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Escolhas e Recusas

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As mulheres devem ser livres para tomar decisões informadas relativas ao modo de parto, mesmo correndo o risco de fazerem escolhas tolas, em todos os sentidos – psicológico, emocional, físico, bacteriológico e espiritual – como é a escolha pela cesariana. Todavia, ainda prefiro erros que surgem na liberdade aos acertos que emergem da tirania. Eu ainda prefiro ver mulheres com liberdade para escolher, mesmo estando submersas em informações equivocadas, cheias de preconceitos e desorientadas a respeito dos riscos e benefícios da cesariana. Isso, apesar de ser triste e duro de aceitar, ainda é melhor que a tutela e a supressão da liberdade de escolha.

Não cabe a mim julgar os valores daqueles que se tratam, mas apenas zelar para que eles tenham o melhor atendimento possível dentro do seu universo de crenças e valores.

Tal discussão é deveras complexa, e que em muito extrapola a prática da Medicina, mas tem a ver com algo MUITO mais profundo que é a ÉTICA, na qual a própria medicina se fundamenta e embasa, assim como muitas outras artes humanas. Por isso afirmo que nossas ações não podem se sobrepor aos desejos livremente expressos dos pacientes, por mais justas e coerentes que estas sejam. Médicos não estão acima do bem e do mal, e não podemos nos colocar na posição de “reguladores da vida e da moral”. Mesmo que uma atitude dramática – como deixar de usar um medicamento ou procedimento potencialmente salvador – possa nos ferir e entristecer, ainda assim creio que o paciente não pode ter sua liberdade e autonomia solapadas por valores externos a si. Já senti na pele este tipo de dilema ardente e corrosivo, mas ainda assim prefiro a estrada longa e tortuosa da busca pela liberdade.

Robbie Davis-Floyd dizia que “A humanização do nascimento não pode se tornar a Gestapo do parto normal“. É isso o que eu defendo: liberdade para as escolhas, mesmo para aquelas que se mostram equivocadas e prejudiciais. Não acredito na repressão como projeto pedagógico de longo prazo e prefiro o lento aprimoramento através da conscientização, pois que esta leva o indivíduo no rumo da liberdade, enquanto a outra o aprisiona na dependência e na tutela.

Mas e quanto aos “direitos do nascituro”, perguntarão alguns. Pois eu afirmo que se arguirmos em nome do “feto” então o “Estado” (ou a Igreja) assaltarão o corpo da mulher e a privarão da liberdade sobre ele (como sempre o fizeram ao longo da história). Com este tipo de argumento é que se realizaram cesarianas por demanda judicial, com mulheres algemadas por ordem de um juiz, e em nome do “bem estar do feto”, de acordo com visões parciais de alguns “peritos” que nada mais estavam fazendo do que impondo seus preconceitos e visões parciais da realidade sobre o direito de uma mulher de dispor do próprio corpo.

Garantir direitos é tarefa árdua e pressupõe um especial amadurecimento da sociedade. Se bem que o caminho é longo também é verdade que essa trilha é essencial. Não há caminho que não seja em direção à liberdade, pois que ela é nossa meta última.

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Entrevista Diario La Capital

Rosário - Argentina, dia 20 de agosto 2013
Rosário – Argentina, dia 20 de agosto 2013

1. Em primeiro lugar, o que consideras como humanização do nascimento? Que características consideras fundamentais para caracterizar um parto como humanizado?

O termo correto para este movimento é “humanização”. Todo o parto será “humano” desde que ocorra na nossa espécie. Por outro lado, para ser “humanizado” ele precisa seguir algumas características essenciais. Entendemos o parto humanizado composto por um tripé conceitual como o que se segue:

a) O protagonismo restituído à mulher, sem o qual estaremos apenas “sofisticando a tutela” imposta milenarmente pelo patriarcado.

b) Uma visão integrativa e interdisciplinar do parto, retirando deste o caráter de “processo biológico”, e alçando-o ao patamar de “evento humano”, onde os aspectos emocionais, fisiológicos, sociais, culturais e espirituais são igualmente valorizados, e suas específicas necessidades atendidas.

c) Uma vinculação visceral com a Medicina Baseada em Evidências, deixando claro que o movimento de “Humanização do Nascimento”, que hoje em dia se espalha pelo mundo inteiro, funciona sob o “Império da Razão”, e não é movido por crenças religiosas, ideias místicas ou pressupostos fantasiosos.

“A humanização do nascimento não representa um retorno romântico ao passado, nem uma desvalorização da tecnologia. Em vez disso, oferece uma via ecológica e sustentável para o futuro”.

Humanizar o nascimento é oferecer o melhor de dois mundos: o respeito à fisiologia feminina, processo adaptativo de milhares de anos, e o recurso tecnológico quando a rota de um parto se afastar da normalidade e se aproximar da patologia. A humanização do nascimento está ao lado dos avanços científicos, mas também em sintonia com a natureza e seus sábios desígnios. A harmonia entre essas forças é o objetivo de quem atende partos de forma humanizada.

Se o preceito primeiro é o respeito ao protagonismo, então os partos mais humanizados serão aqueles em que tal aspecto for respeitado e entendido como prioritário. Os países europeus se encontram à frente deste debate, exatamente porque as conquistas na área democrática fizeram com que o mesmo entendimento de “direitos de cidadania” se aplica às gestantes. Para elas são oferecidas várias modalidades de atendimento, e a escolha de qual modelo a seguir dependerá de seus desejos e expectativas. Para além do protagonismo, as intervenções precisam ser baseadas em evidências, e isso já se vê em muitos países da Europa que aboliram a episiotomia de rotina, as tricotomias, enemas, kristelleres e tantas outras condutas sabidamente equivocadas. A presença de um grande número de países na Europa que adotam modelos mais humanizados de atenção ao parto corre ao lado dos esforços destes mesmos países de democratizarem todos os aspectos da vida social. Como diria a professora Robbie Davis-Floyd, “a humanização do nascimento não se desenvolve num vácuo social, mas faz parte de um modelo social mais amplo”.

