Arquivo do mês: novembro 2022

Neimá

É importante não cair na sedução de misturar os dois temas: a pessoa e o jogador Neymar. Existe, sem dúvida, uma espécie de boicote a Neymar protagonizado pela imprensa (em especial o Casagrande), que insiste nas críticas ao comportamento do jogador, menospreza suas conquistas e ressalta de forma insistente os fracassos nas Copas. Essa rejeição também ocorre por uma parte grande da torcida, em especial a esquerda identitária e festeira, que mistura a figura pública com sua performance futebolística. No caso de Neymar, assim como na vida de muitos heróis e ídolos de muitos aspectos da cultura, há uma mistura entre “autor e obra”, mas sabemos o quanto existe de esforço para denegrir a obra de alguns autores quando sua mensagem interessa à burguesia, ao mesmo tempo que “passamos pano” e esquecemos falhas graves de muitas personalidades quando sua exaltação vai no mesmo sentido dos interesses da classe que está no poder. Sabemos do interesse do imperialismo em destruir ídolos e líderes nacionais, exatamente porque eles funcionam como canalizadores de desejos populares, que via de regra não coincidem com aqueles da burguesia. .

Destruir ídolos populares é um projeto colonialista de destruição dos seus heróis nacionais, através de uma iconoclastia que não surge da humanização desses personagens, mas como uma estratégia muito bem elaborada de “desprezo moralista”, com o claro objetivo de fomentar a dominação comandada pelo imperialismo. A perseguição injusta e covarde contra Lula é o exemplo mais simples e fácil para entender o quanto as grandes potências, interessadas na subserviência nacional, apostam nesta perseguição.

Porém, mesmo sabendo que existe interesse de alguns em atacar aspectos da personalidade Neymar Júnior, ainda acho que é apressado tratá-lo como o melhor jogador de futebol do mundo, acima de Cristiano Ronaldo, Messi, Modric, Lewandowski, Benzema, etc. Acho um exagero, uma “pachecada”, e não o vejo nessa posição. Ele é top 10, por certo, mas não me parece ter atingido o posto de melhor do mundo. Todavia, como dito acima, pode se tornar caso destrua nessa Copa. Messi, ao que tudo indica (escrevo essas palavras logo após a desastrosa estreia da Argentina para a Arábia Saudita), vai fracassar de novo.

Torço por Neymar e pela seleção, e não vou me deixar seduzir pela campanha de desprezo que alguns fazem contra nosso produto mais famoso e valioso.

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Adiós, Pablo

Mais do que um cantor cubano de músicas românticas e com sonoridades magníficas, Pablo Milanés era um artista de raro talento e múltiplas facetas. Pablo nasceu em 24 de fevereiro de 1943 em Bayamo, capital da província de Granma, uma das maiores cidades da região do Oriente da ilha. Pablo era filho de um soldado chamado Ángel Milanés e sua mãe, uma costureira na cidade, se chamava Conchita Arias.

Diz-se que sua mãe exigiu que a família se mudasse para Havana para que Pablo tivesse mais oportunidade de estudo, e a partir daí passou a frequentar o conservatório de música. A década de 1950 do século passado foi considerada por muitos como a fase de ouro da música cubana, com grandes músicos e intérpretes despontando inclusive na cena artística dos Estados Unidos. Nesta sua ida para Havana ele aprendeu piano com os grandes artistas da época, explorando harmonias e tonalidades que marcaram seu estilo musical.

Com a chegada dos grupos rebeldes, liderados por Fidel Castro, e com a subsequente queda do ditador Fulgêncio Batista em 1959, um movimento cultural e nacionalista floresceu, calcado nas ideias do nascente socialismo que se enraizava no povo cubano. Surge aí o movimento “Nova Trova“, criado por Pablo juntamente com baluartes da música cubana como Silvio Rodriguez e Noel Nicola. Pablo Milanés foi casado cinco vezes e foi em homenagem à sua segunda esposa, Yolanda Benet, sua música mais famosa, a qual compôs e que rodou o mundo em inúmeras versões. Também dedicou “Cuando tú no estás” à sua última esposa, a espanhola Nancy Pérez, com quem viveu na Espanha desde 2004.

