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Protocolo

Logo após o término da faculdade e da residência comecei a trabalhar em um hospital de periferia onde o atendimento era 100% SUS. Eu era o responsável pelo atendimento nas sextas-feiras no Centro Obstétrico, e acredito que aquele plantão, pelas características de atender pessoas desconhecidas que haviam realizado pré-natal no sistema público de saúde, foi uma forma bastante desafiadora de levar adiante a prática dos elementos fundamentais da humanização do nascimento. Eu tinha na mente uma clara inconformidade com a forma como aconteciam os atendimentos ao parto, mas além dela uma perspectiva humanista, centrada nos elementos constitutivos do sujeito, que mesclava os fatores físicos, hormonais e mecânicos mais grosseiros com os elementos sutis, emocionais, psicológicos, sociais e espirituais das mulheres que estavam parindo seus filhos. Esse foi o terreno fértil para uma postura de confrontação ao modelo alienante da obstetrícia dos anos 90.

Na época destes plantões eu criei um programa para uso pessoal que chamei de PAOH – Protocolo de Atenção Obstétrica Humanizada, que nada mais era do que uma lista de princípios gerais para que me orientariam no projeto de otimizar resultados. Para mim, o objetivo mais importante é de que o parto fosse realizado com o máximo de segurança, e que culminasse com o nascimento de um bebê saudável e de uma mãe que tivesse obtido, além do seu bem-estar, todo o proveito da experiência. Para além da mera sobrevivência – o essencial – era fundamental oferecer à experiência do parto a possibilidade de alavancar o crescimento pessoal. Partos fisiológicos, bebês saudáveis, contato precoce, amamentação livre, fortalecimento dos laços familiares, etc. O protocolo era composto de 6 elementos simples:

1. Ambiente propício

Muito já se falava à época dos trabalhos de Frederik Leboyer e seu “nascimento sem violência”, e o quanto as interferências de luz e som na condução do parto tinham a potencialidade de atrasar e prejudicar seu bom andamento. Por esta razão, decidi que uma das mais importantes ações para garantir a segurança do parto seria diminuir tanto o barulho quanto os estímulos visuais na sala de parto. Os partos assim seriam conduzidos no silêncio e na penumbra, para não interromper o fluxo fisiológico do parto e favorecer o “apagamento neocortical”. A ideia era tratar o parto como “parte da vida sexual normal de uma mulher”, como afirmava Michel Odent, e ter os mesmos cuidados de privacidade e intimidade das relações sexuais. Com isso esperávamos diminuir a adrenalina circulante e aumentar os níveis de oxitocina entre todos os participantes da cena do parto.

2. Suporte psico-afetivo

Eu acreditava nas premissas básicas do obstetra britânico Grantly Dick-Read e sua ênfase nas questões ambientais para o sucesso do parto. Esta é uma das razões pelas quais partos conduzidos por mulheres compassivas – parteiras profissionais – têm mais sucesso do que aqueles conduzidos por figuras técnicas cuja vinculação afetiva é muito mais difícil: os médicos e cirurgiões. Desta forma criei o compromisso de não me afastar das pacientes durante todo o processo, ficando acessível aos seus pedidos e queixas para quando elas achassem necessário. Também acreditava que o acompanhante poderia trazer inúmeros benefícios para a condução do processo, e estimulava a presença do marido ou de qualquer outro acompanhante de livre escolha. O que hoje parece simples, há 35 anos era uma batalha diária.

3. Posição verticalizada preferencial para o parto.

Minha experiência com a posição de cócoras para parir já foi descrita no meu primeiro livro “Memórias do Homem de Vidro”, mas quando construí este protocolo – no fim dos anos 80 e início dos anos 90 – eu já estava absolutamente apaixonado pelos resultados que eu mesmo havia observado, e no que era possível encontrar em trabalhos e livros (como “Aprenda a Nascer com os Índios”, de Moysés Paciornik). Mais tarde esta recomendação deu lugar a uma proposta muito mais aberta, que garantia às mulheres a liberdade para escolher a posição que mais lhes agradava. Entretanto, no início desta caminhada, era preciso ser mais enfático e mostrar de forma bem explícita algo que a cultura havia sonegado: a vantagem das posições verticais e uma ergonomia mais fisiológica, natural e segura para o nascimento dos bebês. Também não foi fácil chegar a este ponto: colegas médicos me acusavam de “humilhar as mulheres”, fazendo que parissem como “galinhas botando ovos“.

4. Uso restrito e criterioso de medicações, sempre que possível

Toda medicação tem efeitos indesejáveis e com repercussões imprevisíveis. É notável a crescente drogadição da sociedade, e isso é uma preocupação das grandes organizações internacionais relacionadas à saúde pública. A simples “correção de dinâmica” (melhorar as contrações) através do uso de uma droga chamada “oxitocina sintética” pode levar a uma “taquissistolia” (aumento na frequência das contrações) que tem a potencialidade de criar grandes riscos para o bebê, inclusive produzindo stress fetal – que leva a cesarianas de urgência. Assim, todas as drogas utilizadas, incluindo aí os antibióticos, uterotônicos, etc, só poderiam ser utilizados de forma muito criteriosa; caso contrário deveriam ser evitadas.

5. Uso restrito de intervenções e manobras, sempre que possível

Boa parte das manobras médicas em obstetrícia parte de uma lógica perversa: a crença de que as mulheres são incapazes de levar adiante a tarefa de gestar, parir e maternar sem a intervenção da tecnologia e dos profissionais que a controlam. Desafiar essa ideia, encarando as mulheres como intrinsecamente capazes de realizar o trabalho multimilenário de parir, significaria questionar o poder médico exercido sobre seus corpos grávidos. Isso jamais aconteceria impunemente; todavia, quando testemunhamos setores da sociedade, como a classe média, que ostentam taxas inacreditáveis de intervenção – tipo, 90% de cesarianas – fica claro que, mais cedo ou mais tarde, alguém questionaria este tipo de intromissão abusiva, perigosa e sem respaldado na ciência sobre os corpos das mulheres grávidas.

