A Verdade

Bem, talvez dizer que “cada um tem sua verdade” seja tão alienante quanto a ideia de buscar a Verdade, como se esta fosse um ente possível de encontrar pelo sujeito, pela filosofia ou pela ciência. Nietzsche já nos dizia que “por vezes as pessoas não querem ouvir a verdade por medo de destruir suas ilusões”, mas, ao mesmo tempo, dizia não haver “fatos eternos e verdades”. Contra a ideia positivista de que no mundo há apenas fatos, Nietzsche respondia: “Não, fatos são em essência o que não existe, tudo o que temos são apenas interpretações”. Ou seja, mesmo para ele, a busca pela Verdade era muito mais um caminho de depuração dos preconceitos acumulados do que uma real luta para encontrar a clareza total e luminosa da realidade do mundo. Além disso, longe de ser estranho, o conforto que sentimos nas doces ilusões da vida e o apego às mentiras que teimamos em não abandonar são as principais características que nos tornam humanos. Não?

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O Oportunismo dos Sionistas

Que curioso!!! Exatamente quando Israel promove um holocausto palestino, matando mais crianças mulheres por dia do que o próprio Adolf em seus dias de “glória”, surge uma série para glorificar os judeus mortos nos campos de concentração há quase um século atrás. A série, chamada “O Tatuador de Auschwitz”, foi realizada por Tali Shalom-Ezer e tem produção executiva de Claire Mundell. Não há dúvida que a estreia internacional vai coincidir com o maior desastre de relações públicas já ocorrido nos mais de 80 anos de vida de Israel. Universidades pelo mundo inteiro estão sendo ocupadas com estudantes que exigem o fim dos massacres sionistas contra crianças, mulheres e homens palestinos, assim como uma solução para a ocupação e o Apartheid que já perduram por mais de 70 anos. Esta “coincidência” nada mais é do que uma “manobra diversionista” e cumpre duas funções: trazer de volta a ideia gasta de que os judeus são as “eternas vítimas do mundo” – o que os autoriza a realizar todas as atrocidades que testemunhamos desde o Nakba em 1947 – e desviar a atenção da fantástica debacle mundial da imagem de Israel.

Este país falso, roubado da comunidade Palestina que lá vivia há séculos, agora tornou-se mundialmente conhecido como o país do terror, do holocausto palestino, do genocídio, do massacre de crianças, do apartheid e da limpeza étnica. A data de 7 de outubro de 2024 marca um corte fundamental na história da Palestina, expondo as entranhas dos horrores e dos abusos da ocupação sionista e produzindo um estrago irrecuperável na forma como o mundo enxerga esse enclave europeu. Nunca antes a violência e o terrorismo de Israel estiveram tão evidentes quanto depois da ação da resistência armada do Hamas e outros grupos.

A história não vai retroceder, e o estrago já está feito. Israel, a partir daquele dia nos umbrais de outubro, teve sua real essência mostrada nas redes sociais para cada sujeito que segurava um smartphone no planeta. Nem Barbra, nem Spielberg, nem Seinfeld… nenhum deles será capaz de salvar Israel da maldição que vai se abater sobre os colonizadores brutais e perversos. Os crimes contra a humanidade cometidos até hoje não poderão ser apagados por estas manobras de propaganda descarada. O mundo inteiro acordou para a barbárie racista de Israel.

Apesar da obra ter seu valor, não é possível acreditar que o seu lançamento agora não seja uma clara ação oportunista para tentar limpar a imagem imunda do sionismo genocida de Israel. Os crimes contra a humanidade cometidos desde a brutalidade do Nakba não ficarão impunes. Não vão nos enganar com essa patifaria. Yasser Arafat, onde estiver, sorri para um porvir democrático e de paz em sua terra.

“Aprofundando as informações sobre a nova música que Barbra Streisand gravou para a minissérie “O Tatuador de Auschwitz”, esta será a primeira vez que um tema da diva judaica americana é usado para um programa de TV. Streisand disse que com a música procurou lembrar das vítimas do Holocausto.”

