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Loucura e preconceito no mundo dos trogloditas

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Será que ainda precisamos do “Homo ignobilis”?

Recebi de uma querida amiga paulistana (cujo nome não direi para não causar constrangimentos a ela) um link para ver partes de um livro recém-lançado sobre as mulheres e suas “doidices”. Eu imaginei, no primeiro momento, que se tratava de uma visão masculina sobre o misterioso mundo feminino, e as maravilhosas “loucuras” que as mulheres fazem na sua passagem pela Terra. Entretanto me deparei com uma torrente de preconceito, desinformação e grosseria que me chocou, a ponto de resolver escrever a respeito. O capítulo 10 deste livro (cujo nome não direi para não dar publicidade a um material tão ruim) chama-se “Parto em Casa”, que foi escrito em função da experiência que o autor (Sr W.) teve ao vislumbrar a Marcha de Mulheres que ocorreu em 32 cidades brasileiras em defesa do direito de escolha, do Parto em Casa e do nosso colega Jorge, injustamente acusado pelo órgão de classe do Rio de Janeiro. Não li o livro todo, porque este capítulo já é suficiente para demonstrar a grosseria do julgamento que o autor faz das mulheres e do feminino. Tomo a liberdade de transcrever apenas um parágrafo para que tenham uma ideia do que se trata:

“(…) Os outros benefícios [do parto domiciliar] não merecem nem ser citados por tamanha incoerência e esdrúxulas afirmações. Se perceber, verá que não batem bem da bola, são normalmente aquelas que não se apegam ao batente, como sabemos. Quando a mulher trabalha, ajuda no sustento da família e tem responsabilidades para continuar a vida como ela é, não tem tempo para essas “frescuras” [a Marcha e o ativismo]. Tem o filho na maternidade mesmo e após alguns dias volta à luta. Isso, sim, é mulher de verdade (…).”

Pelo trecho acima pode-se avaliar a qualidade do resto do livro. Por esta razão eu resolvi escrever a primeira resenha desta publicação, e que constará no Google Livros. Aqui está ela:

“Sobre o Livro XXXX do senhor W. tenho a dizer que o capítulo sobre o “Parto em Casa” é lamentável, triste, preconceituoso e chauvinista. Poderia escrever sobre o resto do livro, mas se ele contém algo semelhante a este capítulo ele certamente não vale a leitura. Eu acreditei (pelo título) que o livro era bem humorado e que tratasse das coisas lindas e até incompreensíveis (ao olhar masculino) da epopeia feminina na terra, mas é provavelmente (pela amostra que tive) um aglomerado de grosserias contra as mulheres, e uma torrente de preconceitos sem cabimento.

No texto sobre o parto domiciliar ele chega a dizer que isso é “coisa de mulher desocupada” (vide acima), usando as MESMAS PALAVRAS que os homens proferiam para debochar e desmerecer os interesses intelectuais femininos, como estudar, adiar um casamento, fazer uma faculdade ou decidir-se a não ter filhos nos anos 60. Um texto triste, lamentável, infeliz e inaceitável para uma sociedade que se propõe plural e justa. Desafortunadamente este senhor não passa de um fóssil vivo, um exemplar do “homo ignobilis” do início do século, que resiste em tratar as mulheres com um misto de compaixão arrogante (pobres delas, loucas, são apenas mulheres…) e desconhecimento total do ser feminino. Se eu fosse mulher e lesse isso, realmente ficaria LOUCA, e faria parte dos 90% que ele acusa. Por outro lado eu informaria a ele que só quando 100% das mulheres se indignarem com tanta ignorância e preconceito é que esse mundo oferecerá mais dignidade para elas no momento de fazer escolhas informadas sobre como parir.

E, por favor… eu li o capítulo (as partes que o Google permitia) e ficou CLARO que não se tratava de uma “brincadeira”, ou de uma espécie de “humor machista”. Não vou aceitar ser chamado de mal-humorado: ele expressou uma opinião séria, desconsiderando e debochando de gestantes que lutam por liberdade de escolhas. Não, não se trata de uma comédia ou de uma caricatura.

É preciso que cidadãos como o Sr W. permaneçam no mundo apenas pendurados em paredes de museu, para mostrar como eram os homens na pré-história da cidadania, quando as mulheres eram obrigadas a ter seus filhos da forma como os homens determinavam, e não da maneira como a ciência comprova como seguras, e as mulheres desejam.

