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Protocolo

Logo após o término da faculdade e da residência comecei a trabalhar em um hospital de periferia onde o atendimento era 100% SUS. Eu era o responsável pelo atendimento nas sextas-feiras no Centro Obstétrico, e acredito que aquele plantão, pelas características de atender pessoas desconhecidas que haviam realizado pré-natal no sistema público de saúde, foi uma forma bastante desafiadora de levar adiante a prática dos elementos fundamentais da humanização do nascimento. Eu tinha na mente uma clara inconformidade com a forma como aconteciam os atendimentos ao parto, mas além dela uma perspectiva humanista, centrada nos elementos constitutivos do sujeito, que mesclava os fatores físicos, hormonais e mecânicos mais grosseiros com os elementos sutis, emocionais, psicológicos, sociais e espirituais das mulheres que estavam parindo seus filhos. Esse foi o terreno fértil para uma postura de confrontação ao modelo alienante da obstetrícia dos anos 90.

Na época destes plantões eu criei um programa para uso pessoal que chamei de PAOH – Protocolo de Atenção Obstétrica Humanizada, que nada mais era do que uma lista de princípios gerais para que me orientariam no projeto de otimizar resultados. Para mim, o objetivo mais importante é de que o parto fosse realizado com o máximo de segurança, e que culminasse com o nascimento de um bebê saudável e de uma mãe que tivesse obtido, além do seu bem-estar, todo o proveito da experiência. Para além da mera sobrevivência – o essencial – era fundamental oferecer à experiência do parto a possibilidade de alavancar o crescimento pessoal. Partos fisiológicos, bebês saudáveis, contato precoce, amamentação livre, fortalecimento dos laços familiares, etc. O protocolo era composto de 6 elementos simples:

1. Ambiente propício

Muito já se falava à época dos trabalhos de Frederik Leboyer e seu “nascimento sem violência”, e o quanto as interferências de luz e som na condução do parto tinham a potencialidade de atrasar e prejudicar seu bom andamento. Por esta razão, decidi que uma das mais importantes ações para garantir a segurança do parto seria diminuir tanto o barulho quanto os estímulos visuais na sala de parto. Os partos assim seriam conduzidos no silêncio e na penumbra, para não interromper o fluxo fisiológico do parto e favorecer o “apagamento neocortical”. A ideia era tratar o parto como “parte da vida sexual normal de uma mulher”, como afirmava Michel Odent, e ter os mesmos cuidados de privacidade e intimidade das relações sexuais. Com isso esperávamos diminuir a adrenalina circulante e aumentar os níveis de oxitocina entre todos os participantes da cena do parto.

2. Suporte psico-afetivo

Eu acreditava nas premissas básicas do obstetra britânico Grantly Dick-Read e sua ênfase nas questões ambientais para o sucesso do parto. Esta é uma das razões pelas quais partos conduzidos por mulheres compassivas – parteiras profissionais – têm mais sucesso do que aqueles conduzidos por figuras técnicas cuja vinculação afetiva é muito mais difícil: os médicos e cirurgiões. Desta forma criei o compromisso de não me afastar das pacientes durante todo o processo, ficando acessível aos seus pedidos e queixas para quando elas achassem necessário. Também acreditava que o acompanhante poderia trazer inúmeros benefícios para a condução do processo, e estimulava a presença do marido ou de qualquer outro acompanhante de livre escolha. O que hoje parece simples, há 35 anos era uma batalha diária.

3. Posição verticalizada preferencial para o parto.

Minha experiência com a posição de cócoras para parir já foi descrita no meu primeiro livro “Memórias do Homem de Vidro”, mas quando construí este protocolo – no fim dos anos 80 e início dos anos 90 – eu já estava absolutamente apaixonado pelos resultados que eu mesmo havia observado, e no que era possível encontrar em trabalhos e livros (como “Aprenda a Nascer com os Índios”, de Moysés Paciornik). Mais tarde esta recomendação deu lugar a uma proposta muito mais aberta, que garantia às mulheres a liberdade para escolher a posição que mais lhes agradava. Entretanto, no início desta caminhada, era preciso ser mais enfático e mostrar de forma bem explícita algo que a cultura havia sonegado: a vantagem das posições verticais e uma ergonomia mais fisiológica, natural e segura para o nascimento dos bebês. Também não foi fácil chegar a este ponto: colegas médicos me acusavam de “humilhar as mulheres”, fazendo que parissem como “galinhas botando ovos“.

4. Uso restrito e criterioso de medicações, sempre que possível

Toda medicação tem efeitos indesejáveis e com repercussões imprevisíveis. É notável a crescente drogadição da sociedade, e isso é uma preocupação das grandes organizações internacionais relacionadas à saúde pública. A simples “correção de dinâmica” (melhorar as contrações) através do uso de uma droga chamada “oxitocina sintética” pode levar a uma “taquissistolia” (aumento na frequência das contrações) que tem a potencialidade de criar grandes riscos para o bebê, inclusive produzindo stress fetal – que leva a cesarianas de urgência. Assim, todas as drogas utilizadas, incluindo aí os antibióticos, uterotônicos, etc, só poderiam ser utilizados de forma muito criteriosa; caso contrário deveriam ser evitadas.

