Arquivo da categoria: Causa Operária

Futebol Moderno

Suspeito que o futebol no Brasil esteja se tornando um claro reflexo da senescência capitalista, como já havia previsto Marx. Primeiro deixou de ser associativo e passou a ser financiado pelas empresas e corporações industriais, através da publicidade nas camisetas e em todas as ações do clube. O sócio e suas mensalidades já não são suficientes para arcar com as despesas do clube, magnificadas dentro de uma bolha nutrida pela relação apaixonada que temos com as agremiações. Depois disso, com o crescimento exponencial dos custos com seus astros e suas arenas modernas, tornou-se dependente de bilionários e investidores, que usam o futebol como trampolim para seus lucros. Muitos destes mecenas futebolísticos são conhecidos por seus negócios escusos em várias áreas, repetindo o que acontecia com o “jogo do bicho” e seus investimentos no Carnaval.

Grandes e tradicionais clubes europeus já são controlados por príncipes Árabes ou novos ricos do leste europeu, cujo dinheiro surgiu do desmantelamento da Europa socialista. No Brasil clubes centenários como Botafogo, Vasco, Coritiba e Bahia já estão sob o controle de magnatas que usam o futebol como negócio; outros, como o Atlético Mineiro e o Santos estão em vias de se tornar. Hoje em dia se discute quem conseguiria escapar da sanha privatista do futebol. As SAFs (Sociedades Anônimas de Futebol) estão se tornando a única saída viável para um esporte que se torna cada vez mais hipertrofiado.

Agora o próprio futebol, em nível internacional, migra para os países da península arábica, criando um polo de futebol midiático, lotado de jogadores ricos, príncipes excêntricos e petrodólares, onde o futebol se torna uma mera renda extra para as atividades de publicidade dos artistas da bola. Hoje os clubes brasileiros estão atolados em dívidas, algumas delas na casa do bilhão de reais, enquanto jogadores medianos tem salários de até 2 milhões mensais, mas ao mesmo tempo em que esse espetáculo de luxo acontece pela TV a classe operária é alijada do show, expulsa dos estádios luxuosos, impossibilitada de torcer pelos seus times dentro do estádio. A gentrificação e a gourmetização tiraram a alma dos clubes, tornando-os um produto de luxo. O esporte mais popular do mundo, está perdendo sua raiz social ao impedir o povo de frequentar os lugares onde o ludopédio é praticado. Os torcedores das classes populares foram expulsos dos estádios, tornados shopping centers para as classes média e alta.

O futebol moderno talvez seja uma das primeiras bolhas a explodir. A conexão do povo com o esporte aos poucos se enfraquece, e a paixão – que se nutre dessa conexão – vai lentamente fenecendo.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Pensamentos

Imprensa

Eu costumava escutar rádio pela manhã, ao dirigir para o consultório. Sempre ligava num programa de informação e entrevistas de uma estação filiada à Globo da minha cidade. Em uma dessas manhãs, próximo do impeachment da presidente Dilma, o programa matutino entrevistou o então promotor do MP Federal Deltan Dalanhol, que naquele momento desfrutava a condição de celebridade, e estava no auge da fama. Acumulava palestras e viagens, inclusive nos mais importantes “talk shows” da TV brasileira. Logo após a entrevista, que descrevia com entusiasmo mais uma das operações midiáticas da Lava Jato, o âncora da estação de rádio fez uma declaração apaixonada para o “garoto de bochechas rosadas”, deixando clara sua admiração pelo “grande brasileiro” que estava acabando com a corrupção e os corruptos, colocando a impunidade dos poderosos em nocaute. Nada poderia ser mais explícito do que a admiração daquele jornalista ao justiceiro da Lava Jato.

No horário do almoço, no intervalo das consultas, eu escutava o programa mais longevo do rádio do meu estado: o Sala de Redação, uma resenha de futebol, cotidiano e costumes que ocorre todos os dias de semana a partir das 13h há mais de 40 anos. No dia em que o ex-juiz Sérgio Moro assumiu o Ministério da Justiça o debate (sobre futebol) foi interrompido para transmitir seu discurso de posse. Quando ele terminou sua “elegia ao punitivismo”, o programa foi retomado com aplausos e elogios rasgados ao ex-juiz por parte de toda a bancada, tratando-o como um herói nacional, um ícone da justiça, que estava diante da chance de colocar seu nome na galeria de grandes personagens históricas da República. “Ele é a nossa grande esperança”, disseram alguns. Por “nossa” eles, por certo, falava em nome da classe média ressentida, aquela franja da população que sempre foi o suporte para o bolsonarismo.

Lembro com detalhes dessas datas porque estes foram os últimos programas de notícias e opinião que escutei no rádio. Deixei de ouvi-los ao notar que a imprensa estava totalmente cooptada, agindo em sintonia para dar apoio a um governo de absurdos, capturada pela propaganda anti-esquerda, anti-Lula e em ataque constante ao PT, que fechou os olhos durante vários anos para o despreparo de Bolsonaro, sua incompetência e sua desonestidade, assim como para os abusos evidentes do Ministério Público Federal e do juiz Sérgio Moro. A mesma imprensa que fez livros exaltando o juiz Moro e a Operação Lava-Jato e que jamais empreendeu uma mea-culpa, jamais se desculpou das mentiras e dos “canos de esgoto“, e que nunca realizou a necessária autocrítica sobre o desastre de sua cobertura jornalística, das jornadas de junho até a prisão de Lula.