6. Trabalho com as doulas

Meu trabalho com as doulas se iniciou nos estertores do século passado quando tomei contato com as mulheres que se dedicavam a dar suporte afetivo, emocional, psicológico e físico para as mulheres durante o processo de parir. Elas ofereciam uma parte da atenção que a mim era interditada: o profundo contato físico e amoroso oferecido às gestantes durante o trabalho de parto. Além disso, elas ofereciam o toque, o apoio emocional, o cuidado com o ambiente, o auxílio à família e a sintonia feminina que se pode testemunhar entre a doula e a gestante sob seus cuidados. Foi uma grande descoberta, pela qual eu me apaixonei e dediquei décadas da minha vida à sua divulgação, formação e disseminação. Infelizmente, esse foi um item acrescentado à posteriori, pois no início da década de 90 aquele centro obstétrico não estava preparado para a revolução das doulas, e os responsáveis pelo centro obstétrico jamais aceitariam sua presença nos partos.

Esse protocolo foi usado durante toda a minha vida profissional, mas jamais me iludi com o fato de que isso incomodaria os donos do poder, os mesmos que olhavam a taxa crescente de cesarianas e outras intervenções no ciclo gravido-puerperal sem criticar. Não havia nenhum debate acadêmico, no meio onde eu atuava, que questionasse onde esta escalada intervencionista nos levaria. Todavia, como diria Vladimir, “O critério da Verdade é a práxis”, e desta forma percebi que eu só teria certeza da justeza de tudo que era publicado a respeito das vantagens da perspectiva humanista para o nascimento quando isso se tornasse algo além das letras dispersas em livros e estudos, e se tornasse prática cotidiana de assistência. Era preciso que alguém colocasse mãos à obra e praticasse o que era oferecido pela ciência contemporânea, mesmo que esta atitude afrontasse diretamente os interesses corporativos.

Na época em que eu atendia naquele hospital as taxas de cesariana eram da ordem de 45% – muito maiores (o triplo) do que o recomendado pelas grandes agências como WHO ou OPAS – mas as minhas taxas pessoais de cesariana giravam ao redor de 10 a 15% dos partos, o que comprovava a ideia de que era possível diminuir esses números, bastando para isso um desejo de mudança associado à coragem de fazê-lo. Minhas cesarianas obedeciam critérios muito rígidos para sua execução, e por causa disso logo senti a antipatia dos anestesistas “Por que você não marca suas cesarianas para antes da novela? Seus colegas sabem de antemão quais os partos que ‘não vão ter passagem’; só você nos chama de madrugada”. Não só dos anestesistas percebi antagonismo; era evidente que para os médicos ditos “cesaristas” meu exemplo era um prejuízo para o trabalho que faziam. Assim, é possível imaginar a dificuldade em trabalhar sem a colaboração de pessoas da equipe que, por razões de conforto pessoal, não aceitavam alguém que atuasse em favor das mulheres, seus desejos, seus direitos e sua segurança.

Alguns anos depois de iniciar este trabalho encontrei um velho colega de residência que decidiu trabalhar no interior do Estado, na cidade da qual era originário. Quando me viu, perguntou se eu continuava com as mesmas ideias “estranhas” do tempo em que trabalhamos juntos no hospital onde fizemos a residência, tipo “parto de índio”, “contato pele a pele”, “marido na sala”, “crítica às episiotomias” e uma aversão ao “abuso de cesarianas”. Respondi que sim, que continuava com muita esperança que estas ações pudessem revolucionar a prática obstétrica, mesmo que levasse muito tempo para isso. Sua resposta foi maravilhosa, e a mantenho até hoje na memória para entender como se processam as mudanças.

– Admiro sua persistência. Já eu faço o que eles querem. Meus partos são bem  tradicionais, como são feitos desde os anos 30. Tenho uma taxa muito alta de cesarianas, e não me envergonho disso. Nunca discuto alternativas; pacientes não podem controlar os médicos. Não quero ser acusado de nada, e não quero mudar nada; para mim está muito bom assim. Mas, é claro, concordo com suas ideias, apesar de que jamais as levaria adiante. Não sou kamikaze.

Naquela época um velho médico, próximo da aposentadoria, me disse uma frase que resumiria esta situação de forma muito didática. Segundo ele, “Existem dois tipos básicos de médicos: uns desejam resolver os problemas de seus pacientes, enquanto os outros querem resolver os seus problemas através dos pacientes. Cabe a você – e só a você – escolher a qual grupo deseja se juntar.”

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Intactos

Ao participar de congressos nos Estados Unidos sobre humanização do nascimento nas primeiras duas décadas deste século eu conheci um lado da cultura americana que muito me impressionou. No intervalo das palestras era possível passear pelos estandes coloridos dos patrocinadores. Espremidos entre as cabines que vendiam produtos como sonares, bonecas de ensino, livros e seus autores, bijuterias e aromas de ambientação, notei a presença de ativistas que divulgavam temas variados, mas sempre relacionados com o público que participava do movimento de humanização. No meio do burburinho de participantes do evento, encontrei o movimento contra a prática disseminada da circuncisão, o “Intact America“, e sua presença logo captou minha atenção. Depois de ficar alguns instantes tentando entender do que se tratava, fui prontamente abordado por uma simpática senhora com panfletos nas mãos e um sorriso no rosto. Foi desta vez que, pela primeira vez´, tomei contato com pessoas que lutavam pela preservação da integridade anatômica dos meninos, e posso dizer que foi uma experiência marcante.

