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Jean-Paul Charles Aymard Sartre dizia – para as garotas por certo – que entendia as razões pelas quais elas o percebiam como um ancião de quase 70 anos. Todavia, afirmava que não se via dessa forma, pois se achava apenas um “garoto mais maduro”, independente do que lhe denunciava sua certidão de nascimento. Já eu acredito que o olhar do outro é fundamental exatamente por isso: para nos apresentar aquilo que ignoramos ao nosso respeito, oferecendo um toque de realidade à nossa fantasia de onipotência.

Jean Marie Artaud, “L’art de Vieillir”, ed. Chateaux, pág 135

Jean Artaud é um escritor francês nascido em Rennes, na Bretanha, em 1947. Cursou a escola fundamental na sua cidade natal até se mudar para Paris com o objetivo de estudar filosofia na Sorbonne. Com 21 anos de idade participou das manifestações de maio 1968, onde conheceu Jean-Paul Sartre e sua parceira Simone de Beauvoir. Imediatamente passou a cursar as aulas de Simone e se apaixonou por ela, apesar de ela ter 60 anos na época e ele apenas 21. O romance entre eles durou poucas semanas e a amizade entre ambos foi abruptamente interrompida quando em 1971 Simone subscreveu o “Manifesto 343”, onde várias personalidades francesas alegavam ter feito um aborto. Católico fervoroso e anti-abortista, Jean Marie recusou-se a continuar a amizade com sua professora e amante depois que ela declarou publicamente ter realizado este procedimento. Chegaram a se reconciliar em 1976, mas imediatamente romperam definitivamente quando ela integrou o grupo de intelectuais (que incluía Sartre, Foucault, Barthes, Deleuze e outros) que assinou uma petição enviada ao parlamento francês em 1977 pela abolição da idade de consentimento e em prol da descriminalização do sexo consensual. Casou-se em 1982 com Lucille Avignon, professora de linguística, com quem teve dois filhos, Armand e Pierre Auguste. Vive em Nice.

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Fake News

“MINISTRO do STF, Gilmar Mendes almoçando com o FILHO do Lula, em Roma/Itália, no dia 09 de outubro de 2022.”

Nas páginas dos amigos bolsonaristas encontramos estas pérolas da desinformação, adquiridas diretamente das sombras do WhatsApp: o Ministro do STF Gilmar Mendes almoçando com o “filho do Lula” em Roma no meio do segundo turno. Um simples olhar com atenção bastaria para ver que o sujeito na foto não lembra qualquer filho do presidente Lula. Entretanto, o Porsche dourado, a mansão no Uruguai, as lojas Havan e o triplex também eram facilmente desmentidos; por que, então, tantos acreditaram?

Eu pergunto: como puderam tantos acreditar nessas tolices? Como puderam receber estas mensagens pelo WhatsApp e imediatamente as disseminaram, sem ao menos verificar se a Havan era do “véio”, se a JBS já tinha dono, se na mansão já havia moradores e se o barbudinho na imagem não é qualquer outra pessoa?

A resposta é a necessidade premente de acreditar em qualquer fato – mesmo mentiroso – que confirme suas crenças. Por isso as pessoas acreditaram no “estado de sítio” há alguns meses, ou na prisão do Ministro Alexandre de Moraes logo após a vitória de Lula. Trata-se do conhecido “viés de confirmação“, um mecanismo psicológico primitivo que nos força a crer nas interpretações da realidade que confirmam as nossas crenças mais primitivas, as quais são originadas dos nossos afetos e emoções, não dos estratos superiores da razão.

Isso explica tragédias como Jonestown, onde 900 seguidores de Jim Jones tomaram cianureto, seguindo as ordens do seu mestre e guru. Também nos permite entender toda a idolatria dos extremistas de Waco, no Texas, vítimas de um incêndio que provocou a morte de 76 membros da seita davidiana em 1993, entre elas 23 crianças e o próprio líder, o pastor Koresh.

Somos constituídos de um núcleo de medos primitivos, tendo a angústia como sentimento fundador. Por sobre este medo essencial, colocamos uma grossa camadas de crenças irracionais (Deus, evolução, causa e efeito, progresso, justiça divina, determinismo, etc) que aliviam a nossa angústia estabelecendo uma relação de causalidade para os eventos caóticos da vida.

