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Um Morto Muito Louco

Muitos ainda se perguntam: o que une as personalidades de Bolsonaro, Milei, Boris Johnson e Trump? Qual o traço que os transforma em íntimos e semelhantes? O que os fez surgir no mesmo lapso curto de tempo, quase contemporâneos? Como é possível entender este fenômeno de forma unificada, tentando traçar uma linha de coerência e causalidade em suas aparições no cenário político internacional?

Creio que a resposta, como sempre, está em Marx. As crises do capitalismo e a falha deste sistema em equilibrar um modelo econômico e político fadado às crises cíclicas, produz este tipo de aparições bizarras: o surgimento de salvadores da pátria, sujeitos enviados para resgatar nossa grandeza perdida, trazer de volta nossa perspectiva de futuro, políticos que desprezam a política, atores sociais “sem ideologia” mas que a transpiram por todos os poros. Eles são sinalizadores macabros da transformação, o desespero de um modelo falido em manter-se vivo. Gramsci já havia deixado claro que é exatamente nesse espaço entre a morte do velho e o nascimento do novo que surgem os demônios e toda a monstruosidade guardada vem à tona.

Ou seja: estas figuras já estavam previstas pela própria natureza íntima do capitalismo. Inclua Netanyahu nessa lista de psicopatas surgidos em meio a crises brutais (como Adolf surgiu) e percebam como o Estado Racista Colonial de Israel já morreu e está apodrecendo à vista desarmada. Entretanto, enquanto não floresce a revolução que levará à igualdade é inevitável o aparecimento deste tipo de monstros, e com eles os seus delírios. Todos esses personagens são filhos de seu tempo e de suas circunstâncias, elementos que surgem do desespero em manter vivo um corpo que já se decompõe.

Aos poucos se fortalece a consciência de que a mudança não ocorrerá usando as mesmas estratégias de sempre imaginando com isso encontrar resultados diferentes. Um novo “acordo de Oslo” não dará fim ao conflito na Palestina e muito menos ainda a deposição do líder monstruoso de Israel. A solução está muito distante das tentativas até agora utilizadas, todas falhas memoráveis que apenas agravaram a situação. Da mesma forma, a troca de Biden por Trump será apenas o câmbio de uma fantasia, pois no imperialismo quem o controla as grandes corporações farmacêuticas e de informação também detém o aparente poder político. Quanto à direita fascista da América Latina ela continuará existindo reciclando seus nomes, passando de crise em crise, trocando o salvador da ocasião, até que o próprio capitalismo seja substituído por um sistema menos violento em sua natureza segregacionista de classes.

Nenhum desses nomes representa o mal em si; todos eles são personagens que desempenham o papel de manter as aparências do capitalismo defunto, como na comédia “Um Morto muito Louco”, de 1989, onde uma dupla de camaradas carrega o amigo morto fingindo que ainda está vivo. Assim fazemos nós, transportando o corpo inanimado de um projeto de sociedade que já não é mais capaz de oferecer ao mundo a equidade, a liberdade, a estabilidade e o respeito ao meio ambiente que todos necessitamos.

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Imprensa e Guerra

Se é possível defender cinicamente a morte de crianças, velhos e mulheres e o bombardeio indiscriminado de zonas residenciais, de hospitais, de ambulâncias e de campos de refugiados, então é possível aceitar qualquer coisa em nome das ideias fascistas e supremacistas que comandam Israel. Se a imprensa contemporânea consegue justificar este tipo de barbárie fica fácil compreender como foi possível, há menos de 100 anos, encher vagões de trem com judeus, ciganos e comunistas e colocar em prática a “solução final” . Quando vejo jornalistas levando adiante a tese de que os “terroristas” (leia-se, a Resistência à ocupação bárbara, cruel e desumana) se escondem nos hospitais e, por isso, torna-se justo bombardeá-los, matando pacientes que lá procuram ajuda e funcionários que heroicamente se dedicam a ajudá-los, um pouco da minha fé na verdade se apaga.

Quando dizem que um telefonema com poucos minutos de antecedência por parte das autoridades militares israelenses avisando que um bairro inteiro virá abaixo é prova de “respeito à população civil”, isso me faz acreditar que a imprensa burguesa não tem pudor algum em contar qualquer mentira, torturando os fatos até que as ações mais desumanas e covardes pareçam justas. Quando o próprio governo sionista divulga mentiras como “corpos carbonizados” falsos, bebês decapitados inexistentes, estupros de mentira, fica claro que deixaram a verdade de lado há muito tempo, mas isso não significa que a imprensa deveria seguir suas falsidades. Mas como sempre, a imprensa vendida – verdadeiro lixo corporativo servindo aos interesses do imperialismo – não vai se desculpar e sequer se retratar pela torrente de imposturas que despejaram nas últimas semanas.