Da minha conversa com as ativistas anticircuncisão aprendi muito sobre a importância de manter intacta esta parte do corpo em função dos inúmeros benefícios (para mim até então desconhecidos) de manter pele do prepúcio e assim garantir a sensibilidade e o prazer sexual masculino. A história desta cirurgia ritualística e mutilatória vem de tempos imemoriais. Foi Maimonides, judeu sefardita da idade média, filósofo e estudioso da Torá que viveu entre os muçulmanos da costa ocidental da África e do Egito, o mais conhecido proponente da circuncisão. É dele a frase: “A lesão corporal causada a esse órgão é exatamente a desejada”, deixando claro que acreditava haver benefício nos traumas causados aos homens que se submetiam a este tipo de procedimento. Para ele, “Não há dúvida de que a circuncisão enfraquece o poder da excitação sexual e, às vezes, diminui o prazer natural.” Desta forma fica fácil entender que esta prática tem como finalidade última a obstrução da potencialidade prazerosa sexual dos homens. Segundo Maimonides, os homens assim “domesticados” teriam menos interesse no sexo e liberariam mais tempo para as coisas mais nobres, como o estudo da Torá. Em uma perspectiva histórica é notável o fato de que esta cirurgia sempre foi realizada exatamente para atingir a sexualidade, colocando sobre ela a marca indelével da cultura, como que a afirmar que tudo que se passa ali está sob o olhar cuidadoso do Grande Outro que, em última instância, determina nossa posição no mundo.

É interessante notar como a circuncisão é um não-assunto no Brasil. Se você pensar que ela está restrita aos judeus no Brasil, e a população de origem judaica no nosso país não tem mais do que 150 mil pessoas (0.06% da população brasileira), é possível perceber que não se trata de um tema de alto impacto. Já os Estados Unidos são o país que congrega a segunda maior população judaica do mundo, atrás apenas de Israel, e lá vivem mais de 5 milhões de judeus, algo próximo de 1.5% da população. Entretanto, nos Estados Unidos a prática da circuncisão se alastrou para os não judeus, tornando-se uma das cirurgias mais prevalentes no país. O Centro Nacional de Estatísticas de Saúde estima que cerca de 64% dos recém-nascidos do sexo masculino americanos são submetidos à circuncisão. No entanto, esse número varia entre grupos socioeconômicos, étnicos e geográficos. Apesar da taxa de circuncisão estar em lenta queda, estima-se que 80,5% dos homens com idade entre 14 e 59 anos nos Estados Unidos sejam circuncidados. Apesar do número espantoso, existem números ainda mais impactantes: o Afeganistão tem uma taxa de 99.8%, e Gana 91.6% de crianças circuncidadas. Muitos argumentam a existência de benefícios na realização desta cirurgia, entre eles as questões higiênicas, a diminuição do risco de câncer, proteção potencial de infecções do trato urinário e até diminuição da transmissibilidade da AIDS. Estes dados são motivo de constante questionamento, porém mas mesmo que fossem válidos seria como dizer que câncer de mama desaparece depois de mastectomia, cáries igualmente são exterminadas ao se colocar próteses dentárias ou que fumar diminui a incidência de aftas na mucosa oral. Para além disso, existem questões éticas muito sérias, pois estas cirurgias podem ter consequências para toda a vida, É interessante notar como a circuncisão é um não-assunto no Brasil. Se você pensar que ela está restrita aos judeus no Brasil, e a população de origem judaica no nosso país não tem mais do que 150 mil pessoas (0.06% da população brasileira), é possível perceber que não se trata de um tema de alto impacto. Já os Estados Unidos são o país que congrega a segunda maior população judaica do mundo, atrás apenas de Israel, e lá vivem mais de 5 milhões de judeus, algo próximo de 1.5% da população. Entretanto, nos Estados Unidos a prática da circuncisão se alastrou para os não judeus, tornando-se uma das cirurgias mais prevalentes no país. O Centro Nacional de Estatísticas de Saúde estima que cerca de 64% dos recém-nascidos do sexo masculino americanos são submetidos à circuncisão. No entanto, esse número varia entre grupos socioeconômicos, étnicos e geográficos. Apesar da taxa de circuncisão estar em lenta queda, estima-se que 80,5% dos homens com idade entre 14 e 59 anos nos Estados Unidos sejam circuncidados. Apesar do número espantoso, existem números ainda mais impactantes: o Afeganistão tem uma taxa de 99.8%, e Gana 91.6% de crianças circuncidadas. Muitos argumentam a existência de benefícios na realização desta cirurgia, entre eles as questões higiênicas, a diminuição do risco de câncer, proteção potencial de infecções do trato urinário e até diminuição da transmissibilidade da AIDS. Estes dados são motivo de constante questionamento, porém mas mesmo que fossem válidos seria como dizer que câncer de mama desaparece depois de mastectomia, cáries igualmente são exterminadas ao se colocar próteses dentárias ou que fumar diminui a incidência de aftas na mucosa oral. Para além disso, existem questões éticas muito sérias, pois estas cirurgias podem ter consequências para toda a vida, com potencialidade danosa ou mesmo devastadora, realizadas em menores de idade, que são obviamente incapazes de fazer escolhas informadas sobre riscos e benefícios.

Outra aspecto da minha conversa que me impressionou foi o fato de que as ativistas com quem conversei eram todas mulheres. Elas lutavam pela integridade física de seus filhos, netos e tentavam alertar a todos os homens sobre os riscos inerentes a uma amputação, sem que lhes fosse garantido a oportunidade de escolha. Estas senhoras falaram comigo do pênis e suas funções com detalhadas explicações anatômicas e fisiológicas, como se fosse parte do corpo delas, ou como fossem diretamente afetadas. Não pude evitar lembrar de uma aula do saudoso Contardo quando ele, jocosamente, dizia: “O pênis é um órgão feminino colocado no corpo dos homens”. Intrigado e curioso, perguntei a elas se, em algum momento, um homem defensor da circuncisão havia jogado em suas faces uma “ameaça de cancelamento” ao estilo “não é seu lugar de fala” ou “deixe esse assunto para nós, homens”. Elas sorriram por saber onde eu queria chegar; afinal, estávamos em um imenso congresso sobre parto e eu era um dos poucos homens a ter espaço para trazer minhas propostas e ideias. Uma delas respondeu: “Os homens são nossos parceiros. São nossos filhos, maridos, amigos e netos. É com os homens que fazemos amor, e garantir seu prazer é um assunto que também nos pertence. Não, nenhum homem jamais disse para eu me calar usando este argumento”.

