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O Hiper Macho

Sempre achei que os puros homossexuais seriam estes, ao estilo Donovan, porque neles existe a masculinidade exclusiva, hiper masculina, certeira, indubitável, positiva, com a veneração do falo e a total supressão do feminino.

Nessa perspectiva masculinista o gay efeminado, delicado, suave, frágil seria “apenas” um sujeito que adora mulheres a ponto de imitá-las em seu gestual e na preferência por homens; ele não seria o “gay genuíno”. O guerreiro, o gladiador, o super atleta seriam os reais paradigmas masculinos máximos, onde as mulheres representariam a falta de tudo quanto valorizam e admiram.

Donovan é o melhor exemplo de um mundo sem diversidade, pobre em tudo o que a mulher é capaz de oferecer enquanto pensamento e sentimento feminino. Suspeito que por trás de tanta masculinidade está um sujeito com um medo terrível do que significa a pergunta que cada mulher nos apresenta.

Pensamento engraçado: imaginar o Donovan atendendo um parto ou cuidando de um bebê. No meu ponto de vista o mundo de Donovan seria tão miserável quanto uma sociedade de Amazonas.

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Volúpia da escrita

As vezes escrevo coisas duras porque me deixo levar pela volúpia da escrita. Enquanto bato nas letras escuto, no silêncio que separa as palavras, aquela voz conhecida que me diz: “Não é o momento“. Paro e olho para a tela, mas volto a maltratar o teclado e resisto. Em desespero ela volta a dizer “Estar certo não é o suficiente, pois a verdade não tem valor por si; ela precisa promover o bem“.

Reluto, mas sou de súbito tomado por um sentimento de dever, assaltado pelo medo de me calar quando deveria estar puxando as palavras de ordem. “Vai se acovardar?“, me pergunto. Consigo novo alento e termino a derradeira frase. No momento que minha mão se aproxima da tecla “enter” sinto um frio a percorrer a espinha, a sensação de culpa antecipada pela possibilidade de produzir dor e angústia com a ponta afiada de uma verdade. Leio de novo o pequeno parágrafo. Tento conversar com as ideias que eu mesmo coloquei à minha frente. Sou soterrado pela dúvida. A voz novamente me fala “Você consegue“, diz ela. “Sei que é capaz“.

Respiro fundo e apago tudo. Procuro fazer de uma vez só, para não cair na tentação de guardar um trecho na memória e voltar a escrever mais tarde.

Pronto, apagado. Um karma a menos para resgatar.

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Medicina e Sexo

Quando adolescente eu era fascinado por literatura de suspense e mistério. Herdei dos meus tios uma coleção de revistas chamadas “Ellery Queen’s Mistery Magazine”, onde eram publicados contos carregados de ação e tramas detetivescas. Eram histórias cativantes, contos curtos ao estilo dos filmes de Alfred Hitchcock. As histórias me faziam viajar pelas incríveis soluções encontradas pelos detetives para os casos complexos, e minha imaginação embarcava junto com eles para países distantes e exóticos.

De tantos contos lidos naquela época, uma história apenas eu guardo na memória. O resto são flashes desconexos feitos de lembranças, como pedaços soltos de um quebra-cabeças. Esta história me marcou por ser uma história que misturava sexo, mistério e horror.

A trama eu não me recordo em detalhes, mas apenas a cena principal. Uma bela jovem havia sido sequestrada por sujeitos estranhos, que mais tarde se revelaram seres de outro planeta, e levada para uma casa abandonada. Sozinha e nua , amarrada em uma cadeira em um quarto vazio, ela seria violada pelo alienígena chefe, como forma de produzir uma linhagem de seres geneticamente híbridos, “parte humanos, parte ETs”, que seriam o embrião de uma nova civilização cujo objetivo era a conquista do planeta. Todavia, a cena brutal do estupro foi descrita da forma mais estranha possível, e por isso mesmo produziu um choque que após 50 anos ainda não se desfez.

Despido de seu invólucro humano, o alienígena finalmente apareceu diante da moça como verdadeiramente era: um ser disforme, viscoso, esverdeado e com múltiplos tentáculos que faziam o papel das suas mãos. Como um polvo gigante abraçou o corpo da menina envolvendo-a num abraço vigoroso e sexual.

