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Ciclos abertos

Para quem já passou por uma tragédia – grande ou pequena – a falta de um fechamento é a dor que mais machuca a alma. Sou da geração que procurava o Carlinhos, um menino carioca que desapareceu (provavelmente sequestrado e morto). Juntos acompanhamos a dor de uma mãe que se martirizou aguardando uma ligação e um reencontro que nunca veio. Isso me marcou. Comecei a entender a importância de, em uma guerra, enterrar seus mortos. Os ciclos precisam ser encerrados para que o sujeito possa ter paz e seu luto respeitado.

Para quem sofre por uma notícia que não chega a dor é renovada a cada noite, pois não permite ao espirito descansar. Pior ainda foram as centenas de crianças, adolescentes e até adultos, que por loucura ou oportunismo, diziam ser Carlinhos. Imagine a dor de quem, após surgir uma esperança, despenca de volta para a desilusão. Não há tormento maior….

O livro do Marcelo Paiva, que deu origem ao filme “Ainda Estamos Aqui”, também traz a perspectiva de uma família da classe média alta sobre a questão dos desaparecidos. Aqui ainda não se dá importância devida às mortes dos Amarildos e de todos os pobres que são executados pela polícia militar. De qualquer modo, o depoimento de pessoas que passaram pelo horror das ditaduras, em especial os que sofreram nas mãos desses militares medíocres, precisa ser contada, e os torturadores, sequestradores e assassinos expostos. Só assim para não repetirmos os erros tantas vezes cometidos.

Quem é da minha geração viu essa foto milhares de vezes…

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Rock and Roll

Aprendam uma lição de uma vez por todas, seguidores do Mito: “Se o proletário tudo produz a ele tudo pertence”. Todo sujeito que tenta desfazer as conquistas do socialismo dizendo “você é um socialista de iPhone” demonstra de forma cabal que não estudou nada na vida, em especial sobre o marxismo. Quem confunde socialismo com voto de pobreza não entendeu coisa alguma do que sejam os pontos fundamentais do marxismo. Quem é pobre por escolha é franciscano, não comunista. O comunismo defende iPhone, carros, joias e luxo para todos enquanto os baba-ovos de ricos defendem que só os vagabundos que não trabalham e ganham dinheiro através de roubo e herança tenham acesso à riqueza. Entretanto, os burgueses ricos sabem que para que 1% dos ricos continuem tendo acesso a 70% das riquezas de um país é necessário que tolos das camadas mais pobres os defendam. Essa é a função dos alienados, dos carentes de consciência de classe, por isso são chamados de pobres de direita e capitalistas sem capital.

Muitas vezes o sujeito é preto e pobre, mas defende os ricos que passam a mão na sua bunda. Esse é o melhor exemplo de sabujo que se pode ter: o explorado que apoia a própria exploração. Isso acontece muito no universo do Rock, mas comprova o que se diz há muito tempo: a prova inconteste da sua morte. Um lugar infestado de babacas de direita, pobres sem futuro, capitalistas sem capital e puxa sacos de milionários só pode ser encontrado em um movimento em estado terminal. Um lugar que se adaptou à sociedade capitalista decadente perdeu totalmente sua força e sua rebeldia. Nos grupos de roqueiros, além dos nazistas declarados, só vejo mortos vivos, tolos e cegos caminhando trôpegos pela rua, com suas camisas da seleção, exaltando torturadores, gritando “eu autorizo” e atacando a justiça social. Estes serão atropelados pela história e serão engolidos pelas grandes massas que exigirão uma sociedade mais justa.

O rock & roll é a face mais evidente de um fim de festa. É a imagem da morte de um modelo baseado na rebeldia e na contestação, mas que hoje desistiu da luta. Seus ídolos estão velhos, cansados ou mortos, e a nova geração aderiu ao comodismo do sucesso e do dinheiro. Hoje, sua imagem é de bolsominions fracassados e quarentões, de cabelos compridos, barrigas salientes, vestindo uma rebeldia tão falsa quando ridícula. Músicos de garagem que só tocam no fim de semana, se entopem de remédios, são brochas e batem na mulher, enquanto pegam travesti no sigilo e fazem coro com a massa de pobres de direita que gritam “Mito!!” pelas ruas de Copacabana.