A luta pela integridade física dos sujeitos uniu aqueles que lutam contra a violência obstétrica – cuja intervenção paradigmática e exemplo mais clássico é o das episiotomias injustificadas – e os ativistas pela integridade peniana, que lutam pelo direito dos homens de manter seu corpo e sua sexualidade livre de invasões e amputações. Desta forma, lutar contra a violência obstétrica através das múltiplas intervenções danosas sobre o corpo das gestantes e a luta contra cirurgias mutilatórias ritualísticas sobre o corpo dos homens é um assunto que tem a ver com cada um de nós, inobstante a identidade sexual de que somos investidos.

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Lugar que cala

Vou falar de um tema que sempre me atingiu de forma pessoal: a ditadura dos “lugares de fala”, um recurso utilizado há muito tempo por grupos identitários que afirmavam que somente aqueles que tivessem sofrido na pele um determinado problema (pobreza, racismo, machismo, lgbtfobia, etc) poderia tratar do assunto. O mantra é “Se você não é (mulher, preto, gay, latino, pobre…) apenas cale-se e escute”. Ou seja: estamos diante do “Império dos Sentidos” onde somente aquele que sentiu algo diretamente têm o direito garantido de falar e ser escutado. Todo aquele que porventura tenha estudado e se dedicado ao tema está condenado a ter uma opinião de “segunda classe” ou, pior, sequer ter acesso à fala. Eu acho que qualquer um que critica o autoritarismo identitário, está muito correto, e por diversos aspectos. O “lugar de fala” serviu desde sempre como “lugar que cala”. Ou seja, se você é preto tem o direito de calar todos “não pretos” quando o assunto é negritude, como se a sua vivência fosse o único qualificador, negando o direito de expressão de todos aqueles que se dedicaram a estudar o tema. Assim ocorre o mesmo com a violência, as orientações sexuais, a identidade de gênero, a Palestina, a pobreza, a mulher etc. Existe um “passe” identitário para tratar de temas específicos.

Por ser um obstetra homem, impossibilitado de parir, sofri a vida inteiro este tipo de constrição sempre que tratei dos temas ligados à gestação, parto, puerpério ou amamentação. Havia (e ainda se mantém, ainda que com menos intensidade) a ideia (explícita ou implícita) de que só as mulheres poderiam falar dos eventos relacionados ao parto, o que sempre me pareceu equivocado, porque é possível falar do parto na perspectiva dos direitos humanos, da fisiologia, da reprodução, da genética, e tantos outros aspectos sem ter passado pela experiência específica de parir. A única coisa que não há como falar é sobre a vivência de parir, pois que só quem teve o corpo marcado por ela pode tratá-la com cumplicidade e proximidade.

Por isso sempre tive o cuidado de afirmar que não terei jamais a capacidade de descrever como é gestar e parir numa narrativa de primeira pessoa; posso no máximo descrever o fenômeno pela percepção do outro. Sempre afirmei que ignoro por completo como é carregar um filho no ventre e todas as nuances e significados do trabalho árduo de separá-lo de si no parto. Entretanto, isso não deveria impedir que se discuta a questão do parto por todas as suas outras facetas, até porque quem não o sente no corpo que pariu, por certo o viveu em seu corpo parido, e isso diz respeito a todos aqueles que passaram ou passarão por este momento.

Sobre as vozes dos homens nos saltos transformativos da atenção ao parto, pensem o que seria da humanização do nascimento sem a visão do ambiente nos livros de Grantly Dick-Read e o círculo vicioso de medo-tensão-dor. Como estaria a atenção ao parto não fosse “parto sem Violência” de Leboyer, e o nascimento na perspectiva de quem nasce? Como estaria o mundo sem a visão ecológica de Michel Odent, a revolução das doulas e da conexão mãe-bebê sem Klauss & Kennell? Sem Marsden Wagner, como saber a importância dos paradigmas hegemônicos que regulam o nascimento a despeito das descobertas científicas que apontam para um ponto oposto? Sem o exemplo de Galba de Araújo, como saber a importância do serviço público e seu impacto nas mudanças qualitativas e quantitativas na atenção ao parto com recursos simples e acessíveis? E que seria de tantos outros homens anônimos que dedicaram suas vidas ao cuidado, mesmo alijados da experiência direta de parir? Deveriam silenciar e aguardar décadas até que uma mulher tivesse a perspectiva que tiveram? Seria justo calar-se diante de uma postura tão autoritária e abusiva?

Não há sentido em afastar os homens do debate sobre parto, mas também nada justifica calar qualquer um sobre as questões tão relevantes do nosso tempo. O movimento pela Palestina mostrou de forma muito clara que, mesmo não sendo palestinos, somos parte da mesma humanidade e desejamos um mundo sem o racismo sionista, a ocupação e a limpeza étnica protagonizadas por Israel. Por fim, o fato de ser humano me garante o lugar de fala para expressar aquilo que é humano, e tudo que é humano me afeta e pertence. Ou, como diria Terentius Afer, “nada do que é humano me é estranho”.

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Representações

Pensem por esta linha: se a representatividade fosse realmente determinante para a mudança dos modelos não seria de esperar que a entrada de mulheres na obstetrícia (onde hoje já são a maioria) deveria transformar as práticas de atenção ao parto de forma que se tornassem mais humanizadas? Ou seja, com tantas médicas mulheres atendendo partos, não deveriam os nascimentos ser mais centrados na autonomia das mulheres, na vinculação com a saúde baseada em evidências e na abordagem interdisciplinar do evento? E por que isso não ocorreu? Por que a prática obstétrica se mantém violenta e “iatrocêntrica” (centrada no médico) a despeito da entrada massiva de mulheres na profissão?

