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Sonhos

Nas últimas décadas, em especial depois da derrocada do bloco soviético e a dominância unilateral imperialista, intensificou-se um tipo de narrativa que valoriza o empenho pessoal do sujeito que, para alcançar o sucesso, precisa basicamente de um combustível de ânimo pessoal, desejo, garra e determinação. “O céu é o limite” bradam os entusiastas da promessa capitalista de transformar cidadãos comuns em megaempresários, usando para isso apenas a chama de dedicação e o empenho para subir indefinidamente. Os sonhos de construção de uma sociedade mais justa, que eram nossos devaneios coletivos na virada dos anos 60-70 do século passado, foram aniquilados pela realidade da queda do muro e por uma ideologia de crescimento através de projetos individuais de riqueza e poder. Não havia mais espaço para projetos coletivos: o mundo havia se tornado um gigantesco “cada um por si”.

Com isso proliferaram histórias de pessoas que, partindo de quase nada e munidos apenas de sonhos, alcançaram fortuna e poder. Entramos na era do “empreendedorismo”, dos coaches, dos gurus, dos influencers de mercado, onde ter seu próprio negócio e investir na bolsa é sinônimo de uma vida aventureira e cheia de ação. Por outro lado, ter um trabalho formal, ser um médico, lojista, radialista, advogado, ter carteira assinada e – pior ainda – ser funcionário público é sinal de fracasso. No nosso imaginário coletivo surgiram exemplos maravilhosos de brasileiros que foram trabalhar na construção civil nos Estados Unidos e depois se tornaram empreiteiros de sucesso, mas estrategicamente nos escondem que esse resultado não passa de 0.001% dos patrícios que se aventuram nas terras gringas, sendo a maioria empregados que se permitem explorar, sem qualquer seguro de saúde e sem previdência. O capitalismo é um bilhete de loteria, ou um dízimo doado ao pastor: apenas àqueles munidos de fé será possível alcançar a graça.

No meio destes “empreendedores” aparecem aqueles que, sem qualquer habilidade especial, ou impedidos de usarem as que têm por falta de lugar ou condições de exercer seu ofício, se jogam à venda de comida na rua, de porta em porta, na praia ou nas esquinas das grandes cidades. Também a eles se oferece a ideia de que, com persistência e obstinação, um dia chegarão ao sucesso. O sujeito que vende bolo de pote na saída da faculdade para os estudantes esfomeados que saem das aulas é visto como um empreendedor moderno atrás do seu sonho dourado de ascensão social.

Não é difícil perceber que não existe nenhum “sonho” em vender estas guloseimas. Não haveria nem se – ao invés de bolo de pote – fossem “sonhos” de padaria. O que há nessas pessoas é apenas necessidade, muitas vezes desespero, produzidos por uma sociedade onde seu trabalho não é valorizado ou é mal utilizado. Entretanto, esta sociedade agora os trata como sonhadores, gente movida por um projeto dourado de futuro, o qual, através do trabalho árduo e persistente, um dia poderá ser alcançado. Não é justo romantizar a pobreza e a escassez.; não há beleza, nobreza ou um futuro brilhante para um homem velho vendendo bolinhos na rua. O que o move é apenas o rugir do aluguel atrasado e o trovão das contas a pagar; é isso que o faz acordar todas as manhãs para vender seus produtos.

Sim, comprem os bolos de pote, ajudem o próximo, distribuam riqueza, valorizem o trabalho alheio e reconheçam o esforço destes nobres sujeitos que vendem sua força de trabalho para dar o devido sustento às suas famílias, mas não caiam na fantasia neoliberal de chamar estes sujeitos de “empreendedores” e seu negócio um “sonho”. Não sejam dessas pessoas que acreditam na fábula de que a escravidão do neofeudalismo capitalista é uma “oportunidade”, e a exploração a que são submetidos é, em verdade, uma “chance de crescer”. Glamurizar a pobreza e o sacrifício não é a missão de quem projeta um futuro de paz social. Não temos mais o direito de cair nesse engano.

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Quando eu era criança um dos programas de maior sucesso da TV era a comédia dramática M*A*S*H* (Mobile Army Surgical Hospital – Hospital Móvel do Exército Norte-Americano), que retratava o cotidiano de um hospital de campanha americano na guerra da Coreia. Foi exibida pela CBS entre 1970 e 1983, e seu capítulo final foi durante décadas o recorde de audiência na TV americana. A série era uma brilhante comédia sobre dois cirurgiões, Hawkeye e “Trapper” John McIntyre (Alan Alda e Wayne Rogers), e suas traquinagens no hospital, em especial com seus superiores, sempre retratados como tolos e incompetentes. Ambos os cirurgiões aliavam suas excelentes habilidades cirúrgicas com um humor ácido e zombeteiro. O programa também era moralista ao extremo; os cirurgiões pegavam todas as mulheres, mas nunca as casadas; faziam troça de um casal (o cirurgião chefe e “hot lips”, uma enfermeira) que tinham um caso. Colocavam um nerd como figura importante e um “falso trans”, que se vestia de mulher para ser mandado embora – sem jamais conseguir.

