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A Holanda NÃO é aqui

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Um motorista ensandecido pilotando uma “Hilux” grita para uma ciclista na ciclovia paulistana: “Vagabunda!! Isso aqui não é a Holanda!!

Um cesarista ensandecido pilotando um reluzente bisturi grita para um profissional humanizado: “Idiota!! Isso aqui não é a Holanda!!

Discorram sobre esse paralelo…

PS: Quando eu era adolescente nos ano 70 ainda vivíamos na época da ditadura militar. A nós era vedado o ritual sagrado do voto. Governos se sucediam sem que o povo tivesse o direito de escolher seus mandatários; eram os anos de chumbo. Eu vivi nesse tempo e trago as marcas dessa dor em meu peito. Eu sei o quanto dói a falta de liberdade.

Nesse período sempre que um “esquerdista” resolvia falar da importância da democracia alguém levantava a voz e clamava em altos brados: “Cale a boca!! Aqui não é a Europa. Lá é possível votar, pois eles tem cultura. Nosso povo não sabe fazer isso“, num discurso que mesclava de forma curiosa Macunaíma com Newton Cruz. A desculpa era sempre centrada no fato de sermos uma gente preguiçosa, um povo malemolente, inculto, incapaz, incompetente e que – mais do que precisar – merecia que a ditadura governasse seu destino. Com as mulheres o mesmo: é preciso sempre alguém que as governe e controle, pois elas são essencialmente incapazes de tomar decisões por si mesmas.

“Isso” aqui não é a Holanda. Esse país não se presta para democracia. Esta nação não pode se auto gerir. Nossas mulheres são dóceis e submissas e precisam ser controladas para parir. Calem a boca.

A Holanda NÃO é aqui…

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Julgamentos

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Os julgamentos feitos sobre mulheres que pedem auxílio farmacológico para o alívio de suas dores em nada ajudam esta mulher – ou  a humanização do parto – mas fazem parte do processo de amadurecimento de um movimento social. Tais críticas surgem da necessidade de estabelecer valores sólidos através da radicalização.  Abandonar, ou simplesmente questionar, tais pontos é tratado como um sinal de fraqueza. Só o tempo permite suavizar estas posturas e oferecer um melhor entendimento. Abandonar radicalismos é demonstração de fortalecimento de uma ideia. Os dogmas nada mais são do que muletas ideológicas.

O parto é uma construção subjetiva e que se inicia na primeira infância.  É ali que são firmados seus alicerces, numa época onde ainda não há o trânsito das palavras. Portanto, os medos, as tensões e as percepções dolorosas no processo de parir estarão subjugados a estas estruturas psíquicas muito precoces.

Quando eu imaginei qual seria a definição mais completa e sucinta para o nascente movimento de humanização eu desenhei na minha frente um triângulo em que nos vértices de baixo se encontravam a “visão interdisciplinar” e a “medicina baseada em evidências“. Estes são os elementos formais e técnicos desta filosofia. Entretanto no vértice de cima eu coloquei o “Protagonismo garantido à mulher” como o elemento estruturante e fundamental, sem o qual nenhum dos outros se sustenta. Garantir o comando à mulher é o vértice ÉTICO do movimento de humanização, o qual jamais podemos abrir mão, sob pena de desfigurar completamente o valor libertário essencial desta proposta.

Julgar quem solicita um recurso de alívio para o furacão físico e psíquico de um nascimento, seja pela analgesia ou mesmo por uma cesariana, é um ato que contraria toda a filosofia da humanização do nascimento, a qual preconiza que o parto é um evento único e subjetivo no qual somente quem sofre sua dor e seu gozo pode entendê-lo por completo.

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Ressentimentos

Ressentimento

Eu creio que os ressentimentos direcionados a profissionais que atendem no espectro da humanização são naturais acomodações das placas tectônicas que sustentam a estrutura do parto. Ainda vemos muitas mulheres que depositam os resultados na mão de médicos, enfermeiras, parteiras e doulas. Tais profissionais são todos humanizados, e foram previamente mordidos pela vespa da humanização, mas totalmente impossibilitados de fazer algo que só à mulher compete: parir.

