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Sexo e patriarcado

Ela deu, o cara “comeu”. Ela se entregou. O cara tá pegando. Ela deu mole. Ele ganhou a garota. Ela cedeu. Ela “perdeu” a virgindade. Ele faturou.

Dentro do patriarcado o sexo é sempre algo em que um toma do outro. Um mercado. Parte da ideia de que a mulher “dá” algo e não recebe nada em troca no sexo – só em valores secundários. Já o homem toma algo e nada oferece. Ele não “dá” e não é “possuído”.

Ainda imaginamos o sexo heterossexual como uma via de mão única, como se o desejo e o prazer femininos fossem inexistentes ou irrelevantes. Uma cultura verdadeiramente puritana e hipócrita que objetiva cercear a livre expressão da sexualidade e da cumplicidade de ambos. Por isso “vá se ph*der” continua sendo um xingamento, quando poderia ser tão somente um convite ao prazer, à alegria e ao contentamento para aqueles que queremos bem.

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Sobre o humor

É curioso ver o quanto o humor é atacado nos tempos atuais, em especial porque em tempos de identitarismos e de cancelamentos os próprios humoristas tiveram que refrear sua propensão a fazer piadas sobre tudo e todos. A grande queixa é que o humor “pode ferir as pessoas” e os humoristas não deveriam fazer de sua arte uma arma para gerar sofrimento, exclusão, preconceito e divisões.

Parece justo, desde que se entenda a diferença entre piada e “humor bullying”. Existe entre elas uma diferença muito grande que poucas pessoas – até mesmo por oportunismo – se negam a ver. É possível – e eu diria, é necessário – fazer piada com QUALQUER coisa. Sim, inclusive mortes de crianças, câncer, tragédias e até abusos, desde que o texto do gracejo respeite o CONTEXTO. A piada não pode ser o veículo que carrega o preconceito. Ela não pode ser usada para que uma mensagem obtusa, excludente ou claramente ofensiva seja levada adiante sem pagar o preço de uma posição aberta e estampada. “Ah, relaxa, é só uma piada”, frequentemente é usado para esconder uma manifestação de puro racismo, sexismo, lgbtfobia, preconceito de classe, etc. O humor não deveria se prestar para isso, mas para quebrar a arrogância que cada um constrói sobre si mesmo ou o grupo ao qual pertence.

O HUMOR É SAGRADO e eu não acho que existam etnias, gêneros, comportamentos ou orientações sexuais que possam exigir isenção à acidez natural e benéfica de uma piada. Um chiste humaniza a todos nós, mostrando nossas quedas, falhas, desacertos e aspectos ridículos. Nos reinos antigos o Menestrel tinha pleno direito de fazer gracejos com o Rei e sua família, porque assim humanizado o povo se sentia mais próximo dele – e assim podia ser mais facilmente manipulado e roubado.

Portanto, creio ser importante garantir o direito à piada, ao gracejo e ao humor… sobre QUALQUER coisa, sem limites (a não ser os legais, se houver) e sem censura. Como diria um famoso piadista americano quando perguntado se era possível fazer piada com “câncer infantil”, sua resposta foi excelente: “Claro que pode, mas é melhor que seja muito boa”. Ele dizia que tocar em um ponto tão delicado como este para fazer humor é possível, mas é importante que a qualidade da piada e seu contexto sejam tão bons a ponto de romper a barreira que naturalmente usamos para nos defender destes temas.

Aliás, para mim um dos piores tipos de exclusão em um grupo é saber que meus iguais se negam a fazer gracejos a meu respeito apenas porque acham que minha condição – seja ela qual for – me impediria de rir de mim mesmo.

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Amor, a origem

Creio que está certo; o amor romântico é tão somente um aspecto do amor, a sua face mais dramática, pois dele depende a manutenção da espécie. Mas ainda creio que os amores são todos derivados de um único ato primordial: o amor de uma mãe pelo seu filho, de onde todos os outros são derivados. Qualquer um deles pode ser traçado retrospectivamente até chegar nos momentos que se seguem nossa expulsão do útero onde, perdidos e desamparados, somos acolhidos pelas duas estrelas brilhantes dos olhos de nossa mãe. Ali surge toda a transcendência e toda a tragédia humana.