2.  Qual sua visão acerca da atual situação da humanização do nascimento no Brasil e na Argentina?

A situação na Argentina é semelhante àquela que encontramos no Brasil. O modelo de atenção que existe nos países da América do Sul é importado dos “irmãos do norte”, os Estados Unidos, e por esta razão temos uma tendência a entender o parto como um evento médico altamente especializado, com uso intenso de tecnologia e uma dificuldade de entender os aspectos sociais do mesmo. A demanda por partos humanizados em toda a América está centrada na dificuldade do sistema médico ocidental de reconhecer e trabalhar com as necessidades afetivas, psicológicas, emocionais e espirituais que cercam o nascimento humano e que são a base de sua atenção desde tempos imemoriais. O resultado desta falha se demonstra na altíssima incidência de cesarianas, nas intervenções exageradas, no uso abusivo de medicamentos, na manipulação inadequada e na insatisfação crescente das mulheres com seus partos. No Brasil, Chile, Uruguai e na Argentina as cesarianas estão acima de qualquer consideração, extrapolando em muito os valores preconizados pela OMS, sem que tal investimento em intervenção resulte em melhores taxas de mortalidade materna e perinatal. Por outro lado, um número cada vez maior de ativistas destes países une suas vozes contra o que consideram “violência obstétrica”, e este movimento – de característica popular, pois as lideranças são de usuárias do sistema de saúde – vai acabar por mudar a face da assistência na América Latina.

3.  Quais são as condutas que mais frequentemente nos afastam do parto humanizado e, nesse sentido, quais aspectos poderíamos corrigir ou melhorar?

A alta incidência de cesarianas é a mais evidente, é claro. O Brasil ultrapassou no ano de 2011 o limite dos 50%, acendendo a “luz vermelha” do intervencionismo. Já contamos mais de 52% de cesarianas no país inteiro, entre nascimentos em hospitais públicos e privados. Os partos nos hospitais privados a situação é ainda mais grave: a classe média brasileira tem incidência de mais de 85% de cesarianas. Entretanto, o abuso inequívoco desta cirurgia não é o único problema. Como falamos anteriormente, o pilar central da assistência humanizada é a restituição do protagonismo à mulher, e o impedimento da presença de acompanhantes é uma falha GRAVE do modelo, pois impede exatamente a essência da assistência, qual seja, o suporte emocional à grávida. O Brasil tem leis que garantem o direito ao acompanhante, mas infelizmente ela ainda não é plenamente cumprida por hospitais públicos e/ou privados.

Também é digna de nota a utilização exagerada de medicamentos durante o parto, artificializando o processo (geralmente na tentativa de apressar o parto) e incluindo riscos ao nascimento. O uso de episiotomias, manobras de Kristeller (pressão no fundo uterino), raspagem de pelos, enemas e outras manobras inúteis e perigosas precisam ser questionadas para melhorar a atenção ao parto nos países ao sul da América.

4.  O que aconselhas aos obstetras, enfermeiras e obstetrizes para que não alterem o processo natural do parto e para que ofereçam um adequado suporte às gestantes?

O principal conselho é escutar as mulheres, respeitar a fisiologia do nascimento, entender as múltiplas disciplinas que se envolvem com este evento, conhecer a história do nascimento humano e dedicar-se a utilizar as práticas recomendadas pela medicina baseada em evidência. Qualquer profissional que seguir estas regras simples poderá se considerar “humanizado”. Para tanto é preciso entender que a principal ação de um obstetra é “vitrificar-se”, fazer-se vítreo, de vidro. Apagar sua natural propensão à intervir e permitir que a mulher seja a “estrela” do processo, sendo a protagonista do evento. Com isso poderemos fazer do parto um processo de profundo empoderamento desta mulher/mãe que acaba de passar por um fantástico rito de passagem, com claras e positivas repercussões na difícil tarefa que se segue: a maternidade.

5.  Acreditas que a medicalização nos levou a descuidar dos aspectos naturais do nascimento e das necessidades de mães e recém-nascidos?

Certamente que o ingresso do conhecimento científico na atenção ao parto produziu um reforço nas questões médicas e na intervenção nos mecanismos do parto, com o objetivo de auxiliar mães e bebês que, sem estes recursos, teriam um péssimo desfecho da gestação e parto. Assim, a intervenção em si não é ruim, nem prejudicial. Não existe qualquer antagonismo entre uso de tecnologia e humanização do nascimento. Entretanto, a “desnaturalização” do parto acabou ocorrendo pela visão coisificante da mulher, sua objetualização e sua parcial “exclusão” das decisões a respeito do parto, e isso teve consequências negativas para ela e o seu bebê. Os movimentos de humanização vieram exatamente para propor um novo equilíbrio entre cultura e natureza. A humanização do nascimento vem propor a síntese das teses antagônicas que vigoram na atenção ao parto. Não apoiamos a desassistência e nem a exagerada manipulação e intervenção sobre a mulher, seu corpo, suas emoções e seu bebê. Todavia, reconhecemos a importância da ciência e das intervenções técnicas salvadoras, mas acreditamos que elas só devem ser utilizadas quando seus riscos forem menores do que o respeito pela fisiologia do parto. Assim, podemos ter o melhor de dois mundos: a qualidade que a ciência nos oferece nos casos patológicos, e o respeito à natureza que a fisiologia do parto nos ensina, quando conhecemos e respeitamos o fluxo natural das forças do nascimento.

6.  Na Argentina nos últimos anos se nota uma tendência a humanizar o parto. Que conselhos nos daria para seguir avançando neste caminho?

Apostem nas mulheres. As mulheres serão as grandes e únicas revolucionárias. Os profissionais de saúde, sejam eles os médicos, parteiras, enfermeiras, doulas, psicólogas e outros, apenas seguirão o que as mulheres decidirem. Toda a violência institucional contra as mulheres acabará como por encanto no dia em que as mulheres decidirem que é preciso dar um BASTA. As cesarianas em excesso, os confinamentos hospitalares, a solidão, a objetualização e todas as ações contrárias à dignidade das mulheres também vai acabar quando elas assim decidirem. A forma de mudar este panorama é através da conscientização, da informação e da organização. No Brasil existem centenas de grupos de apoio às gestantes, e um pequeno exército de mulheres que se empoderam através de cursos, encontros, grupos de mães e de mulheres. Creio que na Argentina estas “voluntárias” estejam também surgindo. O foco, em minha opinião, será sempre aquelas que mais se beneficiam das mudanças: as mulheres. Isso não significa que devemos deixar os cuidadores de lado, mas estes terão um estímulo especial de modificar sua atitude e suas práticas quando as mulheres bem informadas começarem a pressionar por uma troca de modelo.

7. Quais temas pretendes desenvolver na jornada que darás em Rosário na Jornada de Introdução à Humanização do Nascimento, no dia 20 de agosto de 2013? Quais os objetivos deste encontro?