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Medicina de Primeiro Mundo

“Quando criança eu adorava ver os filmes de médicos, como Dr. Kildare e Marcus Welby Md e depois os seriados como Plantão Médico e Gray’s Anatomy. Eu queria ser o Dr. Doug Ross, o George Clooney de estetoscópio no pescoço. Meu sonho sempre foi ser um médico americano rico, como nas fantasias das séries e dos filmes que assisti”

Quando alguém me disse contou essa fantasia eu imediatamente lembrei do meu colega Erick, com quem conversei em Cleveland, um jovem médico de família que trabalhava no hospital de clínicas da Case Western Reserve University. Perguntei a ele como eram as atribulações jurídicas dos profissionais do hospital, pois a ideia geral no Brasil é de que os médicos americanos passam boa parte do seu tempo preocupados com isso. Ele respondeu que os processos são o cotidiano de qualquer profissional. Todos passam por isso, sem exceção. Contou de um recente caso em que esteve envolvido no qual o hospital acabara de pagar 8 mil dólares num acerto pré-judicial entre as partes como indenização por uma cirurgia de circuncisão que havia feita em um recém-nascido.

Eu ja escrevi vários textos sobre cirurgias ritualísticas e mutilatórias da medicina ocidental” exatamente para falar sobre a obsessão americana por esta operação, que não apresenta nenhuma vantagem para os pacientes e pode produzir sérios danos para os meninos, em especial na queda da sensibilidade e no desempenho sexual. É a “episiotomia” dos meninos. Perguntei a ele a razão do processo, e pensei em uma tragédia como infecção, necrose, amputação, etc

– Não, nada disso. Foi algo bem tranquilo, mas a família reclamou porque julgou que eu havia cortado muito pouco.

Perguntei se ele acreditava que um juiz daria ganho de caso para um pedido tão absurdo dos familiares como este, ao que ele respondeu: “Não, nós certamente ganharíamos, mas as custas judiciais chegariam a 9 mil dólares, então preferimos pagar 8 mil para a família. Assim ficou melhor, não acha?”

Não, não ficou melhor, pensei eu. Esse tipo de atitude aparentemente conciliatória estimula a famigerada indústria dos processos médicos que têm na medicina americana o seu local de maior florescimento. Esses dólares gastos com processos fúteis na verdade alimentam bancas de advogados que enriquecem às custas da exploração destes casos. É por histórias como essa, que colhi de muitos médicos que conheci nos Estados Unidos, é que tenho certeza que jamais me adaptaria a trabalhar um contexto médico como o americano. Lembro de conversar com estudantes de medicina de lá que me contavam que a lógica para montar um consultório era a mesma que era utilizada para abrir uma sapataria. O mesmo tipo de publicidade, o oferecimento de “modelos da moda”, a mesma busca por doenças atuais, a febre por equipamentos sofisticados, a publicidade abusiva, a busca por soluções químicas ou tecnológicas, etc. Dinheiro, essa era a palavra mágica.

Não apenas isso. Os médicos contratados por clínicas ou hospitais se tornam escravos de luxo do sistema, mas precisam dar lucro para as instituições e para a indústria – farmacêutica, hospitalar, de insumos, etc. O médico não recebe nenhum respeito destas instituições contratantes; ele é estimulado para que seu trabalho gere dividendos para a empresa. A comparação com o futebol faz todo sentido: “você vai jogar no nosso time, mas tem que fazer gol. E o gol não é a saúde do paciente, mas o lucro de quem lhe paga. Não pense que poderá tratar seus clientes como deseja; você é uma engrenagem da nossa máquina”.