Entretanto, é minha opinião de que o ponto de vista do Sr. W está cada dia se tornando mais cafona, démodé, ultrapassado e velho. Essa já foi a opinião consensual na cultura ocidental, mas hoje é apenas a hegemônica. Já existe, principalmente por força da Internet e das redes sociais, uma consciência muito maior dos direitos das mulheres, assim como informações idôneas sobre a segurança no parto domiciliar (e não o amontoado de opiniões e visões enviesadas deste senhor). Com o passar do tempo esta postura retrógrada e ofensiva com as mulheres será vista apenas uma visão antiquada e sem embasamento, e a história verá este texto como um resquício do preconceito que ainda recaía sobre as mulheres na cultura ocidental nos umbrais do século XXI.”

Ric Jones

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Maria da Penha do Nascimento

Maria da Penha

Hoje eu tive um “visão”, mas provavelmente outras pessoas já pensaram nisso. Portanto, não se trata de reivindicar a autoria, mas apenas de falar de um pensamento que tive: nunca alguém teve a ideia de fazer uma lei “Maria da Penha do Nascimento”?

Não, não se trata do nome completo dela, mas de uma adaptação à realidade das maternidades brasileiras da lei que pune a violência e os abusos contra as mulheres. Assim, cada vez que uma mulher fosse impedida de ter o seu companheiro(a) ao lado no parto ela poderia denunciar com base em uma acusação de “violência contra a mulher”, que é exatamente do que trata o impedimento de um acompanhante durante um momento tão significativo e importante como o nascimento. Se uma episiotomia for realizada sem o consentimento informado (mesmo que de maneira informal e com testemunhas) o Ministério Público será acionado por se tratar igualmente de um abuso cometido contra a integridade física de uma mulher. Assim podemos categorizar inúmeros outros abusos contra as mulheres realizados impunemente em maternidades públicas e privadas de todo o país

Exagero?
Será mesmo?
Ou trata-se apenas levar esta lei às suas últimas consequências?
Qual a diferença entre espancar uma dona de casa ou torturar emocionalmente uma parturiente com abandono, episiotomias, Kristeller e enemas, procedimentos inúteis, não autorizados e desnecessários?

Não é apenas tiro, soco e pescoção que se constituem em violências. Existem outras, mais sutis e elaboradas, muitas até travestidas de gentilezas (“O senhor, por obséquio, aguarde na sala de recepção, pois o chefe de plantão não admite acompanhantes por falta de “espaço”). Muitas destas agressões passam desapercebidas para mulher e sua família à primeira vista. Entretanto, assim como um furto pode ser feito em salas refrigeradas e por senhores engravatados, as violências contra a mulher podem estar misturadas em rotinas, protocolos, posturas, atitudes e culturas locais, mas não deixam de ser menos danosas e violentas. Por uma sociedade mais justa, abolindo TODAS as violências contra a mulher.

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Psicanálise e Medicina

Freud-Hahnemann
Freud e Hahnemann

– É dos ‘nervos’, doutor.

Coloca a mão fina sobre o abdome encovado e sua face nos expressa sua dor. Ao procurar ajuda já traz consigo a clara noção de que seus males se originam de algo além do seu corpo físico; algo que se esconde por detrás do meramente manifesto. Apesar do gesto simples, sua atitude nos remete a um enigma que persegue pesquisadores, cientistas, médicos e místicos pelo transcurso dos milênios. As doenças “nervosas“, os males psicológicos ou “de fundo emocional”, nos desafiam a criatividade e a inteligência desde que pela primeira vez um homem esteve preocupado com a saúde e o bem estar de seu semelhante. Mesmo que a vinculação entre transtornos psicológicos e físicos seja moeda corrente em diferentes lugares, de simpósios médicos a conversas de bar, sua estrutura íntima ainda é alvo de discussões acaloradas em qualquer nível de debate. Onde afinal esconde-se a tênue linha que separa (ou liga) o sintoma cru em sua manifestação física mais clara e evidente das interrogações e sofrimentos da alma?

