Escutei apenas alguns flashes da entrevista do Roberto Justus para o programa “Flow” e me surpreendi (não deveria) com a quantidade de tolices que ele disse. Sobre Lula, sobre Bolsonaro, sobre o mito dos “ministros técnicos”, sobre a “culpa” de Lula, sobre o governo e sobre o país. O fato de ser milionário e bem relacionado não garante a ninguém a capacidade de enxergar o país acima das perspectivas de seu grupo. Ele é um representante legítimo do que existe de mais atrasado, mesquinho e medíocre nas classes abastadas do Brasil
Entretanto, é forçoso reconhecer que ele, ao contrário de uma parte majoritária da população brasileira, sabe a classe à qual pertence. Ele percebe com precisão que as falas do Lula em direção ao povo mais pobre e no combate à fome, atingem sua classe, o poder e a hegemonia tão arduamente conquistadas pela burguesia. Ele entende que se Lula fizer uma guinada à esquerda – como muitos de nós desejamos – os financistas, os rentistas e a burguesia calhorda desse país serão afetados. Roberto Justus – um troglodita com ternos caros e botox – tem a consciência de classe que eu exijo do proletariado e das classes trabalhadoras.
Arquivo do mês: novembro 2022
Bob Justus
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Privacidade

Gal Costa era casada com Wilma, e com ela tinha um filho. Entretanto, negava-se a falar publicamente sobre o assunto. Apesar de ser algo de conhecimento popular, ela nunca “saiu do armário” publicamente, declarando-se abertamente homossexual. Algumas pessoas chamaram sua atitude de “auto preconceito”, típica de alguém que não se aceitava. Outros elogiaram o sigilo, exaltando a importância da inviolabilidade da vida privada.
Esse diagnóstico é arriscado. Não há como saber o que exatamente a fez manter privada sua orientação. Pode ter sido por vergonha, assim como pode ter sido motivada por pudor. Ahhh, o pudor, o mais belo (e raro) dos atributos em uma sociedade saturada de hiper exposição.
Talvez a escolha por manter fechado esse aspecto de sua vida seja a simples postura de valorizar sua arte e não permitir que sua sexualidade ocupasse mais as manchetes do que o seu cantar. Muitas mulheres voluptuosamente bonitas se sentem constrangidas ao notar que sua beleza ofusca seus outros talentos, escondidos atrás de uma formosura estonteante. Alguns atores e atrizes ficam até feios de propósito com o objetivo de demonstrar virtudes para além da beleza, como o fizeram magistralmente Tom Cruise em “Trovão Tropical”, Charlize Theron em “Monsters”, Jared Leto em “Capítulo 27” e Christian Bale em “O Maquinista”. Talvez Gal desejasse que sua música fosse a razão única para ser admirada.
A tese que mais me seduz é de que ela pode ter tentado tão somente proteger seu amor, que seria um alvo fácil da imprensa de escândalos. Manter incógnito seu afeto pode ter o objetivo singelo de garantir que sua parceira não seria perseguida, constrangida e invadida pelas hordas de gente interessada em puro voyeurismo de celebridades.
Não há como saber o que realmente leva as pessoas a esconder uma parte tão significativa de suas vidas. Além disso, não há como agradar um público sedento por identificações. O julgamento destas atitudes vai depender sempre de elementos afetivos. Se você não gosta da pessoa vai dizer que ela foi covarde e que a exposição de sua vida amorosa ajudaria outras pessoas a não sentirem vergonha de amarem igualmente desta forma “especial”. Já se você a admira, vai preferir acreditar que todos temos o direito sagrado à privacidade, e que o exercício deste direito por parte dela demonstra o valor que dá à sua arte, impedindo que seja eclipsada pela imprensa que sobrevive de fofocas.
Como sou um sujeito reservado, entendo perfeitamente o silêncio de Gal Costa. Responderia da mesma forma a qualquer intromissão que julgasse indevida. “Não estou vendendo exposições da minha privacidade. Ofereço minha arte e minha emoção. Caso não a queiram, não me peçam um escândalo em troca”, seriam minhas palavras. E acho que foi exatamente o que Gal tentou dizer….
