Hoje fui buscar meu neto Oliver na sua casa para tomar café com as crianças que haviam chegado para visitar a Comuna, e o argumento que usei para tirá-lo de casa foi:
– Levanta, moleque!!! Puxa, estão todos lá esperando ansiosos para lhe encontrar. Você é muito especial. Venha!!
Ele olhou pra mim um pouco desconfiado e incrédulo, mas, assim mesmo, resolveu se levantar, vestindo um sorriso e vencendo a preguiça e a insegurança que teimavam em lhe amarrar na cama.
Minhas palavras me transportaram para mais de 40 anos no passado, quando minha turma de adolescentes resolveu marcar uma festa. Diante da minha resistência em participar do encontro, um amigo mais velho me disse:
– Como assim “não sabe se vai”? Você é a pessoa mais importante desta festa!! Sem você não vai ter nenhuma graça!!
Ainda lembro do seu sorriso maroto dizendo isso. Era pura encenação, hoje sei, mas na época me pareceu tão autêntico quanto um “eu nunca mais amarei ninguém” depois da primeira frustração amorosa. A verdade é que, passadas já quatro décadas, a cena permanece colada em minha memória de forma ainda vívida e forte. Talvez a intenção do meu amigo, ao perceber minha timidez e insegurança, fosse mostrar algo de mim que eu mesmo desconhecia. É pelos outros que mapeamos nossa alma; é o olhar alheio quem melhor nos descreve. Suas palavras de estímulo serviram para reforçar minha confiança titubeante diante da natural fragilidade adolescente com os desafios da vida.
Achei que meu neto poderia vencer suas vergonhas e medos com uma pitada homeopática de autoestima. Talvez ele possa, com o tempo, enxergar a maravilha que é desfrutar da vida sentindo-se amado e respeitado.
Tábata Amaral rebate Ciro Gomes dizendo “A forma como sou criticada é por ser jovem e mulher“.
A afirmação da parlamentar está, em meu humilde juízo, errada e certa ao mesmo tempo. Errada está porque, mesmo reconhecendo o machismo estrutural de nossa sociedade, as críticas direcionadas a ela são claras e pontuais, em especial quanto à reforma da previdência na qual ela votou contrariando as diretrizes partidárias e de resto a própria história e o nome do partido (trabalhista). Se é verdade que é “alvo” por ser jovem e mulher também é verdade que esta condição foi fundamental para sua eleição. Vozes femininas que trouxessem renovação foram buscadas na última eleição, e ela foi uma beneficiária desse anseio. Não é admissível, entretanto, que sejamos eternamente complacente com as posturas políticas de alguém que usa a cartinha fácil do preconceito. A banca paga e recebe.
Por outro lado está certa quando percebemos que Tábata votou da mesma forma que os homens velhos que compartilham consigo a Câmara de deputados. Certamente sua condição de mulher, seu partido e sua juventude nos ofereciam uma expectativa completamente diversa. Desta forma é verdade que o voto conservador de uma jovem mulher que debutava na política foi muito mais frustrante do que o voto reacionário de um empresário branco e rico que se posicionou da mesma forma.
Assim, é inevitável que surjam frustrações com sua postura política, além de suas manifestacoes arrogante e desvinculadas do ideário do seu partido. Infelizmente, de onde se esperava renovação veio o mesmo padrão de política que há séculos oprime os trabalhadores.
O Yahooo anuncia que as listas de discussão serão apagadas no dia 14 de dezembro, enterrando as memórias do surgimento de um dos mais importantes movimentos sociais ocorridos na virada do século, no bojo dos debates de gênero e sexualidade.