Por sobre esta camada de crenças aplicamos uma fina camada lógica, um verniz de intelecto, uma fachada tênue de racionalidade, que nos afasta dos medos sem, no entanto, eliminá-los, mas que nos oferece a sublime ilusão de sermos seres autônomos e conscientes. Tão brilhante é esta camada externa que ela nos ofusca e nos engana, fazendo-nos pensar que somos conduzidos pela luz da razão, quando em verdade ela funciona mais como uma máscara frouxa a esconder nossa estrutura primitiva e pulsional.

Não é por outra razão que somos presas fáceis das fake news. Elas são apenas a água refrescante que nossa alma sedenta de confirmação tanto deseja. Diante de tanto desejo, nossa razão minúscula é uma combatente frágil e minúscula. Via de regra, é derrotada pela avalanche de informações que desejamos ardentemente acreditar, sendo elas falsas ou não.

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PT e o cenário nacional

Pensem no seguinte: o PT ganhou 5 eleições nacionais em 20 anos, e a única que perdeu foi causada pela fraude liderada por um juiz ladrão, que comandou um golpe gestado nas entranhas do imperialismo. Foi também a vitória da esquerda, de um partido de trabalhadores, nascido das lutas da classe operária.

Lula venceu (mais) essa eleição e se torna o maior ícone mundial da luta dos povos oprimidos, o mais importante líder das nações ocidentais e a esperança de um novo mundo multipolar. O mundo inteiro celebra a derrota do fascismo e a volta da democracia no Brasil. Essa eleição será exemplo e estímulo para os trabalhadores do mundo inteiro, e produzirá uma onda de esperança e renovação em nível planetário.

Minha tese: bolsonarismo enfraquece mas não acaba. Bolsonaro não será descartado pela burguesia, pelo menos não nos próximos anos. Boa parte da burguesia (os interesseiros) vai se unir a Lula por oportunismo. Não há líderes intelectuais na direita da envergadura de Olavão e Bolsonaro estará muito enfraquecido. A extrema direita perdeu seus grandes líderes populistas. Porém, tirem da cabeça a ideia de que Bolsonaro pode ser preso. Ele é apoiado por uma parte muito grande da classe média ressentida, o bolsonarista “enrolado na bandeira”. Tem mais de 50 milhões de votos, e isso é uma enorme representatividade.

Bolsonaro será, no máximo, julgado pelo judiciário, que sempre é subserviente à burguesia. Acontecerá com ele o mesmo que ocorreu com Collor e mesmo com Temer: atacados pela intelectualidade, bombardeados pela imprensa e pelo povo, e posteriormente liberados pela justiça. Não há judiciário independente no Brasil capaz de exercer poder sobre a alta burguesia. Os próximos capítulos serão definitivos. A primeira manifestação do Bozo será determinante para descobrirmos a estratégia que eles vão usar em prol da própria sobrevivência.

A vitória de Lula e do PT tem múltiplos significados. Entre eles, o fato de que a direita brasileira teve uma sobrevida. Lula conseguiu salvar o que restava dela, esmagada pela extrema direita autoritária e fascista. Também significa a volta do Brasil ao mundo. Se Bolsonaro se mantivesse à frente da nação teríamos o aprofundamento do nosso isolamento, o Brasil como pária, desprezado por todas as nações.

Lula salvou o Brasil de um desastre civilizatório. Lula representa a esperança de conciliação nacional, por mais difícil que isso nos pareça agora. Por fim, a vitória da esquerda bloqueia o projeto de voltarmos à velha república, sem educação, sem esperança para os pobres, centrado no latifúndio e na classe média mais abastada.

O Brasil volta aos braços do mundo!!!

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Farsante

Ele chegou chegou anunciando mudanças profundas, para acabar com “tudo que estava aí”. Foi eleita com a votação ampla de uma parcela significativa da classe média. “Não vai sobrar nada”. Prometia acabar com tudo que havia sido construído pelos governos anteriores, os quais chamava pejorativamente de “esquerda”, mesmo quando não passavam de governos liberais com algum compromisso com a diversidade e com aspectos sociais. Quando tentava confundir acusava seus adversários (mesmo aqueles fortemente liberais) de “comunistas”. Usou a farsa do “perigo vermelho” durante todo seu mandato, como forma de arregimentar seguidores entre aqueles imersos no profundo poço de propaganda anticomunista surgida no pós guerra.

Para simular religiosidade seu governo falava de Deus, família e liberdade, mas seu passado mostrava abusos, em especial contra as mulheres, homossexuais e negros.O governo anterior havia produzido uma enorme frustração para o eleitorado. De caráter progressista, pretendeu oferecer uma visão mais social, mais focada nos mais pobres, defendendo na prática a distribuição de renda e apostando em programas sociais mas foi duramente atacado pelo congresso.