A reputação de Pablo Milanés cresceu como um dos pioneiros desta novo movimento artístico, uma corrente profundamente associada à crescente onda de libertação na América Latina. Uma das marcas deste movimento foi sua temática anti imperialista, que criticava a política dos Estados Unidos em relação à América Latina.

Pablo Milanés, por fim, teve um desacerto com seu amigo Silvio Rodriguez (foto) em especial por declarações que Silvio considerou “grosseiras e implacáveis”, e “sem o menor compromisso com o afeto”, isso no ano de 2011, quando Pablo já estava vivendo fora de Cuba.

Hoje, 22 de novembro de 2022 – o dia do músico – morreu Pablo Milanés devido a problemas hematológicos, dos quais sofria há muitos anos. Desde 2017 mudou-se para Madri na Espanha para poder tratar melhor de sua doença. Hoje, aqui no Brasil, muitos dos que acompanharam sua carreira estão cantarolando mentalmente a belíssima canção “Yolanda” para homenageá-lo. Eu, entretanto, só consigo pensar em “Canción por la Unidad Latinoamericana“, que aparece nas vozes de Milton e Chico Buarque no espetacular disco “Clube da Esquina 2” de Milton Nascimento. Esta é a música que nos mostra um Pablo Milanés apaixonado pela visão anti imperialista, a qual buscava a unificação de todos os países da América Central, Sul e Caribe.

Na juventude eu costumava declamar os versos dessa canção só para me exibir, pois ela nos conclama para algo que as esquerdas sempre levaram como bandeira: a unidade dos povos da América para se contrapor ao imperialismo brutal, cruel, desumano e destrutivo aplicado a todos nós pelas nações do norte. É uma música que canta a esperança de um porvir de solidariedade entre os povos, exaltando a proximidade cultural que nos conecta – na religião, na cor, na música, nos costumes e no passado de lutas e exploração – e deixando claro que nossas diferenças são artificiais, construídas pelos colonizadores que exploram nossos povos.

Naquela época nós cantávamos a versão de Chico Buarque, que não tinha na letra os heróis da libertação que constam na versão original de Pablo Milanés, provavelmente porque a ditadura militar jamais permitiria a inclusão de personagens tão odiados pelas classes burguesas, cuja memória e evocação trazem pavor a todos os opressores. Deixo aqui, então, a letra que ele escreveu com a homenagem merecida a Bolívar, Martí y Fidel, grandes heróis da luta pela unidade das Américas, na busca pela liberdade, pela autonomia e em direção ao socialismo.

“…Lo pagará la unidad
De los pueblos en cuestión
Y al que niegue esa razón
La Historia condenará
La historia lleva su carro
y a muchos los montará
Por encima pasará
De aquel que quiera negarlo
Bolívar lanzó una estrella
que junto a Martí brilló
Fidel la dignificó
Para andar por estas tierras
Bolívar lanzó una estrella
que junto a Martí brilló
Fidel la dignificó
Para andar por estas tierras.”

Gracias Pablito, por tus sueños, tu alegria, tu passion e tu verdad!!!

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Ludopédio

O futebol, além dos seus elementos estéticos e anticapitalistas (como disse Túlio Ceci Villaça), mais um fator importante, que eu poderia chamar de decisivo para que seja considerado o rei dos esportes: seu caráter democrático, que inexiste no basquete, no vôlei e até no tênis: você pode ser um gênio da bola e ter apenas 1.70m de altura, como Pelé, Maradona, Messi e Romário. Também dois pares de Havaianas já fazem um campo, ou mesmo se pode armar uma cancha em lugares improváveis, como o famoso jogo improvisado entre alemães e ingleses na trégua das batalhas da 2a Guerra Mundial. Por certo que isso seria muito pouco provável nos outros esportes, com suas redes e cestas nas alturas.

