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Imprensa

“Jornalismo é publicar algo que alguém não quer que se publique; o resto é publicidade”.

A frase acima foi erroneamente atribuída a Orwell e até Hearst, mas é mais antiga que ambos. Ela encerra uma grande verdade: o jornalismo serve para expor as entranhas do mundo, mostrar o que não querem que seja mostrado, trazer a luz o que está escondido. Serve para criar desconforto, trazendo à nossa frente o espelho do mundo para que possamos nos angustiar com a imagem refletida. Só a dor de ver nosso reflexo pavoroso pode nos mobilizar em direção à necessária transformação. Já a outra frase, criada pelo jornalista Joseph Pulitzer, que dá nome ao maior prêmio de jornalismo dos Estados Unidos, nos anunciava que o poder de manipular as massas através do controle da informação poderia tornar o cidadão comum em um mísero joguete na mão dos poderosos.

Israel lançou neste domingo (26/maio/2024) mais um ataque violento a Rafah causando a morte de pelo menos 45 pessoas – crianças e mulheres em sua maioria – instantaneamente incineradas; foram queimados vivos pelos chacais de Israel. Ao invés de “câmaras de gás” agora as vítimas do fascismo são torradas a céu aberto. Nenhuma palavra foi escrita sobre sobre esse ataque monstruoso nos jornais do “mainstream”. A grande imprensa, controlada pelo sionismo, silencia diante da barbárie racista e imperialista, e isso deixa claro que as grandes instituições de imprensa não retratam os fatos, mas se ocupam na montagem de uma “narrativa”. O jornalismo imperialista produz uma ficção criada sobre a visão ocidental, imperialista, opressiva, a qual controla a mente de grandes parcelas da população através dos seus inúmeros meios de comunicação.

Isso nos ensina como as gerações do passado foram manipuladas para fazer do nazismo uma proposta sedutora e de Adolf um grande líder. Por isso ele mereceu ser capa da Revista Time, exaltado por multidões, admirado até pela coroa inglesa e imitado até hoje. Essa avalanche de propaganda e lavagem cerebral também mostra como pudemos aceitar Collor, Temer, Deltan, Sérgio Moro e até Bolsonaro como figuras públicas de sucesso – até que seus malfeitos se tornaram deletérios para o próprio sistema.

A imprensa, como nós a concebemos ainda hoje, é uma máquina de conformismo, uma das mais eficientes ferramentas de manipulação da realidade. Seus donos sequer se importam com os balanços negativos do seu negócio, pois que estas instituições funcionam como fantásticas peças de pressão política, escondendo o que não convém mostrar (como o holocausto palestino), criticando banalidades dos inimigos (como o casaco vermelho do Ministro Pimenta) e tratando toda e qualquer nação como “ditadura” ou grupos como “terroristas”, bastando para isso que este país se rebele contra os desmandos do império ou que se organize para combatê-lo.

A democratização imposta pela Internet ameaçou a hegemonia e o monopólio de informação imperialistas. Não fosse pelas redes sociais jamais saberíamos dos crimes contra a humanidade cometidos agora por sionistas na Palestina. Mesmo a Al Jazeera seria boicotada nas redes de TV do Brasil e do mundo, como já ocorreu no passado e como acontece ainda hoje com as redes russas. Teríamos a mesma cobertura hoje que o Nakba teve em 1948: uma rede infinita de mentiras, falsos heróis, apagamento dos massacres, exaltação dos terroristas sionistas e o tratamento acusatório contra as próprias vítimas da limpeza étnica. O fato de ser possível hoje – pelo menos – contrapor-se às fraudes sionistas é um sopro de esperança para quem sonha com a disseminação plural e irrestrita da verdade, mesmo que ela possa, de alguma forma, nos desagradar.

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Ingenuidade

No dia 21 de maio 2024 aconteceu (mais uma) bela lapada em todos os tolos da esquerda liberal que acreditaram que o marreco de Maringá um dia seria punido. O ex-juiz Moro foi absolvido no TSE por 7 X 0.  A esperança ingênua de que fosse feito justiça por um órgão historicamente golpista é a marca registrada de uma esquerda que não aprende as lições, apesar da severidade dos acontecimentos. Nossa fé em figuras medíocres como Carmem ou Alexandre, sem falar nos nefastos Nunes e Mendonça do STF, é atestado de infantilidade política. A direita tem mesmo suas razões para reclamar do autoritarismo desses personagens, mesmo que por razões não democráticas.