5. Uso restrito de intervenções e manobras, sempre que possível

Boa parte das manobras médicas em obstetrícia parte de uma lógica perversa: a crença de que as mulheres são incapazes de levar adiante a tarefa de gestar, parir e maternar sem a intervenção da tecnologia e dos profissionais que a controlam. Desafiar essa ideia, encarando as mulheres como intrinsecamente capazes de realizar o trabalho multimilenário de parir, significaria questionar o poder médico exercido sobre seus corpos grávidos. Isso jamais aconteceria impunemente; todavia, quando testemunhamos setores da sociedade, como a classe média, que ostentam taxas inacreditáveis de intervenção – tipo, 90% de cesarianas – fica claro que, mais cedo ou mais tarde, alguém questionaria este tipo de intromissão abusiva, perigosa e sem respaldado na ciência sobre os corpos das mulheres grávidas.

6. Trabalho com as doulas

Meu trabalho com as doulas se iniciou nos estertores do século passado quando tomei contato com as mulheres que se dedicavam a dar suporte afetivo, emocional, psicológico e físico para as mulheres durante o processo de parir. Elas ofereciam uma parte da atenção que a mim era interditada: o profundo contato físico e amoroso oferecido às gestantes durante o trabalho de parto. Além disso, elas ofereciam o toque, o apoio emocional, o cuidado com o ambiente, o auxílio à família e a sintonia feminina que se pode testemunhar entre a doula e a gestante sob seus cuidados. Foi uma grande descoberta, pela qual eu me apaixonei e dediquei décadas da minha vida à sua divulgação, formação e disseminação. Infelizmente, esse foi um item acrescentado à posteriori, pois no início da década de 90 aquele centro obstétrico não estava preparado para a revolução das doulas, e os responsáveis pelo centro obstétrico jamais aceitariam sua presença nos partos.

Esse protocolo foi usado durante toda a minha vida profissional, mas jamais me iludi com o fato de que isso incomodaria os donos do poder, os mesmos que olhavam a taxa crescente de cesarianas e outras intervenções no ciclo gravido-puerperal sem criticar. Não havia nenhum debate acadêmico, no meio onde eu atuava, que questionasse onde esta escalada intervencionista nos levaria. Todavia, como diria Vladimir, “O critério da Verdade é a práxis”, e desta forma percebi que eu só teria certeza da justeza de tudo que era publicado a respeito das vantagens da perspectiva humanista para o nascimento quando isso se tornasse algo além das letras dispersas em livros e estudos, e se tornasse prática cotidiana de assistência. Era preciso que alguém colocasse mãos à obra e praticasse o que era oferecido pela ciência contemporânea, mesmo que esta atitude afrontasse diretamente os interesses corporativos.

Na época em que eu atendia naquele hospital as taxas de cesariana eram da ordem de 45% – muito maiores (o triplo) do que o recomendado pelas grandes agências como WHO ou OPAS – mas as minhas taxas pessoais de cesariana giravam ao redor de 10 a 15% dos partos, o que comprovava a ideia de que era possível diminuir esses números, bastando para isso um desejo de mudança associado à coragem de fazê-lo. Minhas cesarianas obedeciam critérios muito rígidos para sua execução, e por causa disso logo senti a antipatia dos anestesistas “Por que você não marca suas cesarianas para antes da novela? Seus colegas sabem de antemão quais os partos que ‘não vão ter passagem’; só você nos chama de madrugada”. Não só dos anestesistas percebi antagonismo; era evidente que para os médicos ditos “cesaristas” meu exemplo era um prejuízo para o trabalho que faziam. Assim, é possível imaginar a dificuldade em trabalhar sem a colaboração de pessoas da equipe que, por razões de conforto pessoal, não aceitavam alguém que atuasse em favor das mulheres, seus desejos, seus direitos e sua segurança.

Alguns anos depois de iniciar este trabalho encontrei um velho colega de residência que decidiu trabalhar no interior do Estado, na cidade da qual era originário. Quando me viu, perguntou se eu continuava com as mesmas ideias “estranhas” do tempo em que trabalhamos juntos no hospital onde fizemos a residência, tipo “parto de índio”, “contato pele a pele”, “marido na sala”, “crítica às episiotomias” e uma aversão ao “abuso de cesarianas”. Respondi que sim, que continuava com muita esperança que estas ações pudessem revolucionar a prática obstétrica, mesmo que levasse muito tempo para isso. Sua resposta foi maravilhosa, e a mantenho até hoje na memória para entender como se processam as mudanças.

Admiro sua persistência. Já eu faço o que eles querem. Meus partos são bem  tradicionais, como são feitos desde os anos 30. Tenho uma taxa muito alta de cesarianas, e não me envergonho disso. Nunca discuto alternativas; pacientes não podem controlar os médicos. Não quero ser acusado de nada, e não quero mudar nada; para mim está muito bom assim. Mas, é claro, concordo com suas ideias, apesar de que jamais as levaria adiante. Não sou kamikaze.

Naquela época um velho médico, próximo da aposentadoria, me disse uma frase que resumiria esta situação de forma muito didática. Segundo ele, “Existem dois tipos básicos de médicos: uns desejam resolver os problemas de seus pacientes, enquanto os outros querem resolver os seus problemas através dos pacientes. Cabe a você – e só a você – escolher a qual grupo deseja se juntar.”