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Lutas incessantes

Meu pai sempre foi um conservador, mas no final da vida atingiu o estágio de “liberal de esquerda reformista”. Caso tivesse mais 60 anos convivendo comigo teria a chance de se livrar das amarras liberais e entender o modelo capitalista como um sistema fadado ao fracasso, pois que não há como esperar um crescimento infinito e constante em um mundo de recursos limitados e finitos. Além disso, esperar que uma sociedade de classes, dividida entre os capitalistas – que tudo têm – e os proletários – que tudo fazem – mantenha-se em “harmonia”, é uma ilusão tola. A luta de classes é a consequência natural da opressão das classes oprimidas; não há como escapar do destino humano de lutar por liberdade.

Dito isso, lembro bem do quanto ele reclamava de minhas posições políticas, em especial pela minha radicalidade. “Não é fácil ser pai de comuna”, pensava ele. Seus mais de 90 anos na lavoura do espiritismo – a maior parte deste tempo ainda cristão – o transformaram em um sujeito de inegável docilidade. “Escreva sobre partos e nascimentos”, pedia ele. “Gosto de sua visão poética sobre o nascimento e suas consequências civilizatórias, o parto como elemento essencial da sexualidade humana e o nascimento como formatador do desejo, que tanto nos escraviza quando nos impulsiona. Fale do “nascer com pressa”, que acaba por produzir a fissura bizarra na ordem cósmica”.

Ele gostava dessa perspectiva, mas não sabia o quanto ela é igualmente revolucionária. Se existe amor, cuidado e carinho na forma como os humanistas encaram o nascimento, também há necessariamente enfrentamento e agitação, que brotam naturalmente dessa perspectiva. O nascimento, inserido em uma sociedade patriarcal, ainda é dominado pela corporação médica, que o trata como os outros eventos médicos, onde o profissional é o protagonista dos processos de cura e o paciente o sujeito passivo dos tratamentos. Porém, contrariamente ao que ocorre nas doenças, o parto é um evento da fisiologia, que deve ser conduzido pela “lógica do cuidado”, ao invés da “lógica da intervenção”. Por esta simples razão, o nascimento humano jamais deveria estar nas mãos de profissionais da saúde que são regidos pelo intervencionismo e que lucram com a a crescente complexidade e a medicalização desse evento. Qualquer país que tem o cuidado do parto delegado às parteiras profissionais têm melhores avaliadores de qualidade do que os países que medicalizaram esta assistência e o colocaram nos hospitais e nas mãos dos médicos.

Por esta razão histórica – a invasão do nascimento pela Medicina – a qualidade do nascimento estará na dependência da vinculação ideológica do obstetra com o tema do parto. No modelo atual, o que os pacientes desejam vale (muito) menos do que as crenças e a experiência do profissional médico, o qual vai tomar esse nascimento sob seu controle e sob suas condições. No hora derradeira do nascimento, o desejo da paciente, mesmo que se mantenha firme durante o bombardeio do pré-natal, ainda continuará valendo muito menos do que a autoridade do obstetra, e será dele a decisão final sobre o que vai ocorrer.

Apesar da taxa de cirurgias cesáreas ter declinado desde 2017 no setor suplementar de saúde, passando de aproximadamente 86% em 2017 para cerca de 81,8% nos anos de 2021 e 2022, ela ainda se mantém uma das mais altas do mundo, uma situação vexatória para o país. Desta maneira, em uma sociedade  onde a classe média tem uma taxa de cesarianas de 90%, um parto vaginal – sem falar de partos humanizados – só poderá ser alcançado através de muita luta e enfrentamento. Entretanto, é preciso criar uma geração de mulheres que entendam a importância do respeito à fisiologia do parto ao ponto de cerrarem fileiras para este tipo de combate. A disparidade de poder ainda é gritante, mas não será desfeita atacando os médicos, mas exaltando o poder e as capacidades das mulheres que pretendem parir com segurança e através dos seus próprios valores. Não há como conseguir um parto normal em nossa cultura sem bater de frente com o sistema, mas bem o sabemos que poucos estão dispostos e capacitados a aceitar esta realidade.

