa em que representantes israelenses se encontram com a população palestina para discutir o futuro da região. As posições jamais serão alcançadas através da simples concordância com as visões dispares de mundo, e qualquer solução só poderá brotar do atrito e do choque de poderes – mais ou menos violento. Para isso é preciso uma abordagem “materialista e dialética”.
O Materialismo dialético é uma concepção filosófica e uma metodologia científica que propões a visão de que o ambiente, o sujeito e os fenômenos materiais e físicos tanto modelam a sociedade e a cultura quanto são modelados por eles; ou seja, que a matéria está em uma relação dialética com o psicológico e o social. Por mais que seja evidente a correção da luta por autonomia das mulheres em relação ao parto e nascimento, estas ideias somente terão avanços quando o ambiente social se modificar e as próprias mulheres se colocarem à frente do processo de mudança. Precisamos tanto de melhores profissionais quanto melhores clientes para o parto. Médicos e gestantes estão sujeitos ao mesmo modelo, atuam dentro dele e ao mesmo tempo são afetados por ele, e precisam agir em consonância para que este seja transformado. No atual estado da arte, a Medicina e sua lógica da intervenção está em antagonismo com as reivindicações das gestantes que desejam um parto humanizado. Jamais conseguiremos uma modificação profunda no sistema através de reformas que não mudam em profundidade o sistema de poderes que governa o corpo das mulheres, sua sexualidade e reprodução.
Enquanto o parto for considerado “ato médico” e se mantiver nas mãos de cirurgiões nenhum avanço significativo será alcançado, pois que a perspectiva médica e a visão da parteria são antípodas no espectro da atenção. A lógica médica aplicada ao nascimento objetualiza as pacientes, transformando-as em objetos dóceis e inermes para a sua atuação e intervenção. Essa lógica é essencial para o tratamento de muitas doenças e em especial para a realização de cirurgias, mas não se aplica ao atendimento de um evento fisiológico como o parto sem excluir as mulheres e seus bebês da equação. A aventura da Medicina no percurso do nascimento humano levou inexoravelmente ao apagamento das mães de qualquer decisão, colocando nas mãos dos médicos toda a responsabilidade do que vai acontecer a elas. Não por outra razão em nossa cultura os médicos “fazem partos”.
5-Revolução
O que resta como solução é deixar para trás as ilusões, entendendo a arena do nascimento como uma “luta de classes” que não vai chegar a qualquer consenso enquanto os médicos mantiverem o controle político e econômico sobre o processo de parir. Somente com a queda deste poder, e a ascensão das especialistas no parto – parteiras profissionais e tradicionais – haverá possibilidade de uma verdadeira “Revolução do Parto”, mas que só vai acontecer quando as massas, nutridas pela inescapável indignação, reivindicarem que a assistência volte ao controle das próprias mulheres e através do auxílio dos profissionais mais capacitados para este ofício. Cabe também resguardar aos médicos a nobre tarefa de agir nas circunstâncias em que a trilha da fisiologia se perdeu no emaranhado único de cada nascimento e adentrou na rota perigosa da patologia, para que eles sejam os heróis que tanto necessitamos. Todavia, diante dessa tarefa, é importante lembrar de Simon Chapman, professor de Psicologia na Austrália, que durante muitos anos estudou a questão do tabagismo e expôs a indústria de tabaco pelos seus malefícios à saúde humana. Em suas palavras “uma vez que seu trabalho ameace uma determinada indústria, corporação ou ideologia dominante, você será atacado sem tréguas e de forma cruel. Portanto, crie para si mesmo uma couraça de rinoceronte”. Todo aquele que deseja confrontar os poderes estabelecidos sobre o parto e, portanto, sobre o controle da sexualidade feminina, será atacado de forma incessante e violenta por aqueles que se sentem ameaçados pelo novo paradigma. Nunca isso foi tão verdade como agora.