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Imortal

A mãe do meu avô se chamava Charlotte, mas todos a conheciam por dona Iaiá e eu nunca a conheci, pois que ela morou toda sua vida adulta no nordeste. Dona Iaiá perdeu o marido muito jovem, quando ele tinha menos de 40 anos, e meu avô foi criado pelo seu próprio avô – um avôhai, como tão bem descreveu Zé Ramalho. Esse avôhai se chamava Herbert John, e em homenagem à sua memória meu pai, eu, meus irmãos, meu filho e meus netos carregamos o nome “Herbert” como patronímico hereditário. As histórias de Herbert John, que viveu no século XIX e que presenciou muito de perto a escravidão nas fazendas de açúcar do nordeste, são deveras interessantes, mas serão contadas em outra oportunidade.

Minha bisavó morreu com mais de 90 anos. Era uma mulher miúda, magrinha, serelepe e ágil, que com o passar dos anos foi encolhendo ainda mais e se encurvando, como um galho que seca e verga sob o peso do tempo. Entretanto, era dona de grande vivacidade e senso de humor ímpar, segundo os relatos do meu avô. Uma de suas conversas com Daddy (meu avô) ficou marcada na minha memória, conforme contada por meu pai. Estava já meu avô com quase 70 anos e sua mãe chegando aos 90 (ela morreu com 92) quando, tomando um cafezinho, fez esta observação a ele:

– Meu filho, sabe essas moças que trabalham nas ruas, que viajam com os circos, que dançam nos cabarés? Essas que colecionam namorados, que tiveram muitos homens e que todos dizem ter “vida fácil”? Pois eu acho que fui uma destas mulheres em uma outra encarnação. Acho mesmo…

Meu avô tentou segurar o riso diante das palavras surpreendentes de sua mãe nonagenária, mas manteve a seriedade e observou:

– Mas mãinha, por que uma pessoa tão séria, educada, respeitosa, religiosa, devotada à família, de bons princípios e temente a Deus como a senhora teria no passado uma vida dedicada à luxúria, ao desvario e à vida mundana?

Ela sorriu encabulada e lhe entregou uma confissão:

– Ahh meu filho, não que eu concorde com essa vida, mas é que eu tenho uma tendência, isso não posso negar…

Para a minha bisavó, em seu mundo surgido no século XIX, a única forma de expressar a plena liberdade seria fugir do padrão patriarcal falocêntrico e aderir ao mundo da devassidão, das mulheres “sem dono”, da vida sem amarras e do sexo prazeroso e livre. Mas por certo que essa era, apesar de comum, tão somente uma fantasia que percorria o imaginário de uma parte considerável daquelas meninas de sua época. Aliás, foi esse sentimento – a repressão sexual das mulheres e suas manifestações físicas e psíquicas – que propiciou o surgimento da psicanálise, através dos Estudos sobre a Histeria, de Freud e Breuer.

Essa história pitoresca e curiosa da minha antepassada me fez lembrar de outros relatos contados para mim por meu pai, onde ele falava de algo que aprendeu muito cedo, mas que só foi possível confirmar quando seu tempo de envelhecer também chegou: o desejo é inexoravelmente imortal. Ele pode se transfigurar e se escamotear, escondido pelos sulcos na pele que chegam na velhice; entretanto, ele estará lá, vivo e pulsante enquanto houver vida. Podemos teimar em não aceitá-lo quando fechamos os olhos para o desejo dos velhos, mas nossa negativa em enxergá-lo jamais o anula. Talvez se manifeste apenas nos sonhos e nas fantasias, nas lembranças e nos devaneios, mas estará sempre presente. O desejo é o que nos faz agarrar a vida.

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Senectude – ou Crepúsculo

Chega um tempo em que a fragilidade dos corpos nos obriga a abrir mão de um dos bens mais preciosos: a autonomia, valor que tanto exaltamos quando tratamos dos direitos humanos mais elementares. Todavia, em algum momento da existência precisaremos deixar a autonomia em nome da manutenção da própria vida. Esse é um tema que percorre a vida de quase todos, e eu mesmo passei isso com meus avós paternos e minha mãe. Em um determinado momento nossos familiares – em especial os avós e depois os pais – perdem sua independência e sua autonomia em função da fraqueza, de alguma doença, da idade avançada ou das perdas cognitivas. A forma de reagir a esta situação é variável, mas ela estará inscrita nos detalhes de toda a vida pregressa de quem envelhece, e por isso é muitas vezes possível prever como cada um lidará com este evento.

Muitos, como meu avô, lutaram contra a inexorabilidade da sua dependência; resistiu o quanto pode, mas foi literalmente carregado à força para fora de casa. Outros, como minhas avós, minha mãe e minha sogra, aceitaram de forma mais tranquila, como se esta passagem fosse uma parte natural da vida – alguém cuidaria delas como elas cuidaram de tantos durante suas vidas.

