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Violentos

Um grupo de ativistas brasileiras invadem uma propriedade rural que produz transgênicos e que plantam pinus para “reflorestamento”. Sabemos o estrago que este plantio produz para as propriedades próximas e a ação é coordenada pelo MST – Movimento dos Sem Terra.

Uma parcela significativa das pessoas que comentam a notícia pedem mais respeito

Mas… o que é respeito?
Como definimos isso?

Um exemplo: brancos europeus de olhos azuis invadem terras no oriente médio e expulsam 700 mil pessoas de suas casas, argumentando serem descendentes de uma tribo que lá viveu há 2 mil anos. Exigem que sua pele clara e seus olhos azuis não cause confusão: “sim, somos descendentes dos velhos patriarcas que por algum tempo viveram aqui!!“, mas não se preocupam em arrasar vilas inteiras, incendiar casas, destruir famílias, matar mulheres e crianças no afã de “limpar a terra dos impuros” e expulsar pessoas cujos ancestrais cultivaram aquelas terras há milhares de anos.

Não satisfeitos criam “prisões a céu aberto”, enclaves superpopulados com grades, muros e checkpoints. Realizam prisões sem julgamento, encarceramento de crianças, tortura e toda sorte de violações aos direitos humanos. Exclamam em alto e bom som para todos que seu direito àquela terra foi dado por Deus, pois no livro sagrado que adotam (o mesmo que diz que o som de trombetas fez os muros caírem) existe uma “terra prometida” (por sorte não é no meu bairro).

Como discutir com pessoas que afirmam que o genocídio, o racismo institucionalizado e a limpeza étnica são determinações divinas?

Hoje em dia 5 milhões de prisioneiros vivem enclausurados em uma pequena fração da terra que durante milhares de anos foi o lar de seus ancestrais. Diante de tantas violações de tantos direitos internacionais reconhecidos seria razoável pedir àqueles cuja honra foi destruída que sejam “respeitosos”, “educados”, “comedidos” e que parem de reivindicar seu direito, referendado por todas as instituições de direitos humanos do planeta?

Por outro lado, seria justo pedir que as mulheres agricultoras fossem mais “equilibradas” vendo a destruição dos ecossistemas pelo agronegócio? “Educação” e respeito às estruturas de poder é tudo o que os “donos” pedem a nós. O objetivo é fazer as coisa aparentemente acontecerem, enquanto eles sabem que – no final – nada vai mudar.

Nunca Bertold Brecht foi tão atual:

Dos rios dizemos violentos, mas não dizemos violentas as margens que os oprimem“.

Dos “sem terra” dizemos radicais, mas não percebemos violento o modelo que os castiga.
Dos gritos dizemos barulho, mas não chamamos terror o silêncio que nos ensurdece.
Da luz dizemos ofuscante, mas não chamamos de morte a escuridão que nos cega.
Dos ativistas dizemos “vândalos”, mas não chamamos vandalismo as grades que os contém.

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Diários de Motocicleta

Eu usei a metáfora dos “Diários de Motocicleta” há uns 13 anos ao fazer a abertura do Congresso de Ecologia do Nascimento no Rio, representando a ReHuNa – Rede pela Humanização Do Parto e Nascimento. Numa cena deste filme o jovem médico – e asmático – Che (Guevara) precisa atravessar um rio gelado para atender os pacientes que precisavam de sua atenção do outro lado da margem. Movido por um impulso imperioso de dever e compromisso ético ele se arroja à corrente de água fria que retesa seu corpo e o sufoca, mas ao final vence a distância gelada com bravura e estoicismo. Os doentes precisavam dele; era sua obrigação servi-los.

Mais de uma década nos separa desta imagem de dedicação heroica aos pacientes, mas ela ainda continua fazendo sentido. Continuamos asmáticos e frágeis, mas do outro lado o número daqueles que procuram por nós só cresceu, expandiu-se para muito além do que esperávamos. Apesar das dores e da falta de ar continuamos nossas braçadas com vigor e resistência. O rio continua gelado e tormentoso, nossos braços aos poucos perdem o vigor da juventude, mas nossa teimosia humanista nos obriga a seguir.

Entretanto quando olhamos para o lado algo surpreendente ocorreu.

Não estamos mais nadando sozinhos.

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Algumas explicações necessárias

Inquisição

Para pensar:

“E se…
Ao invés de usar tanta energia para destruir os adversários de nossas convicções nós a usássemos para melhorar nosso conhecimento e combater apenas as ideias, e não as pessoas? Quando vejo ódio lançado contra os ideólogos em qualquer questão eu sempre penso que tais ataques denunciam, entre outras coisas, uma fragilidade argumentativa. Duas alternativas: ou o sujeito não consegue aclarar seu pensamento para elaborar bons argumentos ou pior: ele não acredita no que diz.

É assim em qualquer lugar e em qualquer movimento. Eu, pessoalmente, sempre achei que isso inevitavelmente ocorreria. Eu nunca consegui ser domado, e o meu pai ainda no último domingo me dizia isso: Ele me botava de castigo e eu saía, dava uma palmada e eu saía, gritava comigo e nada de eu obedecer. Lá pelas tantas ele desistia e ficava pensando em uma alternativa que não incluísse a morte por eletrocussão ou afogamento. Mas meu temperamento não aceita que minha natural espontaneidade sofra censura ou cerceamento. Eu disse uma série de coisas que mantenho, pois não são ofensivas a ninguém e estão em plena sintonia com meu pensamento de combate ao patriarcado e ao machismo. Algumas pessoas não entenderam assim. Eu me senti a “desquitada” convidada a se retirar do clube tradicional porque “não fica bem uma mulher solta demais entre tantas senhoras de família”.

Neste caso minhas palavras ofenderam as feministas mais aguerridas. Sinto muito se meus conceitos mostram demais as pernas, ou minha posição expõe demais o decote. Neste caso específico eu me afastei de qualquer adjetivação e qualquer ataque pessoal a qualquer uma delas, que continuo acreditando serem pessoas do mais alto valor moral, e ativistas da melhor qualidade. Apenas não aceitam que minhas palavras sejam ditas perto delas.