Não é justo dizer que a humanização do nascimento “nasceu” com os grupos de discussão da Internet. Afinal, a inconformidade já existia, os “encontros da Fadynha” todos os anos no Rio de Janeiro também e a ReHuNa havia sido criada em 1993, em Campinas. Porém, foi com a cumplicidade compartilhada via internet que essa grande massa de pessoas da classe média conseguiu um canal para o escoamento de ideias, propostas, indignações, reclamações, sonhos e projetos. Deixo claro meu reconhecimento de que os grupos de discussão foram, mesmo, um fenômeno burguês. Mulheres – em sua imensa maioria – que dispunham de tempo e recursos (no final do século passado um computador era uma pequena fortuna) começaram a debater sobre suas frustrações com os partos e com o que elas imaginavam ser um futuro possível. Eu sempre tive essa certeza das limitações de nosso discurso, mas antevia que essa narrativa um dia tomaria uma mudança radical. Certa feita, durante uma palestra na Bahia, fui confrontado educadamente por uma negra ativista e feminista que, diante do meu entusiasmo com as possibilidades oferecidas pela Internet na sedimentação do nosso ideário de humanização, me contestou, com um sorriso emoldurado por um cabelo cheio de contas multicoloridas: “Muito bonita sua proposta, doutor, mas quando isto será realidade para as mulheres pobres e faveladas da periferia de Salvador?“
Minha resposta foi curta e simples: “Se essa proposta se revelar uma modinha para mulheres de classe média, que dispõem de um computador para desaguar suas insatisfações, será bom que termine rápido, como são as cores e roupas de verão. Entretanto, se for um projeto para destituir “podres poderes” que abusam da autonomia e da liberdade de escolha das mulheres sobre seus corpos, deverá atingir a todas as mulheres, em especial as destituídas e esquecidas de quaisquer periferias“.
Eu fui arrastado para este universo por desenvolver duas paixões – pelos computadores e pelo parto humanizado. Imediatamente me envolvi nos debates das listas que surgiram, sendo as mais expressivas a Partonatural, a Amigasdoparto e a sua sucedânea, a Partonosso. Foi neste espaço virtual que se solidificaram lideranças, amizades e – impossível evitar – algumas grandes inimizades. Como eu sempre disse, os espaços entre os dígitos de uma tela são preenchidos da mesma forma que os versículos da Bíblia, onde mais inserimos nossos valores, medos, frustrações, ressentimentos e (pre)conceitos do que retiramos ensinamentos. De qualquer modo, se não foi a semente da humanização, as listas de discussão rapidamente se tornaram o grande adubo para o crescimento desse movimento que, a cada dia que passa, se torna uma ameaça mais vívida aos poderes patriarcais estabelecidos sobre o controle dos corpos e sobre a expropriação espúria dos nascimentos.
Com os debates das listas de discussão do Yahoo serão enterradas as lembranças mais cálidas dos momentos de heroísmo de um movimento nascente. O que hoje é um consenso – por exemplo, o direito ao parto domiciliar planejado – naquela época era cercado de dúvidas e incertezas. Debatíamos questões hoje soterradas pelas evidências, como episiotomias e direito a acompanhante. Foi lá onde, pela primeira vez, houve um debate aberto e extensivo sobre um personagem que aos poucos se tornou o epicentro dos ressentimentos da classe médica: as doulas, mas que hoje são quase uma unanimidade entre os pesquisadores do bem-estar materno.
É triste ver uma parte da nossa história ser enterrada, mas também temos que comemorar o que esta etapa significou em nossas vidas. Sem estas listas talvez não houvesse SIAPARTO (Ana Cris seria uma mega-empresária no ramo de flores), não haveria um movimento nacional de doulas, não teríamos amigos de quase duas décadas morando a milhares de km e muitos contatos que hoje fazem parte dos nossos amigos mais presentes e calorosos estariam ainda distantes, guardando para si mesmos e seus parceiros ideias que, por este veículo, hoje encantam a todos.