Uma esquerda que serve de suporte acrítico às instituições burguesas – polícia, forças armadas, supremo – não mereceria sequer o nome de esquerda, pois é impossivel aceitar docilmente que a salvação da democracia brasileira pudesse vir dos representantes máximos da burguesia nacional. Acreditar nisso é o mesmo que exigir de um rebanho de ovelhas que apostem no bom coração e nos princípios dos lobos para escapar da carnificina. Antes de construir um movimento forte é necessário reconhecer seus inimigos. Como diria Sun Tzu “Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas.”

Respondam com sinceridade: se fosse Lula a sentar no banco dos réus no TSE, acham mesmo que a “prudência” seria utilizada para seu julgamento? Estariam os ministros tão aferrados à uma interpretação benigna das ações do ex-presidente? Lula foi preso por um apartamento que nunca foi seu!! Dilma foi defenestrada sem cometer qualquer crime. José Dirceu foi condenado sem provas, mas pela “literatura internacional”. Se necessário, o judiciário tira leis da cartola para condenar a esquerda – sem vergonha alguma para criar suas próprias leis, no melhor estilo ditatorial. A história recente dos julgamentos de personidades da esquerda mostra que a balança sempre pesa contra o povo e a favor dos representantes das elites financeiras e do poder burguês. Aceitar passivamente essas instituições é uma ingenuinade que não se pode admitir para partidos que pretendem mudar a história desse país.

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Leite derramado

Não que isso seja uma desculpa, mas um dos principais problemas do Estado é a própria estrutura da democracia liberal; na nossa cultura as pessoas pensam a qualidade dos governos na perspectiva dos seus próprios interesses. É muito comum a gente ver um caminhoneiro, dono de bar, médico, professor, empresário ou funcionário público se dizendo arrependido de ter votado no governador, prefeito ou presidente porque não resolveu os problemas da sua categoria. “Não recebemos aumento desde que fulano foi eleito!! Nunca mais voto nele!!” É o famoso voto egoísta. Assim sendo, mesmo quando o governante é um crápula, canalha, ladrão e incompetente, se contemplou seu segmento profissional, seu bairro, sua identidade, sua cidade, colocou calçamento na sua rua ou deu um cargo em confiança para o seu sobrinho ele automaticamente se torna maravilhoso. Essa é apenas uma das razões pelas quais fazemos este tipo de escolha nas eleições, que se mostram um desastre para o povo. Agora estamos a chorar sobre o leite derramado.

Além disso, quem define o que é um bom governante? Aqui no Brasil sempre se consideram as “obras”, e estas precisam ser visuais, que atinjam os sentidos, que impactem a todos por sua grandiosidade. Um viaduto (prefeitos tem tesão em viadutos), um novo hospital de transplantes ultramoderno (que vai beneficiar médicos especialistas e não mais que 100 pacientes por ano), avenidas, pavimentação, aeroporto, etc. Mas qual governante faria uma rede de esgotos? Quem faria uma reformulação da rede elétrica? Quem pagaria um salário decente aos professores? Quem se arriscaria a fazer transformações profundas na estrutura invisível da sociedade? Quem arriscaria seu mandato fazendo apenas o que precisa ser feito – e não o que dá votos? Como acham que o prefeito ou o governador poderiam fazer propaganda dessas administrações usando como publicidade o conserto das bombas de drenagem estragadas há muitos anos que evitaram algo que – por causa disso – não aconteceu? Quem votaria num prefeito cujo slogan fosse: “Eu consertei o que estava estragado, mas não foi usado ainda”?

Sempre conto a história de uma paciente que teve uma síncope cardíaca no corredor do hospital, mas por sorte caiu na frente de dois médicos que passavam por ali: um cardiologista e um obstetra. Por esta situação fortuita foi possível realizar uma cardioversão (choque) imediata, e assim teve a vida salva. Quando recebeu alta da UTI escreveu uma carta (que foi lida no auditório do hospital) elogiando o trabalho do médico que a salvou. Quando fomos ver seu prontuário notamos que ela estava há vários anos sem consultar para sua condição cardíaca – uma arritmia. Isso nos deixou uma lição: elogiamos os médicos que consertam heroicamente as falhas do sistema, mas nunca damos o devido crédito àqueles profissionais cuidadosos que não permitem que seus pacientes fiquem tantos anos sem assistência; nunca elogiamos os médicos que silenciosamente evitam os desastres. Esses são invisíveis, tanto quanto o são os canos de esgoto, as bombas de drenagem, os diques para represar o rio, a rede elétrica e a rede de água potável que existem nas cidades e ninguém vê.

Para haver um sistema mais democrático precisamos ultrapassar a democracia liberal e a política sazonal, aquela que só ocorre cada 4 anos. Precisamos nos livrar dos políticos populistas e do sistema que se ocupa tão somente na maquiagem superficial das cidades. Mas, por mais que seja duro admitir, precisamos de novos eleitores, novos cidadãos, personagens ativos na transformação da sociedade em que vivem, agentes mais participativos no dia a dia das cidades, dos Estados e do país. Gente que possa enxergar o valor da melhoria coletiva, e não apenas daquelas mudanças que lhe interessam ou afetam. Com o modelo atual será sempre mais difícil.

