“Enquanto os alemães erguem faixas celebrando a fraternidade e o acolhimento de refugiados do oriente médio, bombas Israelenses cruzam os céus da Palestina abreviando a vida dos sitiados de Gaza. Tudo indica que o holocausto do século XX ensinou os algozes, mas as vítimas não aprenderam tão bem a lição.”
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Refugiados
A foto acima apressou o fim da guerra no Vietnã, o que fará a que se encontra no fim desse texto? A foto do menino morto na praia nos despertou para a tragédia dos refugiados. As imagens das execuções sumárias e das mais de 500 crianças mortas no último massacre de Gaza por Israel nos despertam lentamente para a barbárie, com a qual ainda somos coniventes.
Não reclamem das imagens; questionem a realidade estúpida e desumana.
Você não vai orar por algo ou alguém que desconhece. Faria uma oração pelos desabrigados e vítimas de bombas terrestres no Curdistão? Não, não faria isso sem ter o conhecimento dessa crueldade. A foto do menino sírio serve para nos despertar, nos mostrar o drama humano dos refugiados. Nos obriga a refletir e questionar. Nos mostra a crueza da morte de uma criança. E nos obriga a tomar posição diante dessa tragédia. A foto cumpriu seu propósito de nos sacudir.
Eu acho que a imagem da criança sem vida na praia tem a capacidade de nos despertar. Por mais cruel que seja, pode ter uma função pedagógica. Ele tinha 3 anos e se chamava Aylan Kurdi. Não conseguimos nos mobilizar sem estabelecer identificações, e a cena nos leva a pensar nos meninos que nos cercam e que poderiam estar com seus pequenos corpos gelados em uma praia abandonada. Enquanto seres humanos forem apenas números nada faremos para mudar esta realidade crua.
A imagem forte e cruel nos oportuniza despertar do nosso sono de insensibilidade. Se não fosse a fotografia do menino na praia estaríamos debatendo a tragédia dos refugiados sírios?
Justiciamentos
Sobre os justiciamentos populares…
“Qual a dificuldade de entender que qualquer criminoso, qualquer que seja o crime, tem direito a defesa e não pode ser maltratado? Fora isso teremos apenas justiciamentos, típicos de republiquetas onde a barbárie impera. O criminoso precisa pagar pelos seus crimes, mas a sociedade NÃO PODE ser mais doente que o sujeito. Para quem curte linchamentos, não esqueça que a civilização começa quando o estado de direito se impõem sobre a selvageria. Os crimes, quando comprovadamente cometidos, não podem ficar impunes e o meliante precisa ser afastado da sociedade.
O resto é apenas vingança de pessoas que, em essência, não diferem muito dele….
E por favor…. não aguento mais discurso de “vingadores” ao estilo “se fosse comigo…“, muito menos coisas como “leva pra casa“, “tem que pendurar num poste“, ou “tratam bem esses caras, mas…“. Chega. Estudem. Leiam o que diz a constituição de QUALQUER país civilizado. Esse tratamento digno com os criminosos ocorre em países como os Estados Unidos e na Europa, mas o que vocês preconizam existe no Zimbábue e na Nigéria.
Estou cheio de justiceiros que preferem viver na África do que na Suécia, desde que isso os beneficie. Tipo, os “outros” que se “ferrem”, o importante é manter meus privilégios.
Meu ponto de vista é que a civilização cobra caro a sua construção e manutenção, e o preço é entender que não se faz justiça maltratando o criminoso e nem jogando sobre ele nossas raivas e nossa indignação, carregadas de fúria cega. NENHUMA sociedade desenvolvida se consolidou sem antes passar pelo processo penoso de respeito às instituições em um esforço conjunto pela consolidação do estado de direito. Tratar com humanidade e respeito o criminoso NÃO SIGNIFICA desreconhecer a dor das vítimas, e nem MUITO MENOS perdoar os crimes por eles cometidos. Tratar com justiça não é tratar com crueldade e nem com violência.
A sociedade precisa ser pedagógica e não vingativa. Existem questões acima de qualquer debate, e entre elas estão os DIREITOS HUMANOS, que são elementos que cada um de nós carrega na essência de seu ser: não podem ser retirados por nenhuma circunstância ou contexto.”
Modismos
Eu era adolescente quando Nelson Carneiro, deputado pelo Rio de Janeiro, fez passar a lei do divórcio. O ano era 1977, e a partir dessa data muitas mulheres encheram-se de coragem e, enfrentando todo tipo de preconceitos e julgamentos, exigiram de seus maridos o desenlace jurídico definitivo. É verdade que muitos maridos também o solicitaram, mas reconheço que os pedidos partiam majoritariamente das esposas.