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Leite e hospitalidade

A China é um lugar fascinante e com uma culinária especial, mas de difícil adaptação para o paladar ocidental. Vou explicar com um exemplo bem simples das nossas diferenças: imagine você morar num lugar onde não existe leite ou laticínios (leite, manteiga, creme de leite, leite Moça, queijos, etc), a carne de vaca é inexistente nos mercados e o pão é um produto raro, sem qualidade e escondido no fundo do supermercado.
Lembro de entrar num gigantesco supermercado com Zeza e procurar algum leite, só por curiosidade. Encontrei em um canto escondido sob a placa “produtos importados” e o preço era o mesmo com que se compra aqui uma garrafa de bom vinho chileno. Queijo nem procurei. Carne apenas de porco e galinha, em grande quantidade. Picanha, então….. nem pensar. O pão e os biscoitos eram muito simples e mal feitos; não existe uma cultura panificadora na China. Chocolates são pura gordura vegetal hidrogenada, sem leite. Entretanto, para quem gosta de frutos do mar, este é o paraíso. Peixes de todo tipo, cor e tamanho.
Durante uma das minhas inúmeras visitas a maternidades e centros obstétricos de várias cidades eu tomei um “porre” de um vinho chinês muito forte à noite, num jantar após o ciclo de palestras no hospital. Depois de ficar tonto desatei a falar das minhas experiências na China, sua gente, sua cultura, sua língua, seus costumes e das diferenças com o meu país. Eles tem uma enorme curiosidade sobre o Brasil e sempre pediam para que eu contasse como é a vida aqui. Para eles o Brasil é um paraíso de luzes, sol, praia, mulheres bonitas, futebol e florestas. A imagem que eles têm é que aqui tudo é bom e tudo dá certo, e que as pessoas são muito felizes. Falei, por certo, da comida, e em especial da falta de leite e derivados, que fazem parte do café da manhã de todo brasileiro. Eles ficaram muito surpresos ao saber o quanto era popular o hábito de tomar o leite de outros mamíferos, algo quase nojento para a cultura local.
Na manhã seguinte – minha despedida da cidade – anunciaram que haveria uma surpresa para mim no café da manhã. Cheia de pompa e circunstância, uma cozinheira do hospital entrou na sala de refeições com uma bandeja dourada na qual se via uma vasilha contendo… leite!!! Fiquei emocionado de pensar o esforço que fizeram para trazer uma especiaria da minha terra só para me deixar feliz. Gente muito boa esses chineses…
Detalhe: odeio leite cru, mas tomei com cara de felicidade, para não fazer desfeita, uma atitude que poderia causar um grave incidente diplomático.
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Pornografia
A palavra é composta de “pornos” (prostituta) e “graphô” (escrever gravar). Acho interessante esta origem, porque remete ao comércio do sexo, mas que agora é o comércio das expressões auditivas e visuais do sexo. Ou seja, da materialidade para a virtualidade.
Muitas vezes encontro na internet postagens que condenam a pornografia, dizendo que ela na verdade “perverte” a sexualidade “natural”, ou “normal”, por sua agressividade, seu culto à performance e, mais ainda, por relegar às mulheres um papel secundário e submisso. Sempre achei esse debate fascinante porque nos obriga a pensar nos limites da fantasia e da própria expressão sexual dos humanos. Aqui caberia uma discussão de 3 mil páginas sobre o que é “sexualidade normal” (para quem?), “sexualidade natural” (não há nada de natural no sexo e no parto) e sobre “fantasia e realidade”. Um homem masculino, vigoroso, forte, poderoso pode ter a fantasia sexual de se vestir de mulher e ser passivo e dócil em suas relações, sem que isso implique ser submisso na sua vida cotidiana, certo Sr. Hoover?
Um livro que li na juventude me chamou muito à atenção sobre o tema. Já no prefácio de “O Erotismo” de um psicólogo italiano chamado Francesco Alberoni, ele nos convoca a debruçar sobre o fenômeno da pornografia. Ele chamava a atenção para as bancas de revista onde, de um lado se escondia a “pornografia masculina”, com suas capas veladas, dentro de plásticos invioláveis, contendo a expressão crua do ato sexual ou, ao menos, mulheres exuberantes com pouca ou nenhuma cobertura além da pele aveludada e sedosa que as cobria. Eram o sonho dos garotos adolescentes, extasiados com a magia do sexo que ainda desconheciam. Todavia, na frente das bancas, sem nenhum pudor ou invólucro a lhe cobrir a capa, estavam as revistas de “pornografia feminina”. Sim, lado a lado, com capas cor-de-rosa ou azul claro, estavam as revistas Júlia, Sabrina e revistas “pornográficas” como “Sétimo Céu”, com suas fotonovelas românticas.
