Matilda

EEdgar, meu colega e superior hierárquico, ajeitou seu chapéu de feltro sobre a cabeça e com as mãos me fez um sinal de pressa. Abriu a gaveta chaveada de sua escrivaninha e mostrou os papéis que ali estavam guardados.

– Aqui nessa pasta podes ver os detalhes do caso. Precisamos chegar a tempo. Todos nos aguardam. Vamos imediatamente para a mansão da viúva.

Meu chefe entregou a pasta enquanto o carro nos levava para o subúrbio mais rico e sofisticado da cidade. A pasta do caso em questão, o envelope “145”, jazia sobre o meu colo. Abri com cuidado e lentamente a cartolina que lhe servia de capa e li a primeira página até chegar no nome dos envolvidos. Nesse instante eu me assustei ao constatar a brutal coincidência, que apenas as confluências coordenadas pela Deusa Álea – a divindade dos fatos aleatórios – são capazes de produzir. Estávamos nos dirigindo à casa de Matilda Malamud, uma antiga namorada, com quem tive um breve romance há décadas.

Matilda era uma das herdeiras da fortuna de um advogado famoso dos anos de chumbo, que ganhou notoriedade libertando presos políticos e lutando em prol das liberdades democráticas. Matilda era linda, madura e muito rica, nos limites da obscenidade que o acúmulo de dinheiro produz. Por essas razões sempre foi cobiçada pelo “jet set” da cidade. Nosso romance havia sido breve, mas intenso. Foi sério a ponto de fazermos planos, de pensarmos em filhos e, por isso, tive oportunidade de conhecer suas irmãs e sua mãe, esta última há muitos anos viúva. Não deu certo: seu estilo de vida sofisticado e perdulário jamais se acomodaria a um estudante de classe média baixa e filho de funcionário público. Resolvi terminar com tudo antes que nossa vida se tornasse insuportável e atormentada. A coincidência se tornou ainda mais aterradora quando me dei conta de que estaria encontrando uma ex-namorada milionária sem qualquer preparo emocional para isso. O que poderia ser mais aterrador que isso? Acho que apenas a roupa que eu estava vestindo. Aos poucos íamos nos aproximando da mansão que ocupava uma quadra inteira próxima do centro da cidade. Quando namorei Matilda, imaginava que seria necessário um ano inteiro de trabalho apenas para pagar o IPTU dessa propriedade. Jamais um proletário como eu poderia participar do seu círculo de amizades. E o que faria eu das minhas ideias socialistas? Colocaria no lixo meus sonhos de igualdade e fraternidade em nome de conforto, luxo, facilidades e uma paixão? Deixaria de lado tanto os princípios quanto a firmeza de ideias?

Finalmente chegamos à sua casa, onde um empregado de uniforme nos recebeu na imensa porta de entrada, que deveria ter mais de 4 metros de altura. Edgar informou de nossa missão oficial e mostrou o documento. O empregado olhou para o papel e depois me analisou de cima a baixo, com um olhar que misturava desprezo e desconfiança.

– Os senhores estão sendo aguardados. Por favor, me acompanhem.

A Mansão

Que situação! Por alguns instantes nutri a esperança de que Edgar me deixaria aguardando no carro enquanto ele pegava as assinaturas necessárias, mas não foi o que ocorreu. Lá estava eu, reencontrando a mansão que já havia visitado na juventude. Confesso que cheguei certa vez a brincar em pensamento dizendo em solilóquio que “aquilo tudo um dia seria meu”. Mas eram apenas devaneios, sonhos juvenis. Bem tinha razão o mestre ao dizer que os sonhos nunca são exatamente como os sonhamos. Um sonho é como um emaranhado de fios que correm dispersos para qualquer lado. Seus significados são quebrados, partidos, inconstantes. Somente ao contá-lo é que podemos enrolar os fios disparatados e criar um novelo de coerência. Contar um sonho é revivê-lo, descobri-lo, entendê-lo em suas filigranas e minúcias. Os esquecimentos, bem… estes são os melhores e mais importantes momentos, mas que – por obra do inconsciente – ficam escondidos de nós mesmos. Continuei caminhando pela mansão e reparando nos móveis finos, nas luminárias, nos assentos delicados de época. Depois de caminhar longamente por um corredor interminável, ciceroneados pelo empregado impecavelmente vestido com uniforme, Edgar e eu finalmente chegamos a uma porta de mogno maciço. Por trás da porta era possível escutar o borbulhar de risadas, falas incompreensíveis e conversas alegres. Quando ela se abriu, fomos banhados pela luz radiante do ambiente e pelo aroma do vinho. Edgar e eu entramos na sala iluminada enquanto vozes silenciavam e olhares se voltavam para nós. Ao que tudo indica, nossa presença era esperada como algo que iniciaria os procedimentos, sejam lá quais fossem. A primeira pessoa que se aproximou de mim foi Helga, a irmã mais velha de Matilda.

Helga

– Eu não acredito! Eusébio, é você? Você está bem apesar de…

Ela olhou para minha cabeça, que refletia a luz que vem do majestoso candelabro de cristais checos cintilando acima de minha lustrosa testa.

– Maduro, respondi para ela com um sorriso tímido. Sim, Helga. Faz muito tempo que não nos vemos. Como está? E os negócios, estão indo bem?

Eu não parava de pensar nas minhas roupas desalinhadas, incompatíveis com o ambiente, mas os passantes pareciam não se importar ou mesmo se dar conta disso, e Helga menos ainda. Talvez pensassem que éramos empregados, e os serviçais são sempre invisíveis. Circulam como insetos por entre os burgueses, e deles não desejamos que nos mostrem qualquer aspecto humano, por mais simplório que seja. Perguntei a Helga dos “negócios” porque é isso que se pergunta para uma mulher solteira e sem filhos. Helga nunca havia se casado, apesar de ser uma bela mulher, dotada de inteligência e humor refinados. Era outra cerejinha colocada no bolo das solteiras desejadas da cidade, mas aparentemente ninguém era capaz de passar pelo seu crivo. Problemática? Exigente? Não haveria ninguém nesse mundo para ocupar o lugar do comendador Faustino, seu falecido pai, no coração dessa mulher? O comendador Faustino, aliás, era uma presença ilustre na sala, apesar de ter morrido há três décadas. Havia no ambiente pelo menos três imagens suas. Em uma delas está vestido com um traje aparentemente militar; em outra andando a cavalo na fazenda, e em uma terceira fotografia está ao lado da mulher e das três filhas pequenas. Uma quarta, descobri depois, era uma foto de corpo inteiro com uma beca especial usada para uma cerimônia da Maçonaria. O comendador ainda era citado na cidade como benfeitor, humanitário e “homem de princípios”.