 “Um sujeito que na vida só teve amigos ou é bobo ou não fez nada. Cultivar algumas inimizades é fundamental e, para alguns temperamentos, inevitável.”

O link que gerou a discórdia é um texto meu chamado “Machismo” que pode ser encontrado neste blog.  Meu crime foi dizer que o patriarcado não é a mesma coisa que o machismo; são coisas bem diversas, apesar de estarem relacionadas. Porém, na origem são diversos. O primeiro é um sistema de poderes artificialmente criado no mundo inteiro para resolver problemas circunstanciais, principalmente pela mudança do modelo nômade para o agrário. O segundo é uma “naturalização” de algo que é artificial. Um machista acredita que a superioridade masculina na cultura, que ainda se vê hoje em dia, não é obra da cultura, mas da natureza. Isto é: os homens são superiores porque são “melhores”.

Por outro lado, tanto o machismo quanto o patriarcado podem e devem ser combatidos agora. Não apenas o modelo de poderes pode ser mudado (se houver paz) como todos os preconceitos devem cair por terra. Entretanto, a simples menção do patriarcado como uma construção social ofendeu algumas mulheres, que acham que o patriarcado foi criado por “ódio às mulheres“. Ora, nem o racismo é feito por ódio, mas por interesses políticos e econômicos.

Mas… essas ideias simples foram mal recebidas, e a minha expulsão por expor “ideias machistas” foi solicitada. Antes que alguém propusesse um debate sobre isso eu pedi para me expulsarem. Mas reitero: as pessoas que pediram a minha expulsão são excelentes pessoas e mães maravilhosas, além de profissionais da mais alta qualidade. Houve uma discordância comigo e uma posição de revolta contra as minhas ideias, o que eu respeito. Se minha presença é insuportável ou desagradável cabe a mim sair, sem dramas.

O patriarcado foi tão necessário que nenhum lugar do mundo ousou desprezá-lo. A opressão das mulheres foi um subproduto, mas o objetivo era proteger os núcleos que surgiam com a agricultura. Os vassalos e suseranos também eram oprimidos pelo senhor feudal, mas a proximidade do reino lhes conferia segurança, e por esta razão o feudalismo foi tão bem sucedido. Tentar colocar a simples opressão como objetivo me parece ingenuidade. Não é assim que o mundo constrói suas rotas.

Nunca houve nenhuma sociedade matriarcal no mundo que tenha perdurado mais do que alguns poucos anos. Rainhas Elizabeth ou Vitórias foram sociedades MARCADAMENTE patriarcais. O mundo vitoriano era machista e o pudor era sua marca. A era Vitoriana foi a época em que Freud estudou a histeria, que nada mais é do que a marca no sujeito de um campo simbólico fortemente patriarcal e obliterativo sobre a livre expressão sexual da mulher.

Matriarcado é um mito; só existe nas fantasias de Amazonas e Xena. E, ao meu ver, ele nunca existirá. Não precisaremos ter uma opressão feminina para chegarmos à equidade. Nem Malinowski, que se equivocou de forma dramática em várias interpretações de comportamentos nativos (como o não reconhecimento da mãe como corresponsável pela carga genética filial), acreditaria em sociedades matriarcais. Uma sociedade assim, se existiu, fracassou pela sua fragilidade. Não haveria como, no passado, as mulheres terem poder político num contexto de guerras e invasões. Esse é meu ponto de vista, que é bem simples. Pode ser questionado ou combatido, mas as agressões que eu recebi falam muito mais de uma aversão a minha pessoa e o que eu represento (um homem falando dos direitos das mulheres) do que a legítima discordância de uma tese.

Não. .. o que se precisava eliminar é a possibilidade de alguém pensar diferente. Por isso minhas palavras (“invasão“, por exemplo) foram distorcidas de forma covarde e interesseira. A tese em si era pouco: seria preciso me pintar como um monstro machista que acredita que os lugares na sociedade são fixos e determinados por Deus. Isso foi o que deixou clara a raiva contida contra mim. A criação do “espantalho” denuncia a fragilidade das motivações expressas, e a existência de razões inconfessas.

Não sou feminista. Digo isso porque sempre fui excluído do debate feminista. Não sou feminista em respeito ao feminismo, porque não me sinto em condições de debater com pessoas que não suportam que eu tenha ideias sobre esse tema. Sou aliado às principais teses do feminismo, e faço isso sem pertencer a nenhum “clube de mulheres” há mais de 30 anos. Entretanto não me filio e não me submeto a este movimento. Sou um livre pensador e isso é insuportável para muitas pessoas. Meu combate feroz ao machismo e ao patriarcado não precisa demonizar os homens e nem calar a sua voz, como eu vi e questionei.

Entenda: esse foi o meu crime: não concordar com a tese essencialista que coloca o patriarcado como uma invenção do “mal”. Quando faço uma leitura histórica (ela pode ser lida em Engels) do patriarcado como construção social eu não nego seus efeitos perversos para as mulheres, mas não preciso desconsiderar seu significado complexo e dinâmico. Posso ler o patriarcado da mesma forma como leio as ditaduras, tentando entender e contextualizá-las, sem a necessidade de criar justificar para sua aparição. Portanto, quem quer pregar a guerra de gêneros nunca terá em mim um aliado, e o cabresto que algumas mulheres quiseram me colocar nunca serviu.

Simone de Beauvoir entendeu a razão dessa construção, e percebeu também que o combate ao patriarcado não se dá demonizando-o (como as ditaduras) mas compreendendo seus contextos e suas características. Só entendendo as razões do nascimento e declínio do patriarcado é que poderemos planejar sua morte.

Vou repetir o que já falei anteriormente: as pessoas que se desentenderam comigo são grandes ativistas e mulheres inteligentes, e aqui não há nem um mísero grão de poeira de ironia. São mesmo pessoas muito especiais e vou continuar desejando o melhor para elas e seus trabalhos. Infelizmente as suas posições e, acima de tudo os seus desejos, não permitem que eu seja aceito, e não conseguiram tolerar minhas ideias a respeito da dinâmica de poderes nas relações de gênero. Fui muito claro e continuarei sendo: não há o que se desculpar. Mantenho minhas palavras e não retiro uma vírgula sequer, pois ainda acredito que elas estão corretas, salvo se argumentos suficientemente fortes me mostrarem o contrário.