Para este autor, a pornografia se expressava de maneira diversa entre os homens e as mulheres tanto por razões essenciais (aqui Freud poderia nos ensinar muito) e também culturais. Para ele, descartadas quaisquer avaliações de caráter moral – e afastando as questões sociológicas ligadas à indústria da pornografia – ambas tinham o mesmo valor, e se ligavam aos desejos mais profundos e constitutivos dos sujeitos. Não há pornografia “suja” e “limpa”, “moral”ou “imoral”, mas apenas variações relacionadas aos conteúdos fantasmáticos de cada um.
Desta forma, causa estranheza falar de homens “destruídos” pela pornografia, como vejo em tantos lugares, como se a pornografia pudesse – por si só – destruir a sexualidade de um sujeito, condicionando-o às suas práticas espetaculosas, performáticas e agressivas. Da mesma forma poderíamos dizer que é muito pouco provável que o consumo de pornografia feminina seria capaz de “destruir” as relações afetivas e amorosas de mulheres, fazendo com que o “fetiche” do amor romântico destrua sua capacidade de se relacionar livre e prazerosamente com seus parceiros.
De maneira geral, pornografia é consequência, não causa. Colocar a pornografia com causadora dos distúrbios da sexualidade de alguém é culpar o suor pelo cansaço. O que leva o sujeito a procurar pornografia está imbricado na estrutura constitutiva do próprio sujeito. Não se trata de um “mau hábito”, mas de uma fixação em elementos psíquicos muito precoces que o estruturam.
Combater a pornografia é tão pouco efetivo quanto eram as campanhas contra a masturbação nos anos 50. Também teria tão pouco efeito quanto a falida guerra contra as drogas, porque sempre partimos da crença de que a droga é a “causa”, quando em verdade é o resultado do desajuste social do sujeito. Nesse caso o proibicionismo tem o mesmo efeito da “lei seca”. Elimina-se a manifestação do desequilíbrio, não sua causa, e com isso o sujeito se obriga a burlar a proibição ou procurar outra solução igualmente aditiva.
Mais uma vez repito: não estou me referindo à “indústria da pornografia”, que é um debate totalmente diferente, e que inclui, por certo, questões como bandidagem, opressão, tráfico de pessoas, exploração, drogas, máfia, etc. Não me aventuro a debater as questões sociológicas que estão relacionadas a esta indústria, mas tão somente aos elementos psíquicos e subjetivos. Falo apenas da excitação produzida por imagens, que não me parece que possa ser combatida por campanhas. Pessoas que procuram na pornografia satisfação devem encontrar dentro de si as respostas para esta dependência, que as faz buscar na pletora de imagens e cenas a satisfação de seus desejos. Tratar o resultado disso como o mal em si é um erro.
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Fanáticos

É preciso ter cuidado com as armadilhas que tentam fazer o povo brasileiro odiar a própria seleção…
Sim, a maioria dos jogadores (e também da seleção) é formada por bolsonaristas, um fenômeno bem explicado não só pelas características clássicas do “pobre que vira rico” e se associa com os antigos opressores, mas também porque estas pessoas tem negócios, investimentos, dívidas, processos, grana preta que aparece de forma obscura e, portanto, só existe vantagem em se associar ao poder e àqueles que controlam as finanças de um país. Chamá-los de “fascistas” é um passo muito adiante, e este epíteto deve ser reservado apenas àqueles ativistas, que fazem arminha e que se associam às propostas claramente violentas e antidemocráticas do Sr. Jair.