Empoderamento e Protagonismo são ações complexas, principalmente porque o “anjo da alienação” nos espreita a cada dobra de esquina. É sempre mais fácil colocar a culpa em quem está próximo de nós. Além disso, muitos profissionais aceitam essa posição de comando pois são vencidos pela própria vaidade. Quem aí já não se deixou envaidecer ao ser tratado como “herói” (ou heroína) do parto alheio?

Eu acho que esse tipo de atitude é compreensível, mesmo sem ser justificável. Ela ocorre em função da idealização dos profissionais. “Olha, estou sendo atendida por um médico maravilhoso, o “Papa” da humanização, e agora tenho certeza que tudo vai dar certo”. Pacientes exaltam e veneram seus(suas) cuidadores(as), alçando-os(as) para níveis irreais. Já vi muitas injustiças assim no universo da humanização. Quando você afirma que o paciente estava errado ao criar uma expectativa não realista lhe acusam de “penalizar a vitima”. Mas essa consciência é fundamental.

Por isso eu creio que uma das tarefas mais essenciais do(a) parteiro(a) é a desinstituição. Sim, é importante que o cuidador rejeite a posição subjetiva em que é colocado pelo paciente. “Não, eu não sou seu Salvador; sou apenas o guia de uma jornada que é sua“. Para fazer isso é preciso despir-se da vaidade e da sedução do controle, que inevitavelmente atinge a todos.

Porém, se nossa função é permitir que o nascimento cumpra sua função de empoderamento, é primordial a tarefa de vitrificar-se, tornar-se invisível e permitir ao outro a necessária expansão.

Como exemplo, eu recebi o email de uma mãe que disse estar muito ressentida comigo por não tê-la acolhido em suas dores em função do atendimento que recebeu de um colega da minha cidade. A crítica feita era ácida e acusatória. Quando li eu imediatamente saltei em defesa do meu colega, mas não no sentido de diminuir a dor de quem se sentiu agredida ou maltratada, mas por não aceitar “queimações” públicas contra quem não pode se defender. Ela não perdoou a minha “insensibilidade” diante da sua dor, mas ainda acho menos doloroso do que EU não conseguir me perdoar diante do linchamento público de um colega e amigo a quem muito admiro.

Enquanto os profissionais que assistem o parto ainda forem colocados na posição de controle absoluto do evento teremos o risco da idealização e do ressentimento.

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Parto à Esquerda

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As Esquerdas e a Humanização do Parto

Esta sempre me pareceu uma ótima discussão. Pelos relatos, artigos e filmes que tive conhecimento os modelos de parto nos países comunistas se baseavam em uma estrutura de autoridade, hierarquia rígida e cientificismo materialista muito fortes. Nesse contexto o afeto era algo pouco relevante, sendo considerado uma “fraqueza”. As rotinas obstétricas eram sustentadas com rigor e baseadas na otimização de pessoal e recursos, tal como em uma unidade militar. Os médicos eram os chefes supremos, com condutas e procedimentos inquestionáveis. Enfermeiras eram sargentões (muita piada se fez sobre as enfermeiras soviéticas no cinema). O modelo cubano tentou imitar ao máximo essas características.

Um parto domiciliar, que leva em consideração aspectos SUBJETIVOS da paciente, que deseja se livrar das rotinas despersonalizantes de uma maternidade, vai se posicionar na contramão do centralismo da medicina social comunista soviética. Qualquer coisa que lembre a valorização do subjetivo, do individual e de cunho pessoal será desmerecido nesse modelo.

Por isso é que o parto humanizado e domiciliar viceja nas democracias fortes e nos modelos mais liberais da Europa, como os países nórdicos e a Inglaterra. A Rússia e muitos países do leste convivem até hoje com modelos de parto muito violentos e grosseiros, onde ate a violência física contra as mulheres não é incomum. Ainda precisa haver um choque de humanização da assistência nesses locais.

No Brasil houve um movimento diferente e especial, pela conexão do parto humanizado com a contracultura hippie e – por sobre isso – uma luta dos setores mais progressistas da sociedade pela volta da democracia e o fim da ditadura. Esse caldo cultural propiciou a conexão dos humanistas (médicos, enfermeiras e outros) com as esquerdas.

