Arquivo do mês: agosto 2020

Parto da Vaca

Queria tecer alguns comentários sobre este atendimento…

Elas poderiam ter enrolado o bezerro num tecido, talvez a própria camiseta, o que seria mais simples e fácil para os homens – por razões culturais. Por isso demorou para sair; o corpo do bezerro escorrega muito; é um sabão, mas é exatamente assim para facilitar o parto.

Mas, não se trata de tecer críticas aos partos veterinários, mas entender como essa atenção se encaixa no tema da “humanização do nascimento”. Primeiramente, vamos deixar claro que nada disso é realmente necessário. A própria vaca Julieta reclamou da V.O., pois ela bem sabia que tinha plenas condições de parir dentro do seu tempo e através de suas próprias forças e capacidades. O que a gente está vendo na filmagem é um parto instrumental, invasivo e sem justificativa aparente. Só faltou, por sorte, episiotomia….

Entretanto, é a própria sensação de vitória e sucesso que nos impregna depois de atender um parto o que produz essa euforia explícita nos cuidadores. É a “couvade”, fenômeno que se observa em comunidades originárias, a qual produz a expropriação do evento mágico do nascimento. Assim, o parto é retirado da “vaca” e colocado nas mãos das atendentes, e não há nada mais sedutor que isso.

Nas equipes que atendem partos humanos a sensação épica de um nascimento pode contaminar e comprometer nossa percepção da verdadeira função dos atendentes. O entusiasmo desmedido que toma conta de quem participa ativamente de um parto é o maior inimigo da boa atenção. Essa euforia precisa ser, primeiramente reconhecida, e depois controlada para que não se transforme em atuação invasiva. Acreditar que somos sempre imprescindíveis é o mais fácil e o primeiro de todos os erros.

Mãos cheias de dedos são o maior risco para o parto humanizado. Entretanto, não se trata apenas da criação de “protocolos respeitosos” mas, antes disso, a compreensão profunda dos tempos e da “fisiologia alargada” do parto. E, mais ainda, o respeito pelas capacidades inatas da mãe.

E, por favor, não estou criticando as moças, apenas aproveitando a deixa para analisar a psicosfera do nascimento. Veja o vídeo aqui.

Deixe um comentário

Arquivado em Parto

Fracassos

Há fracassos que são oportunidades maravilhosas de crescimento. Em verdade, é a partir da enorme derrota narcísica do Édipo que é possível ascender à sexualidade madura. Fracassos são, portanto, constitutivos do sujeito. Não há grandes vitórias na vida que não sejam precedidas de rotundas perdas. Olhar para elas de forma negativa é não entender a pedagogia das falhas.

Judith O’Neal, “Time to Measure”, Ed. Parcoulis, pag 135

Judith O´Neal é uma escritora Irlandesa transexual, nascida na pequena cidade de Carrag Na Greine próxima de Galway com o nome de Martin O´Neal. Estudou literatura na Universidade de Galway e desde muito cedo se dedicou à ficção, mas foi na idade adulta que se interessou pelos temas do feminismo, ao mesmo tempo em que tomava a decisão de trocar sua identidade social para Judith (uma homenagem à sua falecida avó Judith, que sempre a apoiou em sua transição). Seus livros falam de dramas cosmopolitas, mulheres solitárias e sofridas, tragédias familiares, capitalismo e desterro. É casada com a artista plástica Sophia Marchette e ambas tem um filho chamado Leonard.

Deixe um comentário

Arquivado em Citações

Visita Íntima

Acho curiosas as justificativas de quem defende tratamento violento, agressões, privações, mortes e tortura para internos do sistema prisional. A lógica é sempre a mesma:

“Alguma coisa fizeram”,
“Se tivesse ido a igreja ao invés de assaltar…”,
“Não quer dormir na masmorra, comporte-se”,
“Tratamento humano? E a vítima teve?”,
“Direitos humanos para humanos direitos”,
“Bandido bom é bandido morto”,
“Leva pra casa”, etc…

Também é engraçado ver os defensores dos direitos humanos sendo acusados de “comunistas” e “defensores de bandidos”, quando na realidade estes avanços civilizatórios são conquistas liberais, na justa iniciativa de proteger o cidadão comum do poder imenso do Estado. Sem estas medidas, os Estados teriam poder ilimitado de destruir aqueles que se opõem aos seus interesses.