Quando a avalanche de divórcios se tornou evidente muitos disseram se tratar de um “modismo”, algo inconsequente; irresponsável até. Entretanto, eu conheci e conversei com muitas dessas mulheres que, abrindo mão de tudo que tinham, – estabilidade, conforto, dinheiro, segurança, reconhecimento social – separaram-se de seus companheiros para se tornarem estigmatizadas como “divorciadas”. Quando eu lhes perguntava porque se aventuravam neste salto no escuro de uma separação elas respondiam: “Claro que é difícil, angustiante e penoso, e é evidente que me sinto insegura, mas manter-me casada seria muito pior”.
Ao encontrar críticas ao “modismo” dos partos extra-hospitalares eu me pergunto se, na visão destas gestantes e seus maridos, a opção de um parto no hospital não lhes parece uma alternativa muito mais violenta e indigna do que a escolha radical que fizeram, a ponto de buscarem opções que para muitos podem parecer insensatas.
A verdade é que TODA a escolha pelo local de parto é POLÍTICA, sem exceção. A não ser que seja imposta, e aí já não é mais escolha. Parir de forma normal, no mundo contemporâneo, é ligar o liquidificador no condomínio às 3h da madrugada: não há como não se tornar algo público. Nossas escolhas influenciam os que nos circundam, e eles por sua parte interferem em nosso cotidiano. Portanto, as escolhas políticas se fazem em função de demandas daqueles com quem convivemos. Os partos na atualidade refletem a inconformidade crescente com o modo como as sociedades contemporâneas lidam com a liberdade e a autonomia das mulheres.
Se há abusos e, por vezes, escassez de bom senso, há também – e de forma exponencialmente maior – no modelo anacrônico e autoritário de partos que temos hoje. Para que a atenção seja melhor é fundamental que nos debrucemos sobre uma crítica madura e pertinente sobre os limites da tecnocracia e o preço da alienação. Com isso vamos diminuir a chance de escolhas insensatas ao oferecer um atendimento hospitalar centrado na mulher e suas necessidades, respeitando seu protagonismo e sua autonomia para tomar as decisões que lhe cabem.
Infelizmente, ao invés de fazermos uma autocrítica dura, corajosa e madura ao modelo anacrônico de atenção obstétrica, perdemos tempo e recursos preciosos atacando a CONSEQUÊNCIA disso: a escolha livre e consciente por um parto que tenta se afastar das amarras do autoritarismo.
Até quando?
Estava lendo o texto de uma colega sobre uma cesariana e percebi que é, sim, possível escrever um texto ofensivo e rancoroso ao extremo embrulhando palavras ácidas e agressivas com celofanes coloridos de falsa candura.
É muito ódio nesse coraçãozinho…
Até quando as pessoas vão continuar com esse discurso de contrapor humanização do nascimento com cesariana? Quando é que vão se dar conta de que não criticamos a cirurgia, mas seu abuso? Quando é que perceberão que não se trata de questionar a boa prática cirúrgica – que começa com uma boa indicação – mas alertar para as consequências em curto, médio e longo prazo do exagero INQUESTIONÁVEL de um recurso que é reservado apenas para os casos de risco aumentado para mães e bebês? Quanto ainda teremos de suportar essa dicotomia FALSA entre recursos tecnológicos e humanização do nascimento?
Apenas para lembrar o conceito e acabar de uma vez com essa falsa incompatibilidade entre uso de tecnologia e assistência humanizada:
“A Humanização do Nascimento vem trazer a síntese entre as conquistas recentes da ciência, que nos oferecem segurança, com as forças evolutivas e adaptativas dos milênios que nos antecederam. Este releitura do nascimento humano se faz necessária para acomodar as necessidades afetivas, psicológicas e espirituais das mulheres e seus filhos com as conquistas que o conhecimento nos trouxe através da aquisição crescente de tecnologia.”
A Reação Conservadora
Sobre um texto que está rolando aí exaltando cesarianas e desmerecendo ativismo por partos dignos:
“Mais sobre o mesmo. Intervencionismo médico. Os médicos como salvadores das mulheres, donas de corpos perigosos e defectivos. Um texto óbvio do intervencionismo médico escrito com 10 a 15 anos de atraso. Os argumentos da Dra já foram contestados por inúmeras publicações no mundo inteiro. A sua fala é repleta de um vazio ruidoso: a incapacidade de enxergar o fenômeno pela perspectiva da mulher, e a brutal obliteração de ver a transcendência imanente de um nascimento.”