Para todos os “herois da resistência” que enfrentaram os leões do patriarcado obstétrico, meu abraço e meu reconhecimento pela história que ajudaram a escrever. Para as pessoas com quem briguei, espero que me perdoem. Afinal, não se faz uma revolução como fizemos com tapinhas nas costas; algum nível de atrito sempre haverá. Para todos aqueles que aprendi a amar e admirar através das nossas listas, digo apenas que foi uma grande honra poder compartilhar essa aventura com vocês.
Sempre achei o “Quebrando o Tabu” um site “biscoiteiro”. Isto é: faz
matérias para agradar sua audiência, sempre se posicionando ao lado do
senso comum, exatamente como agora no caso do veto presidencial à
notificação compulsória de violência contra a mulher. O grande problema é
que, diante de temas complexos e multifacetados, muitas vezes o senso
comum está errado, imerso no campo simbólico ainda conservador. Estar
sempre do lado do time favorito tem seus reveses previsíveis
A defesa da mulher vítima de abusos e violências merece uma análise aprofundada PARA ALÉM do sentimento rasteiro de proteção policial. Foi muito oportuna a manifestação da Dra Melania Amorim e do seu coletivo mostrando o equívoco – científicamente evidenciado – de transformar profissionais da saúde em informantes das polícias, o que repetiria o descalabro com relação à notificação de casos de aborto provocado.
“Sem vínculo entre cuidador e paciente não há medicina”, já dizia meu colega Max. Aqui sempre enxerguei claras semelhanças entre a medicina e a pedagogia (que nada mais é do que o apice da ação médica). Este vínculo, como de resto todo processo pedagógico ou de cura, se estabelece na confiança que o aluno ou o paciente deposita nas mãos de quem o atende. Se essa confiança é quebrada TODO o processo se desfaz.
Se ao procurar ajuda para suas feridas físicas e emocionais as mulheres sentirem medo que isso acarrete a prisão de seu companheiro elas simplesmente recusarão esse atendimento. A abordagem precisa partir da proteção seguida do empoderamento para que elas mesmas possam dar conta do enfrentamento necessário. Colocar os profissionais de saúde na posição de informantes e delatores, quebrando a sacralidade do segredo profissional, é um absurdo, um erro e um equívoco irreparável.
Para concluir:
Para quem ainda não entendeu porque profissionais de saúde – médicos, enfermeiras e até agentes de saúde – não podem denunciar violência doméstica pense nos casos nos Estados Unidos onde mães e pais tem receio de levar uma criança machucada ao hospital por medo de que suas contusões sejam confundidas com maus tratos e isso acarrete ações penais e – até mesmo – a perda da guarda. Se o atendimento médico não for um lugar seguro para a atenção à saúde as pessoas vão naturalmente recusar o atendimento.
O mesmo problema ocorre com mulheres que, para fugir da violência obstétrica, procuram partos extra-hospitalares. Todavia, o pânico em receber represálias e maus tratos da equipe médica faz com que muitas vezes ocorra demora em procurar a assistencia do hospital, caso uma interferência acorra. Isso via de regra pode ter consequências muito ruins.
Por esta razão, o parto domiciliar tende a ser muito mais arriscado pela violência institucional do que pela falta de quipamentos, atenção ou pelo cuidado insuficiente. O maior risco do parto fora do hospital é o preconceito e o ressentimento do pessoal da retaguarda.
Hospital não é delegacia de polícia e profissionais de saúde não são delatores ou agentes de segurança pública.
Sem confiança nestes lugares e personagens sociais o serviço se torna precário.
Médico não é juiz para julgar suas escolhas.
Sem confiança não há vínculo e sem vínculo não há atenção digna e efetiva.