Quando na noite de domingo de 9 de junho de 2019 foram divulgadas as provas do “hacker de Araraquara” – Walter Delgatti – inicialmente pelo Intercept na figura do seu antigo representante, o jornalista americano Glenn Greenwald, o Brasil parou. Daquele momento em diante os caçadores se tornaram caça, e o mundo de fantasias criado para elevar à condição de heróis nacionais um juiz parcial e procuradores alucinados do Ministério Público começou a se desmanchar como um castelo de areia com a chegada da maré alta. Essa foi a primeira etapa de um longo processo de desconstrução, e que agora joga os personagens Moro e Dalanhol no fundo do poço. Pessoalmente, senti alívio ao constatar que estivera certo o tempo todo, e que não errei ao abandonar a audiência das empresas do jornalismo corporativo que deram o suporte para os golpes em sucessão que se abateram sobre nosso país, jogando na lama sua credibilidade. Não sinto falta alguma da manipulação a que todos somos submetidos cotidianamente pelo jornalismo burguês e hoje posso dizer que perdi a confiança em qualquer empresa jornalística cujos compromissos com quem a financia impede a emergência da verdade. Jornalismo só existe se for livre; sem isso temos apenas propaganda e jogo de interesses travestidos de notícia.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Política

Lobo em Pele de Cordeiro

Prestem atenção no voto do todo-poderoso Ministro Alexandre de Moraes: caso você tenha a oportunidade pouco agradável de um encontro com a polícia, não ouse correr. Se você se afastar da polícia (entre outras razões, porque tem medo de ser morto por um policial mal treinado e em pânico), isso dará aos policiais o direito de invadir a sua casa – mesmo com o uso da força, derrubando sua porta à patadas – sem mandado judicial e sem flagrante delito, apenas por ter se portado de forma “suspeita” (como dizem os americanos, de forma irônica: “suspicion is a felony or a misdemeanor?”). Ou seja: uma atitude “suspeita” – segundo os critérios subjetivos do policial – poderá justificar a invasão da sua casa. Essa invasão violenta do Estado ao caráter “inviolável” do domicílio foi defendida pelo “Príncipe da Democracia”, Alexandre de Moraes.

A sedução de aplaudir o algoz do Bolsonaro assumiu proporções quase incontroláveis. Espaços virtuais como “esquerda compra de esquerda” já vendem memorabilia com a face do “Xandão”, tratando-o como um verdadeiro ícone nacional. Passamos a tratar como herói um sujeito cuja história é marcada por episódios de autoritarismo explícito. A exaltação do ministro psdbista por sua ação nas últimas eleições é uma profunda ingenuidade, pois que sua postura autoritária se tornou evidente desde o episódio do corte dos pés de maconha.

Esse pendor para as ações punitivas não deveria causar espanto no campo progressista, mas boa parte da esquerda liberal ainda se deixa seduzir por frases de efeito, demonstrações de virilidade e ações pirotécnicas. Alexandre foi indicado pelo golpista Temer, o que já deveria nos causar repulsa, e suas posições sempre tiveram como norte uma perspectiva arrogante e autoritária. Aplaudir suas ações é um ato de expressa ingenuidade que a esquerda raiz deve repudiar.

E vejam bem; os lavajatistas confessos Facchin e Barroso foram contrários a tese da liberalidade oferecida às forças repressoras do Estado de invadir sua casa. Ou seja, até mesmo os ministros mais reacionários compreendem a gravidade de permitir estas invasões e defendem a manutenção da proteção do cidadão diante do poder massacrante da polícia. Para a surpresa de nenhum marxista consciente, Xandão se associa às forças sociais mais retrógradas e escolhe a perspectiva abusiva que atropela o direito individual.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Política

Isonomia

Se a esquerda reclamava – e hoje sabemos, com razão – do ativismo jurídico da Lava Jato e seus métodos medievais de tortura, precisamos lutar para que isso jamais se repita, inobstante a vítima que esteja sendo submetida a este processo desumano e cruel. Exigir que as delações citassem Lula para que a delação fosse aceita e o preso fosse liberado foi uma praxe entre os procuradores em conluio com o juiz de Curitiba. Todavia, este tipo de prática abusiva e imoral é literalmente o mesmo que exigir dos atuais prisioneiros da operação da Polícia Federal que investiga os atos ocorridos em 8 de janeiro que citem a participação direta de Bolsonaro. Condicionar estas delações seletivas à liberação da prisão é o que se condicionou chamar de “tortura” quando o perseguido era Lula. Deveria ser diferente com nossos adversários?