Ao tentar a reeleição usou de todos os truques para alcançá-la, mas boa parte da mídia e a maioria da população o rejeitaram. Suas falas misóginas e seu racismo, além do fracasso em restituir o pretenso “esplendor de outrora”, foram decisivos em sua derrota. Muitos escândalos vieram à tona, o que tornou seu final de governo extremamente conturbado. Não reconheceu de imediato a vitória do adversário – alguém que estava retornando de administrações anteriores – dando espaço para manifestações de seguidores fanáticos, empunhando palavras de ordem como “Deus”, “Propriedade” e “Família”, apesar de ter sido casado várias vezes e ter desrespeitado publicamente suas ex esposas.

Durante seu governo estimou a divisão do país entre “cidadãos de bem” e “vagabundos esquerdistas” e usou durante todo seu mandato de uma estética e uma retórica inspirada no nazifascismo europeu do século passado, e uma prática semelhante à Ku Kux Klan. Não teve escrúpulos em chamar para o seu mandato notórios admiradores do nazismo. Apesar de suas condutas antiéticas, perversas e contrárias ao cristianismo, sua base eleitoral foi centrada nas igrejas evangélicas. Simulava fé religiosa, mas sua conduta arrogante e prepotente sempre demonstrou desprezo pela religião e pela caridade. Pragmático, corrupto, sectário, violento, amigo do agronegócio e contrário à ciência, acabou gerando forte oposição no mundo inteiro.

Afinal, quem é o personagem que estamos descrevendo e quem é o seu “fac simile austral”? De quem estamos falando? Dica: um deles ficou aguardando o outro passar durante um evento e, de forma humilhante e subserviente, exclamou “I love You”. Mas a pergunta mais importante é: por que estão tão semelhantes na sua estratégia e por que razão estas histórias se tornaram tão assemelhadas?

Infelizmente o Brasil da atualidade não passa de uma caricatura mal feita da matriz, uma cópia sem valor de um modelo fraudulento. Nossa crise é moral, ética e civilizatória, mas igualmente estética.

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Idealismo Espírita

Falar do espiritismo enquanto doutrina progressista e baseando-se em seus ensinamentos e sua perspectiva científica e adogmática é puro idealismo. Na materialidade, na concretude do real, o espiritismo se apresenta como uma seita cristã (e cristólatra), conservadora, à direita no espectro político e caracteristicamente moralista. O espiritismo não difere de forma consistente de outras expressões religiosas ocidentais no que se refere ao perfil dos seus prosélitos. É uma lástima, pois sua base ideológica prometia ser revolucionária.

No Brasil, justiça seja feita, só as religiões de matriz africana se aproximam discretamente da atenção ao povo preto, pobre e oprimido pelo capital, e ainda assim de forma muito sutil. O cristianismo brasileiro é, acima de tudo e em todas as suas expressões, muito mais ligado à Roma e ao Sinédrio do que ao povo chinelão que comia poeira e gafanhotos na Palestina.

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Interpretações selvagens

Vi alguém afirmando que “quanto mais o sujeito defende a família, a moral e os bons costumes, mais safado é”.

Hummm, calma lá…

Uma frase assim, fora de seu contexto, e generalizando de forma bruta, é apenas lacração. Existem fanáticos moralistas que são castos, justos, corretos e tem uma conduta ilibada e honesta. Traçar uma linha reta de causa e consequência é um erro facilmente cometido. Por certo que existe um perfil cujas críticas à conduta moral dos outros nada mais são do que denegações de seus próprios vícios; jogam nos outros o que não suportam em si. Entretanto, se isso pode ser frequentemente observado, não deve ser considerado como regra geral.

Não há como desmerecer todas as críticas à moral alheia apenas com esse argumento. Tipo “se você é homofóbico só pode ser um gay enrustido e frustrado”. Não é verdade; muitas vezes é apenas um heterossexual idiota ou preconceituoso que precisa se sentir superior à alguém por ter sua autoestima combalida.