Talvez aqui seja possível estabelecer uma diferença essencial entre a vivência da senescência para os homens e para as mulheres, mesmo sabendo que esta vivência será sempre única e pessoal. Para os homens a perda da autonomia é muitas vezes vista como um golpe mortal em seu amor próprio. Retire-o de seu domínio e ele se tornará vulnerável, fraco e impotente. Por seu turno, muitas mulheres (todas da minha família) se comportam de forma dócil e aceitam o fato de que, em algum momento, é chegada a hora de serem cuidadas e amparadas, da mesma forma como o destino determinou que cuidassem de tantos filhos e netos. Já meu pai sempre disse que não aceitaria os cuidados de ninguém. Deixou isso claro quando ficou viúvo aos 90 anos e não aceitou se mudar para a casa de qualquer um dos filhos. Quando, por fim, adoeceu, morreu muito rápido, sem se submeter à “tortura” de viver sob os cuidados de alguém. Antes dele meu avô, por sua vez, xingou, sapateou e nunca perdoou meu pai por tê-lo retirado de sua casa, mesmo quando sequer conseguia se mover. Nunca aceitou “viver de favores”.

Para o homem sua casa é seu mundo, e de minha parte, já reconheço de que material sou feito. Portanto, não tenho dúvida alguma de que também vou resistir até onde tiver força. Viver sob o cuidado alheio é humilhante para quem sempre valorizou a liberdade e a autodeterminação.

Algum momento, entretanto, haverá em que alguém chegará ao meu ouvido e dirá: “Pai, não dá mais. Chega. Não vamos aceitar ver você sofrendo por este orgulho insano. Você terá que sair de onde está e ficar sob os nossos cuidados”. Nesse momento eu saberei que não tenho como me defender e, mesmo resistindo, serei obrigado a aceitar. Diante desse destino inescapável, eu já me preparo para perdoar meus filhos e netos pela palavras duras que sei que vou ouvir; é melhor fazer isso enquanto ainda existe lucidez suficiente. Aceitar o declínio da vida é preparar-se lentamente para a morte. Antes mesmo, quando percebemos nossa sutil e crescente desimportância na tessitura da vida, já é o momento de compreender que estas são as suas sábias regras, e que cabe tão somente aceitar o quinhão que a nós é determinado.

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Colonialismo

Eu sempre fui muito fã do Tintim e, por causa disso, assistir o longa metragem sobre suas aventuras foi a derradeira vez que fui ao cinema com meu pai. Passei a infância e a juventude lendo as histórias escritas por Hergé. Meu pai comprava os “gibis” repletos de viagens a lugares estranhos e lutas contra bandidos de outras terras e eu viajava longe junto com os personagens. Aliás, o nome “gibi”, que deve estar em desuso, se devia às letras GB no alto da capa da revista que indicavam a editora – GuanaBara.

Meu pai cresceu apaixonado por estes gibis e se alfabetizou com eles. Ele descrevia a chegada do meu avô, vindo da cidade (meu pai morava no interior, Três Cachoeiras) com uma pilha de revistas, com a mesma excitação da criança burguesa que ganha um smartphone novo no seu aniversário. Na época dele (e também na minha) gibis valiam ouro. Era comum a gente visitar uma outra família e minha mãe dizer “levem os gibis de vocês para trocar”. As histórias preferidas do meu pai eram Tex, Anjo, Popeye, Capitão Midnight, Reis do Western, todas as revistas de caubói e o indefectível Tintim.

Ser um jornalista internacional, um menino prodígio, visitar todos os lugares exóticos do planeta era o sonho dourado compartilhado pela gurizada da minha geração. Sim, bem diferente do sonho de ser YouTuber, influencer ou jogador de Free Fire. Tintim era tudo isso, além das qualidades morais que acrescentava à sua inteligência e tenacidade. Tinha uma relação paternal com seu cãozinho Milu (Milou, em francês, Snowy em inglês – um gracioso Fox Terrier) e cuidava do capitão Haddock – sua figura paterna – como um filho cuida de seu velho pai doente, alcoolista, com síndrome pós traumática e problemático.

Aqui é que se estabelece a minha grande dor. Enquanto adorava os dramas e as intrigas internacionais nas quais Tintim e o Capitão Haddock estavam envolvidos, eu não percebia que, por trás de todas essas narrativas maravilhosas, se escondia a brutalidade do colonialismo europeu em África. Ou seja: para adorar o herói que despertava em mim o fervor revolucionário e investigativo era preciso fechar os olhos para a barbárie genocida da invasão europeia da África, regada com o sangue da exploração de seus recursos naturais. Entre os maiores “investidores” na África estava o Rei Leopoldo, rei belga que dominou o Congo, lugar onde ocorriam muitas das histórias de Tintim. Leopoldo, com 10 milhões de mortes na sua ficha corrida macabra, é provavelmente o sujeito mais brutal que já passou pelo Planeta. Talvez não exista no inferno ninguém mais conhecido e celebrado que ele. Mas, à época, essa não era uma história contada nos jornais.