Meu pai queria fraternidade, concórdia e paz, mas eu só podia oferecer a espada. Mesmo fugindo das questões da política geral, acabamos caindo na política dos corpos, dos desejos, da liberdade e da atuação prazerosa na vida. Talvez amadurecer seja suportar a dor de frustrar os desejos de um pai. Na vida política e no debate sobre a forma como nascemos não existem direitos garantidos de forma fácil; nada é recebido em dádiva, e todo e qualquer avanço se dá pela luta incessante pela conquista de espaço.

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O Fim de Israel

A situação para o imperialismo no Oriente Médio está cada vez mais insuportável. Ao meu ver, está insustentável. Se, na melhor das hipóteses para os imperialistas, Israel capturasse todos os líderes do Hamas e matasse mais de 100 mil mulheres e crianças, ainda assim a resistência Palestina se renovaria, na Jordânia, no Líbano, na Síria e nos túneis sob os escombros, e teria ainda mais suporte da comunidade internacional. Não há futuro para o racismo e o apartheid de Israel.

O mundo não aceita mais impunemente visões supremacistas e ditaduras étnicas. Israel é um país condenado pela sua própria natureza excludente e precisa acabar; seu fim é uma questão de tempo. Os palestinos enfrentaram a ocupação por 75 anos e não foram derrotados; não é agora que serão batidos. O Império está caindo diante dos nossos olhos e uma Palestina Livre, multinacional, com cristãos, judeus e muçulmanos irmanados será criada em seu lugar.

FREE PALESTINE!!!

https://fb.watch/syKa76qCs4/

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Arte popular

Eu tive que ler este texto escrito por um sujeito que se diz de “esquerda”. Sua tese é calcada no “mau gosto” intrínseco à Festa de Parintins, um espetáculo da cultura do Amazonas que se realiza todos os anos e divide a cidade entre os “azuis” e o “vermelhos”. Essa é a sua opinião sobre o espetáculo que foi obrigado a assistir:

“Meu pai trabalhou um tempo em Manaus e, num final de semana que fui passar na casa dele, me fez assistir uma gravação do tal “Boi de Parintins”. Eu não lembro se aprontei alguma coisa para receber tal castigo, que fazia os interrogatórios de Guantánamo parecerem uma ida ao Parque de Diversões. Foram horas vendo aquela coisa cafona. Uma mistura de Escola de Samba do Grupo C com Broadway de apresentação de colégio. Os “Indígenas” faziam os de Hollywood dos anos 50, parecem resultado de consultoria com o Levy Strauss. Depois dessa eu já sei que não reencarno mais.”

Tchê, na boa…. qual o real objetivo desse seu comentário? Quando comecei a ler achei que o autor estava brincando, e que sua postagem guardava um “plot-twist” que colocasse a cultura popular em destaque. Engano meu, era mesmo puro preconceito. Fico realmente com dúvida sobre o que o moveu a escrever algo tão agressivo com a festa de Parintins. E olha…. eu pessoalmente – pela notória fobia social conjugada com minha cintura dura – não tenho conexão com este tipo de manifestação popular, mas não me atrevo a entender isso como uma cultura “menor”. Desdenhar dessa forma de arte popular, em especial daquela oriunda da região menos privilegiada da federação, me parece de um elitismo superado e sem sentido. Faço este questionamento de boa, porque não consigo imaginar a razão para tamanho desprezo pelas coisas do povo.

Essa manifestação muito me lembra as pessoas com manifesto rancor pela vida, com tristezas inconfessas, amores mal digeridos, que costumam fazer discursos contra o Carnaval, o samba e o futebol, e com os recursos economizados criar escolas, polícias armadas e fábricas, como se o ser humano fosse um mísero primata despelado e utilitário, sem razão de existir para além do que produz, sem direito à alegria, ao prazer e ao ócio.

