Presente de aniversário

Peguei um Uber para voltar para casa e – fato raro – a motorista era mulher. Mal entrei no carro e perguntei a ela se ainda escutava muito a piada “mulher no volante…” e ela deu risada dizendo que “muitas vezes”, mas que prefere levar na esportiva. Eu disse que a piada não cabe mais nos tempos de hoje. Ela concordou e me peguntou: “O senhor já pegou muita mulher?”

Não pude conter a gargalhada, mas antes que eu pudesse responder ela remendou dizendo “Como motorista, como motorista!!!“….

“Ufa”, disse eu… “perguntar isso pro velhinho, me deixa até constrangido…”

Depois dessa introdução, algo inusitado para um caramujo como eu, o papo desenrolou. Ela me disse que ontem, 17/11 foi o “dia do prematuro”, e passou a me contar do nascimento de sua filha, nascida prematura por bolsa rota às 35 semanas. É óbvio que aí a conversa engrenou de verdade. Falei a ela dos meus anos à frente da ideia de humanizar o nascimento e como era importante também humanizar o nascimento dos prematuros. Assunto vai, assunto vem e daí amamentação, bioma materno, cesariana, parto vertical, boas práticas, episiotomia e blá, blá, blá…

Depois de perceber para onde aquela conversa ía ela me disse: “Sabe, sou estudante de enfermagem do 7o semestre. Sim, da UFRGS, e meu sonho é trabalhar com nascimentos, partos, mães e bebês. Sempre me encantou esse tema. Minhas professoras preferidas são Jéssica Teles e Virginia Leismann Moretto. Elas são maravilhosas!!!”

Concordei em parte, deixando clara a ressalva relativa ao coloradismo da Virgínia, e exaltando o gremismo da Jéssica. No mais, exigi que mandasse um beijo para todas as suas professoras e que seguisse em frente com seu sonho de se dedicar à enfermagem obstétrica. Depois dessa conversa me deixou no portal da Comuna e me deu adeus com um largo sorriso.

Vadzê que esses encontros mágicos não são verdadeiros presentes de aniversário?

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Os “doutores”

Um médico que precisa de roupa branca, estetoscópio pendurado no pescoço, caneta Parker no bolso, certificados nas paredes e um “doutor” na frente do nome está tentando impor ao paciente um saber e um discurso autoritativo que não se expressam pelo conhecimento, pela sabedoria e pelo talento de auxiliar.

É possível que tal ocorra por não saber que a cura verdadeira pertence ao sujeito enfermo e que a tarefa última de um terapeuta é fazer com que seu paciente descubra isso por si mesmo, o que sempre demanda grande humildade. Por parte de ambos.

James McEnvoy, “Thrive and Desire in Therapeutic”, Ed Solomon, page 135

James Edward McEnvoy é um cirurgião escocês nascido em Inverness, ao norte da Escócia, em 1966. Sua obra pode ser dividida em novelas nas quais médicos e medicina desempenham um papel central na trama, e aquelas que tratam de política, em especial sua participação no Partido Nacionalista Escocês e sua recente migração para o “Alba” (Escócia, em Gaélico). Nos livros sobre temas médicos – como em Gozo e Desejo na Terapêutica – aborda uma perspectiva humanística e com pontes claras de conexão com a psicanálise. É um cirurgião que, ao adotar uma visão holística da medicina, critica de forma aberta e determinada a hipermedicalização da sociedade e o poder das indústrias farmacêuticas.

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Agressão brutal

A agressão ao obstetra em Itajaí é um ato que deve ser repudiado por todos. Covarde, desproporcional e absurdo. Nada pode justificar a violência contra os profissionais da linha de frente da atenção à saúde. A sociedade organizada precisa repudiar tal ato com toda a veemência.

De qualquer forma, partindo do repúdio total ao ato, é importante entender as circunstâncias da agressão que agora nos chegam pelo relato da polícia. O agressor – lutador de artes marciais com passagens anteriores por agressão – teria agredido o médico por “ciúme”, já que foi impedido de acompanhar a esposa durante a avaliação do profissional. Em função disso, talvez associado à tensão pelo trabalho de parto da sua esposa, agrediu violentamente o residente de plantão. Um ato bárbaro e inaceitável.

