Arquivo do mês: junho 2018

Tempos

No futuro, quando a sexo descompromissado exterminar todas as relações monogâmicas e o casamento, minhas ideias e meus escritos serão jogadas no lixo sob o pretexto de que eu não passava de um monogamista que defendia a escravidão sexual.

Jeffrey Doll, “Sexual Boredom”, Ed Fishbone, pag 135

Jeffrey Edmund Doll é um escritor nascido em Tulare, Califórnia, em 1930. Parceiro de aventuras de Jack Kerouak, homossexual assumido e usuário de drogas, Jeffrey cursou o caminho dos heróis da contracultura. Escreveu uma literatura agressiva e que visava abalar as estruturas da sociedade capitalista, hipócrita, heteronormativa e castradora em que vivia. Seus livros são maravilhosos exemplos de violência contracultural, em especial “Epiphany of a Dreaded Civilization”. Nessa passagem de “Sexual Boredom” ele questiona os anacronismos sobre a sexualidade, em especial quando o comportamento do sujeito de um determinado tempo é julgado pelos padrões morais de séculos à sua frente. No caso do livro, esta conversa ocorre entre o almirante Sebastián e o capitão LaCrosse e se refere a paixão fulminante deste último pela bela escrava nigeriana Latiffa; o romance tórrido entre um marinheiro cinquentão e uma menina de 16 anos. Sebastián, um cristão convicto e temente a Deus, defendia LaCrosse da acusação de adultério feita por seus colegas oficiais. Ao ser confrontado com as sagradas escrituras deixou claro que um homem só podia ser julgado fora de seu tempo e de suas circunstâncias. Apontou para o corpo semi-despido da menina e arrematou dizendo não haver uma linha sequer nas palavras de Deus que condenasse o amor de um homem por uma mulher. Apesar da defesa irretocável, o capitão LaCrosse foi condenado ao desterro no Haiti, o que o deixou humilhado e destroçado, a ponto de cometer o suicídio pouco após ter sido deixado na ilha caribenha. O livro então passa a se concentrar na dualidade dos sentimentos de Latiffa e questiona as noções de contemporâneas de liberdade, amor e desejo. Jeffrey E. Doll faleceu em 1980, em Los Angeles, por uma overdose de heroína.

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Educação

Eu me convenci da falha no modelo há muitos anos, exatamente no período em que se acreditava (e quando se apostava) na possibilidade de “educar” médicos para o modelo humanístico. Nessa época me vieram à mente as palavras de um psicólogo americano humanista chamado Carl Rogers que afirmava “Perdemos recursos e tempo demais com treinamento que seriam mais bem usados em seleção“. Isso para mim foi revelador…

A revolução nunca se faz na cabeça, sempre no coração. Só depois a razão toma as rédeas. Ou como dizia Raymond DeVries, “Nenhum estudo muda a realidade; eles servem para oferecer substrato científico para nossas crenças e desejos”.

Em outras palavras: de nada adianta treinar médicos para que façam algo que não gostam, não querem e não desejam. Médicos não são formados para a atenção ao parto porque TODA a lógica da medicina é direcionada à INTERVENÇÃO. Não é por acaso que já os estudantes, no início da sua formação, se interessam por cirurgia: ela é o ápice do modelo. Como seria possível passar 9 anos de escola médica ensinando as intervenções e suas possibilidades e mostrando como elas garantiram status social ao médico (e dinheiro, por consequência) para depois exigir que na atenção ao parto nada do que foi aprendido pudesse (ou devesse) ser usado. Como exigir que, depois de tanto treinamento, o jovem médico use suas maravilhosas ferramentas em apenas 10% das ocasiões? Como pedir que ele abra mão exatamente daquilo que lhe confere importância na sociedade e lhe diferencia do modelo das “parteiras, curandeiras e bruxas”?

Ora… o erro é flagrante. Não devemos despender tantos recursos em treinar estes profissionais. A experiência mostra que isso é inútil. Toda essa campanha do “parto adequado” (nome criado para desprestigiar o nome “parto humanizado” – usado por nós) aplicada aos hospitais privados para termos um decréscimo de 1% na taxa de cesarianas!!! Sim, um por cento…. esse é o tamanho do impacto da “educação” e do controle sobre o trabalho médico.