Em todos os outros esportes com bola a qualidade superior dos poucos atletas em quadra fará o resultado na maioria das vezes. As zebras são muito mais raras. Já no futebol o medíocre por vezes ganha do excelente e, exatamente por isso, faz história. O “maracanaço“, nosso mais amargo insucesso, foi a derrota para um time tecnicamente inferior, mas com uma garra e determinação invejáveis, elementos “mágicos” do futebol. Nossa derrota ofereceu ao Uruguai o mito fundador de uma escola inacreditável de craques, impossível de imaginar para um país que não é maior do que alguns poucos bairros da cidade de São Paulo.

E paro por aqui para não falar da “Batalha dos Aflitos”, o acontecimento mais épico da história do futebol. Só este esporte é capaz de tamanha magia…

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Mérito

Vejam bem… as mesadas do meu pai, todas juntas, dos 12 aos 20 anos, seriam capazes de comprar apenas uma passagem de avião para o nordeste, desde que eu jamais gastasse um tostão sequer em um cachorro quente, um ingresso para o cinema, uma calça Topeka, um kichute, uma camisa da Gang ou uns discos do Emerson, Lake & Palmer.

Pois eu vi agora no Facebook a história de um jovem empreendedor que durante anos guardou a mesada de seu pai, e cujas “sobras” foram suficientes pra comprar um apartamento (!!!) e depois abrir sua primeira “startup”. Quando li isso acompanhado da sua conclusão – “só não é rico quem não quer” – percebi que ele não pode estar usando o mesmo conceito de “mérito” que eu acredito ser justo.

Essas histórias de gente muito rica que tem inteligência econômica para ficar mais rico ainda servem apenas como ironia, ao estilo “ela é minha sobrinha, mas a promovi porque é muito capaz”. Ou a famosa história da Bettina da Empiricus, que depois soubemos se tratar de uma fábula inverídica sobre “começar do zero”. Ignorar o fosso existente entre as castas brasileiras, e as oportunidades completamente diversas que são oferecidas a cada uma delas, é não se dar conta da enorme iniquidade que nos caracteriza e que nos separa, neste apartheid social que nos formou.

A verdade é que existe, sim, meritocracia para os milionários e até entre os abastados da classe média. Há ricos que não se mantém assim, enquanto há outros que multiplicam sua fortuna através de trabalho e talento. Não há como negar estes fatos. Todavia, essa é uma comparação que só se torna possível entre eles, e não quando os comparamos com a imensa maioria do povo que os sustenta.

Os ricos podem fracassar em vários empreendimentos que sempre haverá de onde tirar mais; o contrário acontece com os pobres que desejam vencer. O melhor exemplo para essa realidade é George Bush Filho, que era alcoolista, usuário de drogas, mau aluno e que jamais teve um emprego até os 40 anos, quando então se tornou o novo mandatário do país mais poderoso do mundo por ser filho de um ex presidente. Por muitas vezes ele pôde errar, fazer más escolhas, desistir, errar de novo, fracassar, afundar-se no vício e ainda assim sua classe social o acolhia e lhe oferecia uma nova oportunidade.

Já o pobre, se quiser ser rico, não pode errar jamais; o cavalo passa encilhado uma única vez. Ele só tem uma bala no cartucho, e não há nova chance caso venha a falhar. Seu tiro precisa ser certeiro e único, ao contrário dos ricos burgueses que podem errar indefinidamente até acertarem – para então, quando finalmente têm sucesso, nos dizerem que chegaram lá por “méritos próprios”.

Não, definitivamente as condições iniciais são muito diversas para que o esforço do pobre e aquele que se exige dos ricos possa ser emparelhado e comparado.