Ora, esse fenômeno ocorre por razões até simples de entender. As mulheres que entram num ofício caracteristicamente masculino como a obstetrícia que opera na lógica da intervenção (ao contrário da parteria, que é essencialmente feminina e opera na lógica do cuidado) adaptam-se à ideologia hegemônica, tornando-se veículo de uma ordem de poderes e de uma ideologia que mantém o poder nas mãos dos médicos. Nessa ideologia os corpos das mulheres precisam ser controlados e domesticados, retirando-se deles a natural energia selvagem e criativa. Via de regra, não se observa nenhuma diferença marcante na atenção prestada por homens e por mulheres no que diz respeito às práticas condenáveis como episiotomia, posição de litotomia, Kristeller, corte prematuro de cordão, cesarianas, etc. Da mesma forma, na atenção médica ao parto não há diferença alguma entre homens e mulheres quando avaliamos as boas práticas e as posturas que estimulam a humanização. Portanto, as obstetras mulheres claramente se adaptam ao sistema de poderes no qual se inserem e não foram – até então – capazes de transformá-lo pela identificação de gênero que teriam com as gestantes.

Da mesma forma, uma mulher negra representando o imperialismo, como Linda Thomas-Greenfield, que vetou o acordo de paz da guerra de Israel contra os palestinos, jamais se posicionaria ao lado das populações negras (ou não brancas) que lutam contra o sistema imperialista, a opressão, o apartheid e a violência de Estado que ela própria representa. Ela também se adapta ao sistema que a abriga, tornando-se uma emissária dos interesses imperiais, e não uma mulher negra em posição de comando. Sua negritude e sua feminilidade desaparecem diante da magnitude de sua posição.

Pois é exatamente por isso que esse modelo de representatividade, que é apregoado e disseminado pela direita – mesmo a direita travestida de esquerda identitária – é uma falácia. Esta estratégia divisionista foi criada pelos “neocons” americanos para produzir a divisão da classe operária entre suas múltiplas identidades – pretos, gays, mulheres, transsexuais, etc. – oferecendo a estas identidades uma pífia representatividade, enquanto mantém intocados os poderes do capitalismo e obstrui a luta de todos nós – a luta de classes. Em troca oferece uma fatia do bolo para essas personagens, mantendo os milhões de representados na mesma condição de miserabilidade e exclusão.

Não existe possibilidade de avançar nas lutas por uma sociedade equilibrada através desses truques narrativos. Assim como mulheres, negros, gays etc. assumem a roupagem do poder que os acolhe, suas ações serão sempre reflexo desse poder, e não das identidades que carregam.

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Opressão de classe

A questão de classe se sobrepõe à questão racial. Negros foram escravizados há 500 anos, trazidos de África, para serem trabalhadores forçados nas propriedades brasileiras, mas na história da Grécia e de Roma outros povos brancos foram trazidos para as metrópoles do mundo antigo como escravizados. Até na própria África negra havia escravos negros de senhores igualmente negros. Outros exemplos são os asiáticos no leste americano e os irlandeses pelos ingleses, tratados com o desprezo reservado às classes inferiores. A opressão dos mais fortes usa a cor da pele como desculpa para oprimir e explorar os mais fragilizados. No caso do Brasil – semelhante à dos Estados Unidos – a luta contra o racismo não pode assumir o caráter identitário, privilegiando apenas uma identidade, acreditando que o sofrimentos dos negros é único e uniforme.

Em verdade, esse sofrimento só será exterminado quando os negros tiverem acesso aos recursos econômicos para a sobrevivência digna nessa sociedade, um movimento que não vai acontecer apenas através da ascensão de alguns poucos negros às classes superiores, mas com a supressão das classes sociais. Sem classes dominantes e enormes contingentes de dominados, o racismo não terá como se expressar. Por essa razão, lutar contra o racismo sem entender que ele é uma consequência da sociedade capitalista de classes apenas gera conflito dentro da classe operária. É por essa específica razão que a direita americana oferece um apoio tão consistente para organizações identitárias que objetivam a divisão da classe trabalhadora, usando a luta antirracista, feminista e pró LGBT para minar a luta contra o capitalismo.

Não há dúvida de que ninguém vê senhoras negras dirigindo uma Ferrari aqui no Brasil, mas nos Estados Unidos existem centenas, talvez milhares de mulheres negras ricas que usam esse tipo de ostentação. Podemos então dizer que por lá o racismo foi derrotado? Eu diria que é exatamente o oposto: lá o racismo é muito pior. Esse é o grave problema do identitarismo, porque a existência de personagens negros com muito dinheiro não eliminou o racismo, o sofrimento do povo negro, e muito menos a exclusão da população negra da riqueza nacional, mas dá a eles uma ilusão de que o liberalismo é capaz de lhe oferecer as condições de ascensão social. Essa mentira percorre o imaginário há séculos.

Sobre os trabalhos domésticos, os serviços perigosos e danosos reservados aos negros, isso não é condição inerente da pele negra…. mas da pobreza!!!! O fato de haver muitos negros pobres no Brasil nos oferece a ilusão de que a cor da pela é a questão primordial, pois negritude e pobreza se confundem num país que se liberou da escravidão há 150 anos. Entretanto, o que conduz essas pessoas a condições de trabalho indignas é sua classe social, e não a quantidade de melanina que carregam.

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Iconoclastia e nascimento

Eu entendo a tesão da iconoclastia. Durante anos a fio o ideário da humanização do nascimento percorreu este fluxo. Tudo o que víamos eram os erros, a barbárie da medicalização abusiva, o desrespeito com a privacidade, a expropriação do protagonismo, a objetualização, a coisificação humilhante, o abandono e a insensibilidade com as múltiplas facetas de um evento tão rico e plural. Queríamos, com evidente furor revolucionário, destruir o velho e erguer o novo sobre seus escombros. Queríamos limpar o nascimento das “pseudociências” que o controlam. Tínhamos a fé firme na revolução do saber, através do ensino, da demonstração da Verdade, dos estudos, dos periódicos, das metanálises deslumbrantes e arrasadoras. “Soubessem eles o que sabemos e a violência acabaria, como um facho de luz percorrendo o espaço ilumina tudo o que toca.”