Para mudar de verdade os números só se tivermos a coragem para trocar o paradigma e incentivar a SELEÇÃO adequada dos profissionais. Pior (ou melhor); elas já existem e são as parteiras profissionais, que durante 99% do tempo de existência da nossa espécie foram as responsáveis por essa tarefa. Obstetrizes e enfermeiras obstetras serão as principais atendentes do parto normal no Brasil. Podem me cobrar, ou lembrem dessa minha profecia quando eu já tiver partido.

Pedir para médicos atenderem ao parto foi uma aventura tecnicista recente, e um fracasso retumbante para o parto normal e fisiológico. A medicalização dos ciclos vitais (nascer e morrer, em especial) precisa ser combatida porque ela significa um passo seguro para a artificialização da vida e a perda do que existe de humano em nós.

Precisamos mais bom senso e menos ganância…

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Medicina americana

Sempre que venho à América acabo acompanhando amigos em suas visitas aos seus médicos. Certamente já encontrei com mais de dez desses profissionais, entre jovens e velhos e de inúmeras especialidades. Alguns aspectos em comum me chamam a atenção entre todos os atendimentos:

  1. Os consultórios são mortos. Não há vida. São padronizados, frios, inespecíficos. Parecem entrepostos na estrada onde se vende junk food. Quando se chega à recepção poderíamos imaginar ser uma agência de seguros, uma secretaria de escola ou uma repartição pública. Muita propaganda nas revistas médicas, nas paredes, nos panfletos. A recepção é gigante, maior do que qualquer consultório onde já trabalhei.
  2. Muitos funcionários. Atrás do guichê de vidro sempre umas 4 funcionárias com computadores, fichas, papéis do seguro. Todas com modelitos de hospital.
  3. Pré-consulta com uma funcionária (auxiliar médica) que faz perguntas “sim-não” sobre fumo, drogas, gestação, abortos, alergias, etc. e que vê sua pressão, peso, etc. Depois de alguns minutos chega o(a) médico(a).
  4. A consulta dura poucos minutos e tem um formato absolutamente técnico. O profissional não faz nenhum tipo de anotação; tudo é feito pela sua secretária ao lado, com uma ficha ou um notebook no colo. Nenhum nível de empatia com o paciente; nenhum assunto delicado é abordado. Não há espaço para qualquer tema que não seja específico da sua especialidade. Falta total de privacidade, por isso minha presença foi sempre tolerada. Afinal, que mal haveria em testemunhar uma consulta que sequer arranha a crosta dos sintomas que encobrem verdades inconvenientes?
  5. Capitalismo e tecnocracia por todos os lados. Nenhuma consulta se fala especialmente de dietas, saúde emocional ou estilos de vida, apenas drogas, testes e procedimentos. Na saída do consultório passa-se por um balcão de venda de produtos da especialidade.
  6. O sofrimento humano, com todas as sutilezas, especificidades, paradoxos, contradições e subjetividades cabe em uma palavra: stress. “Esse sintoma está muito relacionado ao stress”, dizem, mas ao mesmo tempo afastam qualquer proximidade com o tema. Não interessa se stress é a morte que se anuncia, a perda de dinheiro, ressentimentos, mágoas, tristezas, ódio. Para estes profissionais nada disso ajuda a entender o quadro. Pelo contrário, apenas atrapalha.
  7. As consultas duram 15 minutos, se tanto. Objetividade e eficiência industrial. Pode-se ver a dupla médico-assistente sair de uma sala para a próxima, onde outro paciente já o aguarda, e assim sucessivamente. Os custos que observamos em cada canto, na suntuosidade asséptica das salas e no grande número de profissionais precisam ser pagos de alguma forma. O ritmo de entrada e saída de pacientes é frenético.
  8. Receitas recheadas de drogas. Drogas estas que produzirão seus desajustes específicos que vão requerer mais drogas, mais testes. Um ciclo vicioso que só termina com a morte, quando então poderemos dizer “Fizemos de tudo“.

Se eu acredito que o sintoma é a voz de uma alma que pede para ser escutada, cuja expressão é a maior riqueza de um paciente, por certo que tais consultas são mordaças tecnológicas para impedir que os clientes possam falar de suas vidas e de suas dores. A verdade do paciente é sistematicamente obliterada. Pouca coisa poderia descrita como mais contrária aos pressupostos básicos da arte de curar do que impedir que a dor encontre uma via de escape nas palavras.