Os 13 anos da série são um brilhante exemplo do “empacotamento americano”. Ele funciona quando um fato vergonhoso da história americana é empacotado como algo heroico, grandioso ou cômico e vendido desta forma “adocicada” para sua população e para todos os cantos do Império. Nesse contexto, a guerra na Coreia – ou a Guerra de Libertação Nacional para os coreanos – é retratada como algo engraçado, pitoresco, com figuras cativantes e com espaço para brincadeiras. Nesta série, os americanos são mostrados como nobres, justos, corretos misericordiosos e bons, e o coreanos como miseráveis, carentes e vítimas inocentes de uma guerra criada pelos comunistas que odeiam a liberdade.

Logo após a derrocada japonesa na guerra com o exército americano, a parte sul da Coreia saiu do controle japonês para se tornar um entreposto americano no mar da China. Enquanto isso, o norte mantinha sua luta pela libertação total do país, eliminando o último dos invasores: os americanos e seus sequazes. Pelo forte sentimento anticomunista (medo da União Soviética) a guerra foi um exemplo de brutalidade e de abusos contra os direitos humanos, tornando-se um divisor de águas do imperialismo. Até então, nunca havia ocorrido em tempos modernos tamanha crueldade com um país e seu povo como o ocorrido lá. Essa guerra se tornou o marco de violência, o modelo a ser aplicado em todas as outras intervenções imperialistas, como no Vietnã, Iraque, Afeganistão, Líbia e outros. Os Estados Unidos jogaram sobre a península coreana 635 mil toneladas de bombas e 33 mil toneladas de Napalm – mais bombas foram jogadas pelos americanos na Coreia Popular (Coreia do Norte) do que durante a guerra do Pacífico contra o Japão, apenas 6 anos antes. O famoso General MacArthur desejou explicitamente a utilização de bombas atômicas na península – entre 30 e 50 delas na fronteira com a Manchúria – o que deixaria um rastro imenso de destruição e radioatividade.

O norte do país foi totalmente destruído: hospitais, escolas, conventos, diques, represas, plantações, casas, indústrias e pontes jogando a Coreia na “idade da pedra”. Inúmeros massacres foram realizados pelos soldados americanos ou sob a sua supervisão, mas nada disso aparece – nem de forma sutil – nos 13 anos em que a série americana esteve no ar. Literalmente tudo foi bombardeado. No espaço de 3 anos os americanos mataram 1/5 da população civil do norte, por volta de 3 milhões de pessoas (a imensa maioria civis – mulheres e crianças), e estabeleceram no sul uma ditadura que perdurou por décadas. Apesar disso, um armistício foi declarado em 1953 e a Coreia Popular conseguiu estabelecer a autonomia sobre a parte ao norte do paralelo 38. No início dos anos 70, em uma forma diabólica de fazer desaparecer tantos crimes, eu e milhões de americanos dávamos risadas assistindo as travessuras dos médicos e enfermeiras na península coreana.

 “O que quase nenhum americano sabe ou lembra é que nós bombardeamos o Norte inteirinho por 3 anos, sem nenhum tipo de cuidado em relação aos civis”, explica Bruce Cumings, historiador da Universidade de Chicago, em seu livro “The Korean War: A History”.

O “empacotamento” também foi feito com os filmes de Hollywood em relação ao massacre das populações indígenas no século XIX na conhecida “corrida do ouro”. Surgiram a partir daí os filmes de faroeste (Far West, o oeste longínquo), Os Pioneiros, Rin tin tin, Gary Cooper, John Wayne, Forte Apache, etc. Um dos maiores genocídios do século XIX foi empacotado e vendido para o mundo como a vitória dos “pioneiros” cristãos contra as populações primitivas e violentas. E que história eles contam sobre a segunda guerra mundial? Ora, de que foram os vencedores, mesmo que qualquer historiador sério, baseado em números de soldados perdidos, unidades de infantaria e a importância logística cruciais das vitórias ao leste, reconheça que a grande responsável pela vitória contra o nazismo tenha sido a União Soviética e sua “Grande Guerra Patriótica“.

Somos bombardeados pela propaganda imperialista de forma incessante, ininterrupta, massiva e persistente. Tudo o que sabemos do mundo, em especial dos países da resistência ao imperialismo como Palestina, Rússia, Cuba, China e a Coreia Popular, vem de fontes empenhadas nesse tipo de empacotamento, pela falsificação da verdade, pela mentira contumaz e pela desumanização dos outros povos, de forma que só seja possível chegar até nós a versão escolhida pela máquina de propaganda controlada pelos Estados Unidos. A liberdade de um povo também significa contar sua própria história, e como diria Milan Kundera “A Luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento”.

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Fortunas

Virou um mantra dentro da esquerda progressista a proposta de taxar grandes fortunas. Vários analistas falam – com muita razão – que a burguesia “hard core” do Brasil não paga imposto, e que um milionário paga menos tributos do que uma professora de escola primária. Não há dúvida que, dentro do modelo econômico em que estamos inseridos, esta é uma proposta coerente; eu me permito, entretanto, uma pequena digressão. Para mim, a taxação das grandes fortunas funcionaria como liberar os animais do zoológico. Ora, todos concordamos com a necessidade de libertar os animais aprisionados das gaiolas onde estão expostos à nossa curiosidade. A crueldade de colocá-los “atrás das grades” para que possamos admirá-los à custa de seu sofrimento não parece ter cabimento no mundo atual. Todavia, esse recurso, apesar de justo e correto, tem a potencialidade de desviar a verdadeira questão do nosso horizonte e do nosso foco. O que deveríamos estar verdadeiramente questionando – com força e insistência – é a própria existência de zoológicos, que só existem porque nossa ganância desmedida causou a destruição do ambiente natural dos animais selvagens. Esse deveria ser o real debate – a preservação do ambiente natural – e não a simples libertação dos bichos cativos.