Entretanto, como os alienígenas estavam há tempo estudando nossa espécie, os tentáculos foram milimetricamente direcionados às partes mais sensíveis do corpo da mulher. Os pontos de prazer feminino eram massageados por cada uma das finas e delicadas pontas tentaculares do monstro. O “polvo espacial” nada dizia, não esboçava nenhuma reação, apenas operava mecanicamente, estimulando a sensibilidade da mulher, tornada uma máquina na qual o uso correto de pontos específicos a faria sucumbir ao prazer.

É evidente que isso foi conseguido com sucesso. Diante da manipulação cientificamente calculada, e levando em consideração o estudo aprofundado das terminações nervosas da garota, ela não apenas multiplicou orgasmos, como engravidou da besta interplanetária.

O fim do texto mostrava a própria jovem descrevendo a cena como uma “experiência fantástica“, e que “havia sido tocada como jamais uma mulher o foi“.

A base da história – aparte toda a trama desinteressante e clichê das invasões alienígenas – é de que a sexualidade feminina pode ser despertada e controlada pelo conhecimento científico, pela razão, pelo entendimento da anatomia, pela compreensão do papel dos hormônios e pela determinação exata da topografia do desejo.. A inscrição do gozo estaria no corpo, mediada pelos nervos e hormônios e controlada pelo cérebro.

Até hoje me espanto com a ideia de que a sexualidade pode ser encontrada na superfície. Sempre que vejo essa busca lembro da metáfora do poste de luz, do sujeito e de sua chave. Este, depois de perder suas chaves e procurar por mais de uma hora, encontra um amigo que se apresenta para ajudá-lo. Mais um tempo se passa até que o amigo, confuso, pergunta: “Você tem certeza que a perdeu aqui?”, ao que ele responde: “Eu não a perdi aqui. Eu a perdi lá em baixo na rua, mas lá está escuro demais para procurar.”

Assim o fazemos: como o simbólico é imponderável e invisível, apesar de presente e vibrante, preferimos procurar a fonte do desejo onde ele não está, mas onde é possível enxergar em volta.

Nunca conseguirei entender a razão dessa busca da sexualidade fora da alma humana, e o discurso médico sobre este tema continuará absolutamente incompreensível para mim

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Sexualidade e Medicina

Eu realmente acho que a Medicina tem tanto a dizer sobre “sexualidade” quanto tem a dizer sobre “parto”. Não nego que haja espaço, mas o vejo de uma forma absolutamente diminuta, marginal e relacionada às franjas do debate, e não ao seu núcleo psíquico e conceitual.

Isto é: quase nada, a não ser a avaliação de doenças que podem impedir ou dificultar o desempenho da prática sexual, tipo diabete, neuropatias, distúrbios hormonais, aterosclerose, paraplegia, etc. Imaginar um médico neurologista – ou ginecologistas e urologistas – falando sobre “desejo” chega a me dar calafrios. Falar de DST, tomar banho, lavar o pinto não é debater sexualidade, mas discorrer sobre patologias de transmissão sexual. Fico feliz de ver que hoje em dia a medicina mão fala mais da “orientação sexual”, mas não esqueçam que há poucos anos ela tratava as orientações desviantes da heteronormatividade como patologias. Quando vejo doutorados em sexualidade sob os auspícios de faculdades de medicina eu, francamente, não consigo entender. Para mim “Viagra” e “Cialis” é tudo o que a medicina tem a dizer sobre a sexualidade humana. Vou adiante: para entender a sexualidade humana é essencial abandonar o discurso médico.

Colocar nos genitais, nos hormônios, nas dimensões e nas glândulas o drama da sexualidade humana é o mesmo que colocar no corpo os dilemas do parto. Quanto mais os procuramos nas reentrâncias e saliências, menos percebemos a sua essência etérea e diáfana. “Não o procure nas dobras dos tecidos vaginais, nas protube­rân­cias ósseas, nas contrações ou nas variações dos hormônios. Ele se en­cerra nos pequenos grãos de areia de nossos sonhos, na bruma de palavras disper­sas de um passado distante. Ele se refugia nos sussurros de uma me­nina, na curiosidade infindável que ela carrega e no seu olhar insaciável. O “sexo” e seus mistérios se escondem ao olhar superficial, à análise tímida e ao investigador amedrontado. Para entender o que o comanda, é preciso penetrar nos abis­mos obscuros da alma de uma mulher, lá onde se abrigam seus so­nhos e suas tristezas. Quanto mais profundamente mergulharmos, mas nebu­losa será nossa jornada. Entretanto, apenas assim poderemos encontrar essa semente. É provável que, apenas uma suposição, a chave para essa questão esteja mesmo li­gada a essa fissura aberrante na ordem natural, a qual chamamos amor. E tal­vez, outra mera suposição, para entender o que acontece entre as orelhas de uma mulher, somente se soubermos como encontrar esta chave”.

