Arquivo do mês: março 2020

Caridade

“Quero vê qual profissional da saúde que vai atender domiciliar nas favelas de suas cidades, de forma gratuita e sem infra estrutura! Mandem fotos.”

Por quê profissionais deveriam atender de graça em favelas??? Por acaso professores entram de graça em favelas para dar aula? Bombeiros apagam incêndios sem salário? Policiais garantem segurança sem pagamento? Por que tratar profissionais da saúde como vestais, infensos às necessidades humanas?

Vamos deixar bem claro: Não existe nenhuma contradição entre humanização do nascimento e qualquer recorte de classe e/ou raça. Humanização é direito humano reprodutivo e sexual para todos, e não apenas para uma parcela da população que pode pagar por estes serviços. Entretanto, também é dever do Estado, e cabe a NÓS cobrarmos que tais deveres sejam cumpridos e nossos direitos respeitados.

Médicos, parteiras ou doulas não são monges; são profissionais que devotam tempo e dinheiro nas suas formações. A falta de profissionais humanizados em áreas pobres e carentes NÃO É culpa dos raros profissionais que enfrentam suas corporações e a ignorância provinciana da nossa mídia financiada pela elite, mas do Estado frágil e dominado pelas corporações financeiras, que relega essa parcela majoritária da população carente à própria sorte.

Transferir a responsabilidade da atenção à saúde dos negros, pobres, favelados e destituídos para os profissionais não é justo ou honesto. “Saúde é um direito do povo e um dever do Estado”, como diz nossa carta, tão jovem e tão depauperada. Assim, é importante reconhecer que os bravos profissionais que enfrentam um sistema injusto e cruel deveriam ser aplaudidos, e não tratados com desdém ou desconfiança. A eles devemos o exemplo para a mudança necessária. Sua coragem e resiliência devem ser exaltadas e celebradas.

A entrada da saúde, educação, policiamento e saneamento nos bolsões de pobreza desse país jamais poderá depender de caridade, mas da ação conjunta e POLÍTICA da sociedade organizada, através da escolha de pessoas DESTAS COMUNIDADES – como Marielle!! – e destes estratos sociais para serem as dignas e legítimas representantes de suas reivindicações comuns.

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Catastrofismo

Uma das formas de preservar a saúde emocional nestes tempos de Corona é não dar ouvidos a prognósticos catastrofistas – mesmo que venham de profissionais confiáveis. Eles carecem de valor, assim como as análises que os economistas fazem dos rumos da economia. Tais manifestações não passam de especulações, sejam positivas ou negativas.

Não esqueçam que as visões negativistas do futuro frequentemente escondem interesses escusos, via de regra ligados ao capitalismo mais abjeto. “Se não investirmos na compra de …… morrerão 1 milhão de pessoas”. A experiência com o Tamiflu deveria nos servir de exemplo. O remédio foi comprado na epidemia do H1N1 e nunca se mostrou superior a uma prosaica aspirina. Todavia, muita gente enriqueceu com o pânico e a compra insensata dessa droga.

O que temos como verdade no momento é a ideia de ficar em casa. Preservar os idosos e os imunodeprimidos. O número de mortos – ou o tamanho do desastre financeiro que teremos adiante – são tiros no escuro. Não se deixe impressionar por isso, porque ninguém sabe exatamente a intensidade do problema que no Brasil.

Prepare-se para o pior e visualize o melhor.

Nesse momento de dados incertos e previsões conflitantes é importante evitar o catastrofismo inútil pois ele causa pânico e até imobilismo. Não esqueça: ser alarmista é diferente de ser realista. Enquanto isso, veja as pesquisas e as evidências que surgem, evitando ao máximo os reducionismos, as projeções matemáticas que ignoram outros elementos e as fantasias mórbidas que agora estão na moda.

Aos muito jovens não custa lembrar de algo que foi muito debatido no final dos anos 70: a “explosão demográfica”. Pelas contas catastrofistas da época o mundo em 2020 deveria ter uns 15 bilhões de pessoas, todas amontoadas e vivendo num mundo pós apocalíptico. Os recursos seriam escassos, as guerras constantes e a fome uma dura realidade. Nada disso aconteceu, e até o reverso se percebe em muitos países europeus. Por quê?

