Arquivo da categoria: Violência

Pornografia

Acho que vocês estão colocando peso demais na pornografia, como se os homens se “viciassem” em pornografia e, como consequência, tal adição pudesse trazer problemas sexuais para eles e suas parceiras. Não acredito nessa possibilidade. Pornografia sempre existiu, desde que houve corpos que se interditaram. As ruínas de Pompeia são cheias de pornografia nas paredes. Na minha juventude havia os desenhos de Carlos Zéfiro (obras de arte). Pornografia não é causa de nada, é consequência. Quanto mais constrição sexual houver em uma determinada cultura mais a pornografia se torna uma válvula de escape necessária.

A estética das mulheres no filmes XXX nunca foi essa das “bombadas”, a não ser que tenha modificado muito nos últimos anos. Todas as grandes e famosas atrizes são mulheres de corpos redondos. Não sei de onde tiraram que esse modelo do carnaval vem da pornografia.

Aliás, a indústria pornô não precisa sequer ser combatida pois está em rápido e vertiginoso declínio. Mas o mal da pornografia não é para os homens (e suas parceiras), mas para as atrizes abusadas e tratadas como lixo. Há inclusive um ótimo documentário sobre heróis aposentados da indústria pornográfica no Netflix. Muito bem feito, inclusive.

Essa história moderna de que os homens se viciam em pornografia lembra as histórias da “cegueira que se segue à masturbação“. Não faz sentido, e serve mais como moralismo do que o enfrentamento de um verdadeiro problema. Eu acredito ser possível que existam meninos e meninas viciados em pornô, mas não se pode acreditar que o fator externo é o culpado por tais distúrbios, quando na verdade o sexo (o álcool, o crack, a maconha, a comida, a heroína) apenas ocupa um lugar que precisa ser preenchido em uma alma carente.

E quanto à demanda para que as mulheres se adaptem a um padrão de beleza irreal (e eterno), quando é que na história desta espécie não foi assim? Vou mais longe: acho que nunca deixará de sê-lo, pois que não se trata de um valor cultural, mas da essência da estrutura sexual feminina. O caminhar da humanidade vai equalizar essas demandas e não qualquer tipo de proibição. A busca da perfeição deixará de ser tão massacrante e aviltante para as mulheres, mas nunca cessará de existir.

É óbvio que um sujeito que assiste pornografia tem mais chance de ter impotência, mas de novo a pornografia é a CONSEQUÊNCIA e não a causa. A pornografia é o Porto Seguro do prazer!!!! Você transa com quem quiser, com a mulher mais linda (ou homem) sem risco de DST, gestação indesejada e (melhor ainda) sem risco de rejeição!!!!! É óbvio que os tímidos e inseguros vão recorrer a este lugar, e é óbvio que serão os MESMOS que terão falhas ou crises quando estiverem diante de uma mulher (ou homem) de verdade!!!

Mais uma vez os articulistas desses estudos confundem causa com consequência, e minha suspeita é que são convencidos(as) a isso por moralismo. A causa da impotência é intra psíquica e a sua consequência é comportamental: o consumo de….. (coloque aqui a adição que mais se adapta ao sujeito), e não o contrário.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Violência

Intolerância

Um grupo de bananas reacionários de ultra direita invadem uma palestra comemorativa do centenário da Revolução Russa com palavras de ordem, gritaria e ofensas. Houve confusão e confronto. Lamentável espetáculo de intolerância e preconceito.

Mas…. qual a diferença entre essa ação e a interrupção de uma palestra do Bolsonaro com as mesmas ferramentas de intimidação e silenciamento?

No fundo sobressai a ideia de que sempre nos achamos donos da verdade. Somos “os certos” e os outros “errados”. Os outros precisam tolerar nossas atitudes violentas porque estamos ao lado da correção e da virtude, mas não temos o dever de respeitar os oponentes, já que estão ao lado do erro e do vício.

No fundo sempre achamos que nossas falhas são justificáveis, mas não temos a mesmo condescendência com os nossos adversários.

Deixe um comentário

Arquivado em Política, Violência

Simbolismos

Parei totalmente de fazer episiotomia num memorável plantão obstétrico em uma cidade vizinha de Porto Alegre quando corria o ano de 1990; lá se vão 27 anos. Resolvi testar a capacidade elástica dos períneos por mim mesmo, em uma época em que episiotomia era tabu e não realizá-la era considerado má prática. Todavia, essa determinações não vinham da ciência e das pesquisas, e sim através do “Guardiões do Saber da Província“, mais preocupados com a manutenção dos seus privilégios do que com a garantia da integridade física de suas pacientes.