Até hoje me espanto com a ideia de que a sexualidade pode ser encontrada na superfície. Sempre que vejo essa busca lembro da metáfora do poste de luz, do sujeito e de sua chave. Este, depois de perder suas chaves e procurar por mais de uma hora, encontra um amigo que se apresenta para ajudá-lo. Mais um tempo se passa até que o amigo, confuso, pergunta: “Você tem certeza que a perdeu aqui?”, ao que ele responde: “Eu não a perdi aqui. Eu a perdi lá em baixo na rua, mas lá está escuro demais para procurar.”

Assim o fazemos: como o simbólico é imponderável e invisível, apesar de presente e vibrante, preferimos procurar a fonte do desejo onde ele não está, mas onde é possível enxergar em volta.

O tema lembro também o famoso aforismo socrático que para mim sempre traduziu muito bem este dilema: “A verdade não está nos homens, está entre eles”, ou puxando para nosso assunto, “A sexualidade não está nos sujeitos, mas entre eles”.

Nunca conseguirei entender a razão dessa busca da sexualidade fora da alma humana, e o discurso médico sobre este tema continuará absolutamente incompreensível para mim.

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Lamaze

O que sobra nos dias de hoje dos ensinamentos do obstetra francês Fernand Lamaze? O controle consciente do processo de nascimento por parte da gestante ainda possui espaço na atenção ao parto de hoje? E seu pendor autoritário, ainda encontra defensores entre os pensadores do nascimento humano?

Eu creio que alguns modelos aplicados ao nascimento são – na perspectiva atual – completamente anacrônicos no que diz respeito às suas propostas.

Este é o caso dos modelos baseados na visão de Fernand Lamaze e seus sucessores, como Pierre Vellay, Achiles Economides, Robert Merger e outros, os quais estão conectados aos criadores da psicoprofilaxia do parto, originária da Rússia por Velvovsky que por sua vez se apoiava nos estudos de reflexos condicionados de Pavlov. O modelo de Lamaze se baseia na sugestão e no princípio do “awaken and alert” do “parto sem dor”, da respiração alotrópica e de tantos outros conceitos hoje completamente superados. Vale como documento histórico, mas é bom ressaltar que os “Grupos Lamaze” de educação perinatal de hoje em dia não tem mais conexão com as ideias do seu criador.

Aliás, a visão contemporânea do parto humanizado é exatamente OPOSTA à visão de Lamaze. A visão de atenção ao nascimento de hoje prescreve o apagamento neocortical, e não sua ativação.

De qualquer modo estas perspectivas de meados do século passado tem um grande valor histórico. Nos anos 60 o “parto sem dor” era a grande moda. Todos as cenas de parto do cinema, em especial americano, das décadas 60 e 70 mostravam a mulher “soprando” enquanto conversava com seu marido. A função deste era estimular a ela um contato visual, pedindo-lhe que se mantivesse alerta e desperta. Aos maridos era solicitado que servissem como “ajudantes de ordens” do obstetra.

Nesse modelo o médico seria o “capitão”, o marido seu imediato e a mulher a força da natureza contra a qual ambos agiriam. Isto é: um poder masculino reforçado (médico + marido) enfrentando a mulher e sua fisiologia caótica e indômita. Um choque entre razão e natureza, numa perspectiva patriarcal. Para isso ser efetivado, Lamaze inclusive admitia que “pacientes infantilizadas fossem tratadas de forma autoritária”.

Segundo a Wikipedia, “Lamaze foi criticado por ser excessivamente disciplinador e antifeminista A natureza disciplinar da abordagem de Lamaze para o parto é evidente na descrição de Sheila Kitzinger dos métodos que ele empregou enquanto trabalhava em uma clínica de Paris durante os anos 1950. De acordo com Sheila Kitzinger, Lamaze consistentemente classificou o desempenho das mulheres no parto como ‘excelente’ ao ‘fracasso total’ com base em sua ‘inquietação e gritos’. Aquelas que ‘falhavam’ eram, de acordo com Lamaze, ‘elas próprias responsáveis, porque nutriam dúvidas ou não haviam praticado o suficiente’ e, previsivelmente, mulheres ‘intelectuais’ que ‘faziam muitas perguntas’ eram consideradas por Lamaze como as mais propensas a falhar.

