Arquivo do mês: março 2018

O Sofrimento dos Opressores

Pacientes oprimem médicos também. As taxas de mortalidade de médicos recentemente divulgadas mostram que a condição de médico é uma doença insidiosa que leva à morte prematura. Médicos tem uma vida muito mais curta do que os pacientes que eles atendem. Médicas tem taxas de tumores maiores do que a população em geral, com uma expectativa de vida de 57 anos nessa pesquisa.

A opressão dos pacientes sobre os médicos se expressa de uma forma mais sutil e subliminar, mas não menos danosa e dolorosa. A execração pública e os ataques à honra são os mais comuns. As fofocas, a maledicência e a destruição de reputações por erros presumidos ou simplesmente por não se adaptarem à imagem construída se tornaram banais no universo das redes sociais. Basta a palavra de uma paciente insatisfeita e a credibilidade do profissional se despedaça.

Dr Fulano não é humanizado coisa nenhuma, ele operou uma amiga minha“, ou “Ele não passa de um mercenário” ou então “Cobra uma fortuna porque só pensa em dinheiro”, são as acusações mais corriqueiras. Isso destrói a paixão de qualquer pessoa normal. Muitos dizem “Quer saber? Passei 20h de TP ao lado dessa paciente, e outros tantos dias angustiado com o caso dela sempre na minha cabeça para agora ser acusado de ter feito uma cesariana quando joguei a toalha diante de tantos problemas que surgiram. Eu podia ter feito como todos: contado uma mentira, feito a cesariana há 1 semana, e ninguém me acusaria. Só tolos se imolam publicamente em nome dos seus ideais. Ou os kamikazes“.

Sim…. os médicos também se sentem oprimidos, em especial os que enfrentam o sistema e sentem na pele o ostracismo e a violência de seus pares.

Criar modelos estanques e simplórios de “oprimidos e opressores” é um excelente método para esconder a verdade. Esta é sempre muito mais complexa e contraditória do que as novelas mexicanas onde o Bem e o Mal se confrontam estereotipados e sem matizes. No mundo real o oprimido também desvela o gozo com sua condição – o vitimismo – e dele tira vantagens, enquanto o opressor sofre na carne o peso de sua posição, pela culpa e pela responsabilidade que lhe recai.

O mundo é menos simples do que parece a realidade é mais complexa e paradoxal do que desejamos.

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Paz

 

Curioso ouvir gente falando de PAZ.

Essa gente que está cansada das guerras (aqui não as temos de forma declarada) e da violência urbana. Gente que não aguenta mais ser roubada, ameaçada, sequestrada ou furtada. Gente que não suporta mais o noticiário cheio de sangue ao meio dia. Desgraças, mortes, agressões a granel.

Por outro lado, essas pessoas não querem verdadeiramente a paz, porque paz não é algo que se ganha é algo que se faz. Essas pessoas querem tão somente deixar de serem vítimas da guerra, porém pouco ou nada fazem de efetivo para que ela termine. Choram as mortes, mas apenas aquelas do seu exército; os outros …. bem, eles bem fizeram por merecer a morte que tiveram.

Muitos fazem discursos bonitos e inspiradores sobre a importância da Paz, bons o suficiente para serem assistidos num domingo à tarde escutando ao fundo as bombas de gás caindo sobre os moradores da favela . Tão úteis quanto um punhado de artistas medíocres da Rede Globo com camisetas brancas marchando por Copacabana pedindo “paz”, que nada mais é do que o projeto de manter os pobres miseráveis e excluídos, mas conformados e dóceis, a ponto de não roubarem mais o nosso celular e a nossa carteira. Uma “pax romana” adaptada aos nossos tempos, onde o crime da exclusão e da iniquidade é tratado como “valoração do mérito”, e a fome como uma “chaga moral”. Uma paz que criminaliza de todos os meios e formas aqueles que ousaram questionar a miséria e a indignidade humana, procurando destruir sua figura pública e sua moral.

É desta paz dos vencedores que nos falam?

Paz? Teu cu….