Por outro lado, respeito o modo de ver de minhas “adversárias” (apenas neste debate). É assim que caminham as ideias ou, como dizia a minha mãe, “é nas quedas que o rio ganha energia”. Vou mais além: no dizer de Joseph Campbell “Where You Stumble Is Where Your Treasure Lies” (onde você tropeça, ali está seu tesouro). A humanização do nascimento se encontra em uma criativa encruzilhada, onde o ativismo feminista se encontra com as aspirações que enxergam o parto para além de um evento médico e para além de uma questão feminista, mas que opera para toda a humanidade. O debate, que poderia ser profícuo se houvesse mais compreensão e menos ataques pessoais, foi interrompido, mas será inevitavelmente reiniciado quando surgir um interlocutor mais hábil para trazer à discussão os temas que abordei. Como sempre eu disse algo que feriu pessoas e que as incomodou, mas penso no ditado japonês “Kokoro no sutemi” que fala de um “espírito de sacrifício” em que se deixa de lado a segurança e a estabilidade em nome de uma experiência com a unicidade.

É mais ou menos isso que sempre tentei oferecer: temas complexos ao debate das ideias, para que as arestas aos poucos pudessem ser aparadas em nome do crescimento de uma ideia em comum: o combate a um patriarcado cada dia mais anacrônico, a luta contra o machismo e outros sexismos, o empoderamento da mulher, seus direitos, suas conquistas e sua função de trazer os bebês ao mundo.

Sheila Kitzinger me disse uma vez do erro que ocorreu na Inglaterra quando Janet Balaskas foi convidada a se retirar de um grupo (agora não me lembro qual) a propósito de suas posições radicais (se não estou enganado algo a respeito de sua vinculação visceral com a liberdade de posição no parto). Sua saída acabou acarretando um atraso no debate da humanização do nascimento, e uma divisão desnecessária de um movimento nascente que apenas prejudicou a velocidade das transformações.

O mesmo fenômeno se repete agora. Uma questão que poderia ser tratada com uma conversa franca e sem emocionalismos acabou provocando um “manifesto” mal escrito e com uma série de inverdades, que mais revelam as mágoas e rancores de algumas ativistas do que um claro descontentamento com as ideias. Isso é ruim ao extremo, porque abafa a natural rebeldia das pessoas, mantém um pensamento monolítico e oficialista, não permite a criatividade e o livre fluir das ideias, e apressa a morte dos espaços de troca. Uma lástima, pois poderia ter sido evitado se o conflito se mantivesse no terreno das ideias. Sheila Kitzinger fala desse assunto em “The Politics of Birth“, um livro que deveria ser lido por “todxs xs ativistas” do parto e nascimento, para entender como agir diante de adversidades como esta. Sua postura de ativista do parto e feminista fica bem clara, e mostra como os radicalismos e as exclusões apenas atrasam o debate.

Meus escritos objetivavam fazer esta leitura: uma vivisecção (porque não haveria como fazer uma autopsia em um corpo que, mesmo envelhecido, ainda vive e respira) do patriarcado para entender sua existência desde o nascimento. Lembro dois fatos marcantes e que suscitaram o mesmo tipo de análise dolorida e marcante: o colaboracionismo francês sob o governo de Vichy na segunda guerra mundial e a ditadura no Brasil. Foi necessário entender os erros das esquerdas, as cegueiras dos resistentes assim como a docilidade francesa com a invasão teutônica hitlerista para poder banir a ditadura, o totalitarismo e o antissemitismo. Para acabar com o modelo patriarcal há que entendê-lo, mostrar porque esta escolha foi tão universal, tão forte, tão intensa e tão atual! Sem isso, e elegendo inimigos sem entender suas motivações e manobras defensivas, não poderemos prosseguir com avanços.

Outro ponto: Acho também que não devemos hiperdimensionar este fato. Existe uma linha ideológica que agora ficou bem evidente no “Vila”. É um portal de feministas que trabalham com o parto, o que é algo absolutamente respeitável (eu diria desejável). Entretanto, eu não sou feminista (pelas razões que já expliquei) apesar de defender há 30 anos com unhas e dentes todos os pressupostos feministas importantes e significativos aplicados ao nascimento. Como não suporto e não aceito cerceamento de ideias e obliteração de pensamento eu aceitei tranquilamente a minha expulsão. Sem traumas e sem dramas. Como podem ver pelo tamanho das minhas postagens, a minha vontade de escrever continua intacta, e espero que as meninas do Portal, livres do constrangimento gerado pela minha presença, possam continuar o trabalho junto às mães que sempre realizaram. É isso que eu honestamente desejo.

A resposta da sociedade nunca pode ser da mesma intensidade que aquela do sujeito. A primeira deve zelar pela civilidade. Já o sujeito, se incorre no crime, deve ser punido, mas a lei não pode ser tão ou mais violenta do que ele. Quando combatemos o modelo patriarcal e o machismo dominantes no cenário obstétrico não podemos responder com a mesma violência que testemunhamos na assistência ao parto. Como dizia Max sobre as falésias de Fortaleza:

Na costa desse recanto maravilhoso do litoral nordestino, erguem-se belíssimas e multicoloridas falésias, de onde se extrai a areia que é usada no artesanato local. Ao avistar as belas e altivas construções que embelezam o litoral, não pudemos deixar de imaginar por quantos milênios essas íngremes escarpas suportam a agressão continuada do poderoso oceano aos seus pés. Consegui, então, entender que, assim como elas, o processo de humanização do nascimento sofre com a violência daqueles que, por se negarem a enxergar a relatividade e a temporalidade de seus paradigmas, agridem o processo milenar do parto, acreditando serem as mulheres intrinsecamente incompetentes para conduzi-lo. Entretanto, não apenas o brio e a nobreza das falésias milenares nos trouxeram aprendizado. As coloridas encostas respondiam aos golpes do mar hostil colorindo de rosa as ondas que as agrediam. Da mesma forma deve proceder a humanização do nascimento, respondendo aos ataques do tecnicismo desmedido com a brandura das evidências e a suavidade de suas condutas.