Vou desenvolver quatro temas fundamentais e mais um tema extra, se for possível e houver tempo.

a) Antropologia do Nascimento: Uma viagem de 5 milhões de anos na história do nascimento humano e os seis grandes desafios que tivemos que vencer para chegar onde estamos. Uma aventura audiovisual pelas espécies que nos antecederam e os grandes saltos adaptativos para a adequação do parto da espécie mais delicada e sofisticada do planeta: o ser humano.

b) Humanização do Nascimento e Equipe Interdisciplinar: O trabalho de equipes interdisciplinares compostas de médicos, enfermeiras obstetras e doulas na atenção ao parto, para oportunizar uma abordagem completa do nascimento, incluindo seus aspectos técnicos, psicológicos e sociais. Um mergulho na fisiologia do parto e sua expressão hormonal, mostrando as variações de ocitocina, prolactina, progesterona, estrogênio, endorfina e adrenalina. Um olhar sobre as reais necessidades de privacidade e cuidado que todas as fêmeas compartilham.

c) Obstetrícia e Ciência: A importância do olhar científico sobre as ações médicas, em especial aquelas do parto humano, mostrando a mitologia e os rituais que compõe a assistência ao parto no mundo ocidental. Mitos, crenças e razão: da dança desses elementos claramente humanos emerge a realidade do parto.

d) Obstetrícia e Medicina Baseada em Evidências: Uma explanação sobre a grande revolução médica do final do século XX, a Medicina Baseada em Evidências, e sua repercussão na obstetrícia contemporânea. Esta nova atitude frente aos procedimentos no parto abriu as portas para a ciência, afastou as mitologias indesejáveis e clareou os procedimentos rotineiros, mostrando quais poderiam permanecer e quais deveriam ser evitados na atenção ao nascimento. Apesar de sua característica revolucionária, muitos profissionais tem dificuldade de adotar a nova metodologia e as novas práticas em benefício das mulheres. Este seminário vai poder oferecer respostas para tal resistência.

e) Entre as Orelhas – O nascimento na perspectiva do Sujeito (aula extra): Após as conquistas de grandes avanços no pensamento sobre o parto, a descoberta dos hormônios responsáveis pelas várias fases do processo e os mestres de tempos passados que mostraram a importância de oferecer calma, tranquilidade, privacidade, suporte e cuidados técnicos, qual será o modelo de atenção do século XXI? Será que teremos “o fim da história”, e nada mais temos a acrescentar na visão do nascimento. Este seminário oportuniza uma reflexão sobre o modelo de atendimento baseado no sujeito, e os caminhos que ainda temos a percorrer para chegar a este ponto.

O objetivo desse seminário é oferecer uma visão o mais abrangente possível do cenário do nascimento: passado, presente e futuro. Tem como foco o parto humanizado, sua origem, suas propostas e seu caminho. Sabemos que as mulheres do século XXI estarão cada vez mais conscientes e informadas quanto aos seus direitos e capacidades. Caberá a nós, profissionais de saúde que atendemos este evento, oferecer a elas o que a ciência nos mostra como seguro e o que a ética nos garante como atendimento digno e respeitoso.

Tenho apresentado este seminário em muitas cidades brasileiras e posso ver que aos poucos existe uma consciência crescente sobre a “nova ordem” da assistência ao parto. Minha experiência no Uruguai, com um seminário maior (de 40 horas) foi igualmente gratificante e estimulante. Estou com grandes esperanças de que a Argentina será mais um local fértil para o pensamento renovador sobre o parto, a mulher o bebê e a família. Para dizer uma frase conhecida de Michel Odent, “Para mudar o mundo é preciso mudar a forma de nascer”. Eu acrescento que, para mudar a forma de nascer é também necessário que nós, que estamos ao lado deste milagre todos os dias, mudemos nossa atitude em direção a um respeito maior e um cuidado mais doce com as mulheres e seus bebês, para que desses nascimentos renovados surja uma nova humanidade, onde a fraternidade, a igualdade e a justiça prevaleçam.

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Sobre as Parterias

PARTEIRA DA ETNIA TUKANO

Não se pode confundir a preservação dos saberes tradicionais, que precisam ser preservados com a NECESSÁRIA inserção formal das parteiras nas sociedades complexas. Esse processo de reconhecimento, controle e avaliação profissional acontece em TODAS as áreas, não só na medicina. Não existe mais necessidade para algo que eu via na minha infância (e que é até personagem de Dias Gomes) o chamado “prático licenciado”.

Ora, o que vem a ser o tal “prático licenciado”?

Era o sujeito que dominava uma prática qualquer, como por exemplo, alguns  dentistas até o início do século XX. Sempre existiram pessoas que arrancavam dentes na comunidade, faziam pequenos reparos, ajudavam nas dores excruciantes e que foram sofisticando as suas práticas, até serem conhecidos como “dentistas”. É notório que a alcunha de “Tiradentes”, recebida pelo personagem histórico e alferes José Joaquim, lhe foi oferecida porque trabalhava como um “dentista sem diploma”.

“Não fez estudos regulares e ficou sob a tutela de seu tio e padrinho Sebastião Ferreira Leitão, que era cirurgião dentista. Trabalhou como mascate e minerador, tornou-se sócio de uma botica de assistência à pobreza na ponte do Rosário, em Vila Rica, e se dedicou também às práticas farmacêuticas e ao exercício da profissão de dentista, o que lhe valeu o apelido (alcunha) de Tiradentes.” (Wikipedia)

O que são as parteiras tradicionais se não “práticas licenciadas”? São aquelas remanescentes de uma época em que não havia estudo formal ou quando este aprimoramento era tão distante das comunidades que alguns integrantes desta se prestavam a fazer trabalhos indispensáveis nestas áreas. Havia engenheiros, contadores, médicos, dentistas, causídicos, farmacêuticos, todos eles “populares”, sem formação acadêmica (e as vezes sem formação escolar, pois muitos eram analfabetos). Com a popularização dos cursos superiores, principalmente na segunda metade do século XX, muitos profissionais universitários entraram no mercado e houve a necessidade de regulamentar a prática destes.

Afinal, quem poderia ser dizer engenheiro, médico, advogado ou dentista?