E vejam; isso não significa que Bolsonaro seja inocente, que não tenha participação nos atos de 8 de janeiro. Não significa também que ele não tenha sido a mente por trás dos atos golpistas e da manifestação tosca e histérica (desculpem o termo aparentemente machista) de uma turba de celerados gritando palavras de ordem, misturando exortação ao “espírito santo”, com o “juízo final”, “Jesus”, Olavo de Carvalho e o coronel Ustra. Entretanto, não podemos incorrer no mesmo erro que causou a debacle da Lava Jato. Qualquer ato que demonstre um interesse em penalizar Bolsonaro e sua turma para além dos crimes deveras cometidos corre o risco de produzir nulidades e oferecer ao ex-presidente o destaque que 20 milhões de brasileiros ainda acham que tem.

Quem luta pelo Estado Democrático de Direito não pode ser oportunista – a lei deve ser igual para todos. Acreditar que os problemas da democracia brasileira estão atrelados à figura burlesca de um Bolsonaro com as calças sujas de farinha atirando perdigotos para sua claque ainda não entendeu os reais dramas da democracia liberal brasileira. Se acreditamos que a exaltação de um juiz parcial e desonesto por parte da mídia corporativa era inadmissível, pois que sua conduta era arbitrária e autoritária, porque não temos o mesmo sentimento ao ver os arroubos de estrelismo do ministro calvo disparando sentenças claramente punitivistas? Por que devemos acreditar que os abusos de Moro são muito piores do que o de ministros do STF, que há poucos meses pisavam na Constituição para manter preso e alijado das eleições o presidente Lula? Se não houver um cuidado muito preciso com cada passo na direção da adequada punição a Bolsonaro a militância fascista e de extrema direita vai afirmar (talvez com razão) que se trata de uma perseguição política contra Bolsonaro. Não temos o direito de fazer contra os bolsonaristas o que os acusamos de fazer contra nós.

Não vejo necessidade de pressa para punir Bolsonaro; prefiro que seu julgamento seja justo e estritamente legal, mesmo que tenhamos que esperar até que todas as condições legais sejam cumpridas. Isonomia é um direito de todos nós, e abrir exceções apenas para dar vazão ao nosso desejo de vingança pode ser motivo de arrependimento logo adiante.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Política

Embriões

No dia seguinte ao ataque das Torres Gêmeas, há exatos 22 anos, eu estava auxiliando uma cirurgia num hospital da cidade. Comentei com a minha colega cirurgiã que de tanto ver os Estados Unidos lançando bombas em outros países chegava a dar um certo prazer mórbido de vê-los sofrendo do mesmo mal que aplicavam no mundo inteiro. Por acaso houve consternação em solo americano quando um terço da população da Coreia Popular morreu nos escombros dos bombardeios americanos? Alguém teria se chocado nos Estados Unidos quando soube das ordens dadas aos combatentes para que destruíssem toda a infraestrutura – escolas, hospitais, rede elétrica, saneamento – coreana nos anos 50? E os vilarejos inteiros varridos pelas bombas de Napalm no Vietnã? E o que dizer sobre as 250 mil mortes instantâneas causadas pelas bombas nucleares lançadas sobre as populações civis em Hiroshima e Nagasaki? Quem lamentou por eles? Havia à época jornalistas chorando em frente às câmeras, tendo a fumaça das bombas como fundo de tela?

Imediatamente surgiu por detrás da cortina que separa os campos cirúrgicos a cabeça do anestesista. Intrometendo-se em nossa conversa, estava absolutamente irado. Em suas palavras me acusava de estimular o terrorismo, quando em verdade eu apenas denunciava o terrorismo de Estado praticado pelo imperialismo há décadas, desde o final da segunda guerra mundial – e até antes disso. Mas o anestesista não se conformou com minhas explicações. Passou a atacar o comunismo, a Coreia, depois a China e terminou (que surpresa!) em Cuba. Em poucos segundos completou o circuito dos reacionários, vociferando lugares-comuns, clichês anticomunistas e a favor da “liberdade”. Não faltou o famoso “quantos americanos se atiram ao mar em direção à Cuba” e nem a tradicional “socialismo nunca deu certo“.

Sim, apenas 12 anos nos separavam da queda do Muro de Berlim e muitos no ocidente nutriam a convicção do fim da história. O socialismo havia sido derrotado, o neoliberalismo de Reagan e Thatcher haveria de se espalhar pelo planeta, os Estados seriam encolhidos ao limite do desaparecimento e o capitalismo era a força vitoriosa no embate das ideias. Mas foi o ódio incontido – e até o desrespeito – do anestesista para com a minha particular perspectiva geopolítica que me fez perceber que havia ocorrido apenas um “round” na luta entre estas propostas, e não o fim do combate. Aquela agressividade grosseira era a emergência de um sentimento que eu ainda não havia presenciado com tanta intensidade, mas que ficou evidente quando, apenas dois anos depois, Lula venceu as eleições, levando um partido de trabalhadores ao poder pela primeira vez neste país. O sucesso de Lula, em especial em seu segundo mandato, fez esse sentimento crescer ainda mais, produzindo, a partir da derrota de Aécio para Dilma, o surgimento dessa força de extrema direita pró imperialista, conservadora, de caráter fascista e – como depois constatamos – até golpista.