Mesmo reconhecendo minha distância destas manifestações populares de extravasamento incontrolável de alegria eu sei o quanto elas atingem o coração do povo, sua musicalidade, suas cores, suas paixões, sua especial perspectiva de mundo e seu modo de ver a própria vida. Qual o real sentido em tratá-las com tamanho desrespeito e desdém?

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Sorte

Muitas pessoas entraram em contato comigo durante a grande enchente que passamos para saber como estávamos aqui na Comuna. A todos expliquei que a localização onde nos encontramos nos protege das chuvas. Estamos em um vale, entre os morros que circundam a cidade de Porto Alegre, longe do rio Guaíba, e nossa topografia nos coloca a 70 metros acima do nível das águas. Somos inatingíveis pelo rio.

Curiosamente, quando há 10 anos surgiu a ideia de criarmos uma comunidade intencional fomos visitar vários lugares, na nossa cidade e nos arredores. Um deles foi Viamão – cidade ao lado da capital do RS – numa área muito maior, mas cujo acesso era muito dificultoso e longe do centro de ambas as cidades. O preço também era bem maior e inalcançável pelas nossas parcas economias, e por isso esta opção foi descartada. Outra propriedade que fomos visitar era na cidade de Eldorado do Sul, cidade que se situa logo após atravessar a “ponte do Guaíba”, saindo de Porto Alegre em direção à parte sul do Estado. Era um condomínio muito bonito, com vizinhos famosos, e uma vista maravilhosa do rio que separa aquela cidade da capital. A distância e o preço também nos impediram a compra, e por esta razão acabamos desistindo.

Nossa insistência nos fez encontrar, algum tempo depois, o local de agora, onde já estamos estabelecidos há 7 anos. Quando aqui chegamos, este era um bairro pouco valorizado, ainda que dentro de Porto Alegre, mas muito verde, com matas nativas e um riacho ao fundo, porém com problemas estruturais sérios: sem acesso à internet – inclusive sem telefonia celular – e sem via de acesso adequada, pois a única forma de chegar ao local era através de uma estrada vicinal de saibro, totalmente esburacada, que se tornava completamente intransitável durante as chuvas. Passaram-se os anos e estas condições foram aos poucos ajustadas; hoje temos uma rua com piso novo e acesso à internet de boa qualidade. Porém, não fossem estas péssimas condições iniciais e seria igualmente impossível comprar o local onde erguemos a Comuna. Ou seja: fomos bafejados pelo hálito doce da Deusa Álea – a divindade dos eventos aleatórios – e tivemos muita sorte de não fazer nenhuma das escolhas que, no futuro, se mostrariam desastrosas.

Quando me ligam perguntando como estamos aqui em decorrência das enchentes que castigaram o Estado, eu imediatamente lembro que o local que visitamos há alguns anos hoje está submerso; o bairro inteiro, que fica próximo da margem do rio, praticamente desapareceu, assim como boa parte da cidade de Eldorado do Sul. Cada vez que me perguntam eu paro para pensar nas coincidências da vida e nas decisões fortuitas – ou não – que tomamos. Poderíamos estar agora lamentando a perda de tudo que construímos em mais de 40 anos de trabalho. Poderíamos estar confinados ainda na casa de parentes ou em abrigos, tendo nossa comunidade destruída pelo avanço das águas. Por esta razão, agradeço as coincidências que nos protegeram desta tragédia. Agora consigo, mesmo que superficialmente, ter uma ideia do quanto esta catástrofe abalou a vida das pessoas que perderam tudo nesta enchente. Espero que a dor que sentimos – de forma direta ou indireta – seja capaz de mobilizar a todos para as reformas necessárias em nível local e sistêmico para que este tipo de catástrofe não se repita. Todos os indicadores apontam para o retorno – em breve!! – deste tipo de acontecimento climático, e precisamos estar preparados para o próximo revés. E que o Rio Grande do Sul possa fazer as escolhas políticas que não fez, principalmente motivados que estávamos pela retórica neoliberal e fascista que se apossou do Brasil.