“Sim, mas são todos fanáticos religiosos”, como foi dito em um texto que está circulando pelas redes sociais. Outro erro grave: estes sujeitos não são fanáticos; são crentes e assumem uma postura bem característica das igrejas evangélicas que frequentam. A atitude deles é uma derivação da “doutrina da graça”, criada por Santo Agostinho de Hipona. No século V, o concílio de Cartago (418) afirmou que, por causa do pecado original, a Graça de Deus se tornou um artifício fundamental para a salvação da alma. O Concílio de Éfeso (431) confirmou esta perspectiva. Agostinho condenava frontalmente o “pelagianismo”, doutrina criada pelo monge inglês Pelagius da Bretanha. Este religioso se estabeleceu na sede do império Romano ao redor de 405, tendo posteriormente viajado para o norte da África e Palestina. Escreveu dois livros sobre o pecado, o livre-arbítrio e a graça: Da natureza e Do livre-arbítrio.
Para Pelagius o livre arbítrio que o ser humano possuía lhe oferecia a condição de alcançar a santidade e a virtude pelas próprias forças, sem que lhe fosse oferecida qualquer “graça”. Agostinho se opunha de forma intensa a esta ideia. Dizia ele: “está errado qualquer um que afirme que, (…) se a graça não fosse dada, ainda assim poderíamos, embora com menos facilidade, observar os mandamentos de Deus sem ela”.
Portanto, a santidade (inclusive no futebol) só pode ser alcançada através de uma ação divina específica, que ofereça uma condição especial e diferenciada àquele por ela alcançado. Segundo esta perspectiva, não é possível a um jogador de futebol ter sucesso em sua carreira sem que Deus o tenha escolhido. Por esta razão dizem sempre diante das vitórias: “foi o Senhor quem permitiu”, “em primeiro lugar agradeço à Deus”, “Jesus me ajudou neste caminho”, “não fui eu, foi Deus”, “Deus no comando”, “Deus é fiel”. E mesmo nas derrotas a postura é a mesma: “Deus está esperando um momento melhor para mim”, “Deus escreve certo por linhas tortas”, “Deus vai me agraciar no futuro”, etc. exatamente porque esta é a visão disseminada nas igrejas evangélicas, aferradas aos conceitos Agostinianos e que rejeitam o viés pelagianista. Essa visão, por certo, também tem efeitos claros de manter o fiel cativo, sem autonomia para se dedicar à sua fé. A “graça” sempre pressupõe intermediários.
Portanto, não são fanáticos, nem mesmo são religiosos; apenas reproduzem um conceito muito disseminado no meio evangélico no qual convivem. Tratá-los como insanos não ajuda a seleção e muito menos o Brasil. O Imperialismo está sempre querendo que o mundo periférico despreze seus heróis e seus símbolos. Não é de hoje que percebemos o interesse de desmerecer e menosprezar qualquer líder ou ídolo efetivamente oriundo das classes populares. Fizeram assim com Garrincha, Pelé e agora Neymar. A Seleção Brasileira de futebol também é alvo de críticas infundadas, tentando nos fazer olhar para cada jogador que tenha emigrado para o futebol mais valorizado no mundo como se fossem traidores, interesseiros e dinheiristas. Ou seja: um sujeito pobre que – através de um esforço imenso – consegue a ascensão social só pode ser admirado se abrir mão da justa recompensa pelo seu talento e assumir uma vida modesta ou pobre. Parece que a riqueza só é garantida à minoria composta pelos membros das castas superiores, os burgueses, agraciados por Deus com sua fortuna, mesmo que nenhum esforço tenha sido empreendido para conquistar esta posição. Destruir ídolos populares é um projeto colonialista de destruição dos seus heróis nacionais, através de uma iconoclastia que não surge da humanização desses personagens, mas como uma estratégia muito bem elaborada de desprezo moralista, com o claro objetivo de fomentar a dominação comandada pelo imperialismo. A perseguição injusta e covarde contra Lula é o exemplo mais simples e fácil para entender o quanto as grandes potências, interessadas na subserviência nacional, apostam nesta ação. Fiquemos atentos.