Mutatis mutandis, as grandes fortunas só existem porque o sistema capitalista concentra a riqueza de forma obscena, aumentando as distâncias entre o trabalho e o capital pela própria essência concentradora do capitalismo. Deveríamos estar discutindo as razões pelas quais existem bilionários, que são as maiores ameaças atuais à democracia. A razão simples é que essa riqueza abusiva destes sujeitos sempre se traduz em poder político, o que pode ser facilmente percebido pela atuação dos bilionários e suas corporações nos reiterados ataques às democracias da América Latina em todo século XX. Elon Musk e o conhecido bilionário das “revoluções coloridas” George Soros são o exemplo claro do risco que os bilionários representam para as nações do sul global. A ideia de taxar fortunas se encaixa na perspectiva de “mudar a superfície para manter a essência intocada”, e por isso mesmo serve aos interesses da esquerda liberal, que não aceita a luta de classes e insiste na ilusão de “disciplinar o capitalismo” e esperar por uma “conciliação de classes” que leve ao progresso, o que sempre se mostrou um fracasso.

É por esta razão que vedetes da “esquerda” liberal americana usam o slogan tax the rich, como se esta frente de lutas fosse uma linha de combate revolucionária, quando na verdade não passa de uma manobra diversionista do próprio capitalismo para nos impedir de adotar a luta anticapitalista como bandeira. A mais conhecida é Alexandria Ocasio-Cortez, a estrela da “esquerda” histriônica do partido democrata. Ela faz parte de um grupo de novatos do partido democrata chamado “The Squad“, que tem essa fachada jovem mas insistem nas práticas reformistas por todos conhecidas, e que jamais foram capazes de produzir reais modificações ou benefícios para a classe trabalhadora. Todas essas iniciativas partem da “esquerda woke” americana e deveriam ser repudiadas pois não passam de cortina de fumaça para nos impedir de perseguir o real objetivo através da verdadeira luta.

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Sobre a moça linda

No discurso da candidata de Sergipe ao Miss Brasil Teen 2024 ela tenta se defender do que chama de “vitimismo”, como a pedir para que suas origens não sejam confundidas com um pedido de atenção especial. Entre citações em várias línguas ela solicitou que sua condição de mulher negra, filha de mão solteira, neta de indígenas e pobre não fosse tomada como vantagem sobre as demais concorrentes. Para ela, o fato de sua situação social ser ruim não significaria que seja “limitante”. Diante desse tipo de discurso – que sempre contém a palavra “representatividade” – creio ser importante um pequeno ajuste.

Sim, os seus “parâmetros sociais” vão, sem dúvida, limitar os seus sonhos, e por isso mesmo para uma menina pobre e periférica na maioria das vezes restam as qualidades herdadas de beleza e graça para que possa alcançar algum futuro, furar a bolha das castas e conquistar seu lugar numa sociedade de classes. Se essa condição social não fosse limitante para os pobres, onde estaria essa menina caso fosse feia, ou apenas de uma beleza normal, e não fulgurante como é a sua? Onde estão as outras meninas, as filhas de mãe solteira, netas de indígenas e que vivem nos subúrbios? Na faculdade de Medicina, fazendo o curso de Direito, de Arquitetura? Serão elas, em boa conta, empresárias e artistas? Não, elas serão em sua grande maioria mães, donas de casa, manicures, diaristas, funcionárias de escritórios e empregadas do comércio, pois a sua condição social será um enorme impeditivo para a sua ascensão. Negar isso é cegar-se à realidade cotidiana.

Quando se fala de um sujeito com qualidades especiais, em especial uma menina agraciada por incontestável beleza, não se pode tirar do horizonte que ela é uma minúscula exceção em um universo que determina desde o berço o destino de quem nasce pobre e com a cor negra a colorir sua pele. Não é justo tomar a exceção como se fosse a regra, pois a realidade bate à porta todos os dias nos mostrando que o mundo não oferece oportunidades iguais para quem nasce no bairro nobre e para aqueles da periferia dos grandes centros urbanos.

Sem que a sociedade sofra uma revolução através da luta de classes essas meninas continuarão a ser a suprema exceção, o ponto desviante, cuja única esperança de alcançar o sucesso e a fortuna na vida será através da beleza física ou, no caso dos meninos, a arte de chutar uma bola. Acreditar que o sucesso ocasional de uma pessoa representa a “vitória dos excluídos” é jogar o jogo dos poderosos, fazendo com que a sociedade injusta que temos seja tratada como normal, a qual só pune os vitimistas e os que “não se esforçaram o suficiente”.

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Serjão dos Foguetes

Sabe qual o drama do Serjão dos Foguetes? O mesmo de quase todos os “produtores de conteúdo” do YouTube: a tirania do papel em branco, o mais terrível dos opressores para quem está conectado ao mundo do entretenimento.