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Ícaro

Ícaro, caindo ao solo, após se aproximar deslumbrado do sol que, pelo calor, derreteu suas asas de cera.

Nas duas últimas semanas o Brasil percebeu como era a vida antes do Bolsoverso ao entrarmos de novo no universo racional. Não houve lives amadoras, motociatas, jetskyatas, discursos e perdigotos no cercadinho, mentiras à granel, insinuações de golpe e ameaças à democracia. Pela primeira vez em 4 anos se dissipou a nuvem densa de autoritarismo, de violência e golpismo do campo simbólico da nação. Passamos a respirar um ar mais limpo.

Bolsonaro perdeu 94% das citações no twitter. Para um visitante recém chegado, parece que ele nunca existiu. Ninguém mais fala seu nome, e isso foi determinado pelos próprios ex bolsonaristas, pois a ideia é desvincular a extrema direita da figura de Bolsonaro. Afinal, ele sempre foi apenas tolerado, inclusive pelos militares, que nunca confiaram na sua capacidade de liderar seus interesses. Ainda reverbera em nossa lembrança o mantra de 4 anos atrás que repetia: “Não votei no Bolsonaro; votei no Guedes” ou “Ele é idiota e talvez corrupto, mas o importante é tirar o PT“. Pois agora, sem utilidade, a própria direita joga Bolsonaro na lata do lixo; não deixaram esse gostinho para a esquerda.

Não duvido que se repita com ele o mesmo que ocorreu com Eduardo Cunha. Durante muitos anos o baixo clero comeu na palma de sua mão, e a direita o adorava. Ele controlou, com muito dinheiro sujo, os votos do congresso para impor pautas bombas e sabotar o governo Dilma. Gritavam seu nome nas ruas e o tornaram ídolo dos golpistas. Hoje ele amarga um triste ostracismo depois de ter sido até preso, mas não se furtou de concorrer mais uma vez (desta vez perdeu) e declarar um apoio entusiasmado a Bolsonaro, explicando aos jornalistas que é um ferrenho “antipetista”. Ninguém mais se importa com o outrora poderoso presidente da Câmara.

Bolsonaro talvez tenha o mesmo destino. Depois de usado pelas forças burguesas para implementar um projeto entreguista e de destruição nacional – partindo da educação e passando pelo meio ambiente, segurança e indústria nacional – ele será jogado aos leões, feito carniça. Alguns dizem que está deprimido; outros (que o consideram psicopata), acreditam que está atuando, fugindo das consequências e se escondendo. De qualquer maneira, ele sabe o destino triste que o aguarda, em especial porque agora vem a “volta do cipó de aroeira” através dos processos que chegarão na primeira instância.

Eu creio que Bolsonaro e filhos devem estar pensando que estes 4 anos foram o mais absurdo dos erros. Poderiam continuar na obscuridade, gerenciando seu Império de rachadinhas e mantendo o controle das milícias cariocas. Todavia, como Ícaro, sua arrogância e deslumbramento os fez voar perto demais do Sol, derretendo suas frágeis asas de cera. Alçaram voos para os quais não tinham competência, e agora despencam de forma espetacular. Tivessem se mantido na sua segura mediocridade, estariam ainda hoje fazendo a política rasteira, homofóbica, racista e preconceituosa que sempre os caracterizou.

Por outro lado, não tenho ilusões em relação à direita e até sobre sua franja radical: os fascistas. São muitos e são organizados. A direita em suas múltiplas vertentes alcançou a assombrosa marca de 58 milhões de votos no Brasil. É evidente que estas marcas só puderam ser alcançadas pelas manobras eleitoreiras imorais e ilegais que ocorreram à revelia da Constituição vigente, mas ainda assim é um número que impressiona. São uma força política muito coesa no Brasil de hoje, basta ver as mobilizações dos seus elementos mais delirantes. Serão uma força muito organizada e forte nos próximos anos.