(Entre as Orelhas – A Falésia do Parto Humanizado)

Assim deveria ser a nossa conduta: diante da violência desmedida modificar o paradigma e responder com suavidade e compreensão.Sim, mas como eu acho que a liberdade é o bem mais valioso, continuo fazendo a sua defesa e a da autonomia, em especial para as decisões das mulheres em relação aos seus partos. Foi pela minha defesa irrestrita disso, e pela minha particular visão do patriarcado, que fui expulso. Sim… eu fui convidado a me retirar, por pressão de outras meninas que lá escrevem. Portanto, sem meias palavras: expulsão é isso mesmo.

Não é fácil, para as pessoas movidas pela paixão do ativismo, se deparar com a decepção por alguém que não compactua com a visão dominante sobre um determinado tema. Isso é visto como uma traição, e a reação violenta que recebi foi por conta disso. As minhas falas eram vistas como um reforço de crenças alheias, e que deviam dar conta das expectativas destas pessoas, mas quando resolvi expressar uma opinião diversa do “mainstream” do feminismo – que para se fortalecer elege “inimigos” claros e fáceis de perseguir – eu fui jogado na fogueira e atacado com ferocidade por muitas ativistas. Num modelo muito emocional como este – eu circulo por diversos ativismos há décadas, do HIV, passando pela homeopatia, Palestina e Parto Humanizado – qualquer posição que relativize as bandeiras de luta é vista como uma heresia, uma deserção. Foi isso o que fiz para muitas delas: eu desertei da luta DELAS por tentar entender o patriarcado e o machismo sem as tintas que elas usam. Mas é claro: eu sou homem, branco, médico… nada pode ser pior que isso.

Essas “notas de esclarecimento” (foi publicada uma no blog do “Vila”) são documentos políticos. Não são a tradução exata do que ocorreu. Duas meninas que são articulistas do Vila pressionaram a K* pela minha saída. Outras pessoas, leitoras do portal (feministas e ativistas), também o fizeram. Ela me ligou tarde da noite muito constrangida se dizendo pressionada, e eu não tenho razões pra desconfiar disso. Para facilitar sua vida eu disse “faça o que achar melhor“. Ela então começou a explicar como funciona a “migração de conteúdo” e então eu saquei na hora que ela já há via tomado uma decisão, mas se pensava que eu me desculpar ia por pensar diferente estava enganada. Ela estava triste, mas desejava/gostaria que eu saísse. Eu apenas não dificultei nada para ela. Entendi seu sofrimento e compreendi sua dor, até porque sempre tivemos um bom relacionamento. Eu não faria o que ela fez, claro, mas não posso julgá-la.

Censurar alguém em nome de uma “pureza doutrinária”, ou como alguém falou, “podia ter escrito em outro lugar, mas não lá” me mostrou que as pessoas entendem a humanização do nascimento de forma fechada, dogmática e religiosa. Existem tabus, preconceitos e temas proibidos, que só podem ser tratados a portas fechadas. Então percebi que nunca deveria ter entrado em um portal com tal ordenamento; meu temperamento livre é avesso a isso. Deveria ter ficado quietinho e silencioso na minha caverna no “blogspot“.

Mas houve a pedra de tropeço e caímos. Resta agora levantar e seguir jornada porque, ao menos em tese, todos vamos para o mesmo lado.Eu prefiro olhar este episódio em perspectiva, e por isso eu acho que não é necessário que se dê tanta importância a isso. Essas crises sempre existem, em qualquer movimento de transformação. Se você for perguntar para qualquer uma das pessoas que me ofenderam qual a verdadeira razão para me atacar vai perceber que muitas delas nem sabem, ou pensam que é outra coisa. Portanto, sequer o debate foi “real”; ele foi uma espécie de catarse onde as pessoas fizeram discursos surdos, quase solilóquios, falando especificamente para o “Grande Outro” lacaniano, apenas para escutar em voz alta os seus próprios conceitos e a sua vinculação apaixonada com uma ideia. Na verdade nem era para mim que elas falavam, até porque eu concordava com 99% do que elas estavam dizendo (o problema do patriarcado, o machismo doentio da nossa sociedade, o parto sob o jugo de ambos, o machismo mortal e a importância de combater estes sistemas de opressão). Praticamente TUDO era concordância. Então porque as ofensas e o linchamento virtual?

Ora, porque não eram as ideias, era…. eu.

Eu hoje falei para uma menina inbox no Facebook que algumas manifestações de ativistas que são minhas queridas amigas eu as considero absolutamente reprováveis e contraproducentes. E porque não saio atacando ou batendo, chamando-as de “assassinas” ou “bandidas“, ou qualquer coisa assim? Bem, porque não é verdade, e também porque eu gosto dessas pessoas, mesmo que discorde. O problema não são as diferenças ideológicas, mas a rejeição à figura que represento.

No meu caso era o contrário: mesmo que eu estivesse 100% ao lado destas pessoas seria possível, torcendo uma palavra aqui (invasão) ou falseando um conceito ali (uma inexistente complacência com o machismo) e pronto: o inimigo está vestido para o jantar. Assim se cria o inimigo “espantalho” que desejamos, que fala o que não disse e nega o que em verdade disse existir. Quando eu disse que o patriarcado foi um “sucesso” (e isso é evidente, basta olhar qualquer sociedade no mundo) uma ex-amiga ativista interpretou viciosa e maldosamente esta frase como se eu estivesse exaltando o patriarcado e dizendo que as mulheres mortas pela violência que o patriarcado tolera eram coisas boas. Pessoas que usam este tipo de argumento cruel e mentiroso tem o coração cheio de ódio.

Esse foi o tipo de linchamento injusto e cruel que recebi, de pessoas absolutamente cegas pelas paixões e suas bandeiras, que se tornam mais importantes que as pessoas, mais importantes que as mulheres, mais importantes que o parto normal, mais importantes que bebês, da mesma forma que os fanáticos religiosos jogam bombas, pois seu fanatismo é mais intenso que o amor ao próximo que a própria religião ensina. A desautorização da fala dos homens no cenário do parto (quando ele é tomado pelo viés feminista, que é um dos olhares legítimos deste debate) normalmente é violento e cruel com qualquer homem que queira falar. E se ele discordar dos dogmas (como eu sempre fiz) é coberto com uma chuva de clichês machistas. Esse é o problema: não aceitar a interlocução e não respeitar o contraditório.  