Nossa maior riqueza era o vigor transformador, filho dileto da indignação. Queríamos transformar o mundo mudando a forma de nascer. Apostávamos no poder libertador da ciência e da informação. O erro, assim o entendíamos, era o resultado direto da ignorância. Traríamos nós, então, a “boa nova”, o Evangelho da humanização e sua potencialidade de, mudando o parto, fazer nascer uma humanidade verdadeiramente cidadã. Sim, a nós faltava a compreensão materialista das forças econômicas, as verdadeiras proprietárias do parto. Ao nosso ver, para que ocorressem as necessárias mudanças, era preciso combater, acusar, agredir, lutar, apontar dedos, denunciar. E, não há como negar, para aqueles que conheciam a prática de partos que brotavam da simplicidade fisiológica da proposta humanizante, era fácil perceber o contraste chocante com a realidade cotidiana. Eram dois mundos tão distantes que único traço unificador era o nascimento de um bebê, mas por caminhos tão distintos que não seriam colocados na mesma categoria por um visitante do espaço sideral. Confundiriam uma cesariana com a simples retirada de um tumor, enquanto um parto, na penumbra e no ritmo sensual da natureza, seria facilmente confundido com…. o sexo.

Éramos cães correndo atrás dos pneus, latindo fervorosamente para que parassem com a selvageria tecnocrática dos nascimentos artificializados. Para aqueles contaminados pelo vírus da humanização o barulho era, a cada dia, mais insuportável. Todavia, com o tempo e a insistência, os gritos foram aos poucos sendo ouvidos pelas mulheres, seus parceiros, enfermeiras, obstetrizes, as doulas e, de forma muito tímida, pelos poucos médicos que se aventuravam a questionar os dogmas da corporação, mesmo sabendo que o ódio contra eles seria implacável.

Depois de tanto grito, o carro diminuiu a marcha e o motorista agora pergunta: “afinal, o que desejam vocês?”

Estava claro que manter-se criticando os erros e absurdos do velho paradigma não produziria nenhuma transformação consistente e duradoura. As soluções aos poucos foram surgindo. Cursos de obstetrícia (parteiras de entrada direta) sendo inaugurados, novas casas de parto, equipes de parteiras domiciliares, a luta pelo protagonismo do parto garantido à mulher, a vinculação firme com a saúde baseada em evidências e a reformulação de alguns centros obstétricos do país. Todas iniciativas muito boas, mas ainda incapazes de gerar impacto num pais gigante, com residências obstétricas anacrônicas, poucas enfermeiras, um modelo de parto sustentado pela ciência capitalista e uma hierarquia vertical e autoritária coordenando as relações entre os pacientes e seus cuidadores. Infelizmente, a adesão às propostas de financiamento por instituições ligadas ao imperialismo, como a Fundação Ford, a Open Society e a Fundação Bill e Melinda Gates, seduziram por muito tempo aqueles que tinham interesse na construção de um novo modelo de assistência ao parto, o que foi motivo do meu afastamento desta organização. Entretanto, apesar dos percalços, o debate está mais aceso do que nunca, e a consciência sobre os direitos sexuais e reprodutivos da mulher é um caminho sem volta. Nos parece claro que “a crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparecem” (António Gramsci). Entre eles a perseguição implacável e cruel contra os profissionais que ousam anunciar que o autoritarismo no parto precisa ser extinto.

Acredito, agora de forma já amadurecida, que a solução se dará apenas com a adoção de um modelo de luta popular, centrado nas mulheres, exigindo – jamais pedindo – uma transformação radical na estrutura da assistência ao parto no Brasil, com recorte de classe e com caráter sistêmico. Penso também que a iconoclastia de outrora que ainda sobrevive, assim como a guerra contra as “pseudociências”, serve aos interesses dos poderosos, os que controlam o nascimento sem ter uma vinculação com a completude psicológica, emocional, social, material e espiritual do nascimento. A visão moralista da humanização do nascimento precisa ficar no passado, para entrar na fase de estabelecer-se como novo paradigma.

Com o tempo começa a ficar claro que derrubar mitos é muito mais fácil do que construir novos templos. Entretanto, mesmo reconhecendo o papel da indignação na construção dos novos paradigmas, é forçoso entender que o local de destaque cabe àqueles cujo trabalho se concentra em criar o novo apesar das dificuldades, agindo como “um velho marinheiro que durante o nevoeiro, leva o barco devagar”.

Tá legal?

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Verdades inconvenientes

Liberalismo não tem nada a ver com liberdade, mas com propriedade privada. As sociedades liberais se organizam a partir da premissa de proteção da propriedade privada dos meios de produção, e defendem essa prerrogativa mesmo que às custas de aceitar a pior das barbáries humanas: a escravidão. John Locke, grande teórico do liberalismo, enriqueceu com o comércio de escravos. Como pode um sistema que diz lutar pela “liberdade” aceitar o lucro com a venda escravos como um meio lícito de enriquecimento?

A polícia, desde sua origem, existe para defender a propriedade, não as pessoas, e a defesa do sistema liberal é a tarefa primordial dos policiais. É por isso que se um ladrão roubar seu carro a polícia atira para matar; é evidente que, para este sistema, os objetos e as propriedades, são mais sagrados do que a vida. As forças de repressão, inseridas nesse modelo, servem como primeira linha de contenção contra a revolta popular. Que outra maneira haveria para conter o ódio das massas para a realidade do liberalismo, onde 1% da população concentra metade da riqueza de um país, como é o caso do Brasil?