Sim, agora vamos consertar as bombas de de drenagem estragadas em Porto Alegre. Precisou aparecer a “pedra de tropeço”, a tragédia, o desastre ambiental, e agora choramos sobre o leite derramado. Até quando nossa visão política vai ser apenas para os próximos 4 anos, quando sabemos que na China os planos são para 50 anos?

Pensem nisso.

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Holofotes

Algumas personalidades da mídia que estão envolvidas com a crise climática atual vêm a público dizer que, no trabalho de ajuda às vítimas da enchente no Rio Grande do Sul, o Estado “só atrapalha” e o que está funcionando é o trabalho valoroso dos voluntários, em especial o pessoal de jet-ski. Fazem isso para valorizar seu próprio esforço, mas por certo que usam esse discurso para igualmente atacar o governo Lula. Bem o sabemos o quanto de base é invisível à vista desarmada, e por isso é preciso trazê-lo à luz. O cidadão comum percebe com facilidade a mão que entrega o sapato, a camisa, o cobertor, a água limpa e a comida, e para ele vão todos os agradecimentos e as homenagens, Entretanto, não consegue enxergar, sem um pouco de atenção e boa vontade, a longa linha de atores que garantiu a realização desse ato de solidariedade: o doador, o motorista, o veículo de transporte, o local onde colocamos os flagelados, a organização, a turma da limpeza, a logística, o apoio dos governos, etc. Na sociedade do espetáculo vale menos um cheque de 50 bilhões do que um garotão de jet-ski.

Ao lado de toda esta mobilização para ajudar as famílias atingidas pela tragédia, a competição dos influencers sobre quem está “ajudando mais” é um dos efeitos colaterais mais asquerosos da tragédia. O auxílio de personalidades não é ruim, mas quando é feita apenas para gerar publicidade – ou para atacar o governo – se torna um caso de polícia. Essa função é primeiramente do Estado, e o governo Lula está agindo de maneira exemplar para tratar as questões mais emergenciais, e já está absolutamente claro que muito da propaganda sobre a iniciativa pessoal de jogadores de futebol, artistas diversos, personalidades, ex-BBBs, surfistas e tem como objetivo principal criar a fantasia de que o governo nada faz. A torrente incessante de fake news, tratando a iniciativa federal como incompetente ou maléfica, prova que para a extrema direita fascista o sofrimento do povo pode ser usado como ferramenta política para atacar o atual governo.

É preciso enxergar para além do meramente manifesto para ser justo em cada avaliação. Para toda estrela de cinema exaltada e aplaudida existem centenas de pessoas nos bastidores e escritórios que financiam e dão suporte ao seu trabalho; para cada cirurgião salvador existe uma enorme equipe de trabalhadores da saúde na retaguarda, sem os quais o trabalho de cura seria impossível. O mesmo ocorre em toda ação de assistência. Cuidado com aqueles que, estando na ponta da linha de acão e sob as luzes dos holofotes, reclamam para si a exclusividade dos elogios e aplausos.

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Dilemas

Ex-estrela adolescente da Disney, Hilary Duff, acaba de ganhar o quarto filho em um parto domiciliar

Escrevi um texto há muitos anos chamado “Dilema Médico” que abordava a questão das difíceis escolhas pelas vias de parto. O texto, depois de vários anos, se mantém atual, pois o corpo das mulheres ainda é um território sob disputa. O que lá escrevi contém as mesmas perspectivas que até hoje são relevantes. Entretanto, mesmo que o debate entre os ativistas tenha avançado, o olhar jurídico continua infectado pelo mito da transcendência tecnológica, conforme descrito por Robbie Davis-Floyd há mais de 30 anos. Ou seja: se há um dilema que paira sobre o momento maiOu seja: se há um dilema que paira sobre o momento mais adequado e seguro de intervir na fisiologia do nascimento, objetivando salvaguardar o bem-estar de ambos – mãe e bebê, também é evidente que para os médicos (e também os complexos médico-hospitalares) a intervenção ostensiva se tornou a forma prioritária de atenção por ser a forma mais segura… para quem o assiste.

