O futebol, além dos seus elementos estéticos e anticapitalistas (como disse Túlio Ceci Villaça), mais um fator importante, que eu poderia chamar de decisivo para que seja considerado o rei dos esportes: seu caráter democrático, que inexiste no basquete, no vôlei e até no tênis: você pode ser um gênio da bola e ter apenas 1.70m de altura, como Pelé, Maradona, Messi e Romário. Também dois pares de Havaianas já fazem um campo, ou mesmo se pode armar uma cancha em lugares improváveis, como o famoso jogo improvisado entre alemães e ingleses na trégua das batalhas da 2a Guerra Mundial. Por certo que isso seria muito pouco provável nos outros esportes, com suas redes e cestas nas alturas.
Em todos os outros esportes com bola a qualidade superior dos poucos atletas em quadra fará o resultado na maioria das vezes. As zebras são muito mais raras. Já no futebol o medíocre por vezes ganha do excelente e, exatamente por isso, faz história. O “maracanaço“, nosso mais amargo insucesso, foi a derrota para um time tecnicamente inferior, mas com uma garra e determinação invejáveis, elementos “mágicos” do futebol. Nossa derrota ofereceu ao Uruguai o mito fundador de uma escola inacreditável de craques, impossível de imaginar para um país que não é maior do que alguns poucos bairros da cidade de São Paulo.
E paro por aqui para não falar da “Batalha dos Aflitos”, o acontecimento mais épico da história do futebol. Só este esporte é capaz de tamanha magia…
Vejam bem… as mesadas do meu pai, todas juntas, dos 12 aos 20 anos, seriam capazes de comprar apenas uma passagem de avião para o nordeste, desde que eu jamais gastasse um tostão sequer em um cachorro quente, um ingresso para o cinema, uma calça Topeka, um kichute, uma camisa da Gang ou uns discos do Emerson, Lake & Palmer.
Pois eu vi agora no Facebook a história de um jovem empreendedor que durante anos guardou a mesada de seu pai, e cujas “sobras” foram suficientes pra comprar um apartamento (!!!) e depois abrir sua primeira “startup”. Quando li isso acompanhado da sua conclusão – “só não é rico quem não quer” – percebi que ele não pode estar usando o mesmo conceito de “mérito” que eu acredito ser justo.
Essas histórias de gente muito rica que tem inteligência econômica para ficar mais rico ainda servem apenas como ironia, ao estilo “ela é minha sobrinha, mas a promovi porque é muito capaz”. Ou a famosa história da Bettina da Empiricus, que depois soubemos se tratar de uma fábula inverídica sobre “começar do zero”. Ignorar o fosso existente entre as castas brasileiras, e as oportunidades completamente diversas que são oferecidas a cada uma delas, é não se dar conta da enorme iniquidade que nos caracteriza e que nos separa, neste apartheid social que nos formou.
A verdade é que existe, sim, meritocracia para os milionários e até entre os abastados da classe média. Há ricos que não se mantém assim, enquanto há outros que multiplicam sua fortuna através de trabalho e talento. Não há como negar estes fatos. Todavia, essa é uma comparação que só se torna possível entre eles, e não quando os comparamos com a imensa maioria do povo que os sustenta.
Os ricos podem fracassar em vários empreendimentos que sempre haverá de onde tirar mais; o contrário acontece com os pobres que desejam vencer. O melhor exemplo para essa realidade é George Bush Filho, que era alcoolista, usuário de drogas, mau aluno e que jamais teve um emprego até os 40 anos, quando então se tornou o novo mandatário do país mais poderoso do mundo por ser filho de um ex presidente. Por muitas vezes ele pôde errar, fazer más escolhas, desistir, errar de novo, fracassar, afundar-se no vício e ainda assim sua classe social o acolhia e lhe oferecia uma nova oportunidade.