Vamos combinar que existe muito material para falar de astronomia e geofísica – esta última é a área na qual ele tem formação. Há como falar dos achados incríveis do James Webb, das descobertas de exoplanetas, da Lua, de Marte, da viagem interplanetária, de Vênus, do furacão de Júpiter, da vida fora da Terra, de visitantes alienígenas, das teorias sobre o Oumuamua, etc., mas a gente sabe que existem tormentos para quem quer continuar a falar indefinidamente. O primeiro é que, apesar de vasto, estes temas não são infinitos; não há como repetir 4 ou 5 vezes um programa sobre a Lua ou sobre os satélites de Saturno. Desta forma, uma solução encontrada é sucumbir à “síndrome de Caetano”, que é a tendência a dar opinião sobre coisas sobre as quais não tem muito conhecimento. Aqueles que se deixam contaminar por ela acabam falando demais por terem atingido um grau de notoriedade que faz com que jornalistas fiquem insistindo em obter sua opinião sobre temas aleatórios. Eu sei o quanto é difícil ser humilde nessas horas e dizer: “não tenho opinião formada sobre isso”, e ter a grandeza de uma Glória Pires na premiação do Oscar. A maioria sucumbe a ideia ilusória de que sua opinião é indispensável.

Serjão era quase uma unanimidade entre aqueles que gostam de ciência popular. Com seu jeito de nerd, gordão, sorridente, brincalhão, e muito comunicativo, ele explica a astrofísica como se fosse um professor bonachão das séries iniciais de um colégio público. Não se furtava a brincar com o “mundial inexistente do Palmeiras”, com as teses amalucadas dos terraplanistas e com as descrições de visitantes extraterrestres a visitar nosso planetinha. Tudo ia muito bem, e seu canal já havia passado alguns muitos milhares de inscritos e, direi eu, de forma merecida, até porque sou um dos fãs dos seus programas.

O problema começou a ocorrer quando Sérgio Sacani – seu verdadeiro nome – começou a dar mostras de que, além de ser um excelente comunicador e divulgador científico, estava alinhado com as correntes mais conservadoras do pensamento político contemporâneo, flertando com a extrema direita e o bolsonarismo. Quando sua biografia foi exposta surgiram manifestações no mínimo comprometedoras, em especial quando sugeriu a morte do presidente Lula, mesmo que em forma de brincadeira. A partir daí, ficou claro que sua posição no espectro político estava situada muito mais à direita do que gostaríamos, em especial por ele ser um propagador do conhecimento científico. Serjão apoia a ciência ao mesmo tempo em que se aproxima dos grupos que mais a atacam. Também é notória a sua vinculação com figuras icônicas da extrema direita mundial, em especial Elon Musk. Sua defesa se baseava em uma Fake News: um fantasioso diálogo entre o herói bilionário e a “ONU” a respeito de uma doação de 6 bilhões de dólares para acabar com a fome, para a qual ele exigia a “nota” dos gastos para, só então, investir nessa iniciativa. Tudo indica que o diálogo e as exigências do dono da Tesla eram apenas uma forma de propaganda.

A privatização da Petrobrás, que ele defende, é uma das suas opiniões mais controversas. Para ele, “a Petrobrás está cheia de pessoas que não fazem nada, está inchada“. Assim, uma empresa nas mãos de investidores, entregue pelo governo à iniciativa privada, seria uma forma de deixar a empresa mais saudável, usando o velho argumento de que as empresas privadas são mais “honestas” e mais “enxutas”. Para ele, a importância estratégica de ter o petróleo sob o controle do governo é menos importante do que se livrar de funcionários que, segundo ele, pouco ou nada produzem. Também é pródigo em atacar a China, tratando sua ciência como se fosse inferior à americana, o padrão de excelência.

Assim, o que vemos com Sérgio Sacani, longe de ser um desvio na curva, é um padrão no comportamento dos divulgadores de conhecimento nas redes sociais. Assim que ele começou a falar de assuntos como geopolítica, capitalismo, sociedade, privatizações, socialismo, China, Coreia Popular e o significado dos bilionários na sociedade capitalista ficou evidente sua verdadeira essência conservadora. A exaltação do bilionário Elon Musk, visto com ele como um “gênio” e mecenas da ciência, e a de Lula, visto como alguém que poderíamos eliminar, deixa muito clara sua perspectiva de mundo. Porém, não é certo culpá-lo por estas opiniões fora do seu métier; ele na verdade sucumbe à tentação irresistível de ficar tratando de assuntos que desconhece; na maioria das vezes “ouviu o galo cantar mas não sabe onde”. Muito do que ele fala de política, do PT, do Lula, de Elon Musk, da China, da Coreia Popular é suco de senso comum, um amontoado de informações sem fonte e sem qualquer comprovação científica. Essa adesão oportunista aos cânones científicos é o que existe de mais censurável; quando é para criticar os terraplanistas a vinculação à ciência é mandatória; afinal, como tratar destes assuntos e ao mesmo tempo desprezar toda a ciência que sustenta nossa visão do cosmos? Todavia, quando critica os “vagabundos da Petrobrás” não é necessário mostrar nenhuma comprovação de que os funcionários da nossa maior estatal são relapsos – sua percepção pessoal e isolada é suficiente. Ou seja: ciência para quem precisa de ciência; senso comum quando interessa.