A qualidade de vida do médico americano não é nada boa. De acordo com pesquisas, 1 entre 15 médicos tem ideias suicidas. O stress jurídico, a carga horária, o distanciamento afetivo dos pacientes, os custos de um consultório, etc tornam essa profissão algo que os próprios americanos não desejam mais. Pense bem: por que 27% dos médicos americanos não estudaram medicina nos Estados Unidos? Estima-se que os estados Unidos deverão enfrentar uma enorme escassez de médicos para os próximos anos, chegando a uma falta de 124.000 médicos no ano de 2033. A propósito, um fenômeno importado da Inglaterra, onde 37% dos médicos ingleses não são formados no Reino Unido. Também a Austrália, com 22% de estrangeiros e o Canadá com 17% seguem esse caminho – todos países dersenvolvidos e com o mesmo problema de uma medicina altamente judicializada. Mais ainda: por que estão convidando médicos de outros países para trabalharem lá? As propagandas nas redes sociais chamando profissionais da medicina para vagas nos Estados Unidos são uma clara demonstração desse problema. Estão oferecendo vantagens para que médicos aceitem trabalhar num modelo de saúde que, apesar se ser altamente tecnológico, tem os piores resultados entre todas as nações industrializadas do planeta. Os Estados Unidos estão além do 50º lugar em mortalidade neonatal, e um dos poucos lugares onde a mortalidade materna aumenta. Os custos para os pacientes são impactantes, e milhares de americanos vão à falência por transtornos médicos que, no Brasil, seriam financiados pelo Estado. Nos Estados Unidos 500 mil famílias por ano perdem tudo por dívidas com os hospitais. Meio milhão de famílias! Este é o lugar onde as pessoas se recusam a chamar uma ambulância por medo dos custos, e onde a saúde não é um direito universal de todo cidadão, mas um produto que é comprado apenas por quem tem dinheiro.

Sim, os americanos que vivem no país (ainda) mais rico do planeta têm um sistema de saúde caótico, totalmente privatizado, de resultados tremendamente ruins, onde os médicos são maltratados e se tornam reféns de uma estratégia de atenção à saúde baseada no lucro. Nesse modelo a saúde dos pacientes não é a prioridade. Não esqueçam que lá, em especial, o bem-estar das pessoas é contraproducente: não gera lucro, não movimenta a economia e não produz riqueza. Por outro lado, uma população doente lota os consultórios, consome consultas de emergência, realiza internações e compra remédios. Esta é a mesma lógica capitalista usada em qualquer sociedade baseada no consumo: a infelicidade é estimulada pela propaganda porque se descobriu que gente feliz não precisa comprar coisas.

É preciso muita coragem para se aventurar na medicina americana, o pior sistema de saúde jamais gerado pela humanidade.

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Elogio

Meu pai, em sua longa vida, jamais se abateu com os ataques que lhe foram dirigidos por aqueles que não aceitavam suas ideias ou propostas, e nunca cedeu à tentação do revide ou do ressentimento. Entretanto, não gostava de elogios e homenagens, pois sabia do poder altamente destrutivo dos aplausos. Nesse aspecto era freudiano; entre suas frases mais famosas, o mestre austríaco deixou esta sobre o tema: “podemos nos defender dos ataques, mas somos indefesos diante de um elogio”.

O elogio penetra em nossa mente pelas frestas criadas pela vaidade. É por ali, e não pela potência dos murros, que se derruba um sujeito. Meu pai bem sabia de suas fragilidades; dizia ele que é preciso ser excepcionalmente forte para receber um elogio e não se deixar contaminar por ele. Freud, quando se dirigia aos médicos, inebriados pelos elogios e juras de amor de suas pacientes, alertava: “Não sejam tolos, estes elogios não são para vocês mas para quem representam no imaginário dessas moças”. O mesmo acontece conosco: muitos elogios que lançamos são, em verdade, autoelogios, que exaltam nossa capacidade de enxergar virtude no outro, esperando que, em contrapartida, as nossas qualidades sejam igualmente notadas. Em verdade, caso queira destruir um sujeito, não é necessário que as investidas venham de fora, seja por ataques físicos ou atingindo a sua moral; basta inflar seu ego e esperar que a ilusão de grandeza o destrua por dentro.

Não há como discordar desta posição do meu pai. Os elogios e as bajulações são perniciosos e destrutivos, e as críticas nossos melhores conselheiros. Aceitar os elogios e rejeitar as reprovações é um passo certeiro para o fracasso de nossos mais altos projetos. Uma postura reservada e comedida impede que a vaidade nos destrua por dentro, através do engano e da ilusão.

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Casamentos

“Nenhum casamento é suportável se as pessoas não se modificam, não mudam. Por isso, case-se várias vezes, de preferência com a mesma pessoa”.