Olhando para os olhos marejados da minha amiga diante das palavras insípidas do médico à sua frente eu me compadeci e por momentos imaginei que ela poderia interromper o solilóquio enfadonho e tedioso do especialista e murmurar…

Rosebud, doutor

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Repercussões sobre o debate

Legalizar o aborto significa apenas que a gente combina com a mãe que ela não vai morrer. Entretanto, lembrem que é plenamente possível apoiar a humanização do nascimento e ser contra ou a favor da legalização do aborto. Estes são dois assuntos diferentes que possuem suas interfaces, mas podem ser analisados separadamente.

É claro que a humanização e a legalização são temas progressistas e que apontam na mesma direção: protagonismo da mulher e autonomia em suas decisões. Todavia, não existe nenhum problema lógico ou incompatibilidade em ser a favor de um e contra o outro. A minha posição, por exemplo, não é compartilhada por muita gente que debate humanização no Brasil e no mundo: sou a favor da legalização mas jamais atenderia um aborto, por uma questão de “isenção de consciência”. Entretanto, isso não me torna menos “humanizado” pois continuaria a honrar os princípios fundamentais da humanização do nascimento: protagonismo garantido à mulher, interdisciplinaridade e MBE.

Palavras bonitas, cheias de amor à vida, carregadas de paixão por fetos e nenhuma consideração pelas mulheres que morrem todos os dias em abortos clandestinos. Torquemadas e Savonarolas ainda queimam, em nome de conceitos abstratos, bruxas e hereges que ousam se preocupar com seu semelhante.

Ser contra a legalização é permitir que tudo se mantenha como agora, quando milhares de mulheres jovens perdem a vida em abortos clandestinos, a despeito de muitas delas terem orientação e educação. Ser contra a legalização é ser a favor do “Apartheid da morte”, onde ricas abortam e pobres morrem tentando.

A propósito da isenção de consciência, e a aparente contradição do “sou a favor mas jamais faria”, posso dizer que sou a favor de que as mulheres tenham esse direito mas eu não aceitaria fazer isso porque trabalhei a vida inteira com a vida, enquanto um aborto é a interrupção de um projeto de vida. É uma questão eminentemente pessoal. Mais ou menos como “Sou carnívoro mas não mataria uma vaca para comer“. Ou, “respeito as prostitutas e dou apoio às suas reivindicações, mas não uso seus serviços“. Existem muitos exemplos de fatos que lhe atingem pessoalmente, mas que você aceita em um nível social.

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Marshmallow Cockroach

Muitos me acusaram de estar inventando histórias, então aqui vai o texto original do famoso “disco perdido do Pink Floyd”

O disco de estúdio que eu mais gosto do Pink Floyd é “Marshmallow Cockroach” que foi gravado às pressas em 1976 e jogado fora por uma discussão da banda (em especial o Roger Waters) com o produtor Brian Humphries pela inserção de algumas faixas contendo temática anti-Israel.

A banda apoiou a atitude de Waters mas isso significaria o cancelamento da turnê programada e o fim do contrato. O grupo decidiu manter o contrato e a turnê, mas guardaram os originais do disco já gravado. Imediatamente depois da controvérsia com Humphries e a desistência em gravar “Marshmallow” eles resolveram partir para a gravação do novo album “Animals” com a promessa de abandonar esta temática “enquanto a banda existisse”. O episódio em que Roger cospe em uma fã se relaciona a esta discussão prévia sobre o disco a ser lançado. Há uma cópia dessa gravação pirateada com som ambiente (estava sendo tocado no estúdio contíguo) que mostra o Pink Floyd no auge de sua criatividade e os vocais espetaculares de Roger Waters. Uma das músicas se chama “Forever Hebron” e o refrão diz assim:

“Hebron, hebron
Every stone stolen
Every stolen bone
May your soul
Live in us forever”

Tenho esse disco em MP3 em péssima qualidade, mas é possível reconhecer a genialidade palpitante do Pink Floyd e toda a verve indignada de Roger Waters. Esse, pelas circunstâncias, é o melhor disco jamais lançado do Pink Floyd, mas respeito opiniões em contrário.

A capa provisória do disco foi essa, que Roger Waters revelou recentemente numa entrevista para a BBC

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