A verdade que resta de mais esse fiasco é de que as grandes corporações jornalísticas são a verdadeira e mais perigosa fonte de fake news. Torna-se impossível acreditar em qualquer relatório, qualquer acusação e todo tipo de comunicado; tudo que emerge das grandes empresas jornalísticas é falso, descontextualizado, inverídico, distorcido e não pode ser aceito como verdadeiro. Os crimes de Israel são tornados públicos apenas pela franja mais ética do jornalismo independente; já a imprensa corporativa – ou seja, aquela onde a notícia pode ser comprada – morreu.

Sim, nas guerras – e esta é a guerra do imperialismo contra o mundo inteiro – a primeira vítima é a verdade. Todavia, sabemos que estamos submetidos a um embate de narrativas conflitantes, onde de um lado temos um povo esmagado pela opressão que já soma mais de 7 décadas, e do outro uma potência nuclear, comandada por fascistas, levando a cabo um plano de genocídio e limpeza étnica de proporções ainda não vistas neste século e aliado a uma gigantesca máquina de informação e imprensa , a qual tenta nos convencer que o massacre de crianças, a destruição de um país, a expulsão de milhões de habitantes dos seus lares é algo justo, ético e certo. Para os sionistas a única saída permitida aos palestinos é desistir ou morrer, mas sabemos que este povo não vai desistir. A resistência popular no mundo inteiro está aumentando e, apesar dos grandes conglomerados imperialistas de comunicação, a guerra da opinião pública está sendo vencida pelos palestinos.

Fosse há 80 anos e esta mesma imprensa burguesa estaria defendendo as câmaras de gás; fosse há dois mil anos e estaria achando correta a crucificação de alguém por suas ideias de liberdade. Alguns de nós estariam aplaudindo a barbárie e a injustiça; muitos estariam convenientemente lavando as mãos. Entretanto, tão logo as contradições ficassem evidentes, outros entenderiam que a luta pela libertação de um povo demanda luta, resiliência e coragem. Esses, em qualquer momento da história, são os imprescindíveis.

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Westworld

Sigmund Freud em “Mal-Estar na Civilização” (1930) tratou da supressão das pulsões inerente à vida em sociedade, e o consequente desconforto que ela determina para nós. O psicanalista Contardo Calligaris em “Hello Brasil” mostra a diferença entre colonos e colonizadores, sendo estes últimos aqueles que empreendem uma aventura que objetiva “gozar sem interdição”. A busca do colonizador está centrada em gozar, extrair tudo que encontra na nova terra, sem limites, sem barreiras. Por isso, todos as invasões coloniais são marcadas pela brutalidade, a violência crua, a anulação do “outro”, a limpeza étnica e a perversidade sádica que, ao ignorar a existência do outro nega sua humanidade, sendo esse o elemento essencial e inescapável para todos os projetos colonialistas.

Hollywood criou este mundo futurista na premiada série “Westworld“, onde autômatos, construídos à semelhança indistinguível dos humanos, servem ao nosso gozo absoluto e livre, o que inclui sexo, morte, abuso e violência. Um lugar onde ricos e poderosos podem usufruir de todas as emoções humanas, pagando para isso uma módica quantia. Se a processo civilizatório produz esse mal-estar, porque não seria lícito criar uma sociedade paralela onde fosse possível driblar tantas e tão angustiantes proibições?

Hollywood criou este mundo futurista na premiada série “Westworld“, onde autômatos, construídos à semelhança indistinguível dos humanos, servem ao nosso gozo absoluto e livre, o que inclui sexo, morte, abuso e violência. Um lugar onde ricos e poderosos podem usufruir, pagando para isso uma módica quantia. Se a processo civilizatório produz esse mal-estar, porque não seria lícito criar uma sociedade paralela onde fosse possível driblar tantas e tão angustiantes proibições?

É chamativo o fato de que, enquanto a série se desenvolve, os robôs aos poucos vão adquirindo consciência de sua condição não-humana (desumana) e começam a se rebelar. Mesmo robôs, criados para a obediência e a servidão, com o tempo adquirem consciência de classe. Também faz parte do núcleo dramático da série a paixão que vai brotar entre uma bela mulher robô e um dos visitantes frequentes do “parque temático”. Por mais que esse sentimento fosse considerado absurdo, ou mesmo ridículo pelos consumidores do parque das emoções sem limite (afinal, trata-se de um mero objeto), ele se manteve por anos a fio. Assim, a trama também está centrada na possibilidade de surgir alteridade entre um opressor e o oprimido.