Há 40 anos eu dizia que a cesariana se tornava a rota de fuga com mais segurança para os obstetras, e as perseguições a quem se opunha à tendência de artificialização do parto ameaçavam a prática do parto normal. A frase que eu escutava à época, por parte dos professores, era: “Uma cesariana permite ao obstetra sair da sala de parto com a cabeça erguida; um parto, nem sempre”. Uma intervenção sobre o corpo das mulheres, necessária ou não, garantiria a honra e a consideração sobre o profissional; uma ação mais moderada ou conservadora acrescentaria riscos inequívocos para os cuidadores. Assim, o lema dos profissionais, de forma consciente ou inconsciente, se tornou: “na dúvida, passe o bisturi e salve a sua pele”. Todavia, quem poderia julgar profissionais que, diante dos dilemas de um nascimento, pensam na sua carreira, fé pública, profissão e filhos?

Desta análise surgiu a convicção que o debate sobre parto nas sociedades ocidentais não pode se esgotar nas questões científicas. “Parto faz parte da vida sexual de toda a mulher”, como dizia Michel Odent, e se a sexualidade é uma questão política, o nascimento também o será. Enquanto a sociedade não pressionar o judiciário para uma visão mais racional e científica – abordando os direitos reprodutivos e sexuais das mulheres de forma abrangente – as decisões serão mediadas por esse imperativo intervencionista, até porque esta perspectiva interessa à corporação médica. Uma cesariana é sempre a vitória da técnica sobre a natureza e, por conseguinte, terão supremacia e importância social garantidas aqueles que controlam essa técnica.

De uma certa forma a cesariana se mantém alta como tendência porque ela está em consonância com os interesses dos profissionais da medicina e sob o controle do judiciário, inobstante o fato de não existirem estudos que justifiquem sua alta incidência e se avolumam as pesquisas que apontam seus múltiplos problemas, dos riscos cirúrgicos, anestésicos e hemorrágicos até as questões relacionadas ao microbioma dos bebês e seu desenvolvimento intelectivo. Entretanto, tudo isso ocorre porque ainda não há massa crítica sobre o tema em nossas sociedades ocidentais; não existe a suficiente consciência entre as mulheres sobre a expropriação de seus partos, a retirada do nascimento do seu âmbito de decisão e a diminuição da importância da família sobre os valores que cercam um nascimento. Para que não haja revolta, elas são mantidas na ignorância por interesse de quem controla o nascimento e seus significados.

* a partir de uma conversa com Braulio Zorzella

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Madonna

Esse comentário nada tem a ver com música, coreografia, showbiz, festas ou qualidades musicais, muito menos sobre a adesão de Madonna à Cabala. Este texto não trata de budismo, judaísmo, cristianismo ou qualquer religião ou culto. O texto, entretanto, trata do sionismo, que é uma vertente racista do fascismo, uma expressão de excepcionalismo e supremacismo nacionalista. Madonna, aliás, jamais se converteu ao judaísmo, mas é uma admiradora da Cabala, corrente mística da religião judaica, e adotou o nome hebraico Ester; em Israel, a cantora é chamada de “Rainha Ester”. Ela poderia até ser espírita, e nada haveria a mudar neste conteúdo, porque nossa preocupação deve ser com a vinculação dessas figuras públicas com o colonialismo e o imperialismo. Minha intenção é deixar claro que não é admissível colocar a Madonna como ícone progressista apenas porque ela sofre ataque dos bolsonaristas homofóbicos; esse erro identitário não pode mais ser tolerado.

Nos tempos atuais é muito comum personalidades da música defendendo a pauta dos excluídos e a favor de minorias (gays, negros, indígenas, trans, mulheres, etc.) ao mesmo tempo em que apoiam o imperialismo e regimes fascistas como Israel. Não acredito que Madonna seja pessoalmente uma fascista (nem Barbra Streisand, Gal Gadot, Natalie Portman, The Rock, Seinfeld, etc) mas ela falhou no teste fundamental para ser considerada de esquerda: o apoio ao horror racista e supremacista de Israel. Por outro lado é preciso denunciar este tipo de cooptação, porque parece que a esquerda não compreendeu ainda a armadilha.

Primeiramente, vou deixar bem claro que sou a favor de distanciar o artista de sua arte, e por isso me permito curtir Monteiro Lobato, Michael Jackson, Pablo Neruda e Nana Caymi, todos devidamente cancelados pela tendência atual de buscar, no passado de figuras proeminentes da cultura, falhas morais ou agressões às identidades que ora defendemos. De minha parte, não acho que os erros – mesmo graves – de intelectuais e artistas podem necessariamente destruir sua obra. Portanto, não há absurdo algum em curtir Like a Virgin, dançar com sua música e se reunir em Copacabana para celebrar sua arte. Todavia, isso é bem diferente de tratar Madonna como um ícone para uma nova sociedade. Madonna nunca foi de esquerda, e nem seria justo cobrar isso dela. Afinal, ela deixou claro que é A material girl living in a material world. Seria tolo cobrar dela algo mais elaborado no que diz respeito aos direitos humanos. Ela é uma artista talentosa e de sucesso, que ganha milhões com sua arte; nenhum erro nisso.