Philippe Adriel, “The unknown Realm of Love”, ed Priscas, pág 135

Philippe Adriel é um psicólogo belga, nascido em Bruges. em 1970. Escreveu vários livros sobre amor, sexualidade, relacionamentos e separações. Seu livro “A crise Monogâmica” vendeu mais de 1 milhão de cópias e foi traduzido para várias línguas. Outros títulos de sua autoria são “Perdendo tudo, inclusive o Medo”, “Pais separados”, “Fora do Mercado – guia para adultos divorciados”, “Cabo de Guerra – guarda compartilhada e criação de filhos” entre outros. Mora em Bruxelas com sua parceira Amy e seus filhos Marcel e Antoine.

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Bodas

No passado recente – e com marcas até hoje em dia – a expectativa era que as mulheres se mantivessem casadas para garantir a estrutura da família (célula máter e blá, blá, blá) e o patrimônio. Não eram corajosas ou guerreiras, eram apenas vítimas de um silêncio (auto)imposto pela estrutura patriarcal da sociedade. Casamentos longos são fetiches dessa cultura, ligados ao mito do amor romântico.

Não vejo vantagem alguma em manter-se um casamento – ou qualquer outra sociedade – apenas para dar conta dessa união para a sociedade; se não houver mais nada de positivo a unir o casal, que se separem.

Talvez a única coisa que a taxa de divórcios pode mostrar em uma determinada cultura é a maior ou menor liberdade dos sujeitos para tomar decisões sobre a sua sexualidade.

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Colonialismo, início do fim?

Tem gente que, em pleno século XXI, acha que a autonomia de uma nação é algo negociável e, embriagados pela campanha imperialista, não conseguem enxergar as tragédias e a barbárie causadas pelos invasores nas terras conquistadas. São os mesmos que condenavam, até pouco tempo, a libertação da Argélia, de Angola, de Moçambique, do Vietnã, da Índia e tantas outras colônias massacradas pelos colonizadores europeus. Diziam que, apesar do tratamento “duro” dado aos “nativos” nada é tão importante como a língua oferecida, as ferrovias e alguns bons modos à mesa.

As pessoas que nos acusam de ficarmos felizes com a expulsão dos americanos do Afeganistão pelo Talibã e que por isso somos “machistas” aceitariam ser chamados de “genocidas” por sua conivência com as mortes de meninas e mulheres durante a ocupação americana? Aceitam o rótulo de neocolonialistas? Aceitariam a pecha de “bandeirantes da América”? Aceitam o meio milhão de mortos em sua conta? Aqueles que nos acusam de sermos “autoritários” por apoiarmos um “ditador” como Putin, em sua luta contra as ameaças constantes à integridade da Rússia, deveriam entender que a influência norte-americana no leste da Europa se expressa como um gigantesca sombra de opressão e de domínio, onde as liberdades civis dos povos ameaçados será uma das primeiros pratos no banquete do imperialismo.

O biscoitismo – em especial partindo de figuras públicas da Academia – é um cacoete terrível de intelectuais que se aventuram nas redes sociais. É preciso agradar em primeiro lugar ao seu “eleitorado”, e só depois fazer algumas concessões à realidade. O salário indireto recebido por estes personagens são os “likes” e os elogios rasgados ao seu idealismo – o qual não suporta 10 minutos de mergulho na verdade dos fatos. Quem, entre as pessoas horrorizadas com a vitória do Talibã – um grupo de reacionários e fascistas de direita muito parecidos com os bolsonaristas no Brasil – ocorrida há poucos meses lembrou das 500 crianças mortas pelos bombardeios americanos nos últimos 5 anos de ocupação do Iraque? Por acaso é possível comparar a porcaria reacionária do Talibã com as milhares de crianças explodidas pelas bombas imperialistas?

Portanto, as recentes decisões do governo brasileiro e chinês de negociar diretamente entre si usando suas moedas nacionais sem a intermediação do dólar me parecem mais um graveto que irá fomentar a grande fogueira que nos livrará do Imperialismo. Diante do importância que os povos do mundo precisam colocar na libertação do domínio exercido pelo Império estas iniciativas precisam ser encaradas com a devida seriedade, e demonstram que existe real interesse do governo americano em construir uma estrutura global mais equilibrada e mais justa para as nações. Nada mais adequado que Brasil e China – pelas suas dimensões e importância geopolítica – estejam à frente desta luta.