Qualquer semelhança com a desumanização a que os palestinos são submetidos, e as perversidades explícitas de Israel contra esse povo, não é uma mera coincidência. “Westworld-Israel” é um mundo artificial criado pelo ocidente para ser o lugar onde é permitido o racismo explícito, institucionalizado e sem amarras; um país “fake”, criado para os interesses ocidentais, onde palestinos – habitantes originários da região – são torturados, desprezados, confinados, enganados, expulsos de suas casas, assassinados e tratados como sub-cidadãos. E toda a barbárie lá é feita sem a vergonha e o incômodo que tais atitudes causam nas pessoas de fora. Neste mundo controlado pela ideologia racista do sionismo é possível chamar os palestinos de “animais” as crianças de “pequenas serpentes” e os soldados são autorizados a usar camisetas com desenhos de gestantes palestinas, onde se lê “One Shot Two Kills” (um tiro, duas mortes). Também é permitido aos seus habitantes cantar nas ruas e nos estádios de futebol que “não haverá aulas em Gaza porque suas crianças estarão mortas”

As regras com as quais os habitantes originais da Palestina são tratados tem sentido apenas dentro desse mundo à parte, como em Westworld, e por isso na série ninguém é preso por matar robôs – seres criados exatamente para isso – assim como um palestino pode ser morto apenas pelo crime de existir, enquanto dificilmente um terrorista israelense pagará por seus crimes – mesmo queimar bebês vivos. Também é possível matar quase 5.000 crianças em poucas semanas e isso não causar nenhum remorso; afinal como afirmava o Ministro da defesa de Israel Avigdor Liberman, “não há inocentes em Gaza“. Quem acreditou que nada poderia ser mais perturbador do que a distopia de Westworld, esta série de ficção científica criada por Jonathan Nolan e Lisa Joy e produzida por J.J. Abrams, se enganou. Existe um país onde as perversidades humanas são permitidas e protegidas. Este lugar já existe, e fica na Palestina.

Westworld é Israel.

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Guerra e Opinião Pública

Nos últimos dias apareceram duas manobras da grande imprensa corporativa manobras claramente farsescas para tentar mudar a opinião pública sobre a guerra de Israel contra os palestina. A primeira foi uma operação da Polícia Federal contra supostos agentes do Hezbollah que estariam agindo no Brasil e planejando ataques “terroristas”. Imaginar que este partido libanês estaria desejando promover ataques contra um país que tem a maior colônia libanesa do mundo por si só não faz sentido. O caso fica ainda mais obscuro quando o Mossad – uma verdadeira organização terrorista de caráter internacional – diz que ajudou a polícia brasileira e aplaude a ação dos policiais brasileiros. Toda a acusação é muito frágil, sem evidências claras, e parece mesmo uma peça de publicidade para criar a narrativa batida de uma luta da “civilidade” ocidental contra o “fanatismo terrorista” do oriente. O outro caso foi a aparição de Bolsonaro com o embaixador de Israel no Brasil, tentando angariar frutos eleitorais para a direita brasileira ao vincular este encontro com uma possível liberação dos reféns brasileiros do sionismo israelense. Mais uma estratégia de propaganda descarada para que Israel fortaleça seus vínculos com a extrema direita fascista brasileira.

Talvez a pressa em mudar a narrativa se deva ao fato de que o mundo inteiro começa a mudar sua opinião e seu apoio à causa de Israel. Os ataques covardes, a morte de crianças, a destruição de hospitais, médico e ambulâncias mostram as verdadeiras intenções genocidas de Israel, mas a cortina de fumaça de imprensa ocidental – totalmente vendida para o imperialismo – começa a se dissipar pela avalanche de depoimentos e comprovações em contrário. Uma pesquisa nos Estados Unidos aponta que, no que concerne à posição de Biden sobre a guerra contra o povo Palestino, ele tem apenas 10% de aprovação no grupo de 18 a 35 anos. Ou seja, a juventude americana , aquela que vai morrer no caso de uma guerra aberta, é absolutamente contrária ao conflito. A imensa maioria do povo americano se opõe ao suporte americano para o estado terrorista de Israel. É notório que os impostos americanos financiam as bombas que matam crianças na Palestina, e isso começa a pesar na opinião pública americana. As últimas manifestações, ocorridas em diversas cidades americanas, deixam bem claro para que lado o povo americano está se dirigindo. A posição do sionismo e sua ação genocida na Palestina não consegue mais se sustentar, por mais que fortes poderes e quantidades imensas de dinheiro tenham comprado a mídia corporativa americana para favorecer o colonialismo racista de Israel.