Alguns poucos estão falando do equívoco brutal que é colocar Madonna ao lado da esquerda. Breno Altman deixou claro que Madonna é uma sionista que defende não apenas Israel e o sionismo, mas até mesmo o indefensável primeiro ministro Netanyahu – absurdo que também se manifestou entre os senadores americanos que escreveram uma nota em sua defesa. Ela tem plena adesão ao discurso racista que dá suporte enfático ao colonialismo branco e europeu de Israel e mostra desprezo pelo povo palestino. Que haja gente de esquerda comemorando essa personalidade, apenas pela sua vinculação aos grupos identitários, diz muito da infiltração fascista dentro da própria esquerda. Colocar Madonna dentro da nossa trincheira para atacar os homofóbicos e pervertidos bolsonaristas tem um nome bem conhecido, usado em homenagem à uma história muito antiga de uma guerra entre gregos e troianos.

Madonna é uma representante dos valores imperialistas do partido democrata e uma sionista da linha de frente; é uma representante do sectarismo identitário criador de divisionismo na classe trabalhadora e dissemina o “pinkwashing” tão conhecido de nós, o mesmo que tenta apresentar Israel como um paraíso para os gays. Tudo mentira, como sabemos; Israel tem uma violenta polícia de costumes e possui na sua população uma homofobia raiz tão intensa quanto o racismo e a xenofobia entranhados em sua cultura.

Portanto, muita calma nessa hora. Madonna, pelos seus valores, posturas e ideias, está muito mais próxima do bolsonarismo do que de qualquer grupo de esquerda. O apoio ao colonialismo racista e ao apartheid de Israel é a régua moral dos nossos tempos. Não há como ser um sionista apoiando o massacre de crianças em Gaza e ao mesmo tempo colocar-se ao lado da esquerda. Podemos aceitar que Madonna é reaça, uma agente do imperialismo disseminando suporte ao colonialismo, mas você não precisa ter vergonha de dançar sua música.

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Put the candle…. back!!

Em 1974 eu era um adolescente que gostava de cinema e de comédia. Fui ao cinema sozinho – o que eu costumava fazer naquela época – para assistir um filme sobre um famoso monstro da literatura, um sujeito formado por partes de distintos cadáveres costurados. Sim, eu não sabia que se tratava de uma comédia, e só no decorrer do filme me dei conta que não se tratava de um filme de terror, o que ocorreu já nos primeiros minutos, na cena da aula de neurologia. Esta surpresa deixou a experiência ainda mais interessante. O filme que fui assistir era “Jovem Frankenstein“, de Mel Brooks.

Numa época anterior à internet não havia muitas informações dos filmes, além do cartaz na frente do cinema e dos comentários nas colunas do jornal. Inicialmente acreditei se tratar de uma biografia ficcional do médico Victor Frankenstein quando jovem, e as razões pelas quais ele tentou recriar vida a partir de tecidos mortos. Eu não estava muito longe da verdade; a história era sobre Frederick “Fronkonstin“, neto do famoso médico, que foi instado a voltar ao castelo do avô para receber sua parte na herança. Esse neto – o genial Gene Wilder, cocriador do roteiro junto com Mel Brooks – renegava a memória do avô, a quem considerava um maluco sem qualquer credibilidade. Seu retorno à Transilvânia o faz reconhecer a veracidade e a correção dos estudos do seu antepassado. Estimulado pela descoberta, decide seguir seus passos e criar um novo monstro.

A história clássica, escrita há mais de 200 anos, está centrada no mito dos zumbis – ou a fantasia de recriar algo que, depois de morto, voltaria a viver. Ao contrário da criação dos zumbis, onde a feitiçaria ocorre por maldições, poções mágicas ou encantamentos, no romance do século XVIII a bruxaria se dá pela ciência, abusada e arrogante, que decide desrespeitar a “ordem natural das coisas”. O resultado só poderia ser uma monstruosidade. As múltiplas interpretações para a obra de Mary Wollstonecraft Shelley vão desde as relações de trabalho na Inglaterra no conturbado período da revolução industrial até os conflitos intrapsíquicos que insistem em manter vivas relações afetivas que há muito deveriam ter sido sepultadas.

A criação do romance se deu através de um desafio: contar uma história de terror durante uma noite chuvosa na casa do Lord Byron, onde também estava seu futuro marido Percy Bysshe Shelley. Pois foi em uma madrugada regada à vinho e com o barulho entorpecente da chuva como sinfonia que, em 16 de junho de 1816, Mary teve a ideia de contar a epopeia de um jovem estudante de medicina costurando membros que havia roubado de uma sepultura para fazer a carne morta retornar à vida. Desta forma, a garota de apenas 18 anos criou o clássico Frankenstein. A ideia virou um conto e depois, estimulada pelos amigos, tornou-se um romance cujo sucesso já ultrapassa dois séculos.