Nossos mitares são todos corrompidos pela visão imperialista, e não é à toa que existe uma franca vinculação dos nossos comandantes com as forças armadas americanas. Esta conexão foi forjada por anos de cursos, intercâmbios, propaganda (inclusive do cinema), recursos, negócios, doações e treinamentos para manter as forças armadas como fiéis defensoras da propriedade, da burguesia e da elite financeira. Para isso, recebem como recompensa a blindagem histórica sobre seus malfeitos – da corrupção à tortura. Não é de se espantar o pendor golpista desses militares, desde sempre.

Nosso judiciário é formado pelo suco do poder burguês, com linhagens de juízes e desembargadores que se sucedem na cortes de todos os níveis, sendo o aparato mais moderno e sofisticado – usado em várias latitudes – para a fomentar a guerra híbrida. Para constatar a participação do judiciário na política basta ver a epidemia de “law fare” que ocorreu no Brasil, Argentina, Peru etc. nos últimos anos. Tornou-se muito mais barato para a matriz financiar meia dúzia de juízes (como Sérgio Moro) através de convites, treinamentos, homenagens, aulas e palestras pagas do que apoiar uma quartelada golpista como nos acostumamos a ver no sul global nos anos 60-70 do século passado.

A mudança do Brasil se inicia reconhecendo essas verdades doloridas, aceitando que nenhum tipo de reformismo produzirá uma mudança substancial na estrutura de poderes do Brasil. Perdemos tempo demais imaginando consertar estruturas corroídas e anacrônicas, ou tentando atalhos que nos iludem, como a perspectiva identitária. Somente uma mudança que leve em consideração os 99% de brasileiros que fazem a riqueza desse pais poderá nos fazer avançar como nação.

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Bananas

No congresso de professores em São Paulo – XXVII Congresso da APEOESP , Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo – ocorrido há poucos dias o representante do PCO, criticou de forma veemente os participantes de outras vertentes políticas adversárias, acusando-os de outrora terem atacado Dilma e garantido apoio à Lava Jato. Ao final de sua fala, e ao ser acusado de direitista, fez um sinal com o braço dobrado e a mão na dobra gritando “Aqui ó, lavajatistas são vocês”. Sua fala foi a que se segue:

“… eu queria aproveitar meu minuto final, para dizer, o seguinte: não vamos vir aqui falar qualquer coisa, a gente aceitar que companheiro que estão numa chapa encabeçada pelo PSTU, que defendeu o golpe, que tem o PSOL, que defendia a Lava-Jato, vir aqui falar que nos somos lavajatistas! Aqui para vocês oh! (o companheiro levanta o braço e aponta para a chapa 2). Lavajatistas são vocês!”

Iniciou-se uma alteração verbal seguida de uma garrafa d’água arremessada na direção do ativista – a qual acabou acertando uma professora na mesa diretiva. Logo em seguida houve a tentativa de invasão da mesa, mas a turma do “deixa disso” conteve os mais exaltados e a briga se acalmou.

Até aqui esta história não deveria causar muita surpresa. Ora, os embates políticos são feitos de paixão, e esta emoção normalmente cobre com sobra e sem muitas dificuldades a tênue camada acinzentada que envolve nosso cérebro. Exigir racionalidade e ponderação para quem participa dos confrontos político-partidários é um exagero, pois essa chama de desejo e determinação é o que nos inflama e nos faz participar das lutas.

Entretanto, foi o que ocorreu depois que demonstra de forma muito clara o desvirtuamento do debate político no campo progressista, principalmente num setor bem específico: a, assim chamada, esquerda. No final do congresso uma militante negra da esquerda identitária pediu uma moção contra o companheiro que fez o gesto ofensivo aos adversários porque, segundo ela, se tratava de um …. gesto racista. Mais do que isso; ela ameaçou chamar a polícia.

Quem é da esquerda radical e já participou de movimentos estudantis, passeatas, greves, manifestações, etc. sabe muito bem de que lado a polícia burguesa sempre se situa. A força policial é estimulada a bater sem dó em professores, estudantes, trabalhadores de fábrica, pobres, favelados, etc., sempre que chamada a defender o patrimônio e os valores da burguesia; está no seu DNA. Ameaçar um parceiro do campo da esquerda de “chamar os homi” por uma disputa ideológica durante um congresso é um ato de profunda traição à todas as lutas do movimento operário. Quem age desta maneira ainda não entendeu qual o lado que devemos nos postar diante da trincheira.

Mas isto ainda não é o mais grave. Essa menina negra acusou o ativista da corrente adversária de ter feito um “gesto racista”. Sim, o gesto de dar “uma banana” para os seus adversários foi interpretado por ela como racista pela equação abaixo:

Banana ======》 Macaco ======》Homem negro

Sim, foi essa a interpretação que ela fez, a despeito do gesto ser realizado há milênios por qualquer pessoa, em várias partes do mundo e muito antes da escravidão, sempre que alguém estivesse mandando seu oponente enfiar uma banana, como a dizer “vá se phoder”. Detalhe importante: o militante de esquerda acusado de racismo… também é negro.

Esse é o risco de permitir às pessoas que interpretem gestos e palavras em absoluto “freestyle”, sem qualquer materialidade, baseado na mais abstrata imaginação e na interpretação subjetiva de quaisquer intenções veladas. Chamar a polícia burguesa em meio a um congresso de professores, acreditando na mediação dos poderes burgueses, já é por si só um escândalo; porém, interpretar um gesto de “banana” como “racismo” demonstra o desastre que significa o identitarismo, que há muito vem destruindo por dentro as instituições do campo socialista.

Repito: ou combatemos o identitarismo ou ele vai corroer a esquerda até não sobrar mais nada.

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Punições Exemplares

Algumas pessoas estão dizendo que processar aquele médico de São Paulo por violência obstétrica contra a “influencer” (basicamente linguagem vulgar e insultos) será algo bom para as mulheres ou para a humanização do nascimento. Acreditam que a judicialização destes casos pode trazer benefícios às mulheres por eliminar a impunidade. “Se eles forem punidos severamente pensarão bem antes de agir”, pensam elas. Cabe lembrar: qual grupo passou quatro anos repetindo que a solução para os problemas crônicos do país seria mais polícia, mais presídios, mais condenações e mais punições?