As aventuras de Tintim retratam exatamente o olhar colonialista, a desumanização dos povos da África, a ganância da exploração e o desrespeito com as culturas nativas, mas os quadrinhos que meu pai e eu devorávamos eram envoltos em uma bruma de heroísmo, coragem, inteligência superior, determinação e força moral. Esta, por certo, é a receita básica dos colonizadores, que precisam glamurizar a conquista dos nativos tornando-a uma sequência de episódios épicos da necessária luta da “luz contra as trevas”. Algo parecido com a perspectiva que Israel apresenta sobre as chacinas e os massacres contra os palestinos na “conquista da Terra Santa” – a Nakba, na perspectiva dos palestinos. É preciso forçar a narrativa, torturar os fatos, até o ponto em que os próprios colonizados acreditem que a servidão lhes ofereceu benefícios.

Hoje Tintim é uma lembrança apenas, mas muito de sua personalidade e temperamento apareceram em outro “desbravador” contemporâneo. À maneira de Tintim, tratam como herói um ladrão de relíquias de povos da África e Oriente Médio como Indiana Jones. Desta vez o colonizador é americano, não belga, mas a forma de tratar os nativos como “inferiores” e incapazes de cuidar de suas próprias riquezas é essencialmente a mesma. Isso me faz pensar que o colonialismo usa de criativas metamorfoses para continuar impondo uma perspectiva etnocêntrica ao mundo, fugindo enquanto pode da incômoda multipolaridade cultural.

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Velhos

Muitos dos meus conterrâneos e contemporâneos, nascidos – ou que viveram a infância – durante a ditadura militar brutal que nos acometeu, se tornaram reacionários patéticos e subservientes ao imperialismo. Uma boa parte ainda exalta o autoritarismo da direita e os golpes contra a democracia que ocorreram em um passado não muito distante. Alguns deles hoje são auto exilados no exterior, e justificam o abandono do Brasil dizendo que viver fora do país sempre foi “o sonho dourado da sua juventude”.

Em verdade, esta fuga ocorreu porque não suportam o cheiro da brasilidade e o jeito do nosso povo. Doentes de xenofilia, amam tudo que não é Brasil, veneram a cultura branca europeia e amam sua história repleta de violência colonizadora. Mais ainda, desprezam tudo o que representa nosso povo e nossa cultura e odeiam tudo que é nosso: a música, as peles escuras, o samba, as artes, os livros. Afinal, para tudo isso existe uma versão melhor, mais limpa, mais sofisticada e mais nobre na América do Norte ou no velho mundo.

Tamanho é o nojo que sentem do que aqui deixaram que a eles mais vale serem cidadãos de segunda classe no exterior do que se olhar no espelho e enxergar um brasileiro na terra em que nasceram. Distantes daqui, aplaudem a Lava Jato e debocham do pleito justo da Venezuela sobre seu território histórico. Por certo fariam o mesmo para proteger as “Falklands” das reivindicações abusivas dos argentinos sobre a soberania das ilhas já que, como nós, estes não passam de sul-americanos grotescos e ignorantes.

Exaltam figuras execráveis como Bolsonaro, Moro e Dalanhol, três notórios meliantes despudorados, que por pouco não destruíram por completo a soberania deste país, vendendo nossa dignidade e nossas riquezas à sanha colonialista dos emissários do Império. Tratam Lula com epítetos maldosos, injustos e covardes, insistindo em fake news há muito derrubadas, mas vomitando a cada frase o preconceito de classe que jamais lhes permitiu aceitar um nordestino oriundo da classe operária como supremo mandatário do seu país. “Burro”, “nove dedos”, “cachaceiro” é como expressam seu despeito, revelando que as justificativas para odiar o presidente descrevem muito mais a si mesmos do que ao próprio Lula.

Minha geração é composta por velhacos ranzinzas, ressentidos, egoístas e conservadores. Falsos puritanos, defensores das ditaduras, apoiadores de Israel, violentos e antidemocráticos. Os anos de chumbo não marcaram em suas almas qualquer lição duradoura de valor, e sequer a velhice os ensinou a esconder seus preconceitos mais infames. Por fim, não me venham dizer que “no meu tempo é que era bom“, pois se a minha época juvenil produziu tantos velhos de camisa da CBF e tantas senhoras de laquê com palavras de ordem racistas ela não pode ter sido boa.

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Parto

Sonhei que havia parido uma criança na Santa Casa. Eu mesmo. Parto normal, e não me perguntem como. Antes de sair avisei todos em casa que eu ia ao hospital e já voltava. O nome da criança era George, provavelmente em homenagem ao meu tio Eric George Jones que faleceu há poucos dias. Pari sozinho, sem auxílio, mas lembro do neonatologista me procurando com a conta após o parto, já que eu não tinha convênio. Saí do hospital carregando meu filho em uma espécie de Van e coloquei o bebê, ainda envolto em lençóis, ao meu lado com a ajuda de duas funcionárias antigas do hospital. Tentei colocar cinto de segurança nele, mas o cinto era grande demais.

Pensei: “Só mesmo um homem para não se dar conta que não dá para dirigir um carro com uma criança solta no banco”. Sim, a gente não tem esses gatilhos. Nesse momento, George começou a conversar comigo sobre assuntos diversos enquanto eu dirigia. A voz era de criança, mas os temas bastante complexos. A solução que ele encontrou para não virar no banco do carona nas curvas foi se levantar e me abraçar. Assim ele ficava seguro enquanto eu manobrava.