Há 22 anos eu conheci o bolsonarismo embrionário, o protofascismo que tão facilmente se alastrou entre a pequena burguesia e em especial na classe médica, a mesma que organizou um “corredor polonês” para constranger os médicos cubanos que chegavam ao país e que fez coro ao “Fora Dilma” apoiando seu impeachment fraudulento. Ali era possível ver o que estava se gestando nas estranhas da classe média ressentida, um rancor silente produzido pelos avanços civilizatórios da esquerda, que culminariam nos golpes, na prisão arbitrária de Lula e na eleição de um sociopata para a presidência da República. Gostaria de ter percebido, já naquele instante, o que estava por vir. Pensei se tratar tão somente da compreensível indignação pelo ataque contra civis no coração dos Estados Unidos, mas em verdade sua ira descontrolada estava expondo a extrema direita fascista que se preparava para renascer depois da sua derrota na segunda guerra mundial. Ao meu lado, naquela cirurgia, estava o embrião de extremismo de direita que produziu a direita do ódio. Hoje eu lamento não ter decifrado essa charada quando a vi por primeira vez.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Política

Marionetes?

Circula entre a esquerda identitária psolista a tese de que, quem critica a indicação de uma jurista negra ao STF pelo fato de ser uma pressão comandada pelos interesses imperialistas (bem, ao menos eles já reconhecem este fato) deveria também ser contra a libertação dos escravos, já que ela foi “determinada pelos ingleses”. Ou seja, cobram “coerência” dizendo que, se um dia apoiaram medidas dos ingleses deveríamos acolher da mesma forma a estratégia americana de indicar uma mulher negra ao STF. Nesta análise, não haveria matizes ou circunstâncias históricas a envolver cada um desses fatos.

Vamos deixar claro: ninguém é contra uma jurista negra em qualquer lugar. Ninguém se opõe a que pessoas negras ocupem qualquer cargo no governo ou na iniciativa privada, desde que demonstrem a necessária competência para isso. Aliás, Lula acabou de indicar uma juíza negra ao STJ, algo que não ocorreria se ele fosse movido por preconceitos contra a comunidade negra. Entretanto, seremos sempre contrários à pressão identitária que visa impor uma representante dos interesses de específicas identidades num órgão jurídico – que deveria apenas defender a constituição, não as cores de pele ou orientações sexuais. Mais ainda, somos contra a visão ingênua que se espalha entre os liberais de que tal indicação poderia representar algum avanço civilizatório, na “defesa” dos interessas das mulheres e dos negros, dentro de um órgão corrupto e burguês como o STF. Ora, não é o que fatos antigos, e até bem recentes, nos demonstram.

É um fato inegável, mas necessário citar repetidamente, que as indicações anteriores foram desastrosas, em especial àquelas feitas pelos presidentes Lula e Dilma. Mas não porque desejávamos um ministro que defendesse nossas bandeiras – esta não é a função de um ministro – mas que tivesse fidelidade à constituição e coerência em seus votos. O que vimos foi o contrário; o STF manteve-se dentro do padrão de sua história: um órgão pusilânime, sensível às pressões burguesas, acovardado e incoerente. Tivemos votos que se tornaram péssimos exemplos de atuação vindos exatamente daqueles ministros que, em teoria, deveriam ser da confiança do Partido dos Trabalhadores e do Presidente da República. Assim foram as manifestações das ministras mulheres, golpistas e lavajatistas, Carmem Lúcia e Rosa Weber, assim como do ministro negro Joaquim Barbosa, responsável pelos ataques violentos contra a democracia, a esquerda e o PT – balões de ensaio para os golpes em sequência que ocorreram logo após.

De que adiantou a cor da pele e sua condição de mulher para rasgar a constituição e manter Lula preso? De que elas foram úteis quando inventaram tipos legais para prender José Dirceu? Para piorar, afirmar que os negros foram “libertos por pressão britânica” é desmerecer e jogar no lixo a memória de grandes abolicionistas brasileiros. Cito apenas 3 negros: Luiz Gama, André Rebouças e José do Patrocínio, que agora, por esta interpretação viciosa da história, seriam tão somente “fantoches nas mãos dos ingleses”. Não valeram de nada os esforços de Joaquim Nabuco, Castro Alves e Francisco José do Nascimento, o “Dragão do Mar”? Por fim: quem está por trás da campanha milionária para esta indicação, que obtém apoio de tantas instituições imperialistas e de suas ramificações no Brasil?

Aliás… há poucos dias um youtuber comunista do PCB chamou Lula de “Janjo”. Ao seu lado, outros do campo da esquerda tratam Zanin como um reacionário. Pergunto: quando é que os anti-Lula, os identitáries e a direita, em conjunto e unidos, sairão do armário? Vão esperar para julho?

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Política

Bananas

No congresso de professores em São Paulo – XXVII Congresso da APEOESP , Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo – ocorrido há poucos dias o representante do PCO, criticou de forma veemente os participantes de outras vertentes políticas adversárias, acusando-os de outrora terem atacado Dilma e garantido apoio à Lava Jato. Ao final de sua fala, e ao ser acusado de direitista, fez um sinal com o braço dobrado e a mão na dobra gritando “Aqui ó, lavajatistas são vocês”. Sua fala foi a que se segue:

“… eu queria aproveitar meu minuto final, para dizer, o seguinte: não vamos vir aqui falar qualquer coisa, a gente aceitar que companheiro que estão numa chapa encabeçada pelo PSTU, que defendeu o golpe, que tem o PSOL, que defendia a Lava-Jato, vir aqui falar que nos somos lavajatistas! Aqui para vocês oh! (o companheiro levanta o braço e aponta para a chapa 2). Lavajatistas são vocês!”