Sabe… quando a Laura Gutman falou sobre os “abusos” eu não gostei à primeira vista, mas depois que eu li um psicólogo fazendo um ataque violento a ela percebi que era uma raiva pelo que ela é, e uma leitura viciosa do que ela disse. Quando o Michel falou contra o pai na sala de parto eu não gostei, mas depois vi que ele tinha uma ligação com a etologia que o empurrava para este tipo de visão do parto. Mas, em nenhum momento eu, nem mesmo por um segundo, duvidei das boas intenções e da idoneidade e integridade intelectual de ambos. Poderia discordar (com o Michel muitas vezes) mas continuar admirando e reconhecendo a grandeza do seu trabalho. Com a Laura, que eu conheço pouco, o linchamento que eu comecei a ver tinha muito mais a ver com os traumas de algumas mulheres do que com os conceitos que ela trouxe à discussão (que são questionáveis, mas passíveis de debate). Comigo o linchamento tem a ver com algumas feministas que passaram a me odiar no passado por uma discussão com uma subcelebridade da área.

Foi neste momento eu percebi que nada do que eu dissesse teria valor para elas. Nada mesmo, porque por enfrentar o poder monolítico de um discurso de exclusão masculina eu estava condenado eternamente. Portanto, o linchamento virtual – e até a defesa dele que eu testemunhei – não me surpreendem. Mas alguém tem que dizer que o Rei está nu, e que a agressão sistemática aos homens que participam do debate sobre o parto não ajuda ninguém. Vocês, por exemplo, acham mesmo que a discussão que iniciou toda esta celeuma era realmente sobre um “doulo“? Não, mas agora todos sabemos que não era… 

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Caza a las Brujas en España

Não é uma foto tirada no terceiro mundo, mesmo que pareça. É na Europa, na entrada do Centro Obstétrico do Hospital de Pontevedra, na Espanha. Vejam o sinal na porta: proibido doulas. Sim, graças ao famigerado documento produzido pelas “matronas” de lá os hospitais estão a vedar o ingresso das doulas. Entretanto eu vejo ali bem mais do que um simples “sinal”. Para mim trata-se da comprovação de que as doulas ameaçam o delicado balanço de poderes do sistema de atenção ao parto, fazendo-o pender perigosamente em direção ao polo historicamente mais fraco e negligenciado: as gestantes. Não há dúvidas que o rechaço lá, conduzido pelas enfermeiras obstetras – mas também o que vemos aqui patrocinado por alguns hospitais mais atrasados – se dá por conta do caráter revolucionário que tais personagens representam no cenário do parto.

Não é pelas “placentas comidas” (uma mentira que virou bandeira por lá), nem pelos óleos essências, as massagens, as canções cantadas em conjunto ou as lágrimas de alegria que elas – mães e doulas – compartilham em cada sucesso. Não, isso seria muito pouco para justificar uma perseguição e uma caça às bruxas. O fator preponderante é a ousadia de colocar a MULHER na posição de comando, reverenciando sua autonomia e liberdade reconquistadas. O que causa tanto horror é a mudança ameaçadora que a presença das doulas pode causar: as parturientes voltarem a ser o centro de todas as atenções e cuidados na assistência ao parto.

E isso, realmente, não pode ser tolerado.   Mas, olhando por uma perspectiva otimista, talvez seja este o momento de capitalizar o movimento. Muitas vezes é preciso “cutucar” a onça para ela acordar. Aqueles que defendem a plena autonomia das mulheres para fazer escolhas relativas ao seu parto, e as que combatem o machismo de nossas estruturas de assistência, precisam se unir contra este tipo de barbárie. Escrevam, manifestem-se, gritem, saiam às ruas. Esta é mais uma das proibições importas sobre as mulheres, e se elas calarem agora esta “mordaça” será institucionalizada como uma “verdade” na assistência, necessária e correta.  

Este é o texto de apoio publicado na Espanha…

Doulas Espanhol

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Sobre o Aborto

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Tenho uma opinião sobre os debates relacionados ao aborto que voltaram a aparecer: se você não consegue debater com racionalidade e sem explosões de raiva, melhor nem começar. Você inevitavelmente apelará para SUAS angústias, traumas, crenças e sofrimentos pessoais, e normalmente não convencerá a ninguém.

Estes debates se assemelham a um jogo de tênis em que não há rede, mas um muro. Cada jogador bate na bolinha (seus argumentos) solitariamente, como se não houvesse o outro, ou como se deles apenas soubéssemos da existência pelo barulho surdo da bola batendo no lado oposto da parede. O jogo em verdade não existe, é uma simulação de contenda. Nos debates emocionalmente conduzidos produzimos apenas solilóquios concomitantes.

Uma discussão pressupõe a oportunidade de aprendizado com o contraditório. Se você acha que seu oponente é incapaz de mudar sua opinião, mesmo que traga bons argumentos ao debate, o diálogo é estéril e desnecessário. Uma perda de tempo.

A pergunta que eu tento sempre fazer antes de entrar em uma discussão é a seguinte: “se meu oponente trouxer argumentos fortes e consistentes eu terei coragem de mudar meu posicionamento?” Se a resposta for “sim” então você pode (e deve) debater. Se for “não” então você está diante de um dogma pessoal, e qualquer enfrentamento de ideias será inútil.

Pense nisso antes de se desgastar em debates polêmicos.

Minha opinião sobre o tema?

Minha opinião sobre o aborto era uma, mas mudou. Não porque recebi novos e bons argumentos, mas porque resolvi escutar alguns velhos e simples que sempre estiveram por perto, mas que eu me negava a considerar. Essa é uma das poucas vantagens de envelhecer: poder mudar de opinião pelo acúmulo de experiências, o que relativiza a vida e nos obriga a rever posturas recalcitrantes.