Certo, sem spoilers. Toda a trama do filme de Mel Brooks de 1974 é sobre a recriação do monstro. Entretanto, há razões para esta ser considerada o maior filme de maior comédia de todos os tempos. Os atores são incríveis: Gene Wilder, como Frederick; Clóris Leechman, como Frau Blücher (dá para escutar o relinchar dos cavalos ao pronunciar seu nome); Marty Feldman como Igor; Madeleine Kahn como Elizabeth e Peter Boyle como o monstro são espetaculares em suas performances, sem falar de Teri Garr, como a estonteante assistente Inga. E tem até uma pontinha do Gene Hackman como o cego que abriga o monstro. O roteiro é lindamente costurado, as gags são maravilhosas, as situações criadas no enredo são hilariantes.

O filme foi todo filmado em preto e branco, uma exigência de Gene Wilder para recriar a estética lúgubre do filme “noir” de Frankenstein com Bela Lugosi de 1943 (Frankenstein meets Wolfman). Essa característica adicionou um enorme impacto estético ao filme. Eu saí do cinema profundamente comovido, e fiquei com a música tema do filme durante anos na minha cabeça (um solo dolorido de violino composto especialmente para o filme pelo maestro John Morris). Infelizmente eu seria obrigado a esperar mais de 10 anos pela oportunidade de assistir novamente esta comédia. Nos anos 70 as únicas possibilidades de rever um filme eram passar de novo no cinema (improvável), uma apresentação com debate na faculdade (porque uma comédia, e não Godard?) ou assistir de madrugada no “Corujão” da Globo (raríssimas vezes o filme era um clássico). O vídeo cassete só se tornou viável no fim dos anos 80. Hoje em dia o filme está disponível a um simples clique do mouse.

Esta semana o clássico de Mel Brooks e Gene Wilder completou meio século de existência, e por isso resolvi contar a importância desse filme na minha juventude. Pedi que meus filhos vissem ainda pequenos, e eles adoraram. Mostrei aos meus netos há poucas semanas e eles também acharam muito engraçado, e por isso acho que se trata de um filme eterno. Ele continua engraçado transpondo gerações. Eu me sinto muito orgulhoso de apertar minha cara na porta de casa e ouvi-los dizendo:

“Put…. the candle…. BACK!!!”

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Miragem

Esta foto do Mark Zuckerberg e sua digníssima esposa fazendo uma trilha em Kauai’s Awaawapuhi foi apresentada em vários jornais do mundo todo alguns anos atrás. Ela se referia a uma viagem que ele fez com sua esposa Priscilla Chan e tem todas as características de propaganda. Todos aqueles que entendem de semiótica percebem de pronto como estas fotos são usadas com objetivos bem claros. Atentem para os detalhes constitutivos da foto: as roupas são simples, o boné básico, o programa (um passeio na montanha) é de gente comum que ama a natureza, o enquadramento é de quem está fazendo um programa de casal de classe média e a foto é de baixa qualidade, como se tivesse sido tirada por um velho celular da Motorola. Tudo nessa foto é feito para criar uma conexão de Mark & Priscilla com os bilhões de humanos que consomem seus produtos. Entretanto, tudo que há nessa imagem é pura miragem.

Essa foto diz tanto da humildade do dono do Facebook quanto aquelas outras fotos que ficaram famosas durante o governo Bolsonaro que mostravam o presidente devorando um pão com margarina no Palácio do Planalto ou comendo galinha feito um troglodita, todo lambuzado e sujo de farofa. São produções de pura propaganda, criadas para estabelecer empatia entre o povão (todos nós) e os megapoderosos, os donos do mundo, com a clara intenção de esfumaçar a realidade e nos fazer crer que eles são “gente como a gente”. Tentam criar uma imagem de simplicidade e frugalidade par0a pessoas que possuem somas obscenas de riqueza e poder.

Eles não são como nós; eles são políticos corruptos, empresários, herdeiros, gangsters ou donos dos meios de produção. São burgueses, no caso do dono do Facebook; são políticos fascistas, no caso do Bolsonaro e são empresários gananciosos no caso do véio da Havan ou do Leman. Eles não compartem o mesmo estrato social que nós; estão na cobertura de um edifício que não somos sequer autorizados a entrar. Somos proletários, trabalhadores, servidores públicos, profissionais liberais e pequenos comerciantes, mesmo que para alguns ainda sobre um pouco de renda, o que possibilita a compra de um carro ou da casa própria.