Iniciou-se uma alteração verbal seguida de uma garrafa d’água arremessada na direção do ativista – a qual acabou acertando uma professora na mesa diretiva. Logo em seguida houve a tentativa de invasão da mesa, mas a turma do “deixa disso” conteve os mais exaltados e a briga se acalmou.

Até aqui esta história não deveria causar muita surpresa. Ora, os embates políticos são feitos de paixão, e esta emoção normalmente cobre com sobra e sem muitas dificuldades a tênue camada acinzentada que envolve nosso cérebro. Exigir racionalidade e ponderação para quem participa dos confrontos político-partidários é um exagero, pois essa chama de desejo e determinação é o que nos inflama e nos faz participar das lutas.

Entretanto, foi o que ocorreu depois que demonstra de forma muito clara o desvirtuamento do debate político no campo progressista, principalmente num setor bem específico: a, assim chamada, esquerda. No final do congresso uma militante negra da esquerda identitária pediu uma moção contra o companheiro que fez o gesto ofensivo aos adversários porque, segundo ela, se tratava de um …. gesto racista. Mais do que isso; ela ameaçou chamar a polícia.

Quem é da esquerda radical e já participou de movimentos estudantis, passeatas, greves, manifestações, etc. sabe muito bem de que lado a polícia burguesa sempre se situa. A força policial é estimulada a bater sem dó em professores, estudantes, trabalhadores de fábrica, pobres, favelados, etc., sempre que chamada a defender o patrimônio e os valores da burguesia; está no seu DNA. Ameaçar um parceiro do campo da esquerda de “chamar os homi” por uma disputa ideológica durante um congresso é um ato de profunda traição à todas as lutas do movimento operário. Quem age desta maneira ainda não entendeu qual o lado que devemos nos postar diante da trincheira.

Mas isto ainda não é o mais grave. Essa menina negra acusou o ativista da corrente adversária de ter feito um “gesto racista”. Sim, o gesto de dar “uma banana” para os seus adversários foi interpretado por ela como racista pela equação abaixo:

Banana ======》 Macaco ======》Homem negro

Sim, foi essa a interpretação que ela fez, a despeito do gesto ser realizado há milênios por qualquer pessoa, em várias partes do mundo e muito antes da escravidão, sempre que alguém estivesse mandando seu oponente enfiar uma banana, como a dizer “vá se phoder”. Detalhe importante: o militante de esquerda acusado de racismo… também é negro.

Esse é o risco de permitir às pessoas que interpretem gestos e palavras em absoluto “freestyle”, sem qualquer materialidade, baseado na mais abstrata imaginação e na interpretação subjetiva de quaisquer intenções veladas. Chamar a polícia burguesa em meio a um congresso de professores, acreditando na mediação dos poderes burgueses, já é por si só um escândalo; porém, interpretar um gesto de “banana” como “racismo” demonstra o desastre que significa o identitarismo, que há muito vem destruindo por dentro as instituições do campo socialista.

Repito: ou combatemos o identitarismo ou ele vai corroer a esquerda até não sobrar mais nada.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Causa Operária, Política

Duvivier o Supremo

Gregório Duvivier é a mais perfeita explicação – existem outras – para o fracasso retumbante das esquerdas no Rio de Janeiro, fracasso esse que permitiu a ascensão da direita miliciana e dos candidatos de extrema direita evangélica. Sim, eu sei que há outros fatores relevantes, mas quando nomes como o de Márcia Tiburi assumem protagonismo político no PT da cidade isso é uma sinalização clara do drama que se abateu sobre a esquerda carioca, incapacitada de apresentar candidatos que representem a classe operária e suas demandas.

Gregório é o Luciano Huck da esquerda: rico, midiático, com sucesso profissional e oriundo de família burguesa, ele é um personagem facilmente identificado com a esquerda identitária do Brasil, e mais especificamente a esquerda do Rio de Janeiro. Enquanto Luciano faz assistencialismo barato e oportunista, arrancando lágrimas do público ao arrumar casas e carros de “eleitos”, Duvivier usa o identitarismo como forma de engajamento social, e isso explica sua atual defesa rasgada da nomeação de uma mulher negra ao Supremo Tribunal Federal. Ao lado disso, faz ataques explícitos ao Ministro Zanin por votos que não contemplam (no seu ver) sujeitos que, como ele, circulam no jet-set do Leblon e defendem pautas importadas do Partido Democrata americano.

“Maconheiro” assumido, fez dessa prática uma plataforma política, usando-a como emblema pessoal através das piadas que sempre faz sobre o tema. Entretanto, a despeito de serem questões respeitáveis, quando a cor e o gênero de uma ministra do STF, assim como a liberação do uso de drogas, se tornam plataformas mais importantes que as lutas da classe trabalhadora por moradia, alimentação, escola, e justiça social estamos diante de um problema grave, porque uma pauta periférica assume uma preponderância imerecida.