Helga perguntou da minha vida, do que fazia, mas o “chit-chat” não se aprofundou em tema algum. Ao meu lado passavam pessoas distintas, homens de negócios, senhoras muito bem vestidas, com longos vestidos de tafetá. Todas interrompiam a conversa para abraçar Helga. Enquanto cumprimentavam Helga, consegui vislumbrar em um canto da sala um homem trajando um uniforme azul com encordoamento trançado no peito e uma gola vermelho sangue reluzente, com bigodes apontando para cima, à la Salvador Dalí. Ele se ergueu e cumprimentou uma senhora com toda a pompa e circunstância. Parecia ser um oficial da Prússia no tempo de Frederico. Os senhores eram verdadeiros fidalgos, isto é, “filhos-de-algo”, gente bem-nascida, com posses, “bourgeois” de estirpe. Ao contrário de mim e de Edgar, gente com “pedigree”. Depois de palavras que ficaram perdidas na conversa com Helga, pequenos nós no novelo que eu montava a partir dos fios emaranhados de lembranças, acerquei-me de um ponto mais à esquerda, onde estava Sophia, a irmã mais nova de Matilda.

Sophia

A sala era uma obra de arte escondida dos olhares invejosos dos cidadãos comuns da cidade. “Algo para o gosto refinado de quem conhece arte”, pensei. Para todo o lado que eu olhasse percebia luxo, requinte, sofisticação e bom gosto. As cortinas de um vermelho escuro aveludado eram adornadas com detalhes dourados. As janelas enormes enfeitavam as paredes, em salas cujo pé direito subia majestoso, arrancando nossos olhos do chão com a promessa de perder o teto de vista, humilhando ainda mais a minha pobre figura, vestida de forma patética. Quando avistei Sophia, minha memória imediatamente me ligou à cunhada com quem brevemente convivi. Era a mais moça das irmãs e a mais geniosa, por certo. Alegre, esfuziante, intensa, porém ciumenta, birrenta e geniosa. Era a mais esperta de todas, mas carregava a cruz de ser a mais novinha, a caçula. Como era de se esperar, era a mais ligada à mãe. Além disso, Sophia era sedutora e provocante, e adorava provocar ciúmes nas irmãs com comportamentos, digamos, abusados, quando seus cunhados (ou pretendentes a tal honraria) apareciam na sua casa.

Ela continuava bonita e igualmente sedutora, sem dúvida. Apesar dos meus trajes deslocados do ambiente, ela facilmente me reconheceu, mas – ao contrário do que seria esperado – não me tratou como uma figura bisonha incrustada em uma espécie de “baile de gala”. Não, ela me tratou como um convidado qualquer que apareceu de surpresa na festa de sua casa.

– Eusebinho, como vai? Parece que os anos lhe fizeram bem. Ficou bem melhor sem a barba, apesar de que eu gostava dela. Lembro de pedir para você cortar, mas era apenas para fazer birra com Matilda. Sua mãe como está?

Respondi às suas perguntas de forma breve e sucinta, mas a maior parte da conversa que tivemos depois dessa breve apresentação se perdeu no novelo das memórias, ou eram ideias desconexas demais, feitas de assuntos diversos e sem ligação óbvia com o contexto. Assim são os encontros inesperados, que se revelam muito mais pelo que não dizem do que pelo que é expresso. Minha atenção agora se dirigia para o centro do salão. Por trás de um grupo de convidados que a cercavam, estava a figura central de toda aquela cena: a matriarca, senhora Efigênia Malamud.

Efigênia

Foi necessário um pouco de esforço para me aproximar e aguardar a saída das pessoas que rodeavam a “viúva”. Efigênia, a esposa amantíssima do comendador Faustino, era o que sobrara de realeza na burguesia nacional. Ao seu redor não estavam amigos e parentes; aglomeravam-se súditos para cumprimentar uma dama, a mais nobre das mulheres daquela sociedade; uma celebridade local. Com a ajuda de Edgar, conseguimos nos acercar da matriarca. A “viúva” mantinha-se assediada por senhoras, crianças de vestidos rodados e senhores distintos. Estava sentada em uma cadeira enquanto sorvia uma xícara de chá. Tudo naquela mulher inspirava nobreza – e soberba. Ela parecia perceber claramente sua superioridade diante da mediocridade que a cercava. Acostumada a ter criados, serviçais, políticos locais, médicos e juízes sob seu controle, ela exibia uma aura de confiança inabalável. Para minha surpresa, apesar dos anos passados, ela se lembrou de mim quando me aproximei.

– Ora, ora, ora. Quem é vivo sempre aparece. O estudante sabichão. Eusebinho, como vai? Há muitos anos que não apareces em minha casa. Você fica bem sem a barba, mas ninguém pode negar que continua dono de um estilo inconfundível.

Sem surpresa ela foi a única a fazer um comentário sobre a minha roupa. Meus olhos saem do enquadramento do seu rosto magro e agudo e voltam a focar nos meus jeans surrados e a camiseta polo. Fico constrangido mais uma vez, mas aceito meu destino. Conformado, aceito o descompasso de estilos na esperança que alguém, no futuro, possa traduzir isso como “originalidade”.

– Não diria que sofri quando você se afastou de Matilda, seria um exagero. Entretanto, entendi que eram jovens demais, imaturos e impulsivos. Foi bom assim. Além disso, vocês eram muito diferentes. Digo, você era um rapaz de cidade e Matilda foi criada na fazenda, com regalias e mimos. Seria uma adaptação complexa. E sua mãe como vai?

Sim, madame Efigênia. Diferentes demais para que pudessem estar lado a lado. E as diferenças não se resumiam a “uma vida cheia de facilidades e mimos”, pode ter certeza. Para mim sempre faltou a tonalidade azulada no sangue, coisa que sua filha do meio possuía em quantidade; mais de cinco litros em circulação. A viúva jamais aceitou que o “filho do funcionário público” – que era como secretamente se referia a mim, segundo os empregados me confidenciaram – ousasse namorar a filha do comendador. “As elites não suportam aventureiros”, pensei eu quando há muitos anos me despedi de Matilda pela última vez. Falei para Efigênia de minha mãe, suas dificuldades, a sua idade e a dedicação de meu pai a ela. Ela sorriu e pediu que me sentisse à vontade. Perguntou a uma amiga próxima onde estaria Matilda, mas esta respondeu que não a havia visto desde o início da recepção. Edgar abriu seu envelope e solicitou algumas assinaturas para a “viúva”, e eu fui lentamente me afastando após me despedir de maneira formal.

A mãe de Matilda sempre representou para mim o ocaso da “Casa Grande”. Sua mansão recheada de empregadas uniformizadas, invariavelmente negras, era como uma volta ao passado mais remoto dos canavieiros do Nordeste, quase uma pintura de Jean-Baptiste Debret. Todavia, seria um exagero dizer que Efigênia era malévola ou de má índole. Não, ela era apenas a herdeira de um mundo de desigualdades, cruel e injusto. Não foi ela quem criou a sociedade em que uma pele escura tira o valor humano de quem a veste, muito menos um mundo onde o dinheiro compra tudo, até o silêncio.

