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Justiciamentos

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Sobre os justiciamentos populares…

“Qual a dificuldade de entender que qualquer criminoso, qualquer que seja o crime, tem direito a defesa e não pode ser maltratado? Fora isso teremos apenas justiciamentos, típicos de republiquetas onde a barbárie impera. O criminoso precisa pagar pelos seus crimes, mas a sociedade NÃO PODE ser mais doente que o sujeito. Para quem curte linchamentos, não esqueça que a civilização começa quando o estado de direito se impõem sobre a selvageria. Os crimes, quando comprovadamente cometidos, não podem ficar impunes e o meliante precisa ser afastado da sociedade.

O resto é apenas vingança de pessoas que, em essência, não diferem muito dele….

E por favor…. não aguento mais discurso de “vingadores” ao estilo “se fosse comigo…“, muito menos coisas como “leva pra casa“, “tem que pendurar num poste“, ou “tratam bem esses caras, mas…“. Chega. Estudem. Leiam o que diz a constituição de QUALQUER país civilizado. Esse tratamento digno com os criminosos ocorre em países como os Estados Unidos e na Europa, mas o que vocês preconizam existe no Zimbábue e na Nigéria.

Estou cheio de justiceiros que preferem viver na África do que na Suécia, desde que isso os beneficie. Tipo, os “outros” que se “ferrem”, o importante é manter meus privilégios.

Meu ponto de vista é que a civilização cobra caro a sua construção e manutenção, e o preço é entender que não se faz justiça maltratando o criminoso e nem jogando sobre ele nossas raivas e nossa indignação, carregadas de fúria cega. NENHUMA sociedade desenvolvida se consolidou sem antes passar pelo processo penoso de respeito às instituições em um esforço conjunto pela consolidação do estado de direito. Tratar com humanidade e respeito o criminoso NÃO SIGNIFICA desreconhecer a dor das vítimas, e nem MUITO MENOS perdoar os crimes por eles cometidos. Tratar com justiça não é tratar com crueldade e nem com violência.

A sociedade precisa ser pedagógica e não vingativa. Existem questões acima de qualquer debate, e entre elas estão os DIREITOS HUMANOS, que são elementos que cada um de nós carrega na essência de seu ser: não podem ser retirados por nenhuma circunstância ou contexto.”

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Morte e dor

Ao voltar para casa fomos surpreendidos por uma confusão na esquina próxima de nossa casa. Pensávamos ser um acidente, mas depois de firmar a vista no breu que recém se avizinhava, vimos que um corpo jazia estirado ao lado de uma motocicleta. Minha filha viu uma pistola na mão de um jovem e grita. Sim, um assalto seguido de morte. Desta vez, o ladrão imprudente levou a pior: havia assaltado um policial civil, que reagindo desferiu três tiros mortais à queima-roupa. Estacionei meu carro no meio fio e corri para acudir o jovem esticado no asfalto. Tarde demais; minha pressa apenas me permitiu presenciar seus últimos suspiros. Os olhos revirados, a boca descorada, o rubro do sangue a colorir de dor o piche negro da rua. O pulso já findava, enquanto os dedos cor de cera se reviravam. Em vão eu tentava achar o pulsar de alguma artéria que resistisse ao destino trágico. Nada, nada…

Ao meu lado o policial à paisana explicava os detalhes da abordagem e sua pronta reação. Pediu que eu não me assustasse com a arma que ainda mantinha em punho. Eu entendi sua preocupação e expliquei que era médico, e que o menino aos meus pés estava se esvaindo em sangue.

O jovem não tinha muito mais do que 20 anos. Pardo, da cor da exclusão. No bolso do casaco pouco, uma navalha. Tiro o capacete envolto em sangue e sua cabeça encosta o chão escuro. “Não vai voltar para casa, para sua mãe e sua família. Não vai saber o resultado do jogo de domingo. Não saberá se a menina que ele tanto gosta um dia vai aceitar uma carona em sua moto. Não dará um abraço derradeiro em seu pai, e nem poderá pedir desculpas para o irmão com quem brigou. Um telefonema na entrada da noite avisará a família, que conformada, sequer vai se surpreender. Havia muito que todos se preparavam para uma ligação como esta“.