Para além disso, o namoro da mídia com Lula não vai durar muito. Em breve, ao ver seus privilégios ameaçados, a burguesia mostrará os dentes e o fascismo entrará de novo no cio. Agora mesmo, quando Lula sinaliza o combate à fome e a proteção às famílias mais pobres do Brasil, o “mercado”- leia-se os patrões, os rentistas, os financistas, a Faria Lima, os bancos e o agronegócio exportador – já ensaiam críticas e ataques ao projeto de regeneração nacional de Lula, mostrando que o caminho para recuperar a nação será árduo e espinhoso. Não será nada fácil, e a luta não será bonita de ver, mas a recuperação da imagem desse país necessita passar por esse embate.

A esquerda deverá estar preparada para o que virá no futuro, mas Bolsonaro já pode ir colocando “as barbas de molho”…

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O Ativismo do STF

Melhor falar agora para não ser chamado de oportunista no futuro. Esse protagonismo oferecido ao Alexandre de Morais, um notório antipetista, anticomunista, direitista e apadrinhado do Michel Temer custará caro no futuro. Estamos alimentando corvos, que no futuro podem vir atrás dos nossos olhos. Alexandre nunca foi um democrata; ele é cria do golpismo de Temer e da turma que derrubou Dilma. Colocá-lo em evidência, dando espaço para o ativismo judicial que ele incorpora, é um grave risco para a democracia.

Sou obrigado a concordar que muitas das queixas dos bolsonaristas fazem sentido, não porque eu concorde com suas intenções, mas é impossível que uma nação democrática e soberana coloque o controle do país nas mãos de um sujeito que jamais ganhou um voto e que só tem poder porque um golpista o colocou neste lugar. Permitir a intromissão de Alexandre em assuntos que não a defesa da constituição é inaceitável. E vamos apenas lembrar que quando deveria defendê-la – no julgamento de Lula – votou contra o seu artigo quinto, mostrando que sua ideologia é mais poderosa do que a proteção da Constituição.

Deixar que Alexandre atue fora da lei, baseando-se apenas em suas ideias e preconceitos, pode ser benéfico circunstancialmente para evitar a ação dos golpistas delirantes que pretendem dar um golpe no Brasil. Todavia, permitir que este ativismo político do STF se mantenha – inclusive pela implantação de censura – é um risco para a nossa frágil democracia.

A esquerda não pode cair nessa armadilha. Não é aceitável que criemos o nosso próprio Sérgio Moro, que agindo fora da lei, pelos seus interesses próprios e comandado por forças imperialistas, criou uma das piores crises institucionais no Brasil e manchou de forma indelével a imagem da justiça burguesa – ou talvez tenha apenas levantado o véu e desvelado suas entranhas.

Precisamos colocar um freio no Supremo Tribunal Federal, para que ele não crie asas. Foi a ação penal 470, o julgamento do Mensalão – uma farsa montada para atingir Lula – que colocou estes personagens em relevância. É hora de devolvê-los ao lugar a eles reservado.

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Perseguições

Vamos deixar uma coisa bem clara: Janja incomoda porque é a mulher do Lula, e não porque é uma “mulher livre”. Janja não será objeto de ódio porque “namora”, porque “transa”, ou porque está feliz e bem casada. Isso, inclusive, é tão sexista quanto falar das mulheres “mal amadas”, ou daquela que “está feliz porque transou”. Mulheres merecem ser tratadas com mais respeito: a vida delas não circula somente em torno da sua vida sexual. Minha mulher é livre, mas ninguém a ataca, e a razão disso é porque o marido dela é um pé rapado. As mulheres dos poderosos sofrem, e isso ocorre em qualquer lugar.