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Responsabilidade e Autonomia

O problema da responsabilidade da mulher sobre a gestação é bastante complexo e sobre isso há um ponto nevrálgico de caráter ético e filosófico sobre o qual ainda não há solução definitiva: “Afinal, a quem pertence esse feto e, depois, esta criança?”

Há que se lembrar que o surgimento da paternidade reconhecida é recente na historia da humanidade. Até então o sexo era prazer e domínio e passou a ser preservação genética; de uma paternidade social a um vínculo mais pessoal. Entretanto, por razões óbvias, a maternidade sempre foi visceral e reconhecida socialmente. A guarda dessa criança sempre foi responsabilidade da mulher que a pariu. Somente as mudanças estruturais da sociedade advindas da monogamia e do amor romântico puderam determinar uma nova configuração da paternidade. De algo difuso ou quase inexistente a um vinculo social reconhecido e valorizado.

Hoje ainda vemos a mulher muito mais conectada com sua gestação e filhos do que os homens. Não imagino como poderia ser diferente, já que é sobre seu corpo que o processo ocorre. Entretanto, existe um limite invisível que separa os dois polos, que se move ao sopro dos valores sociais vigentes: de um lado a responsabilidade de outras instâncias, como o pai e a sociedade; do outro a liberdade e a autonomia da mulher sobre seu corpo e seu destino.

Quando se reconhece a mulher protagonista e autônoma o aborto legalizado passa a ser mais facilmente entendido. “Seu corpo, suas regras”, dizemos. Também seus cuidados e escolhas na gestação e no parto passam a ser mais valorizados e respeitados. Dieta, estilo de vida, cuidadores, local de parto, amamentação, etc. Tudo depende da mulher, sendo o homem um mero espectador do evento, restringindo-se a lhe dar suporte material e moral.

Por outro lado pode haver um envolvimento muito grande dos parceiros(as) na gestação e parto, mas com isso é natural que também os direitos sobre o bebê sofram uma espécie de partilha. Se antes dependiam apenas das escolhas da mãe, agora o parceiro também se sentirá no direito de opinar e decidir. Portanto, não deveria ser absurdo que ele opinassem sobre local de parto, amamentação, vacinas, parteiros mas também pela própria continuidade ou não da gravidez. Afinal, se ele é responsável (moral e financeiramente) deveria também poder exercer seu poder de decisão sobre algo que também é, reconhecidamente, seu.

As linhas divisórias entre as a suprema autonomia feminina e a “intromissão social” variam no tempo e nas latitudes, mas hoje vemos uma tendência crescente para proteger a mulher e suas escolhas. Entretanto, para que se exija responsabilidades dos parceiros(as) também é fundamental que lhes seja garantido um nível razoável (porem variável) de poder de decisão.

Nenhum parceiro é capaz de oferecer ajuda sem que haja a contrapartida do reconhecimento.

Manuel de Aquino Queiroz, “Poder e Limites do Corpo – uma arqueologia da gravidez”, Ed. Cascais, pág 135.

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Chuviscos

Eu mesmo percebi isso há 25 anos.

Ninguém diz, porque é feio, mas ecografias e MAPs tem os mesmos objetivos simbólicos: oferecer ao médico um elemento “comprovável” e palpável da fragilidade na relação mãe-feto que justifique uma intervenção intempestiva. Em verdade essa – a intervenção – era a intenção do cuidador desde sempre, mas sabemos o quanto afeta o imaginário de uma mulher sufocada por seus medos os pontos chuviscados de uma ultrassonografia ou os aclives e declives dos traçados de uma monitorização. Depois de um comentário sobre “dips” ou sobre “percentil” qual mulher manteria a confiança e o sangue frio para seguir adiante nos seus planos?

Se é verdade que estes exames podem ser úteis em circunstâncias específicas, mais verdade ainda é de que seu uso se volta para a proteção dos profissionais e a moldagem do parto em um evento que precisa ser bom para quem o cuida e não para quem o faz acontecer.

São armas de convencimento e persuasão profundamente eficazes.

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Atenção Especial

Conversa real ocorrida há uns 20 anos entre o Dr. Fulano, chefe do serviço X do hospital universitário, e o Dr. Sicrano, professor recém admitido e examinador da banca de residentes do serviço Y do mesmo hospital.