Um ônibus passa vagarosamente no contrafluxo, de onde um cobrador grita: “Tem mais é que matar!!“. Não me contive e gritei: “Cale a boca, seu animal. Tenha respeito“. Zeza e Bebel fazem coro comigo, com a voz embargada. Ele não me entendeu, e continuou a vociferar como um cão colérico. Nada havia além ódio naqueles gritos. Nenhuma consternação pelo jovem morto, nenhuma ideia de que uma vida acabava de se desfazer de forma estúpida.

O policial, ao contrário do que eu poderia esperar, estava tenso. Sabia que sua ação foi para preservar sua própria vida. O menino da moto estava armado e ameaçante. Não havia o que fazer, era matar ou morrer. Mesmo assim, ele sabia que alguém havia morrido por suas mãos, e seu semblante denunciava este peso.

A polícia chega ao local, e eu desisto de procurar algum sinal de vida no pescoço magro do menino. Ao longe escuto as sirenes da ambulância. A turba de passantes se aproxima para dar vazão à inescapável curiosidade mórbida das massas. Levanto-me, aperto o ombro do menino e digo: “Siga em paz“.

Ao voltar para o carro Zeza e Bebel tremiam ao meu lado; ninguém consegue dizer nada. Mas havia uma revolta, não contra o crime, mas contra a insensibilidade.

Será que ninguém notou que um menino morreu?

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Violência e Catarse

Rhonde x Bethe


Só eu que acho absurdo do ponto de vista estético, psicológico e cultural as lutas de MMA, em especial o espetáculo grotesco (é o meu ponto de vista) das batalhas entre mulheres? Só eu me escandalizo com a publicidade exagerada sobre algo que aos meus olhos não passa de selvageria – exatamente aquilo de que o processo civilizatório tentou se afastar nos últimos 10 mil anos? Só eu acho que as lutadoras parecem homenzinhos castrados, imitando cara, bocas e trejeitos dos seus ídolos másculos?

Existe uma pergunta: por que as mulheres também querem bater e exercer essa violência explícita, assim como os homens sempre fizeram – em razão dos seus papeis sociais milenarmente construidos – durante a construção de nossa civilização? Esse fato é um processo de “liquefação dos limites de gênero” ou um sintoma de desajuste, se entendermos a violência explícita como uma incapacidade de encontrar formas sublimadas de exercê-la?

Eu sei que as mulheres podem fazer tudo, elas tem o direito de fazer o que bem desejam, até imitar os homens em suas violências atávicas. As mulheres agora se identificam com essas lutadoras da mesma forma como os homens se identificam com os ícones testosterônicos de Rambo e Schwarzenegger? Ou são os homens que adoram ver a carnificina entre as mulheres, num duplo curioso com a pornografia? Não se trata de condenar as pessoas que se aproveitam de uma brecha na cultura para fazer valer suas aptidões. Não desejo impor limites às mulheres no sentido de “isso elas não podem por serem delicadas”. Não, não é isso. Quero apenas problematizar e expor minha dúvida. Minha pergunta é se a popularidade do MMA – e em especial as lutas de mulheres – não é o sinalizador de um desequilíbrio, uma doença social.

Seriam estas demonstrações os estertores da sociedade individualista? Ou estaremos valorizando a violência explícita por desprezar algo que a civilização tão penosamente construiu nos últimos milênios?

Futebol pode ser violento, mas não é seu objetivo machucar ou colocar a nocaute. Futebol é balé. Futebol é “quinta dimensão”, é pensar em conjunto, equipe. Mas eu não consigo ver MMA nem de homens. Acho estúpido e selvagem. Sinto uma angústia estranha vendo lutas, uma espécie de identificação atávica. Mas de mulheres acho apenas triste e grotesco. Mas, verdade seja dita, não sinto o mesmo com judô. Este parece civilizado. A arte de Gigoro Kano tem uma filosofia pacifista em sua origem: a neve nos galhos das árvores, a resiliência e o uso da violência do oponente para neutralizá-lo. Sobre chacoalhar os papéis sociais de homens e mulheres pode ser um bom resultado, mas não é o objetivo, assim como queimar Londres num incêndio (ou Barcelona) teve um resultado bom para a estética da cidade, mas não foram feitos para isso. E sobre as “divas” não faço julgamento de mérito, apenas estendi a pergunta: porque as mulheres de hoje são diferentes na sua estética? O que houve com elas e conosco? É uma pergunta, e não uma posição pois, como eu disse, a minha opinião sobre Marilyn ou Rondha é completamente desimportante.