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Riqueza

Houve dois momentos na minha vida nos quais eu tive a nítida sensação de riqueza. Ou seja: a percepção de ter dinheiro sobrando, em demasia, para mais do que necessitaria, a ponto de não ter ideia do que fazer com ele. Sim, foram sensações fugazes, passageiras, momentâneas e rápidas, porém intensas o suficiente para que eu as recorde até hoje.

A primeira ocorreu há 45 anos. Comecei a trabalhar como interno em um Pronto Socorro aos 18 anos, ainda no segundo ano da Faculdade. Era, segundo meu pai, um “maleteiro“, carregador de “maleta”, uma enorme caixa de medicamentos usados pelo médico nos atendimentos domiciliares. Também era “padioleiro”, alguém que fazia transporte de doentes entre um hospital e outro. Depois do primeiro mês de trabalho recebi meu salário, referente às horas que fiquei de plantão no pronto socorro. Lembro que naquela época uma noite de plantão pagava o equivalente a 50 reais nos dias de hoje, mas o dinheiro era o que menos contava; a gente fazia plantão mesmo era para aprender.

Cheguei em casa com o bolso da calça cheio de notas, pensando em como usaria todo aquele dinheiro (uma calça US Top? uma camiseta da Gang? um tênis Bamba? livros?). Meu pai me recebeu em casa com um envelope nas mãos, e nele estava a minha “mesada”. Olhei o envelope e sorri. “Mais dinheiro ainda? Que vou fazer com tudo isso?”, pensei. Disse ao meu pai que não era necessário, mas ele fez questão de me dar aquela que, depois percebi, seria a última das mesadas da minha vida. Poucas vezes tive uma sensação tão grande de opulência.

A segunda vez foi há alguns poucos meses. Depois de uma longa luta contra as burocracias do INSS eu recebi meu primeiro salário como aposentado. O salário, aliás, muito menor do que eu gostaria, mas muito mais do que eu esperava receber. Os cálculos da aposentadoria de profissionais liberais são misteriosos e o resultado é sempre uma surpresa. Depois de muitos anos vivendo num modelo de contenção de gastos e minimalismo, a sensação de ganhar um salário fixo pelos 40 anos de contribuição ao INSS me pegou de surpresa. Tive a mesma sensação da adolescência ao achar que estava ganhando muito mais do que precisava. Sim, já passou, e agora estou de volta à ordem natural da vida, esperando e desejando mais do que tenho. De qualquer modo, ver minha conta no banco recebendo estes valores me conectou imediatamente ao meu primeiro pagamento.

O segredo do amor, segundo sábios do passado, é sentir que está recebendo algo além do seu merecimento. É acordar de manhã, olhar para sua alma gêmea e se perguntar “O que fiz para merecer uma pessoa tão especial como esta? Por que eu?” No mesmo sentido, o segredo do equilíbrio na vida cotidiana é não apostar jamais sua felicidade na posse das coisas, escravizando seu desejo ao que pode ser comprado. “Tudo de real valor na vida é gratuito”, dizia meu amigo Max. O afeto, o amor, a presença da família, os filhos, os netos, a chuva, o sol, os pais, nada disso se encontra em uma prateleira ou vitrine, e muito menos tem uma etiqueta de preço pendurada.

Eu costumava provocar meus filhos quando pequenos perguntando a eles quem era mais rico, eu ou o Sílvio Santos, ao que eles respondiam: “O Sílvio é muito mais rico do que você!!”. Então eu os contestava dizendo: “Pois eu não sei quem é o mais rico, vai depender do quanto o Sílvio Santos deseja”. Sêneca nos ensinou que “não é a carência que produz a pobreza, mas a multiplicidade dos desejos”. Por isso minha surpresa nessas duas ocasiões: acostumado a não desejar pela falta de recursos, a pequena quantia que recebi pareceu exagerada e capaz de satisfazer todos os desejos do momento, mesmo que o tempo viesse a criar outros desejos e a certeza da falta novamente viesse a me fazer companhia. Porém restou uma lição: o segredo da riqueza não está em muito possuir, mas em reconhecer o valor do que não tem preço.