Já o pobre, se quiser ser rico, não pode errar jamais; o cavalo passa encilhado uma única vez. Ele só tem uma bala no cartucho, e não há nova chance caso venha a falhar. Seu tiro precisa ser certeiro e único, ao contrário dos ricos burgueses que podem errar indefinidamente até acertarem – para então, quando finalmente têm sucesso, nos dizerem que chegaram lá por “méritos próprios”.
Não, definitivamente as condições iniciais são muito diversas para que o esforço do pobre e aquele que se exige dos ricos possa ser emparelhado e comparado.
Ícaro, caindo ao solo, após se aproximar deslumbrado do sol que, pelo calor, derreteu suas asas de cera.
Nas duas últimas semanas o Brasil percebeu como era a vida antes do Bolsoverso ao entrarmos de novo no universo racional. Não houve lives amadoras, motociatas, jetskyatas, discursos e perdigotos no cercadinho, mentiras à granel, insinuações de golpe e ameaças à democracia. Pela primeira vez em 4 anos se dissipou a nuvem densa de autoritarismo, de violência e golpismo do campo simbólico da nação. Passamos a respirar um ar mais limpo.
Bolsonaro perdeu 94% das citações no twitter. Para um visitante recém chegado, parece que ele nunca existiu. Ninguém mais fala seu nome, e isso foi determinado pelos próprios ex bolsonaristas, pois a ideia é desvincular a extrema direita da figura de Bolsonaro. Afinal, ele sempre foi apenas tolerado, inclusive pelos militares, que nunca confiaram na sua capacidade de liderar seus interesses. Ainda reverbera em nossa lembrança o mantra de 4 anos atrás que repetia: “Não votei no Bolsonaro; votei no Guedes” ou “Ele é idiota e talvez corrupto, mas o importante é tirar o PT“. Pois agora, sem utilidade, a própria direita joga Bolsonaro na lata do lixo; não deixaram esse gostinho para a esquerda.
Não duvido que se repita com ele o mesmo que ocorreu com Eduardo Cunha. Durante muitos anos o baixo clero comeu na palma de sua mão, e a direita o adorava. Ele controlou, com muito dinheiro sujo, os votos do congresso para impor pautas bombas e sabotar o governo Dilma. Gritavam seu nome nas ruas e o tornaram ídolo dos golpistas. Hoje ele amarga um triste ostracismo depois de ter sido até preso, mas não se furtou de concorrer mais uma vez (desta vez perdeu) e declarar um apoio entusiasmado a Bolsonaro, explicando aos jornalistas que é um ferrenho “antipetista”. Ninguém mais se importa com o outrora poderoso presidente da Câmara.
Bolsonaro talvez tenha o mesmo destino. Depois de usado pelas forças burguesas para implementar um projeto entreguista e de destruição nacional – partindo da educação e passando pelo meio ambiente, segurança e indústria nacional – ele será jogado aos leões, feito carniça. Alguns dizem que está deprimido; outros (que o consideram psicopata), acreditam que está atuando, fugindo das consequências e se escondendo. De qualquer maneira, ele sabe o destino triste que o aguarda, em especial porque agora vem a “volta do cipó de aroeira” através dos processos que chegarão na primeira instância.
Eu creio que Bolsonaro e filhos devem estar pensando que estes 4 anos foram o mais absurdo dos erros. Poderiam continuar na obscuridade, gerenciando seu Império de rachadinhas e mantendo o controle das milícias cariocas. Todavia, como Ícaro, sua arrogância e deslumbramento os fez voar perto demais do Sol, derretendo suas frágeis asas de cera. Alçaram voos para os quais não tinham competência, e agora despencam de forma espetacular. Tivessem se mantido na sua segura mediocridade, estariam ainda hoje fazendo a política rasteira, homofóbica, racista e preconceituosa que sempre os caracterizou.