Aqui fica ainda mais evidente a urgência em respeitar os pressupostos da humanização do nascimento. Ao marido-agressor foi dito que ele não podia entrar na sala de exame pois havia outras pacientes na sala, e não apenas sua esposa. Isso foi o suficiente para um sujeito, perturbado e violento, perder o controle. A pergunta que cabe é: por que diabos não se respeita o direito das mulheres ficarem com seus acompanhantes de livre escolha durante TODO o processo, como recomendado por todas as instituições que estudam o processo de nascimento e como está explícito na própria LEI do acompanhante de 2005?

O médico acabou pagando por um erro ESTRUTURAL do hospital e, para seu azar, encontrou pela frente um sujeito furioso que consumou uma agressão brutal. Profissionais da saúde (enfermeiras sofrem esse assédio ainda mais que os médicos) não podem pagar pela insensibilidade dos serviços de saúde em garantir um atendimento humano e respeitoso.

O médico vítima dessa agressão talvez não seja o último. Outros sujeitos perturbados e violentos podem encontrar serviços que não respeitam os postulados da humanização e partam para a violência contra profissionais. Estes, que já lutam contra salários indignos e falta de segurança, não podem continuar a pagar o preço pela atenção anacrônica dos hospitais, que não garante assistência digna às mulheres e sua família.

Nunca como agora foi tão importante – em verdade essencial – lutar pela humanização do nascimento e assumir o compromisso pela sua implantação pelos serviços de saúde de todo o país.

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Childfree

Sobre páginas “Childfree” – grupo de pessoas que combatem a discriminação contra indivíduos sem filhos…

Minha percepção sobre estas comunidades nas mídias sociais é que TODAS essas páginas de grupos oprimidos passam pelo mesmo processo. Observe bem: se você fizer uma página de pessoas negras que lutam contra o preconceito racial com o tempo vai aparecer alguém que odeia brancos e deseja destilar todo o seu ódio contra essas pessoas, devolvendo a violência que sofre com mais violência – agora com sinal trocado. Certamente serão uma grande minoria, mas a veemência de seu discurso, fruto de dores continuadas, fará sua voz reverberar mais alto do que a maioria silente.

Da mesma forma, se um grupo feminista se une para combater a opressão machista vão inevitavelmente aparecer mulheres com discurso de ódio – e não contra os machistas, mas contra todos os homens. É fácil descobrir quem são: rapidamente dizem que o estupro é algo “natural” para todos os homens, são todos “esquerdomachos“, não passam de “escrotos” e não são dignos de nada. Escrevem sobre a superioridade moral de um gênero sobre o outro e, apesar de serem minoria, acabam contaminando os grupos com a potência do seu ressentimento. Devolvem a opressão que dizem sofrer com ódio, exclusão, violência e vingança.

Os grupos “childfree” eu pouco conheço. Minha posição de admiração ao parto e às crianças nunca me permitiu qualquer aproximação com pessoas que desprezam esses aspectos essenciais da vida. Entretanto, a escolha PESSOAL de não ter filhos é tão respeitável quanto qualquer outra. Eu não diria o mesmo de uma postura institucional ou proselitista – pois ela atenta contra a própria continuação da vida humana no planeta – porém, esta decisão pessoal, como qualquer outra, precisa ser respeitada.

Esse grupo não poderia fugir da sina de todos os outros. Se foi mesmo criado para combater o preconceito contra sujeitos que decidem não ter filhos, rapidamente atraiu pessoas cujos traumas pessoais as levam a odiar crianças, grávidas e casais que desejam engravidar. Não há como evitar que estes nichos se tornem atraentes para o deságue de ressentimentos e rancores antigos de pessoas cuja vida é salpicada de traumas.