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Expectativas

Muitos estão exaltando o Vini – Vinícius Júnior, jogador do Real Madri – que, ao que parece, é um bom garoto. Desde que chegou ao Real Madri, vendido pelo Flamengo, sempre teve uma postura altiva e corajosa contra o racismo a que foi submetido, fazendo capas de jornais e revistas esportivas por não se calar diante das agressões que sofreu. E, por certo, acima de tudo ele é um fantástico jogador, responsável pela última conquista de seu time na Champions League. Diante desse sucesso, quiseram (imprensa, torcida, mídias sociais) contrapor sua imagem de “bom garoto” à do jogador Neymar, o “mata-borrão” predileto da torcida tupiniquim, visto como o principal responsável pelos nossos últimos fracassos na disputa da Copa do Mundo. Esse contraste do “bom menino” com a do “moleque irresponsável” serve como idealização dos nossos heróis jogadores, mas como sempre, está longe da verdade.

As pessoas, entre elas os jogadores famosos, são cheias de contradições e inconsistências. Somos incoerentes, surpreendentes e mutantes. O Vinícius não merece que se coloque em seus ombros a carga de ser o bom menino que vai nos redimir, da mesma forma como as críticas morais ao Neymar Jr estão carregadas de moralismo, ataques exagerados e uma tentativa de desmoralizar os craques brasileiros, em especial aqueles que saem do Brasil para enriquecer na Europa. Sim, existe até um interesse imperialista de desmerecer os talentos nacionais. Além disso, esse Vinicius Júnior, longe de ser o antípoda de Neymar, é parceiro do Neymar na seleção brasileira; são amigos de muito tempo. Suas perspectivas de mundo devem ser muito mais próximas do que aparentam.

“Ahh, mas ele é campeão da Champions League e não quer privatizar praias”. Ora, ele não quer ou não tem cacife para isso? Não deseja ou não pode? Sabemos que esses recursos para a construção de megaprojetos de turismo na nossa orla o Neymar tem, e essa deve ser a diferença essencial. Será que o Vini é realmente virtuoso ou apenas não atingiu o nível obsceno de riqueza de outros que vieram antes dele? Não tenho a resposta, mas sei que a única forma de avaliar é aguardar. Neymar já foi um garoto assim, um menino que carregava as nossas esperanças de reconquistar um título de Copa do Mundo. Infelizmente o dinheiro em quantidades indecentes o ligou primeiro ao Bolsonarismo e, agora, ao Luciano Huck e à proposta perversa de privatizar praias brasileiras. Neymar é produto do capitalismo tardio, do culto à ostentação e da valorização do hedonismo depois da queda das utopias socialistas dos anos 90; ele é muito mais resultado de um contexto do que sua causa.

Criar expectativas em jogadores de futebol é um risco demasiado alto; o meio onde vivem é de competividade tóxica, opulência, exibicionismo e grana sem limites. A tentação de multiplicar o capital, através das infinitas propostas que recebem, é constante. Por isso, a chance de nos iludirmos com esse garoto é gigante. Acho muito mais sensato esperar o menino ficar bilionário, como o Neymar já é, e depois avaliar se as boas atitudes continuam a pautar sua conduta. Manter-se humilde e conectado com suas origens é uma tarefa tão difícil que se pode contar nos dedos das mãos os jogadores de esquerda, progressistas e ligados às suas raízes; a imensa maioria é composta por reacionários e bolsonaristas… mas que fazem caridade ocasionalmente. Inclusive o Neymar.