Das vertentes ocidentais terapêuticas, a psicanálise e a homeopatia são as duas especialidades clínicas que entendem o sofrimento humano como produtos de elaboração interna, sendo portanto chamadas de “modalidades endógenas de tratamento”. Ambas as práticas entendem os fenômenos de adoecimento como sendo produzidos “dentro” do indivíduo doente, e não como processos adquiridos do exterior. Assim sendo, reconhecem no sintoma muito mais do que um desacerto ou um desconforto de níveis variáveis. Mais do que uma mera leitura superficial de achados clínicos, buscam o significado mais profundo dos mesmos. Para encontrar o fino laço de união entre sintomatologias ilusoriamente apartadas, é fundamental o entendimento de pressupostos fundamentais: na psicanálise a noção de inconsciente, que tem na homeopatia seu equivalente na ideia de “energia vital”.

Sem o conceito de uma ultra estrutura que governa nossas condutas antes do acesso ao racional é impossível entender a sintomatologia psíquica, como muito bem nos elucidou Sigmund Freud no início do século XX. Entretanto, os sintomas físicos também existem em função de uma causalidade, com razões muitas vezes obscuras, mas que são passíveis de investigação e reconhecimento através de uma abordagem ampla e integrativa. A forma de entender esta causalidade é através dos desequilíbrios dinâmicos da energia vital, que a homeopatia elaborou e incrementou.

A psicanálise vai procurar as ligações do sintoma psicológico com os desafios encontrados no processo adaptativo primitivo do paciente, nas suas relações afetivas, sexuais e emocionais com o mundo que o cerca. A homeopatia, criação do médico alemão Samuel Hahnemann no século XVIII, tentará descobrir no próprio sintoma trazido à consulta pelos pacientes o mapa condutor de sua cura, através da tradução dos mesmos em “linguagem repertorial” e no enquadramento do paciente dentro de modelos específicos de adoecimento. Desta maneira, o biotipo, a história pessoal e a sua carga genética serão fatores preponderantes na compreensão de cada caso individual. Por esta razão a homeopatia é também chamada de “medicina do sujeito”.

No processo terapêutico, ambas as modalidades trabalham com um conceito de “similitude”. A psicanálise irá aprofundar-se na própria angústia do paciente, fazendo-a brotar na palavra durante a consulta analítica. A cura se dará através do discurso, pela verbalização e na reorganização de núcleos inconscientes de sofrimento. Na homeopatia, por sua vez, o processo terapêutico ocorrerá através da utilização de um medicamento homeopático o mais assemelhado possível ao próprio conjunto de sintomas dos pacientes, utilizados como sinalizadores e norteadores, onde o medicamento homeopático agirá como estimulador das capacidades internas de reorganização e cura.

A cooperação e interdisciplinaridade entre os profissionais de ambas as áreas é que nos possibilita um entrelaçamento entre o que o paciente nos conta como sofrimento psicológico e o que percebemos como sintoma orgânico. Desta forma holística e integrativa, é possível entender de uma maneira mais ampla o sentido e os significados do ser, do destino e da dor, e através disso encontrar o melhor caminho de cura para cada pessoa.

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Belezas

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                                                                                                                                                                             Cada dia se torna mais necessário fugir dos padrões obtusos e coisificantes que massacram a vida das mulheres, impondo regras de cintura e busto com a mesma crueldade com que há bem pouco tempo – já no século XIX – a cultura esmagava e deformava os pés das pobres chinesinhas com seus sapatinhos de madeira. Talvez uma das formas mais dramáticas e criativas de se contrapor às imposições estéticas seja escolher enxergar a beleza nessas mulheres, simples, comuns e imperfeitas, mesmo quando os padrões atuais apontam para outro lado. Em plena vigência da maior liberdade jamais conquistada pelas mulheres, elas continuam seguindo padrões impostos pela cultura sobre seus corpos. Não fosse assim não teríamos bulimia e anorexia, que levam à morte meninas em todo o mundo aos borbotões, criando para a própria medicina um problema de saúde pública.