O resultado de minha experiência prática nos plantões foi espantoso: os períneos, em sua imensa maioria, se mantinham íntegros ou com lacerações minúsculas. A paciência com a elasticidade perineal, conjugada com a posição vertical do parto – que eu já usava desde a residência – foi um grande sucesso, e apresentou duas conclusões interessantes. Em primeiro lugar, demonstrou o que a pesquisa de Thacker & Banta já afirmava: não se justifica a episiotomia de rotina para proteção contra lacerações nos tecidos do períneo. Em segundo lugar, confirmou a tese de que a episiotomia era um ritual mutilatório por oferecer os três elementos que o constituem: padronização, repetição e simbolismo. Quanto à repetição e à padronização do procedimento não havia dúvidas, mas qual o simbolismo se escondia por detrás do meramente manifesto no corte sobre as estruturas perineais?

“Eu sou o caminho à verdade e à Vida, só parirás se for por mim”, dizia Max sobre a ação que abria as portas do claustro materno, permitindo assim a liberação do ser por ela sequestrado. Cabia a nós, médicos, permitir que o bebê pudesse escapar das amarras de pele e músculo pelas quais sua mãe o prendia. Era por nossa ação que ele escapava da prisão sufocante em que se encontrava, podendo finalmente encontrar o ar que o corpo de sua mãe teimosamente sonegava.

A episiotomia nos colocava gloriosamente no centro da parturição, atestando nossa importância no evento e confirmando nossa desconfiança milenar na defectividade essencial do corpo da mulher. O monstro da “vagina dentada”, se mutilava falos no passado, hoje encarcera bebês, e o bisturi da cultura ao corta-lhe a garganta devolve a nós o produto social – o bebê – agora pela mão hábil, precisa e segura do cirurgião.

Foi preciso acordar dessa fantasia, transmitida pelo currículo oculto da escola médica, para interromper as mutilações genitais que fui ensinado a fazer. Nunca me arrependi de ter abandonado essa prática medieval, mas ainda carrego um certo remorso pelas tantas vaginas que maltratei – por ignorância, medo e miopia – durante meus anos iniciais de prática.

Que elas possam um dia me perdoar.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Parto, Violência

Islã

Muitos confundem, de forma proposital, “religião” com “cultura”, e isso é a origem de muitos preconceitos. Cultura é o caldeirão inteiro, onde a religião é uma das mais importantes iguarias. Vejo muita bobagem e preconceito sendo ditos em toda a parte sobre o Islã. A religião muçulmana é absolutamente elástica, assim como também o são o cristianismo ou o judaísmo (para ficar só nas abrahâmicas).

Alguns adoram mostrar uma foto de um grupo radical islâmico e legendar coisas como “assim é o islã”. Ora, se você mostrasse uma foto de testemunhas de Jeová com saia nos calcanhares, cabelo comprido e preso, blusa fechada e uma Bíblia na mão com a legenda “assim são os cristãos”, isso seria uma mentira e uma injustiça. Esse é apenas um aspecto do cristianismo, e não sua face única.

O cristianismo não manda ninguém se vestir desta ou de qualquer outra maneira, muito menos usar penteados exóticos ou comportados, mas num livro extenso como a Bíblia é possível achar o que se quer, bastando haver vontade e interesses.Todavia as pessoas que almejam um determinado comportamento social, seja nos costumes, casamentos, roupas etc usam a religião como desculpa e como uma forma de fortificar suas demandas de ordem política ou ideológica.

Esclarecendo: a religião é um produto da cultura e nunca é a fonte dos determinantes culturais. Ela é sempre o lugar de onde elementos dos grupos sociais colocam seus valores para tentar influenciar o resto da sociedade a um comportamento que lhes convém.