E veja; nada a reclamar de quem faz apologia da liberação da maconha – uma luta da qual eu me engajaria sem pestanejar – mas quando um humorista como Gregório Duvivier assume a condição de porta-voz e representante das demandas da esquerda usando essa bandeira isso se torna uma grave perversão do ideário da classe trabalhadora e os caminhos que ela pretende trilhar. Os recentes ataques ao portal 247, por meio do humor e do deboche – e aqui deixo minha defesa do deboche como ferramenta de crítica política – são movimentos claros em defesa do identitarismo como via de combate social. A insistência na estratégia de representatividade e visibilidade de grupos oprimidos persiste mesmo quando sabemos dos péssimos exemplos obtidos com esse tipo de política, em especial no quer diz respeito às indicações ao STF.

Joaquim Barbosa é o caso mais emblemático: negro e oriundo das camadas populares ele foi exaltado pela imprensa burguesa pela sua ação moralizante, devastadora e antipetista no Mensalão, o qual foi o grande tubo de ensaio para as jornadas de junho, a Lava Jato e os golpes contra Dilma e Lula. Hoje recolheu-se ao silêncio. Para além dele, as mulheres indicadas ao STF tiveram um comportamento tão ruim quanto o “representante negro”, basta lembrar os votos de Rosa Weber (“não tenho provas, mas a jurisprudência me permite”, ou “não concordo, mas voto pela colegialidade”) e o comportamento francamente golpista de Carmem Lúcia na prisão de Lula, agredindo despudoradamente a Constituição. O pior erro, nestes casos, é se surpreender com as ações desses ministros; basta lembrar o papel do STF no golpe de 1964 e na consolidação do golpe contra Dilma em 2016. É importante entender que tais personagens fazem parte da cúpula do poder burguês no Brasil, sem qualquer compromisso com as demandas de defesa do Estado democrático de direito e da constituição de 1988. Portanto, sabendo de qual classe eles são oriundos, é uma ingenuidade inaceitável acreditar que algo progressista possa brotar do Supremo Tribunal Federal. Ou seja, sua origem, cor e gênero não os impediram de sucumbir espalhafatosamente às pressões da burguesia que os domina, mastiga e engole.

Resta lembrar que o STF é um órgão que só se justificaria pela defesa da Constituição, nada além disso. Seus ministros não têm cargos representativos, como ocorre no legislativo e executivo. Assim sendo, a indicação a este cargo deveria levar em consideração tão somente a história pessoal do candidato nos debates jurídicos e constitucionais, e não por “advogar” para grupos e minorias, em especial quando ele próprio se beneficia das decisões. Por estas razões, acredito que a defesa de Duvivier de uma mulher negra para o STF terá como resultado o oposto do que deseja: exatamente por seu ativismo a indicação será vista com reserva, porque vai escancarar o fato de que não há real preocupação com o garantismo constitucional, mas com a mais pura e aberta defesa do identitarismo dentro do STF.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Pensamentos

John & Julian em Ithaka

O poema “Ithaka” de Constantine Cavafy, foi escrito no início do século passado, em 1911, e oferece a perspectiva de que deve haver, em nossas ações cotidianas, a supremacia da viagem sobre o destino. Ithaka simboliza o objetivo supremo que todo sujeito procura durante sua existência. Cavafy faz uma alusão à lendária viagem de retorno de Ulisses, rei da ilha de Ithaka, onde sua esposa Penélope e seu cão Argos o esperavam após a vitória dos gregos sobre os troianos – que Homero retratou em “A Odisseia”. O poema se refere ao percurso pessoal e subjetivo que cada um de nós empreende durante sua vida e sugere que procuremos encontrar durante a permanência na Terra nossa própria Ithaka, o objetivo supremo, que é uma forma de garantir sentido à nossa trajetória pelo planeta. O poema de Constantine, um grego radicado na Inglaterra, ficou tão conhecido que foi recitado no funeral da ex-primeira dama americana Jacqueline Kennedy Onassis.

Ithaka (e mantenho aqui a grafia original) é também o nome do documentário recentemente lançado que trata da relação de John Shipton com seu filho famoso, Julian Assange, preso da penitenciária londrina de Belmarsh, onde aguarda sentença de deportação para os Estados Unidos. O filme teve sua apresentação pública ontem na minha cidade e contou com a presença de John Shipton, personagem central do filme, e aborda as peripécias deste australiano de 76 anos que lidera no mundo inteiro uma campanha para a libertação do seu filho, editor chefe do Wikileaks, que denunciou os crimes de guerra dos Estados Unidos no Afeganistão, Iraque e na prisão de Guantánamo no Caribe. Mostra os detalhes da sua vida comum, seu temperamento taciturno e reservado, a relação com os filhos e as conversas com a nora Stella Morris, mãe dos dois filhos de Julian.