Estes últimos dias eu me debrucei sobre a dificuldade das pessoas de codificarem as mensagens em suas mentes e o problema de colarem temas uns nos outros sem perceber que são independentes, mesmo quando nos chegam dentro da mesma embalagem. Foi o meu amigo Túlio Ceci Villaça quem citou o termo “crossover” para demonstrar como uma determinada discussão produzia um “curto-circuito” que impedia que entendêssemos a autonomia das proposições. Assim, por exemplo, diante da notícia de que um homem foi condenado à morte na Índia por estupro, as posições são tomadas diante desse bloco, ao invés de perceber que há DOIS TEMAS independentes: pena de morte e estupro. Desta forma eu posso dizer “Que absurdo!!” me referindo à pratica medieval de assassinatos determinados pelo estado, sem estar sendo necessariamente condescendente com o OUTRO TEMA, que é o estupro. Mas…. os afoitos de plantão via de regra afirmam: “Ahh, então você está a favor do estupro daquela menina indefesa? Que decepção!!“. Infelizmente as pessoas (con)fundem as narrativas e, as vezes de propósito, entram nos debates para inserir SUAS AGENDAS pessoais, usando a notícia como mote e o tema como um pacote fechado onde as questões não podem ser tratadas de forma separada.
É fundamental aprender a DES-MEM-BRAR quando se vai debater!!!
Esta semana houve pelo menos três debates próximos de mim que tinham
esta característica. Todos precisariam ser entendidos em seus temas
separados, mas muitos resolveram tratá-los de forma monolítica, o que só
gera discussões inúteis e ressentimentos. Vou listar apenas os 3 mais
importantes na minha perspectiva.
1 – A menina que deu um tiro de espingarda em um pretenso abusador. Eu mesmo deixei claro que o caso específico da menina sequer cabe debater – em especial por haver poucos dados e por serem eles ainda bastante contraditórios. Além do mais, pela sua pouca idade ela é inimputável; discutir se ela está certa ou errada é tolice. O que me parecer digno de debater foi a repercussão disso na sociedade e a defesa da política bolsonarista de exterminio da população negra e o eco que se deu às palavras de genocidas como Witzel – de que a ação adequada para a violência é distribuir armas.
Aqui ficou
claro o “crossover” de temas: para defender a menina e “todas as outras
meninas-vítimas” do abuso e da morte rapidamente adotaram O MESMO
DISCURSO GENOCIDA que está massacrando as populações pobres e negras do
Brasil. Pior, argumentando que vale a pena entregar uma espingarda para
uma menina de 12 anos para que ELA escolha quando um risco é real ou
imaginário. ISSO sim deveria deixar a todos estupefatos. Pior ainda é
achar que a vida de um homem (apenas por ser homem) é INFERIOR à vida de
uma menina!!! É perfeitamente possível enxergar os dois temas: ser
contrário a qualquer forma de abuso e igualmente ser contra a
distribuição de armas – em especial para crianças.
2 – Um bebê nasceu de parto normal com 6 kg. Mãe e bebê estão felizes e “saudáveis” (não se pode ter certeza das repercussões desse sobrepeso para o resto da vida da criança). Mais uma vez o “crossover” de temas. Sim, é legal saber que até bebês de 6 kg podem nascer por via vaginal provando a elasticidade das estruturas femininas. Isso vai no contrafluxo dos mitos da obstetrícia contemporânea que começam a tratar bebês de 3.5 kg como “muito grandes para uma passagem tão estreita”, como muitos de nós já escutaram. Por outro lado – e igualmente importante – não, não é legal deixar passar diagnósticos de diabete mélito sem uma ação adequada. Houve provavelmente falhas no pré natal que precisariam ser esclarecidas para evitar casos como este – mas com consequências ruins. Misturar esses temas provoca essa confusão. É fundamental desmembrar todos os temas existentes em um fato, em especial os fatos sociais. Sim, é legal que seja comprovada a capacidade de mulheres darem à luz bebês muito grandes, mas não é legal que isso seja consequência de um pré-natal mal conduzido. Não é razoável que temas como este sejam respondidos com “sou contra” ou “sou a favor”, “que legal”, ou “que horror”. Isso limita de forma inadequada a abrangência do debate.