Os direitos humanos são assim chamados porque se referem à dignidade humana. Isto é: inobstante o delito que tenha sido realizado o Estado não pode agir abaixo da linha da dignidade inata que qualquer cidadão tem por pertencer a está espécie.

“Ahhh, mas o sujeito cometeu um crime bárbaro (estuprou, matou, cometeu genocídio) por quê deveria ser tratado com candura?”

Por uma razão simples: a ação do Estado precisa ser pedagógica. Da mesma forma, uma criança que chuta um adulto não pode receber outro chute como punição. E não é porque a criança é inimputável, mas por ser indigno do ser humano cometer coletivamente um erro que um sujeito solitariamente cometeu. Além disso, não se trata de absolver e sequer perdoar, nem mesmo tratar com carinho e doçura (o que seria bom e produziria benefícios para todos) mas garantir a mínima dignidade que qualquer ser humano merece.

Mais do que isso, e acima de tudo, as medidas violentas contra apenados do sistema fechado são inúteis, ineficazes, indignas e contraproducentes, além de servirem apenas como vingança cruel e estimular sentimentos baixos no povaréu, o mesmo grupo de linchadores que assistia bruxas e punguistas queimando nas fogueiras na idade média.

Penas de morte, prisões perpétuas, tortura, condições sub-humanas de presídios e privação da sexualidade tem o efeito OPOSTO ao que se espera. Ninguém deixa de cometer uma barbárie com medo da pena de morte. Se isso fosse verdade, a pena de morte que existe entre facções do crime organizado faria as chacinas desaparecerem, e o que vemos é o oposto, um ciclo infindável de mortes e vinganças.

É cientificamente comprovado que o distensionamento da sexualidade nos presídios diminui a violência interna e os estupros. Portanto, pedir a extinção desse DIREITO só pode partir de quem se compraz com motins, carnificina, assassinatos, estupros e violência disseminada.

Isto é…. cidadãos de bem.

1 comentário

Arquivado em Pensamentos, Violência

Livre pensador

Não vou me cansar de falar como é importante cultivar a independência pensamento, e o distanciamento de grupos, facções e fã-clubes. Você pode ser admirado, adorado, reverenciado e jogado às alturas, ser visto como uma figura que representa todos os anseios profundos de uma comunidade, mas basta uma falha, uma postura crítica à militância e mesmo uma postura mais moderada para ser execrado e – modernamente – cancelado.

Por isso o valor da independência. Meu pai gostava de se descrever como “livre pensador”, o que de uma certa forma se opõe ao “ativista”, já que este último está compromissado com uma ideia, uma luta, e também com aqueles que são seus companheiros na arena das ideias.

Meu conselho é – e sempre será – “desinstituir-se“, abandonar o lugar sedutor de guru, abdicar da posição de condutor do fervor dos outros, pois o que parece ser à vista desarmada uma posição de destaque nada mais é do que uma masmorra controlada pelo desejo alheio.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Pensamentos

Flerte

Conheço mulheres simpáticas e extrovertidas que se deram muito mal nessas situações por causa de uma cultura patriarcal – mas também pela ignorância de alguns em reconhecer sinais.

Uma mulher que ri das suas piadas não está “dando mole”; ela apenas tem bom humor e está alegre. Não tome essas atitudes como “abertura”. Aprenda a ler sinais corporais e de linguagem antes de se arriscar.

Esse tópico é maravilhoso. Muitas vezes eu me coloquei nessa situação de pensar como uma mulher pode se postar diante destas situações. É realmente muito difícil diante dos códigos sociais que existem dentro do patriarcado, o modelo ainda vigente.

Pois vejam; dos homens se cobra iniciativa. Cabe a eles dizerem que desejam sair com a moça, namorar com ela, transar com ela. Claro, isso está mudando, mas muito lentamente e de forma insidiosa. O padrão ainda é esperar dos homens tais proposições.