Evidentemente existem várias formas de ver este documentário, dependendo da ótica que você escolhe para captar as imagens na tela à sua frente. A mais evidente maneira é olhar para a luta empreendida pelos ativistas do mundo todo pela liberdade de imprensa, pelo direito de expor os crimes contra a humanidade cometidos pelos poderosos, em especial aqueles que controlam as leis, a mídia, a propaganda, as reservas de recursos naturais, os territórios e o comércio. O filme aborda isso de uma maneira bem clara, mostrando que nenhuma acusação contra Julian sobrevive a uma análise baseada nas leis de proteção das fontes e da liberdade de imprensa – em especial as leis americanas. Fica evidente que a prisão de Julian Assange cumpre um objetivo claro: humilhar publicamente alguém que denunciou a barbárie do imperialismo, castigando ao extremo aquele que ousou enfrentar os poderes imperiais e dando um recado a toda a imprensa mundial: não há espaço para criticar os poderes da polícia do planeta; quem assim o fizer será submetido à todas as sanções possíveis, perseguições, ataques, destruição da honra, mentiras e – se for possível – a própria morte. Em verdade, a tortura realizada contra Julian Assange pretende condená-lo à pior morte: a loucura e/ou a depressão pelo isolamento e pelo absurdo das acusações às quais é submetido. Como o personagem Josef K., de Kafka, os supostos crimes cometidos são o que menos importa; o que vale é punir por razões aleatórias e fabricadas qualquer sujeito que ameace os interesses americanos. O “lawfare” contra Lula mostrou em nível local o quanto os interesses geopolíticos de dominação conjugados com a corrupção do judiciário são capazes de servir aos mais espúrios interesses do imperialismo.

Outra forma de ver o documentário é pela exposição da fragilidade crescente dos governos europeus, absolutamente controlados pela política externa americana, não apenas nos aspectos políticos e bélicos (a guerra contra a Ucrânia é um claro exemplo) mas também o poder que a máquina publicitária americana exerce sobre a opinião pública e o próprio judiciário. Fica evidente o quanto os juízes britânicos são meros marionetes comandados pela mão pesada dos americanos, que são quem está de fato julgando este caso, a partir da sua visão persecutória e imperialista. Não há qualquer autonomia para julgar Assange – tanto quanto não havia para os juízes do Iraque ocupado para julgar Sadam Hussein – o que nos demonstra que a tão propalada “liberdade” dos países do “primeiro mundo” nada mais é que uma peça de propaganda, uma mentira mil vezes contada, que apenas serviu para criar a fantasia do ocidente como um espaço de liberdade de expressão e de abertura política. Estas farsas, esses simulacros de democracia, estão sendo aos pouco desvelados e Julian Assange está recebendo esta cruel punição exatamente por se postar na linha de frente nas denúncias, apontando seus dedos para os crimes hediondos cometidos pelos Estados Unidos nas guerras em que se envolveram.

Porém, há uma outra forma de ver o filme, provavelmente a mesma que inspirou John e seu filho Gabriel (meio irmão de Julian) para colocar no documentário o nome de “Ithaka”. O personagem central da película é John Shipton e bem no princípio do filme ele se irrita quando questionado sobre o que o levou a ficar separado do seu filho dos 3 aos 20 anos. Certamente tem a ver com a separação da mãe de Julian, mas isso não fica claro. Ficou incomodado quando foi perguntado sobre o diagnóstico de Asperger que seu filho Julian tem, dizendo “ele é o que ele é”. John Shipton demonstra durante todo o documentário que é um sujeito pacato, nascido na Austrália, sem vinculações políticas explícitas, com um caráter evidente de misantropia bem humorada, reservado, quieto, pouco afeito a conversas e arredio à publicidade e aos jornalistas. Ele é um dos mais perfeitos exemplos de um sujeito jogado involuntariamente – e totalmente despreparado – no olho de um furacão que está envolvendo os próprios princípios democráticos mais basilares da cultura ocidental: a liberdade de imprensa e o direito de denunciar os crimes cometidos pelo Estado – e pelo Império.

John é a verdadeira personificação do sujeito anônimo que subitamente ganhou notoriedade internacional. No seu caso isto ocorreu pela prisão criminosa de seu filho, o que fez um pacato “Zé Ninguém” de mais de 70 anos ser alçado ao posto de herói por multidões. No meio do filme ele diz a frase que mais me tocou, e tenho certeza que muitos que viram o filme também sentiram a mesma emoção que eu naquela simples resposta a um jornalista, a qual continha o cerne de sua jornada em direção à sua Ithaka pessoal. Quando instado a falar o que o movia nessa aventura ele respondeu “Porque sou pai, e isso é o que qualquer pai faria por seu filho”. Ou seja, John provavelmente continuaria indefinidamente em sua vida pacata na Austrália, construindo casas e se alegrando quando as pessoas se mudam para elas. Jamais pensaria na tarefa nobre de defender a causa da liberdade de imprensa ou de combater os poderes abusivos do imperialismo em tantas partes do mundo. Continuaria a ser o sujeito ranzinza e pacato que sempre foi, cultivando seu jardim e cuidando de sua filha pequena. Porém, tudo indica que foi convocado pela deusa “Álea” – a divindade dos fatos aleatórios – para ser o divulgador da causa do seu filho, o mais famoso preso político do mundo. Talvez ele fosse o mais despreparado de todos os humanos para empreender esta viagem tão árdua, difícil e cheia de armadilhas. É possível, entretanto, que esta seja a verdadeira razão oculta da odisseia que transformou sua vida, fazendo do trajeto inusitado que surgiu algo capaz de dar verdadeiro sentido à sua existência. Por muitas vezes eu me coloquei no lugar de John Shipton, pensando o que eu faria em seu lugar, convocado a combater os gigantes macabros que tentam destruir seu filho e – acima de tudo – exterminar o que resta de liberdade de expressão no mundo. Muitas vezes pensei se teria a mesma coragem para denunciar a barbárie que testemunhei. Uma pergunta de difícil resposta; ou talvez a resposta mais fácil.