Nunca guardei mágoa ou rancor de Efigênia, mesmo sabendo como ela se referia a mim. Tivesse eu nascido em berço de ouro seria diferente? Tivesse eu sido criado em um mundo onde a riqueza é o valor máximo, teria permitido que um pé rapado se aproximasse de minha filha? Creio que somente calçando os sapatos Gucci de salto agulha da viúva do comendador e caminhando com eles mil vezes mil quilômetros seria possível saber como agiria, se também eu tivesse nascido com o sopro de fortuna dos herdeiros. Minha atenção agora se voltava para o outro lado da sala, onde um sujeito de terno cinza e sapatos marrons, estranhamente desajeitado, segurava um copo de vinho.

– É ele, disse Edgar. É o marido de Matilda.

Heitor

– Sim, disse Edgar com a inexpressividade intacta. Precisamos falar com ele e conseguir as assinaturas. Além disso, temos que acompanhá-lo aos seus aposentos, para garantir que estará só.

– Certo, disse eu, mesmo sem ter a menor noção do significado de acompanhar um indivíduo onde ele ia dormir para certificar-se de que estará sozinho.

Afinal, por que isso nos interessa? Para que precisaríamos de comprovações num caso de separação? Houve alguma nova ameaça de agressão? O acusado pretende fazer algo nessa recepção que demande a nossa intervenção? O que estamos realmente procurando? Fomos lentamente nos aproximando do grupo de homens maduros até que o sujeito com o vinho na mão se voltou para nós.

– Boa tarde, Sr. Heitor. Sou o comissário Edgar e vim fazer a fiscalização de que as determinações judiciais estão sendo cumpridas de forma correta e adequada. Nos perdoe por interromper a sua conversa, mas precisamos de sua assinatura em alguns papéis. Tenha a bondade, por favor.

O homem de terno cinza e estranhos sapatos marrons levantou-se do braço da poltrona onde estivera recostado e segurou os papéis que Edgar lhe ofereceu. Colocou a mão dentro do casaco e puxou uma caneta Montblanc. Sim, as pessoas que circulavam no universo de Efigênia, como satélites do seu poder, não são moderadamente esnobes; elas avançam o quanto podem nesta direção. Só então, quando se preparava para assinar, ele se virou para mim com curiosidade. Edgar resolveu me apresentar.

– Pois este é Eusébio, meu colega. Ele veio me acompanhar nas diligências. Desculpe não o ter apresentado antes.

Heitor sorriu discretamente, mas fixou o olhar em mim. Ele era alto, pelo menos mais alto que eu, e tinha uma vasta cabeleira castanho-claro. Já aqui havia dois pontos suficientemente humilhantes contra mim. Sim, sei o quanto isso pode parecer ridículo, principalmente em se tratando de um encontro inesperado, mas fiquei medindo nossas qualidades e virtudes. Afinal de contas, Matilda havia casado com esse sujeito e ele deveria ter qualidades que me faltavam, ou não possuía os múltiplos defeitos que cultivo com especial apreço, tal qual as borboletas na gaveta de Frederick Clegg, esperando o momento certo para sequestrar a bela Miranda.

Heitor era uma mistura de Donald Trump e Stephen Fry: a cara do primeiro e um pouco do cabelo do segundo. Sei o quanto esta mistura fica terrível quando se imagina, mas ele talvez tivesse combinado o melhor dos dois. Era corpulento e um pouco desajeitado. Tinha uma próspera barriga, mas não a ponto de derrubar objetos ou impedir que os casacos se fechem. Mas o terno cinza definitivamente não combinava com o sapato marrom de bico arrebitado, formando uma curva para cima que mais parecia a sapatilha de um arlequim. Heitor ficou me olhando fixamente, como a tentar me reconhecer, enquanto sua caneta Montblanc permanecia estática no espaço, apontando para uma taça de Clericó que repousava na mesa em frente.

– Eusébio, não? Eu creio que conheço você.

Sorri amavelmente.

– Não creio, senhor Heitor. Não sou da cidade. Creio que estive aqui há muitos anos. Provavelmente está me confundindo com alguém. Meus irmãos sempre me diziam que eu tinha “cara de balaio”, pois muita gente se parece comigo.

Heitor continuou a me olhar de forma firme. Suas sobrancelhas se aproximaram e seus olhos se apequenaram.

– Eusébio, você escreve. Eu sei que você escreve. Você é uma espécie de escritor.

Aparentemente Heitor me conhecia, mas por quê? O que o faria se interessar pelo que eu escrevia? Fiquei um pouco constrangido, menos por ele saber quem eu sou, e mais por estar falando com alguém que desconhecia por completo, mas que era casado com minha ex-namorada de faculdade.

– Vou te dizer o que penso da arte de escrever. Se você tiver uma dor que torture o suficiente, será possível verter para…

Nesse momento ele foi interrompido por Edgar, que o avisou que deveria se dirigir aos seus aposentos, o que configuraria a última etapa da nossa tarefa de fiscalização. Ele se desculpou com o comissário, assinou os papéis sem lê-los, colocou na pasta de cartolina e pediu que eu o acompanhasse. Nesse momento é que eu percebi que ele se parecia com outro personagem significativo para mim. Ele me lembrava o filho mais novo de Adélia, a mulher fatal com sua cigarrilha dourada. Sim, o filho que testemunhou o ato fatídico e que, em sua inocência, precipitou a tragédia. Mas, lembrei de novo, Adélia é outra história a ser contada.

Heitor segurou o meu braço e nos dirigimos à porta de mogno maciço por onde eu e Edgar entramos. Caminhamos vagarosamente pelo interminável corredor adornado por obras de arte até chegarmos ao jardim interno da mansão. Durante este período, Heitor mantivera-se quieto caminhando ao meu lado, mas ao chegarmos ao jardim começou um longo discurso sobre assuntos variados, da política ao futebol. Ele não parecia um burguês falando: falava como se fosse um advogado interessado em muitos assuntos, como se pelas suas mãos houvesse passado um grande número de casos, os quais havia defendido com fervor e paixão. Não usava nenhuma linguagem técnica, mas gesticulava com desenvoltura e interesse. Durante a travessia do belíssimo jardim, ele me contou que já havia lido muitos livros sobre política, incluindo algumas crônicas que eu havia escrito, mas que tinha algumas críticas a fazer.

– Fique à vontade, disse eu, mas não foi possível, pois a empregada nos comunicou que o Sr. Heitor deveria ficar no quarto 25, e que era preciso dar a volta na mansão para chegar aos aposentos.

Isso significava que teríamos que sair da mansão, dar a volta na imensa casa central e procurar os apartamentos de casas idênticas que faziam o limite interno da propriedade. Imaginei que aqueles pequenos apartamentos foram um dia criados para acomodar viajantes de fora, mercadores de cana de açúcar, negociantes, vendedores de mercadorias. Por uma questão de segurança, estes locais não tinham conexão interna com a Casa Grande, sendo acessados por fora. Saímos pelo portão principal e dobramos à direita, e novamente, para termos acesso ao flanco onde se encontravam enfileirados os apartamentos. Eles eram simples, como se fossem casas de operários ingleses. Uma porta esverdeada, acessível por quatro lances de escada, e uma janela da mesma cor. A empregada que nos guiava levava consigo as chaves e parou bruscamente quando viu a placa com o número 25 sobre a porta. Heitor me convidou a entrar, enquanto outros empregados colocavam a pouca bagagem do convidado na sala estreita. Edgar nos acompanhou, junto com as duas empregadas, que se apressaram a entrar no quarto para ver se a cama estava arrumada e se havia sabonetes e papel higiênico no banheiro.