Acontece que a iniciativa masculina é ilusória. Mesmo entre as fêmeas de antropoides existe a regra de “permitir” a iniciativa. É aqui que cabe o termo “deu mole”. “A mina deu mole e aí eu cheguei“. Portanto a iniciativa parte delas, mas a primeira palavra é deles.

Mas o que significa isso? Para muitos homens é atenção na sua fala, um sorriso, as risadas depois de uma piada, o olhar fixo, etc. Muitos homens interpretam isso como interesse e como uma abertura para proximidade, e muitas vezes é isso mesmo. O problema é que estas atitudes podem simplesmente resultar de genuína alegria, gentileza, simpatia e respeito à fala do interlocutor. Não abertura, apenas atenção.

Como diferenciar? Bem, não tenho nem experiência com isso, mas posso dizer que é saudável desconfiar. “Nahh, ela está só achando engraçado. Nada a ver. Ela é muita areia pra essa caminhonete velha“. É essencial ter calma, espera e cuidado. Observe outros sinais e não confie em apenas um único sinalizador.

Verdade, mas também é verdadeiro que não existe encontro amoroso sem risco. Desde que não haja grosseria ou violência, eu acho que arriscar é sempre válido.

Isso me faz lembrar do meu colega Rufus* (nome fictício) que apaixonou-se perdidamente por uma residente, sendo ele um mero doutorando. Escutou, sem querer, quando ela disse a uma colega que gostava de uma determinada cantora, durante uma conversa na cafeteria. Ao saber disso, ele saiu correndo do hospital, comprou o CD e lhe deu de presente. Ato contínuo, declarou-se. Recebeu imediatamente uma resposta rude e dura. Foi “colocado no seu lugar”, sem dó ou piedade.

Rufus me encontrou no almoço com o CD nas mãos (a cantora era Simone) e disse uma frase muito interessante:

– Acabou, Ric. Acabou tudo.

O curioso é que nada acaba sem ter começado. Nunca houve uma real relação, mas tão somente uma fantasia. O que havia terminado não era o romance, mas o sonho. Ou, no caso dele, o delírio.

Todavia, apesar da diferença entre os dois ser gigantesca (imagina algo como eu e a Carol Proner) ele teve a coragem que eu considero indispensável para qualquer relacionamento. Não há como abrir mão dessa iniciativa. Passei a admirar muito o Rufus após esse aparente fracasso.

O grande dilema se esconde nos limites tênues dessa postura. Simplesmente criminalizar a iniciativa masculina não faz sentido, mas talvez seja importante educar as pessoas para que possam ler adequadamente as sinalizações que as mulheres mandam – ou a ausência delas.

Mas não se iludam: declarar seus sentimentos é sempre um grande risco, o que torna a paixão algo tão desafiador.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Pensamentos

Momento único

Jassie manteve o olhar fixo no juiz. Seu olhos sequer piscaram. Manteve a cabeça ereta e as mãos espalmadas, uma sobre a outra, na pedra escura da mesa gelada. Ao seu lado Conrad juntava os papéis com sofreguidão. Ajustados os detalhes do divórcio e não haveria mais nada para um advogado fazer. Ou dizer.

– Sim, esse é o meu desejo.

O juiz voltou seu rosto para o lado oposto da mesa de mogno, a qual estava impregnada com décadas de lágrimas e palmas suadas na antiga sala da vara de família e sucessões. Encontrou os olhos de Rick, que ainda fitavam o cabelo dourado de Jassie. O velho Juiz Desmond repetiu a pergunta e recebeu apenas um “sim“, seco e breve. Ato contínuo, entregou os papéis para ambos assinarem e deu por encerrada a sessão. Rick e Jassie saíram da sala ladeado pelos seus advogados, quase juntos. Com passos apressados se aproximaram do elevador, que fica ao lado da velha cafeteria. Os quatros ficaram parados e mudos, olhando para os velhos ladrilhos do piso, até que Rick quebrou o silêncio e voltou-se para Jassie.

– Você poderia tomar um café comigo? Prometo ser breve.

Jassie, surpresa, olhou reflexamente para Conrad, mas antes que ele dissesse qualquer coisa, respondeu:

– Por certo, Richard.