Na verdade, se olharmos para o conjunto das nações do planeta, apenas Estados Unidos, seus vassalos europeus, Japão e Austrália apoiam Israel nesse enfrentamento. Por certo que nesse grupo há dinheiro e poder, mas o grosso da população está ao lado da Palestina. Se somarmos China, Índia, Bangladesh, Paquistão, Brasil, Indonésia, Nigéria temos apenas nesses 7 países quase a maioria absoluta da população mundial. A opinião pública do planeta, as marchas, os debates na Internet, a derrota da retórica sionista, as manifestações de chefes de governo, tudo isso está mudando a trajetória desse conflito. Isso fez com que a esperada “invasão de Gaza” não tenha ocorrido.

Além das questões relacionadas ao rechaço mundial à postura criminosa de Israel há outro fator importante sobre o fracasso (até agora) da invasão por terra. Os especialistas são claros: o exército de Israel é formado majoritariamente por um contingente não profissional, “garotos de apartamento”, sem preparo, sem condições físicas para suportar um combate em cada rua, cada viela, cada beco, no corpo-a-corpo, de forma desgastante (moral e fisicamente), com a morte espreitando em cada esquina e num terreno cheio de túneis que apenas os habitantes de Gaza dominam. Há o temor por parte dos sionistas de que Gaza possa se tornar o novo Vietnã, com baixas gigantescas de combatentes sionistas, um cemitério de jovens sionistas, o que dará ao imperialismo um novo fracasso retumbante, como o foram o Vietnã, a Síria e o Afeganistão.

As cartas estão na mesa. O sionismo está com seus dias contados, e seu fim será determinado pela comunidade internacional, a exemplo do que ocorreu com o Apartheid da África do Sul. Exatamente pela ação corajosa do Hamas, desafiando a arrogância militar de Israel, pela primeira vez em décadas existe uma uma luz no fim do túnel, e como todos sabemos, só quando Israel se sentir acuado poderemos ter uma real esperança de paz na região.

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Doisladismo

Não dá para aceitar jornalistas como Milly Lacombe e tantos outros da esquerda liberal que se posicionam em cima do muro na questão palestina. Eu desisti há muito tempo de tentar entender esse tipo de imprensa acovardada e encolhida. Em especial Milly, que não acerta nunca, desde os tempos do Ceni. Em recente coluna no UOL ela mostra que embarcou no “doisladismo” pusilânime que falsamente contrapõe o “terrorismo do Hamas” – e não o povo palestino – com Netanyahu – e não quem ele representa, o sionismo racista, cimento da sociedade supremacista de Israel. Essa confusão leva o leitor desavisado a acreditar que eliminando o Hamas (e junto com ele a resistência palestina) e derrubando Netanyahu (um líder psicopata) poderia haver paz na região. Quanta falta de perspectiva geopolítica!!!

Se o Hamas fosse eliminado (spoiler: não será) outro grupo assumiria o controle da resistência do povo palestino, da mesma forma como a eliminação de um líder comunitário não fará acabarem as justas reivindicações dos moradores das zonas conflagradas, em especial se estas demandas estão sedimentadas por décadas de sofrimento. Da mesma forma, a retirada de Netanyahu da cadeira de primeiro ministro talvez colocasse como chefe de governo um fascista ainda mais genocida, e há dezenas deles no governo israelense. Não existe um Frederik de Klerk em Israel, e qualquer Mandela que tenha surgido na Palestina está preso ou já foi morto pelos sionistas.

Essa ideia de “condenar os atos terroristas” que a esquerda continua trazendo ao debate não passa de submissão covarde à narrativa israelense. Todavia, essa própria história agora é desafiada, pois testemunhos de sobreviventes da ação do Hamas mostram que a maioria das baixas é de vítimas do próprio exército de Israel e sua “diretiva Hannibal“, que sacrifica os reféns para causar baixas nos inimigos. Existem vídeos e inúmeros depoimentos definitivos sobre estes fatos, mas também a própria fala dos reféns que foram libertados, com elogios aos palestinos pelo cuidado e respeito que tiveram. A verdade aos poucos emerge. Israel matou seus próprios colonos , porém, essa desumanidade foi colocada na conta dos palestinos, exatamente porque, ao controlar a mídia mundial, os sionistas criam uma fábula onde o roteiro é manipulado por eles mesmos. Eles só não contavam com o cidadão comum com um celular na mão e os relatos dos sobreviventes de suas atrocidades.