– Oi Dr Sicrano, como vai? Aqui é o Dr Fulano, tudo bem?
– Tudo, o que manda professor?
– Pois tu sabes que amanhã é a entrevista do meu sobrinho para o serviço de vocês e eu precisava que vocês dessem a ele uma atenção especial. Sabe como é, certo?
– ……
– Alô?
– Professor, o que o Sr. quer dizer com “atenção especial”?
– Ora Sicrano, não se faça de desentendido. Você sabe como as coisa funcionam aqui na Universidade.
– Desculpe professor, mas eu não sei. Poderia me explicar, por favor?
– Veja o seu próprio caso. Foi admitido como professor em um concurso há pouco mais de um ano. Havia vários candidatos qualificados, tão bons quanto você. Todavia, foi seu o nome escolhido. Certamente você teve uma atenção “carinhosa” dos seus colegas de banca, não lhe parece?
– Não sei do que o Sr. está falando Dr. Fulano. Que eu saiba fui admitido pelos meus méritos e meu currículo acadêmico. Não tive nenhuma vantagem indevida para chegar chegar onde estou.
– Ora Sicrano, agora está sendo cínico comigo? Lembre de uma regra que é muito usada aqui: uma mão lava a outra. Não é muito saudável bancar o íntegro e o honesto comigo pois logo na esquina precisará também de um favor. Pense nisso. Você está recém começando; não construa uma carreira feita de inimizades e desavenças. Avalie com cuidado o meu sobrinho e muito obrigado.

CLIK

Nesse ponto aparece o Dr. Beltrano, jovem professor e colega do Dr.Sicrano.

– Que houve Sicrano?
– Não vais acreditar. Dr. Fulano me ligou agora pedindo explicitamente para avaliarmos positivamente a entrevista do seu sobrinho amanhã. O tom foi quase de ameaça. Que absurdo…
– Hummmmm
– Hum o quê, Beltrano?
– Vais arrumar uma briga com um velho professor por causa de um “detalhe” como esse? Que diferença faz para nós quem será o próximo residente? Para que criar essa animosidade e esse clima ruim? Pensando bem, uma mão realmente lava a outra e daqui a pouco podemos precisar de uma ajuda dele no conselho da faculdade. Diz aí, qual o nome do sobrinho?
– Não ouse…
– Credo, que radicalismo…

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Os rios de Brecht

No envelope amassado entregue pelo guarda, Zdenka consegue de imediato reconhecer a letra rude e a firmeza dos traços que ferem o papel produzidos pela caligrafia de Vladimir. Ao alto ele escreveu entre aspas:

“Dos rios dizemos violentos, mas não dizemos violentas as margens que o oprimem.” (Bertold Brecht)

Veja, minha amada Zdenka, esta é uma das mais belas frases e concepções que conheço, querida Zdenka. Vemos com facilidade a violência no assaltante frio, mas não enxergamos as amarras sociais invisíveis que o atam à bandidagem. Dizemos brutal o roubo da propriedade mas não dizemos desumana a privação de quem nunca a teve. Percebemos com clareza a brutalidade de um assalto, mas não saltam aos nossos olhos a injustiça de quem nada tem para perder. Por fim, acreditamos justa a punição de quem de nós algo subtrai, mas esquecemos de punir quem de todos expropria.

Theodor Luděk Novotný, “Řeky a jejich banky” (Os rios e suas margens), Ed Palmear, pag 135

Theodor Novotný é um escritor nascido em Praga, na República Tcheca em 1974, após a primavera de Praga e durante a dominação soviética. Toda a sua infância for marcada pela intromissão soviética no seu país e seus trabalhos iniciais – como “Flores para Vaklav” – se inseriam no retorno da autoestima do povo checo. A partir daí, e muito influenciado pela literatura de Milan Kundera, passou a se dedicar aos dramas psicológicos mais profundos, mas sempre com o pano de fundo das transformações produzidas pela Guerra Fria, pela queda do muro de Berlim e pela a implosão do “comunismo real”. Em “Os Rios e suas Margens” ele centra a ação em Zdenka, uma militante de esquerda acusada de conspirar contra os governos alinhados com o totalitarismo. Nos interrogatórios a que foi submetida ela encontra o prisioneiro Vladimir, um velho comunista ressentido que sofre pela desilusão e a derrocada de seus sonhos. Desse encontro surge uma amizade que perdura através de missivas, entregues pelos guardas de ambos os setores da prisão. No final, uma mistura de drama e comédia, ocorre o reencontro de ambos e brota uma mensagem de esperança surgida das cinzas de vidas esmagadas pela fidelidade aos ideais.