Minha crítica é com a condescendência que desenvolvemos com a violência explícita do UFC. Não é para vencer com a imobilização ou o golpe: é para destruir o outro, partir sua perna ao meio, dar uma joelhada na cara. No MMA o objetivo é produzir o MÁXIMO de dano. Bater o quanto der. Machucar em lugares específicos, que causam mais dor e mais lesão (cerebral, por exemplo). O “estudo” e as “técnicas” são para otimizar o dano ao adversário, jamais para protegê-lo.

Esses lutadores, que nos “divertem” como galos de rinha, encurtam suas vidas e detonam sua saúde. Fazem lesões cerebrais pelos traumatismos repetitivos por anos a fio. Muhammad Ali é um triste exemplo disso ao desenvolver Parkinson muito cedo em sua vida. Vale a pena mesmo tanto sangue?

As lutas sempre foram privilégio dos homens, algo cultivado e venerado pelo universo masculino, em todas as culturas. No mundo primitivo não faria sentido algum as mulheres se engalfinharem com outras(os) e arriscar suas vidas e gestações. Aos homens coube o peso da guerra, e toda a cultura da violência que ela acarretou.

As mulheres podem fazer o que bem desejam, mas por que seria vedado aos homens perguntar as razões? Os papéis masculinos e femininos EXISTEM, e isso é um fato, quer se queira ou não, basta andar na rua para ver que eles existem. Quando se fala em papéis femininos não significa que se deseje que isso seja fixo pela “essência” dos gêneros, mas apenas que se reconheça que a civilização assim os estabeleceu. Eles são mutantes e instáveis, e não mudam com a mesma velocidade em todos os lugares, mas papéis são naturais na estrutura social. Talvez estes papeis que temos na atualidade sejam ruins, mas cabe somente a nós trocá-los. Minha pergunta – mais uma vez – é se fazer as mulheres brigarem entre si como espetáculo é um avanço social ou o sintoma de uma doença…

Entendo o sentido da catarse e, mais do que isso, concordo com essa ideia, mas pergunto se a mudança radical do papel feminino na sociedade a partir dos últimos 40-50 anos – diminuição no número de filhos e entrada triunfal no mercado de trabalho formal – não tenha propiciado a elas as mesmas angústias historicamente destinadas aos homens e, como consequência, a mesma necessidade do lenitivo por eles usado: a catarse coletiva através da violência explícita.

Hoje em dia a violência obstétrica existe de igual forma entre homens e mulheres, os comentários sádicos nas notícias da Internet também. Pena de morte aparece de forma igual ou muito parecida no imaginário de ambos os gêneros. As mulheres se brutalizaram?

Meu medo é que essa mudança retire das mulheres uma característica admirável do universo feminino: a candura e a suavidade. Quando mulheres admiram a violência e a força elas podem deixar de lado a delicadeza. Eu disse “podem”, e não que elas “devem”. E não estou falando das atletas, cuja vida ignoro por completo, mas de quem as venera. Acho que, seguindo o pensamento freudiano, as atletas, o esporte e os ícones (como Rhonda), são a consequência de uma mudança estrutural na sociedade através de uma alteração dos papéis. Elas as lutadoras, são apenas o resultado da transformação do campo simbólico. Os gladiadores foram criados para dar conta de uma necessidade dos homens e, ao que parece, agora também das mulheres.

Não tenho coragem de fazer um julgamento de mérito sobre esse fato. Não sei se isso é bom ou ruim para a civilização, mas creio que ver mulheres tentando destruir a cara uma da outra é chocante e – para mim – preocupante.

Sobre a estética masculinizada das atletas isso é um fato, não uma opinião. Se isso é bom ou mau, bonito ou feio… aí é apenas opinião pessoal e a minha consideração sobre isso só vale para mim. Mas não é essa a questão. O que eu pergunto é a razão disso. Alguém falou que essa americana é “a mulher mais linda do mundo”. Mas compare-se ela com as divas de 50 anos passados – Marilyn Monroe, por exemplo – e me expliquem o que houve com a imagem que cultivamos das mulheres.

Podemos concordar que houve um câmbio impressionante? A brutalidade era uma reserva de mercado masculina, mas agora ela também atinge as mulheres.