– O senhor Heitor deveria ter ficado no “23”, mas a porta de lá está trancada.

– Como? – perguntei eu. – O que houve com a porta do quarto 23?

– Foi como eu disse. Não há como ir para lá, mesmo que o quarto esteja mais apresentável e seja levemente maior, mas o problema é a porta emperrada.

Percebi, no entanto, que os olhos da empregada não sustentaram os meus por mais de um segundo, e que suas mãos apertavam o molho de chaves com mais força do que a situação pedia.

Percebi que por duas vezes havia tentado entender a explicação que ela dera sobre a porta, mas a razão pela qual estava inacessível escapava à minha compreensão. Interpretei, em meus pensamentos, que se tratava de algo planejado. Talvez houvesse algo no quarto 23 que não deveríamos ver. Fiquei curioso com este fato, mas decidi que seria inútil insistir.

Edgar olhou para mim e exclamou quase cochichando:

– Espero que tenhas aprendido a sua função, Eusébio. Nosso trabalho se insere no mundo real, onde encontramos a crueza das ações, suas dificuldades e imprevistos. Nossa atividade sempre nos coloca em contato direto com a realidade, mesmo que ela pareça dura e pesada.

“Sim”, pensei eu. “Que dureza conseguir algumas assinaturas em uma festa, filar uns canapés, beber uma taça de Champanhe legítimo em uma festa burguesa e acompanhar Sir ‘Stephen Trump’ (ou seria Donald Fry) até seu quarto, cuidando para que ele consiga se equilibrar em seus sapatos de menestrel loquaz. Ora, se isso é a ‘dureza da vida’, como poderíamos chamar os mineiros, escafandristas, policiais e jornalistas que cobrem os conflitos?” Sorri, mas não permiti que Edgar pudesse ler meus pensamentos.

– Bem, senhores, agradeço a companhia, mas preciso me recolher. Amanhã será a cerimônia de assinatura do divórcio e preciso estar com a minha cútis em ordem. Rá, rá. Espero que vocês tenham igualmente uma noite tranquila de repouso.

Agradeci as palavras de Heitor e o cumprimentei.

– Ainda quero conversar mais sobre seus escritos, disse ele ao apertar delicadamente a minha mão.

Nesse momento, olhou para a porta e com um sorriso tímido nos disse:

– Bem, vejo que terão companhia até a entrada da mansão. A senhora vai acompanhá-los.

Nos dirigiu um “Boa noite!” e entrou em seu quarto. Olhei para a porta do chalé que estava atrás de mim e percebi a chegada da “senhora”.

Era Matilda

Matilda

De todas as personagens dessa minha breve visita a um passado de fantasia adolescente, a única por quem tinha uma angustiosa vontade de reencontrar era Matilda e, curiosamente, foi a última que cruzou meu caminho. Matilda mantinha os mesmos traços do passado remoto de quando a conheci. O sorriso maroto, a boca carnuda e vermelha, os olhos grandes e castanhos. Os cabelos ainda os mantinha compridos, apesar de ser agora uma mulher madura. Sua roupa era sóbria: um Tailleur de linho vermelho escuro por sobre uma blusa de seda branca, meias, sapatos pretos de salto alto, mas não altos o suficiente para me humilhar ou entristecer. Nas mãos joias, capricho que conservava desde a juventude, e que a riqueza proporcionava. As unhas de um carmim impecável, e na mão esquerda a marca cicatricial de uma aliança ausente.

– Eusébio, jamais imaginei que um dia você voltaria à minha casa. É um prazer recebê-lo. Seja bem-vindo e sinta-se à vontade.

Olhei para Matilda com carinho, pois a percebi desarmada. Poderia ter se escandalizado com minha presença, ou até ultrajada. Afinal eu viera ali para testemunhar sua infelicidade, o cumprimento de uma determinação que tinha, como cerne, a mágoa tatuada na carne. Poderia ter se escondido, simulado um mal-estar, fingido uma enxaqueca. Nada disso; foi ao meu encontro e se apresentou com o mesmo sorriso encantador que conheci na juventude. Não havia nela rancor, nem ódio. Mas inegavelmente Matilda deixava claro um sentimento inequívoco: a tristeza. Seus olhos não conseguiam dissimular que estava dolorida, sabe-se lá por quais razões. A falência de seu casamento, a vergonha da violência doméstica — aquela mesma que selara para sempre a porta do quarto 23 —, o abandono, o remorso e a sensação do fracasso de um projeto de uma vida.

– Como está sua mãe? – perguntou ela.

Parecia que Efigênia e suas filhas haviam combinado esta pergunta antes do dia iniciar, como todos os sorrisos seriam encenados, os cumprimentos, as ordens, as perguntas de praxe e os comentários espirituosos. Acho que a alta classe precisa dessas regras para que as máscaras não caiam e deixem a todos constrangidos. Respondi a ela que minha mãe passara por dificuldades, a cirurgia, a lenta recuperação, as falhas da memória e todas as agruras previsíveis dos octogenários. Ela sorriu e disse algo como “que bom que melhorou”, mas esta era apenas mais uma das frases simpáticas que ela havia ensaiado.

– Senhora Matilda, disse Edgar, e emendou com a mesma solenidade inexpressiva de sempre: Precisamos partir. Já fizemos nossa parte e nos asseguramos que o Sr. Heitor ficará neste chalé isoladamente até amanhã, quando a cerimônia com as assinaturas e testemunhas terá lugar aqui mesmo na mansão. Desculpe se causamos algum desconforto ou constrangimento, mas estávamos apenas cumprindo nossa obrigação legal. Peço que a senhora assine estes documentos para que nossa função possa se encerrar.

Matilda segurou os documentos que Edgar lhe estendia e, como todos os outros, os assinou sem sequer ler. Devolveu-os com um sorriso para Edgar que, em agradecimento, retirou o chapéu e fez uma reverência.

– É hora de ir, repetiu o comissário.

Eu gostaria de poder ficar mais, tão somente para poder entender um pouco a vida de Matilda. Um estranho sentimento de culpa me invadiu ao ver o rosto belo e triste da ex-namorada. Sim, a culpa era toda minha. Eu fui embora, eu desisti. A distância – na geografia e nas classes – me impediu de sonhar com Matilda e com a vida que com ela poderia compartilhar. Seus desacertos com Heitor talvez poderiam ter sido evitados se antes eu tivesse coragem, determinação, força e paixão.

Não, tolice minha. Efigênia tinha razão; Matilda era de Vênus, e eu de Plutão. Sorri para Matilda e fiquei sem saber o que dizer. “Adeus”? Mas foi assim que me despedi na última vez que nos vimos. “Até mais?”, ora, quanta falsidade. Pior que isso apenas um “até breve”.