Não existe sonho que não seja pleno de conteúdos. Sonhar que estou parindo é um tema muito comum e renitente para mim, só que dessa vez eu lembro até de ter feito força. Depois do parto ainda revisei o colo uterino (???). Pela manhã, durante o café, disse o nome da criança para minha filha que está grávida (dã) e ela achou o nome meio “palha”. Achei interessante a crítica que, ainda dentro do sonho, fiz à falta de habilidade dos homens para coisas básicas, como deixar o bebê seguro quando vai dirigir, mas também achei importante o simbolismo do bebê lhe abraçar como forma de buscar essa segurança. Talvez a mensagem mais importante do sonho seja que não há nada mais forte para manter alguém seguro do que o afeto explícito que podemos oferecer.

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Presentes

Na minha família existe um costume que tem mais de 4 décadas: zero presentes natalinos. Nada, absolutamente nada, sequer “amigo-oculto” de 20 reais. Isso começou como uma atitude radical há quase 4 décadas. Quando meus filhos tinham 5 ou 6 anos a minha mãe me perguntou o que poderia dar a eles. Meu filho escutou e ficou semanas pensando, perguntando, ansioso pelo que poderia ganhar. Ao ver a ansiedade deles, eu e Zeza decidimos exterminar a fonte dessa angústia: avisamos a eles que não ganhariam nada, que o Natal era uma festa para estar junto com a família, para contar suas histórias da escola para os tios, dar risadas sobre a piada do “pavê”, encontrar os primos, comer bolo e visitar os avós. Nada além disso seria justo. Mais ainda: avisamos aos tios e avós para não darem presente algum no Natal, visto que isso não poderia se tornar uma competição entre eles (algo que já vi) romper o tipo de educação que os pais queriam imprimir.

E vejam, a ideia é de que não há nenhum problema em presentear os filhos – ou parentes e amigos – mas estávamos tentando evitar a transformação da festividade do Natal em um encontro mercantil, onde se comercializam objetos e afetos. A proposta era de que, caso quisessem dar um presente para as crianças, que escolhessem uma data aleatória, ou usassem o aniversário delas. É claro que isso não é a solução de todos os problemas da sociedade mas, além de criar uma cultura avessa ao consumismo, ela evita a angústia inevitável de todos nós sobre a compra de presentes. Imaginem a felicidade de alguém que não precisa se preocupar com presentes para filhos, colegas de trabalho, pais, irmãos, etc, e sem sentir culpa! É um imenso alívio! Além disso, cabe uma reflexão um pouco mais profunda. Afinal, qual o sentido de presentear? O que afinal existe nesse gesto? Podemos colocar este ato sob uma investigação mais apurada? Quem ganha e quem dá nesta relação?

Uma amiga certa vez me contou uma história que considero reveladora. Disse que não resistiu à tentação e comprou um “helicóptero de controle remoto” para seu neto de 7 anos. Perguntei a ela: “Você sabe a média de tempo que uma criança se interessa por essas engenhocas? Este tempo é medido em minutos…” Ela sorriu e suspirou. Depois me disse conformada: “Eu sei tudo isso. Sei que ele vai provavelmente curtir mais a caixa do que o helicóptero, mas…. tu tinhas que ver a carinha dele quando abriu o pacote. Olhou para mim, me deu um abraço e disse: ‘Eu te amo vovó’.”

Essa história me fez perceber que, muitas das vezes, o presente que damos é para nós mesmos. Oferecemos um objeto qualquer para uma criança em troca do seu afeto, e todos sabemos o quanto elas são espertas para perceber como nos deixamos seduzir por estas demonstrações explicitas de amor. Por esta razão, é sempre útil analisar as verdadeiras razões que se escondem dentro do pacote colorido que oferecemos. Elas são aparentemente cobertas de generosidade, mas escondem as nossas necessidades mais básicas de afeto; são muitas vezes atos criados para que possamos receber como recompensa o amor que tanto carecemos.

Ainda acredito que a melhor alternativa ao consumismo do presente é… ser presente. Seja o melhor tio, filho, pai, amigo, agregado possível para todos aqueles que compartilharem este momento com você. Não use essa festa para negociar a atenção e o carinho que você precisa.

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When I’m 64

Só quem teve sorte na vida e conseguiu sobreviver à juventude pode escutar essa música dos Beatles e se sentir pessoalmente homenageado. Paul escreveu essa música “When I’m 64” quando tinha apenas 15 anos. Alguns críticos depois chamaram esta canção de “retro-rock”, e Paul a tocava para homenagear seu pai quando ele completou 64 anos. A música fala do medo sincero de um jovem querendo saber se a mulher que amava ainda o desejaria quando tivesse 64 anos. Para isso, mostrava a utilidade que ainda poderia ter nessa idade.

“Eu poderia ser útil, consertando um fusível
Quando suas luzes se apagarem
Você pode tricotar um suéter perto da lareira
As manhãs de domingo iríamos passear
Fazer o jardim, arrancar as ervas daninhas
Quem poderia pedir por mais?”