Uma forma de organizar tal demanda foi através do DIPLOMA de uma universidade, que garantia que aquele sujeito havia cursado adequadamente as disciplinas fundamentais para a prática de uma profissão. Entretanto, um contingente enorme de trabalhadores desta área, sem diplomação alguma, ficaram considerados “fora da lei”, em função de uma regra imposta pelos egressos da universidade. Para solucionar esta injustiça com aqueles que já se encontravam há décadas no mercado foram criadas normas que garantiam o trabalho para os antigos profissionais sem diploma, que aprenderam com a prática diária, longe dos bancos universitários, mas perto da vida e dos pacientes. Eram os práticos licenciados, alguns dos quais ainda conheci quando menino.

O tempo fez com que os últimos “práticos” viessem a falecer, e hoje em dia exige-se dos profissionais uma graduação acadêmica para as profissões que citei acima. Entretanto, na parteria ainda não ocorreu esta migração absoluta e total. Ainda temos muitas, milhares dirão alguns, parteiras “populares”, principalmente no nordeste brasileiro. Como agir em relação a elas?

Pode-se admitir que uma mulher, apenas por dizer-se parteira, possa atender um momento crítico (mesmo sendo fisiológico) de uma mulher nos dias atuais?

Minha resposta é: sim. Podemos aceitar o trabalho das “práticas licenciadas em parteria”, desde que estas mulheres, aos poucos, comecem a se adaptar às modificações de suas próprias comunidades.

Na minha opinião nossa ação deve-se dar em duas frentes: A primeira seria o suporte às parteiras tradicionais que ainda existem, com capacitação, interlocução, troca de experiências, ajuda material (medicamentos básicos, transporte, etc.). Isso é algo que eu acredito seja feito por várias Organizações Não Governamentais (como o grupo Curumim, entre outras). Outra ponta de atuação deve ser o incentivo à formalização. Experiências como esta foram realizadas no México, e com sucesso. Trazer estas parteiras para o mundo formal, respeitar suas práticas, oferecer informação básica sobre práticas baseadas em evidências, combater procedimentos reconhecidamente lesivos ou perigosos (barro no coto, teia de aranha, corte nos mamilos do RN para retirada do leite das bruxas, desmame precoce, etc.) e incorporá-las ao SUS (com PAGAMENTO pelo seu importante trabalho) devem ser ações prioritárias.

Mas para isso é importante definir quem são estas parteiras, e isso eu já tratei em outros textos. Para resumir, são de dois tipos: as parteiras “informais”, tradicionais e que se situam em locais de baixos recursos e/ou de um grupamento cultural onde suas práticas são reconhecidas por suas iguais e valorizadas socialmente. Como exemplo temos as parteiras ribeirinhas da Amazônia ou as parteiras Guarani M’bias no Rio Grande do Sul, entre centenas de outros exemplos que poderíamos utilizar sobre parteria tradicional no Brasil e que tem estas características essenciais.

O outro tipo são as(os) parteiras(os) urbanas(os), que são os profissionais egressos de uma formação universitária, regulados por seus conselhos específicos, com conhecimentos acadêmicos e científicos sobre práticas de atenção ao parto e que se originam dos cursos de Medicina, Enfermagem e Obstetrícia, os dois primeiros com a possibilidade de qualificação em obstetrícia.

Os profissionais que não se enquadram nessas categorias não são reconhecidos como “skilled attendants” e não podem ser regulamentados, orientados e/ou punidos por organização alguma e estão, portanto, à margem da formalização. Tais profissionais, via de regra, não tem protocolos bem definidos, registros de casos ou maneiras de aferir suas práticas. Isso, ao meu ver, é um problema para o sistema de saúde, e a formalização de todos os atores sociais que atendem nascimento precisa ser uma meta de todos os países que desejam diminuir as taxas de morbi-mortalidade materna e perinatal.

Ric Jones
ReHuNa

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Mídia inconsequente

amor a vida

“Se vc tem “Amor à Vida” não faça uma cesariana sem justificativas, pois ela aumenta a sua chance de assistir a próxima novela no céu…”

Que desastre…

Preparem-se para mais uma “Campeã de Porcaria” da Rede Globo.
A cena da novela de hoje vai retratar um “parto que deu errado”, causando a morte da mãe e do bebê. A “tecnologia salvadora” foi usada “tarde demais”…

A Globo investe mais uma vez na estratégia de enaltecer a assistência tecnológica, cara e de pífios resultados em detrimento de uma visão mais abrangente e respeitosa com as mulheres. As mortes de mulheres continuam a ser retratadas como a “insistência de apostar em um corpo defeituoso de mulher”, ao invés de entregá-las à ação salvadora das tecnologias

Pois é! Mais uma vez os roteiristas de novela fazem um trabalho negativo para a saúde brasileira, ajudando a aumentar o fosso que nos separa das nações desenvolvidas no que diz respeito à prevenção de danos à saúde. O que mais uma vez aparece é uma mídia mitológica e interessada em cativar anunciantes (como as grandes instituições hospitalares) ao invés de esclarecer, orientar e dissipar ideias errôneas. É por esta razão – entre outras – que o Brasil amarga a vergonhosa marca de campeão mundial de cesarianas.

Para cada mulher que poderia sofrer o que a novela insinua, DEZENAS acabam morrendo por causa de cesarianas, com suas consequências cirúrgicas, infecciosas, hemorrágicas e anestésicas. Isto não é opinião: é evidência científica, corroborada por instituições idôneas e comprometidas com a saúde das mulheres.

A TV Globo consagra a mentira que a gente escuta todos os dias: de que o parto normal é o culpado sempre pela morte, como sinônimo de negligência, e quando ocorre o óbito de uma criança ou de sua mãe em decorrência de uma cirurgia a sociedade ingenuamente se resigna, e vemos as pessoas balançando as cabeças e dizendo que “foi feito de tudo para salvá-los”. Ledo engano, brutal equívoco.

É quase impossível melhorar a atenção ao parto no Brasil enquanto grandes corporações de TV disseminam desinformação e criam, no imaginário feminino, conceitos preconceituosos e equivocados sobre uma pretensa fragilidade feminina e sobre uma falsa defectividade na forma de parir.

O que me deixa triste e desanimado é que, se era realmente importante criar um “viúvo”, marcar um personagem com as cicatrizes da morte trágica de sua família, porque não o fizeram como consequência de uma cesariana???? Porque não se alinharam às recomendações da Medicina Baseada em Evidências? Quais os determinantes obscuros para – mais uma vez – se juntarem àqueles que desejam que as taxas vergonhosas de cesariana permaneçam no mesmo lugar? Qual a verdadeira intenção da Rede Globo? Será apenas burrice dos roteiristas? Falta de informação ou imaginação? Será que esse clichê maldito ainda não se esgotou nos dramalhões tupiniquins? “Senhor Alberto Roberto, teremos que escolher entre sua esposa ou seu filho. O senhor terá que decidir…” Ora, que cafonice, que falta de respeito com o telespectador, que ausência de senso crítico e atualização!!