A esquerda perde muito ao aceitar que jornalistas como Milly Lacombe tenham a expressão indevida que ainda tem. A mistura de identitarismo com a tese dos “dois demônios” é tudo que não precisamos para acabar com o massacre racista de Israel. A covardia do governo atual do Brasil em assumir uma postura decisiva, clara, corajosa e firme em favor do justo desejo de libertação do povo palestino pode ser dramática para as pessoas subjugados ao terror de Israel.

Milly deveria entender sua responsabilidade como jornalista e procurar se informar melhor sobre o drama causado por Israel, onde os palestinos são as vítimas há mais de 7 décadas.

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Mais censura do bem….

O comediante Danilo Gentili foi multado pela justiça em 20 mil reais por fazer uma piada com a deputada Sâmia Bomfim em que debochava do seu peso. Quase todos aceitam que fazer piadas com o corpo das pessoas – em especial das mulheres – é algo de mau gosto. Com os homens – já que são “opressores” – as piadas são liberadas, e multiplicam-se os gracejos com carecas, baixinhos, magricelas, submissos às mulheres, barrigudos, etc. No caso dessa piada de Danilo Gentili, um juiz fazendo uso de uma interpretação da lei totalmente “free style”, usou a lei do racismo para aplicar a sentença, usando esta lei como paralelo para penalizar a “gordofobia”. Ou seja: uma ação totalmente ilegal, pois que não existe possibilidade de usar a lei do racismo para aplicar em casos de transfobia (como tem sido usado) ou (pior ainda) gordofobia. Por certo que os identitários e a geração woke está feliz com a pena aplicada, achando que isso vai penalizar um humorista chato de direita, em uma vingança pelas piadas que fez contra a esquerda, expondo nossas imperfeições e falhas.

Infelizmente a nossa esquerda liberal não perceberam que este tipo de censura – e não há outra forma de chamar essa ação – que impede que se façam piadas, vai atacar a todos – em especial a própria esquerda. Quem terá coragem de contar uma piada que pode desagradar as suscetibilidades de um magistrado, e custar as economias e a carreira de um humorista. Ou seja: esta multa não serve para arrancar dinheiro ou punir um artista, mas para deixar todos os outros com medo de fazer críticas. Aliás, o marido da deputada Sâmia acabou de receber uma multa injusta, abusiva e arbitrária de 1 milhão de reais, mas parece que ela não ainda percebeu o risco tremendo que é depositar a liberdade de expressão e o direito à crítica no arbítrio da justiça burguesa.

Ou seja, dependendo do humor de um juiz, ou de um grupo de magistrados brancos, gordos e que fazem festinhas em hotéis, a partir de agora qualquer piada corre o risco de causar uma multa desproporcional ou até mesmo a prisão para quem a faz. A esquerda entorpecida ainda não tomou consciência de que, ao colocarmos nossos direitos de livre manifestação mas mãos de representantes da burguesia, o resultado será sempre a multiplicação dos ataques à classe operária, mesmo quando ocasionalmente a vítima possa ser um chato direitista e sem graça. A esquerda liberal continua dando aulas de ingenuidade e falta de visão politica ao aceitar passivamente a “censura do bem”

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Sionismo canhoto?

Nesta semana (10 outubro 2023) o professor e pesquisador Michel Gherman abandonou um debate sobre a crise da palestina na PUC do Rio de Janeiro. Na ocasião ele proferiu a seguinte frase “O Hamas é um grupo terrorista e o que aconteceu foi uma ação da pior espécie”. Neste debate é possível ver uma universitária, que afirma ser judia, protestando contra a presença do professor Gherman e dizendo que “95% (dos que estão aqui) não estão se sentindo representados por Michel Gherman”. Surge então a questão: como pode este professor defender uma proposta colonialista e racista como o sionismo, atacar a resistência palestina, aceitar a revanche sangrenta de Israel e ainda assim considerar-se de “esquerda”?