Por outro lado, não tenho ilusões em relação à direita e até sobre sua franja radical: os fascistas. São muitos e são organizados. A direita em suas múltiplas vertentes alcançou a assombrosa marca de 58 milhões de votos no Brasil. É evidente que estas marcas só puderam ser alcançadas pelas manobras eleitoreiras imorais e ilegais que ocorreram à revelia da Constituição vigente, mas ainda assim é um número que impressiona. São uma força política muito coesa no Brasil de hoje, basta ver as mobilizações dos seus elementos mais delirantes. Serão uma força muito organizada e forte nos próximos anos.
Para além disso, o namoro da mídia com Lula não vai durar muito. Em breve, ao ver seus privilégios ameaçados, a burguesia mostrará os dentes e o fascismo entrará de novo no cio. Agora mesmo, quando Lula sinaliza o combate à fome e a proteção às famílias mais pobres do Brasil, o “mercado”- leia-se os patrões, os rentistas, os financistas, a Faria Lima, os bancos e o agronegócio exportador – já ensaiam críticas e ataques ao projeto de regeneração nacional de Lula, mostrando que o caminho para recuperar a nação será árduo e espinhoso. Não será nada fácil, e a luta não será bonita de ver, mas a recuperação da imagem desse país necessita passar por esse embate.
A esquerda deverá estar preparada para o que virá no futuro, mas Bolsonaro já pode ir colocando “as barbas de molho”…
Melhor falar agora para não ser chamado de oportunista no futuro. Esse protagonismo oferecido ao Alexandre de Morais, um notório antipetista, anticomunista, direitista e apadrinhado do Michel Temer custará caro no futuro. Estamos alimentando corvos, que no futuro podem vir atrás dos nossos olhos. Alexandre nunca foi um democrata; ele é cria do golpismo de Temer e da turma que derrubou Dilma. Colocá-lo em evidência, dando espaço para o ativismo judicial que ele incorpora, é um grave risco para a democracia.
Sou obrigado a concordar que muitas das queixas dos bolsonaristas fazem sentido, não porque eu concorde com suas intenções, mas é impossível que uma nação democrática e soberana coloque o controle do país nas mãos de um sujeito que jamais ganhou um voto e que só tem poder porque um golpista o colocou neste lugar. Permitir a intromissão de Alexandre em assuntos que não a defesa da constituição é inaceitável. E vamos apenas lembrar que quando deveria defendê-la – no julgamento de Lula – votou contra o seu artigo quinto, mostrando que sua ideologia é mais poderosa do que a proteção da Constituição.
Deixar que Alexandre atue fora da lei, baseando-se apenas em suas ideias e preconceitos, pode ser benéfico circunstancialmente para evitar a ação dos golpistas delirantes que pretendem dar um golpe no Brasil. Todavia, permitir que este ativismo político do STF se mantenha – inclusive pela implantação de censura – é um risco para a nossa frágil democracia.
A esquerda não pode cair nessa armadilha. Não é aceitável que criemos o nosso próprio Sérgio Moro, que agindo fora da lei, pelos seus interesses próprios e comandado por forças imperialistas, criou uma das piores crises institucionais no Brasil e manchou de forma indelével a imagem da justiça burguesa – ou talvez tenha apenas levantado o véu e desvelado suas entranhas.
Precisamos colocar um freio no Supremo Tribunal Federal, para que ele não crie asas. Foi a ação penal 470, o julgamento do Mensalão – uma farsa montada para atingir Lula – que colocou estes personagens em relevância. É hora de devolvê-los ao lugar a eles reservado.
Vamos deixar uma coisa bem clara: Janja incomoda porque é a mulher do Lula, e não porque é uma “mulher livre”. Janja não será objeto de ódio porque “namora”, porque “transa”, ou porque está feliz e bem casada. Isso, inclusive, é tão sexista quanto falar das mulheres “mal amadas”, ou daquela que “está feliz porque transou”. Mulheres merecem ser tratadas com mais respeito: a vida delas não circula somente em torno da sua vida sexual. Minha mulher é livre, mas ninguém a ataca, e a razão disso é porque o marido dela é um pé rapado. As mulheres dos poderosos sofrem, e isso ocorre em qualquer lugar.