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Distopias
Tomei contato com um debate interessante, que passa por Blade Runner, Matrix, O Exterminador do Futuro, O Dia Depois de Amanhã e Star Wars, entre outros: por que nossa literatura e nosso cinema insistem em desenhar futuros distópicos, desesperançosos, lúgubres, tristes e dramáticos? Por que não nos oferecem possibilidades para imaginar utopias ao estilo de Gene Roddenberry, que concebeu Jornada nas Estrelas a partir de uma perspectiva essencialmente otimista do futuro? Para ele a solução dos conflitos e do egoísmo na Terra nos levaria a conquistar o Espaço, a “Última Fronteira”, já que, em nosso planeta, estas barreiras já teriam sido derrubadas.
Minha amiga antropóloga Robbie Davis-Floyd (uma Trekker) me contava que a ideia de Roddenberry se baseava em uma proposta inovadora: a solução dos problemas do planeta estava no fim do consumismo (e com ele a sociedade de classes). Entretanto, esta revolução não viria pela escassez dos recursos finitos do planeta e a consequente convulsão social, mas através da tecnologia. Máquinas de recombinação molecular fariam com que fosse possível criar facilmente qualquer “coisa”, qualquer objeto, a partir de seus componentes básicos. Assim, ao simples apertar de um botão poderíamos criar um Stradivarius do século XVII, ou um Porsche 911 GT3, com o mesmo custo de um pacote de bananas, apenas recombinando matéria. Com isso as coisas – pela facilidade absoluta de aquisição – perderiam o valor, e a verdadeira riqueza (e o poder dela derivado) se tornaria o conhecimento.
Desta forma, resolvidos os problemas na Terra, a Enterprise partia da Terra para resolver os dramas do Universo. Todavia, Star Trek é uma exceção entre os filmes de ficção científica. Estes, quase sempre, mostram mundos degradados, destroçados, gelados e onde a luta é pela dura e heroica sobrevivência dos poucos remanescentes. Por que insistimos em apostar em um futuro de horror e perdição?
Acho que a resposta é até simples: não mostramos futuros bons e perfeitos no cinema porque eles não vendem, da mesma forma que as novelas só apresentam ao público partos dramáticos, cheios de correria, angústia, dor, sangue e drama, e jamais apresentam nascimentos tranquilos, domiciliares, rápidos e cercados de paz. Essa felicidade e esse bem estar não vendem, não nos mobilizam. A bem da verdade, nem Star Trek mostra isso; apenas aceita que resolvemos as diferenças na Terra, mas na distância do cosmos imperam ainda o egoísmo e a violência; e é lá que as tramas se desenrolam.
Experimente aparecer em um estúdio de Hollywood dizendo: “Quero apresentar um projeto de filme que se passa em 2222. Nesta época da humanidade tudo dá certo, ninguém explora ninguém, não há crimes e sequer temos roubos. O marxismo venceu, a fraternidade impera, somos irmãos de todos, há equidade entre pessoas e povos, exterminamos a violência bruta e não há barreiras ou bordas. Não há sentido para as guerras, etc…” John Lennon na veia, “imagine all the people”…
A resposta dos diretores seria: “Desculpe, no seu filme não há diversão alguma, não há conflito e, portanto, não há solução que se possa imaginar. Seu mundo é como uma montanha russa em linha reta, sem quedas, sem sustos e sem pânico. Entretanto, somos movidos por essas emoções. Sem o pavor despertado pelas distopias a vida se torna insuportável; elas são o bode colocado na sala da realidade“.
A má notícia é que não há possibilidade de aguardarmos uma revolução tecnológica como a que ocorreu na fantasia de Jornada nas Estrelas para acabarmos com a sociedade de classes. Muito antes que seja possível recombinar átomos para criar a matéria que compões os objetos os recursos do planeta estarão escassos, os conflitos se multiplicarão e a tensão entre a diminuta classe burguesa e as multidões de operários, trabalhadores, miseráveis e famintos fará o mundo ascender a um modelo político e econômico superior. Gene Roddenberry por certo sonhou com uma fantasia de tecnologia redentora, mas a realidade material não suportará que o desnível criado pelo capitalismo continue até que ela seja realidade. O socialismo virá muito antes da Enterprise, do capitão Kirk e do Dr. Spock.
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A Coragem de Denunciar
Um professor de história, de ascendência judaica e que no passado lecionou no Colégio Israelita de Porto Alegre durante dez anos, publicou uma “postagem desabafo” sobre o que ocorreu há alguns dias, quando um grupo de adolescentes da referida escola protagonizou um espetáculo hediondo de preconceito de classe, desprezo pelos mais pobres, arrogância e xenofobia. Isso tudo em uma escola de confissão judaica.