O proclamado “sionismo de esquerda” – um oxímoro ridículo – tem em Michel Gherman uma de suas mais potentes vozes há muito tempo. A narrativa usada pelos defensores da “conciliação” para o drama na Palestina é sempre a mesma: a culpa não é da ocupação, nem da opressão, muito menos da limpeza étnica. Não ocorre por causa do apartheid ou do racismo; a culpa é da extrema direita que governa o país na figura de Benjamin Netanyahu. Para estes personagens (que recebem um destaque incompreensível do jornalismo nacional, inclusive entre os progressistas) se a esquerda estivesse no poder não haveria tanta e tão disseminada violência, esquecendo que nas primeiras duas décadas da existência de Israel os governos eram encabeçados por elementos da esquerda israelense. Porém, apesar do esquerdismo de fachada, a brutalidade era a mesma que hoje testemunhamos – apenas sem câmeras nos celulares para testemunhar o horror dos massacres.

Entretanto, como toda dissimulação, a pretensa postura condescendente e “pacifista” destes falsos democratas desaparece como num passe de mágica nos momentos de crise. Os eventos apicais, seja no contexto dos sujeitos ou dos partidos, são pródigos em revelar nossa natureza mais íntima. Podemos enganar muitos sobre o nosso caráter durante períodos de calmaria e fartura, mas basta que a fome, a guerra, o caos social ou qualquer ameaça – interna ou externa – brote da placidez do nosso cotidiano para que surja a verdadeira essência, escondida sob as capas de civilidade.

Nesta exato momento Israel bombardeia sem dó ou piedade uma população composta majoritariamente por mulheres e jovens, indefesos dentro de uma prisão a céu aberto, privados das condições básicas para a sobrevivência de seu povo. Quando confrontado sobre o que faria no lugar de Netanyahu diante dos impasses da guerra contra o povo palestino, sua resposta se encontra em sintonia com os valores sionistas – excludentes, violentos e racistas – mais básicos: “Se tivesse chegado onde chegamos (faria) a mesma coisa. Só traria gente competente para assessorar”, disse em uma recente entrevista o professor Michel Gherman. Ou seja, mataria milhares de crianças, asfixiaria Gaza deixando-a sem eletricidade, água ou medicamentos, bombardearia hospitais matando médicos, enfermeiras e feridos e tudo isso em nome do regime racista, opressor e colonial criado no solo Palestino. Ou seja, para ele a manutenção do colonialismo brutal de Israel está acima dos valores humanos mais essenciais.

Não existe possiblidade de juntar no mesmo partido – ou no mesmo sujeito – uma proposta colonial e racista com a perspectiva solidária, humanista e justa que compõe a proposta socialista. Esses sujeitos pró Israel são direitistas, colonialistas e imperialistas até a medula dos seus ossos, mesmo quando seus discursos estão repletos de clichês pacifistas e lugares comuns pela “paz”. Não há verdade alguma em suas palavras quando falam de diálogo, diplomacia e entendimento entre as partes em conflito pois que para o sionismo a única possibilidade em seu horizonte é continuar tratando os Árabes como serviçais e cidadãos de segunda categoria. Pior ainda, gente (ou “animais”, como disse Yoav Gallant, ministro de defesa de Israel) que deveria deixar a Palestina ou morrer, pela expulsão ou pelo extermínio.

A mídia brasileira, acostumada a passar pano para essa falsidade, precisa acordar para o que estes personagens realmente representam. Não existe possiblidade de paz que não surja de uma pressão internacional intensa e sem tréguas contra o sionismo racista e colonial, contra o apartheid e contra o imperialismo. Dar ouvidos aos sionistas é atacar a autonomia e o sonho de democracia na Palestina, pois que o centro das reivindicações sionistas é a manutenção do colonialismo e da opressão do povo palestino.

FREE PALESTINE!!! 

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Representações

Pensem por esta linha: se a representatividade fosse realmente determinante para a mudança dos modelos não seria de esperar que a entrada de mulheres na obstetrícia (onde hoje já são a maioria) deveria transformar as práticas de atenção ao parto de forma que se tornassem mais humanizadas? Ou seja, com tantas médicas mulheres atendendo partos, não deveriam os nascimentos ser mais centrados na autonomia das mulheres, na vinculação com a saúde baseada em evidências e na abordagem interdisciplinar do evento? E por que isso não ocorreu? Por que a prática obstétrica se mantém violenta e “iatrocêntrica” (centrada no médico) a despeito da entrada massiva de mulheres na profissão?