A necessidade renovação, transformação e mudança para se adaptar às distintas fases da vida, em especial no que diz respeito à vida amorosa, é um dos mais antigos axiomas sobre os casamentos. Afinal, quando casamos com alguém certamente esta pessoa se transformará em outras pessoas dentro daquele mesmo sujeito; igualmente quando nos separamos esta será uma pessoa muito distinta daquela com quem iniciamos uma jornada de casal. Portanto, a mudança é mandatória. Nada há de novo nestes conselhos, inclusive a ideia de “casar muitas vezes” com o mesmo parceiro. A questão é que esta perspectiva sobre as uniões parte de uma visão rígida sobre o casamento, tratando-o como se fosse um evento social sagrado e por demais precioso, que precisa ser preservado a todo custo. É inegável a importância que as civilizações emprestaram à união dos casais, pois que o reconhecimento do Estado garantia compromissos de cuidado por parte dos maridos, e de fertilidade e fidelidade por parte das esposas. Estes são, sem dúvida alguma, valores primordiais, essenciais para a sobrevivência de qualquer grupo. Não seria possível a grande revolução da agricultura e do sedentarismo ocorrida no paleolítico superior não fosse a adoção destas medidas de controle social. Não à toa, as uniões de casais são descritas como  o ápice e o centro da estrutura social, pela sua importância na continuidade da espécie. Entretanto, é possível que hoje exista um exagero sobre esta forma de ver a vida “a dois”. Talvez a forma como vemos os relacionamentos precise ser refeita.

No ano passado, o número de uniões civis no Japão caiu pela primeira vez desde o anos anteriores a segunda guerra mundial. Ao lado disso, e por consequência, os nascimentos caíram 5.1% , chegando a 758 mil por ano, numero que o Instituto Nacional de Pesquisa Populacional e Previdência Social esperavam só ser alcançado em 2035. Ou seja: a baixa de casamentos leva à baixa de natalidade. A falta de jovens e o envelhecimento da população é um problema grave para a economia de qualquer país. Em 1982 o número de nascimentos no Japão foi de 1,5 milhão, quase o dobro do que se vê agora. A taxa de fertilidade – a média de nascimentos por cada mulher – caiu para 1,3, um valor trágico se levarmos em consideração que a taxa necessária para manter uma população estável; é de 2,1. Os falecimentos ultrapassam os nascimentos por mais de uma década. Assim, no Japão mais pessoas são enterradas do que paridas há mais de 10 anos. Em uma aldeia japonesa chamada Kawakami não houve o nascimento de nenhuma criança em 25 anos. Esta localidade já teve 6 mil moradores nos anos 80, e hoje não tem mais do que 1.150 habitantes. Será o Japão um fato isolado? Serão os japoneses o tubo de ensaio de uma crise de natalidade grave que atingirá o mundo inteiro?

Talvez o casamento não seja tudo isso. Apesar da importância que ainda vemos neste tipo de união civil – que pode ser medida pelos custos de uma cerimônia para as classes abastadas – é possível que o casamento como o conhecemos, que inclui os filhos, a monogamia, a coabitação, os projetos compartilhados, etc., tenha sido uma moda passageira na história da humanidade, uma forma intermediária para acomodar necessidades específicas, e tão somente um subproduto do patriarcado, criado para manter o controle sobre as mulheres, a procriação e a descendência. Hoje em dia o casamento é criticado como nunca e duramente questionado sobre seu real valor, e para alguns parece evidente que ele tem seus dias contados por não oferecer aos casais a liberdade e a autonomia que tanto almejam. A lenta decadência do modelo patriarcal talvez leve consigo alguns elementos que hoje são comuns, mas que talvez se tornem raridade no futuro: as parcerias eternas, os casais de velhinhos e o almoço de domingo na casa dos avós. Quem sabe que tipo de sociedade diferente vai surgir quando desta instituição sobrar apenas uma vaga memória.

Por fim, a questão dos casamentos, seu significado e seu futuro, são determinantes para as sociedades contemporâneas. Por mais que existam questões sobre os valores inseridos no casamento, ainda haverá a necessidade de ajustar os afetos, o desejo sexual e a criação das crianças, fruto destas uniões. Sem a figura do casal heterossexual como a única forma de expressão dessas uniões, como vai ser a construção desta nova sociedade? Sobre quais valores se assentará e como será a arquitetura das famílias do século XXII? As pessoas da minha geração, em especial aquelas contaminadas pelo romantismo e que nasceram sob a égide da família nuclear, por certo não terão a oportunidade, ou o tempo de vida suficiente, para testemunhar este mundo sem casais e sem juras de amor eterno; não teremos a chance de vivenciar as dores e os sabores deste mundo novo e desafiante. Entretanto, é inevitável a curiosidade em saber se o modelo que virá para garantir o afeto e o cuidado das crianças terá tanto sucesso quanto o amor romântico teve na história do planeta.