Eu creio que o fracasso da última novela, que foi considerada como a pior novela daquela autora, forçou os diretores e a cúpula da Vênus Platinada a apostar nos dramas maniqueístas e nas tramas moralistas mais antiquadas. Só isso, ou uma teoria por demais persecutória, pode explicar tamanha bobagem da Rede Globo.

As pessoas que lutam pela liberdade de escolha e recusas informadas no parto não descansarão até que tais mentiras sejam esclarecidas, até que parem de retratar os partos como ruins e negativos, e que deixem de oferecer a falsa ideia de que a intervenção tecnológica no nascimento é melhor do que os recursos que a natureza nos ofereceu.

E que Deus nos perdoe por mais este crime contra o parto natural, que poderá produzir um estrago nas intenções do governo brasileiro de diminuir a mortalidade materna e as cifras alarmantes de cesarianas…

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Decisões e Protagonismo

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Onde foi, durante o caminho, que cometemos este erro?

“Colocar a culpa nos outros (médicos, natureza, defeitos genéticos, bacias pequenas, etc…) pode ser muito bom e efetivo para aliviar a frustração de parto que (por alguma razão), não ocorreu. Aliás, é o que TODO mundo faz, principalmente quando analisamos a propensão para culpar os médicos pelos maus resultados; o que antes era um “esporte nacional” americano agora tornou-se uma bolha de judicialização prestes a explodir por lá. Entretanto, eu prefiro pensar que o fracasso, na imensa maioria das vezes, está relacionado ao que NÓS MESMOS fazemos, pelas nossas escolhas pessoais, assim como o sucesso de nossos projetos também se estabelece por uma série de eleições que realizamos. Jared Diamond, no seu livro “Colapsos” já falava explicitamente em como as sociedades “ESCOLHEM” fracassar ou ter sucesso, e cita os Anasazi, os habitantes de Páscoa e os nórdicos da Groenlândia do século XI como exemplos de más escolhas que levaram ao colapso e, por fim, ao extermínio. Entretanto, estas escolhas desastrosas – nas sociedades mas igualmente na vida privada – não operam conscientemente, mas os resultados vão acabar acontecendo por conta das eleições mal direcionadas ou incorretamente avaliadas. Assim também fazemos com as pequenas e aparentemente simples decisões quanto ao parto; elas vão ao final compor um quadro onde nitidamente se enxerga a “mão” do pintor, com suas fraquezas, dificuldades e medos, assim como sua capacidade, determinação e coragem.

Culpar algo fora de nós é normalmente manobra escapista, que apesar de nos aliviar momentaneamente das tristezas por um objetivo não alcançado, acaba criando um fosso de alienação, que por fim nos impede de ter nas mãos as rédeas de nossa vida.

Eu entendo quem pense ser mais “adequado” encontrar respostas na genética, nas bacias pequenas ou nos micro-organismos. Há quem prefira diminuir suas dores e frustrações determinando que a culpa pelo que lhe acontece é dos médicos, da natureza madrasta, do hospital ruim, das bactérias, dos vírus, da mãe cerceadora, do pai severo ou ausente, ou por causa de uma maldição qualquer (divina ou satânica). Eu prefiro correr todos os riscos e assumir a minha posição de protagonista, sem cair na tentação de me alienar das responsabilidades. Não fosse assumir esta posição e nenhuma vitória seria plena, pois que ela estaria sempre a ser conduzida por outro.

Max sempre me disse que crescer significa assumir as responsabilidades do vida, tomar para si o protagonismo de suas decisões, e não delegar para outros o que nos cabe. No nascimento, assumir como suas as prerrogativas de decidir o caminho a seguir é o primeiro passo na direção de um nascimento digno e cidadão.”

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Partos marcados

Pele de Bebê
Que marcas deixamos na alma de quem nasce?

Parto marcado, parto determinado; o parto subjugado pela cultura, assim como tantas outras coisas foram solapadas pelo interesse de controlar os tempos e os eventos. Entretanto, para o parto existe um agravante: os tempos são determinados por outros, e não pela mãe e seu bebê. Nascemos de acordo com as disponibilidades e interesses de outros sujeitos e este é um dos primeiros ensinamentos de submissão à autoridade que recebemos. A partir de então, em todas as situações em que que baixarmos a cabeça diante de um poder autoritário estaremos apenas dando continuidade a um destino marcado muito cedo, ou como diria Cazuza “Nossos destinos foram traçados na maternidade“. Nas palavras da minha querida colega, parteira Mary Zwart, diante do aviltamento do parto como fenômeno feminino, esta a pergunta que cabe ser feita: “Você quer que seu filho nasça como paciente ou como cidadão?” É necessário formular a verdadeira questão no parto: que mensagem o nascimento impregna, marca e tatua na pele de alguém cuja vida recém se inicia?

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Marcas na Alma

Mulher triste
Porque ainda aceitamos tanta violência?

Uma mensagem enviada para mim sobre um caso de violência obstétrica, dessas que normalmente passam desapercebidas por nós, mas que deixam marcas profundas na nossa existência. O relato abaixo ocorreu na cidade de Botucatu – SP


Ric,

Eu demorei a entender a dimensão da violência que sofri no meu parto. Foi tão difícil convencer o marido de que a presença dele no nascimento do Pedro era importante…. ele se convenceu, se empolgou…

A começar eu fiquei de pé no corredor frio do hospital, onde o único lugar que eu tinha pra me apoiar era o meu marido e o o bebedouro (que foi onde fiquei). Enquanto isso ouvia as enfermeiras me chamarem de fresca, que aquilo ali estava só começando, que eu só ia parir no dia seguinte e olhe lá (!!!). Bem, só pra calar a boca delas, eu pari em 2 horas. Em segundo lugar fui examinada por um residente que me mandou subir na escadinha e deitar na maca, com todas as dores das contrações (não, ele não podia abrir mão daquilo, eram ordens da professora). Depois ela quis demonstrar como se estourava a bolsa e chamou “todo mundo” pra ver (os residentes, eram bem uns 10 – segundo meu marido eram mais de 10 pessoas acompanhando… claro, meu marido foi convocado a sair da sala, ficou constrangido de me ver naquela situação, com aquele monte de estudantes, todos da minha idade, alguns conhecidos dele, de vista, pois ele fazia mestrado na farmacologia e tinha muito contato com os estudantes de medicina, inclusive nas festinhas). Nesse momento eu me senti estuprada, pois eu gritava (não conseguia falar de outra forma) que não era pra estourar, que meu irmão havia me dito que não era pra estourar (pois ele é GO e sabia que podia ocasionar um prolapso de cordão). Ela me ignorou, simplesmente, estourou a bolsa com ar superior (pois quando ela me perguntou o porque não estourar, eu não tive argumentos, nem força pra argumentar) e continuou falando com os alunos.