3 – Uma reporter do programa do Datena leva uma cusparada de um suspeito de crimes (pego em flagrante). Então vamos aprender com Jack e desmembrar o que se pode dizer sobre isso. É evidente que tratar uma mulher com indignidade não pode. Cuspir é uma ofensa odiosa. Aliás, quando o deputado Jean fez isso eu achei um absurdo, e aqui haveria um outro curto circuito de temas, mas deixa pra lá; não precisamos debater pois creio que todos concordam que cuspir nos oponentes não é uma boa forma de resolver impasses. Por outro lado, jornalismo LIXO que explora a miséria da exclusão social e a barbárie do capitalismo merece TAMBÉM ser exterminado. Para este tipo de mídia que explora pessoas em situação dramática, cuspir seria uma pena leve demais. Não é necessário que se misturem os temas. Cuspir numa mulher repórter é absurdo e merece punição. Entretanto, permitir a existência de programas lixo e apresentadores como Datena é muito mais indecente ainda. Portanto, eu posso combater a criminalidade e ao mesmo tempo combater o esgoto televisivo.
Penso que a maioria dos embates que vejo na internet se devem às misturas infelizes que fazemos de múltiplos temas. Sei que muitas vezes a pessoa vê na notícia uma forma de expressar suas paixões, medos, angústias e dores, e por esta razão enxerta sua visão particular sobre determinados temas sem levar em consideração todas as outras maneiras de perceber e traduzir os fatos. Se o Facebook tem algum propósito superior talvez seja ensinar as pessoas a raciocinarem de forma mais limpa e coerente.
Há exatos 20 anos, 1999, nos umbrais do século XXI, eu comecei a
escrever. Velho mesmo, quase quarentão. De pronto deixo claro que não
acredito em nenhum sujeito que começou a escrever depois de ser
oficialmente ancião, mas eu não escrevia porque queria, apenas porque
precisava. Não se tratava de prazer, mas de compulsão. Antes disso eu
apenas lia, e com exceção de raros esquetes humorísticos (entre eles um
chamado “O círculo do gelo”), eu não me interessava em escrever. Foi a
dor, a angústia e a noção cada dia mais intensa de que me resta pouco
tempo de vida que me fizeram colocar no papel tudo o que me passa pela
cabeça. Literalmente tudo: pensamentos, histórias, chamamentos, citações
descobertas e histórias. Histórias tristes ou bizarras. Piadas em
profusão, inobstante serem engraçadas ou não – na minha família a regra é
“o importante é a quantidade e não a qualidade”. Tenho medo de morrer e
guardar comigo uma história que apenas eu sei.
Sei que me resta pouco tempo e gostaria de deixar em algum lugar todas
as histórias que eu porventura tomei conhecimento. Fico triste ao saber
que dezenas delas não podem ser contadas, pois as pessoas que dela
participam poderiam se ofender. Por vezes eu penso em um parto, uma
expressão de alguém, uma piada, uma historieta ou o projeto de um grande
romance (como o do homem que lia na prisão, ou a história de Eneida, a
mulher que fumava e fazia do sexo sua arma mais poderosa) e me apresso a
escrever antes que os detalhes evaporem de minha memória.
Hoje
escrevi o texto de número 1200 no meu blog, que comecei a organizar
apenas em 2012. O que escrevi antes disso está soterrado nas listas de
discussão das “Amigas do parto”, ou no “Parto Humanizado”. Outras poucas
recuperei e usei como material para os meus dois primeiros livros, o
“Memórias do Homem de Vidro” e “Entre as Orelhas”.
Sei da
desimportância do que eu escrevo, mas realmente a qualidade da escrita
nunca foi o meu objetivo máximo. Eu comparo esta compulsão com a árvore
genealógica que meu pai me deu de presente há alguns anos. Era, em
verdade, um pedido singelo para ser lembrado, poder ver o seu nome num
quadradinho que, ao mesmo tempo que tinha suas raízes num passado
distante, oferecia sementes para os que vinham abaixo. Um desejo
ilusório, quase pueril, de imortalidade.