Mas é bem interessante que a mudança da compreensão do parto tenha ocorrido em perfeita sintonia com a troca de percepção da própria mulher na sociedade, numa dança dialética onde um fator reforça o outro e é por ele intensificado.

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Vacinas, cesarianas e cadeias

Será o nosso pedido desesperado por “vacinas” mais um clamor pelas soluções mágicas, o qual esconde nosso temor de encarar os verdadeiros desafios?

Ainda hoje eu escutava pessoas sendo entrevistadas no rádio e pedindo às autoridades nacionais e mundiais que se encontre de imediato a solução para esta pandemia e um apelo pela criação e distribuição de vacinas. Não é difícil entender que, nesse momento de angústia disseminada, pedidos como este sejam voz corrente entre a população. Todavia, é necessário ir além dos pedidos desesperados para entender o significado dessa busca por soluções.

Da mesma forma, logo depois de um caso dramático de crime, os gritos são por mais segurança, mais polícia, mais repressão aos delitos e mais rapidez nas sentenças. Criar presídios, cadeias, justiça mais rápida e encarceramento parecem soluções adequadas e ágeis. Acreditamos que quanto maior a repressão melhores os resultados, na crença de que a impunidade é a grande estimuladora das contravenções. A experiência acumulada sobre o encarceramento, em especial em países com doutrinas positivistas hegemônicas, mostra o oposto: o encarceramento em massa jamais solucionou o drama da criminalidade.

Também com as cesarianas pensamos dessa forma imediatista; basta um caso isolado de problemas no parto normal para pedirmos mais cesarianas e mais tecnologia aplicada ao parto, com a fé de que as intervenções tecnológicas no nascimento produzem mais segurança, mesmo que as evidências apontem o contrário.

Vacinas, cesarianas e cadeias tem espaço nas sociedades contemporâneas, sem dúvida. Todas elas podem salvar vidas, ou evitar que outras vidas sejam perdidas. Entretanto, o uso dessas alternativas aponta para inequívocas falhas estruturais, erros na arquitetura básica da sociedade, e estas soluções podem servir apenas para nos oferecer um alívio temporário para doenças crônicas e insidiosas.

Não acredito que a solução para os dilemas do parto será pelo incremento de mais tecnologia, mas pela compreensão que grande parte dos transtornos do parto ocorre pela sua inserção numa cultura capitalista e que enxerga as mulheres e seus ciclos de forma diminutiva, olhando-as com lentes invertidas que as tornam defectivas, incapazes, insuficientes e indignas de confiança. A falta de protagonismo das mulheres aos seus ciclos é a falha essencial, e o incremento das intervenções aparece como o sintoma, mas não será jamais sua solução.

A repressão policial violenta vai ocorrer em sociedades desiguais e inerentemente injustas, e sempre será usada para conter a natural reação dos oprimidos às injustiças e à iniquidade. A força bruta será o meio de controle social enquanto a ferida aberta da desigualdade continuar sangrando, fazendo um enorme e crescente contingente de pobres e miseráveis ser contido através da violência. Sem que a real doença social do capitalismo seja curada, não haverá polícias e presídios suficientes para conter a revolta dos esquecidos.

Hoje gritamos por vacinas porque elas entram como a solução tecnológica para uma relação absolutamente disfuncional do homem com a natureza. Da mesma maneira, se não for modificada a nossa relação com ela, nenhuma vacina será suficiente, pois para cada anticorpo produzido dezenas de outros antígenos esperam na fila para atacar os corpos humanos. A raiz deste problema não se encontra na falta de tecnologia para encontrar os remédios, mas no excesso de intervenção na delicada tessitura da natureza, onde somos apenas um dos tantos prejudicados.

Vacinas, cesarianas e cadeias jamais serão soluções definitivas para o dilema humano. Nossa relação desequilibrada com a natureza, com a distribuição das riquezas e o desrespeito com o feminino e seus ciclos são expressões de violência que denunciam paradigmas disfuncionais subjacentes. Somente olhando de frente para estes dilemas teremos um mundo mais justo, igual e saudável.

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Sedução

Creio mesmo ser verdade que a regra número um para atrair uma mulher desconhecida em um evento público é NÃO lhe dar muita atenção e tratá-la até com certo “desdém”. O mesmo vale para atrair um homem.