Tal conexão provavelmente não ocorreu em muitos outros lugares, e nos Estados Unidos, por exemplo, tem um viés liberal e mais à direita. Em Cuba a atenção ao parto é hospitalocentrica e centrada no médico, e temas como parto domiciliar, casas de parto e parto por enfermeiras ainda estão longe de ser uma realidade.

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Cabelo Natural

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Qual sua proposta para solucionar o dilema do “Cabelo Natural”?

Vou contar uma história que talvez possa nos oferecer uma elaboração útil até para outras questões…

Um determinado sujeito – genial – inventa um xampu milagroso que cura a calvície de forma incontestável. Um tratamento adequadamente testado, aprovado e comprovado. Entretanto, ele levou 40 anos pesquisando e quer receber pela sua dedicação e trabalho. Resolve colocar o xampu no mercado e percebe (é claro!) que faz um grande sucesso. Pelo seu esforço e dedicação incansáveis ele cobra caro pelo tratamento de renovação capilar, mas mesmo assim constata uma fila enorme de pessoas que se dispõe a pagar pela solução do seu problema.

Entretanto, surge um questão facilmente previsível. Muitas pessoas gostariam de vencer a calvície, porque foram por décadas maltratadas por ela, porém não tem dinheiro suficiente para o tratamento. É claro também que, fosse mais barato, o médico não teria tempo e nem sossego para atender todos os seus pacientes; o preço é uma forma de diminuir a demanda e respeitar a lei de oferta e procura. Todavia, o inventor – que é uma boa pessoa – ensina alguns colegas a fabricar o xampu e a fazer o adequado tratamento, que é difícil e demorado. Outros profissionais chegam, mas o problema se mantém: como levar a descoberta a todos?

Ele se esforça, através de publicações e demonstrações, para que o governo tome conhecimento de que descobriu a cura da calvície, mas o governo tem outras prioridades. Afinal ser careca não é tão ruim assim, não é verdade? Existem coisas mais importantes a tratar. A imensa maioria dos colegas deste profissional ganha um bom dinheiro vendendo perucas e poucos estão realmente interessados na descoberta revolucionária. Por outro lado, quem teve o cabelo de volta sente-se muito agradecido, e coloca relatos e vídeos na Internet, o que só faz aumentar o número de interessados. Os poucos especialistas que se dedicam à nova descoberta ganham bem pelo tratamento, mas muitos pacientes sem recursos continuam carecas, enquanto outros acham que peruca é legal, pois o importante “é ter algo cobrindo a cabeça“.

Com o tempo os especialistas que restauram o cabelo são alvo de perseguições e difamações pelos colegas, os mesmos que lucram com as perucas. São atacados, vilipendiados, difamados e maltratados. Entretanto, colecionam sucessos e ficam conhecidos. São os “cabelistas“, que se contrapõem aos “peruquistas“, pelos quais são odiados. A associação de profissionais convoca reuniões para mostrar que são as próprias pessoas que escolhem usar perucas, pois o tratamento natural para restaurar cabelo é demorado e impõe uma certa dedicação do paciente. Além disso, se apressam em mostrar como as perucas são modernas, tecnológicas, feitas com fios “quase naturais”, não tem risco algum e são lindas.

O Movimento do Cabelo Natural, apesar de todos os ataques e mentiras, ganha as ruas, a mídia, os clientes e seduz cada dia mais profissionais, cansados de vender perucas para sujeitos que poderiam ter seu próprio cabelo. Esses pacientes são a melhor propaganda do novo tratamento, pois melhoram sua auto estima e impõem um novo direcionamento para suas vidas. “Se eu posso ter meu cabelo de volta, agora posso vencer qualquer desafio“, dizem os orgulhosos pacientes.

Ainda assim pessoas são condicionadas a comprar perucas, pois os profissionais mais conservadores não querem se reciclar ou não desejam perder tanto tempo com um tratamento que as vezes pode até não funcionar. Preferem continuar vendendo perucas, um tratamento simples e rápido, mas com inúmeros efeitos colaterais. Eczemas, dermatites, infecções, retração do couro cabeludo e até morte (3,5 x mais comum do que no tratamento capilar) pela anafilaxia causada pelos produtos de fixação da peruca.