Deixe um comentário

Arquivado em Política, Religião, Violência

Bullying

A ênfase dos massacres de crianças em escola, realizadas por um aluno que chega lá armado, está sendo colocada no bullying, quando deveria ser colocada na banalidade do acesso à uma arma. Já imagina se todo mundo que sofreu algum tipo de bullying na escola pega em armas e sai matando? Aliás… que NÃO sofreu isso na escola é porque estava FAZENDO isso. A escola é – e sempre será – um local de profunda selvageria. Não se trata da falha em controlar a brutalidade das crianças, pois que elas são naturalmente cruéis. A diferença é que, nesse caso, um dos milhões de adolescente que sofre com as gozações do colegas todos os dias teve acesso à arma do pai e matou seus desafetos.

Dizer que o bullying é o responsável pela tragédia é fugir do fato que algo que poderia ser resolvido com “te pego na saída” e um nariz sangrando será uma dor que marcará para sempre a vida de todos.  Só não acontecem mais casos porque crianças não tem acesso a armas. Só por isso. E quanto ao bullying ele é NATURAL no ser humano. A crueldade das crianças é um fato. Podemos coibir violência física, agressões explícitas, deboches contumazes e agressões grupais, mas a criança precisa aprender a se proteger por si mesma, com as armas que dispuser. Faz parte do aprendizado para a vida. Façam o que eu fiz há alguns meses em Porto Alegre: fiquem parados por volta do meio dia numa saída de uma escola pública para verem CENTENAS de casos de “bullying” que acontecem entre meninos e meninas, apenas porque esse contato e essa violência são naturais nas crianças.

Imaginar uma escola sem bullying é uma ilusão, mas não pela incompetência dos pais (ou da escola), mas pela própria estrutura do espírito humano. No meu tempo de escola fui vítima e agressor, mas entendo esses fatos como adaptações naturais da alma que nasce ao mundo que nos rodeia. O filme “Moonlight” é um exemplo de como um menino conseguiu sobreviver a um mundo angustiante e constritivo.

Eu entendo nossa fantasia de apaziguamento. Nos dói ver crianças brigando, oprimindo ou sofrendo agressões e humilhações. Entretanto, imaginar que as crianças não sejam violentas e cruéis é como olhar para dois carneiros da montanha na época do acasalamento e pensar: “Puxa, por que ficam batendo cabeça assim? Tem fêmea pra todos, ora. Não podiam simplesmente conversar e dividir entre eles? Pra que essa violência toda?

É claro que uma escola não pode ESTIMULAR ou ser CONIVENTE com o bullying. Ele precisa inclusive ser punido. Todavia, imaginar que com isso o exterminamos é ingenuidade. Mesmo com crianças vigiadas por um panopticom – ou amarradas – o bullying vai se expressar pela fofoca, a depreciação, os apelidos humilhantes e toda forma de violência moral. Os professores mais espertos e vividos sacam isso e sabem quando vai rolar uma briga. Qual a estratégia? Deixam brigar um pouco para arrefecer o surto de testosterona. Vigiam de longe e não permitem que se machuquem. Coíbem exageros. O erro é imaginar que seja possível domar a alma humana.Os problemas na escola sempre foram resolvidos assim. Não há como passar por essa selva sem sair de lá todo machucado, como todos nós.

Evidente que é função do professor impor limites aos alunos e coibir os abusos mas isso não pode nos levar a uma ilusão pedagógica totalitária!!! “Na nossa escola as crianças nunca brigam“…. eu teria muito medo disso!!! Mas, vamos combinar que o bullying feminino nas escolas é MUITO pior. Imensamente mais violento. Eu tive menino e menina na escola. As disputas de poder (e o bullying é apenas isso) são simplificadas nos homens. Três ou quatro sopapos e os meninos são amigos para sempre e se tornam grandes amigos. Isso se torna motivo de risadas para sempre em algumas situações. Com as meninas, pela falta do componente corporal exonerativo, a violência é quase totalmente moral. E as meninas pegam MUITO pesado. As discriminações, as fofocas, as exclusões dos círculos, as humilhações são muito comuns. Mas, faz parte do desenvolvimento sobreviver a essa selva. Antes de existir a escola os embates eram na comunidade, nas aldeias e nos grupos; a escola apenas organiza o ringue.