Entretanto, eu ainda prefiro esquecer as mancadas do Serjão dos Foguetes e escutar apenas as coisas interessantes que ele apresenta. Acho que é razoável e justo distanciar o autor da obra, o divulgador científico da sua posição política. Por outro lado, que isso fique como ensinamento: o fato de um sujeito ter uma vida acadêmica abundante, rica e ter acumulado conhecimento sobre um tema específico, não garante que tenha informações suficientes para tratar com profundidade outros temas. A compartimentalização do conhecimento nos permite que sejamos doutos em determinada especialidade e totalmente ignorantes em muitas outras. Nosso erro é valorizar as opiniões dessas pessoas fora dos seus domínios, onde eles possuem a mesma profundidade de saber do que qualquer um de nós.

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Pax Capitalista

Existem personagens no universo das redes sociais – em especial no zoológico dos comentários que brotam abaixo de qualquer notícia – que ainda pensam que o PT é um partido “socialista”. Por certo que muitas dessas manifestações são pura estratégia do “espantalho”: chamam o partido de socialista (ou comunista) para poder colocar no inimigo um rótulo que agrega boa parte da direita mais raivosa e violenta. Da mesma forma chamam um partido de direita, como os democratas dos Estados Unidos, de “esquerdistas”, apenas para confundir a “teologia dos costumes” com o ideário socialista. Tudo mentira, usada para fazer fumaça e não questionar o capitalismo decadente e a necessária luta de classes.

É importante o esforço esclarecer todos aqueles que ainda estão mal informados sobre os partidos no atual cenário nacional. Quando olhamos o leque de alternativas que vai da direita fascista até a esquerda revolucionária, o PT se situa numa posição de centro-esquerda, de caráter abertamente reformista e inserido no modelo capitalista. Os verdadeiros socialistas do PT saíram há muito tempo e entraram em partidos da esquerda revolucionária, como o PCO, o PSOL, a UP, etc, ou então se adaptaram a posições de comando, imaginando mudar a política sem questionar a estrutura da democracia liberal. Para os socialistas “raiz”, da esquerda revolucionária e marxista, o PT no governo representa acima de tudo o alívio de não ter um ladrão de galinhas genocida comandando o país. Mesmo sendo um partido progressista e de raiz operária, o PT não representa os ideais anticapitalistas que animam a franja esquerda do espectro político do nosso país. Por isso os socialistas acreditam que não há erro algum em reclamar do PT; aliás, existem críticas bem merecidas. Porém, não cabe à esquerda fazer coro com os fascistas cujo interesse não é a crítica ao governo de Lula, mas sua destruição, para dar lugar ao seu projeto neoliberal e imperialista. Além disso, para criticar o socialismo é necessário entender o que esta proposta significa.

Desconfiem dos conceitos que os ricos e os “coaches” do individualismo vendem pra você, como “eles vão tomar sua casa“, ou “divida seu dinheiro com os pobres” e até o famoso “o socialismo nunca deu certo“. Este último parte da ideia de que o “socialismo não funcionou” quando comparado às sociedades capitalistas da Europa e da América do Norte, mas nestas análises apenas se referem à perspectiva da classe média, escondendo a iniquidade, a criminalidade e a crescente pobreza que por lá existe. Essa visão também se choca com a realidade que observamos. Hoje vemos China, Vietnã, Rússia, Coreia Popular e até Cuba como “players” no cenário internacional, posição que o Brasil – com muito mais riquezas que todos esses países – jamais ocupou. A Rússia saiu do arado manual para colocar o primeiro astronauta girando em torno da Terra em 50 anos. Hoje já é a 4ª economia do mundo e continua crescendo, apesar dos embargos do imperialismo, muito graças ao socialismo que vicejou no país por 70 anos. A China bate recordes de produtividade, é líder de alta tecnologia, cresce mais de 5% ao ano (mas já cresceu 14%!!!) e será em breve a primeira economia do mundo. O Vietnã é o líder mundial na produção de café e com a ajuda da China vai se tornando um polo de tecnologia de informação. Cuba, apesar do boicote insano, oferece dignidade aos seus cidadãos.

Pense nisso: há 30 anos o PIB do Brasil era igual ao da China. Responda: o que o socialismo da China fez lá que não fizemos aqui nas últimas 3 décadas?

Por fim, um socialista é o sujeito que estudou algo de teoria econômica e principalmente história. Não há como ser marxista sem entender o materialismo histórico e dialético e também a geopolítica do capitalismo. Sem que adquira uma noção das contradições insolúveis do capitalismo, e sem uma visão fraterna e internacionalista, será difícil entender esta perspectiva. Que muitos achem que os socialistas são “burros” ou “iludidos” não me surpreende; a imensa maioria parece incapaz de entender o que significa esse modelo, e por esta razão continuam apoiando os banqueiros, os rentistas, o imperialismo e os barões do sistema financeiro, que sugam toda a riqueza que nós produzimos. A lavagem cerebral a que todos somos submetidos através da propaganda imperialista incessante impede que se possa enxergar a real essência da nossa alienação. Entretanto, um dia estes mesmos que agora apoiam a submissão aos valores do capitalismo vão adquirir consciência de classe e entenderão as razões pelas quais os trabalhadores merecem usufruir da riqueza que eles mesmo produzem. Enquanto isso tentarão nos fazer acreditar, através dos múltiplos partidos de esquerda revisionistas, na possibilidade de uma “conciliação de classes”, que na verdade não passa de uma “pax capitalista“, onde a ilusão do equilíbrio só é conseguida pelo silêncio dos oprimidos.