Rick despediu-se dos advogados e entrou na cafeteria com Jassie. Puxou a cadeira para ela, como sempre fazia, e pediu o cappuccino que tantos anos de convivência haviam lhe ensinado a solicitar. Começou a falar de alguns detalhes da guarda de Peter, a bicicleta, a nova escola, o chalé na montanha, a pensão, o carro, detalhes que já haviam sido tratados pelo advogados. Jassie apenas escutava, sem tirar os olhos do, agora, ex marido.

– Eu acho que também lhe devo desculpas. As coisas meio que fugiram do controle nos últimos tempos. Saiba que eu não…

Jassie interrompeu abruptamente suas palavras, com a mão espalmada a frente.

– Por favor, Rick, hoje não. Já discutimos isso por anos, que foram muito duros para mim. Já entrei e saí dessa casa de tristezas, de rancores e de mágoas. Hoje estou livre. Quero começar uma nova vida, e não vou aceitar que meu ressentimento seja uma prisão da qual não consiga escapar. Hoje não é dia de brigar, mas de agradecer, e só por isso aceitei seu convite para este café. Estou aqui, em verdade, para fechar este ciclo e para lhe dizer da minha gratidão.

Rick escutou um pouco assustado. Não havia sido uma separação fácil. Cada fotografia, cada parede pintada na casa, cada gaveta de tralhas mostrava um fragmento de vidas que cursaram juntas. Também ele juntava os cacos de um projeto que se espatifou, por isso as palavras de Jassie soaram tão estranhas e inesperadas.

– Acho que você não entende, disse ele. Eu apenas queria que…

– Quem não entendeu foi você, interrompeu Jassie. Não preciso mais de suas desculpas. Estas feridas estão se curando. Mas queria agradecer de verdade para você.

– O que está pensando?

– Nada de grandioso, sequer espetacular. Apenas algo que lembrei ontem, quando juntava os papéis do divórcio. São memórias de quando Peter nasceu. Eu lembro da dor, do cansaço, do dia quente de agosto, da banheira que você montou em nossa sala, das cortinas que a tia Betsy nos deu de casamento. Essas imagens são presentes até hoje em minhas lembranças, e gostaria que o aroma do alecrim que circulava por aquela sala ficasse impregnado em minhas narinas até o final dos meus dias.

Jassie respirou fundo, sorriu timidamente e permitiu que uma pequena gota de orvalho viesse a adornar os seus olhos azulados.

– Entretanto, Rick querido, nada foi mais importante e mais impactante em minha vida do quer ver você levantar meu filho – nosso filho – daquela água tinta de sangue e levá-lo aos seus braços, e depois quando disse…

– Seja bem vindo, você é meu filho, completou Rick, enquanto a emoção daquele momento voltou a moldar os contornos de sua face.

– Sim, Rick, naquele momento, naquele fragmento minúsculo de tempo eu fui a mulher mais feliz do mundo, possuída por uma alegria infinita, com a esperança renovada na vida. Olhar meus dois amores lado a lado foi o momento mais pleno de luz de toda a minha existência. Nada superou aquele instante e eu não vou permitir que nossos caminhos divergentes apaguem a lembrança mais bela e cálida que eu guardo de todos estes anos.

Rick se manteve em silêncio enquanto as lágrimas corriam. Jassie tomou seu cappuccino, agradeceu o convite e se levantou. Com passos firmes e a cabeça erguida saiu da cafeteria para trilhar o resto de sua vida.

Jennifer Martin-Ottis, “A dip into nothing” (Um Mergulho no Nada), Ed. Pégasus, pág 135

Jennifer estudou na Pennsylvania University e fez seu debut na literatura com o livro de ensaios e crônicas “Close to the Edge” de 1973, uma referência explícita a um disco do Yes de rock progressivo lançado no ano anterior. Trabalhou durante vários anos como jornalista e crítica literária no Nebraska Herald, até lançar seu primeiro romance em 1980, que se chamou “A Common Day in the Prairie” (Um dia Comum no Campo). “A dip into nothing” foi seu quinto e derradeiro livro, uma coletânea de ensaios, lançado em 1998, um ano antes da sua morte. Ela foi casada por mais de 40 anos com o famoso publicitário Ferris Ottis, e deixou dois filhos, Bartholomeu e Marylin.