Não acho sofisticação alguma que a violência entre as meninas não seja corporal, acho muito mais cruel. Os homens nessa cultura tem uma possibilidade que é – via de regra – sonegada às mulheres. Com isso a violência é muito mais profunda e muito mais dolorida. Prefiro mil vezes um nariz sangrando de que ser humilhada diante das amigas.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Violência

Moedor de Carne

Robbie falou dessa questão no seu famoso artigo “Medical training as a Rite of Passage“. Eu chamei de “moedor de carne” no “Memórias de um Homem de Vidro”, mas a verdade é que, por razões históricas, a corporação médica se transformou atualmente em um monstrengo violento, amedrontado e acuado. Quando mais o velho padrão obstétrico centrado no cirurgião e na intervenção encara a sua obsolescência mais agressivo se torna; uma violência reativa que denuncia a morte de um paradigma e o surgimento de um novo modelo, baseado na garantia ao protagonismo da mulher, na visão humanística e interdisciplinar e na Saúde Baseada em Evidências.

Texto abaixo de Ana Cristina Duarte

As pessoas estão com raiva do tal Cassius ou da estudante tosquinha, mas a verdade é que esse pensamento de superioridade do médico começa a ser imposto aos estudantes na faculdade, no primeiro dia de aula. Uma casta superior, com poderes superiores. Sair desse rolo compressor, a lavagem cerebral da graduação, não é para os de cabeça fraca. Tem que ter berço, educação em casa, leitura, bons exemplos, cultura, noção de cidadania, coisas que o brasileiro médio não acessa na sua infância/juventude. Não é à toa que os médicos que se dedicam à causa da humanização são tão poucos e são tão perseguidos!! E é essa diferença que faz deles pessoas tão especiais. Força aos queridos amigos médicos, que estão lidando com o pior da raça humana nesses dias trevosos.”

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Violência

Pena Capital

O problema da argumentação daqueles que apoiam a pena de morte (e da turma que gosta de assassinatos legalizados) é que são fixados na figura do assassino (Freud explica) e não na população que é vítima da violência. Milhares de estudos sociológicos comprovam que não se modificam as taxas de criminalidade com medidas como esta, e mesmo assim insistem na ideia de matar quem comete crimes. Ora, por quê?

A resposta é óbvia. A razão para está fixação é que estes sujeitos também desejam matar, como os criminosos, mas não o podem fazer. É um sentimento brutal e primitivo, uma sensação pessoal de vingança contra os que invadem seu espaço ou lhe tiram algo de valor. Infelizmente estas propostas quando executadas nunca mudaram em nada a insegurança da população e mesmo as mortes violentas. São inúteis e apenas adicionam mais mortes àquelas que já lamentamos. Elas apenas oferecem o prazer sádico de acrescentar uma morte legal às estatísticas.

A Pena de Morte tem o mesmo efeito da desastrosa “guerra ao terror” implantada pelos governos americanos. A ideia é a mesma: vamos destruir todos os malfeitores e a sociedade será dominada apenas por “gente de bem”. Mataram milhares dos – assim chamados – “terroristas”. Limparam o terreno e espalharam sangue por todo lado. Eu pergunto: que efeito isso produziu no terrorismo global?

O OPOSTO do esperado. Nunca houve tanta tensão, atentados, insegurança e violência. A guerra ao terror é um SUPREMO FRACASSO, assim como também o são as medidas de extermínio de negros e pobres submetidos a situações sociais deploráveis e que entram no crime pelas razões que tanto conhecemos. Sem atacar diretamente as RAZÕES para o terrorismo e para o crime tais medidas apenas reciclam terroristas e bandidos. Abrimos vagas para os novos sem entender porque se formam tão rapidamente.

No fundo o que temos é um processo exonerativo de raivas e frustrações acumuladas na sociedade desaguando numa prática medieval de assassinar aqueles à sua margem, sem nenhuma indicação de que esta sociedade se torne, por estas medidas, mais pacífica.

Pelo contrário, a exemplo do que aconteceu à luta contra o “terror”, só recrudescemos a matança.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Violência

Agressão às Enfermeiras

Nunca escreva movido pelo ódio ou pela paixão; você acaba revelando aos outros o que desconhecia de si mesmo. Quando uma pessoa dá a sua opinião de cabeça quente e depois ameaça chamar seu advogado-metralhadora para processar todo mundo que lhe respondeu é porque devia ter pensado melhor antes de escrever.

Claro que é positivo pedir desculpas pelas agressão absurdas e despropositadas desferidas. Não posso aceitar – em nenhuma situação – penas perpétuas e condenações infinitas. Pessoas podem amadurecer e aprender com seus erros. É sempre bom se retratar dos erros cometidos.