Ora, esse fenômeno ocorre por razões até simples de entender. As mulheres que entram num ofício caracteristicamente masculino como a obstetrícia que opera na lógica da intervenção (ao contrário da parteria, que é essencialmente feminina e opera na lógica do cuidado) adaptam-se à ideologia hegemônica, tornando-se veículo de uma ordem de poderes e de uma ideologia que mantém o poder nas mãos dos médicos. Nessa ideologia os corpos das mulheres precisam ser controlados e domesticados, retirando-se deles a natural energia selvagem e criativa. Via de regra, não se observa nenhuma diferença marcante na atenção prestada por homens e por mulheres no que diz respeito às práticas condenáveis como episiotomia, posição de litotomia, Kristeller, corte prematuro de cordão, cesarianas, etc. Da mesma forma, na atenção médica ao parto não há diferença alguma entre homens e mulheres quando avaliamos as boas práticas e as posturas que estimulam a humanização. Portanto, as obstetras mulheres claramente se adaptam ao sistema de poderes no qual se inserem e não foram – até então – capazes de transformá-lo pela identificação de gênero que teriam com as gestantes.

Da mesma forma, uma mulher negra representando o imperialismo, como Linda Thomas-Greenfield, que vetou o acordo de paz da guerra de Israel contra os palestinos, jamais se posicionaria ao lado das populações negras (ou não brancas) que lutam contra o sistema imperialista, a opressão, o apartheid e a violência de Estado que ela própria representa. Ela também se adapta ao sistema que a abriga, tornando-se uma emissária dos interesses imperiais, e não uma mulher negra em posição de comando. Sua negritude e sua feminilidade desaparecem diante da magnitude de sua posição.

Pois é exatamente por isso que esse modelo de representatividade, que é apregoado e disseminado pela direita – mesmo a direita travestida de esquerda identitária – é uma falácia. Esta estratégia divisionista foi criada pelos “neocons” americanos para produzir a divisão da classe operária entre suas múltiplas identidades – pretos, gays, mulheres, transsexuais, etc. – oferecendo a estas identidades uma pífia representatividade, enquanto mantém intocados os poderes do capitalismo e obstrui a luta de todos nós – a luta de classes. Em troca oferece uma fatia do bolo para essas personagens, mantendo os milhões de representados na mesma condição de miserabilidade e exclusão.

Não existe possibilidade de avançar nas lutas por uma sociedade equilibrada através desses truques narrativos. Assim como mulheres, negros, gays etc. assumem a roupagem do poder que os acolhe, suas ações serão sempre reflexo desse poder, e não das identidades que carregam.

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Sensibilidade

Veja região do hospital em Gaza antes e depois da bomba

Diz-se que na segunda Grande Guerra a opção pelo extermínio em larga escala de judeus, ciganos, gays, eslavos, russos, etc., ocorreu por dois grandes motivos. O primeiro foi de ordem econômica, já que a guerra se prolongava por mais tempo que o previsto e as balas dos fuzis eram muito mais necessárias no front de batalha do que nos campos de concentração. Não era admissível gastar tanta munição em prisioneiros esquálidos e desimportantes para a grande economia de guerra. A segunda razão, descoberta mais tarde pelos estudiosos do fenômeno nazista, foi preservar a sanidade mental dos soldados alemães.

Sim, a banalização da morte acontece em qualquer guerra, e um nível de isolamento emocional é sempre essencial para manter a sanidade. Corações empedernidos suportam melhor os horrores dos combates. Criamos uma redoma de proteção psíquica para poder sobreviver à carnificina e ao absurdo do extermínio de semelhantes de forma cotidiana. Até os médicos e enfermeiras, que lidam com a morte no seu dia a dia, precisam desse recurso para não destruir seu aparelho psíquico com cada óbito que testemunham em seu labor diário. Entretanto, esse tipo de proteção afetiva e emocional tem suas falhas e com o tempo se deteriora e se torna ineficiente. Quando somos o vetor da destruição de dezenas ou centenas de inocentes não há isolamento emocional seja suficiente para sustentar tamanha desgraça. Com o tempo os soldados dos pelotões de fuzilamento nazistas acabavam tendo crises emocionais graves e muitos deles apelaram ao suicídio para se livrar da dor insuportável de serem os algozes dos prisioneiros.

As perdas de jovens soldados alemães acabaram mostrando ser impossível manter este tipo de aniquilação sem pagar um custo elevado entre as próprias tropas nazistas. A decisão pelas mortes “por atacado” foi muito baseada na necessidade logística dos comandantes alemães de eliminar o máximo possível, no menor período de tempo e com o menor custo psicológico entre os próprios combatentes.