Acho que a melhor explicação está longe do “isso é um esporte com regras“. As regras foram sendo retiradas paulatinamente. Se você olha “de fora” percebe a semelhança com o boxe, mas sem os aparatos civilizatórios, como as luvas. As regras existem apenas para evitar as mortes, mas as concussões cerebrais, os desmaios e o os knock-outs são celebrados, quase da mesma forma como eram em Roma imperial.

Para mim MMA é catarse primitiva, mas parece que as mulheres começaram a necessitar deste artifício na modernidade. Mas se há tanta raiva para ser desviada através das lutas (como em Roma – panis et circenses) não existe uma pergunta que precisa ser feita?

Curiosamente, eu convivo com uma pessoa que deplora qualquer violência, mesmo verbal. Para ela qualquer expressão explícita de confronto é ruim, deletéria, desnecessária e aviltante ao sujeito. Ela se parece com um arquétipo de feminilidade, pois está longe de ser apática ou acomodada; apenas não acredita – como Gandhi – na solução de qualquer conflito por meio da agressão.

Feio e bonito são termos que não uso para isso, a não ser para falar de algo absolutamente desimportante: minha própria opinião. Já falamos acima das razões pelas quais criamos o “circo“: a catarse identificatória. Todavia, o que me atraiu em especial foi a novidade. As mulheres se envolveram nessa atividade em função – minha tese – de mudanças sociais e em especial os papéis femininos. Também o capitalismo e sua vertente individualista, mas esse seria um outro tema. Mas, antes que passe batido, “feio e bonito” não são conceitos que me atrevo a abordar. Prefiro entender que, seja horroroso ou sublime, houve uma mudança, e seria bom entender as razões.

Quebrar a cara das pessoas. Qual a ideologia – ou a filosofia – por trás desta “arte”?

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A Miséria dos Partos da Burguesia

 

 

cesarea

Uma paciente da Unimed Porto Alegre tem 7.5% de chance de ter um parto normal; 92.5% das gestantes com este convênio terão uma cesariana, a maioria delas sem nenhuma justificativa clínica. Uma cesariana aumenta de maneira clara e inquestionável os riscos de curto e longo prazo para mães e bebês. Os estudos mais conservadores apontam algo como 100 a 200% de aumento de mortalidade, e sobre isso não recai mais nenhuma dúvida.

Mais de 9 entre 10 grávidas de Porto Alegre e arredores da classe média (que usam planos de saúde) são submetidas a cesarianas que colocam a vida e a saúde de mães e bebês, sem que exista uma justificativa clara para tal conduta. O que houve?

Isso seria suficiente para desconfiar que algo está MUITO errado na atenção ao parto na minha cidade (mas o resto do Brasil não está diferente). Cabe a pergunta óbvia: Quem ganha com essa inversão de expectativas? Quem lucra com isso? Quem leva vantagem com o excesso de cesarianas?

Posso apenas dizer que os que PERDEM com essa “cultura perversa da cesariana” são mães e bebês. Quem são os que ganham?

Isso poderia ser menos vergonhoso se os órgãos de classe atacassem o excesso de cirurgias e oferecessem soluções para a grave crise. Afinal, eles deveriam lutar pela “boa medicina”, não? Mas não é o que acontece e o que se vê é o contrário disso.

No meu estado a corporação resolve atacar enfermeiras que atendem partos ou os partos NORMAIS, planejados e atendidos fora dos hospitais. Tais partos extra-hospitalares não perfazem 1% do total dos nascimentos. Porque algumas dezenas de partos merecem críticas, perseguições e ameaças – mesmo com centenas de estudos comprovando sua segurança – enquanto mais de 90% da classe média é submetida a cesarianas sem indicação clínica, arriscando a vida de mães e bebês, sem que haja qualquer comentário dos senhores da corporação?

As mulheres – em especial – começaram a se dar conta da EXPROPRIAÇÃO de seus partos. Impedidas de parir por uma cultura que protege a intervenção e criminaliza a fisiologia, começam a se questionar sobre este modelo e a quem ele serve. Da solução deste dilema surgirá o paradigma de assistência do século XXI.

Não creio que poderemos esconder a verdade para sempre. Perseguir aqueles que avisaram da nudez do Rei nunca deixou o monarca mais vestido e, no máximo, atrasou a compra de roupas. Medidas desesperadas e diversionistas como apontar para os partos normais (e seguros!!!) não surtirão o efeito desejado, e vão aprofundar ainda mais o fosso de desconfiança que as pacientes começam a ver se formar entre elas e aqueles que juraram protegê-las.