Há apenas alguns poucos dias (29/3), ambos governos anunciaram a criação de uma “Clearing House” (ou Câmara de compensação), uma instituição bancária que permite que negócios e concessões de empréstimos sejam realizadas entre os dois países sem a utilização da moeda americana como forma de viabilizar os negócios de caráter transnacional. O Banco Industrial e Comercial da China (IBC), será a instituição bancária que vai operar a “clearing house” aqui no Brasil, permitindo que os empresários locais tenham a possibilidade de realizar negociações e até empréstimos em yuan (RMB) ,e não apenas em dólar, como é a regra que impera para estas transações até agora. A adoção dessas medidas aproxima o Brasil do seu maior parceiro comercial – a China – e faz uma demonstração inequívoca de que o Brasil se afasta do decadente imperialismo para uma tentativa de multipolaridade, onde as relação entre os países se dará de forma menos autoritária e impositiva.

Para aqueles que viam o governo Lula como um “agente do imperialismo” este foi um duro golpe de realidade. Some-se a isso as decisões de não subscrever a declaração final da “Cúpula da Democracia”, por não concordar com o foro onde este debate está sendo realizado “O entendimento do Brasil, no entanto, é de que a guerra da Ucrânia deve ser tratada em foros específicos para o tema, como a Organização das Nações Unidas”, diz o comunicado Em outra oportunidade o governo de Lula chegou a votar a favor de uma resolução da Assembleia Geral da ONU que repudiava a invasão russa, dando a entender para alguns analistas de que o governo do presidente Luiz Inácio estaria se postando ao lado dos interesses do Imperialismo. A clara inclinação em direção à China mostra o contrário, o que só pode ser saudado como uma ação positiva por todos os partidos de orientação marxista.

Esperamos que estas iniciativas sejam as primeiras de outras grandes propostas para o fortalecimento dos BRICS e do sul global.

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Biscoiteiros

O Facebook está cheio de gente que usa a rede para fazer propaganda de si mesmo, do seu saber, do seu conhecimento de vinhos, filmes e literatura. Esse exibicionismo é uma praga muito disseminada, em especial entre membros da Academia, mas por si só não é algo detestável; ao meu ver é apenas um mau costume, tão (des)importante quando tirar fotos de si mesmo várias vezes e todos os dias com roupas, penteados ou unhas diferentes.

O problema é que estas torres de vaidade não suportam contradição. Basta que você discorde de uma das posições expostas, mesmo que de forma absolutamente respeitosa, para o sujeito partir para os impropérios. E se você insistir no seu ponto de vista – que poderia ser interpretado como “resistência à prisão” dos seus argumentos – a solução é o bloqueio, o que produz duas vantagens: faz desaparecer um sujeito que contesta suas verdades absolutas ao mesmo tempo que apaga da sua página a argumentação usada para contrapor suas ideias.

Podem ter certeza que esse tipo de acadêmico, por mais que tenha algumas ideias arejadas, não é um verdadeiro democrata. Qualquer contestação ao seu pensamento é vista como ameaça à sua autoproclamada importância mas, diante de tamanha fragilidade, não é mais possível aceitar suas verdades, que passam a perder autoridade na medida em que não suportam o crivo do contraditório.

É essa esquerda biscoiteira acadêmica que precisamos questionar…

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Chave e fechadura

Quando vi essa imagem na página de uma amiga no Facebook todas as interpretações que passaram pela minha cabeça eram de caráter sexista. Tipo…

os homens controlam as mulheres no sexo enquanto elas controlam suas mentes“, ou “as mulheres tem a chave para a razão masculina e os homens a chave para a sexualidade delas“.

Essas perspectivas podem ser facilmente interpretadas como essencialistas e/ou sexistas; portanto, anacrônicas. A imagem, por isso, me incomodou, mas me oportunizou pensar sobre ela, acima de tudo porque colocam no gênero especificidades que não são encontradas em todos e todas, mas que surgem tão somente como construções sociais, deterioráveis com o tempo e variáveis na geografia.

Todavia, a partir de um ponto de vista mais subjetivo e ligado às conexões que ligam mente-corpo-sexualidade a imagem poderá adquirir um novo sentido.

Olhando-se de maneira alternativa não se trata de determinar de quem é a chave ou a fechadura – que foi a minha leitura inicial – mas ao fato de que a sexualidade está intrinsecamente ligada à planos mentais e espirituais mais profundos, onde muitas vezes a chave de um abre as portas do outro.

Assim, a sexualidade expressa e livre poderia aclarar estados mentais enquanto um pensamento claro e racional poderá fazer desanuviar transtornos da eroticidade, como no caso de um vaginismo, tumores, alergias ou uma irritação vaginal banal causada pelo medo de aventurar-se em uma nova dimensão de afeto com alguém.