Mas veja, esse tipo de atitude tem como função despertar o interesse e a curiosidade no outro, pois coloca o objeto da conquista em uma posição pouco acessível, portanto passível de ser conquistada.

Isso explica o choro e ranger de dentes quando a(o) parceira(o) que tanto desprezamos vai embora. Subitamente o que era “garantido” torna-se novamente conquistável e o interesse retorna. Basta tornar o que era firme em algo “solto”.

O problema todo é o uso do termo “tratar mal”, ao estilo “mulher gosta de homem que a trata mal“. Esta é outra coisa. Ser estúpido(a) ou violento(a) nunca é uma boa estratégia, mesmo sendo capaz de atrair masoquistas e mendigos(as) de afeto. Mas quando “tratar mal” significa apenas desviar e não oferecer o foco da atenção à pessoa (que em verdade desejamos), aí pode ser uma fantástica estratégia. Está no livro “O Jogo” para quem quiser aprender.

Homem gosta de mulher que o trata mal“, pode ser lido como “homem gosta de mulher que não oferece a si mesma como terra conquistada“. Pode parecer um “mal trato”, mas não é; é uma estratégia inteligente para manter o desejo e a conquista como metas a serem alcançadas.

Isso me lembra de uma outra frase manjada, muito usada na minha época, que era: “Eu gosto mesmo é de mulher difícil“, que pode resumir tudo o que escrevi acima. O sujeito sequer gosta da mulher, curte apenas a conquista e a sensação que ela lhe traz.

Como eu sou um humanista não creio que exista diferença moral (ou intelectual) entre homens e mulheres. Não creio que os homens sejam mais grosseiros e estúpidos que as mulheres, e nem mais doces e cândidos que elas. Assim, a gentileza dos homens não deve ser vista como uma virtude suprema, tampouco a das mulheres.

Não esqueça que a “falsa” gentileza dele tem inúmeras contrapartidas do lado de lá….

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Agressões

Conheci muita gente com “lesão por esforços repetitivos” (LER), em especial na enfermagem. A história dessas pessoas era sempre muito parecida: excesso de esforço em uma parte específica do corpo, causada por movimentos realizados de forma não natural, prejudicando principalmente as articulações.

Muitas delas procuravam a homeopatia porque os anti-inflamatórios que estavam usando causavam muitos efeitos colaterais, principalmente epigastralgia (queimação no estômago). O uso continuado dessas drogas era uma marca registrada dos profissionais com lesões causadas pelo seu trabalho.

“Preciso de algo mais suave para melhorar essas dores nas articulações”, diziam. Alguns deles já tinham até tirado licença médica por serem incapazes de movimentos simples, que causavam intensa dor.

Sempre que lembro desses relatos eu penso nos memes contemporâneos pedindo “vacinas”. As pessoas com estas lesões articulares pediam remédios para suas dores sem perceber sua origem e a forma como foram construídas ao longo do tempo. Esqueciam do mau uso do seu corpo, consequência de uma forma errada de trabalhar, seja por falta de equipamento ou por falta de colegas com quem dividir as tarefas pesadas, mas acreditavam que acrescentar uma droga – por vezes violenta e lesiva – à equação poderia dar-lhes condição para continuarem produzindo; como máquinas pedindo mais lubrificante.

A vacina é agora pedida por todos porque ignoramos – ou fechamos os olhos – às causas inequívocas das pandemias: a agressão constante e predatória ao meio ambiente por um capitalismo desconectado com o equilíbrio ecológico da biosfera. Uma violência continuada contra as outras vidas que compartilham conosco o espaço limitado do planeta.

Assim como os anti-inflamatórios, a vacina entraria para tornar possível manter a vida sem mudar a forma equivocada como a levamos. Seria a alternativa para manter os erros suicidas até agora cometidos sem precisar questioná-los. Vacinas seriam usadas para manter a nossa vida “normal”, sem percebermos que era exatamente esta “normalidade” que estava nos aniquilando.

Sabemos que isso não vai funcionar, mas nos agarramos nessa tábua de salvação apenas pela covardia de encarar a mudança inevitável e necessária. Não se trata de rejeitar as vacinas, mas entendê-las como “esmola” que, como sabemos, servem para aliviar as dores da fome sem contudo eliminar suas origens. Se oferecermos vacinas nestas circunstâncias – achando que vão ajudar localmente e temporariamente – então podemos estar certos. Todavia, se acreditarmos que as vacinas são a solução para um mundo detonado pela visão predatória e consumista, estaremos mais uma vez errando de forma dramática.