Na sociedade ocidental, a Barbie é um padrão doentio e inverossímil, mas que ainda acalenta o sonho de muitas adolescentes. O sofrimento delas com os seios perfeitos, a bunda empinada, o nariz de Deneuve, o queixo delicado e até (pasmem!) os lábios vaginais é preocupante, porque estas jovens mulheres MORREM quando esses objetivos tão absurdos não são alcançados. Mesmo com tanta autonomia alcançada, mulheres ainda são prisioneiras de um corpo que se vende ao olhar do outro, a ponto de mutilarem-se em busca de uma aprovação. E essa escravidão aos padrões de beleza é tão perniciosa quanto mais inconsciente e imperceptível, obedecendo uma ideologia que “está lá mesmo que não tenhamos conhecimento dela”.

Onde mora a beleza, afinal? Ela mora nas dobras da retina, no brilho vítreo de uma mirada, nas espaços de tempo que separam um piscar de olhos, e na chama que aviva a imagem que lhe chega. A beleza habita no olhar de quem vê com o coração. As imperfeições são o que as mulheres tem de mais perfeito. Lindas, todas, pois qualquer mulher se torna bela diante dos olhos de quem a ama.

(O texto acima foi inspirado na mostra fotográfica “Um nu honesto; mulheres lindas com suas imperfeições” do Instituto Maria Preta, e pode ser acessado em aqui

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The Old Feminism

Betty  Friedan

Exponho aqui a minha resposta ao artigo escrito pela feminista americana Katie Roiphe chamado “A Derrota do Feminismo” e que pode ser encontrado traduzido na Internet neste link A Derrota do Feminismo no Facebook

Neste texto a autora critica a exposição de mulheres com seus filhos nos perfis públicos do Facebook, entendendo que esta exposição das “crias” escancarava a falência dos ideias originais e revolucionários das feministas americanas, em especial Betty Friedan. Tenta mostrar que “resumir-se aos filhos” seria uma traição às propostas de liberação feminina. Para ela, a radicalidade feminina que se expressa nos filhos é a derrota inequívoca dos sonhos de autonomia e liberdade para as mulheres.

Realmente, o título está correto: para mim trata-se do fim desse tipo de feminismo antigo, que despreza o feminino e desconsidera as especificidades do ser mulher. Estamos diante do ocaso de um movimento feminista cujo desiderato máximo era transformar as mulheres em “homenzinhos de gelatina”, fortes, invasivas, transformadoras e sem a chatice perpétua dos filhos a atrapalhar seus projetos. A autora chega a usar um argumento, no mínimo, curioso:

“Mas essa forma específica de narcisismo, a exposição destes querubins para criar uma imagem do eu, é para mim mais perturbadora pela verdade que revela. A mensagem subliminar é clara: Eu sou os meus filhos.”

Para ela, “eu sou o meu trabalho” não causa, outrossim, um espanto que poderíamos prever pelas suas palavras. Amalgamar-se no seu ofício soa melhor do que apresentar a obra mais sofisticada e complexa que uma mulher é capaz de produzir: um filho saído de seu ventre. A articulista provavelmente não percebeu o que muitas mulheres conseguem ver, e que ela se nega a perceber: existe um orgulho imenso em dar à luz um filho e criá-lo com coragem, denodo e determinação. Se as mulheres podem hoje atingir outros postos de realização pessoal nas sociedades ocidentais, que foram outrora a elas sonegados, isso não desmerece o trabalho árduo, penoso e – ao mesmo tempo – gratificante de gestar, parir e maternar um filho.

Realmente, é o fim “desse” feminismo, bem chamado de feminismo caga-regras. Não precisamos mais de patrulhas feministas, comandos anti-gravidez e nem de ativistas contra o romantismo, o desejo, a delicadeza e o amor maternal. Podemos soterrar um feminismo que nada mais é do que a outra face do machismo, que olha as sociedades igualmente divididas e antagonizadas, e que não pensa em congraçamento e respeito na diversidade.

As velhas feministas traumatizadas e raivosas deixaram fiéis seguidoras e, para algumas, as marcas do rancor e do ressentimento com a devoção maternal se mantém idênticas.

Rest in Peace, old feminism…

E que seja bem vindo um “novo feminismo”, de mulheres que respeitam suas características mais profundas e que exaltam a feminilidade na sua mais intensa radicalidade: o poder de gestar e parir.