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Nu com a mão no bolso

Em Barcelona a nudez não é criminalizada. Esta é uma postura da cidade muito antiga, conhecida por todos que a visitam. Se você quiser pode andar pelado na rua sem que isso seja tratado como delito. Existe um barcelonês (foto) peladão que ficou famoso por tatuar suas nádegas como se fosse um calção e que circula pela Rambla todos os dias. Ou seja: a nudez é um direito dos cidadãos e ninguém pode ser admoestado, criticado ou processado por andar nu. Também no norte da Europa, em especial na Suécia, é comum ver estudantes adolescentes (meninos e meninas) correndo nus pela rua festejando a chegada da primavera, como uma diversão juvenil, sem que isso seja visto como atentado ao pudor.

Enquanto isso, no Brasil, uma mulher foi presa por transitar pelo congresso em Brasília vestindo apenas a sua própria pele. Aqui, na minha cidade, o mesmo aconteceu há alguns anos com uma moça que adentrou um shopping usando sobre o corpo apenas batom e o esmalte das unhas. Ambas foram cercadas imediatamente, cobertas, levadas à delegacia e tratadas como criminosas. Afinal, como ousam desafiar os costumes mostrando suas vergonhas em público? Por certo que, fossem homens, e ainda levariam pipocos e um sonífero mata-leão. Caso alguma dessas cenas viesse a passar na televisão de Barcelona por certo que seus habitantes se espantariam com a ação policial em um caso de nudez. Alguns teriam mesmo se horrorizado com a atitude bárbara de agentes do Estado prendendo cidadãs apenas por terem passeado nuas pela cidade. “Por acaso o corpo é indecente, imoral ou agressivo aos olhos?”, perguntariam. “Não nascemos todos nus? Não andam nus os indígenas e os pequenos?”

No outro lado do mundo mulheres são criticadas e algumas até presas por não usarem o véu. Quando acontece no Irã muito se noticia cada vez que uma mulher sofre algum tipo de violência, física ou moral, por se contrapor aos costumes vigentes e à etiqueta islâmica ao vestir. Os jornais ocidentais escrevem infinitas colunas e imprimem manchetes escandalosas descrevendo a sociedade iraniana como machista, desrespeitosa com as mulheres e cerceadora de suas liberdades. Aqui no ocidente acreditamos ser esta uma violação inaceitável ao direito das mulheres – ou das pessoas em geral – de se vestirem como desejam. Criticamos, atacamos e acusamos os iranianos de serem machistas, atrasados e misóginos, porque não aceitamos que a sociedade determine o que uma mulher pode usar para se cobrir – ou não.

Para um sujeito de Barcelona deve ser confuso nos ver apontando os dedos acusatórios para a cultura iraniana por fazer – em essência – exatamente o mesmo que nós. O que os peitos e as nádegas têm de proibitivo aqui, as madeixas tem por lá. No fim, será sempre a tentativa de cercear a liberdade do outro de se expressar como bem entender. Somos diferentes na superfície e naquilo que censuramos, mas na essência somos por demais semelhantes.

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Rosebud

Há alguns dias, meu neto de 8 anos veio me pedir para ajudá-lo a fazer uma maquete para levar à escola. Era necessário unir 3 latas de café para fazer uma torre. Entregou para mim as latas para que fossem unidas com fita colante. Quando peguei as latas percebi que estavam vazias mas com as paredes ainda sujas de café.

– Precisa limpar, Zuki, senão vão ficar cheirando a café.

Levei até a pia e comecei a lavar. Ele ficou me olhando por alguns instantes, deu um sorriso e comentou:

– Que sorte eu pedir ajuda exatamente para o especialista.