Esse “furor interpretans” não nos ajuda a entender o fenômeno do preconceito e do ódio social disseminado aos diferentes, e tais afirmações peremptórias nada mais são do que pura selvageria diagnóstica

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Esperança

Esta semana surgiu a notícia de que sujeitos ligados ao bolsonarismo estariam se infiltrando em ambientes progressistas, seja no Facebook ou nas outras mídias sociais, para pintar um cenário de derrota iminente da candidatura Lula. O objetivo é óbvio: desmobilizar, esmorecer, refrear as manifestações a favor da chapa liderada por Lula. Porém, esta é uma estratégia eleitoral. Para a libertação do nazifascismo bolsonarista a estratégia em longo prazo deve ser a orientação sedimentada pela razão. Não vejo futuro na troca de uma mistificação por outra, mesmo que a segunda seja infinitamente melhor que a primeira. A tarefa de libertar o sujeito só virá através do único atributo que nos diferencia dos outros animais: a razão, esta fina camada de verniz, a tênue fachada que nos livra dos medos e nos permite entender os fatos para prever o futuro

Entretanto, não se combate uma ideia que surge irracionalmente usando argumentos racionais. Portanto, para combater o fascismo e a pulsão de morte que Bolsonaro representa, precisamos usar e canalizar emoções.

Para derrotar Bolsonaro e seu plano totalitário nestas eleições é necessário usar as armas da sedução, do afeto e das emoções e mostrar o rastro de destruição crua causada por essa ideologia macabra. Esta é a estratégia para as eleições, em curto prazo, mas não o caminho em longo prazo que teremos de trilhar. O bolsonarismo não vai desaparecer apenas com a eliminação do seu mais importante expoente. Será necessário um processo muito mais complexo e difícil para desentranhá-lo da mentalidade do brasileiro. Para exterminar o fascismo é preciso educação é paciência.

Temos que manter o foco e a esperança. Lula nunca esteve atrás em nenhuma pesquisa. Ganhou o primeiro turno contra a máquina dinheiro e corrupção do governo de contra o derramamento de fake news. Não há porque esmorecer agora. Na última manifestação em Porto Alegre havia 70 mil pessoas na rua. O mesmo aconteceu em Recife, Curitiba, em Padre Miguel – multidões gigantescas nas ruas clamando por Lula e o que ele representa para as ideias de solidariedade e progresso com distribuição de renda. Apesar de estarmos presenciando a eleição mais desonesta da história da República, Lula continua na frente, desafiando as gigantescas quantias de dinheiro do governo derramadas com o objetivo de comprar votos, além da enxurrada de fake news que foram usadas neste ano. Desta vez o “banheiro unissex” toma o lugar do “kit gay” e da “mamadeira de piroca”.

Para aqueles que estão, como eu, à esquerda de Lula, o momento é de apostar no pragmatismo. Lula está muito mais próximos dos ideais revolucionários do que seu oponente – que representa o oposto desta perspectiva. Portanto, está em nós continuar ao lado de Lula nas ruas e em todos os ambientes que formos chamados à luta. Não acredito que as provas da obsessão sexual do atual presidente por adolescentes, o desprezo pela população das favelas e as agressões ao nordeste não terão uma resposta das urnas. Precisamos livrar o Brasil da tragédia que representaria Bolsonaro por mais 4 anos.

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Exclusão

Sim, eu concordo. A estratégia identitária de excluir do debate o homem branco, cis, hétero e de classe média, como se fosse um leproso, o culpado de todas as mazelas sociais e o “estuprador em potencial”, jogou milhões de brasileiros nas mãos da direita ressentida e feroz. Esse é o eleitorado mais fiel ao bolsonarismo e, se não posso aceitar essas escolhas, posso ao menos tentar entendê-las, para que não seja necessário sofrer mais por elas.

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Escolhi você…

“Então parça, se eu lhe escolhi é porque eu quero você, não por que eu precise de você”…

Eu entendo a mensagem, mas se uma mulher me dissesse isso eu virava as costas e saía caminhando. Fica claro que essa pessoa me trata como uma coisa útil, o que pode mudar a qualquer momento. Quando ela diz “eu te escolhi” deixa claro que a minha opinião ou o meu desejo não contam muito – ou nada. Eu fui o “escolhido”, e não alguém que fez – também – uma escolha.

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Um século de atraso civilizatório

Sim, sou da tese de que a homofobia é um fenômeno fortemente amplificado nos anos 70-80. Por certo que havia discriminação anterior a esta data, mas não do tipo que passou a ocorrer quando os gays resolveram assumir abertamente a sua orientação sexual. Antes disso eram eram tratados como doentes e degenerados, mas não eram uma ameaça a nossa “sexualidade normal”. Por esta razão foi possível no início dos anos 80, por exemplo, a criação aqui no sul da 1ª torcida (abertamente) gay do Brasil: A Coligay do tricolor gaúcho (formada pelo nome Coliseu, a boate que frequentavam, acrescido da palavra “gay”, que passava a assumir outro significado na cultura). Temo que, se esta torcida fosse criada hoje em qualquer clube brasileiro, ela ainda seria expulsa a pauladas do estádio.