Dali tive que me levantar pra ir pra sala de cirurgia, andando semi nua pelo corredor, toda ensanguentada. Dei de cara com o meu marido, que já queria bater em todo mundo porque estava impedido de entrar. Eu fiz sinal pra ele ficar quieto, pois no momento já mal conseguia respirar. Já não conseguia raciocinar…

Obedeci, simplesmente, tinha medo de que tudo ficasse pior e que, por vingança me fizessem uma cesárea, pois quando me disseram que eu iria pra sala de cirurgia e eu gritei que “não, eu quero parto normal”, percebi que uma desobediência poderia ser determinante ali. Subi novamente na escadinha e me deitei na mesa de cirurgia. Me entreguei, pensando na frase clássica “se o estupro é inevitável, relaxa e goza”. As enfermeiras colocaram as minhas pernas nos estribos, enquanto a doutora descrevia o meu quadro pros estudantes. Fechei os olhos, pois não queria ver a cara de ninguém, estava frustrada já antes de parir. Senti que o bebê (que antes eu sentia que estava saindo) já não estava saindo mais… a força que eu sentia antes, do expulsivo, tinha diminuído. Me mandaram segurar naqueles ferros e fazer força, muita força… “Vai mãezinha, que se não parir em 15 minutos, vai ter que ser cesárea e você não quer, não é mesmo?”. Pra “ajudar”, subiu na minha barriga e empurrou. A médica bem boazinha, “olha, tá difícil de sair, vou fazer um cortezinho pra ajudar” (que me rendeu 7 pontos). Nesse momento ela falou que ia colocar o fórceps (pros alunos), mas depois ela desistiu, disse que já estava saindo. E nasceu meu filho, com 2,980Kg. Vi que levaram ele pra uma pia (depois não vi mais, só as costas das enfermeiras, e ele chorando sem parar). O residente fez os pontos errados, a professora deu bronca, mandou tirar e fazer de novo. Eu estava exausta, mas mesmo assim quis me levantar e ir embora. Não deixaram, falaram que eu ia cair, pois estava com hemorragia.

Depois de alguns minutos trouxeram meu filho todo embrulhadinho. Eu queria ver as mãozinhas, os pezinhos…. mas lá estava ele embrulhado, de luvinha, touquinha, meinha. Me mostraram ele como mostram um bebê pra uma mãe que acabou de passar por uma cirurgia. Me deram a ordem: “beija ele, mãe, nem parece que está feliz!” E eu não estava mesmo. Estava triste, chateada, magoada e confesso que rejeitei meu filho naquele primeiro minuto. Eu que o queria tanto já não o queria mais. Levaram ele embora pra incubadora. Eu queria ver meu marido… chorar e dizer que aquele não era o parto da lagoa azul, como eu imaginava… Pedi meu marido, ele veio. Perguntei onde estava o meu filho, ele disse que na incubadora, que ele era lindo e que ele ia pra lá que não queria perder ele de vista. Saiu.

Enquanto isso me colocaram em uma maca e me levaram pra enfermaria. Pedi pra trazer meu filho, que queria ficar com ele. A enfermeira muito sensível disse que só em duas horas, “agora você vai dormir, porque vai passar o resto da vida sem dormir!” Apesar de ter passado a noite inteira em claro, com dores, levantando pra ir ao banheiro, vomitando… eu não consegui dormir (meu pequeno havia nascido às 9h da manhã). Esperei ele chegar. Quando ele chegou dormia, não acordava, só dormia… Pensei, “meu filho é um anjo, só dorme”…

Acordou, mamou mal. Dormiu no peito sem mamar direito. Começou a perder peso, teve icterícia. Vez e outra vinha um pediatra, levava ele, pesava e voltava dizendo que tinha dado complemento porque ele estava perdendo peso. Fiquei 5 dias no hospital. As enfermeiras disseram que era pra eu amamentar de 1 em 1 hora, senão ia ter que ficar mais tempo ainda no hospital. Eu passei todos aqueles dias e muitos, muitos outros acordando de 1 em 1 hora, dia e noite (com despertador do lado), pra enfiar o peito na boca do menino e segurar (ele não fazia questão de mamar – tbém, com soro glicosado na veia e NAN….), quando ele dormia eu o acordava mexendo no queixo, na boca… de medo dele perder peso e ter que ir pro hospital.

Meu marido indignado, queria que eu fosse pra casa. Nem eu, nem ele imaginávamos que aquele momento mágico de estar juntinho com nosso bebê recém nascido se transformaria nisso. Quando cheguei em casa tivemos logo uma briga. Ele chorou falando que não admitia, que aquele monte de estudantes tinha visto o filho dele nascer e ele tinha sido proibido de entrar na sala de parto. Que todos eles tinham visto a mulher dele com as pernas abertas, como ele ia encarar eles os encontrasse na faculdade? O detalhe disso tudo era: marido muito ciumento, muito possessivo. O ciúme dele se transformava em violência. E esse ciúme ficou ainda mais exacerbado depois do parto.

O parto, que poderia ter sido um momento de respeito e de aproximação acabou se tornando um problema nas nossas vidas. Qual foi o grau de contribuição desse evento pra nossa separação? Eu não sei… mas é certo que contribuiu. Não posso deixar de me lembrar desse parto como um evento doloroso. Não posso deixar de culpá-lo por muitos eventos que se sucederam. Quem pode saber se o nascimento do meu primeiro filho tivesse sido diferente, será que não estaríamos juntos até hoje? Se éramos tão apaixonados? Se fizemos um filho com tanto amor? Eu prefiro não pensar e levar a vida adiante. Hoje tenho outro marido, outro filho e mais um pra nascer.