A resposta de algumas pessoas da comunidade foi acusar o professor de hipocrisia. Afinal, se havia percebido sinais claros desse tipo de comportamento, por que permaneceu na escola por mais de dez anos? Por que razão não se demitiu ao primeiro sinal? “Ora… deve ser despeito por ter sido demitido, e falta de reconhecimento pela escola que lhe deu sustento”, disseram, em outras palavras, alguns interlocutores.
Curioso: um professor sendo acusado por não ter se demitido. Ou seja: ele está envolto num contexto recheado de atitudes que reconhece como racistas e fascistas atitudes que testemunhou quando do exercício do próprio ofício de educador, mas quando denuncia estas graves arbitrariedades é tratado como culpado por não ter abandonado a instituição previamente.
Filme antigo, não? Essa é a velha inversão de valores, a mesma que é aplicada à mulher que apanha do marido por 10 anos. Quando, esgotada e exausta, decide se afastar do companheiro passa a ser a culpada por não ter pedido “demissão” do casamento a mais tempo. No caso do professor a mesma retórica: ele é o culpado por ter permanecido no cargo, mas esquecem de analisar os condicionantes que afligem qualquer profissional, como salário, contas, família, projetos, profissão, sonhos e também a sua própria ação humanizadora na escola. Sim, por acaso a escola, onde ele estudou e onde criou laços afetivos, ficaria melhor com sua desistência precoce? Ou seria exatamente sua missão manter-se numa escola judaica (que mostrava sinais claros de condescendência com o racismo) para ser o contraponto a essa postura, que é (ou deveria ser) contrária ao próprio projeto pedagógico de uma escola judia: denunciar o racismo e a exclusão?
Não me surpreende que tantos judeus se apressaram a atacar o professor e estejam empenhados em “passar pano” para a Escola. Talvez sejam os mesmos que há poucos anos aplaudiram aquele candidato que falou dos “negros que eram pesados em arrobas“, ou quando disse que sua filha era uma “fraquejada“. Ahh, sim…. houve protestos de vários judeus contrários ao fascismo!! Por certo que sim, assim como há inúmeros judeus que têm consciência dos crimes cometidos contra a população palestina. Todavia, as palmas e os apupos ouvidos no salão da Hebraica do Rio de Janeiro não podem ser apagados da memória, assim como as palavras de desprezo pelos humildes e a aporofobia ditas pelos jovens do Colégio Israelita continuam reverberando em nossas mentes e corações. Benditos sejam aqueles que, diante dessas palavras, sentiram nojo e vergonha e perceberam o quanto elas estão erradas. Triste saber que muitos ainda se esforçam para justificar a barbárie e – pior ainda – atirando no mensageiro.
Os fatos que todos nós presenciamos confirmam essa perspectiva. Não há como passar pano para a barbárie. Não há como fazer de conta que esse não é um problema sistêmico. Dizer que é um fato isolado é uma mentira; ele é a representação de algo que está entranhado nas classes mais abastadas desse país, acostumado com a exploração e o apartheid de classes. É preciso denunciar – não as adolescentes, que de certa forma são vítimas de uma educação falha – mas todos aqueles que as formaram, e aí temos que olhar para a família e a escola. Qualquer coisa diferente disso significa alimentar o monstro do fascismo.
Ao professor Iair Grinschpun (que não conheço, mas já admiro pacas) minha solidariedade e meu apoio pela sua ação e pelo seu posicionamento. Não há porque ele mostrar o vídeo e sequer expor os adolescentes em sua página no Facebook; eles são apenas a parte visível do iceberg que a nossa sociedade terá de enfrentar. É preciso olhar de frente e com coragem para o fascismo e a exclusão antes que eles sejam o sinal dos tempos a anunciar a nossa extinção.
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O abandono do macho
Hoje escutei de novo a frase: “Nem todo homem, mas sempre um homem”….