Deixe um comentário

Arquivado em Citações

Dia dos Pais

Desde muito cedo, a criança é um depósito de desejos parentais. Em verdade, bastam poucos segundos para que a alma da criança, tal qual uma massinha colorida de modelar, seja manipulada, manuseada e constituída pela voz e o olhar de sua mãe. Desses sussurros, palavras e frases cortadas, a criança é jogada dentro da linguagem e ali ficará enclausurada, condenada a um mundo de símbolos e significados. Também esse encontro a tornará prisioneira de um amor que, tanto é essencial para a vida quanto é sufocante e limitante.

Para estas, que sobreviveram pela dádiva do amor a elas dispensado por este ser mitológico que é a mãe, a melhor forma de sobreviver à primeira infância é ter em seu caminho uma pedra. Uma gigantesca rocha a obstaculizar seu caminho. Pétrea, dura, forte e ígnea, capaz de interromper esse amor, impedindo a continuidade de uma relação perfeita, para que essa criança possa encontrar – por si mesma – o caminho do amor maduro. O nome dessa pedra é pai. “Pai, tu és pedra, tu és rocha, e sobre teus ombros construirei minha vida. Tu serás o grande exemplo para nortear meu caminho. O maior aprendizado que levarei de ti é que a paternidade será uma construção eterna, uma tarefa infinda, um trabalho imperfeito e sem fim.”

Grato por existir.

(Na foto, meu pai Maurice, meu avô Samuel, meu filho Lucas, e eu. Todos pais, cheios de erros e imperfeições, repletos de equívocos e falhas, mas que ainda assim merecem que seu trabalho na seara da paternidade seja – por um dia apenas – reconhecido.)

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Pensamentos

Matheus do IFood

Tadinho do menino do IFood que recebeu agressão e injúria daquele garotão que come cheetos sentado no sofá assistindo novela.

Para minha tristeza o menino acabou caindo na armadilha ao aceitar a conversa do cara sobre “quanto ele ganha“. Não se trata de punir a vítima das injúrias, mas lamentar que a sua resposta revela bastante do inconsciente coletivo dessa nação.

Para mim, ele deveria ter rechaçado de imediato qualquer conexão entre seu valor como pessoa, como cidadão, e o quanto ele ganha. Deveria ter dito desde o início que esse valor monetário em nada influencia o caráter de alguém. Ética e moral não aparecem em contracheque.

Mas…. ao que parece o modelo capitalista faz até o motoboy achar que o seu salário é a medida da sua qualidade moral e humana. Diante de tamanha estupidez que ele mandasse à merda de cara, e dissesse para enfiar seu dinheiro no r*bo. Mas…. jamais abrir a carteira para mostrar o quanto ganha, como se isso pudesse abrir as portas à um bom tratamento.

Pior ainda é ver que no Brasil até um sujeito de classe média que ganha 3 mil por mês se acha rico a ponto de humilhar quem trabalha por menos.

Ahhh, outra coisa. O agressor (o de camisa azul) é doente mesmo. Racista e ignorante, mas a sua mãe tem razão: ele é um sujeito psicologicamente perturbado. Isso não o absolve de nada, mas nos faz entender seu comportamento dentro do contexto da psicopatologia.

Que pague pelos seus erros.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Dia dos Pais

Sim, acho muito errado usar esse dia para esses ataques aos homens e aos pais, mas parece que as mídias sociais ficam recheadas de mensagens negativas sobre eles. Apenas peço que usem os outros dias para isso. Nunca vi alguém publicar algo destrutivo, ressentido e agressivo contra mães e mulheres no dia das mães. “Ah, mas não existe mãe ruim”.

Existe sim. Muitas. Milhares, milhões. Mães que abandonam, que maltratam e que espancam. Mães que até matam. Mas elas são a ÍNFIMA MINORIA das mães. A IMENSA MAIORIA das mães é feita de mulheres devotadas e amorosas com seus filhos e sua família, e no dia dedicado a elas não seria justo tratar o todo por uma parte tão insignificante.