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Fuga da Venezuela?

Uma recente publicação (veja aqui) avalia os fluxos migratórios entre países da América Latina e a Venezuela é os achados brutos demonstram que mais brasileiros, argentinos e colombianos atravessaram as fronteiras em direção à Venezuela do que o oposto. Isso confronta diretamente a tese de que existe uma “fuga” maciça do “bolivarianismo venezuelano” e de que haja uma “catástrofe humanitária” ocorrendo com nosso vizinho. Uma recente visita de um alto funcionário das Nações Unidas desmente peremptoriamente a ideia de que haja uma tragédia em curso (veja aqui)

Mais uma pedra sobre a falácia da “crise humanitária” Venezuelana e uma prova cristalina da manipulação das informações que nos chegam através do cartel de mídias brasileiras. Isso lembra a Guerra Fria e os “informes de Moscou” onde tudo que chegava a nós sobre o comunismo era distorcido e manipulado. Felizmente hoje existe a Internet e os mecanismos de avaliação mais abrangentes do que efetivamente ocorre.

Crise humanitária? Um terço da população AMERICANA vive abaixo da linha da pobreza. O capitalismo está nos seus estertores, conforme a exata previsão de Marx —> o movimento do capitalismo é para a periferia deixando seus próprios países com um vazio de empregos, o que resulta em sentimentos ódio aos imigrantes e a eleição de “salvadores” populistas e proto-fascistas (como nos Estados Unidos). Os ricos ficam mais ricos com o pagamento mínimo de trabalhadores periféricos, mas com o tempo os produtos produzidos não podem ser mais comprados pelos trabalhadores desempregados ou descapitalizados. A crise é inevitável, mas a situação se mantém pela propaganda e pela obstrução (temporária) da verdade.

Os bodes expiatórios acabam sendo criados baseados em oportunismo e interesses, quando em verdade o problema é a própria estrutura capitalista da sociedade.

O capitalismo disfuncional termina por colocar o cidadão insatisfeito diante de um dilema: combater os fantasmas criados pelo capitalismo decadente (a corrupção, a criminalidade, os imigrantes, os petralhas, o comunismo, os sindicatos) que, apesar de existirem e muitas vezes serem problemáticos, NÃO SÃO a origem dos problemas estruturais pelos quais passamos, ou olhar para o envelhecimento e a senescência de um modelo de três séculos que mostra sinais de falência sistêmica. É mais fácil procurar a chave perdida sob a luz da lamparina do que procurá-la onde verdadeiramente se encontra: na escuridão dos modelos que valorizam o capital em detrimento do sujeito.

Enquanto isso nós continuamos a pregar em favor de um modelo doente terminal com argumentos saídos dos gibis do Capitão América.

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Rumos

Fatos que teremos de encarar nos próximos anos na atenção ao parto:

O modelo “um obstetra para uma gestante” está moribundo; é um doente terminal. Ele ainda sobrevive apenas a partir de 3 elementos:

  1. A indústria da cesariana
  2. O engodo do “parto normal se tudo der certo”, uma espécie de falsa propaganda criminosa.
  3. Meia dúzia de abnegados Kamikazes que aos poucos vão se aposentando, sendo excluídos, adoecendo, desistindo por exaustão e/ou desilusão.

“Não existe humanização do nascimento sem humanizar e proteger o trabalho dos cuidadores” já dizia meu colega Max há mais de 30 anos. O futuro aponta claramente para as “cooperativas” de parteiras profissionais ou para as Casas de Parto, com pré-natal coletivo e rodízio de cuidadores para atenção no momento do parto. O resto cai nas possibilidades acima.