A medida do amor é amar; a medida da honestidade é manter-se honesto diante da possibilidade de não ser. Ser contra a privatização das praias sem ser sócio do investimento qualquer um seria, mas continuaria sendo se fizesse parte da galera do dinheiro? Ele manteria sua posição “consciente” diante da sedução de lucros estratosféricos? Teria consciência social, respeito pela natureza, visão progressista mesmo perdendo uma oportunidade única de multiplicar sua fortuna? Essas histórias sempre me fazem recordar a fala do presidente de uma grande empresa envolvida em acusações de suborno. Quando chamado de “ladrão” por um jornalista, ele respondeu: “se você receber uma proposta de 1 milhão para ficar em silêncio e mesmo assim abrir a boca, você passou no único teste que realmente importa”.

“A mão que afaga é a mesma que apedreja”. Esta sabedoria de Augusto dos Anjos nos deveria fazer entender a forma passional como tratamos nossos ídolos. Muita calma nesta hora para não criarmos outra frustração com este novo super craque brasileiro. Aliás, não acho justo cobrarmos de um jogador de futebol que seja qualquer coisa além de atleta, da mesma forma como cobramos de um escritor que escreva com qualidade e tenha ideias criativas; não é justo que seja cobrado enquanto filantropo, ecologista, defensor de causas humanitárias, etc. No caso de excelente jogador Vinícius Júnior faz sentido esperar os próximos anos antes de colocar esse garoto no pedestal da responsabilidade social. 

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Bate boca

Acho curioso como as brigas entre celebridades são tratadas por nós. A última treta é esta dos últimos dias envolvendo o jogador Neymar e uma atriz aposentada que mora em Portugal. Creio que a gente erra quando espera destes sujeitos muito mais do que são capazes de oferecer. Neymar é um craque do futebol, um dos maiores jogadores que este país já produziu. Poucos futebolistas do mundo poderiam estar na mesma prateleira que ele. Dito isso, ficar acompanhando as fofocas da sua vida pessoal é uma enorme perda de tempo, e um brutal click bait de franco atiradoras que desejam notoriedade com esta polêmica.

Enquanto cidadão, Neymar é um claro produto de seu meio: um sujeito pobre tornado rico que se identifica com os valores burgueses. Todavía, quando olhamos para seus colegas de profissão, quem escapa dessa sina? Quem reconhece de onde veio e tenta mudar essa realidade – sem ser através de doações pontuais e caridade midiática? Entretanto, este não é um comportamento exclusivo de jogadores de futebol. Conheço meninos muito pobres e ambiciosos que cursaram medicina e hoje são fiéis defensores de Bolsonaro e da extrema direita, fazendo pouco caso das pessoas sue se encontram no mesmo extrato social de onde vieram. As posições empresariais de Neymar são características de “boleiros” cheios de dinheiro e sem qualquer perspectiva ecológica e social. Sua parceria com Luciano Huck, um neoliberal aecista e bolsonarista, associado a tudo que se relaciona com a direita mais retrógrada deste país, é uma conexão absolutamente natural. Bizarro mesmo é encontrar jogadores de esquerda ou defensores da justiça social.

Ademais, as pessoas que agora o atacam são tão ou mais socialmente irresponsáveis do que ele. Moristas e lavajatistas de primeira hora, abraçaram o fascismo bolsonarista com todo o fervor. Expõem suas aventuras sexuais na Internet, confessam o uso de drogas diariamente ao mesmo tempo em que acusam o jogador de ser um “mau pai”. Ora, façam o favor; mesmo que seja verdade, tudo isso não passa do conhecido “roto que fala do rasgado”.