A mulher do Temer, “recatada e do lar”, foi muito atacada. Foi tratada como a “vitrine do atraso” das conquistas feministas. Foi chamada – sem dó – de interesseira por ter se casado com um idoso. A mulher do Bolsonaro foi bombardeada sem nenhuma pena, tratada por todos como a “Micheque“. Não havia uma semana sem um bombardeio, envolvendo sua religião, seu fanatismo, seu oportunismo evangélico, a respeito de Queiroz (e o tal cheque que lhe deu o apelido) e sua família com ficha corrida. Agora surgiu a suspeita, sem provas, de que ela apanha do marido, que ainda vai dar muito o que falar.

Dizer que Janja é atacada porque é “livre” não explica nada, apenas reforça o mito de que os homens “morrem de medo” das mulheres livres. Homens tem tanto medo de mulheres livres quanto as mulheres tem rejeição aos homens sensíveis e delicados. Estas figuras fogem dos modelos arcaicos da organização patriarcal, mas não estamos mais na idade média. O mundo mudou, e apenas uma minoria hoje em dia aceita se submeter a estes medos e estas rejeições.

Uma prova inquestionável é o que aconteceu com Dilma. Poucos mandatários foram tão atacados quanto ela, mas ela não tinha parceiro(a). Era solteira e não namorava – ao menos de forma explícita e pública. E também não acredito que Dilma ou Janja foram atacadas por serem mulheres. Elas foram e serão agredidas incansavelmente por se contraporem aos interesses da burguesia e do imperialismo e por estarem ligadas ao PT. Serem mulheres apenas acrescenta, mas por certo que não é o fator preponderante dos ataques. Existe muito mais no embate político do que esse machismo tacanho que algumas jornalistas tentam impor como narrativa preponderante. Sem dúvida ele existe, mas não com a importância que tentam apresentar.

Janja será inevitavelmente atacada por ser a mulher do presidente da República. Pior ainda, por ser um presidente de esquerda, assim como Dona Marisa o foi anteriormente, com todas as mentiras, falsidades, dinheiro da Avon, conta milionária e os múltiplos ataques que recebeu – que, ao meu ver, a levaram à morte prematura. Será alvo dos insatisfeitos e dos perversos como todas foram, e isso não acontece apenas aqui…. vide Trump e sua mulher Melania. Este é o preço da notoriedade.

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Antipolítica

A tese mais antiga que me acostumei a escutar no debate político é a tradicional “antipolítica”, típico discurso da direita travestido de niilismo. Nesta tese, todos os políticos são iguais. Se um dia foram pessoas normais a política destruiu seus princípios e sua honestidade, tornando-os ruins e corruptos. “O Poder corrompe”, diriam eles como inaudita novidade. Aliás, esse é o discurso bolsonarista clássico, que deseja tratar todos como se fossem iguais, mas não apenas isso: a política é uma só, esquerda e direita são ilusões, e só o que vale são os desejos mais egoísticos de quem assume o poder. Toda a classe política não passa de “peças no grande jogo de xadrez”, controlado alhures, por forças invisíveis (o comunismo internacional? George Soros?) o que torna o ato de votar em uma ação inútil e ridícula. “O jogo já está jogado”, dizem.

São os mesmos que, sendo incapazes de mostrar os crimes de Lula, apontam para o inquérito conduzido pelo juiz corrupto Moro, uma peça fraudulenta que o acusou de….. nada. Nem objeto do roubo está descrito (o famoso “objeto indeterminado”), já que o Triplex não poderia ser dado a ele porque sequer pertencia à OAS. São os mesmos que apostam nas fake news de “roubos do BNDEs”, mesmo quando o próprio Bolsonaro desistiu dessa fantasia. São eles que chamam Lula de ladrão sem JAMAIS mostrar um delito seguido de uma prova. Estes indivíduos (note que não estou fazendo julgamentos morais) acreditam que o Brasil deveria ser controlado por “técnicos”, sujeitos “neutros”, longe de “ideologias”, trabalhando pelo bem comum tendo a luz do “positivismo” como norte. Ou seja…. gente de direita, e até fascistas, como se pôde observar no governo de Bolsonaro.