A ideia é de que, sempre que um fato ruim ocorre na sociedade – que envolva violências ou abusos – haverá um homem envolvido. Sim, alguns homens não são perversos, abusivos ou malignos, mas na malignidade e na perversão sempre haverá um macho envolvido. Os homens são a raiz e a fonte de todos os males, a violência, a perversão e o horror.
Sabem por quê? Porque as pessoas que usam essa frase com o propósito de atacar os homens acreditam piamente que as mulheres não cometem erros graves, não produzem crimes e jamais têm atitudes perversas. Devotam uma fé inabalável na perspectiva de que pessoas oprimidas são moralmente superiores aos seus opressores.Para estas pessoas existem diferenças espirituais entre os sexos, e os homens se encontram em um plano inferior em relação às mulheres. Pense nisso quando alguém acusar os homens de machistas. Sim, porque o machismo é a “crença de que os homens são – para além das diferenças físicas – moral e intelectualmente superiores às mulheres“; porém, essa perspectiva de mundo é combatida por todas as pessoas que desejam um mundo equilibrado, com justiça e equidade. O machismo é a ideologia que tenta sustentar um sistema baseado na opressão.
Agora pergunto: por que deveríamos aceitar quando alguém afirma que os homens são moralmente e intelectualmente inferiores às mulheres? Por que achamos que tal acusação deveria ser tratada de forma diversa? Por que achamos que é justo passar pano para estas atitudes sexistas? Que tipo de sociedade desejam aqueles que consideram todos os homens – e não apenas aqueles que cometem erros e crimes – como se fossem inferiores, malévolos e perversos – os famosos “estupradores em potencial”?
Atentem para o fato de que tratar os homens (metade da população mundial) como os inimigos do progresso e da justiça fez com que o homem branco, cis, hétero e de classe média (a descrição do vilão contemporâneo) se refugiasse nos movimentos de direita – e até no fascismo. Isso porque foram tratados pelos identitários (que invadiram os movimentos de esquerda) como os inimigos, como o “problema” a ser resolvido na sociedade. Para estes grupos – criados nos laboratórios e “think tanks” do partido Democrata americano – o que existe de errado nas sociedades contemporâneas é o homem e sua visão de mundo. Mais do que o patriarcado, é a masculinidade que espalha o mal pelo planeta. “Fossem as mulheres a governar seria tudo diferente“, o que é um exemplo clássico de idealismo, pois que nenhum exemplo existe para nos mostrar as diferenças morais e de competência entre as mulheres que ocuparam posições de poder.
O que faziam tantas mulheres – e de todas as cores – nas manifestações que exigiam a volta da ditadura – em 1964 e agora mesmo nos piquetes bolsonaristas? Como se comportaram as mulheres quando alcançaram o poder? O que dizer de Margaret Thatcher ou Madeleine Albright – responsáveis pelo aniquilamento dos trabalhadores ou pela morte de milhões de árabes nas invasões imperialistas? “Essa é uma pergunta difícil. Mas, sim, achamos que valeu a pena”, disse a ex-secretária de Estado norte-americana Madeleine Albright, quando, em 1996, lhe perguntaram sobre a morte de 500 mil crianças no Iraque. Já a Dama de Ferro teve sua morte comemorada por multidões na Inglaterra. A políticas neoliberais desta senhora resultaram na destruição de 20% da indústria inglesa entre os anos 1979 e 1981, maior até que o estrago na indústria causado pela força aérea alemã na II Guerra Mundial, resultando em mais de 3 milhões de desempregados. Esses simples fatos se chocam com a visão do “homem mau e perverso“, ou da famigerada expressão “sempre eles“.
Coloquem homens e mulheres, dotados de uma visão burguesa no controle de suas sociedades, e não haverá como reconhecer-lhes o gênero apenas avaliando suas ações. Não parece que existam tantas diferenças assim como alguns querem nos fazer crer; o que fica claro é que esses desvios de caráter não atacam apenas o cromossomo Y. Por esta razão simples, as esquerdas precisam urgentemente se reciclar nesse aspecto, trazendo os homens para – junto com as mulheres – criar uma sociedade mais equilibrada e justa. Abandonar o discurso identitário, de defesa das questões de gênero acima da luta de classes, é uma urgência. Rechaçar os homens do debate das esquerdas está na gênese do aparecimento do maior ícone contemporâneo dos homens ressentidos: Jair Bolsonaro. Todavia, muitos daqueles homens que se uniram a esta corrente de rancor e fanatismo poderiam ser recuperados não tivessem sua condição masculina tratada como defeito ou danação por aqueles que, na esquerda, se consideram progressistas.