Foi o “Stonewall Uprising” o fenômeno mais marcante da cultura gay na aurora dos anos 70. A boate Stonewall Inn, no Greenwich Village em Nova York, no dia 28 de junho de 1969 foi mais uma vez invadida pela polícia que, costumeiramente, batia e humilhava os frequentadores – em sua maioria homossexuais masculinos. Nestas “batidas policiais” os gays eram espancados, ilegalmente revistados e humilhados publicamente, demonstrando através da ação da polícia o ódio dissimulado aos gays. Os clientes eram presos temporariamente e os gerentes tinham a bebida confiscada. Entretanto, nesta madrugada de sábado, eles pela primeira vez reagiram. Fecharam a porta do estabelecimento, revidaram as agressões, bateram nos policiais com seus tamancos dourados e exigiram respeito à sua condição humana.

“Quando você viu um bicha revidar? Agora os tempos estão mudando; essa vai ser a última noite para essa porcaria acontecer”. Predominantemente, o tema era: “essa merda tem que parar!” (participante anônimo dos motins de Stonewall)

A partir de então os motins e manifestações de apoio à comunidade gay em Nova York se multiplicaram. Exigiam a liberdade de se encontrar sem serem humilhados, revistados e presos apenas por se vestirem com roupas do sexo oposto. As suas práticas e modos de vida eram toleradas apenas enquanto se escondiam no escuro da noite, em guetos, apartados da vida social e, em especial, longe das crianças. Leprosos e possuidores de uma doença contagiosa, eram dignos somente de pena. Todavia, com a emergência do “orgulho gay” e a reivindicação de cidadania por parte da comunidade, espalhou-se o vírus da insegurança, em especial entre aqueles cuja sexualidade conflituosa era motivo de tormentoso sofrimento silente. Em poucos anos esta nova consciência dos direitos gays se espalhou pelo mundo todo.

A saída do armário, entretanto, criou o contrafluxo brutal contra a manifestação pública da sexualidade, que fica evidente ainda hoje na fala dos conservadores: “Se quiser ser que seja, mas faça com discrição, não na frente de todos”. Ou seja: “não crie em mim esta angústia que me faz arder por dentro, e me consome de incertezas”. A visibilidade dos gays despertou os sentimentos recalcados em um contingente grande da população, o que, por sua vez, acabou gerando a homofobia como hoje a conhecemos.

O bolsonarismo nada mais é do que a organização desse desconforto sob uma sigla. Personagens como Bolsonaro e Damares, e sua fixação na temática sexual e na perversão, nada mais são do que a manifestação na sociedade deste sintoma social. O guru de ambos, Olavo de Carvalho era incapaz de falar três frases sem inserir descrições pormenorizadas de pênis e ânus – e o fatídico encontro entre eles. Portanto, a crítica à maior exposição das infinitas formas de manifestação sexual não se dá pelo medo da “degenerescência da sociedade” – apesar de ser este o slogan – mais do quanto essa manifestação desabrida da expressão do desejo sexual pode afetar a tão combalida sexualidade de quem dela secretamente desconfia. O que não é simbolizado retorna no real, e esse retorno do recalcado pode vir através da destruição do outro.

Freud tratou dessa questão há quase 1 século em seu texto “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, onde deixava claro que a sexualidade nos humanos não é natural e que a orientação homoafetiva é tão problemática quanto a construção heterossexual, e que ambas não são infensas aos traumatismos. Mais ainda: essa construção é um processo de ordem subjetiva, e cada um de nós é o responsável único por dar conta dessa tarefa. Poucos autores foram tão atacados na história da cultura humana por suas palavras quanto Freud ao abordar a questão da sexualidade, em especial sua visão aberta e progressista sobre o afeto homoerótico. Tão avançado era que até hoje seus conceitos geram inquietude.

O que vemos hoje através dos adeptos do bolsonarismo – uma legião guiada pelo ressentimento – tem a gravidade de retroceder 1 século no processo civilizatório. Aceitar esse “retorno” aos conceitos e visões de mundo do século XIX serve apenas para reviver e promover o horror e a mentira que milhões de pessoas eram obrigadas a suportar apenas para dar conta de uma máscara social. O mundo precisa rejeitar o que este atraso significa.

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