Ora… porque os nossos prognósticos nunca levam em consideração os OUTROS fenômenos sociais que vão ocorrer ao lado dessa tendência, mantendo congelados para o futuro os condicionantes de HOJE. Por isso é INÚTIL fazer previsões deste tipo, assim como foi ridículo e vexatório ver os economistas neoliberais prevendo dólar a 3 Reais se a Dilma viesse a cair. Barrigadas sem sentido, pois eles não sabiam (na verdade, ninguém sabia) o que ocorreria no seguimento do golpe contra a presidente.

Eu não sou contra precauções, pelo contrário, mas sou contra os mensageiros do apocalipse…

As ciências biológicas erram pra caramba todas as suas previsões. Não a tratem como ciências exatas!! Avançamos nos diagnósticos mas ainda somos fracos em prognósticos, exatamente porque o curso das doenças tem características subjetivas e únicas, impossíveis de prever com exatidão.

As epidemias, assim como os sujeitos, também tem inúmeros condicionantes (idade da população, clima, cultura, hábitos, alimentação, recursos, genética, época do ano, etc). Por esta razão, extrapolar a performance de uma pandemia de um país para outro, é quase impossível – ou no mínimo muito arriscado.

Por isso eu repito: NÃO devemos dar importância a previsões catastróficas!!! Elas não tem base na realidade, tanto quanto as pessoas que dizem que se trata de uma “gripezinha“. Só o que nos cabe no momento é tomar as ÚNICAS medidas que aparentemente funcionam bem: higiene e isolamento. Dizer que 1 milhão de pessoas morrerão no Brasil é um alarmismo que não ajuda ninguém – mesmo que ajude os gestores a se prepararem para os piores cenários – porque trata realidades diferentes como se fossem semelhantes ou iguais.

Essa gripe não tem cura exógena. Não tem remédio, nem vacina e nem droga alguma comprovadamente efetiva. Portanto, só nos resta manter o isolamento e aguardar a primeira onda do tsunami passar.

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Distopia do parto

“Quando o absurdo se torna a regra nós perdemos a capacidade de perceber o quão distante estamos do normal. No Brasil se alguém relatasse que um hospital tem 70% de partos vaginais todos soltariam foguetes e comemorariam, mas isso significaria também que a taxa de cesarianas deste mesmo hospital estaria entre o DOBRO e o TRIPLO do valores recomendados pela OMS. Que fique claro: este lugar sequer existe.

A atenção ao parto inserida na medicina e no capitalismo produziu um monstrengo que, de tão deformado, impede que se perceba sua forma original. Uma construção social feita da matéria prima dos medos, controle social e submissão, envolta no tecido puído e desgastado do patriarcado decadente. Ou, seguindo a ideia de Baudrilhard, um mundo material que desapareceu deixando em seu lugar apenas um mapa, imagem deformada da verdade, que desenhamos de acordo com nossas conveniências egoísticas. O real desapareceu para fazer surgir uma distopia autocida.”

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Corona

Medical staff in protective suits treat coronavirus patients in an intensive care unit at the Cremona hospital in northern Italy, in this still image taken from a video, March 5, 2020.

Na minha perspectiva – e se estiver errado eu vou me retratar – sair de casa para dar uma volta sem andar de ônibus, metrô ou participar de qualquer aglomeração não produz nenhum problema em relação à pandemia. Ficar trancado sem ar livre e sem sol tem a potencialidade de piorar os resultados.

Sei que esta é uma estratégia de classe média, onde existem carro, praças, etc., mas não está errado pegar o carro com a família e caminhar ao ar livre para dar uma volta. O perigo está no CONTÁGIO, de pessoa para pessoa, ou nos objetos que outras pessoas manipulam. Digo isso porque existem alguns riscos associados ao confinamento. Um deles é a violência doméstica de toda natureza (entre os adultos e sobre as crianças). Ficar sob aprisionamento pode produzir a eclosão de processos psíquicos violentos pelo choque constante dentro de um espaço restrito.

Acrescente -se a isso o fato de que a “segunda onda do tsunami” – que é a questão econômica – vai bater à nossa porta assim que a questão médica ficar estabilizada. Isso vai acrescentar mais stress às famílias, e as consequências bem sabemos quais podem ser.Assim, sair de casa SEM ENTRAR EM CONTATO com outras pessoas pode ser uma atitude de auxílio à saúde mental. Se houver alguma evidência em contrário estarei pronto para rever essa ideia.