Na divisão de tarefas da Comuna coube a mim a função de lavar a louça. Esta não era das tarefas mais disputadas entre as que estavam sobre a mesa; afinal já somos 11 comunas, fora os convidados esporádicos; por certo que era uma das funções menos desejadas. Entretanto, lavar a louca, nunca foi um peso para mim. Ao longo dos anos desenvolvi técnicas para fazer deste tempo algo produtivo. Coloco fones de ouvido e fico ouvindo podcasts, entrevistas, as notícias do dia, às vezes músicas e o tempo passa muito rápido.

Entretanto, esta é tão somente uma meia verdade; de certa forma é apenas uma racionalização barata. Mesmo sem as “técnicas”, a verdade é que eu gosto de lavar a louça. Gosto do barulho da água, de organizar os pratos, dos gestos repetitivos e calmantes com a esponja, do cheiro do sabão e de ver tudo limpo no final. Tenho o costume de lavar a própria pia após a tarefa, até deixá-la brilhando. Quando quis descobrir a chave para explicar este meu estranho gosto lembrei que quando criança minha mãe colocava eu e meu irmão mais velho a ajudá-la nas tarefas após o almoço. Era uma rotina diária, e só podíamos brincar depois de terminá-la. Quando bem pequenos ela contava histórias sobre as aventuras de dois garotos: Patrick e Bolão. Quando ficamos mais velhos, ela ligava o rádio e ficávamos escutando “2001”, um programa de ciência narrado por Flávio Alcaraz Gomes, ícone do rádio gaúcho, transmitido pela saudosa Rádio Guaíba (que ainda existe, mas se transformou em um antro bolsonarista). Aliás, foi ele quem adaptou para o rádio brasileiro a “Guerra dos Mundos“, de Orson Welles.

Por certo que a lembrança destas cenas de convívio com a minha mãe no passado criaram pontos de luz na memória, transformando uma tarefa enfadonha em uma atividade quase lúdica. Lá nas profundezas escuras do meu inconsciente profundo ainda escuto a voz da minha mãe contando as histórias enquanto passo detergente nas panelas. Na verdade, qualquer sujeito que procure atividades prazerosas em sua vida acabará encontrando conexões com fatos escondidos do passado.

Em Cidadão Kane o protagonista morre dizendo o nome do fabricante do trenó com o qual brincava no dia em que foi levado de casa para viver com a família que o adotou. Orson Welles desejava, mostrar que a construção do Império jornalístico de Charles Foster Kane (baseado no barão do jornalismo americano William Randolph Hearst) estava ancorada em um trauma do passado: o desligamento precoce dos laços que tinha com a mãe e a família. Aliás, o fato de Kane ter o nome do meio “Foster” (adotivo) já deveria nos acender um alerta. Sua fortuna imensa e seu poder estavam concentrados na solução da dor profunda criada naquele dia, como um buraco negro poderoso que o sugava de volta para aquele momento decisivo.

Todos carregamos nossos “Rosebud” particulares; eles podem ser vistos em nossas manias, fixações, desejos, fetiches, taras e prazeres. Somos constituídos por estas marcas feitas de lembranças do passado, que nos ligam ao prazer e à dor de forma intensa e vívida, mesmo quando a conexão consciente já foi há muito perdida na neblina do tempo.

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Ranking

Mais uma vez eu vi a expressão “pessoa de alto valor”, que é muito usada por esses coaches de relacionamento que instituíram uma espécie de métrica para os sujeitos no que diz respeito à sua capacidade de atrair. Funciona como se cada um de nós fosse um personagem de RPG que tem “x” pontos de beleza, outros de dinheiro, uma pontuação por sua família, outros pontos obtidos por formação, outros por carisma e no final o indivíduo tem um “score” que vai lhe garantir uma posição no ranking do seu gênero. Tudo isso parecendo um capítulo de “Black mirror”.

Isso funcionaria se os elementos perceptíveis e objetivos de cada um de nós fossem os únicos determinantes das escolhas sexuais. Entretanto, é enganoso pensar assim. Somos um gigantesco núcleo de medos, cobertos por uma capa de crenças inconscientes e irracionais, e sobre ela repousa uma fina e translúcida camada de racionalidade, uma fachada enganosa e diáfana, que nos oferece o diferencial da razão. Este fino verniz nos afasta dos medos criando uma sensação de controle sobre a natureza. A fina camada cinzenta que recobre nosso cérebro, uma novidade no processo evolutivo, oferece alternativas racionais às escolhas cotidianas, ao mesmo tempo em que nos ilude fazendo crer em uma luminescência apenas aparente.