Hoje, com a banalização das mortes de civis na Palestina, ainda usando as mentiras surradas e antigas de crianças sendo usadas como “escudos humanos” ou que o “Hamas bombardeou o próprio povo”, podemos estar testemunhando o mesmo fenômeno, agora do lado sionista. Eu tento entender o que acontece com as emoções de um jovem piloto sionista ao receber a ordem de bombardear um hospital, uma escola, um edifício de moradia sabendo que suas bombas vão matar e mutilar centenas de crianças, mulheres, velhos e profissionais de saúde. Como esse sujeito volta para casa para abraçar sua mulher e seus filhos? Como suporta ser o veículo de tanta dor, tanta desgraça, tanta desumanidade? Até quando vai suportar o peso de sua culpa? Com o tempo o peso dessa barbárie começa a pesar sobre os ombros dos próprios israelenses. Muitos já são os reservistas que preferem ir para a prisão à participar de operações do IDF que são verdadeiras chacinas. Outros resolvem se tornar ativistas pela paz e até se unem em organizações pró Palestina. Não há como manter-se são quando suas mãos estão manchadas do sengue de crianças.

Espero que a mesma dor sentida pelos jovem atiradores alemães atinja também os matadores de hoje, e que ela seja capaz de transformar suas consciências ado(rm)ecidas. A grande revolução na Palestina também vai contar com o que resta de humanidade entre os israelenses.

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Terroristas

Essa equivalência entre os “terroristas do Hamas” e o terrorismo de Israel, que coloca lado a lado uma potência nuclear e um grupo de resistência armada de “pés descalços”, é o que existe de pior dentro da esquerda liberal. Enquanto a estratégia para os Palestinos foi a “não violência” só os palestinos morreram, só eles pagaram com a vida; só eles tiveram suas casas roubadas, suas oliveiras queimadas e suas crianças mutiladas. Só um lado foi massacrado por 7 décadas. Bastou o garoto que sofre bullying na escola reagir para exigir-se dele – e somente dele – que não seja violento. Por que as décadas de terrorismo de Israel contra a população palestina passaram despercebidos por aqueles que, agora, clamam pela paz e abominam a violência contra inocentes?

O Hamas é tão terrorista quanto o foi Zumbi de Palmares ou os bravos combatentes da resistência francesa. Quem agora acha inaceitável a violência do Hamas acredita que com flores os nazistas deixariam a França ou que a França deixaria a Argélia ocupada? Acreditam mesmo que sem a violência bruta das brigadas insurgentes algum país colonial conquistaria sua independência? A esquerda precisa abandonar o discurso frouxo e pusilânime do “amor vencerá” e assumir que autonomia e liberdade só se conquistam com força e, se necessário, violência e guerra. Admitir que apenas Israel use toda sua perversidade racista contra os palestinos sem que haja uma resposta dura é aceitar pacificamente o próprio extermínio.

É inaceitável metralhar um banheiro químico? Isso não poderia ocorrer em hipótese alguma? Sério? Procurem imaginar como seriam 70 anos de morte, opressão, fome, assassinatos, abusos, humilhações criando um caldo de cultura de ódio e ressentimento. Quem pode dizer que, no desespero, não apelaria para uma resposta no mesmo tom dos seus agressores?

Qual alternativa resta para os palestinos? Manifestações pacíficas? Cartazes? Abaixo-assinados? BDSBoycott, Divestment and Sanctions? Isso eles já fazem há mais de meio século e continuam sendo despejados de suas terras, mortos pelos colonos, queimados vivos, despojados de seus bens, assassinados e presos aos milhares – sem julgamento. Como é possível rotular o Hamas de “terrorista” quando suas ações são a reação inevitável a uma violência sem fim? Como ousam pedir moderação aos oprimidos quando suas crianças são mortas em casa, dormindo, quando suas mulheres enterram os filhos ainda pequenos e quando uma legião de mutilados vagueia pela cidade de Gaza? Será que ainda não perceberam que a solução que Israel apregoa desde sempre é o extermínio ou o exílio forçado? Ainda não notaram que Israel jamais aceitou negociar? Como conseguem culpar este povo por fazer a única coisa possível: resistir e não se entregar ao extermínio?

Por certo que ninguém acha bom metralhar banheiros químicos, mas todo mundo aceitaria atirar em um ladrão que aponta uma arma para a cabeça do seu filho. Israel está há mais de 70 anos não só apontando, mas matando e mutilando crianças palestinas muitos anos antes da existência do Hamas. Os apologistas da solução pelo “amor” acreditam mesmo que a violência é evitável? O que fariam?? Aceitariam que suas famílias fossem assassinadas sem nada fazer? Sem mover um dedo, impassíveis, imóveis? Em nome da “paz”?

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