Falta bom senso onde abunda arrogância.

ANS – A Agência reguladora de planos de saúde do Brasil – ans.gov.br

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Limites

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Há alguns dias assisti na Internet a cena absurda de um aluno adolescente agredindo e abusando de uma professora de uma escola pública de Minas Gerais. A cena gerou reações no país inteiro, das mais alteradas às ponderadas e compreensivas. Entretanto, as marcas da humilhação que esta professora sofreu não serão fáceis de cicatrizar.

Eu prefiro pensar nesse terrível episódio como uma oportunidade para reavaliar nossa postura em relação à disciplina na educação.

Para mim creio que se trata de uma “Pedra de tropeço”. Apesar de ser deplorável a ação, e lamentável sob todos os aspectos, talvez este episódio possa alavancar um debate que está décadas em atraso: a perda da autoridade que a escola e os professores tiveram nas últimas décadas.

As causas são múltiplas, por certo, e certamente eu não sou a pessoa mais capacitada para desenrolar o nó das relações entre escola, professores e alunos. Todavia, eu lembro muito bem da relação que tínhamos com os mestres no meu tempo de escola.

Havia respeito.

Hoje esse respeito desapareceu, e suspeito que isso também tenha a ver com a mercantilização do ensino privado, onde o aluno deixa de ser aprendiz e se torna “cliente”, um consumidor de produtos e serviços educacionais. A escola, como “negócio, precisa manter seus clientes.

Isso não explica o fato nas escolas públicas, como neste caso, mas aí concorrem outros fatores, como a complacência da cultura contemporânea com a agressividade e a falta de limites dos alunos. No filme percebe-se que o aluno age do alto de uma profunda percepção de impunidade, mas aí pode entrar um outro fator: a desimportância do estudo e da formação escolar formal para determinados segmentos sociais. Afinal, se for afastado da escola, o que terá a perder? O estudo, em geral, não está no horizonte de muitos jovens marginalizados, e a escola não passa de uma obrigação, quando não um estorvo.

Para que isso deixe de acontecer não existem soluções simplistas. Não será com repressão – como fica fácil reivindicar nestas horas de indignação – mas somente com uma alteração da própria cultura e sua relação com a educação.

Tarefa difícil, mas que o episódio deixou claro ser urgente.

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Crime e Castigo

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Diante do questionamento que surgiu a partir do brutal e estúpido assassinato de um cidadão que placidamente andava de bicicleta no Rio, muitas vozes furiosas clamaram por justiçamento, pena de morte e até linchamentos sumários. Isso me fez pensar nos clamores em Israel quando morre um soldado judeu e o silêncio brutal quando centenas de crianças palestinas morrem carbonizadas numa guerra desigual entre o mais armado exército do mundo e uma população prisioneira, sem armas e sem soldados.

A pergunta que cabe, reconhecendo a brutalidade do ato e a insegurança que todos sentem diante de um assassinato – e também a dor da família enlutada – é “o que podemos fazer de efetivo para combater essa e outras barbáries contemporâneas?“.

Primeiramente é preciso rechaçar o que é falso e “plantado” nas redes sociais com o único objetivo de gerar discórdia. Depois, é importante entender que esses debates não se resumem em um lado certo (nós) e um lado errado (os outros). Na questão da violência é fundamental se perguntar se as medidas preconizadas como solução ajudam a você (na sua necessidade de vingança) ou ajudam a todos, a comunidade inteira, a resolver (ou melhorar) um problema endêmico e de raiz estrutural.

De nada adianta eletrocutar esse menino pobre e negro; outros virão ocupar seu lugar. Não esqueçam que ele JÁ estava condenado; se não fosse preso agora dificilmente passaria dos 25 anos, vítima da guerra do tráfico. Ficar com raiva dele e santificar o “doutor” (que era alguém comum, como eu, mas acabou sendo pintado como santo) de nada adianta, e apenas aprofunda o fosso dos lados que se opõem no debate.