O erro, mesmo que seja difícil admitir, é esperar de simples jogadores de futebol e atrizes de TV que sejam algo além do que seu talento específico lhes permite. Pedir para Neymar que seja um bom cidadão, mesmo virado de costas para o Brasil, é inútil. Ele joga futebol; não exijam dele nada mais que isso. Pedir para uma artista em crise profissional (como ocorre com muitas atrizes lindas quando a idade chega) que tenha consciência de classe, empatia com o povo brasileiro (autoexilada na Europa) e bom senso político é pedir muito mais do que é capaz de oferecer. Esses bate bocas servem para garantir publicidade a estas personalidades, mas nesta equação somos essencialmente massa de manobra, conduzidos a tomar posição e levados a assumir um lado, mesmo quando se trata de pessoas cujas semelhanças em termos de alienação ultrapassam em muito qualquer diferença que possa existir.j

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Mitos

Imaginem que, numa espetacular descoberta arqueológica, são encontrados na Palestina papiros que descrevem vida e os caminhos do “Jesus real”. Nestes documentos está descrito, de forma inequívoca, que o Messias nunca foi um ser santificado, mas tão somente um escroque, um ladrão, um dissimulador que usava de meros truques de mágica para enganar incautos e ludibriar os crédulos da época. Sua condenação se deu por suas múltiplas falcatruas ou golpes, e não por suas belas palavras, ensinamentos, parábolas, bem-aventuranças ou milagres. Tudo de belo escrito sobre ele não passa de peças políticas, criadas sobre um personagem ficcional, meramente baseado no jovem judeu crucificado no Gólgota.

Claro, é apenas um exercício de imaginação; nada disso ocorreu. Minha pergunta é: se fosse verdade, quantos abandonariam a fé cristã diante das evidências de que o personagem que tanto veneram – e por mais de dois mil anos – não é mais que uma mera criação humana? Quantos deixariam o cristianismo após descobrir que o verdadeiro Jesus de Nazaré nada se parece com o Cristo sobre o qual se ergueu uma igreja de sucesso em todo o planeta.

Minha resposta simples é: zero.

Inobstante as provas encontradas, a vinculação que temos com esses personagens está muito além (ou aquém) de qualquer análise racional, e por isso mesmo esta conexão é poderosa. Não precisamos da razão para criar vínculos com esses ícones, pela mesma razão que nossas outras tantas conexões afetivas não carecem de qualquer ligação racional essencial. Não amamos esta ou aquela pessoa por uma análise lógica e baseada em fatos; nossa ligação é muito mais visceral, e não precisa que os elementos subam do fígado ao cérebro para serem validados.

Aliás, as descobertas recentes da estrutura do Universo balançaram as estruturas da Igreja, mas esta lentamente assimilou as novas descobertas e as ressignificou. “Ok, não somos o centro do Universo, mas Deus Pai zela por todos nós por sua onisciência, onipresença e amor infinito”. Feito. Bola ao centro e reinicia o jogo.

Esse tema me veio à mente porque a recente condenação de Trump tem essas mesmas características. Alguém acha mesmo que Trump perderá a próxima eleição por ter sido julgado, condenado e seus crimes revelados? Responda então: um candidato que se coloca contra o sistema, ao ser condenado por este mesmo sistema que combate, não sairá fortalecido? Essa é a grande força de Trump: disseminar no povo americano a esperança no retorno aos tempos de glória através da ficção de que ele representa o combate ao “sistema”, o enfrentamento ao “deep state” e a luta contra o “globalismo“. Como ele mesmo disse: “Eu poderia dar um tiro em um sujeito na 5ª Avenida e ainda assim venceria a eleição”. E não está errado; ele sabe o papel mítico que exerce sobre o eleitorado.

Bolsonaro, o fac-símile do trumpismo em Pindorama, igualmente sabe que as provas de seus desmandos, a roubalheira, as joias, as propinas da vacina e a tentativa de golpe não atingem o coração de sua imagem de “cruzado antissistema” e contra “tudo isso que está aí”. Ele entendeu que sua legião de acólitos pouco se interessa pela vida real e mundana do seu líder, e apenas enxerga o “mito” que pode redimi-los de sua vida insossa e medíocre. Tanto lá quanto aqui, a falência do capitalismo continuará produzindo estas figuras que iludem seus seguidores fingindo combater o sistema quando, em verdade, são o seu último suspiro.

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