– Bem, eu vou indo, Matilda. Foi bom te ver – e essa foi a escolha que fiz nos segundos que me cabiam para decidir.

Ela sorriu e se aproximou de mim. Abraçou-me com ternura e tristeza. Chegou-se ao meu ouvido e sussurrou:

– Nunca esqueci.

Seu corpo se distanciou, mas seu braço permaneceu em meu ombro, abrindo levemente o casaco vermelho de linho. Enquanto seu corpo lentamente se afastava, pude vislumbrar o drama que se escondia na alma daquela mulher. Por baixo da blusa de seda branca, um volume anunciava o que até então eu não havia percebido.

Matilda estava grávida.

FIM

Max Trebrett, “Matilda e outros Contos”, Ed. Panamericana, pág 135

Max Trebrett é um escritor de contos e crônicas. Nascido de pais noruegueses, sua família chegou ao Brasil nos anos 50, fugindo do grande estrago nas economias europeias causado pela II Guerra Mundial e em busca de estabilidade. Max formou-se em Medicina no Rio Grande do Sul e dedicou-se à obstetrícia, tendo trabalhado por muitos anos nesta área. A partir do ano 2000 começou a publicar, em vários jornais, crônicas e contos de humor, em especial acontecimentos ligados à área médica, onde atuou por muitos anos em serviços de pronto atendimento. Seu trabalho inicial foi na publicação “Bisturis e Canetas”, uma coletânea de escritos de médicos dedicados à literatura, com o conto “O Círculo do Gelo”, uma peça humorística sobre a mania, à época, de enviar objetos para um grupo de pessoas que, em contrapartida, precisavam manter o círculo vivo, enviando para o sujeito próximo da lista. O sucesso deste conto lhe estimulou a escrever sobre outros temas, sem jamais deixar de lado a vertente do humor. Desta forma, passou a colaborar com outras publicações de médicos escritores, tendo publicado em 2010 sua primeira coletânea de textos originais, intitulada “Max e o novelo”, onde conta suas histórias pitorescas entrelaçadas umas às outras, formando um cordão de fatos intrincados que não permite que as histórias se desconectem e cuja leitura se assemelha ao desenrolar de um novelo de lã. O conto “Matilda” surgiu de um sonho do autor, conforme ele explica no prefácio da obra. Ao despertar, muito assustado, resolveu colocar em texto os elementos principais para que não escapassem à memória. Explicou ainda que os personagens da história são versões de pessoas que de fato conheceu, porém os fatos narrados são fantasias sobre um reencontro possível entre ele e seu amor platônico, Matilda. A personagem central Matilda existe de verdade, mas a história de ambos não passou de um flerte passageiro e inconsequente. Todavia, a caracterização da sua família e dos que a cercam é muito semelhante à realidade. Max é casado com Dorothy, e tem duas filhas: Denise e Michaella. Mora em Porto Alegre, RS.

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Remorso

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Das coisas que me arrependo:

  1. Não ter passado mais tempo junto com os meus filhos pequenos.
  2. Não ter dito tantas vezes “eu te amo” ou “muito obrigado”. Nunca é suficiente.
  3. Ter acreditado que a Verdade, por fim, triunfaria. Não, a verdade é apenas um detalhe, uma nota de rodapé na história da vida.
  4. Ter sido ingênuo demais sobre o ódio e o amor.
  5. Ter me dedicado demais às paixões passageiras e de menos às grandes.
  6. Não ter usufruído meu quinhão indispensável de oxitocina endógena, e ter vivido, paradoxalmente, envolvido em adrenalina.
  7. Ter me calado por medo, ou gritado por raiva.
  8. Ter perdido contato com pessoas vibrantes, interessantes e exóticas.
  9. Qualquer um dos meus preconceitos, tatuagens difíceis de eliminar.
  10. Não ter realizado os exercícios indígenas para combater a calvície, que o Dr. Moysés Paciornik me ensinou.

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Protagonismos

Tio Sam

Caso aportasse uma comitiva de americanos no Brasil dizendo: “Nós sabemos como resolver o problema de vocês. Deixem tudo conosco. Temos técnicos formados em Harvard, em Yale e muitas outras universidades, e sabemos exatamente o que fazer. Temos o conhecimento, o dinheiro, as condições e a experiência. Abram alas, nós vamos consertar o Brasil“…

Só conheço uma pessoa suficientemente americanófila capaz de aceitar essa proposta, mas não declinarei seu nome aqui…

A pergunta que caberia, em nome da autonomia e da liberdade é : “Como assim, cara pálida? Quem são vocês para saber o que é o Brasil? Que autoridade vocês tem para saber como se expressa o preconceito contra os nordestinos, por exemplo? Como vocês sabem como se expressa a questão indígena? Como podem saber como é a posição da mulher, do negro, do gay ou de qualquer outro grupo nesse contexto especial, limitado geograficamente e temporalmente, que é o Brasil? Que autoridade vocês tem para falar em nome de um povo que conhecem apenas por revistas, fotografias e fotos do Carnaval?“

Não, vocês podem saber muitas coisas, mas não como nós que “sofremos e gozamos” a brasilidade todos os dias…

O mesmo pode ser dito para estes grupos. Se é possível opinar e tecer comentários – até mesmo oferecer apoio – o PROTAGONISMO precisa ser de quem tem legitimidade para conduzir a questão. Os gays, as mulheres, os negros, os brasileiros…

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A Fisiologia Tratada

MUlher barbada

Robbie, em verdade, matou a charada da intervenção sobre o corpo feminino ao vincular o surgimento da ginecologia com a necessária ideologia misógina e patriarcal. Antes de criar a especialidade médica que se ocupa das mulheres era fundamental entender o corpo delas como falho, insuficiente e defectivoem essência. Só assim entendido seria possível tratar sua própria naturalidade, sua fisiologia e seu curso normal. Enquanto lançamos um olhar condenatório para qualquer função feminina natural, como menstruar, parir, amamentar ou entrar na menopausa, NENHUM evento fisiológico masculino é tratado como doença pela medicina. A razão para essa diferença repousa no conceito profundo da incompetência feminina. Seus corpos são arremedos, vaginas perigosas, mamas suspeitas, abdomens misteriosos e traiçoeiros.  A fisiologia feminina é patologizada ao extremo, a ponto de que os eventos naturais desaparecerem de nossa visão tamanho o encobrimento que recebem com camadas de patologias sobrepostas umas sobre as outras.

A ideologia oficial é a “segurança”, mas os valores subjacentes apontam para um modelo que – acima de tudo – pretende controlar os eventos da sexualidade feminina: sexo, parto, maternagem, amamentação e menopausa. É da essência do patriarcado manter a sexualidade feminina sob estrito controle, pois que a reprodução controlada está no coração da “domesticação das espécies”.

A forma como a medicina se expressa não poderia ser afastada do modelo que regula as sociedades contemporâneas, até porque ela nada mais é do que um reflexo dos valores que esta mesma sociedade exalta e protege. Desta maneira, os médicos são guardiões de um modelo patriarcal que, embora decadente, ainda controla as relações de poder na sociedade. A função última – e inconsciente – desses profissionais é a manutenção, proteção e disseminação desses valores.