Como fazer para que todos os carecas, não só os que tem recursos, possam ter o direito assegurado a um cabelo natural e mais seguro? Como garantir liberdade de escolha para ter seus cabelos naturais, ou para ter uma peruca (para quem assim escolher)? Como forçar os “peruquistas” a utilizar o tratamento mais natural se muitos não querem, não sabem ou não se interessam?  Como lidar com o fato de que os intermediários pagam o mesmo pelo cabelo natural ou pela peruca, mas esta última se coloca em 30 minutos, enquanto um tratamento natural leva meses?

Mas… a culpa pela falta de profissionais para tratar os carecas menos abastados é dos poucos profissionais que se dedicam e se expõe oferecendo a terapia mais lógica, segura e racional? Ou é do sistema? Ou será dos pacientes, que não se mobilizaram para garantir o direito a um cabelo sedoso, abundante e natural pago pelo governo?

Qual sua proposta para a encruzilhada do cabelo natural?

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Evolução das Consciências

Multidao

Eu ainda acho que a atenção adequada, feita por profissionais bem preparados, é o MELHOR CUIDADO possível para uma mulher que dá à luz. Entretanto, é importante perceber o quanto a “industrialização do parto”, e a visão fria e mecânica do evento, podem prejudicá-lo. A pergunta que fica é: por que não podemos ter o melhor de dois mundos? Por que insistimos num modelo tecnocrático e desrespeitoso, autoritário e cruel com as gestantes?

Bem, não existe resposta fácil para esta pergunta, mas também é ingênuo e injusto acreditar que esse é um problema dos médicos. Mesmo que entendamos que eles tem uma importância central no processo (porque detém e concentram poder) também é importante notar que médicos são representantes de um modelo construído por TODOS, numa geleia cultural onde a sociedade como um todo participa, acrescentando práticas que representam seus valores mais profundos.

Médicos também são reféns deste paradigma, vítimas da visão objetualizante que a cultura lança sobre as mulheres e suas gestações. Assim sendo, mais do que procurar culpados, é importante EDUCAR a população para que esta mude a cultura através de uma visão mais positiva sobre a mulher e o feminino. Depois disso, a mudança das práticas médicas ocorrerá por consequência. É exatamente o que estamos vendo agora: a evolução das consciências levando a uma transformação lenta – porém perceptível – nas práticas.

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Elitismo e Meritocracia

Sobre um texto que li hoje criticando a “meritocracia” e o “elitismo” do movimento de humanização do nascimento.

Aliás, já vi esse texto – escrito por outra pessoa e com palavras semelhantes – há há muitos anos na Internet e de forma repetida. Provavelmente a autora nem se apercebeu de como seu discurso está defasado no tempo. Esse debate sobre “elitismo” no movimento de humanização do nascimento tem mais de uma década e meia, e surgiu ainda nos encontros virtuais nas listas de discussão das “amigas do parto”.

Por acaso este texto surgiu na mesma semana que li outro artigo sobre as pessoas que reclamam de quem faz, mas, em contrapartida, não fazem nada. A autora mesmo diz não ser militante do parto humanizado, que não é algo que a envolva de corpo e alma, e isso para mim significa: “não me envolvo nessa temática, nunca fui à rua lutar por partos dignos, nunca dei minha cara à tapa, nunca fui xingada por ser a favor do parto normal, nunca fui perseguida pelas minhas ideias sobre nascimento, não compreendo muitos dos termos, nunca lutei por esta bandeira, mas quero criticar bastante quem o faz”.

Todo o texto dela é embasado em UMA grande crítica: as coisas que o movimento de humanização ainda não fez. As críticas vem pelo vazio gigantesco do “ainda não feito”. Tentem imaginar descrever QUALQUER movimento ou pessoa baseado no que ele NÃO fez, e desreconhecendo tudo o que protagonizou em sua vida ou percurso.