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Torcidas Ferozes

Apesar de ter colocado aqui a imagem de uma torcida paulista – envolvida em inúmeros atos de vandalismo e violência – cujos torcedores continuam presos na Bolívia, não vejo nenhuma diferença substancial entre as torcidas do Corinthians, do Palmeiras, do São Paulo e a maioria das que existem pelo Brasil. Na verdade elas todas se assemelham em suas origens e forma de expressão. A paixão é o adubo, mas um caráter débil é o solo fértil onde vão germinar as ações abusivas e carregadas de ódio. Sou um gremista “moderado”, e aqui no sul as torcidas dos nossos clubes ainda não chegaram à sofisticação de vandalismo e marginalidade das paulistas, mas caminhamos celeremente para isso. É necessário que algo seja feito a respeito da atuação de torcedores que extrapolam sua ação como espectadores, para que as famílias e os cidadãos normais possam voltar a gostar de futebol. Busco na psicanálise a minha explicação para esse fenômeno: o participante de uma torcida organizada – normalmente medíocre, marginalizado e uma espécie de humilhado crônico de periferia – pretende tornar-se protagonista do espetáculo que frequenta, e faz isso através de sua ação violenta. É como se, ao ver os jogadores usufruindo de dinheiro, fama e mulheres pelo futebol que jogam, ele pretenda também associar-se ao show; assistir o sucesso dos outros é complicado demais para quem é apenas um figurante no espetáculo da sua própria vida.

Para além disso, existe um fenômeno mais contemporâneo e, todavia, mais grave: a profissionalização dos torcedores. Assim como ocorreu de maneira catastrófica com as “barra-bravas” argentinas – que estão levando o futebol do Prata à decadência acelerada – aqui no Brasil também se vê torcedores que “gerenciam” a torcida, cobram propinas, assumem a venda de materiais pirateados do clube, controlam o transporte de torcedores para outras cidades, formam verdadeiras quadrilhas e usam a violência como “modus operandi”. Estas ações “empresariais” se assemelham àquelas dos “hermanos” de Boca e River. Lá, como é sabido, as torcidas mandam nos clubes, e atuam de forma criminosa. O entorno do estádio “La Bombonera”, por exemplo, é controlado por “flanelinhas” que trabalham para os poderosos da torcida organizada do Boca Juniors, e tudo isso com o beneplácito da polícia, que não tem força ou vontade política de acabar com essas arbitrariedades. No rival, o River Plate, há poucos anos ocorreu o julgamento pelo assassinato de um líder de torcida, morto pelos rivais da MESMA torcida, em uma luta fratricida pelo poder no clube. O resultado já sabemos: estádios com meia-torcida, e o futebol argentino cada vez mais pobre e sem craques (estão todos na Europa ou no Brasil).

As torcidas organizadas são, por fim, o possível prenúncio da morte do futebol como nós o conhecemos. Talvez no futuro o futebol seja um espetáculo circense, tipo “Malabaristas Chineses” ou “Circ du Soleil”, que alguns admiradores assistirão em “teatros ovomaltinados”, sem paixão e sem interesse pelas cores de uma camiseta mítica, já que torcer pelo time do seu coração deixou de ser possível pela privatização do amor clubístico, através da ação de torcidas organizadas ferozes e criminosas.

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Trotes

Trote Universitario

Pode ser que eu esteja ficando mesmo muito velho, eis uma hipótese a se considerar. Entretanto, eu tenho uma opinião a respeito de trote universitário. Eu acho muito chato. Chato mesmo, irritante e me incomoda ver a maneira como continua sendo conduzido. Aqui em Porto Alegre eles iniciaram de novo, no centro da cidade, o trote com tinta, farrapos, roupas ridículas e pedidos de “esmola”. Todos sabemos que a “esmola” irá para a cerveja dos veteranos, que vão se divertir alcoolicamente com a humilhação dos calouros (e a colaboração dos incautos).

Sim, eu também sei que os calouros não se importam, e isso faz parte do exibicionismo dos “geniais” alunos que passaram na universidade federal. Mas eu pergunto: “E o que eu tenho a ver com isso?” Terei eu que patrocinar a cerveja de marmanjos, filhos de papai, classe média alienada, que fazem esse tipo de trote chato, cafona, exibicionista, brega e desagradável? Quando os universitários se aproximam eu respondo com um sorriso e um abano, mas fico pensando que ainda prefiro dar as moedas para um sem teto do que financiar a beberagem de universitários ricos. E isso sem falar das tragédias que, vez por outra, acontecem. Lembram do rapaz japonês em São Paulo, na piscina? Uma tragédia, que foi fruto deste tipo de abuso. Eu acho que este tipo de “rito de passagem” poderia terminar, pelo menos neste formato.