Somos dominados pelas trevas do inconsciente, e o calabouço sombrio e úmido onde ele impera conduz nossas escolhas afetivas de forma muito mais efetiva que os elementos objetivos destes escores contemporâneos. Aliás, prefiro crer no “amor à primeira vista” e nas “almas gêmeas” do que acreditar que essas pontuações objetivas possam produzir qualquer vantagem na busca por um parceiro ou parceira para a vida. No que diz respeito ao amor, confio mais nos meus intestinos do que na minha cabeça.

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Millôr

Quando adolescente e jovem sempre fui fã do jornalista Millôr Fernandes, por seu humor ácido e por uma característica que acho admirável em escritores: assim como Oscar Wilde, ele era um genial frasista. Nesta época eu abria a Veja apenas para ler a coluna do Millôr. Gosto muito de uma frase sua, que uso até hoje, quando vejo um grupo de pessoas falando mal de alguém de forma inexorável e dura: “O mundo tem muitos canalhas, mas estão todos nas outras mesas” (pág. 100). Sendo ele um emérito frequentador de botecos cariocas, essa frase certamente a criou entre um e outro Chopp com os amigos. Ele tinha outra característica que eu achava criativa e original: escrevia uma simples frase e colocava abaixo uma nota de rodapé em caixa baixa do tamanho da folha. Ou seja: funcionava como algumas obras artísticas da pintura moderna, que se resumem a poucos rabiscos em uma tela branca, mas sobre as quais se escrevem gigantescas teses de doutorado, retirando delas muito mais do que o próprio autor seria capaz de imaginar.

Mas, para além de seu humor ácido, sua visão política cheia de ceticismo, e sua rixa histórica com outro ídolo meu, Chico Buarque (que chegou às vias de fato), ele também é uma imagem viva do jornalismo e da sociedade – carioca e brasileira – de sua época. Seus comentários e frases sobre a sociedade e, em especial, as mulheres, são uma forma muito clara de olhar a cultura dos anos 60-70. Por estas razões comprei o livro Millôr Definitivo – A Bíblia do Caos” assim que foi lançado, pois ali se concentravam as suas melhores “tiradas”, seus pensamentos, sua perspectiva política (mesmo sobre fatos datados) e seu humor de acidez inconteste. Categorizados por palavras chave, estão listados 5142 pensamentos, máximas, conceitos, aforismos, devaneios, etc. para se poder absorver o que ele deixou como testemunho, registros de um astuto observador da realidade brasileira.

Entre as suas manifestações, uma me chamou a atenção: a forma como falava despudoradamente das meninas de Ipanema, pré-adolescentes com 13 anos de idade. Imaginem o furor que causaria essa manifestação de admiração sobre o corpo de “crianças” de 13 anos nos dias de hoje, descrevendo-as com sua “graça e sensualidade”. Certamente seria cancelado sem dó, e talvez fosse até criminalmente perseguido. Entretanto, a idade me permite recordar que, quando da publicação destas frases não havia a consciência que hoje temos sobre o tema. Não causou nenhum escândalo suas frases sobre meninas muito jovens, assim como à época não nos chocamos com Caetano ou Jerry Lee Lewis. Não existia a noção, que hoje temos, de proteger a sexualidade emergente das meninas, que ainda eram vistas da mesma forma como os antigos as viam: objetos para o deleite masculino, sem consideração sobre sua maturação afetiva, emocional, psíquica e até social. Ou seja: Millôr escreveu sobre sua época, sobre o entorno no qual se inseria e também com o material do campo simbólico que absorvia e vertia para o papel. É preciso ter com ele a mesma consideração que deveríamos ter com Allan Kardec, Fernando Pessoa e Monteiro Lobato quando se referiram à negritude em seus livros. Se suas obras podem ser criticadas hoje (e devem) elas merecem ser vistas sem anacronismo, inseridas em sua época e avaliadas pelo contexto no qual foram escritas.

De qualquer forma, Millôr continua sendo um dos meus escritores favoritos. Deixou um legado de crítica política inteligente e vigorosa, sem jamais abrir mão do humor como linha condutora de seus textos.