Posso apenas dizer que jamais serei protagonista de um aborto. Fui pai aos 21 anos e quando soube que minha namorada estava grávida eu ganhava metade de um salário mínimo como estudante plantonista de um PS. Mesmo assim nunca pensei em aborto. Pelo contrario: fiquei eufórico pela possibilidade de ser pai. Na época minhas convicções espirituais eram muito mais fortes do que qualquer outro modelo ético ou jurídico. Durante anos fui contra a legalização do aborto com os argumentos que todo mundo conhece e usa.

Entretanto, com o tempo me dei conta que os mesmos argumentos de combate ao aborto poderiam ser (e o são efetivamente) usados no combate ao uso de drogas, mas nunca tivemos tanta certeza quanto hoje de que AMBAS as guerras estão inexoravelmente PERDIDAS. Os jovens continuam a se drogar (e para mim a pior droga é o capitalismo, que dá prazer e vicia) e continuam a ter gravidezes não planejadas (não creio – salvo exceções – em gravidezes não “desejadas”. O desejo sempre está lá, basta procurar) para as quais preferem o aborto como solução imediata.

Exatamente pela constatação de que estamos diante de guerras fracassadas eu prefiro um armistício: liberem e deixem a responsabilidade para os sujeitos: a mulher e o drogado. Deixemos para eles o peso de suas decisões, mas vamos evitar as mortes, de grávidas e de traficantes, pela nossa incapacidade de entender o direito que eles têm de construir seus próprios caminhos. Da mesma forma como não farei um aborto em minha vida também não usarei drogas (a não ser quanto a torcer pelo meu time, mas está é outra discussão que envolve irracionalidade e paixão).

Por outro lado, em respeito à vida destas mulheres e meninos, vítimas de guerras estúpidas que apenas beneficiam bandidos, sou favorável à liberação do aborto e das drogas.

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Primeira Emenda

Liberdade e escravidao

Percebo com pesar que no meio onde vivo apenas duas pessoas consideram o “First Amendment” uma peça civilizatória altamente correta e sofisticada: eu e o meu pai. Creio que esta coincidência se dá pelo fato de termos sido queimados em fogueiras vizinhas em um passado não muito distante por dizermos coisas que desagradaram certos poderosos. Apesar do tempo ter confirmado a correção de nossas afirmações a Verdade ainda é uma prova insuficiente para arrefecer as chamas inclementes.

Aqui, na parte de baixo do planeta, defender o direito sagrado que um idiota tem de dizer o que pensa significa o mesmo que associar-se à sua idiotia. Para a maioria das pessoas Charlie Hebdo devia ser calado porque – para elas – esculachar uma religião é errado; para mim não se pode calar a crítica e muito menos cercear a liberdade de expressão, mesmo que o preço seja alto e custoso. Defender Charlie NÃO é o mesmo que defender a islamofobia, mas significa a defesa da livre manifestação crítica, e o respeito ao direito de se expressar, mesmo de forma jocosa, sobre qualquer questão.

Talvez as minhas queimaduras tenham me proporcionado uma visão radical e mais firme sobre a importância fundamental da liberdade como propulsora da cultura, mas a verdade é que ainda não encontrei argumentos suficientemente fortes para me demover da opinião de que nenhum governo ou instância social pode proibir a livre manifestação de pensamentos, por piores que eles possam parecer. Prefiro o pagamento de qualquer preço, mas não posso aceitar que uma sociedade tenha possibilidade de evoluir amarrada por dogmatismos de qualquer natureza.

Mas, por aqui, só me cabe a resignação e o reconhecimento de que minha visão é francamente minoritária. As condenações que vejo às idiotias não tem o tom democrático que eu admiro. Eu acho que não se evolui nas ideias impedindo os outros de se manifestarem. O que devemos fazer é produzir um posicionamento FORTE e INTENSO contra posturas misóginas, racistas ou sexistas, mas não impedir a manifestação do contraditório, seja ele qual for. Não esqueça que o debate sobre o heliocentrismo já levou pessoas que o defendiam à fogueira apenas por pensarem de forma diversa do modelo hegemônico.

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Porque patologizamos o parto?

A análise acima do livro “O Doente Imaginado“, de Marco Bobbio, se refere à construção de uma entidade nosológica a partir de sintomas comuns, como constipação. O objetivo é introduzir um medicamento com abrangência gigantesca e com lucros igualmente incalculáveis. Pensem em quantas pessoas conhecidas tem “intestino preso” e imaginem o mercado de drogas para este sintoma.

Entretanto as mesmas regras usadas para transformar transtornos comuns em doenças podem ser utilizadas para fazer a mudança da nossa percepção do parto, de evento fisiológico para uma patologia perigosa e traiçoeira. Toda uma cultura sobre o parto se construiu sobre esta deformação da realidade, que desvia o olhar para a riqueza de fenômenos adaptativos milenarmente construídos por sobre a arquitetura fisiológica do parto e incentiva uma visão demeritória, depreciativa e patologizante da mulher parindo.

O roteiro é o mesmo descrito no texto para a criação de doenças. Basta escutar os especialistas em “patologia obstétrica” para ficar convencido que as mulheres apenas sobrevivem aos horrores dos partos em função das técnicas, drogas, especialistas e os locais altamente tecnológicos elaborados para atender a este evento arriscado.

Os passos são idênticos:

1 – Fornecer números: des-subjetivar o evento e transformar o parto em um fato meramente epidemiológico, longe da subjetividade e da individualidade de cada mulher parindo.
2 – Despertar temores: mostrar cada evento catastrófico como sendo o destino certeiro de toda a mulher que ousar parir de forma natural e fisiológica.
3 – Sugerir exames: ecografias sem embalsamento científico em todas as consultas de pré-natal, uso de vitaminas sem sentido, manipulações exageradas nas consultas e uma postura autoritária dos profissionais.
4 – Banalizar a solução: entregue as decisões na mão de quem “sabe”. Não questione, não pergunte, não desconfie; apenas obedeça. Afinal, eles sabem tudo o que pode acontecer de errado com você.

Quando e por quê tornamos o parto uma patologia que merece ser tratada e medicada?

“A construção da percepção patológica do nascimento na cultura ocidental, e a subsequente aceitação pelas mulheres desta visão, é um dos capítulos mais fascinantes da história da mulher no ocidente, e um dos menos estudados, por razões históricas e contextuais. Entretanto, creio que a plena libertação das mulheres dos entraves da cultura patriarcal não se dará negando seus aspectos mais femininos. Pelo contrário, será pelo reforço de suas especificidades.”