Pois a maioria dos pais ao meu redor se preocupa com seus filhos, com as suas crianças e se dedica a elas. A maioria diria com toda a força dos pulmões “mulheres e crianças primeiro!!” diante de uma tragédia. Não pensaria meio segundo em arriscar a vida em nome dos filhos.

Entretanto, muitas mulheres aproveitam esse dia para atacar o masculino e a paternidade e o usam para despejar seu ressentimento contra todos os pais. Não poderei jamais ver isso com bons olhos. Façam isso nos outros dias. Aproveitem o dia dos pais para elogiar os bons pais que existem. Aproveitem para reconhecer NESSE ÚNICO DIA, as qualidades da paternidade. Quem não tem bons exemplos no seu pai ou seu marido fale genericamente, dos outros pais, do genro, do sogro, de quem quiser. Respeitem um dia entre 365 de um ano.

Esperem SÓ ATÉ AMANHÃ para odiar de novo com todas as forças esses “miseráveis” que andam por aí, “inúteis depósitos de testosterona”.

Só hoje, por favor….

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

A Fissura Bizarra

É bem sabido que um bebê de 9 meses de idade (atingindo o estádio do espelho) tem habilidades de um chimpanzé recém nascido. Ao nascer somos incompetentes ao extremo. Nascemos todos despreparados para a vida extra uterina e por meses ainda nos comportamos como fetos fora do útero. Por isso foi necessário estabelecermos um cuidado muito intenso por parte da mãe como estratégia de sobrevivência. A altricialidade (dependência do cuidado alheio), decorrente dessa fragilidade, acabou gerando esta “fissura bizarra na ordem cósmica”, chamada “amor”.

Somos, portanto, produtos de uma conjunção de fatores adaptativos surgidos há 5 milhões de anos com a bipedalidade e posteriormente pela encefalização – que se acelerou com o surgimento de nosso gênero há 2 milhões de anos. Como os cangurus temos dois partos: um ao sair do útero e subirmos para o “marsúpio do colo materno”, onde encontramos leite, calor, afeto, a voz e o olhar da mãe; já o outro parto vai ocorrer lentamente na primeira infância, ao nos afastamos paulatinamente da dependência extremada desse cuidado.

A marca da altricialidade determinou o gozo e a tragédia dessa espécie. Sem ela não haveria o sentimento dela derivado: o amor profundo de um bebê por sua mãe. Em decorrência desse amor desmedido, também nas mães brota um sentimento inusitado e estranho. “Se existe amor, ele é o amor de uma mãe por seu filho, e todos os outros amores são dele derivados”, já diria Freud. Assim, a base edipiana de nossa estrutura psíquica surge pelo fenômeno adaptativo de grandes cérebros conjugados com pélvis estreitas levando ao parto de um bebê totalmente dependente, onde a semente do amor será acolhida em campo fértil. “Somos o que somos porque nascemos de uma forma bizarra, e esse nascimento produz a inevitável dor de ser o que se é”.

Por outro lado, na história da humanidade a maternidade sempre foi exercida de forma cooperativa, grupal e distribuída por várias figuras femininas, uma imagem completamente diferente do que observamos no cotidiano de tantas mães modernas. A tônica de hoje é o cansaço, a dúvida, a depressão e a insegurança, elementos psíquicos relacionados com o isolamento das mães contemporâneas.

Mães solitárias e muito sobrecarregadas na maternagem são uma coisa nova na história da humanidade. Não é de se espantar que o resultado seja a tragédia do desmame precoce em sociedades que negligenciam o contato íntimo entre mães e bebês nos primeiros meses de vida. É tempo, portanto, de revisitar a história humana e reverter nossa vivência para esse período anterior, onde, além do cuidado compartilhado, havia um profundo aprendizado das recém mães com a experiência de outras mulheres ao seu redor.

Só assim poderemos resgatar a amamentação como evento natural e fisiológico. Sem acolher estas mães, nenhum bebê será bem cuidado.

“É preciso uma aldeia inteira para criar uma criança“, parafraseando um famoso provérbio africano.

Deixe um comentário

Arquivado em Parto