Se há algo que aprendi no falecido Orkut é não discutir com pessoas que fazem críticas “ad hominem“. No texto da Dra., fartamente distribuído (mas não por mim…), o que sobra como evidência é a descrição do parto por um viés biologicista, “desumanizante”, tecnicista, coisificante e objetualizante. Em nenhum momento ela se refere às pacientes como pessoas dignas e capazes de fazerem escolhas informadas sobre riscos e benefícios de uma grande cirurgia. É um texto agride as evidências científicas (SIM) e que, infelizmente, não oferece uma interface para debate, e isso ocorre por uma questão bem simples: ela NÃO enxerga no parto algo que eu e muitos ativistas dos direitos reprodutivos e sexuais enxergamos: um processo importante de empoderamento feminino e uma preservação da integridade física da mulher.
Entretanto, o texto dela reflete uma realidade cada vez mais evidente: os movimentos sociais, o governo, o Ministério Público, a pressão internacional e as evidências científicas expuseram a posição dos médicos cesaristas como amplamente questionável, demonstrando o viés mercantilista da prática de atender por “linha de montagem”. A defesa – cada vez mais frágil – é confundir “parto humanizado” com parto desassistido ou parto domiciliar, já que as bases da humanização do nascimento são mais do que provadas no campo da pesquisa (como a negativa de usar episiotomias, Kristeller, enemas, tricotomias e cesarianas rotineiramente e sem justificativa clínica).
Assim, a Dra se esforça em mostrar que um parto fora do CONTROLE da medicina é inseguro, mesmo quando as grandes potencias mundiais mostram-se cada vez mais voltadas aos tratamentos realizados por especialistas em parto normal (as enfermeiras e obstetrizes) e reservando aos médicos apenas os tratamentos que incluem patologias. Os argumentos que ela usa são os MESMOS que eu escuto há 30 anos, por isso eu disse que seus escritos tem 10 a 15 anos de atraso. Nós já debatíamos isso no início deste milênio, e a ideia de incentivar cesarianas se mostrou inadequada para mães e bebês, mas inquestionavelmente boa financeiramente para médicos e instituições. Continuar investindo no paradigma cirúrgico é colocar a vida dos pacientes em risco, mas incentivar partos normais com profissionais adequados, capacitados e aparelhados, oferecendo o PROTAGONISMO às mulheres, a visão interdisciplinar e a vinculação com a Medicina Baseada em Provas, é o caminho das grandes democracias.
Acho que não vamos a lugar algum xingando doulas, que tem sua função baseada em evidencias, e são reconhecidas como auxiliares importantes no processo de parto, exatamente por oferecer o calor do afeto à frieza da atenção médico-hospitalar.
O que o texto da doutora ressalta é a centralidade dos médicos e da medicina no cuidado de um processo fisiológico como o parto, com uma visão de “progresso” oriunda do século XIX, onde este se confundia com o acúmulo de tecnologia. Ora, qualquer pensador contemporâneo reconhece que a adoção de um paradigma serve a interesses explícitos e implícitos. O problema é que os interesses invisíveis se tornam cada vez mais claros e transparentes através da análise simples de dados, como a violência obstétrica e a taxa abusiva de cesarianas. O “mito da transcendência tecnológica”, como qualquer mitologia, não se estabelece num vácuo conceitual; pelo contrário, ela expressa valores e interesses de grupos – como os médicos – e instituições – como a indústria farmacêutica e de equipamentos, hospitais etc. – que se servem de um modelo que inferioriza a mulher através de uma visão diminutiva de suas capacidades de gestão e parir com segurança e autonomia. Enquanto tivermos mulheres “fracas” e partos “bomba relógio” teremos médicos e intervenções valorizados acima de sua real necessidade. O texto da doutora explora explicitamente este viés característico do discurso, que serve aos propósitos da sua corporação. “Somos maravilhosos, salvamos mulheres, somos imprescindíveis, exatamente porque sem nós as mulheres são incapazes de dar conta dos desafios da parturição“.
Como eu disse acima, esse discurso “chapa branca” da medicina é antigo mas se choca com as evidências do mundo inteiro que se esforçam pela desmedicalização da vida e, em especial, do parto, em função dos resultados ruins do intervencionismo e da crescente insatisfação das mulheres com a atenção insensível e violenta que recebem.