Precisamos mais policiais e mais inteligência no combate ao crime, mas é tolice imaginar que esse problema acaba com repressão. É MENTIRA. O tráfico não acabou nos Estados Unidos, e só cresce, mesmo com o aparato de repressão mais caro do mundo. O crime não deixa de existir porque policiamos a vida até o extremo. Não, ele existe – e se mantém – pela “sensação de injustiça” a que são submetidos os pobres, ao perceberem que a opulência oferecida a uma determinada casta nunca é oferecida à sua. Eles não se julgam bandidos ou malfeitores; pelo contrário, sentem-se heróis a combater uma injustiça, Batmans da favela, e nenhuma repressão vai fazê-los parar. Quanto mais apanham ou morrem mais cresce a indignação com o que consideram injusto e perverso. É por isso que o assassinato patrocinado pelo estado (pena de morte) ou pela iniciativa privada (chacinas e guerras de pontos de tráfico) nunca coibiu a violência e, mais ainda, contribui para o seu incremento.

É preciso mais do que raiva e indignação para resolver esta questão. Mais ainda, é necessário suplantar o ódio para encontrar uma resposta segura e sensata, que contemple o desejo de todos, e não apenas do nosso grupo.

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Feminismo e Humanização

discussao

Aqui estão reflexões sobre a Humanização do Nascimento conforme tenho observado.

Nos últimos meses temos visto muitas brigas intestinas dentro do movimento exatamente no momento em que ele se torna mais forte e abrangente. Muitas destas divergências poderiam ser tratadas internamente, esperando que os ataques venham daqueles que não concordam com nossas ideias, mas infelizmente vemos brigas entre pessoas que comungam com a mesma base de pensamento, divergindo apenas nos detalhes.

De uma certa forma isso é compreensível, visto que essas lutas são causadas quase que exclusivamente pelas  vaidades inerentes a qualquer coração que se deixa tomar por uma paixão, e o trabalho com o parto está dentro das grandes paixões que imantam profissionais do mundo inteiro.

Sei que minhas palavras desagradam muitas pessoas e não tiro minha culpa sobre estes julgamentos. Sou falante demais, opiniático e intrometido. Por outro lado sou alguém que acredita que o diálogo pode ser a única forma de resolver conflitos de forma civilizada, e para isso é fundamental escutar o que o outro tem a dizer, suportar o contraditório e (ó dor…) aprender com a experiência alheia. Por isso creio que o movimento de humanização precisa fazer uma reflexão sobre as questões inerentes ao ritmo e direcionamento de suas lutas.

Por transitar pelo universo feminino há mais de três décadas acabei me tornando um observador atento das nuances e características dos movimentos com os quais tive contato e aproximação: o feminismo e a humanização do nascimento.

É importante esclarecer que, do meu ponto de vista, a humanização do nascimento não é um assunto “feminista”. É um assunto sobre o qual as feministas precisam se debruçar de forma crescente, já que foi por elas negligenciado por décadas, mas que não pertence ao escopo de assuntos que pertencem ao feminismo. O parto é múltiplo, inúmeras facetas e vieses cabem no seu entendimento. Se é verdade que ocorre nos corpo das mulheres, TODOS somos nascidos deste processo, conferindo à totalidade da humanidade o direito de ter voz neste debate. Todavia, é evidente que  a imensa maioria das ativistas de ambos os movimentos sociais são mulheres. No feminismo, a totalidade, mas na humanização do parto a gigantesca maioria, e isso dá às mulheres uma especial posição de autoridade para falar de um tema que as toca de forma muito marcante. Posso ser visto como um dos poucos homens que se aventura a falar e defender de forma desabrida o protagonismo feminino como o ponto nevrálgico desta mudança paradigmática na atenção ao parto.

Como observador atento das nuances de discurso nos dois movimentos, muito do que vejo no feminismo é o mesmo que observo no movimento de humanização do nascimento: para algumas defensoras existe uma clara confusão conceitual entre o “problema” e quem o “representa“.

Na humanização do nascimento, o qual acompanho desde o final do século passado, ao invés de focarmos nossas forças na mudança de um SISTEMA perverso e ineficaz (nossas taxas de mortalidade materna nos comprovam isso) perdemos muito tempo nos elementos que – concordando ou não com ele – o representam; no caso do parto, os obstetras. Assim, muita energia é dispensada em atacar ferozmente médicos que atuam dentro de um sistema que não respeita a subjetividade, a autonomia e a liberdade das mulheres. Infelizmente, muitas vezes estes próprios médicos atacados são até sujeitos interessados em fazer mudanças na sua postura e na sua prática, mas são forçados a se proteger em suas corporações porque TUDO o que observam partindo do outro lado (as ativistas) é formado por acusações, agressões, violências verbais e rancor. Como seria possível chamar estes profissionais para fazer parte de uma grande mudança se não lhes oferecemos o carinho e a acolhida necessárias, exatamente o que reclamamos para as pacientes que entram em um hospital para dar à luz?