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Vira-Latas

Sempre foi notória a vinculação do Ministro Barroso com os interesses da burguesia rentista nacional e do empresariado, os quais defende com unhas e dentes, mas resta a tristeza de saber que Barroso foi indicação do PT, seduzido por seu discurso identitário. Barroso é a imagem mais clara e cristalina do STF, uma corte de barões e baronesas acima do bem e do mal. É terrível saber que a Rede Globo – e o lavajatismo – tem nesse sujeito seu grande escudeiro. Que outra Rede de Comunicações no mundo consegue eleger um Ministro do STF para defender seus interesses? Quem tem um “ministro prá chamar de seu” nas grandes democracias?

Esta semana surge outra informação que até então eu desconhecia: O Ministro Dias Toffoli foi assistir a final da Champions League com políticos e empresários – os quais poderá estar julgando no futuro – em Londres, numa demonstração de absoluto viralatismo. Não só pela companhia, que depõe contra a isenção e a imparcialidade do ministro, mas pelo próprio evento, sonho de todo cucaracha endinheirado. Nestas horas cabe repetir a frase de Júlio César sobre sua esposa, Pompeia Sula: “A mulher de César deve estar acima de qualquer suspeita. A mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. Este é um mantra que deveria ser repetido diariamente por qualquer sujeito que se coloca na posição de julgador.

Não escondo de ninguém minha vinculação marxista, e sei o quanto custa ser comunista em um contexto onde o fascismo bate à porta. Entretanto, reconheço que a desconfiança da extrema direita com o STF tem sentido. Claro, não pelos seus interesses oportunistas, pois quando Lula e Dilma eram os perseguidos nada disseram. Calaram-se diante das arbitrariedades da Suprema Corte, ficaram em silêncio quando a constituição foi rasgada para impedir Lula de concorrer e silenciaram diante da censura imposta a partidos de esquerda e ao próprio ex-presidente. Agora aparecem como garantistas de última hora e defensores da “liberdade”, mas quando estavam no poder não se acanharam em pedir aos fardados uma nova ditadura.

São espertalhões, que fique claro; no entanto estão corretos pelos motivos errados ao denunciar as arbitrariedades da suprema corte. Só perceberam o autoritarismo e os interesses escusos nas ações dos ministros quando a “água bateu na (sua) bunda”. Parabéns aos comunistas que atacam a Globo e o STF desde sempre como representantes da burguesia decadente deste país muito antes desta crítica virar modinha entre bolsonaristas.

O texto abaixo publicado na Folha de São Paulo expõe a degradação dessa instituição.

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Ruptura

Se houve uma vitória moderada da extrema direita no parlamento europeu (de 118 para 131 cadeiras) nas eleições recentes também é verdade que os comunistas obtiveram um forte crescimento, em especial nos países nórdicos, e com uma retórica claramente antissistema, anticapitalista e contrária à guerra. Desta forma, fica claro que a vitória nas eleições foi daqueles que repudiam, com maior ou menor veemência, os atuais sistemas de governança europeus. Protestam contra os sintomas de degenerescência de um modelo econômico de maturidade tardia, mas que é incapaz de oferecer o que prometeu: o crescimento econômico aliado à qualidade de vida aos trabalhadores. Segundo o pensador esloveno Slavoj Zizek, a crise ecológica, a revolução biogenética, os desacertos do próprio sistema (propriedade intelectual, a disputa por petróleo, matérias-primas, comida e água) e o dramático crescimento das exclusões sociais através do refinamento da concentração de renda, serão cada vez mais intensificados no século XXI. Se é verdade que o capitalismo teve um sucesso espantoso na produção de bens de consumo e no estímulo à descobertas também é certo que sua tendência concentradora de riqueza e a divisão social inexorável denunciam sua senescência.

Ou seja, o fracasso da esquerda liberal, em especial os partidos da social democracia europeia, deveria nos fazer reconhecer o quanto a rota de “adaptação” ao liberalismo usada pela esquerda tradicional da América Latina também vai inevitavelmente nos levar a um beco sem saída. Não será mais possível continuar a afagar o mercado e os capitalistas ao mesmo tempo em que tentamos oferecer um horizonte mais justo ao trabalhador. Por esta razão, é inútil tentarmos moderar a sanha capitalista, humanizar seus ganhos ou domesticar sua voracidade; é preciso recriar o discurso de ruptura da esquerda, sem concessões ao capital, de enfrentamento à direita, frontalmente contrário ao imperialismo e contra o discurso bélico da OTAN. Se isso não for feito, permitiremos que a extrema direita, eternamente subserviente aos Estados Unidos, cresça usando a fantasia da indignação, a narrativa antissistema, com a falsa retórica da ruptura para manter o poder das corporações e do imperialismo intocado.