Entretanto, a violência das palavras fica marcada indefinidamente. Depois de proferida a ofensa não se apaga. O mais triste não é a agressão descabida e brutal, mas a certeza que o deboche contra as enfermeiras é uma postura extremamente disseminada dentro da medicina. Escutar velhos preconceitos e grosserias obtusas contra a enfermagem foi algo que suportei por quase 40 anos.

As manifestações de desprezo pela enfermagem reforçam minha certeza de que a maior parte do ódio direcionado contra mim nos meus últimos 10 anos de trabalho por parte da corporação vieram do fato de que eu trabalhei lado a lado com uma dessas “criaturas inferiores” a ponto de lhe oferecer o posto central na atenção ao parto.

Isso, sim, é imperdoável.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Violência

Abusadores

Tivemos recentemente uma campanha contra os “tarados” urbanos que importunam as pessoas. Alguns posts apelaram para soluções simplistas como a brutalidade e até para “linchamentos”. Isto é: combater machismo com mais machismo e força bruta.  

E veja bem: masturbar-se em ônibus ou na rua é um incômodo, podemos considerar ofensivo e inadequado, até mesmo uma “violência” moral, mas em nada semelhante à agressão ou ao estupro. Atos como estes precisam ser coibidos dentro da lei e da justiça. Se as leis são brandas ou ineficientes que sejam mudadas, mas não se pode apelar para condenações oportunistas diante da emergência de um escândalo público. Ponto.  

Entretanto, é evidente que os sujeitos que fazem isso em público são doentes, compulsivos, incapazes de controlar adequadamente suas ações mesmo diante das ameaças de violência. Eu vejo uma injustiça ao tratar esses sujeitos como depravados do mesmo tipo que assistia o julgamento feroz e cruel contra os alcoolistas no meu tempo de Pronto Socorro. “Se você quiser se controlar é fácil, mas você bebe porque é um vagabundo“. Esse argumento aparecia para qualquer compulsão, das drogas pesadas ao cigarro, mas era usada até para a homossexualidade, lembram? Não faz tanto tempo assim…  

Se hoje podemos chamar os alcoolistas, as cleptomaníacas e as pacientes com psicoses puerperais de doentes, entendendo que estas pessoas precisam de ajuda psicológica e às vezes médica (e não de porrada), porque deveria ser diferente com os masturbadores públicos??? Por que é tão difícil entender a enfermidade a que são submetidos?   Infelizmente eu entendo que qualquer tentativa de analisar racionalmente esta questão significa que achamos que a masturbação pública é “tolerável“, que não merece punição ou que “não causa dano algum“. Maldito maniqueísmo.

Em verdade tudo que desejamos é que TODOS possam ser julgados com um pouco mais de humanidade e compreensão.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Violência

Chacinas

Todas esses meninos mortos tinham pai e mãe. Um dia, mesmo que tenha sido apenas o primeiro dia em que aqui chegaram, eles foram amados, foram queridos e sobre eles também alguém sonhou. Foram molequinhos pretinhos que jogavam bola na calçada com largos sorrisos brancos e contagiantes. Quando a gente fazia cócegas eles se dobravam de rir. Muitos foram amamentados por suas mães e foram cuidados por seus irmãos e irmãs. Todos eles choraram de medo e algumas vezes de alegria. Ficaram assustados no primeiro dia de aula e quando descobriram sua sexualidade. Olhavam para a vida, essa chama curta a arder em seus peitos, com pânico e excitação.

Todos eles um dia sonharam com o futuro, um carro, uma viagem ou uma promessa de futuro menos duro para suas mães. Todos eles sorriram diante de um gracejo e se emocionaram diante de uma música. Nenhum deles deixou de sentir dor ou frio, calor e alegria. Eles eram em tudo iguais a nós, mas insistimos em olhar para a cor de sua pele, a magreza de seus corpos em contraste com a arma negra na cintura e acreditamos que são feitos de outra matéria, de outra carne, de outra essência.

O que nos intriga e angustia é a semelhança conosco, e não as diferenças.

Desumanizar o corpo morto de meninos na luta miserável de uma sociedade desigual não os torna menos humanos do que nós, mas nos torna mais monstruosos do que imaginamos ser.

Não há nada a comemorar, não há nada a exaltar. Isso é apenas um fracasso, a miséria humana em ação. A desgraça civilizatória e o êxtase do Apartheid social.

Deixe um comentário

Arquivado em Violência