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Sobre as Medidas

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Sobre as últimas medidas do governo relativas ao parto…

Ninguém tem interesse em restringir o direito de escolha para as mulheres. Isso não está escrito em nenhuma normativa do Ministério da Saúde e não há como interpretar dessa forma quando se conhece o texto e a intenção das medidas. Pelo contrário, o que se pretende é oferecer alternativas VERDADEIRAS, e não as falsas opções que nos acostumamos a ler e ouvir. Vemos com frequência as mulheres sendo obrigadas a optar por aquilo que não desejam, mas que são condicionadas a escolher, seja por um medo induzido, por pressões diversas e por uma cultura que criminaliza o parto de forma tão vigorosa que muitas mulheres acabam rechaçando uma função vital e um processo fisiológico natural como o nascimento pela via vaginal. As medidas do governo pretendem estancar a hemorragia de indicações cirúrgicas esdrúxulas, maquiadas com desculpas que tristemente conhecemos: “a dor é terrível” (mas a cesariana é bem mais dolorosa e a dor permanece por mais tempo), “a cesariana é segura” (verdade, mas o parto normal é MUITO mais seguro, para mães e bebês), “o cordão enrolado sufoca” (outra lorota, pois 38% dos bebês nascem com circulares e muito bem), “bebês grandes“, “bacias pequenas” (avaliados pelo “olho” do cirurgião), “falta de passagem” (leia-se “falta de paciência“), “sofrimento fetal” (excesso de intervenção, abandono, oxitocina e decúbito forçado) e tantas outras “viagens” que conhecemos.

Quanto às mulheres que optam por cesarianas, eu ainda acho que em nome do protagonismo pleno vale a pena aceitar esta escolha. Porém é preciso garantir que estas mulheres estejam informadas das vantagens e desvantagens dessa opção, e de que essa escolha AMPLIA os RISCOS tanto para ela quanto para o seu bebê. Todavia, eu ainda questiono se o SUS deve pagar esta conta. Uma cirurgia de nariz meramente estética (sem indicação médica curativa), ou de mamas, barriga, implante de cabelo, etc… não é custeada pelo SUS (isto é, todos NÓS), pois não é um tratamento médico, mas estético. Uma cesariana sem indicação clínica (física ou psicológica) poderia cair na mesma definição. Acho, entretanto, que se trata de um ponto aberto para o debate, e não acho que se deva fechar questão sobre este aspecto das medidas.

Uma mulher que deseja ser operada para o nascimento do seu filho pode fazer esta opção, que é válida e deve ser respeitada, por mais que me desagrade pessoalmente (mas a minha opinião não vale NADA diante da opção legítima de uma mulher). Entretanto não consigo enxergar um exagero ou uma pressão pelo parto normal. Vejo algumas mulheres ofendidas com a ênfase que se dá à fisiologia do nascimento, e se sentindo mal por escolherem o oposto que os estudos mostram, mas estas mulheres certamente pertencem aos 30% que escolhem cesarianas desde o princípio, e sobre ela pouco temos para agir, até porque respeitamos suas escolhas. Todavia, estas medidas se dirigem principalmente às outras SETENTA POR CENTO  de gestantes que desejam partos NORMAIS e acabam fazendo cesarianas, que NÃO foram a sua escolha inicial quando se souberam grávidas. Para as mulheres que escolhem a via cirúrgica mesmo depois de confrontadas com os riscos aumentados para ela e para o seu bebê, só podemos respeitar esta decisão, e sem julgamentos. Infelizmente muitas mulheres ainda acham que expor estatísticas e estudos é ofender sua opção, quando na verdade é apenas a tentativa de oferecer escolhas verdadeiras e éticas.

A propósito, o número de mulheres que PEDEM cesarianas no início de uma gravidez é de 30% no setor privado, mas muito menor no setor público. Mesmo aqui no Brasil a imensa maioria das mulheres escolhe respeitar a fisiologia de um parto. As mulheres mais pobres percebem facilmente como uma cesariana é de recuperação mais difícil e lenta. Ela também prejudica o seu trabalho diário de cuidar da casa e dos filhos. Estas bravas mulheres também conhecem as vantagens infinitas de um parto fisiológico sobre uma cirurgia. Mas… sabem qual é o percentual de mulheres que fazem a mesma opção na Inglaterra? Menos de 2% escolhem uma cesariana quando iniciam o pré-natal. E por quê? Certamente é porque elas não temem os maus tratos e o abandono que muitas mulheres relacionam com o parto normal. A violência obstétrica lá é uma coisa muito distante, enquanto aqui é o dia-a-dia. Para mudar a mentalidade antiga de “parto-sofrimento-dor-angústia-trauma” é necessário que transformemos a CULTURA através de medidas proativas, na direção que está sendo oferecida pelo governo. Algumas medidas podem ser impopulares entre os profissionais, podem irritar as corporações e as instituições que nunca aceitaram ser questionadas, mas seguramente são um avanço pela democracia plena no acesso à saúde e na ampliação do espectro de escolhas que as mulheres podem ter.

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Crise

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Como todo movimento social que ameaça poderes instituídos – em especial o biopoder – a humanização do nascimento cresce de forma lenta, consistente e continuada. Em muito lugares, apesar do recrudescimento de posturas autoritárias por parte de alguns profissionais, a proposta de rever criticamente o modelo de atenção ao parto mostra-se cada vez mais atual e forte. Novas doulas estão surgindo e novos profissionais – mais preparados para a “nova obstetrícia” – começam a tomar o lugar ocupado até então pelo velho paradigma.

Para atender o contingente cada vez maior de mulheres bem informadas sobre o tema a autoridade inquestionável do profissional já não é mais suficiente. Empatia, gentileza, respeito e atualização tornam-se, a partir de agora, elementos indispensáveis, ferramentas fundamentais na atuação profissional, junto com a parceria necessária com os outros profissionais que participam no parto.