Lendo o texto da doutora eu ficava pensando: “Meu Deus!!! Avisem os europeus, pois eles estão indo na direção oposta. Alguém precisa mostrar a eles como estão absolutamente errados, e como nós estamos maravilhosamente certos“.
A Holanda NÃO é aqui
Um motorista ensandecido pilotando uma “Hilux” grita para uma ciclista na ciclovia paulistana: “Vagabunda!! Isso aqui não é a Holanda!!“
Um cesarista ensandecido pilotando um reluzente bisturi grita para um profissional humanizado: “Idiota!! Isso aqui não é a Holanda!!“
Discorram sobre esse paralelo…
PS: Quando eu era adolescente nos ano 70 ainda vivíamos na época da ditadura militar. A nós era vedado o ritual sagrado do voto. Governos se sucediam sem que o povo tivesse o direito de escolher seus mandatários; eram os anos de chumbo. Eu vivi nesse tempo e trago as marcas dessa dor em meu peito. Eu sei o quanto dói a falta de liberdade.
Nesse período sempre que um “esquerdista” resolvia falar da importância da democracia alguém levantava a voz e clamava em altos brados: “Cale a boca!! Aqui não é a Europa. Lá é possível votar, pois eles tem cultura. Nosso povo não sabe fazer isso“, num discurso que mesclava de forma curiosa Macunaíma com Newton Cruz. A desculpa era sempre centrada no fato de sermos uma gente preguiçosa, um povo malemolente, inculto, incapaz, incompetente e que – mais do que precisar – merecia que a ditadura governasse seu destino. Com as mulheres o mesmo: é preciso sempre alguém que as governe e controle, pois elas são essencialmente incapazes de tomar decisões por si mesmas.
“Isso” aqui não é a Holanda. Esse país não se presta para democracia. Esta nação não pode se auto gerir. Nossas mulheres são dóceis e submissas e precisam ser controladas para parir. Calem a boca.
A Holanda NÃO é aqui…
Julgamentos
Os julgamentos feitos sobre mulheres que pedem auxílio farmacológico para o alívio de suas dores em nada ajudam esta mulher – ou a humanização do parto – mas fazem parte do processo de amadurecimento de um movimento social. Tais críticas surgem da necessidade de estabelecer valores sólidos através da radicalização. Abandonar, ou simplesmente questionar, tais pontos é tratado como um sinal de fraqueza. Só o tempo permite suavizar estas posturas e oferecer um melhor entendimento. Abandonar radicalismos é demonstração de fortalecimento de uma ideia. Os dogmas nada mais são do que muletas ideológicas.
O parto é uma construção subjetiva e que se inicia na primeira infância. É ali que são firmados seus alicerces, numa época onde ainda não há o trânsito das palavras. Portanto, os medos, as tensões e as percepções dolorosas no processo de parir estarão subjugados a estas estruturas psíquicas muito precoces.
Quando eu imaginei qual seria a definição mais completa e sucinta para o nascente movimento de humanização eu desenhei na minha frente um triângulo em que nos vértices de baixo se encontravam a “visão interdisciplinar” e a “medicina baseada em evidências“. Estes são os elementos formais e técnicos desta filosofia. Entretanto no vértice de cima eu coloquei o “Protagonismo garantido à mulher” como o elemento estruturante e fundamental, sem o qual nenhum dos outros se sustenta. Garantir o comando à mulher é o vértice ÉTICO do movimento de humanização, o qual jamais podemos abrir mão, sob pena de desfigurar completamente o valor libertário essencial desta proposta.
Julgar quem solicita um recurso de alívio para o furacão físico e psíquico de um nascimento, seja pela analgesia ou mesmo por uma cesariana, é um ato que contraria toda a filosofia da humanização do nascimento, a qual preconiza que o parto é um evento único e subjetivo no qual somente quem sofre sua dor e seu gozo pode entendê-lo por completo.
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Ressentimentos
Eu creio que os ressentimentos direcionados a profissionais que atendem no espectro da humanização são naturais acomodações das placas tectônicas que sustentam a estrutura do parto. Ainda vemos muitas mulheres que depositam os resultados na mão de médicos, enfermeiras, parteiras e doulas. Tais profissionais são todos humanizados, e foram previamente mordidos pela vespa da humanização, mas totalmente impossibilitados de fazer algo que só à mulher compete: parir.