Por essa leitura, a imagem pode apenas significar que, na dimensão humana, os afetos permeiam o sexo e são por ele envolvidos.

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Crime organizado global

Para mim é esse o maior e mais grave subproduto cultural da pandemia: que a população, por causa das vacinas, passe a acreditar que as grandes farmacêuticas – empresas mafiosas e verdadeiros organizações criminosas organizadas em nível global – serão capazes de salvar a humanidade e, da noite para o dia, se tornarão indústrias corretas, angelicais e éticas.

Não acredito nessa possibilidade. Dentro do modelo capitalista o objetivo é sempre o lucro e, se para consegui-lo for necessário deixar o mundo mais doente, assim será feito pela BigPharma. É esta não é mais uma teoria conspiratória. A criação de diagnósticos fantasmas para justificar a venda de drogas ou tratamentos faz parte da história dessa indústria, basta uma rápida pesquisa.

Acreditar que a cura dos nossos males possa estar nas mãos de quem lucra com eles é a mais suprema e inaceitável das ingenuidades.

O transcurso da pandemia pode ser encurtado pelas vacinas, e esta é minha perspectiva hoje. Todavia, a solução deste dilema não se dará sem suplantar o capitalismo e sua lógica de crescimento desconectado da equidade e da justiça social, que é a marca do neoliberalismo em nível mundial.

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Cultura de Paz

Essa frase acima nos lembra que em situação de conflito os homens são conclamados a atuar em defesa da sociedade e do grupo sob ameaça. Não é a toa que no meu estado dizer-se “da fronteira” significa reafirmar sua masculinidade. E por quê? Ora, por que os limites nacionais são sempre zonas de conflitos e lutas onde a masculinidade é chamada para proteger os mais frágeis e o país. Produz-se assim uma cultura guerreira e – inevitavelmente – machista.

Reparem como os ícones dos filmes americanos são sempre esses brutamontes musculosos é estúpidos. Stallone, Schwarznegger, Jason Statham, Dwayne Johnson (The Rock) são cópias do mesmo mito, o macho poderoso que salva-nos a todos. Eles florescem em culturas guerreiras que exaltam a guerra e a dominação como modelo social. Isso também ajuda a explicar porque uma cultura guerreira, como os mujahedims e talibãs, acaba se tornando violentamente machista.

Portanto, não haverá tão facilmente uma sociedade de exaltação – ou pelo menos de respeito – ao feminino sem abandonarmos nossa índole guerreira. O caminho para a equidade dos sexos transita obrigatoriamente pelo abandono da guerra como forma de relação entre os povos. Para que uma sociedade respeitosa com as mulheres possa florescer no Afeganistão é importante a partir de agora implantar nesta sociedade uma cultura de paz.

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Perdoar…

“Perdoar é construir empatia, e não uma manifestação pública de superioridade”.

Perdão não é um sentimento que se possa cobrar de alguém, nem de nós mesmos. Se o perdão significa a conexão profunda com o sentimento de empatia fica claro que se trata de uma construção pessoal e subjetiva. Desta forma, interno, jamais externo. É uma porta que só pode ser aberta por dentro.

Perdoar não trata de uma manifestação arrogante de superioridade, mas da busca por compreender os alicerces que levam um sujeito a cometer um ato egoístico e maléfico. Perdoar é entender.

Qualquer terapia deveria, eventualmente, chegar a essa compreensão superior sobre o mal recebido. Por certo, que o ódio e a indignação podem ter – e frequentemente têm – um efeito apaziguador para a vítima de qualquer malefício, mas não há dúvida que esses sentimentos são úteis apenas por um determinado período de tempo. Manter-se sintonizado indefinidamente na vibração do ódio destrói e aniquila qualquer sujeito. “O ódio é um ácido que corrói o próprio frasco que o contém”…

Portanto, estes sentimentos precisam ser transformados para que possam produzir um efeito libertário, e não há dúvida que isso demanda tempo para maturação.

Não se trata de um sentido religioso sobre o perdão, mas transcendental. Significa enxergar no outro o que nos conecta e torna similares, ao invés de enxergar nele apenas o estrangeiro e o diverso. Aliás, quando falo dessa concepção de perdão isso significa e inclui o auto perdão; é preciso entender-se para poder se perdoar.”

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