Não há como continuar aceitando este tipo de discurso. Durante as eleições eles se uniram à turma do “nem-nem“, como que a chamar a todos nós de “massa manipulável”, já que nada poderia ser feito diante da desonestidade essencial e inexorável que existe na política e nos partidos. Arautos do apocalipse, sinalizam com a igualdade entre Bolsonaro e Lula, mas pretendem ser infensos às disputas, posto que se consideram “neutros e realistas”.

Não são; em verdade são agentes – mesmo sem o saber ou desejar – do conservadorismo mais reacionário e mais tacanho. Apostam no imobilismo e na inação como resposta…. mas acabam votando nos candidatos da direita mais abjeta por “praticidade”, ou porque acreditam serem os “menos piores”.

Essa não…. esse discurso está caindo de velho e não cabe mais nas sociedades que pretendem emergir do subdesenvolvimento no século XXI.

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Viradas

Muito ainda vai se falar sobre a derrota do trumpismo nas eleições de “mid terms” e, por consequência, da extrema direita de inspiração fascista na América. As derrotas de Bolsonaro e de Trump podem estar anunciando a decadência inequívoca do modelo extremista de direita no mundo, e tal ocorreu pela falência deste paradigma em oferecer o progresso, a justiça social e o desenvolvimento que prometiam. O mundo volta-se lentamente à esquerda – apesar da força das direitas no mundo todo – e se afasta do fundamentalismo religioso que caracterizou os governos de Trump e seu fac-símile tupiniquim. Oxalá não seja apenas o balançar do pêndulo político, mas uma real tendência de maior consciência de classe a inspirar as pessoas no mundo inteiro, cada vez mais alertas para a decadência inexorável do capitalismo.

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Match

Na adolescência eu sempre perguntava aos meus amigos gays como eles sabiam que outro sujeito era gay. Eles caiam na gargalhada com a minha pergunta ingênua e tola, e a resposta que me davam era… “pelo olhar“, o que hoje se chama “gaydar“.

O que eles tentavam me dizer é que o desejo do sujeito transparecia nas fissuras do discurso, nos detalhes, nos mínimos gestos, nas sugestões, nos sorrisos, na escolha das palavras e nos silêncios. Tudo o que levamos para fora de nós mesmos é mensagem, inclusive a roupa – ou mesmo a falta estratégica de tecido a desvelar os corpos.

Mas se os amores se encontram pelos sinais não-verbais, também as patologias fazem match…

Não haveria como ser diferente. Da mesma forma, os psicopatas se comunicam por estes detalhes minúsculos e imperceptíveis aos olhos desarmados. Na juventude eu me impressionava com as histórias de Bonnie & Clyde, e tantos outros casais unidos pelo crime. Algumas duplas eram capazes de perversidades impensáveis, que conjugavam tortura, morte e obsessões sexuais. Na época eu pensava: como estes perversos conseguiram se encontrar? Como acharam suas almas gêmeas sem expor publicamente suas paixões criminosas?

Se os amantes conseguem se encontrar pelo desejo, buscando sinalizadores nas filigranas do comportamento, também as mais bizarras perversões saem à tona por estes meios. O desejo não se contém nos limites do corpo e poreja através de cada detalhe, cada frase, cada pausa no discurso. Se o humano precisasse da linguagem articulada para se expressar ainda estaríamos na floresta, morando nas árvores. Somente há poucos milênios usamos as palavras para enviar mensagens, mas nossa história com as formas mais sutis de comunicação já tem alguns milhões de anos.

Por isso é que nós humanos – em especial as mulheres, mas essa é outra questão – desenvolvemos as habilidades de ler o outro através dos sinais enviados de forma velada e codificada. Estas são, por certo, as mais importantes ferramentas do nosso lento processo evolutivo.

(Após uma provocação de Maury Braga Gutierrez)

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