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Tortura

Não se produz justiça tratando desumanamente prisioneiros. Aliás, estes são atos que se chocam contra a carta de direitos humanos. Além disso, traficantes são o resultado de uma sociedade doente, não sua causa. Uma sociedade mais justa não produziria as multidões de drogados que se intoxicam para suportar a realidade, e nem os criaria traficantes que lucram com sua doença. Traficantes não são a causa primária do distúrbio; eles só aparecem para suprir a demanda do vício, criado pelo desequilíbrio social. Muito mais pessoas morrem por álcool e cigarro todos os dias do que por drogas ilegais, mas os “traficantes” (quem faz e vende tabaco e álcool) não são punidos. Curioso, não? E mesmo que fossem eles os causadores do distúrbio, mesmo que os traficantes tivessem criado também a demanda por drogas, nada justificaria a tortura a que eles são submetidos nas prisões. Exatamente por isso, as nações assinam tratados sobre direitos humanos.

Na mente dos direitistas existe um mundo dividido entre sujeitos “maus” e “cidadãos de bem”, mas a verdade é bem mais complexa e está bem longe disso. Nesse mundo de mentiras que criaram, ao se punir exemplarmente os “maus” – e até de forma cruel e definitiva, mas só a maldade dos pobres, por certo – o mundo ficaria melhor. Afinal, cortando as ervas daninhas o gramado ficaria verdejante, não é? Pois o mundo prova o contrário todos os dias. O país mais punitivista do mundo, com quase 2 milhões de prisioneiros, não diminui seus níveis de criminalidade, exatamente porque a iniquidade estrutural é a mãe destes crimes, e não uma chaga moral de uma parcela de seus habitantes. Ou seja: a visão da sociedade que estabelece os defeitos morais como as causas do crime, levando ao punitivismo inexorável como principal remédio, se mostrou uma grande mentira.

Divulga-se que famoso criminoso Marcinho VP está passando por uma preocupante crise psiquiátrica na penitenciária onde se encontra. Ora, o que se poderia esperar? Quem consegue manter a sanidade no sistema prisional brasileiro, onde os detentos são esquecidos e entregues à própria sorte? Não há dúvidas que muitos estão sendo torturados, jogados à própria sorte, mas quem se importa com as consequências psíquicas do confinamento e dos maus tratos? Na perspectiva do fascismo, a criminalidade é uma “infecção que se espalha”, porque seus seguidores não conseguem entender seus determinantes sociais. Se essa tolice de contaminação fosse verdade, porque não se manifesta criando criminosos da Noruega, Suécia, Japão ou Cuba? Por que tantos no Brasil, Argentina, México e Estados Unidos? Se olharmos para os níveis de criminalidade alarmantes desses países, o que salta aos olhos? O que tais países têm em comum? Sim: um capitalismo brutal que reforça desigualdades!! Ora, em sociedades mais igualitárias não há tanta necessidade para roubar, e por isso os níveis de crime são muito mais baixos. A razão de existir um Marcinho VP é a sociedade desigual onde vivemos e uma legislação estúpida e ineficiente sobre drogas. Prender para torturar um criminoso como esse em nada soluciona o problema, apenas cria novos líderes para substituir os trancafiados.

Torturar traficantes na prisão não diminuiu em nada o tráfico de drogas, apenas dá espaço para nossos sentimentos de vingança. Porém, os criminosos sabem das retaliações que receberão na prisão, e suas ações também levam em consideração a maldade que sofrem do sistema, num circo vicioso de culpa e crime, vingança e retaliação. Tratar prisioneiros com desumanidade, afirmando que eles “merecem”, por fazerem o “mal”, não soluciona nada e acrescenta lenha na fogueira da criminalidade.

Por fim, muitos acreditam que condenar a tortura física e psicológica de apenados é o mesmo que não punir. Para estes, tratar os prisioneiros com dignidade seria como absolvê-los de seus delitos, e que tal atitude representaria um estímulo ao crime, pela via da impunidade. Quem afirma isso não tem capacidade de entender que até mesmo os piores criminosos devem ser punidos dentro da lei, pois sem isso regredimos à idade média, aos linchamentos e aos apedrejamentos públicos que, como sabemos, nunca impediram as pessoas de cometerem crimes.

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