A mulher do Temer, “recatada e do lar”, foi muito atacada. Foi tratada como a “vitrine do atraso” das conquistas feministas. Foi chamada – sem dó – de interesseira por ter se casado com um idoso. A mulher do Bolsonaro foi bombardeada sem nenhuma pena, tratada por todos como a “Micheque“. Não havia uma semana sem um bombardeio, envolvendo sua religião, seu fanatismo, seu oportunismo evangélico, a respeito de Queiroz (e o tal cheque que lhe deu o apelido) e sua família com ficha corrida. Agora surgiu a suspeita, sem provas, de que ela apanha do marido, que ainda vai dar muito o que falar.
Dizer que Janja é atacada porque é “livre” não explica nada, apenas reforça o mito de que os homens “morrem de medo” das mulheres livres. Homens tem tanto medo de mulheres livres quanto as mulheres tem rejeição aos homens sensíveis e delicados. Estas figuras fogem dos modelos arcaicos da organização patriarcal, mas não estamos mais na idade média. O mundo mudou, e apenas uma minoria hoje em dia aceita se submeter a estes medos e estas rejeições.
Uma prova inquestionável é o que aconteceu com Dilma. Poucos mandatários foram tão atacados quanto ela, mas ela não tinha parceiro(a). Era solteira e não namorava – ao menos de forma explícita e pública. E também não acredito que Dilma ou Janja foram atacadas por serem mulheres. Elas foram e serão agredidas incansavelmente por se contraporem aos interesses da burguesia e do imperialismo e por estarem ligadas ao PT. Serem mulheres apenas acrescenta, mas por certo que não é o fator preponderante dos ataques. Existe muito mais no embate político do que esse machismo tacanho que algumas jornalistas tentam impor como narrativa preponderante. Sem dúvida ele existe, mas não com a importância que tentam apresentar.
Janja será inevitavelmente atacada por ser a mulher do presidente da República. Pior ainda, por ser um presidente de esquerda, assim como Dona Marisa o foi anteriormente, com todas as mentiras, falsidades, dinheiro da Avon, conta milionária e os múltiplos ataques que recebeu – que, ao meu ver, a levaram à morte prematura. Será alvo dos insatisfeitos e dos perversos como todas foram, e isso não acontece apenas aqui…. vide Trump e sua mulher Melania. Este é o preço da notoriedade.
A tese mais antiga que me acostumei a escutar no debate político é a tradicional “antipolítica”, típico discurso da direita travestido de niilismo. Nesta tese, todos os políticos são iguais. Se um dia foram pessoas normais a política destruiu seus princípios e sua honestidade, tornando-os ruins e corruptos. “O Poder corrompe”, diriam eles como inaudita novidade. Aliás, esse é o discurso bolsonarista clássico, que deseja tratar todos como se fossem iguais, mas não apenas isso: a política é uma só, esquerda e direita são ilusões, e só o que vale são os desejos mais egoísticos de quem assume o poder. Toda a classe política não passa de “peças no grande jogo de xadrez”, controlado alhures, por forças invisíveis (o comunismo internacional? George Soros?) o que torna o ato de votar em uma ação inútil e ridícula. “O jogo já está jogado”, dizem.
São os mesmos que, sendo incapazes de mostrar os crimes de Lula, apontam para o inquérito conduzido pelo juiz corrupto Moro, uma peça fraudulenta que o acusou de….. nada. Nem objeto do roubo está descrito (o famoso “objeto indeterminado”), já que o Triplex não poderia ser dado a ele porque sequer pertencia à OAS. São os mesmos que apostam nas fake news de “roubos do BNDEs”, mesmo quando o próprio Bolsonaro desistiu dessa fantasia. São eles que chamam Lula de ladrão sem JAMAIS mostrar um delito seguido de uma prova. Estes indivíduos (note que não estou fazendo julgamentos morais) acreditam que o Brasil deveria ser controlado por “técnicos”, sujeitos “neutros”, longe de “ideologias”, trabalhando pelo bem comum tendo a luz do “positivismo” como norte. Ou seja…. gente de direita, e até fascistas, como se pôde observar no governo de Bolsonaro.