Também estou ciente do
amargo que aguarda minha senectude, e sei o quanto será difícil para um
velho ter que suportar o que virá. Outrossim, reitero que tudo faria de
novo e que esta vida é curta demais para ser encarada com temor.
Existe um projeto claro de restringir a educação e o pensamento crítico de vastas porções da população para que o modelo opressivo capitalista se mantenha intocado. A mesma razão possuíam os padres na idade média ao realizar as missas em latim, pois dessa forma o conhecimento dos “segredos” se mantinha apenas entre eles, e a ninguém cabia questionar os desígnios da Igreja. Restringir o conhecimento, obstaculizar a educação, elitizar o conhecimento sempre foi um projeto das elites, para que a essência libertadora do saber se mantivesse constrito nos segmentos mais abastados e detentores do poder político
A proibição do ensino formal às meninas cumpre o mesmo roteiro: mantê-las ignorantes e dependentes para exercer domínio sobre elas. Não é à toas que os países mais fixados no modelo patriarcal tentam de todas as formas manter as mulheres acorrentadas à própria ignorância. Negros aprendendo apenas o necessário para exercer ofícios simples e subalternos também cumprem esse desígnio, e por isso as universidades sempre foram ambientes onde eles só entravam para fazer a limpeza.
O objetivo é sempre o mesmo: manter as castas sociais intocadas. O capitalismo e o patriarcado mantendo a ordem social. Oprimidos agradecendo as migalhas enquanto os opressores disseminam o medo de se criar um país mais justo e igual. Mas, como toda a historia nos ensina, não há opressão que dure para sempre, e o trem da história não é “carroça abandonada em uma estação inglória“. Pelo contrário, “ela é um carro alegre, cheio de um povo contente, que atropela indiferente, todo aquele que a negue“, como já havia nos ensinado Pablo Milanés.
A fantástica história de Jack e Emmet, e o homem que lia livros para se tornar livre…
JJack sabia do amor que Emmet nutria pelos livros. Não era sequer necessário que ele houvesse descrito a pequena biblioteca que tinha em sua casa antes de chegar aqui. Sua forma por vezes rebuscada de descrever os cenários ou os episódios de sua vida mostrava o apreço que nutria pelas palavras. Ah, os conceitos, as nuances, as filigranas. Nenhum objeto existia na descrição de Emmet que não merecesse uma metáfora. Esse seu jeito sofisticado de descrever a vida só podia ter surgido pelo exercício continuado de apreender seus significados folheando incansavelmente as páginas com a avidez erótica da curiosidade.
Ele, entretanto, não possuía livros em seu poder. Os poucos que eu tinha, Zora os entregava mensalmente durante as visitas, os quais ajeitava com carinho debaixo do meu catre simples, mas sempre limpo. Para meu olhar clínico era fácil entender esta ausência nele. Emmet ajeitava os óculos com cuidado diante de qualquer tarefa, mas este esmero mais se mantinha por um cacoete do que pela justeza dos focos. Pouca diferença fariam os ajustes das lentes por sobre o nariz vermelho e anguloso. Emmet praticamente nada enxergava, mas tentava disfarçar ao máximo sua dificuldade na frente dos outros prisioneiros.
Por ser o mais velho da cela, lhe coube a única cama que recebia uma tímida nesga de sol nas manhãs de inverno. Seu rosto magro recebia a carícia do sol apenas por breves momentos, exatamente quando recebíamos o sinal de deixar as celas para o café matinal. Emmet esperava que todos saíssem do cubículo para só então tatear suas roupas e calçar as botinas velhas e escuras. Perguntava por mim, e quando lhe respondia o cumprimento sorria dizendo “ora, que tonto, nem vi que ainda estava aí”. Meus anos na medicina me permitiam saber que Emmet estava há muitos anos lutando contra o diabete. Suas injeções diárias de insulina eram feitas à noite, escondido em sua cama, quando a cortina de panos encardidos lhe oferecia uma benfazeja, porém curta, privacidade. Mas eu sabia. Apesar disso, nunca comentei com outros detentos e sequer lhe disse que tinha conhecimento de sua doença.