Ainda segundo Zizek, as fases de adaptação à morte do capitalismo se assemelham àquilo que ocorre na intimidade do indivíduo quando defrontado com um diagnóstico inexorável de morte. Segundo ele, da mesma forma como os indivíduos, as sociedades utilizarão o sistema de adaptação ao luto criado pela psiquiatra suíça Elisabeth Kübler-Ross para resolver as mortes de suas utopias. A primeira fase é a da negação, que vai se observar na ideia de tentar mostrar o capitalismo como o “fim da história”, e a democracia liberal o derradeiro e acabado modelo social. Esta negação, profunda e dolorosa, apenas retarda o reconhecimento do desfecho inevitável. A ela se segue a raiva, e provavelmente esta é a fase que podemos identificar nas massas bolsonaristas ou na juventude de extrema-direita fascista nas marchas neonazistas na Europa. A raiva com o sistema político foi capitalizada pela direita para usar a energia de indignação para dar uma sobrevida ao capitalismo na UTI. Depois disso, vencida a raiva pela triste confrontação com a realidade, vem um processo de barganha, quando haverá a tentativa de adaptar o capitalismo moribundo a uma forma mas justa de divisão de riquezas, mas mantendo intacta a divisão de classes que caracteriza o modelo mesmo tempo que o condena ao desaparecimento. Diante das falhas nas fases anteriores, e em face do aprofundamento dos sintomas do paciente terminal, sobrevém uma depressão. A partir dessa tristeza – pela da morte do sistema que nos seduziu nos últimos séculos – deverá surgir a aceitação, que nos levará ao processo revolucionário e a necessária superação do capitalismo.

Não podemos esquecer que foi exatamente esse o caldo de cultura para o crescimento do fascismo europeu há 100 anos, cuja retórica tinha a mesma origem: a insatisfação com a estrutura da circulação do capital global. O que os europeus rejeitam é o atual estado de coisas, mas ainda não perceberam que a direita é a exata manutenção – travestida de mudança – no atual modelo capitalista concentrador de renda e destruidor do meio ambiente. A Europa mostrou nas últimas eleições o que não quer, mas ainda não percebeu que esta consciência não basta; é precisa mostrar o que realmente deseja. A esquerda do sul global precisa entender que não é o momento de realizar concessões à direita, mas que é o tempo de radicalizações, de aprofundamento das contradições do capitalismo, mostrando – em especial à juventude – que temos alternativas à esquerda para a crise mundial do capitalismo. Esperamos que a ruptura necessária que se esboça não conduza ao poder os mesmos fascistas perversos que levaram 60 milhões à morte no século passado.

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Expectativas

Muitos estão exaltando o Vini – Vinícius Júnior, jogador do Real Madri – que, ao que parece, é um bom garoto. Desde que chegou ao Real Madri, vendido pelo Flamengo, sempre teve uma postura altiva e corajosa contra o racismo a que foi submetido, fazendo capas de jornais e revistas esportivas por não se calar diante das agressões que sofreu. E, por certo, acima de tudo ele é um fantástico jogador, responsável pela última conquista de seu time na Champions League. Diante desse sucesso, quiseram (imprensa, torcida, mídias sociais) contrapor sua imagem de “bom garoto” à do jogador Neymar, o “mata-borrão” predileto da torcida tupiniquim, visto como o principal responsável pelos nossos últimos fracassos na disputa da Copa do Mundo. Esse contraste do “bom menino” com a do “moleque irresponsável” serve como idealização dos nossos heróis jogadores, mas como sempre, está longe da verdade.

As pessoas, entre elas os jogadores famosos, são cheias de contradições e inconsistências. Somos incoerentes, surpreendentes e mutantes. O Vinícius não merece que se coloque em seus ombros a carga de ser o bom menino que vai nos redimir, da mesma forma como as críticas morais ao Neymar Jr estão carregadas de moralismo, ataques exagerados e uma tentativa de desmoralizar os craques brasileiros, em especial aqueles que saem do Brasil para enriquecer na Europa. Sim, existe até um interesse imperialista de desmerecer os talentos nacionais. Além disso, esse Vinicius Júnior, longe de ser o antípoda de Neymar, é parceiro do Neymar na seleção brasileira; são amigos de muito tempo. Suas perspectivas de mundo devem ser muito mais próximas do que aparentam.

“Ahh, mas ele é campeão da Champions League e não quer privatizar praias”. Ora, ele não quer ou não tem cacife para isso? Não deseja ou não pode? Sabemos que esses recursos para a construção de megaprojetos de turismo na nossa orla o Neymar tem, e essa deve ser a diferença essencial. Será que o Vini é realmente virtuoso ou apenas não atingiu o nível obsceno de riqueza de outros que vieram antes dele? Não tenho a resposta, mas sei que a única forma de avaliar é aguardar. Neymar já foi um garoto assim, um menino que carregava as nossas esperanças de reconquistar um título de Copa do Mundo. Infelizmente o dinheiro em quantidades indecentes o ligou primeiro ao Bolsonarismo e, agora, ao Luciano Huck e à proposta perversa de privatizar praias brasileiras. Neymar é produto do capitalismo tardio, do culto à ostentação e da valorização do hedonismo depois da queda das utopias socialistas dos anos 90; ele é muito mais resultado de um contexto do que sua causa.

Criar expectativas em jogadores de futebol é um risco demasiado alto; o meio onde vivem é de competividade tóxica, opulência, exibicionismo e grana sem limites. A tentação de multiplicar o capital, através das infinitas propostas que recebem, é constante. Por isso, a chance de nos iludirmos com esse garoto é gigante. Acho muito mais sensato esperar o menino ficar bilionário, como o Neymar já é, e depois avaliar se as boas atitudes continuam a pautar sua conduta. Manter-se humilde e conectado com suas origens é uma tarefa tão difícil que se pode contar nos dedos das mãos os jogadores de esquerda, progressistas e ligados às suas raízes; a imensa maioria é composta por reacionários e bolsonaristas… mas que fazem caridade ocasionalmente. Inclusive o Neymar.