Empoderamento e Protagonismo são ações complexas, principalmente porque o “anjo da alienação” nos espreita a cada dobra de esquina. É sempre mais fácil colocar a culpa em quem está próximo de nós. Além disso, muitos profissionais aceitam essa posição de comando pois são vencidos pela própria vaidade. Quem aí já não se deixou envaidecer ao ser tratado como “herói” (ou heroína) do parto alheio?
Eu acho que esse tipo de atitude é compreensível, mesmo sem ser justificável. Ela ocorre em função da idealização dos profissionais. “Olha, estou sendo atendida por um médico maravilhoso, o “Papa” da humanização, e agora tenho certeza que tudo vai dar certo”. Pacientes exaltam e veneram seus(suas) cuidadores(as), alçando-os(as) para níveis irreais. Já vi muitas injustiças assim no universo da humanização. Quando você afirma que o paciente estava errado ao criar uma expectativa não realista lhe acusam de “penalizar a vitima”. Mas essa consciência é fundamental.
Por isso eu creio que uma das tarefas mais essenciais do(a) parteiro(a) é a desinstituição. Sim, é importante que o cuidador rejeite a posição subjetiva em que é colocado pelo paciente. “Não, eu não sou seu Salvador; sou apenas o guia de uma jornada que é sua“. Para fazer isso é preciso despir-se da vaidade e da sedução do controle, que inevitavelmente atinge a todos.
Porém, se nossa função é permitir que o nascimento cumpra sua função de empoderamento, é primordial a tarefa de vitrificar-se, tornar-se invisível e permitir ao outro a necessária expansão.
Como exemplo, eu recebi o email de uma mãe que disse estar muito ressentida comigo por não tê-la acolhido em suas dores em função do atendimento que recebeu de um colega da minha cidade. A crítica feita era ácida e acusatória. Quando li eu imediatamente saltei em defesa do meu colega, mas não no sentido de diminuir a dor de quem se sentiu agredida ou maltratada, mas por não aceitar “queimações” públicas contra quem não pode se defender. Ela não perdoou a minha “insensibilidade” diante da sua dor, mas ainda acho menos doloroso do que EU não conseguir me perdoar diante do linchamento público de um colega e amigo a quem muito admiro.
Enquanto os profissionais que assistem o parto ainda forem colocados na posição de controle absoluto do evento teremos o risco da idealização e do ressentimento.
Parto à Esquerda
As Esquerdas e a Humanização do Parto
Esta sempre me pareceu uma ótima discussão. Pelos relatos, artigos e filmes que tive conhecimento os modelos de parto nos países comunistas se baseavam em uma estrutura de autoridade, hierarquia rígida e cientificismo materialista muito fortes. Nesse contexto o afeto era algo pouco relevante, sendo considerado uma “fraqueza”. As rotinas obstétricas eram sustentadas com rigor e baseadas na otimização de pessoal e recursos, tal como em uma unidade militar. Os médicos eram os chefes supremos, com condutas e procedimentos inquestionáveis. Enfermeiras eram sargentões (muita piada se fez sobre as enfermeiras soviéticas no cinema). O modelo cubano tentou imitar ao máximo essas características.
Um parto domiciliar, que leva em consideração aspectos SUBJETIVOS da paciente, que deseja se livrar das rotinas despersonalizantes de uma maternidade, vai se posicionar na contramão do centralismo da medicina social comunista soviética. Qualquer coisa que lembre a valorização do subjetivo, do individual e de cunho pessoal será desmerecido nesse modelo.
Por isso é que o parto humanizado e domiciliar viceja nas democracias fortes e nos modelos mais liberais da Europa, como os países nórdicos e a Inglaterra. A Rússia e muitos países do leste convivem até hoje com modelos de parto muito violentos e grosseiros, onde ate a violência física contra as mulheres não é incomum. Ainda precisa haver um choque de humanização da assistência nesses locais.
No Brasil houve um movimento diferente e especial, pela conexão do parto humanizado com a contracultura hippie e – por sobre isso – uma luta dos setores mais progressistas da sociedade pela volta da democracia e o fim da ditadura. Esse caldo cultural propiciou a conexão dos humanistas (médicos, enfermeiras e outros) com as esquerdas.
Tal conexão provavelmente não ocorreu em muitos outros lugares, e nos Estados Unidos, por exemplo, tem um viés liberal e mais à direita. Em Cuba a atenção ao parto é hospitalocentrica e centrada no médico, e temas como parto domiciliar, casas de parto e parto por enfermeiras ainda estão longe de ser uma realidade.