“Descartes era genial, porém feio; Pelé era um bom futebolista, mas como goleiro era medíocre; Jesus brigou no templo e se enfureceu, e isso é pecado; Darwin revolucionou o mundo como o conhecemos, mas era deprimido; Marx era um pensador revolucionário, mas um péssimo pai de família; Freud transformou o mundo ao abrir as portas do inconsciente, mas era fixado em sexualidade; Galileu Galilei enfrentou seus algozes com bravura, mas mentiu… apenas sussurrou i pur si muove…”

Reclamar de fora, sem enfrentar, apontando dedos, chamando de elitistas os poucos profissionais médicos, de enfermagem, obstetrizes e doulas que tiveram a coragem de sacrificar a própria segurança pessoal em nome de uma ideia é um ato grosseiro e insensato. Chamar de “elitistas” pessoas que vivem honestamente do seu trabalho é agressivo e injusto. Chamar de “meritocrático” apenas por mostrar às mulheres que SIM, a tarefa de mudar o sistema depende DELAS (não confundir com a ideia de que a CULPA é delas) é tentar fazer “fogo amigo” com palavras de ordem e agressões sem sentido. Dizer que nada é feito pelas mulheres negras e pobres do SUS é cegar-se às iniciativas pelo parto humanizado no ISEA e Sofia Feldman, entre outros.

O artigo é tudo, menos brilhante e atual. Como eu disse, essa queixa de caráter vitimista (uma tentação quase insuportável no meio em que a autora circula) tentando colocar a responsabilidade em alguém é retrógrado e inútil. “Ei vocês aí… façam alguma coisa pelas mulheres negras, chinesas, iranianas e nigerianas. Vocês só trabalham para quem pode pagar. Trabalhem de graça, sejam sacerdotes. Enquanto isso, eu continuarei ganhando meu dinheiro e cobrando bem por cada hora que dispensar no meu trabalho. Mas VOCÊS tem obrigações conosco, e estamos de olho”.

A responsabilidade para mudar o sistema é das MULHERES, com a ajuda de todos nós. Muito fui achincalhado quando tentava ajudar o movimento de mulheres, a ponto de precisar me afastar para sempre de qualquer ação nesse sentido, mas a queixa era sempre essa: “não se meta, não tente protagonizar uma luta que é nossa”. Pois bem, lição aprendida. A luta é MESMO das mulheres, é responsabilidade delas, a mudança partirá delas e o esforço deverá ser de quem leva o parto no próprio corpo. Nós, ativistas, podemos apenas apoiar e debater, sem retirar o protagonismo de quem é de direito.

Todos nós concordamos que é necessária uma expansão do discurso e da prática. O que deixa desanimado é que o tom é sempre agressivo, ressentido e acusatório. É o mesmo tipo de agressão contra figuras como o Jean Wyllys, agredindo-o por tudo que ele NÃO fez pelos homossexuais ou negros, ao invés de ajudá-lo a expandir sua ação e oferecendo ajuda para esta tarefa. As acusações são, via de regra, levianas e acusam os profissionais de serem interesseiros, movidos por dinheiro, como se houvesse culpa na qualidade de destes colegas, e que eles deveriam trabalhar graciosamente. Normalmente quem faz este tipo de acusação NUNCA se dedicou às causas que critica. Mas, vamos deixar claro que nada disso é novidade. Como eu mesmo salientei este é um dos famosos assuntos “iô-iô”, que vez por outra voltam a bater na mesma tecla das falhas do movimento de humanização, principalmente por causa dos médicos privados e suas cobranças.

O texto ao qual me referi atinge inclusive as doulas, responsáveis diretas pela mudança lenta e gradual da ESTÉTICA do parto, ao acrescentarem doçura, suavidade e afeto nos ambientes de parto. Pois até elas são tratadas como “dinheiristas“, e com o mesmo padrão de crítica: “Ah, mas só pra quem pode pagar, né?“, como se fosse responsabilidade das pobres doulas a mudança da mentalidade das maternidades públicas. Ora, se nós achamos que as doulas são importantes para as mulheres “negras e pobres” do Brasil, é preciso pressionar e exigir do vereador, deputado, dono de hospital ou gerente de maternidade, para que se crie um sistema que incorpore o trabalho das doulas ao SUS. Falar mal do atendimento que as doulas ainda não fazem é, como eu disse acima, injusto e cruel.

A transformação profunda na assistência às mulheres negras e pobres no parto, entre outras mazelas que ainda precisamos eliminar, virá quando pararmos de agredir os poucos profissionais que levam este debate adiante – e que pensam em transformações sensíveis na maternidade – e partirmos para uma ação POLÍTICA organizada e em bloco. A maioria dos ativistas médicos que conheço está fora do sistema público de saúde, e faz seu trabalho na abrangência de suas possibilidades. Não há como pedir para médicos que atendem no consultório que mudem o SUS, já que não podem agir nesse campo. Para isso é preciso que as mulheres, com a ajuda dos movimentos sociais, EXIJAM mudanças no Sistema Único de Saúde. Entretanto, parar de culpar os profissionais (e os movimentos) pelo que AINDA não fizeram é um bom começo de trabalho.