O mesmo acontece no feminismo. Eu mesmo, que tenho 30 anos de lutas para fortalecer a autonomia e o protagonismo das mulheres no parto, fui duramente atacado pela “tropa de choque” das feministas por um conceito (que sequer é meu, é de Engels) sobre as origens do patriarcado. Quando eu vi a enxurrada de acusações e violências (repletas de clichês do tipo “vaza“, “já vai tarde“, “não passará“, “machista“, “misógino mentiroso“, etc..) desferidas a mim eu pensei: “Bem, se eu não sirvo para essa luta, quem serve? Que tipo de obstetra seria correto e adequado para as feministas? Que tipo de profissional poderia cumprir todos os requisitos para servia à causa da humanização? Que tipo de obstetra concordaria com qualquer agressão à sua corporação sem sequer ter o direito de defesa? Que obstetra aceitaria participar de uma luta em que, qualquer discordância, o faria ser tratado como lixo?

Trinta anos buscando auxiliar a causa do protagonismo feminino não servem de nada diante das exigências das mulheres sobre o “correto comportamento e o adequado discurso de um homem quando fala sobre as mulheres“.

Mas antes que as defesas apareçam, é claro que não são todas as feministas que agem assim, talvez sejam uma minoria, mas são as que tem mais voz e que causaram mais estragos nas tentativas de diálogo.  No caso destes grupos mais radicais o objetivo implícito em muitas manifestações é uma total humilhação dos homens, uma vingança completa e final pelo “mal” que causaram às mulheres em todos estes séculos, sempre recheada de clichês (vaza macho, não passarão, mascus, esquerdomacho, etc.).

Na humanização do nascimento temos um grupo semelhante e muito vocal, acostumado a criticar abertamente o comportamento dos médicos com piadas, deboches, apelidos e críticas onde os fatos sequer foram totalmente esclarecidos, fazendo com que qualquer intervenção médica seja julgada com desconfiança. Para estas, o “extermínio” dos obstetras é uma espécie de “solução final”, pois eles representam todo o mal e toda a dor das mulheres na assistência.

Nenhuma destas soluções é possível (ou mesmo suportável), mas os discursos de culpa contra homens e médicos se multiplicam de forma inaceitável, pelo menos para quem sonha com mudanças.

Para quem deseja avanços surgindo no horizonte, mesmo que lentos e seguros, ver a humanização do nascimento adotar as mesmas táticas do feminismo mais violento pode retardar estas transformações por décadas. Atacar de forma agressiva e irracional – com palavras  recheadas de rancor e mágoa – os profissionais que atuam no parto, nos fará apenas regredir nas conquistas até aqui conseguidas. Esse comportamento apenas incentiva o surgimento e crescimento de reações óbvia daqueles que se sentem (justa ou injustamente) atingidos: os grupos machistas e o “dignidade médica“.

Sem uma postura de congraçamento e diálogo, isto é, uma postura mais “feminina“, nada será feito de forma consistente em um futuro próximo.

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Ódio

Hate

Mulheres que odeiam homens não precisam ler o que escrevo ou dissemino nos meus escritos e postagens, e podem guardar de mim uma distância respeitosa. Aliás, a mesma que me separa dos homens que odeiam mulheres, ou que as tratam como bibelôs idiotizados. Apenas entendam que o ódio que guardam dos homens não é espetaculoso ou explícito, mas opera nas sutilezas do discurso, nos silêncios e nos vãos que separam as palavras. O ódio que destilam pelos homens aparece nos pequenos detalhes dos comentários ou nos “calabocas” frequentes, que tentam impedir que um homem se manifeste sempre que a mulher é o assunto. Além disso, quando me dizem “eu não odeio os homens, tanto que casei com um” para mim faz tanto sentido quanto o velho clichê “não sou racista, já namorei uma negra“.

Homens que odeiam mulheres e as mulheres que os odeiam não precisam ler ou frequentar minhas ideias. Eu os respeito, mas não se faz necessária nenhuma proximidade.