Uma certa noite, antes do “black out”, Emmet me perguntou o que estava lendo. Por certo que ouviu o folhear lânguido das páginas ao seu lado. Talvez esse tenha sido um daqueles momentos transformadores na vida de um sujeito, mas que, em geral, passam despercebidos quando ocorrem. A pergunta de Emmet tinha um som estranho, que carregava mais do que uma simples curiosidade; era também mais do que uma forma de preencher o vazio cheio de silêncios entre nós, ou para se livrar do desconforto que tais momentos representam. Sua dúvida tinha a triste melodia de uma súplica. Coloquei o dedo entre as páginas do livro como um marcador e o fechei. Olhei para Emmet que permanecia com o olhar fixo na parede suja à frente.
– A República…
– Platão!!! – disse ele sorrindo, antes que eu pudesse completar a informação. Havia uma emoção triste e genuína em sua face emagrecida.
– Em que parte está? – perguntou ele.
– Quer que eu leia? – perguntei, sem me dar conta de que esse era o desejo inconfesso de Emmet fantasiado de frugal curiosidade. Abri o livro novamente e li a partir de onde meu dedo, ainda preso entre suas páginas, apontava.
Sócrates: “Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância…”
Depois de poucos minutos levantei os olhos da leitura daquele parágrafo apenas para comentar alguma banalidade sobre o gênio de Platão, ou sobre sua influência no pensamento ocidental, mesmo após milênios passados de sua morte. Entretanto, minha voz foi interrompida antes da primeira palavra. Com as mãos espalmadas sobre os joelhos pontiagudos, Emmet jazia imóvel. Seus olhos marejados se fecharam num piscar reflexo, de onde brotaram duas lágrimas que percorreram com morosidade os sulcos de seu rosto. Sem abrir os olhos, ele segurou meu braço com delicadeza e de seus lábios uma voz quase apagada sussurrou:
– Obrigado, meu amigo Jack.
James G. Higgins, “Freedom”, Ed. Lasseter, pág 135
James Garret Higgins é um jornalista e escritor americano nascido em Tulare na Califórnia em 1939. Fez sua formação universitária na California State University em Sacramento, tendo cursado Jornalismo e posteriormente Ciências Sociais. Após trabalhar na Nigéria por 3 anos como correspondente da Guerra de Biafra, de 1967 a 1970, voltou para os Estados Unidos e escreveu vários romances nos quais descrevia as condições que testemunhou na guerra brutal e fratricida que ocorria em uma das regiões mais miseráveis do planeta. O bloqueio imposto pelo governo nigeriano aos grupos rebeldes que se isolaram na região de Biafra levou a uma crise humanitária especialmente causada pela fome, mas piorada por doenças endêmicas. Estima-se que durante a guerra civil, mais de 100 mil mortes entre as forças militares foram devidas diretamente à inanição. Entre 500.000 e 2 milhões de civis da região de Biafra morreram devido à falta de comida. Esses fatos descritos por James Higgins para os jornais americanos produziram marcas profundas em sua alma. Em seus livros posteriores, como “Freedom”, ele fala da busca de sentido para vidas completamente destruídas por tragédias pessoais e pela privação de liberdade. James Higgins mora em Sacramento com sua esposa Lilith e tem duas filhas, Abayomi e Fayola.