John Shipton em P. Alegre

Ao final da apresentação do filme pensei em perguntar para John como um pai se sentia vendo seu filho preso, doente, torturado e injustiçado. Quais são as emoções diante da impotência de testemunhar a violência do Estado contra alguém cujo crime foi revelar a verdade. Preferi me calar porque sabia que essa pergunta pouco poderia revelar objetivamente, porque só calçando os seus sapatos e caminhando o percurso tortuoso que ele trilhou para saber a dor de esperar a volta de um filho injustamente acusado, inocente e preso por ser bravo e combativo. Coube ao meu filho Lucas, que me acompanhou ao evento, pedir que ele recitasse a poesia Ithaka, que deu nome ao documentário, e pedisse para que ele nos dissesse “quanto tempo temos e quanto de esperança podemos carregar ao peito”.

Sua resposta foi até óbvia: ele se mantém esperançoso e seu filho “sofre, mas resiste”, e que o imenso apoio internacional que está recebendo de tantos povos, nações e instituições é uma luz de fulgurante esperança de que Julian um dia poderá voltar para casa – ou para o Brasil, conforme o convite do próprio presidente Lula. A seguir recitou em inglês o poema Ithaka, cuja tradução transcrevo abaixo:

Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Poseidon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrará
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Poseidon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda a espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.

Poema de Konstantinos Kaváfis (1863-1933)

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Política

Véus

Há alguns poucos dias uma famosa artista brasileira, perto dos 70 anos de idade (na verdade 65), foi instada por uma repórter a falar sobre sua vida sexual. As barreiras para este tipo de pergunta, que há poucas décadas seriam vistas como uma intromissão indevida e deseducada na vida privada, foram derrubadas em nome de uma “abertura” da informação, onde nada mais pode ser considerado inviolável ou privado. Todavia, sua resposta, pelo inusitado, foi absolutamente chocante. Não fez nenhuma revelação escabrosa, e muito menos revelou o nome do seu atual amante; nenhuma novidade digna de manchetes sobre práticas ou fantasias. Em verdade, limitou-se a dizer algo parecido com “Isso não é da sua conta”.

Que impressionante, não? Como assim? Não vai nos relatar os detalhes excitantes de suas práticas eróticas? Não vai falar quantas vezes por semana “comparece”? Não vai falar dos dotes do seu parceiro? Não vai descrever suas fantasias proibidas?

É curioso como a sociedade contemporânea, em nome de uma pretensa liberdade de expressão, abriu mão do pudor – uma virtude que, no passado, era vista como a mais delicada de todas as qualidades femininas. Ou seja, para parecer moderno e “descolado” é preciso que não haja qualquer limite para sua vida privada. Hoje em dia vemos atrizes descrevendo detalhes da sua vida sexual com minúcias que caminham sobre a fina lâmina que separa estas descrições da mais pura escatologia. Também o empoderamento de algumas mulheres parece passar pela paixão pelos vibradores, e o seu uso – contra o qual nada tenho a dizer – passa a ser uma insígnia de liberdade e autonomia. E veja… sua utilização pouco me importa, mas me impressiona a necessidade de tratar algo privado e pessoal – existe algo mais pessoal que um “sex toy“? – como se fosse de domínio público.

Nos dias atuais, na “sociedade do espetáculo”, os casais se separam e imediatamente comparecem ao Instagram para explicar as razões para o desenlace, muitas vezes expondo questões íntimas, sem que haja qualquer necessidade. Moças revelam antigos amantes, expõem suas preferências na cama, contam sem qualquer vergonha detalhes que só a ambos deveriam importar. Homens contabilizam conquistas, gabando-se de suas práticas, expondo em seu discurso uma imensa superficialidade, .

A hiperexposição parece ser hoje o único caminho para fugir da tragédia de uma vida pacata, onde ser anônimo e simples é tão devastador quanto foi terrível a lepra na época de Cristo. Para fugir dos horrores de uma vida comum os sujeitos explicitam suas preferências sexuais em podcasts, escancaram suas fantasias íntimas em entrevistas, revelam travessuras de alcova do passado, expõem amores do passado, abrem os armários e desvelam sua orientação sexual – como se o simples fato de romper as barreiras da vida pessoal fosse algo revolucionário.

Quando me deparo com essa abertura absoluta, que embaça os limites da vida íntima, lembro do quanto de desejo se expressa pela curiosidade, pela procura de algo a ser descoberto, excitando a imaginação, desvendando tesouros no âmago da alma. A intimidade é fundada pelo mistério e, a partir deste lugar de não-saber, estimula-se a busca pelo segredo tão bem guardado. Retirados todos os véus, todas as máscaras, todas as roupagens e todos os enigmas, qual o sentido em empreender tamanho esforço na busca pela resposta?

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Pensamentos