Não há como continuar aceitando este tipo de discurso. Durante as eleições eles se uniram à turma do “nem-nem“, como que a chamar a todos nós de “massa manipulável”, já que nada poderia ser feito diante da desonestidade essencial e inexorável que existe na política e nos partidos. Arautos do apocalipse, sinalizam com a igualdade entre Bolsonaro e Lula, mas pretendem ser infensos às disputas, posto que se consideram “neutros e realistas”.
Não são; em verdade são agentes – mesmo sem o saber ou desejar – do conservadorismo mais reacionário e mais tacanho. Apostam no imobilismo e na inação como resposta…. mas acabam votando nos candidatos da direita mais abjeta por “praticidade”, ou porque acreditam serem os “menos piores”.
Essa não…. esse discurso está caindo de velho e não cabe mais nas sociedades que pretendem emergir do subdesenvolvimento no século XXI.
Muito ainda vai se falar sobre a derrota do trumpismo nas eleições de “mid terms” e, por consequência, da extrema direita de inspiração fascista na América. As derrotas de Bolsonaro e de Trump podem estar anunciando a decadência inequívoca do modelo extremista de direita no mundo, e tal ocorreu pela falência deste paradigma em oferecer o progresso, a justiça social e o desenvolvimento que prometiam. O mundo volta-se lentamente à esquerda – apesar da força das direitas no mundo todo – e se afasta do fundamentalismo religioso que caracterizou os governos de Trump e seu fac-símile tupiniquim. Oxalá não seja apenas o balançar do pêndulo político, mas uma real tendência de maior consciência de classe a inspirar as pessoas no mundo inteiro, cada vez mais alertas para a decadência inexorável do capitalismo.
Na adolescência eu sempre perguntava aos meus amigos gays como eles sabiam que outro sujeito era gay. Eles caiam na gargalhada com a minha pergunta ingênua e tola, e a resposta que me davam era… “pelo olhar“, o que hoje se chama “gaydar“.
O que eles tentavam me dizer é que o desejo do sujeito transparecia nas fissuras do discurso, nos detalhes, nos mínimos gestos, nas sugestões, nos sorrisos, na escolha das palavras e nos silêncios. Tudo o que levamos para fora de nós mesmos é mensagem, inclusive a roupa – ou mesmo a falta estratégica de tecido a desvelar os corpos.
Mas se os amores se encontram pelos sinais não-verbais, também as patologias fazem match…
Não haveria como ser diferente. Da mesma forma, os psicopatas se comunicam por estes detalhes minúsculos e imperceptíveis aos olhos desarmados. Na juventude eu me impressionava com as histórias de Bonnie & Clyde, e tantos outros casais unidos pelo crime. Algumas duplas eram capazes de perversidades impensáveis, que conjugavam tortura, morte e obsessões sexuais. Na época eu pensava: como estes perversos conseguiram se encontrar? Como acharam suas almas gêmeas sem expor publicamente suas paixões criminosas?
Se os amantes conseguem se encontrar pelo desejo, buscando sinalizadores nas filigranas do comportamento, também as mais bizarras perversões saem à tona por estes meios. O desejo não se contém nos limites do corpo e poreja através de cada detalhe, cada frase, cada pausa no discurso. Se o humano precisasse da linguagem articulada para se expressar ainda estaríamos na floresta, morando nas árvores. Somente há poucos milênios usamos as palavras para enviar mensagens, mas nossa história com as formas mais sutis de comunicação já tem alguns milhões de anos.
Por isso é que nós humanos – em especial as mulheres, mas essa é outra questão – desenvolvemos as habilidades de ler o outro através dos sinais enviados de forma velada e codificada. Estas são, por certo, as mais importantes ferramentas do nosso lento processo evolutivo.