A verdade é que muito do amor que a nós chega se refere à utilidade; quando essa se esvai com os anos percebemos que somos lentamente deixados de lado. Essa é a lei da vida, e não há porque acreditar que ela não contém sabedoria. O que seria do mundo se os nossos ídolos ainda fossem os mesmos e as aparências não enganassem ninguém? Quando esse amor é recebido por milhões – como os artistas e os políticos – a dor é ainda mais sentida, mais intensa, porque se assenta sobre uma fulgurante ilusão. Para estes, envelhecer é um processo muito mais dramático e sofrido, essencialmente porque a torrente de amor que recebem fecha suas comportas tão logo deixam de ser o material eleito para as nossas fantasias.

Uma grande amiga, que já passou dos 70, mas que foi sempre uma mulher linda, certa vez me contou de sua história com a idade. Disse-me ela que “Há alguns anos, enquanto eu caminhava pelas ruas da minha cidade, eu percebi, com horror e espanto, que os olhos dos homens já não acompanhavam minha trajetória. Voltei para casa devastada, olhei no espelho para entender o que havia acontecido, e percebi que naquela manhã eu havia recebido o primeiro aviso de que não era mais útil ao desejo alheio”. A declaração sincera e triste desta amiga me ajudou a entender e suportar minha lenta e consistente insignificância. Aliás, a música que mais me impressiona sobre o tema da desimportância que nos envolve insidiosamente é “Duchess”, do Gênesis.

Manter-se útil – e amado – até o fim dos seus dias é uma tarefa muito complexa. É necessário reformular completamente a forma de encarar a vida e suas relações. Aceitar limitações, absorver as novas ideias e reconhecer a validade de sua experiência, mas perceber que ela não é a resposta para todas as perguntas. Ficar velho é descobrir a derradeira forma de ser; para alguns sua melhor versão, para outros o reinado do mau humor e do ressentimento. O velho nada mais é do que o jovem sem as máscaras com as quais a juventude convenientemente o escondeu. Para mim, envelhecer significa absorver o que a vida ainda tem a lhe oferecer, enquanto estende a todos o que a vida lhe garantiu graciosamente. Significa também rever seus erros e falhas, reconhecendo sua condição humana falível e frágil. É tempo de dizer adeus às ilusões, e abraçar com fervor as utopias. Era isso…

Feliz-me 64.

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Velhos

Quem entrasse no escritório do meu pai encontraria na pequena sala do seu apartamento uma arrumação digna de um virginiano. Livros, computador, aparelho de som, quadros na parede, impressora, todos colocados de forma milimétrica e meticulosa. Aliás, quando confrontado com o fato de ter TOC e ser do signo de virgem ele sempre dizia uma frase geniosa sobre o tema: “Não acredito em zodíaco ou horóscopo, mas reconheço que, por coincidência, eu sou a mais perfeita descrição do meu signo”.

Uma coisa apenas chamaria a atenção na obsessiva disposição dos objetos. Na sua mesa, sob um modernoso mouse ergonômico, repousava um “mouse pad” com uma gravura chamativa. Tratava-se de uma voluptuosa nádega feminina em “close up”, que emergia de uma piscina. A primeira vez que a vi dei uma gargalhada e confrontei meu pai dizendo: “Que é isso, pai? Um homem sério, pai e avô, com essa pornografia em cima da mesa? Uma bunda?” A resposta dele veio com uma risada e um levantar de ombros. “Bunda?” perguntou ele. “Nada disso, trata-se apenas de uma castanha. Você está vendo errado”, mas ambos sabíamos do que realmente se tratava.

Anos antes ele havia me falado sobre uma moça que encontrou no elevador do prédio, isso quando ele já havia ultrapassado há um bom tempo a barreira dos 80 anos. Disse para mim: “Era uma moça muito linda, e conversou comigo sorridente, como se eu fosse obviamente inofensivo. Claro, quem temeria um velhinho?”. Quando escutei o relato do breve encontro eu o lembrei da frase do Sartre que dizia entender o quanto as pessoas o percebiam velho, mesmo quando ele assim não se sentia. Ele sorriu e completou afirmando que “a idade chega primeiro para quem nos vê, depois para o espelho, e por fim para nossos ossos e a danada da memória”. Parou um tempo refletindo, sem dizer nada, como a tentar lembrar de um sentimento, ou recordar um sabor delicioso. Por fim me disse esta frase que até hoje habita minha memória: “O desejo nunca nos abandona, acredite. Reconhecemos a falência física, admitimos nossa falta de atrativos; porém ele não morre, não desiste, não se entrega”. Sorriu para mim como a dizer: “Um dia você vai entender, mas só quando chegar lá”.

Meu pai, quando estava na casa dos 30 anos, foi estudar em Gurcy-le-Châtel, uma comuna distante 100 km de Paris, num convênio com as centrais elétricas do estado. Durante os 6 meses que passou por lá foi colega de quarto de um senhor de mais de 60 anos da República do Mali, na época uma colônia francesa que recém havia conquistado sua independência da França. Para ele esta foi uma convivência muito gratificante e reveladora, e durante anos ele me contou das conversas que teve com aquele homem. Uma das que mais me impressionou foi quando, durante as brincadeiras entre os jovens estudantes de várias partes do mundo, este senhor virou-se para meu pai e disse, com ar sério, porém conformado: “É impressionante a desconsideração dos jovens com a sexualidade dos velhos”. Aquela observação marcou meu pai em sua juventude, e deixou marcas na minha também.