Quando terminei meu sacerdócio pela humanização estava atendendo 80 pacientes por ano, o que ultrapassa em muito o número de excelência e qualidade. Não tinha férias tranquilas, nem descanso garantido e sequer paz de espírito em função do bullying. Portanto, o trabalho em equipe colaborativa não se trata sequer de uma escolha a ser dada aos pacientes, mas uma imposição para os próximos passos da atenção ao parto.

O tempo dos abnegados e daqueles movidos por pura paixão está no fim. Aceitemos isso e humanizemos (também) os humanizadores.

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Adição

Diante de qualquer uma das múltiplas faces dos transtornos mentais, da ansiedade à depressão, o que mais se ouve é “você precisa de remédios“, e não o oposto. Não acredito que as pessoas pesadamente adictas aos remédios psiquiátricos sofram discriminação, mas sei o quanto é difícil ser diferente numa sociedade normótica.

Manifestar-se contrário à adição medicamentosa é situar-se numa posição contra hegemônica em uma sociedade que coloca fora do sujeito (coisas, drogas, dinheiro, parceiros) a conquista da felicidade. Mas a saúde cobra caro por essa atitude endorcista. Prince e Michael Jackson morreram por tomar remédios que se compram em farmácias. Milhões de crianças estão usando Ritalina nas escolas enquanto muitos outros milhões tomam antidepressivos para ansiedade e para depressões saudáveis (como o luto). Não parece que estamos usando drogas para curar a ferida de um estilo de vida doentio?

Assim, pedir bom senso no uso de drogas e solicitar que não se abuse delas para patologizar a vida normal é um desejo justo, além de ser urgente. Como já foi dito, isso não significa negar medicação para as raras situações onde ela é mandatória, mas reconhecer que seu uso quase sempre ocupa o lugar de algo que não foi dito ou para ilusoriamente secar uma ferida que se mantém aberta esperando o sopro da palavra.

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Escravidão

Queria ver você ser assaltado, com uma arma na cabeça, no Complexo do Alemão. Mudaria de opinião sobre a intervenção“.

Se eu fosse assaltado no Alemão tudo que eu faria era me convencer ainda mais que matar assaltantes ou prendê-los em NADA soluciona o problema. Infelizmente foi nos governos do PT que aumentamos ainda mais o encarceramento da população pobre e isso não resultou em nenhum resultado positivo. O mesmo aconteceu com o encarceramento em massa no governo Clinton com os famosos “Three Strikes”. Um crime terrível contra a dignidade humana, que até Clinton reconheceu.

Mandar prender é muitas vezes necessário diante de atentados ou ameaças à vida, e nenhum sujeito de esquerda ignora isso ou defende o oposto. Entretanto, não passa de pura raiva de pobres e negros a ideia de curar a ferida social da criminalidade deixando se alastrar esta ideologia punitivista. É agir com sentimento de vingança, sem se dar conta das razões que levam milhares de jovens a se tornarem bandidos ou contraventores.

É curioso, porque todos que vociferam pelas armas e pelo extermínio um dia assistiram Robin Hood ou Cidade de Deus e perceberam a sedução que a criminalidade produz no jovem, humilhado crônico, envolto num mundo de consumo em que o valor máximo da vida social lhe é sonegado. Por que na ficção é mais fácil entender?

Precisa muito ódio e desumanização para não enxergar que exterminar jovens negros e pobres – que lutam com as únicas armas que possuem para vencer na vida – é um ato tão criminoso quanto o que eles praticam.

E, por favor, não me venham contar das exceções de jovens que venceram se comportando como os patrões brancos e ricos queriam. Essas histórias são usadas apenas para refrear o ímpeto de mudança. Não passam de um bilhete de loteria, uma esperança tola que guardamos de que a vida possa se transformar sem enfrentamentos. Não duvido que, durante a escravidão legal no Brasil, muitos senhores de escravos contavam histórias de negros que eram tão prestativos e leais que acabaram recebendo alforria como presente. E muitos negros acreditaram que calar sua indignação era a conduta mais justa e correta. Para estes eu digo que “A vida é luta renhida e viver é lutar. A vida é combate que aos fracos abate e os fortes e bravos só pode exaltar.”

A sociedade não muda como mágica. Ela se transforma e transmuta, com suor e luta.

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