Escutei apenas alguns flashes da entrevista do Roberto Justus para o programa “Flow” e me surpreendi (não deveria) com a quantidade de tolices que ele disse. Sobre Lula, sobre Bolsonaro, sobre o mito dos “ministros técnicos”, sobre a “culpa” de Lula, sobre o governo e sobre o país. O fato de ser milionário e bem relacionado não garante a ninguém a capacidade de enxergar o país acima das perspectivas de seu grupo. Ele é um representante legítimo do que existe de mais atrasado, mesquinho e medíocre nas classes abastadas do Brasil
Entretanto, é forçoso reconhecer que ele, ao contrário de uma parte majoritária da população brasileira, sabe a classe à qual pertence. Ele percebe com precisão que as falas do Lula em direção ao povo mais pobre e no combate à fome, atingem sua classe, o poder e a hegemonia tão arduamente conquistadas pela burguesia. Ele entende que se Lula fizer uma guinada à esquerda – como muitos de nós desejamos – os financistas, os rentistas e a burguesia calhorda desse país serão afetados. Roberto Justus – um troglodita com ternos caros e botox – tem a consciência de classe que eu exijo do proletariado e das classes trabalhadoras.
Gal Costa era casada com Wilma, e com ela tinha um filho. Entretanto, negava-se a falar publicamente sobre o assunto. Apesar de ser algo de conhecimento popular, ela nunca “saiu do armário” publicamente, declarando-se abertamente homossexual. Algumas pessoas chamaram sua atitude de “auto preconceito”, típica de alguém que não se aceitava. Outros elogiaram o sigilo, exaltando a importância da inviolabilidade da vida privada.
Esse diagnóstico é arriscado. Não há como saber o que exatamente a fez manter privada sua orientação. Pode ter sido por vergonha, assim como pode ter sido motivada por pudor. Ahhh, o pudor, o mais belo (e raro) dos atributos em uma sociedade saturada de hiper exposição.
Talvez a escolha por manter fechado esse aspecto de sua vida seja a simples postura de valorizar sua arte e não permitir que sua sexualidade ocupasse mais as manchetes do que o seu cantar. Muitas mulheres voluptuosamente bonitas se sentem constrangidas ao notar que sua beleza ofusca seus outros talentos, escondidos atrás de uma formosura estonteante. Alguns atores e atrizes ficam até feios de propósito com o objetivo de demonstrar virtudes para além da beleza, como o fizeram magistralmente Tom Cruise em “Trovão Tropical”, Charlize Theron em “Monsters”, Jared Leto em “Capítulo 27” e Christian Bale em “O Maquinista”. Talvez Gal desejasse que sua música fosse a razão única para ser admirada.
A tese que mais me seduz é de que ela pode ter tentado tão somente proteger seu amor, que seria um alvo fácil da imprensa de escândalos. Manter incógnito seu afeto pode ter o objetivo singelo de garantir que sua parceira não seria perseguida, constrangida e invadida pelas hordas de gente interessada em puro voyeurismo de celebridades.
Não há como saber o que realmente leva as pessoas a esconder uma parte tão significativa de suas vidas. Além disso, não há como agradar um público sedento por identificações. O julgamento destas atitudes vai depender sempre de elementos afetivos. Se você não gosta da pessoa vai dizer que ela foi covarde e que a exposição de sua vida amorosa ajudaria outras pessoas a não sentirem vergonha de amarem igualmente desta forma “especial”. Já se você a admira, vai preferir acreditar que todos temos o direito sagrado à privacidade, e que o exercício deste direito por parte dela demonstra o valor que dá à sua arte, impedindo que seja eclipsada pela imprensa que sobrevive de fofocas.
Como sou um sujeito reservado, entendo perfeitamente o silêncio de Gal Costa. Responderia da mesma forma a qualquer intromissão que julgasse indevida. “Não estou vendendo exposições da minha privacidade. Ofereço minha arte e minha emoção. Caso não a queiram, não me peçam um escândalo em troca”, seriam minhas palavras. E acho que foi exatamente o que Gal tentou dizer….