Cabe a quem coordena tais ambientes depurá-los de indivíduos que usam uma boa causa – combate ao racismo, feminismo e preconceito contra sujeitos sem filhos – como palco para que seu drama pessoal seja encenado e onde possa distribuir sua mágoa destrutiva.

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Médicos

Na verdade essas recomendações de exames médicos anuais, ou mesmo bianuais, se prestam a um sistema de controle biomédico sobre a população, agindo como uma “polícia da saúde” que constrange os sujeitos para que entreguem sua intimidade aos profissionais da saúde. Trata-se de um projeto higienista que coloca os profissionais de saúde na posição de “juízes dos comportamentos”, interferindo na alimentação (você está proibido de… complete com o vilão alimentar da moda), na vida social, nos sentimentos (aqui entra a criminalização da tristeza), nos desejos (aqui o papel fundamental da medicina na criminalização das práticas heterodoxas da sexualidade) e na vida política (e aqui podem entrar os médicos que fazem proselitismo político em consultório). Cabe ainda lembrar dos casos de médicos denunciando mulheres que fizeram abortos, numa atitude policialesca e que viola de forma grave o pacto de confidencialidade – que é o centro da ética profissional. A discussão contemporânea de denúncia compulsória de violências de gênero – que também violaria a confidencialidade – entra no mesmo debate.

Essa função social do médico (tão bem descrita por Foucault) ainda está ancorada em uma gigantesca e multibilionária indústria farmacêutica que transforma os médicos em “despachantes de drogas”, criando e mantendo pacientes escravizados a substâncias químicas, seja pela dependência direta da ação das drogas, ou pela vinculação psicológica, produzida por uma narrativa centrada no valor curativo de elementos externos – como drogas e cirurgias – que em última análise reforçam e mantém o poder médico. A medicina contemporânea acaba se tornando tanto um poder político quanto um braço que sustenta o patriarcado e o capitalismo.

Lembro apenas as palavras do meu querido Max, que há mais de 30 anos me afirmava “A medicina como projeto de cura vai se tornando paulatinamente mais diáfana e sutil, até o ponto em que se torna pura pedagogia…. e empatia.”

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Escuta

O que seria “inútil” em uma consulta médica?

O que, no discurso de um paciente, “nada tem a ver” com a consulta? Ora… a verdade é que a Medicina procura enquadrar o discurso livre do sofrimento dos sujeitos à sua estreita visão etiológica e propedêutica. Em uma consulta padrão se objetiva traduzir toda a construção subjetiva dos pacientes para uma formulação farmacêutica, pois é para esse fim que os médicos são treinados.

A medicina, assim inserida no capitalismo, investe nos médicos como meros despachantes de drogas, e por isso mesmo os trata como crianças, oferecendo canetinhas coquetéis espelhinhos e amostras grátis. Em verdade, não há NADA na narrativa dos doentes que deveria escapar à atenção e ao escrutínio de quem se ocupa da cura. Não existem palavras vãs para ouvidos dedicados e compassivos

Aliás, a própria escuta atenciosa, respeitosa e livre de preconceitos já é a etapa inicial da terapêutica, e geralmente a mais importante. Como dizia o psicanalista Ballint, “O melhor medicamento que um médico pode oferecer ao seu paciente é ele mesmo“.

Desconsiderar a energia transformativa do encontro curador-paciente é a mais grave tolice da tecnocracia.

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Cultura do medo

The nurse relaxing Jerald before the milk challenge during the Labor Games.

Em “Media Representations of Pregnancy and Childbirth: An Analysis of Reality Television Programs in the United States”, os pesquisadores Morris e McInerney (2010) descreveram a resultados de sua análise de conteúdo de 85 reality shows que retrataram 123 nascimentos, exibidos nos EUA no “Discovery Health” e no “The Learning Channel” em novembro de 2007, concluindo que “os corpos das mulheres eram tipicamente exibidos como incapazes de dar a luz um bebê sem a intervenção médica “. (Ways of Knowing about Birth – Robbie Davis-Floyd, no prelo)