Como Maximilian costumava me dizer, se mulheres tivessem barba haveria tratamentos e cirurgias para a “excrescência pilosa facial”.

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Legalidade e Justiça

Legal

Não existe uma justiça essencial e natural; ela é uma construção humana, dinâmica e constituída pelo tensionamento das forças políticas. O que é legal e aparentemente justo hoje pode não o ser amanhã. O que é ilegal também. As forças conservadoras patriarcais reagem às mudanças que observamos na realidade do parto, e respondem com a mesma intensidade com que se sentem pressionados ou ameaçados. O rechaço ao direito de fazer escolhas informadas – entre elas o local de parto – desnuda o desconforto da corporação com qualquer discurso ou ação por parte das mulheres que desafie uma onipotência duramente conquistada. Somente a pressão das mulheres pelos seus direitos e por sua autonomia poderá fazer a mudança na forma como a sociedade julga estas ações.

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Dez simples razões para ser pai

Olizinho

Minhas 10 razões pessoais para acreditar que a paternidade é uma bênção, mesmo quando chega de forma inesperada…

  1. Um filho lhe dá a garantia que a linha da vida que lhe foi confiada não terminou em você.
  2. Um filho lhe dá a esperança de que vai fazer o que você não foi capaz de realizar ou conquistar.
  3. Um filho lhe oferece a oportunidade de entender e perdoar seu próprio pai.
  4. Um filho lhe ajuda a olhar o mundo por outra perspectiva, muito mais ampla e complexa.
  5. Um filho lhe ajuda a rever pontos obscuros da sua própria infância e colocá-los em perspectiva.
  6. Uma filha (aqui o gênero faz sentido) lhe ensina muito mais sobre a alma feminina do que qualquer outra mulher da sua vida, mesmo sua mãe, irmã ou sua esposa.
  7. Um filho é um pedaço de você que lhe será apresentado em capítulos durante décadas, de forma sempre surpreendente.
  8. Um filho é a esperança de que sua vida, por pior que tenha sido, terá valido a pena.
  9. Um filho é alguém que lhe faz acreditar que o mundo faz sentido.
  10. Um filho lhe ajuda a suportar a vida quando a desilusão chegar.

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Parto Seguro

SIMERS

Hoje o Sindicato Médico do meu estado estará se reunindo para debater a seguinte pauta: Parto Seguro X Parto “dito” Humanizado. Além disso discutirão as responsabilidades de médicos que trabalham em lugares onde partos são atendidos por enfermeiras.

Evidentemente que a convocatória, contrapondo os partos “dito” humanizados com os “partos seguros” já demonstra um preconceito inquestionável. Mais do que isso: é uma provocação contra um movimento que vai se enraizando na cultura brasileira a partir de iniciativas bem evidentes e consistentes. Negar a importância desse movimento social é o grande risco que os médicos podem incorrer se negligenciarem os fatos que se acumulam há mais de 20 anos nessa direção. Cronologicamente podemos citar:

  1. A criação da ReHuNa (1993) – Rede pela Humanização do Parto e Nascimento – que já tem 22 anos de existência, de luta e de desafios em nome da humanização, com grande influência na elaboração de políticas para o parto no Brasil, além de conexões com instituições do mundo inteiro.
  2. Congressos Internacionais cada 5 anos no Rio e em Brasília, patrocinados pela OMS, OPAS, Ministério da Saúde, JICA e a própria ReHuNa, com milhares de participantes.
  3. Congressos anuais de humanização no Rio de Janeiro (Parto Consciente, Ecologia do Parto) e em São Paulo (Enapartu e Siaparto)
  4. Criação do curso de Obstetrícia na EACH da USP
  5. Lei do Acompanhante, com a garantia em lei para acompanhantes em hospitais públicos e privados em todo o território nacional
  6. Casas de Parto em várias localidades brasileiras, depois de lutas intensas pela garantia desse atendimento
  7. Capacitações de Doulas se multiplicando pelo país, levando às pacientes informações atualizadas sobre protagonismo e boas práticas nos cuidados com as gestantes durante o parto
  8. Um avanço da Medicina Baseada em Evidências como prática e discurso, deixando muitas “mitologias médicas” (Kristeller e episiotomia rotineiras, excesso de cesarianas, tricotomias e enemas, etc.) defasadas e com uma visível diminuição de sua utilização.
  9. Filmes e documentários (Orgasmic Birth, The Business of Being Born, O Renascimento do Parto, Le Premier Cri, Microbirth, etc) para o grande público mostrando a realidade do nascimento no Brasil e no resto do mundo.
  10. Participação inédita das mulheres nos movimentos sociais pelo parto normal no Brasil a partir de meados de 2012 com a “Marcha do Parto em Casa”, com mais de 5 mil participantes e 31 cidades, no Brasil e no exterior. Participação imensa dos debates sobre parto normal e cesariana nas redes sociais, com grupos de discussão, comunidades no Facebook e demais formas de participação. Criação de grupos como Amigas do Parto, Parto do Princípio, Nascer Sorrindo, Parto Alegre, Rodas de Gestantes, e tantos outros por todo o país
  11. Livros (nacionais e estrangeiros), congressos, seminários, cursos e simpósios. Por todo o lado, no Brasil e em todo o mundo.
  12. Participação do governo federal na luta contra as cesarianas desnecessárias, assim como a entrada da ANS no debate para limitar a taxa na saúde suplementar. Criação da Rede Cegonha como projeto de humanização da assistência ao parto.

Assim sendo o que vemos hoje é a culminância de uma trajetória de pelo menos 20 anos de questionamentos e críticas ao modelo assistencial ao parto, e não uma ação oportunista de grupos radicais. Não se trata de uma visão romântica ou superficial, mas uma postura engajada na autonomia feminina. Baseia-se na garantia do protagonismo à mulher no parto, na visão integrativa e interdisciplinar do evento e na ligação inexorável com a Saúde Baseada em Evidências. Portanto, o que se debate e se observa hoje em dia está sendo gestado há mais de duas décadas, e não se trata de uma aventura inconsequente sobre a assistência ao parto. Pelo contrário: trata-se de um lento amadurecimento de propostas, visões, experiências de sucesso e propostas.

Evidente que não é do nosso interesse pautar as discussões médicas, mas apenas solicitar que uma questão séria como são os projetos de humanização não seja tratada de forma desrespeitosa, irônica ou debochada. O risco que a categoria médica corre nestas situações é – mais uma vez – ficar à reboque da história, vendo os movimentos sociais promoverem mudanças sem perceber que o mundo mudou, alheios ao fato de que as mulheres estão diferentes e que as demandas por partos mais dignos e participativos estão na ordem do dia em diversos lugares do mundo.