As atitudes de Greta incomodam o “establishment” por servirem de contraponto às posições hegemônicas. Greta ataca o cerne do capitalismo destruidor e autocida. Esta é a origem do “backlash” às suas palavras e atos. O que incomoda em seu discurso não é o fato de ser mulher, autista ou jovem, mas por representar uma vertente política que se contrapõe ao modelo de desmonte da natureza que agora está em curso. As ações de Greta são muito mais importantes do que seu gênero, idade ou condição. Ela é atacada por trazer evidências incontestes da nossa estupidez e egoísmo e jogá-las na cara dos poderosos. Seu rosto infantil e sua figura miúda funcionam como um potente veículo para transmitir a ideia de que, como ela, o meio ambiente é frágil e delicado e, por isso mesmo, precisa ser protegido.
Não é difícil entender a revolta de setores conservadores, nem sua natural virulência.
Por muitos anos testemunhei o peso que representa pensar fora das caixas estreitas da corporação. Atender em hospitais com 90% de cesarianas e ainda assim lutar pela autonomia das mulheres e seu direito de escolha pelo parto normal sempre foi visto como uma grave ofensa. As atitudes dos “diferentes” os “do contra” são tomadas como agressões a um modo de pensar que é assumido pela maioria, mesmo quando ilegal ou agressivo.
O parto humanizado no ambiente da cesariana oportunista, o respeito aos direitos humanos no universo policial, a lisura na política e a postura ecológica e sustentável no trato do meio ambiente ofendem aqueles que lucram com as posturas violentas, agressivas e desrespeitosas, em especial para os que estão em posição de poder.
Como o debate racional se torna perigoso – pois os argumentos e as evidências sustentam as posturas em oposição aos modelos atuais – a forma mais eficaz de combater as ideias incômodas – verdades inconvenientes – é atacar os mensageiros e destruir sua reputação. Com Greta não seria diferente.
Entretanto, seria ingenuidade imaginar que alguém tocasse na ferida exposta do capitalismo predatório e suicida sem receber os ataques inevitáveis do paradigma moribundo. Greta terá o mesmo tratamento cruel que muitos recebem quando decidem expor suas paixões e suas propostas.
A primeira vez que ouvi falar disso foi de uma enfermeira num hospital que eu estava visitando em Cleveland, no início deste século. Depois das minhas palavras sobre o projeto de humanoização do nascimento no Brasil ela me perguntou:
– Como é a rotina de vocês com pesquisa de strepto? Usam Penicilina em todos os casos positivos?
Eu fiquei confuso com a pergunta e respondi que não havia pesquisa nos hospitais nos quais eu trabalhava e sequer protocolos de cultura para streptococcus no pré-natal referendados pelo Ministério da Saúde.
Ela sorriu e disse: “Apenas aguardem que em breve chegará lá“.
Ela estava certa, da mesma forma como estava correta uma amiga enfermeira americana que me perguntou há uns 25 anos “se já haviam chegado Pokemóns no Brasil“. Com a mesma surpresa eu respondi que não sabia se isso era produto pra comer ou pra passar no cabelo.
Ela deu risada, mas me avisou: “A onda vai chegar, e tanto como aqui, será devastadora. Aguarde…”
Pokemóns e novidades médicas são ondas, movimentos de mercado,
novidades. Acontecem em ciclos: nascem, alcançam o apogeu e morrem. A
partir de um determinado tempo é preciso algo novo, um novo brinquedo,
uma nova ferramenta; algo que nos dê esperança. Pokemóns foram deixando o
espaço depois de gerar milhões em lucros. Streptococcus espalharam
pânico e gastos imensos para o sistema de saúde sem que a
antibioticoterapia apresentasse qualquer solução. Produziu-se o medo
para vender uma esperança.
Há alguns meses uma amiga americana,
também do Norte, me escreve perguntando se já temos Cannabis medicinal
para vender nas farmácias. Desta vez eu apenas disse que ainda não…
“Aguarde, disse ela. Será a nova panaceia.”
Se você acha os gurus e salvadores da pátria soluções infantis e paliativos isórios para questões complexas, por que continua acreditando em drogas para solucionar os dramas de sua vida?
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