Enfim… não adianta chorar o leite derramado. Mas eu gostaria muito, mas muito mesmo de dar uma resposta à essa GO (que sequer sei o nome, mas ainda vou saber!). Se houvesse uma lei que punisse naquele momento eu a teria denunciado, sem a menor sombra de dúvidas. Ela foi totalmente desrespeitosa, acabou com o meu momento, do meu marido e do meu filho. Nos marcou pra sempre. Eu nunca vou conseguir não chorar esse parto.

M* (que atualmente não consegue mesmo lembrar desse parto sem chorar)

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Robbie and Humanization

Robbie
Robbie Davis-Floyd

No início deste milênio eu estava em Florianópolis num seminário internacional promovido pela ReHuNa com a Prof. Robbie Davis-Floyd. Enquanto aguardávamos pelas próximas palestras, no saguão do Centro de Conferências, uma jovem jornalista se aproximou do pequeno grupo que envolvia Robbie e lhe fazia perguntas sobre as origens e significados da humanização do nascimento. Aguardou o término das perguntas e fez a ela a seguinte indagação: “Ok professora Robbie, pelo que eu entendi de suas palavras a humanização do nascimento é um conjunto de técnicas, um protocolo diferenciado, um grupo de rotinas ou um método que visa um parto normal e a satisfação das necessidades das mulheres e seus bebês, certo?”

Olhei para Robbie com curiosidade, pois, assim como Robbie, também percebi que esta pergunta se inseria em um contexto muito maior. Sabia da enorme polêmica surgida a partir do que ficou conhecido como “método Leboyer” de partos “naturais”. Robbie conhecia a repulsa que o mestre francês teve, durante toda sua vida, com a ideia de que seus ensinamentos poderiam sem encapsulados e circunscritos como um “método”. Como sabemos, um método é um procedimento, técnica ou meio de fazer alguma coisa de acordo com um plano preestabelecido, um processo organizado, lógico e sistemático de pesquisa, instrução, investigação, apresentação etc. Humanizar o nascimento poderia ter um “método” que pudesse ser aplicado a todas as mulheres? Poderíamos ter planos preestabelecidos para atender o nascimento?

Robbie sabia que havia um truque que se escondia por trás da pergunta. Percebeu que a ideia era retirar a humanização do nascimento da esfera pessoal do médico e sacramentá-la na lei, nas paredes de um hospital, em manuais e nos livros textos. A ideia era olhar para esse movimento e criar mandamentos rígidos e imutáveis, gravados em “tábuas da lei”, que sobrevivessem aos milênios.

Robbie sorriu com aquele jeito de menina e, diante do inteligente questionamento da jornalista, respondeu: “Não, a humanização do nascimento vai além das normas escritas e afixadas em uma parede de hospital. Ela não pode ser burocratizada e reduzida a frios protocolos e rotinas, como se fosse algo dissociado das pessoas e alheio aos cuidadores do nascimento. Humanização do Nascimento, em verdade, é uma atitude, uma postura pessoal, subjetiva, emocional diante do evento do parto, mesmo quando as bases que a sustentam sejam racionais e científicas. É algo para além dos modelos de atenção, e que atinge a essência da relação entre cuidadores e gestantes, assim como de suas famílias e da comunidade.

Humanizar a assistência ao parto se expressa na forma como nos posicionamos diante da vida e do cuidado, como entendemos as grávidas e como as traduzimos, diante da complexidade infinita de um evento subjetivo e único que ocorre na intimidade do seu organismo. Isto, e não uma lista de procedimentos a fazer ou serem evitados, é a Humanização do Nascimento”.

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At the beginning of this millennium I was in Florianópolis at an international seminar promoted by ReHuNa with Prof. Robbie Davis-Floyd. While we waited for the next lectures, in the lobby of the Conference Center, a young journalist approached the small group that involved Robbie asking her questions about the origins and meanings of the humanization of childbirth. She waited for the questions to finish and asked her the following question: “Ok, Professor Robbie, from what I understand from your words, the humanization of childbirth is a set of techniques, a differentiated protocol, a group of routines or a method that aims at vaginal and normal births, meeting the needs of women and their babies, right?”

I looked at Robbie curiously because, like Robbie, I also realized that this question was part of a much larger context. She knew about the huge controversy that arose from what became known as the “Leboyer method” of “natural” births. Robbie knew the repulsion that the French master had, throughout his life, with the idea that his teachings could be encapsulated and circumscribed as a “method”. As we know, a method is a procedure, technique or means of doing something according to a pre-established plan, an organized, logical and systematic process of research, instruction, investigation, presentation, etc. Could humanizing birth have a “method” that could be applied to all women? Could we have pre-established plans to attend birth?

Robbie knew there was a trick behind the question. She realized that the idea was to remove the humanization of birth from the personal sphere of the doctor and make it sacred in the law, on the walls of a hospital, in manuals and textbooks. The idea was to look at this movement and create rigid and immutable commandments, engraved on “tablets of the law”, that would survive the millennia.

Robbie smiled in that girlish way and, faced with the journalist’s intelligent questioning, replied: “No, the humanization of birth goes beyond written norms and posted on a hospital wall. It cannot be bureaucratized and reduced to cold protocols and routines, as if it were something dissociated from people and alien to birth caregivers. Humanization of Birth, in fact, is an attitude, a personal, subjective, emotional posture in the event of childbirth, even when the bases that support it are rational and scientific. It is something beyond the models of care, and which reaches the essence of the relationship between caregivers and pregnant women, as well as their families and the community.

Humanizing childbirth care expresses itself in the way we position ourselves in the face of life and care, how we understand pregnant women and how we translate them, in view of the infinite complexity of a subjective and unique event that occurs in the intimacy of their organism. This, and not a list of procedures to be done or to be avoided, is the Humanization of Birth”.

 

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Parteria

Call The Midwife Christmas

Sempre fui inspirado pela palavra “parteira”.

Antes de continuar é importante explicar que quando falo das parteiras estou explicitamente me referindo às profissões que atendem partos. Estas estão englobadas no conceito de “skilled attendants” da OMS. Minha ideia ao falar em parteira(o) é debater esta questão por cima das divisões corporativas que, aliás, apenas atrasam as discussões sobre o nascimento humano.

Eu não gosto do termo “obstetriz”. Quando fui, há alguns anos, convidado a falar no curso de obstetrícia da USP (EACH) dei um especial destaque a este tema para os alunos, apesar de não ser algo que pareceu muito importante para eles naquele momento. Segundo Robbie, sempre que uma mulher que atende partos se nomeia PARTEIRA ela está se conectando – de forma inconsciente, mas consistente – com os milênios de cultura e aprendizado de atuação junto às mulheres no momento de parir. Elas trazem consigo a alma das parteiras, a conexão feminina do “estar ao lado”, o respeito à fisiologia, o culto à paciência e o desejo de ajudar as mulheres a suplantarem seus desafios.