Não faz sentido que o mundo se esforce por mudança enquanto os obstetras ficam cegos às demandas das gestantes. É preciso respeitar a voz que emerge de forma espontânea de pacientes que exigem respeito e segurança no momento central da feminilidade. Não há motivo – ou vantagem – em desmerecer esse movimento como se fosse desprezível ou fantasioso. Ele não é, e os governos do mundo inteiro se preocupam com esta questão de forma prioritária, pois se refere aos direitos humanos, reprodutivos e sexuais, para além das questões técnicas, corporativas e médicas.

Quando leio esta nota eu sempre me lembro de um fato ocorrido durante a última campanha eleitoral aqui mesmo no Rio Grande do Sul. Para um determinado setor (as elites) qualquer contraponto ao poder hegemônico “não presta“. Segundo o deputado Heiz (representante dos ruralistas): “É ali que estão aninhados quilombolas, índios, gays, lésbicas; tudo que não presta ali está alinhado.“

Talvez o sindicato esteja dizendo algo parecido. “É ali que estão aninhados médicos que atendem partos normais, doulas, ANS, governo federal, enfermeiras obstetras; tudo que não presta ali está alinhado.“

Quando é que nós médicos vamos perceber que esses atores na atenção ao parto tem o direito (como em qualquer democracia europeia) de participar dos debates e da assistência às gestantes e ao parto? O discurso retrógrado só poderá aprofundar o fosso que separa as demandas das mulheres do pensamento obstétrico hegemônico. E isso é ruim para TODOS, em especial o objeto de nossa atenção: mães e bebês.

Nesse rico momento de agitação é importante que os profissionais se unam às gestantes para que juntos possamos encontrar soluções para os dilemas da assistência. Se de um lado precisamos oferecer segurança às grávidas e seus bebês, por outro lado a autonomia e a liberdade são valores inquestionáveis que devem permear qualquer relação de assistência. Além disso, se as pacientes precisam ter seus direitos resguardados em nome da autonomia e da garantia do protagonismo sobre seus corpos, também os profissionais que prezam o bem-estar de suas clientes necessitam ser protegidos profissionalmente, para que possam usar sua arte e sabedoria com liberdade.

Espero que os colegas que participarem dessa reunião tenham como foco, acima de tudo, a descoberta de caminhos para garantir as conquistas da modernidade com os direitos humanos que devem ser garantidos às gestantes. Como dizia Willhelm Reich, “A civilização vai começar no dia em que o bem-estar dos recém-nascidos prevalecer sobre qualquer outra consideração“.

Hoje eu li que o Papa Francisco disse que o “inferno não é quente e que Adão e Eva não são figuras reais“. Se até a Santa Sé se moderniza e se adapta à ciência e aos costumes, porque a medicina insiste em se ensurdecer aos clamores por mais liberdade, autonomia, segurança, dignidade e protagonismo?

Espero que na reunião impere o bom senso e a visão sensata sobre o futuro da assistência ao parto.

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O Leopardo Surdo

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Na verdade a banda estava afundando. Desavenças internas, disputas de beleza, vaidades, mulheres e drogas. A tensão era insuportável. Com tantas brigas muitos shows acabavam em bebedeiras e discussões e muitos contratos estavam sendo cancelados. Dick Chertok, empresário da banda, aconselhou a dissolução e que Jake Leopard, vocalista da banda (que é surdo, por isso a banda se chama Deaf Leopard – “leopardo surdo”) seguisse a carreira solo.

A partir desse conselho, Jake cheirou uma carreira inteira sozinho e convocou um reunião da banda. Era importante que todos soubessem o que viria pela frente. Vieram todos, menos o empresário, que foi buscar Coca no super e ficou preso no tráfico.

“A banda vai acabar, já sabemos”, disse Aaron, o baixista, mas Jake não o escutava. Jake é surdo do ouvido esquerdo, e o direito nunca se desenvolveu. Jake então pediu a palavra e falou:

“Vocês não sabem ainda, mas a banda vai acabar. Não há como pagar os custos. Gente demais, música de menos”. Disse isso e olhou para Martin, o tecladista, que era seu colega de escola e fundador da banda junto consigo. De uma certa forma eram parentes, pois Martin teve um caso com sua mãe que precisou ser resolvido na polícia e com a supervisão de um advogado de família.

Jake continuou: “Temos na banda um sujeito que toca triângulo e esse som aparece por 3 segundos em apenas uma de nossas músicas, mas ele viaja nas turnês sempre. Isso me parece absurdo e caro demais.”

Jerry, o trianguleiro, tenta reclamar. “Nunca me deixaram fazer um solo”, mas os outros o calam. “Cale a sua boca, Jerry!”

“Além disso, sinto informar, mas nossa música está ultrapassada, pois o roque morreu.”

Todos ficam em silêncio em respeito ao Roque, que tocava tuba na banda e saiu para excursionar com os alunos do colégio Maria Imaculada. “Não recebo o reconhecimento que mereço nesta banda”, disse ele ao abandonar o grupo”.

“O Roque errou, mas ele vai viver para sempre nos nossos corações”

“A banda acabou. Vamos encarar os fatos. O “Leopardo Surdo” não tem mais o que dizer ou cantar. Voltem para suas casas.”

Alguns ainda tentaram argumentar, mas Christian, o baterista, deixou claro que nada mais havia a fazer.

“Sertanejo universitário é o que toca agora. Recomendo a todos que façam cursinho e passem no vestibular. É a única chance que temos.“

Todos baixaram a cabeça, menos Jake, que disse: “Sertanejo universitário é o que mais toca, e…“, mas todos continuaram a sair cabisbaixos, sem dizer uma palavra.

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Jung, Freud e as polainas

Tive um sonho estranho na noite passada.

Sonhei que, após uma briga terrível com Freud por causa da cor das polainas do mestre, Jung teria voltado para casa, feito suas malas e apagado todos os selfies que tirara com seu ídolo. Feito isso, resolveu sair da cidade. “Espairecer, é o que preciso”, pensou ele.

Dirigiu-se à estação de ônibus e pediu um bilhete para a cidade em que morava sua mãe, Nova Hartz. Precisava de um carinho materno, colo, doce de figo e alguém que lavasse três malas de roupa suja que ele trazia consigo.

Mal entrou no ônibus (Ouro e Prata, semi-leito) olhou para a janela e viu sua cidade apequenar-se no horizonte, à medida em que se lembrava das circunstâncias de sua briga com Freud, ainda recordando, palavra por palavra, sua última desavença com ele:
“O uso de polainas salmão com calças pretas não era algo simplesmente derivado de uma predileção ou um fato aleatório. Não, Siggy, não! Não há coincidências!! É preciso haver uma conexão com algo maior, algo que extrapole a própria subjetividade, que seja resgatado de um poço de desejos e imagens, significantes e mitos, algo como… como um arquivo onde todos colocassem valores que circulam de forma não-sabida, em um campo simbólico, onde eles volitam até que alguém deles se aposse momentaneamente, e volte a colocá-los em circuito. Eles existem e nos governam, sem que possamos ter sobre eles consciência. Poderia chamar este lugar de… agora me foge o termo.”