Lembro dessas passagens do meu pai porque agora é a minha vez de ficar velho. Eu já ultrapassei os limites da gratuidade do ônibus e já tenho garantido estacionamento mais próximo da porta do shopping, e por esta razão, já posso entender o que meu pai queria dizer. Percebo, como ele e seu amigo africano, que nossa sociedade teima em não reconhecer a sexualidade dos idosos, como se o desejo um dia pedisse as contas e abandonasse nossa alma sem sequer se despedir; como se pudesse criar asas e abandonar sua morada. Não, em verdade ele nunca nos abandona. Enquanto houver algo de vida em nosso corpo ele estará lá, nos impulsionando. Em verdade, talvez sequer a morte física seja capaz de amainar sua energia.

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Gravidez precoce

Há muitos anos fui convidado para participar de um programa de rádio na condição de obstetra, para debater com outros profissionais um tema muito importante: gestação na adolescência. Havia na mesa sociólogas, feministas, jornalistas e eu, no papel do médico. Lembrei disso a propósito de uma crônica de Juremir Machado da Silva sobre gravidez na menopausa e a perversidade capitalista implícita nas propostas de retardar o projeto das mulheres de terem filhos em nome de uma maior produtividade nas empresas. Voltando ao programa de rádio, depois de longos prolegômenos, entremeados com propagandas do “Chá Jamaiquinha” e do “Coscarque”, fui instado a responder a primeira pergunta do debate que, por óbvio, não podia ser outra:

– Doutor, qual a idade ideal para a mulher ter seu primeiro filho?

Lembrei imediatamente da piada de Woody Allen em um conto seu no qual um homem simples da roça, que precisava encontrar Abraham Lincoln para livrar seu filho da forca, ao se aproximar do presidente nervosamente pergunta: “Qual o tamanho ideal das pernas de um homem”, ao que Lincoln responde “Ora, o ideal para que alcancem o chão”.

Diante da pergunta da jornalista minha resposta foi igualmente incontinenti: “A idade ideal para ter o primeiro filho é por volta dos 15 anos”. Todos na sala ficaram parados, em silêncio constrangido; já eu me mantive com a mesma cara de tolo que me caracteriza. A jornalista gaguejou, segurou nervosamente o papel do roteiro com as duas mãos e repetiu a inquirição:

– Mas, mas… doutor, com 15 anos ela é apenas uma adolescente. Esse programa foi criado especificamente para debater isto, que consideramos um mal social. O senhor não acha?

Ofereci um sorriso tímido e tentei responder de forma o mais didática e simples possível.

– Ora, eu fui convidado para debater na perspectiva da mulher enquanto ente biológico. As questões sociais devem ser debatidas por sociólogos, feministas, antropólogos, políticos, etc. Minha perspectiva social sobre o tema é igual a de qualquer outra pessoa, e só estou aqui por ser obstetra. Do ponto de vista obstétrico – portanto, nos aspectos orgânicos e psíquicos – posso dizer que 15 anos é uma boa idade porque foi o tempo escolhido para a primeira gestação em 95% do tempo em que habitamos o planeta. Não à toa ainda hoje celebramos a “festa de debutantes”, um ritual de origem pagã elaborado para apresentar à sociedade as meninas que já haviam menstruado, estando, portanto, aptas para o casamento e sua óbvia consequência: filhos. Assim sendo, a época biologicamente mais bem estudada e avaliada durante muitos milênios foi essa. Ela, aliás, tem várias vantagens: força, juventude, criatividade, energia, etc. Além disso, na ocorrência de um aborto ou uma perda neonatal, a pouca idade oportuniza décadas de novas possíveis tentativas. E por fim, quem procria cedo tem muito mais novas chances para se tornar avó – e até bisavó – que nos tempos primevos da nossa espécie, o que oferecia uma garantia acessória fundamental para a sobrevivência de crianças. Isso tanto é verdade que sua existência no núcleo familiar foi chamada de “efeito avó”, que pode estar na raiz do fenômeno da menopausa – que oferece a chance de não poder mais ter filhos e com isso ter tempo para cuidar de netos. E antes que me perguntem, eu disse para minha filha tomar precauções e só engravidar quando fosse conveniente, porque eu também vivo em uma sociedade capitalista onde o sucesso profissional tem uma enorme relevância. Porém, ela também foi bem orientada sobre todas as alternativas e o preço alto de adiar indefinidamente o projeto de ter filhos. Mas lembrem: minha filha recebeu essas orientações do pai, não do médico.

Sei que as pessoas naquela mesa desejavam penalizar o desejo juvenil de ter filhos. Queriam combater a “gestação extemporânea” e abrir guerra contra a “gravidez indesejada”, mas achei que valia a pena mostrar que a estrutura social, em nome da produção e do progresso individual, penaliza as gestações que ocorrem cedo na vida, criminalizado este desejo, apenas porque não se adapta a um modelo de sociedade voltada à produção e ao sucesso pessoal. As feministas e jornalistas que estavam na sala se escandalizaram e não me perdoaram por expressar esta visão contra hegemônica. Nada que eu já não estivesse acostumado.

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