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Espetacularização da Justiça

Justiça

Sobre a espetacularização da justiça e a ação do juiz Moro na “Lava Jato”… (mas também poderia ser uma crítica aos médicos cesaristas e tecnocráticos fanatizados que julgam médicos que apoiam o parto normal)

“E o direito à defesa, corolário e condição fundamental do devido processo legal, é cada vez mais cerceado. (…) Com isso, tenta-se convencer as pessoas de que o processo penal é um estorvo, pois o que importa é prender e condenar antes mesmo de julgar. É o que o processualista italiano Franco Cordero denomina de quadro mental paranoico do juiz, que, ao conduzir o processo, o faz sob o “primado da hipótese sobre os fatos” e passa a agir como voraz acusador.” (Wadih Damous)

Esse é um recurso muito utilizado para atacar médicos que apoiam o parto normal. As provas, a realidade, as evidências e os testemunhos caem por terra diante de um desejo quase explícito de agredir uma ideia, uma tese e uma proposta. “Se a mensagem lhe parece inconveniente, atire no mensageiro”. Juízes se transformam em acusadores violentos, embriagados pelo “primado da hipótese sobre os fatos”, fazendo uma justiça baseada em sua própria visão de mundo, embasada em preconceitos e equívocos.

O mesmo sucedeu no caso da Escola de Base, apesar dos propósitos parecerem nobres. Para atacar o abuso e a pedofilia atropelou-se o bom senso, as provas, evidências e o juízo mais apurado. As vítimas, assim expostas, foram massacradas pela opinião pública, sem possibilidade de recuperação. Depois da tragédia descobriu-se que nada do afirmado era verdade, mas aí já era tarde demais: a honra, patrimônio maior do sujeito de bem, já havia sido destruída para sempre.

Podemos entender as razões para as atitudes de juízes vaidosos e prepotentes, que atropelam a lei e a constituição, mas podemos entender o estuprador, o ladrão de colarinho branco e o pivete que rouba galinhas. Isso não significa que essas ações sejam justificadas. Passar por cima da lei pode evitar uma injustiça, mas como ação é um crime contra a cidadania. Sem regras rígidas voltamos para a selva.

Os que apoiam a espetacularização da justiça deveriam se preocupar com as últimas consequências deste tipo de modelo para a sociedade como um todo. Os linchamentos – onde a destruição do “mal” está acima do direito à defesa e as garantias constitucionais – mostra sua face mais covarde e cruel. Um verdadeiro democrata e amante da verdade jamais se solidariza com um massacre, seja ele midiático ou real. Combater os abusos de poder é complexo, mas indispensável para a civilidade”.

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Merecimentos

Imitar-os-bons-exemplos-é-preciso

Temos os profissionais de saúde que merecemos.
Temos o aleitamento materno que queremos.
Temos o parto que desejamos.
Temos os médicos e as enfermeiras que escolhemos.
Temos o parto e a amamentação que nos cabem, neste latifúndio chamado Terra…

Acabo de colocar a cabeça para fora de casa. A brisa sacode meu supercílio esquerdo e enche minhas narinas de ar fresco e tímidos raios de sol. Olho para os lados para procurar a diferença. Uma mulher passa à minha frente, na calçada sombreada da rua onde de moro. Traz uma criança grudada em sua mão direita, e tem uma bolsa de couro pendurada no braço esquerdo. Olho para ela e pergunto-lhe silenciosamente se o parto de seu filho e a amamentação foram, mesmo que por alguns breves momentos, preocupações em sua vida. O silêncio dela deve ser verdadeiro, mesmo que a pergunta tenha sido apenas imaginada.