Jung irritou-se com a impossibilidade de encontrar o termo adequado para a sua teoria, que parecia fazer todo o sentido. Freud, por sua vez, apenas acendeu seu charuto e respondeu: “Não creio que o inconsciente esteja preocupado com minhas polainas, Karl. Muitas vezes uma polaina é apenas uma polaina para esquentar as canelas. Faz frio nesse bairro, por Deus! Pare de buscar explicações que não existem para satisfazer suas teorias tolas!”

O mestre ainda teve tempo de dar uma baforada em seu charuto, visivelmente bravo e com seu nariz avermelhado pelo frio. Freud somente o chamava de Karl quando estava profundamente irritado, do contrário Gustav era o nome mais carinhoso. Jung não esperou que seu mentor completasse sua lista de ofensas prediletas. “Suiço comedor de queijo”, era uma das mais infames. Pegou seu chapéu de feltro com fita vermelha e saiu porta afora, não sem antes gritar: “Não me chame pelo whatsapp, Siggy. Você está definitivamente BLOQUEADO!“

Dentro do ônibus, mareado um pouco pelas curvas, Karl mordeu o lábio ainda remoendo angustiosamente a raiva pelo acontecido. “Por que desprezar minha ideia? Por que ele sempre faz isso comigo? Por que insiste em me humilhar quando Sándor Ferenczi está por perto? E por que insiste em chamá-lo de “Sandy” na minha frente?”

O ônibus sacoleja quando sai da BR 116 e entra em direção a Taquara. Seus pensamentos estão cheios de mágoa, mas não consegue esquecer que a razão fundamental para esta briga estava alicerçada em uma disputa fálica: o mestre que jamais admitiria ver seu pupilo oferecer uma ideia inovadora. O filho que ousa desafiar o pai; o lobo velho que resiste e luta até sangrar e, por fim, morre. Porque precisa ser assim? Qual a razão de desprezarmos tanto o amor. Sim, o amor…

Subitamente um estrondo. O guincho estridente dos pneus é seguido de uma batida seca, o que faz tudo escurecer. O ônibus, ao desviar de uma vaca perdida, freia de forma brusca. A ação rápida do motorista salva o animal, mas faz o “Ouro e Prata” girar sobre si mesmo e cair na ribanceira que se estende ao lado da pista. Depois apenas o silêncio e breu…

Karl Gustav acorda com um policial rodoviário a lhe bater levemente no rosto. Sua face encovada e seus lábios finos estão ainda mais descorados. O quepe cor de cáqui do oficial quase lhe bate na testa. “Senhor Karl, senhor Karl, por favor, diga algo. O senhor está bem?”

Jung estava confuso. Lembrava da conversa na noite anterior no bairro do Bom Fim com Freud, e sabia que haviam brigado. “O que aconteceu depois? Onde estou? O que houve?”

“O ônibus caiu no barranco, senhor Karl. Foi muita sorte terem escapado com vida. O senhor esteve inconsciente no coletivo este tempo todo. Estamos aqui para lhe resgatar”.

“Ah, estive inconsciente… no coletivo? Inconsciente … coletivo?”

Jung ficou subitamente alerta. Foi tomado de uma espécie de euforia, que poderia ser traduzida pelos policiais que o cercavam como um surto de loucura. Arregalou seus olhos azuis helvécios e exclamou:

“É isso, é isso!! Preciso escrever, escrever!! Onde posso arranjar uma caneta BIC?”

O som dos passarinhos agride meus tímpanos em repouso e acordo com o alarme do celular. Olho para a mesa de cabeceira e vejo “Memórias, Sonhos e Reflexões”, de K. G. Jung.

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A forma de nascer conta

Parto orgásmico

É importante que alguns termos normalmente usados sejam esclarecidos para que qualquer debate seja mais produtivo e claro:

  • Parto normal: parto pela “norma” fisiológica, isto é, via vaginal.
  • Parto natural: parto em que a natureza comanda o processo, sem intervenção técnica ou de linguagem.
  • Parto humanizado: partos que ocorrem em uma espécie de mamíferos dotados de razão e linguagem: homo sapiens sapiens. É composto de 3 elementos constitutivos:
  • Protagonismo garantido à mulher, sem o qual teremos apenas sofisticação da tutela patriarcal
  • Uma visão interdisciplinar, portanto, aberta e abrangente, para analisar e assistir um evento humano e fisiológico, e…
  • Vinculação visceral e inquestionável com a Saúde Baseada em Evidências

Portanto a VIA DE PARTO é fundamental, pois é um caminho constitutivo da mãe e do bebê. No dizer de Bárbara Katz Rothman, “Partos não servem apenas para fazer bebês, mas para construir mães fortes e capazes de lidar com os desafios da maternagem.” O parto humanizado é, portanto, um grande capacitador materno, oferecendo à mulher as melhores ferramentas para seu posterior desempenho como mãe.

É importante não confundir esses termos, assim como é fundamental perceber que o fato de mães e bebês terem sobrevivido NÃO É o único valor significativo. Existem muitos elementos importantes no nascimento de um bebê além da simples sobrevivência dele e de sua mãe.

Se é certo que o mais importante é sobreviver – e bem – também é correto dizer que parto NÃO é tão somente “meio”. O que se percebe é que o parto é fundamental para a construção de ambos os sujeitos: o bebê que nasce e a mãe que ressurge. Como um filho adolescente que vai a um show de Rock. Claro que voltar vivo é o mais importante, mas eu certamente perguntaria se o show foi bom, porque existe mais em um show de música do que simplesmente sobreviver a ele.

Experiências humanas podem ser comparadas a um “show”, claro. Um show tem desejo, alegria, gozo, tristeza, começo e fim. E tem morbidade e mortalidade. Uma excelente metáfora. Aliás, o “Show da Vida” não nos lembra algo? Pois é… a abertura era um nascimento. Parto é SIM espetáculo…

Partos recheados de violência são eventos que TODOS deploramos. Dizer que uma cesariana é melhor que “isso” pode ser até verdade (mas ela é sempre subjetiva nos pacientes), mas não pode nos levar a ter um olhar mais condescendente com a abordagem cirúrgica (que tem sabidamente uma morbimortalidade muito maior). Partos violentos devem, pelo contrário, nos fazer combater práticas defasadas e violências institucionalizadas que ainda são a regra na atenção ao parto. “Terceira via” é a solução !!!! Nem cesariana, nem parto violento. Queremos parto de princesa!!!

Quanto à atenção é bom estar atento para o fato de que o médico NÃO faz NADA, preferencialmente, no espetáculo do parto. O parteiro (médico ou obstetriz) PERMITE que o SHOW aconteça no corpo alheio, conforme as determinações fisiológicas escritas há milênios no nosso código genético, agindo APENAS quando a rota do parto se afasta da fisiologia e entra no terreno espinhoso da patologia. Nesse momento, altera-se o protagonismo, e o médico pode fazer seu show (sua arte, suas aptidões) e garantir o bem-estar de mães e bebês. Não se trata, portanto, de excluir as habilidades e capacidades médicas, mas colocá-las apenas a serviço do binômio mãe-bebê, sem uma interferência exagerada e danosa ocasionada pelo exagero de aporte tecnológico.

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