A imagem que sempre usei nesses casos era a de uma paciente que entra num consultório médico batendo com um martelo na própria cabeça. Sem interromper seu ato de auto agressão ela pergunta ao médico: “Dr, preciso de um remédio para a minha dor de cabeça. O senhor pode me ajudar?”.

A única ajuda honesta de tratar uma queixa como essa é pedir que deixe de se agredir e jogue fora o martelo; o resto é paliativo e passageiro.

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Exemplos

Exaltar personalidades é sempre ficar refém de suas atitudes. Por isso mesmo é importante deixar o entusiasmo de lado para não se enganar com fatos isolados que, muitas vezes, são produzidos de forma oportunista. No mundo do espetáculo tudo é fantasia e nada é de graça. Diante da pergunta “qual o verdadeiro Neymar?”, eu arriscaria dizer “nenhum dos dois”….

O jogador fazendo festa com os parça com muita mulher, cerveja e pagode. Muito brega, muito kitsch, muito caro mas, afinal, de que vale tanto sacrifício se não foi possível aproveitar com estes exageros e com os arroubos que ocorrem nestas comemorações?

Um menino que passou a ser vigiado desde cedo, amado pela torcida ainda na infância, adorado por fãs, reverenciado por críticos do futebol não tem condições de ver a vida a não ser por esta perspectiva de “centro do mundo”.

Cobrar dele que tenha consciência social não faz sentido, pois o mundo gira em torno de suas chuteiras. Ele jamais foi devidamente ensinado a ter limites, pois a cada ato irresponsável havia um tratamento de “príncipe temperamental” reservado a ele.

No fundo a gente queria que o garoto mentisse um pouco, que nos oferecesse uma imagem pública de respeito aos outros, que fosse mais solidário nas aparências e que levasse uma mensagem mais positiva para os meninos e meninas que admiram seu futebol.

Mas eu creio que ele não seja capaz disso. Sequer uma imagem fabricada e falsa de responsabilidade social e respeito ele admite assumir. Parece mesmo que ele sequer precisa fingir o que não é.

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Ócio

Passei a vida inteira escutando gente se dizendo “workaholic”, como se isso fosse uma virtude, como se trabalhar como uma máquina fosse algo bonito ou nobre, afirmando “não ter tempo”, dando a entender que essa falta era algo admirável e lhe conferia valor e importância. Pois eu digo que boa parte desses sujeitos colocam “stent” no coração aos 45 anos, estão impotentes, obesos, angustiados, solitários, sem amores, pagando pensão e carregados de remorsos. Estão cercados de coisas, objetos, posses, “cargo”, com os quais desenvolvem relações afetivas imaginárias e doentias.

Eu sempre me contrapus a essa ideologia com veemência. Sempre achei que um sujeito não pode ser definido apenas pela sua função social e passei a defender o ócio e o lazer como armas potentes para enfrentar a desumanização do capitalismo. Sempre tive arrepios quando as pessoas usavam desculpas estúpidas para “cancelar o Carnaval”, economizando com lazer, não investindo em música, teatro ou arte e usando como argumento a ideia de que esse dinheiro seria mais bem usado em hospitais e ensino de qualidade.

MENTIRA!!! O lazer é tão importante quanto uma escola ou um hospital, e música é tão importante quanto medicina!! A diversão é uma parte sagrada da vida. Sem o ócio não teríamos 80% da produção literária do mundo; sem a diversão seríamos uma espécie eficiente, porém robotizada, doente e infeliz. Observe bem: quem faz esse discurso sobre a “sacralidade do trabalho”, pela dedicação ao serviço, pedindo para “vestirem a camiseta da empresa” são os patrões, pois eles tem seu lazer garantido pela maisvalia que subtraem do serviço alheio. Todavia, acham que o prazer dos outros é um desperdício imoral…

Esta é uma causa que nos cabe seguir!!! Pelo direito à vagabundagem, aos passeios, a ficar com as crianças, ver uma série na TV, sair de férias, nadar no rio, jogar cartas, ter um hobbie, namorar a vontade e brincar sem culpa. Pelo fim da escravidão moderna!!!

Para ler mais sobre o tema, veja aqui um texto de 2013 sobre a mesma questão.

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