Por outro lado, sempre que estas profissionais insistem no termo “obstetriz” elas procuram, igualmente de forma inconsciente, se conectar ao modelo de atenção dos profissionais médicos, que surgiram muito depois, e acabam fazendo deles o paradigma de suas ações. Portanto, estas últimas tendem a ser mais intervencionistas, menos pacientes, mais técnicas e mais próximas do discurso médico. Também acredito que o termo adequado para descrever a ação das parteiras é a parteria, que tem o mesmo significado de midwifery.

Eu mesmo, desde há muitos anos, me descrevo como “parteiro”, quase numa provocação, pois este termo agora é utilizado de forma pejorativa pelos meus colegas. A arte de partejar, de atender partos normais e de respeitar a rota de fisiologia foi perdendo considerável terreno nos últimos anos. Passamos de uma espécie de “orgulho” de parteiro, no passado não muito distante, para um desprezo explícito a estas capacidades, na modernidade. E tal mudança tem a ver com o domínio total de vertente médica de atenção ao parto, que se tornou absolutamente hegemônica exatamente quando a última geração de profissionais que haviam aprendido a partejar com parteiras se aposentou. Hoje em dia, os alunos das escolas médicas aprendem obstetrícia com profissionais que nunca viram o trabalho de uma parteira, e isso é muito triste, mas explica de forma muito clara a atual situação.

Lembro um fato, ocorrido no hospital de periferia em que realizei meu treinamento enquanto estudante de medicina, e que me ofereceu uma imagem muito clara do que seriam os modelos de atenção ao parto vistos através distintos vieses.

Um colega recém-formado adentrou o espaço do refeitório enquanto tomávamos o lanche da tarde. Ele estivera ocupado no centro obstétrico atendendo um parto, e chegou atrasado ao nosso encontro vespertino para o café. Sentado na ponta da mesa eu era o estudante de medicina que vivia “peruando” plantões, perguntando coisas, investigando palavras, discursos, atitudes e olhares. Enquanto acercava-se da mesa simples coberta por uma capa plástica de estampa floral, meu colega exclamou:

– Vocês perderam uma maravilhosa aula de aplicação de fórceps de Kielland agora mesmo.

Sentou-se ao nosso lado na mesa e comeu seu sanduíche ainda orgulhoso de suas confessas habilidades. Para ele, a capacidade “positiva” de indicar um procedimento, produzir uma ação, aplicar uma técnica, usar uma ferramenta e conseguir um resultado eram o ápice do proceder médico. Eu conseguia perceber com clareza as razões para a felicidade e o orgulho que ele ostentava. Estava claro para mim, menino de 23 anos que cursava a escola médica, que o desiderato máximo da nossa profissão passava por essa sucessão clara de ações: diagnosticar, propor, intervir e reparar.

Mas a alegria do meu colega me provocou uma consideração um pouco mais profunda. Fiquei pensando que este discurso médico se assentava sobre um paradigma interventivo, masculino, racional e objetivo. Poderia, sem dúvida, produzir resultados muito bons nas inúmeras patologias que encontramos na experiência diária com o tratamento de pacientes. Entretanto, com o parto – a feminilidade em sua mais intensa radicalidade – a abordagem precisava ser diversa, pois existia uma formatação original, “de fábrica”, implantada em toda a mulher desde seu nascimento, que a conduzia para a realização do parto, sem que a ação interventiva humana fosse necessária. A maneira de enxergar o evento precisaria ser obrigatoriamente diversa e passaria longe do modelo de intervenção. Não há, via de regra, algo a ser consertado, ajustado ou corrigido. Assim deveria ser, a não ser que…

A não ser que considerássemos todo nascimento como uma patologia, um erro, um equívoco perigoso. Para entender o parto como um ato disfuncional seria necessário enxergar a própria mulher como essencialmente defectiva. Assim, a ideia de uma mulher “malfeita” produziu a necessária autorização social para a intervenção extemporânea ou intempestiva, mas que com o passar dos anos tornou-se a norma.

Minha brincadeira mental mais engraçada é imaginar a cena do meu colega em um universo paralelo, no mesmo refeitório do hospital de periferia, os mesmos pães na cestinha, o queijo fatiado em retângulos irregulares, o presunto magro, a térmica de café e as xícaras velhinhas com as bordas lascadas. Pela mesma porta entra uma parteira com um sorriso largo, os dentes brancos enfileirados e felizes, os olhos brilhando, os cabelos revoltos pelo gorro recém tirado, os olhos ainda vermelhos pela emoção que acabara de passar.

– Vocês perderam uma maravilhosa aula de parteria avançada agora mesmo, meninos.

Diz sem tirar o sorriso do rosto, enquanto pega nas mãos o pãozinho que aguardava sua vez de ser devorado.

– E o que você fez? pergunto eu, entre curioso e afoito para ouvir sua história.

Então ela responde com um suspiro triunfal:

– Nada. Nada mesmo. Precisamente nada.

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As Negativas

Paternidade 02

Acho respeitável à negativa de assistir o nascimento de seus filhos, assim como acho digna a própria negativa de ter filhos, ou mesmo abster-se de ter relações sexuais. Até mesmo de nunca falar com seus pais, ou de nunca escutar música clássica, de nunca cantar ou jamais caminhar de pés descalços. Entendo que alguns não queiram (e mesmo se irritem) com o barulho da chuva no telhado de zinco, e com a própria chuva molhando o corpo. Aceito a recusa de andar de mãos dadas, de olhar o céu e imaginar seu limite e de imaginar caras e bichos nas nuvens.

Compreendo, sem hesitar, que algumas pessoas prefiram não se emocionar com o sorriso de um bebê, seus primeiros passos e suas palavras enroladas. Por isso mesmo me obrigo a aceitar – sem problemas – que durante o rito de passagem mais poderoso que um ser humano é capaz de ultrapassar alguém que está ao lado resolva fechar seus olhos e ouvidos, impedindo-se de ver o milagre esplendoroso que está a acontecer. Acreditar no contrário seria imaginar que somos todos iguais, e que sentimos da mesma forma, e isso não é aceitável em um mundo que se propõe diverso e plural.

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