Por outro lado, é constrangedor ver o que escrevem alguns representantes da categoria obstétrica. Ao invés de continuarmos afirmando absurdos – como a cesariana não causa mal – e se colocar de costas para o RESTO DO MUNDO que se preocupa com o excesso de cesarianas, melhor faríamos se tivéssemos uma postura crítica, dura e profunda, aproveitando o momento de crise que estamos vivendo na atualidade. Estas circunstâncias históricas nos proporcionam oportunidade de refletir sobre os rumos que a tecnocracia aplicada ao parto nos levou, e estamos perdendo tempo tentando tapar o sol com a peneira, caindo no ridículo e atrasando o progresso do debate.

Sim, cesarianas multiplicam a morbi-mortalidade de mães e bebês, e para isso temos boa ciência para confirmar acessível facilmente na Internet. Os próprios pacientes já sabem disso. Tentar usar refrões como “o direito de decidir” das pacientes apenas esconde o desejo de que as coisas se mantenham como estão, e que as pacientes continuem a realizar cesarianas (principalmente no setor da medicina suplementar) pela forte pressão psicológica que sofrem de todos os lados, inclusive dos profissionais.

O momento é ideal para a reavaliação dos rumos da assistência ao parto, exatamente pela crise de valores e pelo crescimento de uma postura mais consciente por parte dos pacientes. Não há mais como atender gestantes e acreditar que elas são ignorantes do significado amplo – psicológico, fisiológico, mecânico e espiritual – de um parto e de uma cesariana. Os novos médicos vão encontrar as “novas mulheres” que já cresceram com a Internet na ponta dos dedos e que sabem exatamente do que trata a medicina baseada em evidências e o que são direitos reprodutivos e sexuais.

Espero que estejam preparados.

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Violências e gênero

Violencia Mulher

A violência contra as mulheres é uma ferida aberta em nossa sociedade. Ponto. Não há como negar esta realidade e nem é possível colocar panos quentes em uma tragédia cotidiana que tira a vida de centenas de mulheres todos os anos por um machismo violento e desmedido. Por outro lado, eu creio ser possível complexificar a questão, mesmo sabendo que qualquer sujeito que fale da violenta perpetrada PELA mulher será sempre julgado como “machista”, insensível, ou que vê o cisco e não enxerga a trave diante de seus olhos. Porém, quando uma mulher inteligente, aparentemente madura, com curso superior e bom emprego te conta que há 5 ou mais anos apanha sistematicamente do seu parceiro(a) fica a dúvida até que ponto existe uma violência doentia por parte do parceiro e quando, associado a isso, há uma patologia da relação que faz aparecer nela um gozo (não confundir com prazer ou vontade) de apanhar. Estudar este gozo é fundamental para que esta mulher desfaça um sistema de violência que se retroalimenta. Acontece muito com alcoolistas: uma menina testemunha as violências aplicadas na mãe pelo pai durante toda sua infância e quando mais tarde se casa, adivinha quem é o marido? Um alcoolista violento. Ela repete a cena infantil em sua relação adulta.

Dizer que uma mulher participa inconscientemente de um jogo erótico patológico destrutivo NÃO é a mesma coisa que dizer que “ela pediu“, ou que “ela merece“, e muito menos que o parceiro dela está desculpado, perdoado ou é inocente. Significa apenas que ela também precisa ser ajudada para que possa fugir do padrão. Caso contrário ela corre o risco de se separar desse sujeito perturbado e encontrar outro drogadito violento, por nunca ser capaz de entender o que a levara a procurar relações em que sofre e é violentada. Existe um campo de estudo e pesquisa da psicologia (e da criminologia) chamado “vitimismo” que estuda as relações patológicas de pessoas que sempre são vítimas de relações ou situações deste tipo, mostrando haver um determinismo psicológico inconsciente que as leva a se colocar neste modelo de relação. Eu mesmo conheci uma mulher, minha paciente, que namorou três sujeitos na vida, e todos eles acabaram se mostrando no transcorrer da relação como homossexuais, o que pôs fim aos relacionamentos. Ela ficava muito decepcionada e não acreditava como podia ser tão azarada. Nunca acreditei na tese que ela mesmo trazia do azar, mas o caso dela parecia provar um tropismo por trejeitos e manifestações sutis que ela identificava como atrativos, e a surpresa pela descoberta da homossexualidade operava na ordem do inconsciente, ao invés de conscientemente percebido.

A violência das mulheres só é mais branda porque elas são fisicamente e politicamente mais frágeis. No filme  “O Senhor das Moscas” este tipo de ilusão é desfeito não com relação às mulheres, mas com os pequenos. Nós temos a ilusão de que as crianças são “do bem“, anjinhos inocentes e carentes, apenas porque NÃO conseguem fazer muito mal, pela sua fragilidade. Esse filme desmistifica a “candura” das crianças, assim como Freud desmistificou as relações eróticas que elas estabelecem com suas mães.

As mulheres não batem em maridos – ou os agridem com a mesma intensidade e frequência – apenas por serem frágeis e não por serem virtuosas. Esse essencialismo “mulheres do bem, homens truculentos e violentos” é tosco e tolo. Basta até você acompanhar os relatos de violência doméstica para perceber que, em muitos casos, a mulher foi vítima apenas porque era a mais fraca e não porque era moralmente superior, mais calma, ponderada, ou uma vítima silenciosa. Não é justo tratar os homens desta forma estereotipada, porque isso não ajuda a causa das mulheres. Temos que combater a violência contra a mulher sem romantizar estas relações e entendê-las como uma interação patológica de gozos destrutivos, em que ambos tem responsabilidade, mas que uma parte – a mais fraca – corre sério risco de vida.

Quando falamos de minorias como as mulheres (são maioria, mas politicamente e socialmente podem ser consideradas uma minoria) qualquer menção às perversidades femininas – inclusive em uma relação violenta por parte do parceiro – será julgada como “acusar a vítima“, quando na verdade muitas vezes se usa para que fique claro que uma relação é SEMPRE uma dualidade feita da interação de sujeitos, amalgamados e entrelaçados em seus fantasma. Se não é justo absolver os homens das violências e mortes praticadas, também é certo entender que nessa junção de almas existem parcelas de responsabilidade em ambos os sujeitos.

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