A medida do amor é amar; a medida da honestidade é manter-se honesto diante da possibilidade de não ser. Ser contra a privatização das praias sem ser sócio do investimento qualquer um seria, mas continuaria sendo se fizesse parte da galera do dinheiro? Ele manteria sua posição “consciente” diante da sedução de lucros estratosféricos? Teria consciência social, respeito pela natureza, visão progressista mesmo perdendo uma oportunidade única de multiplicar sua fortuna? Essas histórias sempre me fazem recordar a fala do presidente de uma grande empresa envolvida em acusações de suborno. Quando chamado de “ladrão” por um jornalista, ele respondeu: “se você receber uma proposta de 1 milhão para ficar em silêncio e mesmo assim abrir a boca, você passou no único teste que realmente importa”.

“A mão que afaga é a mesma que apedreja”. Esta sabedoria de Augusto dos Anjos nos deveria fazer entender a forma passional como tratamos nossos ídolos. Muita calma nesta hora para não criarmos outra frustração com este novo super craque brasileiro. Aliás, não acho justo cobrarmos de um jogador de futebol que seja qualquer coisa além de atleta, da mesma forma como cobramos de um escritor que escreva com qualidade e tenha ideias criativas; não é justo que seja cobrado enquanto filantropo, ecologista, defensor de causas humanitárias, etc. No caso de excelente jogador Vinícius Júnior faz sentido esperar os próximos anos antes de colocar esse garoto no pedestal da responsabilidade social. 

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Mitos

Imaginem que, numa espetacular descoberta arqueológica, são encontrados na Palestina papiros que descrevem vida e os caminhos do “Jesus real”. Nestes documentos está descrito, de forma inequívoca, que o Messias nunca foi um ser santificado, mas tão somente um escroque, um ladrão, um dissimulador que usava de meros truques de mágica para enganar incautos e ludibriar os crédulos da época. Sua condenação se deu por suas múltiplas falcatruas ou golpes, e não por suas belas palavras, ensinamentos, parábolas, bem-aventuranças ou milagres. Tudo de belo escrito sobre ele não passa de peças políticas, criadas sobre um personagem ficcional, meramente baseado no jovem judeu crucificado no Gólgota.

Claro, é apenas um exercício de imaginação; nada disso ocorreu. Minha pergunta é: se fosse verdade, quantos abandonariam a fé cristã diante das evidências de que o personagem que tanto veneram – e por mais de dois mil anos – não é mais que uma mera criação humana? Quantos deixariam o cristianismo após descobrir que o verdadeiro Jesus de Nazaré nada se parece com o Cristo sobre o qual se ergueu uma igreja de sucesso em todo o planeta.

Minha resposta simples é: zero.

Inobstante as provas encontradas, a vinculação que temos com esses personagens está muito além (ou aquém) de qualquer análise racional, e por isso mesmo esta conexão é poderosa. Não precisamos da razão para criar vínculos com esses ícones, pela mesma razão que nossas outras tantas conexões afetivas não carecem de qualquer ligação racional essencial. Não amamos esta ou aquela pessoa por uma análise lógica e baseada em fatos; nossa ligação é muito mais visceral, e não precisa que os elementos subam do fígado ao cérebro para serem validados.

Aliás, as descobertas recentes da estrutura do Universo balançaram as estruturas da Igreja, mas esta lentamente assimilou as novas descobertas e as ressignificou. “Ok, não somos o centro do Universo, mas Deus Pai zela por todos nós por sua onisciência, onipresença e amor infinito”. Feito. Bola ao centro e reinicia o jogo.

Esse tema me veio à mente porque a recente condenação de Trump tem essas mesmas características. Alguém acha mesmo que Trump perderá a próxima eleição por ter sido julgado, condenado e seus crimes revelados? Responda então: um candidato que se coloca contra o sistema, ao ser condenado por este mesmo sistema que combate, não sairá fortalecido? Essa é a grande força de Trump: disseminar no povo americano a esperança no retorno aos tempos de glória através da ficção de que ele representa o combate ao “sistema”, o enfrentamento ao “deep state” e a luta contra o “globalismo“. Como ele mesmo disse: “Eu poderia dar um tiro em um sujeito na 5ª Avenida e ainda assim venceria a eleição”. E não está errado; ele sabe o papel mítico que exerce sobre o eleitorado.

Bolsonaro, o fac-símile do trumpismo em Pindorama, igualmente sabe que as provas de seus desmandos, a roubalheira, as joias, as propinas da vacina e a tentativa de golpe não atingem o coração de sua imagem de “cruzado antissistema” e contra “tudo isso que está aí”. Ele entendeu que sua legião de acólitos pouco se interessa pela vida real e mundana do seu líder, e apenas enxerga o “mito” que pode redimi-los de sua vida insossa e medíocre. Tanto lá quanto aqui, a falência do capitalismo continuará produzindo estas figuras que iludem seus seguidores fingindo combater o sistema quando, em verdade, são o seu último suspiro.

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