Não é de se admirar que, na cultura contemporânea, o parto seja visto como a “crônica de um desastre anunciado”. A sociedade, através de seus meios de controle social (a televisão em especial), cria e amplifica a ideia central da defectividade feminina e sua extremada dependência da ciência e da tecnologia para superar seus desafios fisiológicos. Nesta abordagem, os heróis são sempre os médicos e a tecnologia, responsáveis últimos pelo resgate das pobres e frágeis mulheres de sua natureza imperfeita e traiçoeira. Nos filmes, documentários e séries, a gestação é quase sempre retratada como um momento dramático, perigoso e causador de tragédias. Como dizia meu obscuro professor na residência, “uma grávida é um equilibrista nas alturas sobre a corda bamba, e vocês são a rede“. Por que tanto espanto quando as mulheres descrevem o parto como algo que lhes causa terror e medo? A quem cabe a culpa por uma “cultura de medo” sobre o nascimento?

A fragilidade do organismo das mulheres e sua incapacidade de parir com segurança sem a intervenção patriarcal da obstetrícia são mitos que sobrevivem ao tempo, mas cuja disseminação não se expressa num vácuo conceitual. Pelo contrário; são parte essencial do controle dos corpos, o biopoder e a dominação patriarcal sobre a sexualidade feminina.

A mudança na forma como entendemos o parto nas sociedades ocidentais não se fará pela simples disseminação de informação de qualidade, como ingenuamente acreditam os racionalistas. Esta transição é um processo cultural, e só se dará obedecendo os movimentos de fluxo e contrafluxo de qualquer outro fenômeno social. Na atual conjuntura, a abordagem intervencionista da obstetrícia ocidental ocorre por meio de um acordo mútuo entre as mulheres e seus médicos, que se baseia nos valores fundamentais e na abordagem geral da vida inserida na cultura tecnocrática.

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Mc Quem?

O caso do menino que fez piada com uma criança na Disney mostra como, no mundo cibernético, uma vida pode ser destruída em 30 segundos. Isso me faz lembrar a frase que minha mãe colou na parede do seu quarto: “Cuida como vives; talvez sejas o único evangelho que teu irmão lê“. Quem deseja adentrar no mundo do sucesso e da fama – seja lá por qual caminho for – precisa entender que sua imagem, o que fala e como se comporta é um modelo a ser seguido por muitos – as vezes por milhões.

Se há uma constante no mundo da fama ela foi descrita por Augusto dos Anjos: “A mão que afaga é a mesma que apedreja”. Aqueles que exaltam serão os primeiros a lhe afundar quando a dívida afetiva da adoração custar a ser paga. “Eu lhe dei meu amor e minha veneração; como vai me pagar?“

A atitude do rapaz foi deplorável e insensível; desrespeitosa e grosseira. Porém, a onda de vingança destrutiva contra ele me causa igual incômodo. O mesmo punitivismo que cria monstros como Moro e Dalagnol habita dentro do(a) “cidadã(o) de bem” que goza vendo a destruição de um sujeito cujo erro todos fomos testemunhas.

Perdoar NÃO significa condescender com o erro, mas entendê-lo e aplicar a pena justa, nem mais e nem menos. Destruir pessoas nunca será uma pena adequada. Usar a justa indignação como veículo de perversidade e da vingança jamais será caminho para uma sociedade solidária.

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Cuidado, “spoiler”!!!

“Festa de revelação”…
Balões azuis ou cor de rosa;
Recheio do bolo com “cor de menino” ou “cor de menina”;
Fumacinha colorida reveladora.
Céus…

Precisamos mesmo desse tipo de ritual?
Passamos por aqueles constrangedores chás de fraldas, onde a graça estava em maltratar a grávida, por festinhas mediadas por ultrassons recreativos e invasão da privacidade de bebês. Vale a pena? Não vou nem citar os riscos da realização abusiva destes exames, mas o que realmente ganhamos como sociedade ao revelar a magia, expondo o truque antes do coelho sair da cartola? Mas, a graça não está exatamente em não saber, em imaginar, em fantasiar? O desejo não se forma exatamente pela interdição, como o furo da meia – que excita por esconder?