Não vejo cartazes na rua, muito menos manifestantes. Não consigo divisar no horizonte próximo das casas de minha rua qualquer indício de que o roubo do nascimento e o desmerecimento da amamentação tenham provocado qualquer tipo de insatisfação entre as pessoas. Ninguém parece reclamar. Não escuto um grito sequer de indignação com a espoliação de momentos tão significativos da constituição da essência humana. Estamos a um passo das chocadeiras, do nascimento virtual e do total desvirtuamento daquilo que em nós chamávamos de “humano”. Aqui aparece a face pós-moderna mais dolorosa da medicina: perdemos totalmente o contato com a realidade do nascimento. Perdemos seu odor, seu clima, sua temperatura e gosto. Hoje os médicos só conhecem a sua representação, seu simulacro, sua imagem refletida na parede da tecnocracia. Continuando o raciocínio do articulista Dino Felluga, acrescento que “fizemos um roteiro tão assemelhado com a verdade que este se justapôs àquela. Hoje em dia a realidade é que se desfaz por entre as linhas riscadas do mapa. As fórmulas e as cesarianas mantêm-se de pé enquanto assistimos ao desaparecimento de suas versões originais“.

Mentimos o parto e a amamentação, falseando a natureza.

Somente quando a sociedade perceber o quanto perdeu com a aventura tecnocrática é que poderemos mudar o paradigma dominante e exigir que os profissionais ligados ao parto e à amamentação sigam as diretrizes mais naturais e menos intervencionistas. Enquanto isso não ocorrer continuaremos a formar profissionais que atuem de acordo com os nossos mitos e nossas crenças.

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Desabafo

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Ontem eu li a emocionada declaração de uma médica obstetra na Internet descrevendo o bom trabalho que faz junto às suas pacientes e as dificuldades da profissão. Diante de cada dificuldade ela dizia se sentir “violentada”. Depois de descrever com minúcias sua atuação médica ela se alia aos críticos da atuação do deputado Jean Wyllys (que combate a violência obstétrica) e estampa a hashtag “calabocajeanwyllys”.

Eu tentei entender a motivação da colega e vi que ela se estendia para além das palavras escritas, e ficou nítido que ela se referia a uma herança da ação médica, que entende todo ato médico como “benevolência”. Em palavras – menos explícitas – o que ela diz é: “Depois de TUDO o que faço por vocês, com enorme sacrifício da minha vida, como ousam falar de violência obstétrica?”

Para mim fica clara a ideia de que os pacientes “devem” aos médicos pela ação devotada e superior que eles tem na sua labuta diária contra as doenças e o sofrimento. O salário que recebem é insuficiente para dar conta dessa dívida e, portanto, não faz sentido uma reclamação vinda de quem tanto deve para eles.

Este tipo de postura é essencialmente autoritária e desprovida de sentido amplo, servindo apenas como um desabafo pessoal, que qualquer um pode fazer diante da sensação de não receber o reconhecimento de que se acha credor. Ele, entretanto, falha quando insinua que uma profissão não pode ser questionada por estar “acima” das críticas, em função da essência superior de sua ação.

O desabafo soa como o de um policial que enfrenta bandidos, prende malfeitores, arrisca a vida em tiroteios e depois não aceita que se fale em “violência policial” já que ele coloca sua vida em risco por nós.

Ora, o fato de haver bons e dedicados policiais não inválida a existência de violência, tortura, ilegalidades, arbítrio e corrupção, assim como o fato de que estas falhas PRECISAM ser denunciadas. Da mesma forma, o fato de um obstetra (ou qualquer outro profissional da assistência ao parto) fazer bem o seu trabalho (SIC) não invalida a existência de um modelo violento de obstetrícia, que despreza a autonomia feminina, desreconhece práticas baseadas em evidências, burla a legislação do acompanhante, impede a livre expressão e objetualiza gestantes. E isso também PRECISA ser denunciado, para que seja eliminado da assistência ao parto.

O deputado Jean foi apenas o veículo de uma indignação crescente da população com a incapacidade do sistema médico de reconhecer as questões éticas essenciais da assistência ao parto, como a liberdade de fazer escolhas informadas. Reclamar dele é cegar-se à óbvia mudança que se aproxima em relação aos direitos reprodutivos e sexuais.

Espero que minha colega continue seu bom trabalho mas que possa, ao mesmo tempo, reconhecer que a violência ainda é um modo de relação entre profissionais e pacientes, e que ela precisa ser eliminada para sempre do nosso meio.

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