Acreditar nessas fantasias é fazer o jogo dos ricos, das elites financeiras e dos poderosos. Cabe a nós desenvolvermos o que estes personagens da burguesia já têm: consciência de classe. Eles sabem o quanto têm de poder e dinheiro; também sabem e exaltam o quanto são diferentes de nós em termos de posses, gostos, status e posição social. Enquanto isso, somos iludimos por artifícios de publicidade e, por falta de consciência, acabamos acreditando que somos semelhantes a eles.

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Islamofobia

Resolvi escrever sobre o tema porque vejo o trabalho intenso das identitárias atacando o Irã e fazendo o serviço sujo do imperialismo, o que vem ocorrendo com muita frequência na Internet. Para isso usam fotos retiradas de contexto para disseminar falsidades contra o islamismo, tratando-o como uma “religião do mal”, selvagem, brutal e ofensiva às mulheres. Fazem isso agora, ora atacando árabes, ora ofendendo os persas. Aliás, para estas ativistas, é tudo a mesma coisa.

A foto de cima foi postada em vários sites dizendo se tratar de casamentos em grupo de crianças no Irã. Quem postou foi uma mulher que se diz de esquerda, afirmando que estes países são criminosos e protegem a pedofilia. Quando analisamos a foto e buscamos sua origem (por busca reversa) percebemos que não é no Irã, mas em Gaza e sequer é recente: é uma foto de 2009. E não são noivas na imagem, mas “damas de honra”, um costume milenar que também ocorre no ocidente. São meninas vestidas com o mesmo estilo das noivas para simbolizar a função precípua das mulheres – do presente e do futuro – como guardiãs da vida.

Por certo que esta visão da mulher na sociedade pode ser questionada. Nada nos impede de analisar criticamente costumes sedimentados. Cerimônias, costumes e mitos são transitórios nas culturas; eles refletem os valores sociais e os disseminam. A própria cerimônia de casamento é um reforço dos valores patriarcais, uma celebração da mulher como elemento central da sociedade. No ritual do casamento ela é o centro das atenções e das homenagens, sendo o marido sempre um personagem secundário. Entretanto, ali se estabelece um compromisso deste com aquela, o que forma a base do patriarcado.

Hoje os casamentos são bem diferentes daqueles do início do século passado e antes. Os casais são muito mais velhos, a cerimônia mais curta, a pergunta infame “se alguém souber de algo…” desapareceu e os vestidos são muito mais diversificados. Essas diferenças refletem a mudança de valores: a virgindade não é mais tabu, a submissão da mulher não é explícita, os casais tem múltiplas obrigações, os compromissos e responsabilidades são mais bem divididos, etc.

Todo mundo tem uma antepassada que pariu antes dos 15 anos. Para populações envolvidas em mortes precoces, pestes, guerras e fome não havia como esperar muito; este era um imperativo social, e assim o foi por milênios. O adequado entendimento dos significados e importância da infância nos mostrou que adentrar na maternidade com tão pouca idade era um prejuízo terrível e irrecuperável, em especial para as meninas. Com o tempo fomos abolindo essa prática, até os dias de hoje onde este costume se tornou proibido e até criminalizado.

Os países árabes e os persas também tem essa consciência, apesar de muito dos valores patriarcais mais ultrapassados ainda existirem por lá. Hoje não há como defender a prática de casamentos que envolvem menores de idade, e essa prática precisa ser combatida no mundo todo através da conscientização e da educação. Entretanto, o número de casos de gestação na adolescência no Brasil e nos Estados Unidos (e em todo o ocidente) mostra que este não é um problema exclusivo do Oriente e da Ásia. Nos Estados Unidos, como exemplo, 300 mil crianças menores de idade se casaram entre os anos 2000 e 2018, a maioria delas consistindo de meninas menores de idade casando com homens adultos.

De acordo com a organização Girls not Brides, mais de 2,2 milhões de menores de idade são casadas no Brasil ou vivem numa união estável – cerca de 36% da população feminina brasileira menor de 18 anos. O Brasil é o quinto país do mundo em números absolutos de casamento infantil. Na América Latina, o México fica em segundo lugar, com 1,42 milhão de meninas menores de 18 anos casadas ou vivendo em união estável. Essa situação atinge 26% da população feminina mexicana menor de idade.” (veja mais aqui)

A imagem da festa em Gaza mostra apenas uma cerimônia com meninas fazendo o papel de acompanhantes das noivas, mas o identitarismo busca nesta imagem tratar o Oriente como um lugar onde o abuso é exaltado. Essas imagens são maldosas e oportunistas e seriam tão mentirosas quanto as imagens aqui ao lado, se fossem apresentadas no Irã como o “casamento de crianças no Brasil”, sem apresentar o contexto da cerimônia, onde as crianças ocidentais são apenas “aias” e estão fazendo o mesmo papel das meninas em Gaza. Sobre a foto na Palestina, resta a explicação de quem organizou o casamento coletivo:

“Ahmed Jarbour, o oficial do Hamas em Gaza responsável pela realização da atividade, disse à WND que a garota mais nova a se casar na cerimônia tinha 16 anos. Disse também que a maioria das noivas eram maiores de 18 anos de idade. Jarbour, assim como dois outros oficiais de alto escalão contatados pela WND, se sentiu ofendido pela sugestão de que o Hamas estava financiando o casamento de crianças. Ele explicou que as menores vistas faziam parte da família do noivo ou da noiva. Ele disse que se trata de uma tradição as menores se vestirem de vestidos semelhantes aos das noivas. Disse que as meninas que aparecem no vídeo descendo um corredor com os noivos são membros da família do noivo ou da noiva. Em múltiplas ligações realizadas para os palestinos que participaram do casamento os mesmos afirmaram que as garotinhas não eram elas mesmas as noivas. O Hamas, entretanto, celebrou o casamento como uma vitória. “Nós estamos dizendo ao mundo e à América que eles não podem nos negar a alegria e a felicidade”, Mahmoud al-Zahar, Chefe do Hamas em Gaza, disse aos noivos no evento.”

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Arquivado em Causa Operária, Palestina

Distorções

Alguém seria capaz de discordar do fato de que, não estivessem as redes de informação – jornais, TV, Internet, mídias sociais, rádios, etc. – além do sistema financeiro, nas mãos dos sionistas e estaríamos vendo as ações atuais de Israel com os mesmos olhos que analisamos o nazismo dos anos 30-40 do século passado? Não fosse uma mídia a proteger cotidianamente Israel com seu vasto poder econômico, estaríamos ainda aceitando as atrocidades cometidas contra o povo Palestino? Não fossem as igrejas evangélicas – que lucram com o sionismo, através das excursões caça-níqueis dos seus pastores – ainda haveria apoiadores do colonialismo nefasto branco e europeu no Oriente Médio? Não fosse o dinheiro no capitalismo internacional estar nas mãos de sionistas, ainda haveria dúvidas sobre o genocídio e a limpeza étnica captados pelas câmeras em Gaza e na Cisjordânia?

O fenômeno da blindagem aos crimes contra a humanidade perpetrados por Israel, que ocorre nas grandes empresas de mídia mundo afora, ocorre de forma semelhante no Brasil, onde a realidade da cobertura da imprensa sobre Israel é igualmente deprimente. Temos uma mídia controlada por apenas cinco famílias, que sozinhas detém 50% de toda a veiculação de notícias no país. Uma delas é controlada pelo herdeiro de uma linhagem de ricos comerciantes judeus; outra é propriedade de uma Igreja Evangélica Neopentecostal, e estes empreendimentos religiosos são os maiores difusores da ideologia sionista cristã no Brasil, a ponto de construir o maior templo de sua igreja e denominá-la “Templo de Salomão“. Assim, apesar de termos uma população de origem judaica pequena no Brasil, que não passa de 150 mil pessoas (quando comparada aos quase 6 milhões nos Estados Unidos), vemos que ela exerce uma influência muito forte entre a burguesia brasileira, e isso se traduz em apoio ao Estado de Israel, mesmo que a conexão entre judaísmo e sionismo seja questionada, inclusive entre os próprios judeus.

Ou seja: a realidade que ora presenciamos é dramaticamente similar aos horrores do III Reich, bastando para isso trocar as vítimas de antes – os judeus, ciganos e gays – pelos palestinos confinados em um gueto chamado Gaza. Já os oprimidos apenas trocaram de lado, pois como dizia Paulo Freire “Se a educação não é inclusiva, o sonho do oprimido é se tornar opressor”. O que o mestre queria dizer é que, se a experiência de dor não é incorporada como aprendizado profundo, só resta a vingança e o ódio para quem passou por tais sofrimentos. Entretanto, mesmo com similaridades tão gritantes a nos oferecer um paralelo entre os horrores do holocausto e o massacre que agora testemunhamos em Gaza, a imprensa corporativa se esforça para esconder a realidade, mesmo que seja necessário mentir – como o New York Times e o caso dos “bebês decepados” – ou com os convites realizados para que sionistas tenham uma voz de destaque nas coberturas jornalísticas. Desta forma, o que presenciamos é uma interpretação dos fatos mediada pelo grande filtro midiático e financeiro, o qual não permite que nos horrorizemos com a morte de milhares de mulheres e crianças palestinas com a mesma intensidade com a qual sofremos ao ver os esquálidos judeus vítimas do holocausto.

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