O triste é ver a perpetuação do modelo. Os próprios “bixos”, depois de passado o trote, já ficam imaginando a “vingança” com os calouros do próximo ano, num circulo vicioso sadomasoquista que só pode terminar quando alguém tiver a coragem de se levantar e dizer: “Gente, isto aqui é um modelo brega e sem graça. Está na hora de amadurecer esse processo. Vamos fazer uma coisa mais produtiva. Quem sabe agradecer o fato de estarmos numa universidade pública, financiados pelo povo, que paga a nossa entrada aqui. Não haverá uma forma mais politicamente madura de passar por esse rito?”

O trote público é o que mais me irrita… cortaram o meu cabelo em casa quando eu passei. Sei que isso era também um tipo de exibicionismo da minha parte, mas não me importei porque não foi forçado e nem agressivo. Fazia parte da brincadeira da família e dos amigos. Mas expor publicamente os alunos me parece grosseiro e desnecessário. Mostra apenas uma face sádica daqueles que estão na universidade.

Cena presenciada pelo meu sobrinho na esquina da Av. Ipiranga com a Ramiro Barcelos. Os “bixos” pedindo esmola para os carros que paravam no semáforo e sendo expulsos pelos pedintes “donos do ponto”, pois os calouros estavam afastando os seus “fregueses”. É ridículo ver meninas de classe média aos berros com os mendigos, pelo acesso aos carros. É muito tolo isso, e mostra a profunda alienação dos estudantes com o significado de entrar em uma universidade. Existe um afastamento completo da noção de responsabilidade social que carrega um estudante que chega ao ensino superior. E isso se expressa desde cedo, na própria entrada na Universidade, com o tipo de ritual que se impõe. Como diria a professora Robbie Davis-Floyd, um ritual se compõe de 3 elementos básicos: repetição, padronização e simbolismo, todos eles presentes no trote. Mas o simbolismo de um ritual nos leva ao âmago dos valores propostos por uma sociedade, e o simbolismo do trote, com sua necessária humilhação e degradação, nos mostra que os valores dessa sociedade são individualistas e egocêntricos, e não valorizam a participação dos “escolhidos” na melhoria das condições de vida da população que os sustenta na universidade.

Eu gostaria de saber quantos alunos efetivamente curtiram ser pintados e quantos foram constrangidos, e só permitiram o trote para poderem ser aceitos por seus pares. E o pior para mim não é o trote, mas a humilhação e a desconexão com com a sociedade ao redor. As vezes eu encaro os trotes da mesma forma que vejo os casos de assédios; quem vê de fora parece consentido, mas no fundo existe uma pressão para que a pessoa se comporte de uma determinada forma. Sei que posso estar exagerando, mas já vi pessoas me descrevendo trotes exatamente assim. Um constrangimento para se comportar como um palhaço, caso contrário os veteranos não terão um bom conceito de você.

Ok, ritualizemos as conquistas e as passagens, mas de uma forma mais civilizada, nobre e inteligente. Por isso eu admiro o “trote solidário” que meu filho está promovendo na sua faculdade, a Ciência da Computação: doação de sangue. Este é um exemplo entre tantos outros do que se pode fazer de positivo para integrar alunos em sua “nova casa”, a universidade. Sem humilhações, sem degradação e sem exibicionismo do tipo “passei na faculdade, olhe para mim como sou maravilhosa(o)“.

Apenas participação na sociedade, fraternidade e solidariedade.

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Ideologias

A mais elementar definição de ideologia é provavelmente a conhecida frase do livro de Marx, “O Capital”…      

Eles não sabem o que fazem, mas ainda assim, o fazem”.  

Nada se aplica de forma mais clara e cristalina à conduta obstétrica contemporânea. Lembro um exemplo muito simples, que aparece no texto da professora Simone Diniz. Lá se insere a fala de uma jovem obstetra que afirma de forma singela: “Eu sei que não devo fazer a episiotomia, mas minha mão vai sozinha“.  