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Trabalho
A mensagem que fica, a partir da ingênua resposta da menina é: você não precisa ser uma mera empregada (comissária de bordo); pode ser uma empresária e dona de um avião. Essa é a moral que subjaz, o subtexto que brota das palavras da menina, travestida de empoderamento feminino. Troque “avião” por qualquer setor do capitalismo, como loja, fábrica, empresa, escritório, etc… e verá que existe um nível de valoração que vai do mais baixo (o trabalhador, a comissária, o empregado) até o capitalista (o dono do avião, o proprietário da empresa, o dono da loja), como se trabalhar e ter uma função (como o simples proletário e a comissária) fosse menos nobre, menos válido ou menos importante do que ser um capitalista dono das coisas, cuja virtude fundamental é possuir grandes volumes de dinheiro, cuja origem é sempre desconsiderada nesta equação.
Pior: as palavras da garota escondem a verdade, vendendo a imagem ilusória de que uma menina pode vir a ser dona de um avião “se ela se esforçar muito“, quando a realidade material mostra que os donos de avião – e de fábricas, de terras, de grandes lojas, etc – pouco se esforçaram na vida em comparação ao trabalhador comum – como qualquer um de nós. Apesar de exceções notáveis e pontuais, são pessoas cuja riqueza vem de suas famílias, de sua classe, de seus contatos e do acúmulo de capital que as gerações anteriores produziram. Portanto, a frase contém uma glamorização do capitalismo e dos bilionários, enquanto insiste na desvalorização do trabalho de todos nós, o qual é tratado como algo menor, menos valoroso e menos interessante quando comparado com o charme de ser bilionário…
Para que fique mais fácil entender, se esse avião for da Virgin Airlines a dona dele se chama Joan Templeman, esposa de Richard Branson, e ela se esforçou durante a sua vida muito menos do que qualquer comissária de bordo. Essa é a questão de querer ser “dono” ao invés de ser “trabalhador”. Para trabalhar é preciso esforço; para ser “dono” nem sempre.
Para descontrair:
A enfermeira sorridente apresenta o bebê recém nascido à sua irmãzinha pelo vidro da maternidade. Ao lado da menina o pai sorri para a moça com o bebê nos braços e diz para sua filha:
– Sabia que se você estudar bastante também poderá ser uma parteira?
A menina põe as mãos na cintura, empina o queixo e então responde:
– Se eu quiser posso ser a dona do hospital!!
Os demais pais, que aguardavam ansiosos para ver seus bebês na sala de espera, abraçam e consolam o pobre pai que cai em prantos enquanto diz entre soluços: “onde foi que dei errei? O que fiz de tão errado?”.
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Direitas
As direitas europeias, sem perceber que estão no olho do furacão da crise capitalista, confundem adotar uma posição “antissistema” com namorar o nazifascismo. Ou seja, mais cedo ou mais tarde as direitas no mundo inteiro se rendem à sedução moralista, ao “patriotismo”, à constituição patriarcal da família e à teocracia. Acreditam que existe uma “grande ordem mundial” perversa e destrutiva, semelhante aos “sábios do Sião”, que controla o capitalismo e o corrompe. “Não é o sistema“, dizem eles, “são os imorais e gananciosos que o controlam“.
Infelizmente não perceberam ainda que o “mostro tenebroso” que nos oprime não é quem controla o capitalismo, mas o próprio capitalismo, que se desmancha em frente aos nossos olhos por sua incapacidade de oferecer saúde, segurança, educação, justiça social e prosperidade ao povo. O que estamos vendo nos últimos anos é exatamente mais uma crise brutal de seus valores, regurgitada em convulsões, autoritarismo, Orbán, Bolsonaro, guerra na Ucrânia e declínio do Império. Não há possibilidade de mudar o destino catastrófico do mundo sem mudar seu sistema. Não se trata de “se”, mas “quando”, pois que nossa alternativa é a autodestruição.
Socialismo ou barbárie.
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