Outra questão é o capitalismo aplicado aos ciclos vitais. Este ritual ganhou força quando começou a ficar claro que o abuso de ecografias não produzia nenhum benefício (cientificamente evidente) para mães e bebês. “Bem, mas se não produz efeitos médicos, quem sabe provamos que traz vantagens afetivas?” Assim, o comércio começou a vender a ideia de que o ultrassom era capaz de fortalecer a ligação entre as mães e seus bebê pela possibilidade de um contato mais intimo (visual) entre eles. Além de aumentar esse “bonding” – que jamais foi comprovado experimentalmente – essa nova tecnologia seria capaz de revelar o sexo do bebê, oportunizando uma comemoração extemporânea e a criação de um novo ritual, agora tecnologicamente mediado. Esse ritual acabou sendo explorado comercialmente mas também entrou como uma luva na sociedade contemporânea do espetáculo, onde qualquer evento – da formatura do jardim da infância ao fim do doutorado – merece um espetáculo grandioso e personalista.

Para mim, a questão central desse debate é simples: a intermediação do evento gestação pela tecnologia serve de auxílio para a relação familiar alargada (mãe, pai, avós, etc.) ou apenas expropria – mais uma vez – da mulher um evento que outrora era apenas controlado por ela, seus sentimentos, emoções e ritmos?

No fundo, a expropriação sutil que se faz sobre a gestação funciona assim mesmo: o bebê sai da barriga da mãe e entra para o ventre da máquina, para a cultura e para o controle dos médicos. As máquinas é que carregam este bebê, e não a mãe. Nesse aspecto homens e mulheres acabam se equiparando: a gestação já está fora de ambos, mediada pela frieza cientificista. Não dá para esquecer a entrevista que Robbie fala relatando a experiência com uma mãe que, hipnotizada pelos bips da máquina, diz a ela “parece que o bebê está ali dentro“.

Um exemplo simples para entender minha posição: o ritual do casamento ocidental é a mais poderosa de todas as cerimônias de fortalecimento e manutenção do patriarcado, Todo o simbolismo do evento é marcado pelos valores patriarcais mais básicos. O vestido branco, as testemunhas, o noivo esperando, o pai que entrega a filha para o seu próximo “dono” (ou cuidador, ou responsável), etc. Tudo ali é escrito – como uma peça de teatro que todos sabemos como termina – para reforçar estes valores, mesmo que de forma inconsciente. Aliás, a dissimulação dos rituais é sua maior força. Eles não precisam da razão para serem fortes e consistentes.

Pois muito bem…. não há nenhuma dúvida entre as pessoas que trabalham com rituais (de Van Gennep até Robbie) de que estes rituais carregam simbolismos os quais por sua vez produzem mudanças comportamentais em quem se submete a eles. Se você souber e for esclarecida sobre o que em verdade está sendo encenado em um matrimônio você mudaria sua maneira de casar?

Talvez não, mas é possível que sim, e por isso mesmo é crescente o número de pessoas que resolvem fazer “casamentos alternativos”, sem votos, sem roupas especiais, sem pais trazendo a noiva, sem a mediação de qualquer religião, etc… Isto é: mudam-se os rituais porque eles já não mais representam os VALORES SUBJACENTES daquele casal, mas poderia ser também daquela grávida. Pela mesma razão mudou-se paulatinamente o chá de fraldas – para chá de bênçãos – exatamente pela mesma razão: o entendimento dos valores subjacentes, e a ideia de NOVOS rituais para NOVAS consciências.

Os rituais das festas de revelação podem ser modificados se as pessoas entenderem ao que eles servem e o quanto eles expropriam das mães o controle sobre suas gestações, assim como a entrega deste poder aos médicos e à tecnologia pode ter significados deletérios para a relação que está para se formar.

Somos uma sociedade bizarra, onde achamos deseducado fazer um mísero comentário sobre um filme do cinema para alguém que ainda não o assistiu, mas achamos justo antecipar a mais grandiosa das surpresas. Qual o sentido em revelar o gênero de um bebê que aguarda o momento para, por si mesmo, nos anunciar? Qual a vantagem em contar o fim do filme quando ele está apenas começando?