Essa frase sempre me intrigou, porque nunca pude crer que se tratava de uma fala sincera. Minha resposta a ela, se pudesse lhe oferecer, seria: “Não, doutora, sua mão não vai sozinha. Uma mão, composta de carnes, fibras, nervos e veias, não se move por vontade própria. Há um determinante inconsciente, algo do obscuro e “não sabido” que determina a ação e conduz seus movimentos. Sua mão vai porque, mesmo que não saibas a razão do gesto, ele se faz guiado por uma força para além de sua consciência. Sua mão é guiada pela ideologia, doutora.“.  

A reluzente tesoura – que corta sem pudor o tecido inocente da genitália – sequer imagina que as ideologias que permeiam a assistência ao parto operam como cordões invisíveis a nos prender a modelos constituídos sobre os valores fundamentais desta cultura e neste tempo. No nascimento humano, tais forças implacáveis são determinadas por uma visão da mulher como ser defectivo, a condescendência com a intromissão no seu corpo e a complacente intervenção sobre seus ritmos e sua natureza.  

Somos todos, pacientes e médicos, governados pelas ideologias aplicadas à atenção à saúde. Como o ar que respiramos, elas nos envolvem sem parecer que estão ali, por toda parte, penetrando nossas narinas e pulmões, ao mesmo tempo que nos iludem com sua invisibilidade.  

Para mudar o nascimento, e assim também a humanidade por consequência natural, há que mudar a própria ideologia sobre a mulher, a natureza, a fisiologia alargada do nascimento e o entendimento que temos do mundo. Parafraseando o mestre Odent, “Para modificar o nascimento é necessário mudar o mundo em que vivemos, e o primeiro lugar a transformar é o interior de nossas mentes, para que o olhar que lançamos para fora realce o valor que tais momentos nos oferecem”.    

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Linhas Retas

Não existem linhas retas na natureza, e as linhas do universo simbólico são necessariamente tortas. Entre um ponto e outro de nossa compreensão se entrecruzam fatores que as ciências exatas não podem medir. Se é verdade que não podemos creditar todos os eventos humanos às “artimanhas do inconsciente” (o mestre já dizia que muitas vezes “um charuto é apenas um charuto”) também é verdade que não podemos nos cegar às evidências de que as intencionalidades recônditas precisam ser encaradas com discernimento e coragem. Sem os antigos psicologismos, manifestos pela volúpia do “furor interpretans“, a visão de causalidade emocional pode nos oferecer múltiplas chaves para a compreensão dos enigmas do adoecimento. Mas não todas, por certo.

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Felicidade

Dizem que teve uma vida infeliz com o príncipe de Mônaco. Ela, entretanto, viveu o sonho feminino mais ancestral, desde o advento do patriarcado: ser uma princesa de verdade. Viveu a fantasia mais antiga das meninas: um mundo rodeado de encanto em um castelo, ao lado de um príncipe. Mas eu pergunto: será que a vida na realeza lhe garantiu a felicidade? Teria sido ela mais feliz se não tivesse recebido graciosamente da natureza tamanho dote de beleza e talento? Se fosse tão somente uma mortal, como qualquer dessas pessoas que vemos todos os dias atravessando rapidamente a rua, teria a mesma chance de ser “feliz e realizada”? O que, afinal, pode nos garantir uma vida plena, repleta de alegria e contentamento? Serão o dinheiro, a fama, o prestígio, a beleza, a inteligência ou o poder capazes de nos garantir uma boa noite de sono, a sensação de plenitude, a brisa fresca da paz de espírito a nos enlevar e refrescar a alma? Ou será mesmo verdade que tudo o que nos propicia momentos de felicidade, mesmo os mais frugais e passageiros, é algo incomensurável e impossível de contabilizar?

Talvez o que nos falta é a capacidade de entender que, se a tal sentimento existe e pode ser alcançado, ele certamente não se conecta com as construções elaboradas da vida cotidiana; nem sequer com o dinheiro, o poder, o reconhecimento e a fama. É provável que tal sensação se liga às questões mais profundas e primitivas da nossa existência: o carinho, o suporte, o afeto e a segurança de ser amado.

E quanto a isso, não há dinheiro suficiente que possa comprar.

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