Aviso que este tipo de ação será ruim tanto para as gestantes quanto para o movimento. Punitivismo é sempre uma ilusão em curto prazo, e uma tragédia em médio e longo prazos. Acreditar que jogando esses profissionais na fogueira estaremos ajudando alguém é um erro; a tendência é, este tipo de punição acabe por provocar ainda mais retração dos obstetras, porque acrescentamos mais um risco ao atendimento do parto normal. Sempre que qualquer profissional – em especial aqueles que trabalham nas fronteiras entre vida, morte e sexualidade – se sentem acuados, a reação natural é a proteção, e as intervenções serão sempre o porto seguro de qualquer médico. E enquanto o poder sobre os corpos grávidos se mantiver nas mãos da Medicina os riscos à segurança do médico terão sempre efeitos devastadores sobre o resultado do parto.

De agora em diante, as palavras ditas durante uma assistência ao parto poderão ser interpretadas como agressivas, ofensivas, violentas ou desrespeitosas, e um juiz poderá julgá-las fora do contexto onde foram proferidas. Gracejos inocentes, comentários, observações, piadas, conselhos agora poderão ser usados como provas contra os atendentes. O resultado óbvio será o silêncio, e o acirramento das tensões entre personagens que deveriam estar em sintonia para que a transferência pudesse fluir no sentido curativo. Agora, com a Barbie reforçando o identitarismo, é evidente qual será o resultado desse enfrentamento. Nada sei sobre vantagens pecuniárias e o quanto o sentimento de justiça pode ajudar as vítimas, mas não resta dúvida alguma de que os médicos pensarão duas vezes antes de aceitar uma atenção ao parto normal. Para que correr ainda mais esse risco? Por que haveriam de passar horas ao lado de suas pacientes controlando qualquer palavra dita, para não ferir suscetibilidades? Ora, uma cesariana resolve todos estes problemas. Mais do que nunca, bastará pedir uma ecografia com 39 semanas e escolher entre tamanho fetal, quantidade de líquido, cordão no pescoço, incisura protodiastólica, movimentação do bebê ou qualquer outro elemento que possa causar pânico em todos.

Não tive interesse em avaliar o caso do colega de São Paulo mais a fundo, e nem quero. Acho que muitas circunstâncias da vida dele foram trágicas e não quero ser advogado e muito menos juiz de ninguém. Também acho que toda paciente deve ser tratada com respeito e consideração; “Na dúvida, fique em silêncio”, já me dizia Maximilian. Todavia, não conseguirei jamais aceitar que “punições exemplares” por palavras proferidas possam ter caráter positivo. Apostar na punição como método pedagógico é errado em tantos níveis que não vale a pena citar todos eles, mas não há dúvida alguma que o preço será pago pelos mesmos sujeitos de sempre: mães e bebês.

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Medicina Suave

Profissionais médicos são ensinados (e levados) a servir aos gigantes da Indústria Farmacêutica durante toda a sua formação acadêmica – algo que continua durante sua vida profissional. Estas empresas os manipulam através de uma gigantesca máquina de propaganda, que também atinge os pacientes. Até mesmo subornos e falsificações são recorrentes nessa indústria. Não há dúvida que 99% dos médicos jamais terão consciência dos cordéis que os controlam, e mesmo aqueles que se dão conta ainda assim continuarão sendo manipulados, porque esta associação lhes garante poder e significado social.

Entretanto, esse controle das corporações sobre a consciência dos profissionais tem seu custo. Hoje, nos estados Unidos e no Canadá, 20% dos adultos entre 40 e 79 anos tomam 5 ou mais medicamentos prescritos a cada dia. Pesquisas informam que em 2020 mais de 150.000 pacientes tiveram mortes prematuras causadas por drogas legalmente prescritas, e cerca 4-5 milhões de internações hospitalares foram realizadas, um custo astronômico para qualquer sistema de saúde. .

“Ser médico é algo muito mais importante do que ser um mero despachante de drogas”, já me dizia Max nos tempos da Escola Médica. Há muito mais no encontro do médico com seu paciente do que aplicar drogas, muitas delas perigosas, outras tantas inúteis e uma boa parte causadoras de mortes prematuras. O médico é, antes de tudo, um pedagogo, cuja tarefa precípua deveria ser mostrar os caminhos de cura ao seu paciente. Sempre que a medicina é impositiva e prescritiva ela aliena o paciente do controle de sua própria saúde e, em última análise, de seu próprio destino. Se a doença é uma construção do sujeito diante das rotas por ele mesmo traçadas, a ação invasiva da medicina – ao olhar a enfermidade e desconsiderar o enfermo e suas alternativas – desloca o poder para fora do doente, alienando o sujeito de si mesmo.

Questionar e criticar o abuso de drogas está na contramão da sociedade capitalista, que criou impérios gigantescos baseados na indústria farmacêutica. Da mesma forma, lutar pela fisiologia do parto, aguardar os tempos corretos, oferecer suporte contínuo e afeto incondicional também agridem a mentalidade moderna tecnocrática, que exige o uso da tecnologia sempre que possível. Todavia, em ambos os casos – no uso abusivo de drogas e na tecnogia exagerada no parto – não se trata de uma maldição, algo sobre o que não temos qualquer ingerência. Não, por serem construções humanas podem ser, por nós, revistas. Assim, a cura para essas doenças sociais depende tão somente de nós mesmos.

Entretanto, é fundamental entender que a humanização do nascimento e o fim do abuso de drogas prescritas jamais vão ocorrer dentro do modelo capitalista. Para alcançar estes objetivos na saúde será necessário mudar a estrutura econômica da nossa sociedade, fazendo com que os avanços médicos sirvam às pessoas, e não ao capital.

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