Não quero ser alarmista mas acho que estamos vivenciando apenas o primeiro vagalhão do Tsunami Corona, que é a própria doença e os óbitos dela decorrentes. Depois da estabilização dos casos haverá uma espécie de euforia (como se pode ver na China agora) seguida de uma consternação ao constatarmos o tamanho do estrago. Aí vem o segundo vagalhão da depressão econômica.

Como será possível reerguer o país sem um governo, sem liderança, sem planos? Como usar o Estado como motor da recuperação quando somos liderados por um bando de fanáticos, fundamentalistas de mercado, que desprezam a posição privilegiada do Estado como propulsor de desenvolvimento?

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Semmelweis

Ignaz Philipp Semmelweis, o herói que enfrentou sua corporação para salvar as gestantes.

O chefe de Semmelweis na Clínica Obstétrica do Hospital Geral de Viena era o Dr. Klin, que Ignaz considerava “o mais idiota de todos os homens“. Foi ele quem o demitiu após receber em mãos os documentos que mostravam o sucesso de sua política de obrigar os médicos a lavarem as mãos numa bacia colocada na frente da porta de entrada da sua enfermaria. Em um mundo pré Pasteur, que ainda acreditava que as infecções eram determinadas pela direção do vento (entre outras hipóteses), esta ação parecia grosseira e ofensiva aos olhos de seus colegas.

Semmelweis foi duramente perseguido por suas pesquisas sobre o agente causador da febre puerperal e pelas suas conclusões de que os “miasmas” causadores da febre vinham das mãos dos próprios médicos, que levavam os eflúvios da “matéria morta para a matéria viva”. Essa “iluminação” surgiu após a morte de um querido colega patologista causada por um corte no dedo ao realizar uma necrópsia.

“A matéria morta transmite um elemento mórbido à matéria viva através das mãos”, observou Semmelweis. Essa visão da etiologia por trás da morte de mulheres no puerpério o levou a determinar condutas de antissepsia aos médicos da enfermaria que foram por eles consideradas “radicais” e desrespeitosas.

A conduta de obrigar seus colegas à lavagem das mãos em uma bacia com ácido clórico causou primeiramente escárnio e deboche, e posteriormente furor e indignação. Sua condição de húngaro trabalhando como médico no coração do decadente Império Austro-húngaro o colocava na delicada posição de “estrangeiro”, um incômodo invasor, assim visto pela elite vienense em face das aspirações independentistas de boa parte da população da Hungria. Ele não conseguiu viver para testemunhar o que finalmente veio a ocorrer algumas décadas depois, com a morte do Rei Ferdinand em Sarajevo e a eclosão da I Guerra Mundial, que finalmente fragmentou o império austro-húngaro.

Por suas ideias inovadoras sobre a etiologia da febre puerperal e sua condição de “estranho no ninho” na Viena do final do século XIX, ele foi impiedosamente atacado, perseguido e por fim demitido, sendo obrigado a voltar para Budapeste, sua cidade natal, mesmo diante da comprovação da justeza de suas propostas, que levaram à queda vertiginosa da mortalidade materna na enfermaria dos médicos, igualando-se à mortalidade encontrada na enfermaria contígua, comandada pelas enfermeiras.

Associe-se a estas circunstâncias o gênio explosivo e irascível de Semmelweis e temos a imagem perfeita do gênio que virou mártir. Sua personalidade marcante e indômita acabou levando-o à loucura, ao confinamento em um sanatório e à morte prematura por infecção e sépsis, a mesma condição que havia levado ao óbito seu querido amigo Koletchka e que o fez entender a causa infecciosa das febres mortais das puérperas.

Semmelweis ficará para sempre para a história da medicina como o exemplo de coragem, o senso de propósito, a fidelidade às ideias e o compromisso com seus pacientes, mesmo sabendo do preço violento a pagar pela sua determinação em mostrar a verdade.

Hoje em dia ninguém sabe quem foi Klin, mas todos sabem do gênio húngaro que salvou milhões de gestantes pela sua teoria infecciosa da febre puerperal, finalmente entendida como doença iatrogênica de contágio.

Nesses tempos de Corona vírus é sempre bom lembrar que um dos maiores heróis da medicina ofereceu a própria vida em nome de suas ideias e lutou incansavelmente para proteger seus semelhantes.

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