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Guerras Religiosas

Guerra Israel

Um erro plantado na cultura ocidental contemporânea é a crença de que as guerras entre israelenses e palestinos ou entre britânicos e nacionalistas na Irlanda tem alguma conotação religiosa. A religião é apenas uma coincidência. Da mesma forma que brancos e negros poderiam ter religiões diferentes na África do Sul, ela nunca foi a origem do Apartheid. Israel domina o território palestino, mas isso nada tem a ver com a religião, até porque os ideólogos sionistas eram declaradamente ateus. O mesmo se dá com as lutas entre “católicos” e “protestantes” na Irlanda, que nada mais são que uma forma de desviar a atenção sobre o colonialismo britânico e colocar sobre a disputa uma conotação religiosa e de intolerância com as crenças alheias.

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Fabrício e Adelir

Fabrício-Adelir

Exatamente nos umbrais de abril, um ano depois de Adelir ser forçada a realizar uma cesariana sob ameaça e coerção, um jogador de futebol se rebela, joga a camisa do clube que o sustenta ao solo, sai de campo vaiado, recebe ofensas de todo tipo (raciais?) e termina seu ato dizendo que vai embora para não mais voltar.

Qual a relação entre estes dois fatos, ocorridos na mesma terra, no extremo mais conservador do Brasil?

Não creio em coincidências, e muito menos que a distância entre estes fatos não possa ser ultrapassada com um pouco de análise crítica. Penso que os valores que circulam no campo simbólico acabam se acumulando sobre as nossas cabeças como nuvens, as quais por fim se precipitam sob a forma de raios e tormentas aparentemente sem causa, diante de fatos cuja intensidade oportuniza uma fissura na casca protetora dos discursos.

Os elementos que ressaltam em ambos os casos são relativos à forma como a sociedade enxerga estes personagens. Se de um lado Adelir era uma “máquina de parir” à nossa disposição, cujo produto – o bebê – a nós pertence, também Fabrício é uma “máquina de jogar”, cujo passe pertence ao clube, e sua arte a todos nós. Um jornal local chegou a chamar Fabrício de “um ativo financeiro do clube” e que, por isso (seu valor como mercadoria), deveria ser preservado.

Em ambas as situações os sujeitos coisificados se rebelaram.

Adelir refugiou-se em sua casa com uma doula, aguardando o momento mais adequado – o mais tarde possível – para chegar ao hospital, esperando com isso conseguir seu parto normal. Foi ameaçada, trazida de casa por policiais armados e sem chance de defesa. Sucumbiu ao poder maior dos proprietários de corpos, os que manipulam nossa vida em nome de uma ordem imutável. O objeto de parir foi conduzido para o lugar que a cultura designa, sem qualquer autonomia sobre sua vida e seu destino. Calou seu corpo e submeteu-se à lâmina fria que cortou seu ventre e seu sonho.

Fabrício também deu seu grito de basta. Com as vaias e apupos trancados na garganta, misturados com uma história pessoal de perdas, dores, mágoas, tristezas e decepções, ele explode de raiva e indignação incontidas. O objeto de jogar chora e grita em campo, afasta-se dos companheiros, xinga a turba ensandecida, caminha de cabeça erguida para o vestiário e grita para todos “eu vou embora, aqui não jogo mais“.

Nós testemunhamos um sujeito se desmanchar emocionalmente em campo. Quase todos viram um jogador desesperado, mas alguns viram um ser humano despencar devido a uma pressão violenta e insana. Um gladiador que, ao ver a turba ensandecida clamando por sangue e glórias, se rebela. Tira seu escudo e suas armas, joga-as ao solo. Olha para os assistentes com indignação, os quais respondem com incredulidade, que logo dá lugar ao ódio.

Penso na crise existencial de Fabrício e não consigo tirar da mente a imagem de Spartacus…

Dois atos separados por um ciclo solar, mas unidos pela rebeldia. Em Fabrício e Adelir vemos a insistência em ser protagonistas de suas vidas, e de não entregar seus corpos ao gozo alheio. Adelir tornou-se um símbolo na luta contra a violência obstétrica institucional, e um ícone do protagonismo responsável que almejamos. Fabrício e seu ato tresloucado representam a insurgência contra um modelo que objetualiza pessoas para servirem como depositários de nossas frustrações, mágoas e fracassos.

Que ambos sirvam de reflexão para a posteridade. Que o protagonismo da mulher no parto seja sagrado e respeitado por todos, e que o respeito à pessoa humana do artista, ou de qualquer figura pública, seja uma constante.

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