Sei que sempre fui – e continuo sendo – a voz solitária no deserto da tecnocracia ao questionar estes modismos. Mas, pelo menos a mim foi dada a maravilhosa oportunidade de acompanhar partos em que houve respeito ao mistério e onde a revelação do segredo tão bem guardado se apresentou vívida e gloriosa diante de nós apenas no momento em que sempre ocorreu. Estes momentos de esplendor jamais esquecerei. Obrigado a todos que me permitiram viver a ansiedade da revelação corporificada no momento do nascimento.

Deixo as palavras do jornalista Chris Hedges sobre a importância do mistério e do sagrado para a sobrevivência de qualquer cultura.

“Aqueles que descreveram as sociedades nativas americanas ou de Delfos na Grécia antiga, não usaram a fria linguagem clínica da ciência e da razão. Eles as descreveram na linguagem nebulosa do amor, ternura, paciência, justiça, redenção e perdão. Eles foram fascinados pela misteriosa incongruência da existência humana. Uma sociedade que perde o respeito pelo sagrado, que ignora seus oráculos e separa o poder da imaginação humana, garante sua obliteração.”

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Imprensa Livre

Por que pagar para ler notícias?

Hoje em dia vemos o surgimento das “Mídias independentes” que se contrapõe à mídia corporativa. O advento da Internet oportunizou a multiplicação ad infinitum de fontes de informação – algumas de alta qualidade e outras pura enganação. A diferença é que nas mídias tradicionais os anunciantes atuam – direta ou indiretamente – na escolha de pautas, nas ênfases e no próprio trato da notícia. Afinal, ninguém (nenhuma corporação) vai pagar os altos custos dos noticiários para correr o risco de ter o nome de sua empresa enxovalhado.

Há alguns anos abrimos uma clínica em uma cidade média do Interior do RS. Depois disso fomos convidados pelo diretor do jornal – um típico “coronel” da informação – para anunciarmos em seu veículo, o único diário impresso da cidade. Ele de cara me informou: “Minha política aqui é a seguinte: se alguém vem ao jornal para reclamar dos médicos eu ligo direto para vocês antes de publicar”. Nenhum constrangimento em confessar que seu jornal era para proteger os poderosos.

E não são apenas empresas. Aqui no RS o conselho de Medicina compra muitas horas na rádio da maior empresa de comunicação local para, com isso, interferir nas pautas médicas. Ora… que produto o CRM tem para vender? Apenas a imagem da medicina, que é passada nos noticiários, inclusive escondendo notícias desagradáveis sempre que possível (como a Globo faz com a Vaza Jato). Essa é uma das práticas mais antigas, que mostra o poder da informação no mundo contemporâneo. Podemos confiar em uma imprensa que pode ser facilmente comprada pelo poder do dinheiro?

Por outro lado a mídia independente, para não sofrer pressões do capital, precisa que o ouvinte/leitor/telespectador seja o único financiador, para que suas pautas não sejam controladas pelo poder econômico, fazendo da audiência o único cliente a ser contemplado. Sem rabo preso e sem constrangimentos de nenhuma natureza por parte do poder econômico.

Esta é uma forma de estimular um jornalismo livre, cuja única fidelidade seja a utopia da imparcialidade. A alternativa a isso existe em outros países: uma empresa pública de comunicação, que não seja atrelada aos governos (uma empresa do Estado) e que possa inclusive lhe fazer oposição.

Por exemplo: para criar um congresso médico e impedir que as palestras do evento sejam comandadas por espaços comprados pela indústria farmacêutica (como nos congressos nacionais e internacionais de medicina) o cliente final (parteira, dotô, doula, psi, etc) precisa pagar para que o congresso seja LIVRE das influências do poder econômico – dos equipamentos, dos hospitais e da Big Pharma – as gigantes vendedoras de drogas.

Por isso é que é urgente criarmos IMPRENSA LIVRE, sem amarras com o sistema econômico.

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